Abel Pereira da Fonseca era no início do século XX um grande agricultor e empresário que possuía várias propriedades agrícolas na região do Bombarral, tendo fundado a “Companhia Agrícola do Sanguinhal”. Esta Companhia foi criada com a finalidade de administrar as suas propriedades existentes neste concelho do Bombarral e a gerir o negócio dos vinhos. Viria a possuir propriedades noutros concelhos como Cadaval, Alenquer e Torres Vedras.
Abel Pereira da Fonseca
Vivenda de Abel Pereira da Fonseca, no Bombarral

A casa "Abel Pereira da Fonseca" inseriu-se no universo das grandes áreas de comércio de início do século XX, devendo ser interpretada como parte da sociedade de consumo. A primeira forma de organização comercial designava-se "Abel Pereira da Fonseca & Cª ", sociedade fundada em 1906 por Abel Pereira da Fonseca e Francisco de Assis, na Rua da Manutenção do Estado em Xabregas, Lisboa.

Anúncio de 1898

«Criando marcas que se tornaram já ou populares ou conhecidas entre os verdadeiros apreciadores, quer aqui quer nas nossas colónias e no estrangeiro, como o Sanguinhal, o Menagem, o Brandy Bela, o Lisbon Wine e tantas outras, quisemos defender o bom nome dos nossos vinhos e derivados, fixando tipos e impondo-os pela sua excelência.
Também não descurámos os licores e xaropes, e as nossas marcas Anisado Sol, Triple Seco, Cherry Brandy e Curaçao têm constituido - modéstia àparte - um duplo êxito, quer no que diz respeito a qualidade quer a aceitação.
Para tanto, adquirimos há mais de uma vintena de anos atrás a antiquissima Companhia Portuguesa de Licores, a «Licorista».
Como foi atrás mencionado, os primitivos armazéns tinham sido criados na Rua da Manutenção do Estado, em Xabregas no ano de 1906. Em 1910 mudam-se para os armazéns na Rua do Amorim.
Armazéns junto ao rio Tejo, na Rua do Amorim

