21 de junho de 2018

Pousada de S. Gonçalo no Marão

A “Pousada de S. Gonçalo”, na Serra do Marão e a cerca de 20 kms de Amarante e projectada pelo arquitecto portuense Rogério de Azevedo (1898-1983), foi a segunda de uma série de “Pousadas de Turismo” a ser inaugurada, em 29 de Agosto de 1942.

Relembro o que escrevi no artigo intituladoPrimeiras Pousadas de Portugal publicado em 9 de Janeiro de 2012:

«Na sequência da Nota Oficiosa de Março de 1938, em que o Presidente do Conselho Dr. Oliveira Salazar, incluía no elenco de obras a realizar a tempo das celebrações centenárias de 1940, o estabelecimento de certo número de pousadas em recantos provincianos, o “Ministério das Obras Públicas e Comunicações” (MOPC) encarregava os arquitectos Rogério de Azevedo e Miguel Jacobetty Rosa do estudo desta nova tipologia, ficando desde logo estabelecida a distribuição geográfica dos equipamentos. Rogério de Azevedo ficaria encarregue das propostas para a Serra do Marão e Santo António do Serém, ficando Jacobetty Rosa encarregue dos estudos de Elvas e São Brás de Alportel. Entre estudo, projecto e construção, nenhuma destas pousadas seria concluída a tempo das celebrações.

Estas pousadas, inseriram-se no projecto de criação de uma rede nacional de pousadas regionais, com o fim de dinamizar a oferta turística nacional. Tratava-se de «criar em cada pousada, com a sua originalidade e as características próprias de cada região, uma atmosfera caseira e sem luxos, um ambiente calmo, familiar e português». Esta iniciativa sob a direcção de António Ferro, do “Secretariado da Propaganda Nacional” (SPN), criado em 25 de Setembro de 1933, que a partir de 1945 mudou de designação para Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), incluiu também a criação da revista "Panorama", em 1941, na qual se iam promovendo a edição de vários roteiros e guias turísticos em diversas línguas.

As pousadas depois de construídas pelo “Ministério das Obras Públicas e Comunicações” (MOPC) eram entregues ao “Secretariado da Propaganda Nacional” (SPN), que seria substituído a partir de 1945 pelo SNI».

A primeira a ser construída foi a Pousada de Santa Luzia”, em Elvas localidade conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Inaugurada em 19 de Abril de 1942, é o que agora se chama uma pousada regional. O projecto desta pousada foi da responsabilidade do arquitecto Miguel Jacobetty Rosa.

A “Pousada de S. Gonçalo” , inicialmente com 5 quartos, decorada por José Luis Brandão de Carvalho, e móveis fornecidos pala casa “Souza Braga, Filho & C.ª”, foi construída junto à apelidada «curva da morte» em pedra de xisto integrando-se perfeitamente no seu ambiente natural a 880 metros de altitude. O seu primeiro concessionário foi Alcino Reis.

 

         

 

A propósito da inauguração da “Pousada de S. Gonçalo” a revista “Panorama” escrevia:

«A pousada de S. Gonçalo, para se enquadrar bem na grandeza e majestade do Marão, requeria exteriormente aquelas linhas duras, os blocos de granito, a nudez da pedra rija, o ar amuralhado das suas paredes para enfrentar o oceano agitado e alteroso de montanhas que se ergue em sua volta, a perder de vista.
A larga varanda que acompanha a curva da estrada domina um profundo vale, e um dos mais grandiosos panoramas do marão, onde a vista se perde maravilhada.
A completar a bela obra do arquitecto portuense Rogério de Azevedo, cuidaram primorosamente os interiores desta pousada o artista decorador José Luiz Brandão de Carvalho e o industrial-artista Manuel de Sosa Braga.
Da competência técnica e profissional e do bom gôsto dêstes artistas resultou um novo modêlo, um novo argumento, valioso e cocludente, de como se pode e deve fazer turismo em Portugal.»

 

“Pousadas do S.P.N.” em Julho de 1943

Preços das “Pousadas do S.N.I.” em 1948

 

 

A “Pousada de S. Gonçalo”, seria ampliada em 1961,e depois de ter pertencido ao “Grupo Pestana Pousadas”, foi adquirida em 2007 por António Ribeiro Pereira que também é o proprietário da empresa “Água do Marão”.

“Pousada de S. Gonçalo”, actualmente

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa

19 de junho de 2018

Restaurante Alvalade

O restaurante “Alvalade”, projectado pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975), abriu as suas portas no primeiro trimestre de 1948, junto ao novo “Lago do Campo Grande”, em Lisboa, também por ele projectado.

Em 1944, o Ministro das Obras Públicas engenheiro Duarte Pacheco manda remodelar profundamente o “Lago do Campo Grande” e sua zona envolvente, em estilo modernista. Para tal encomendou o projecto ao arquitecto Francisco Keil do Amaral, e a obra decorreu entre 1944 e 1948. Lembro que este arquitecto já tinha sido o responsável do pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris em 1937, e do “Pavilhão de Chá” de Montes Claros, inaugurado em 9 de Julho de 1942, e que mais tarde viria a tornar-se no Restaurante “Montes Claros”.

 

 

A revista “Panorama” nº 35, de 1948, escrevia, a propósito:

«Agora, já dá gosto passear no «Campo Grande», tanto à luz do sol, que o arvoredo amàvelmente encobre, como de noite e ate sem lua. Mas existia nele - recordam-se? - um velho restaurante. Mesmo muito velho. E tambem muito feio, valha a verdade. E até sujo ... Aos domingos, então, era já repulsivo, com uma tropa fandanga que invadia o recinto e se espraiava pelo relvado, a merenda, como nas «hortas». Por isso a Câmara Municipal de Lisboa se resolveu a deitar a baixo o vetusto barracão, encomendando a um bom arquitecto o projecto de construção de um restaurante decente, bonito e agradável. Foi encarregado desse trabalho Francisco Keil do Amaral, que se desembrulhou da missão com a perícia, o talento e o sentido do «lugar-onde» que lhe são peculiares.
Depois, foi à praça a adjudicação, e aprovada a mais conveniente proposta, ficando concessionário o sr. Francisco Silvano, antigo proprietário do Hotel de Itália do Monte Estoril. Consciente da função turística que a empresa também poderia - e deveria - desempenhar, não se poupou a sacrifícios para acrescentar, por sua conta e risco, valiosos melhoramentos na obra camarária, principalmente no que diz respeito às decorações, a cargo da excelente artista Maria Keil. Assim nasceu e vai crescendo no bom conceito do público elegante o «Restaurante Alvalade», na gerência do qual colabora o sr. Giulio Alfieri.»

Escultura de António Duarte à entrada e janela do restaurante sobre o Lago

 

30 de Novembro de 1950

Interior do bar e salão do restaurante decorados por Maria Keil (1914-2012)

 

21 de Dezembro de 1950

31 de Dezembro de 1953

Mais tarde, e depois deste pavilhão restaurante ter sido demolido, foi inaugurado, em Novembro de 1972, um novo edifício de 2 pisos, projetado em 1971 pelo arquitecto Nuno San Payo integrando um painel de cerâmica em relevo de autoria da ceramista Maria Emília Silva Araújo, e que albergaria um restaurante e bar de luxo, além de outras salas, mantendo praticamente a mesma designação: “Alvalade restaurants”.

“Alvalade restaurants”

 

           

Em 1974 e após encerramento deste restaurante, o edifício foi remodelado e transformado no seu interior, para ser o Centro Comercial e cinema “Caleidoscópio” inaugurado em 1 de Novembro de 1974.

Centro Comercial “Caleidoscópio” aquando da sua abertura

Depois de encerrado e devoluto por uns anos, em 2011, o edifício “Caleidoscópio” foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, à Universidade de Lisboa para instalação de um Centro Académico.

Em Outubro de 2016, o espaço é inaugurado como uma sala de estudo, um centro de exposições, uma loja e um centro de documentação, à disposição da cidade de Lisboa. Aberto 24h por dia, todos os dias, o “Caleidoscópio”, dispõe duma sala de estudo com 175 lugares, uma área de exposições de 140m2 e um Anfiteatro com capacidade de 72 lugares, rede wi-fi  bem como equipamentos de impressão.