Entre 1917 e 1930 esta empresa muda de designação, e assim:
1917 - Passa a sociedade por cotas com o nome de "Abel Pereira da Fonseca & Cª, Lda."
1918 - Com a entrada do novo sócio Marcelino Nunes Correia, a designação é alterada de novo para "Abel Pereira da Fonseca, Lda."
1930 - Finalmente, e por último, passa a sociedade anónima de responsabilidade e passa a designar-se "Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca, S.A.R.L."
Em 1930 esta casa comercial tornou-se a maior de Lisboa, constituindo uma "vila", pela contínua expansão de oficinas, armazéns e casas de pessoal. Marcelino Nunes Correia, Manuel e António (seus filhos) e António Pereira da Silva são os gerentes da sociedade.
Em 1937, Abel Pereira da Fonseca vendeu a sua posição accionista na "Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca, S.A.R.L.", à família Nunes Correia que ficou com a totalidade das acções, e transformou a “Companhia Agrícola do Sanguinhal” em sociedade por quotas detidas na totalidade pelo sócio fundador e seus filhos. Esta Companhia ainda hoje existe pertencendo à mesma família.
«A história simples destas instalações é, afinal, a da nossa sociedade. Fundada, em 1906, pelo Sr. Abel Pereira da Fonseca e pelo falecido Francisco de Assis, safreu a nossa firma uma evolução favorável, sempre num sentido de progresso e desenvolvimento, graças aos tenazes e constantes esforços dos seus fundadores e dos seus colaboradores, entre os quais se destacava o Sr. Marcellino Nunes Corrêa, que, pela retirada dos negócios do Sr. Abel Pereira da Fonseca, em 1936, ficou sendo o principal director da nossa Sociedade.
Organízou também a nossa sociedade um sistema de transportes destinado a reduzir o custo da deslocação da mercadoria e construiu grandes armazéns centralizadores e reguladores de distribuïção em vários pontos do Pais.
E aqui, no Poço do Bispo, de um pequeno armazém onde, a principio, existiam meia dúzia de homens, fomos levados, pelo aumento sempre continuo das nossas actividades, a erguer, pouco a pouco, êste conjunto de instalações, aperfeiçoadas e melhoradas de acôrdo com as exigências modernas, considerados os aspectos psicotécnico e de organização de trabalho, e que constitulum pequeno mundo onde se agitam, presentemente, algumas centenas de pessoas e se movimentam dezenas de milhões de litros anualmente.
Estas instalações, que não têm despertado qualquer interêsse nos nossos homens públicos, que as deviam conhecer, têm, em compensação, sido visitadas e muito elogiadas por representantes de vários paises que pretendem estar ao corrente do que existe de aapreciável no estrangeiro. Também os alunos do Instituto Superior de Agronomia aqui itêm vindo várias vezes em visita de estudo, acompanhadas do ilustre professor Dr. Cincinato da Costa, assim como os da Faculdade de Ciências.
Desta maneira, a acção da Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca na vida económica da capital tem sido, com orgulho o dizemos, intensa.
Aparte as suas actividades exportadoras e de venda de vinhos e azeites e outros géneros alimenticios por grosso para o consumo interno, abastece ainda Lisboa, através das suas 100 filiais, não só de vinhos e azeites, aguardentes, licores e vinagre, mas ainda de cereais, legumes e outros géneros allmenticios.» in Olissipo em Abril de 1945.
Durante muitos anos, em toda a zona do Beato e do Poço do Bispo, ouvia-se: «Já cheira a carvalho das aduelas e a vinhos de armazém». A maioria das mercadorias e produtos que abasteciam a cidade de Lisboa chegavam pelo rio Tejo. Também a "Abel Pereira da Fonseca" alicerçou no Tejo a estrutura de circulação para a entrada e escoamento dos seus produtos, exemplo disso a opção tomada no logotipo retratando uma fragata do Tejo.

Pipas de vinho e outras mercadorias a bordo dos varinos, junto ao cais do Poço do Bispo

O primeiro crescimento dos armazéns sobranceiros ao rio, faz-se ao longo da Rua Amorim e em 1917, é construído o novo edifício na Praça David Leandro da Silva, em Marvila.
Instalações na Praça David Leandro da Silva, em 1923 …


… e em 1966
Este belo edifício do genial arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior, foi recuperado pela EXPO '98 no âmbito do projecto “Caminhos do Oriente”, de Sarmento de Matos. Hoje, que está em fase de requalificação pela CML
Fernando Pessoa bebendo o habitual cálice de aguardente, numa das idas ao “Abel”
«Era comum Fernando Pessoa, enquanto se encontrava a trabalhar, levantar-se, pegar no chapéu, ajeitar os óculos e ir até ao “Abel”. Esta simples acção de Pessoa, que se tornou um hábito, intrigou um colega de trabalho do poeta, Luiz Pedro Moitinho de Almeida (segundo Fernando Pessoa - empregado de escritório, do João Rui de Sousa). Esse mesmo colega apercebeu-se, algum tempo depois, que as idas ao “Abel” eram, nada mais, nada menos, que uma ida ao depósito mais próximo da casa Abel Pereira da Fonseca para tomar um cálice de aguardente.» texto in: Companhia Agrícola do Sanguinhal.
Vem aqui a propósito lembrar o sentido de humor de Fernando Pessoa, reproduzindo um texto seu, cujo original manuscrito faz parte
Se quiser ver o tonel
Vá todos os dias ao Abel
99 são as sucursais
Que há em Lisboa nada mais
Para não lhe doer o dente
Vá ao Abel tomar aguardente
Quando estiver forte d'algibeiras
Vá ao Abel - Largos das Torneiras
Todos os dias ao anoitecer
Vá ao Abel p'ra não esquecer
Se quiser ser sorridente
Vá ao Abel tomar aguardente
No interior dos armazéns destaca-se a galeria em betão, espaço onde inicialmente estavam armazenadas pipas e garrafões de vinho, que mais tarde se converteria em área de administração, escritórios e laboratório. Em termos funcionais a estrutura mais imponente e importante foi o conjunto de cento e setenta cubas, com capacidade para mais de vinte milhões de litros, e dos mecanismos de transfega e filtragem.
Painel de Controle “Daubron” e galerias das cubas

Filtro holandês da “Niagaran Filters Europe”
Secção de xaropes e licores

Fotos seguintes de 1928




Quiosque em 1928 Estabelecimento na Rua da Escola Politécnica

1929
Foram criadas as marcas de vinho "Sanguinhal" ,"Menagem" e “Valdor”, assim como a manutenção do fabrico de azeite e vinagre ligados desde sempre à imagem da empresa.
Bar e esplanada dos Vinhos Sanguinhal em Évora



Copo descartável

gentilmente cedido por Carlos Caria

Painéis de azulejos publicitários ainda hoje existentes no Bulhão, na cidade do Porto



Mais tarde são embalados pela empresa produtos anteriormente comercializados a granel como cereais e leguminosas secas. Por isso á criada uma rede de depósitos e distribuição principalmente para o vinho e próximos das áreas produtivas, como Torres Vedras, Dois Portos, Runa, Vila Nova de Gaia, Cartaxo, Bombarral, etc. O armazém central e coordenador desta rede de distribuição era no Poço do Bispo.


Armazéns de vinhos no Cartaxo Armazéns de vinhos em Dois Portos

Fábrica de Álcool em Torres Novas Armazém de vinhos e destilação em Torres Vedras

Outro tipo de bebidas famosas desta casa foram os licores de "A Licorista", fundada em 1896. Mais tarde em 1915 vários empresários reúnem-se e fundam a "Companhia Portuguesa de Licores", localizada nas imediações dos armazéns da "Sociedade Abel Pereira da Fonseca & Cª." e que viria a ser adquirida por esta e transferida para os seus armazéns.
1904
1922 1949

Nos anos 20 do século XX é adquirida a “Empresa Val do Rio, Sucessores Pereira Ticão & C.A"” uma rede de 25 lojas (na altura apelidadas de mercearias) denominadas vulgo por "Val do Rio". Além de serem lojas de atendimento ao público também faziam distribuição ao domicílio num pequeno raio, dentro do respectivo bairro, feita pelos “marçanos” , funcionários da loja, que carregavam a cesta às costas com o pedido entregando em casa do cliente. Nos anos setenta a rede já contava com 140 lojas, sendo pioneira no seu segmento. Estas lojas passaram a ser os primeiros mini-mercados self-service no país.
1911

Estabelecimento “Val do Rio” na Rua dos Fanqueiros, em Lisboa
Jornal publicitário em 1948

Em 1961 a “Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca, S.A.”, tinha 1.200 funcionários. Em 1974 Manuel Rodrigues dos Santos e Alcino Rodrigues Pinhão passaram a novos proprietários e em 1982 era a 2ª maior empresa de comercialização de vinhos em Portugal.
Esta empresa cessou as suas actividades em 1993. Posteriormente em 1998 a firma cedeu o espaço dos armazéns, à Câmara Municipal de Lisboa, para actividades de reanimação cultural e turística integradas no "Caminho do Oriente", em articulação com a “EXPO 98” e a “AMBELIS” - música ao vivo, arte pública, exposições, passagem de modelos, mostra de gastronomia.
Edifício da antiga “Abel Pereira da Fonseca” na Praça David Leandro da Silva, actualmente
fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Arquivo Municipal de Lisboa, Instituto Camões, Cª Agrícola do Sanguinhal, Garfadas on line