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa

17 de junho de 2018

Casino e Palácio Hotel de Espinho

O “Casino de Espinho”, propriedade da “Sociedade Espinho-Praia, S.A.R.L.” começou a funcionar em 1927. Em 1915, a “Assembleia Recreativa” tinha sido dissolvida e o edifício passado a propriedade privada. Anos depois, o edifício viria a ser vendido à empresa que ganhou a concessão do jogo em Espinho, a “Sociedade Espinho-Praia, S.A.R.L.” em 1928, à frente da qual se encontrava Mário de Freitas Ribeiro, dono do Bristol Club”, em Lisboa. Com essa aquisição a empresa ampliou o “Casino Peninsular”.  O Casino funcionava, então, entre 1 de Maio e 30 de Outubro.

Nota: acerca da história do “Casino Peninsular”, consultar neste blog o seguinte link: Casino Penisular de Espinho

Entretanto a “Sociedade Espinho-Praia”, tinha em mãos um problema denominado “Hotel Bragança”. No ano de 1934, surgiu a notícia de que a empresa concessionária do Casino iria arrancar de novo com as obras do “Palácio Hotel”, com intenção de o abrir na época balnear de 1935. Contudo, as obras de remodelação do Hotel Bragança acabariam por fazer nascer um novo hotel: o “Palácio Hotel”. As obras iniciaram-se em 1930 e arrastaram-se por mais uns anos, com avanços e interrupções, mas principalmente com diversas críticas ao estado de abandono em que ficou o edifício, com as obras paradas, a partir de determinada altura. Só em 22 de Julho de 1939 seria inaugurado o novo edifício do “Palácio Hotel”, um moderno hotel que à época possuía 102 quartos, dos quais 36 com casa de banho privativa.

1942

 

 


Em 1934, o “Casino de Espinho” passou a funcionar de 1 de Junho a 30 de Novembro, período de abertura que se iria manter até 1976.

Também as obras de beneficiação do Casino foram avançando. Assim, em 1940, um ano depois da inauguração do “Palácio Hotel”, o aspecto do edifício do “Casino de Espinho” era muito semelhante à do referido “Palácio Hotel”. Seguindo o estilo Art Deco, as duas obras foram da responsabilidade do arquitecto Carlos Chambers Ramos (1897-1969). Segundo Hugo Barreira: «o Hotel Palácio era mais purista, maciço e germânico, com um ritmo bem marcado pela sucessão de vãos e pelo recorte das sacadas, (…) um sabor expressionista, conferido pelo controlo dos valores de luz e sombra e da plasticidade da superfície. O Casino era menos arrojado, com uma fachada tripartida que recordava ainda o edifício da Assembleia que veio substituir.»

Ainda com as obras a decorrerem nos andares superiores, o novo “Casino de Espinho” abriu no dia 1 de Junho de 1943, como habitualmente. No âmbito das diversas remodelações realizadas, optou a direcção por pintar a fachada, tanto do Casino como do “Palácio Hotel”, de cor verde-claro. No dia 30 de Julho de 1943, teria lugar a grande festa de inauguração do Salão Nobre, situado no piso superior.

 

                                          1934                                                                                        1935

 

As festas que ocorriam durante a época estival tinham lugar no Salão Nobre, ou no Restaurante-Dancing. Cada sala tinha o seu respectivo chefe e as festas abrilhantavam as tardes e principalmente as noites do Casino, onde os frequentadores eram sempre recebidos pelas “Orquestra Odéon” e “Orquestra Almeida Cruz”, que alternavam entre os dois salões do Casino. Para seleccionar a clientela, as entradas eram pagas. Quem entrasse à tarde e ficasse para a noite, que incluía as variedades, pagaria 5$00 - o mesmo valor valor como se entrasse à noite. Para os chás dançantes, que se realizavam ao Domingo e nos quais também se podia ficar para a noite pagava-se 10$00. Havia a alternativa de pagar 80$00 para o mês de Agosto ou Setembro, sendo de 140$00 o custo da entrada para os dois meses.

                                              1935                                                                                           1942

  

                 

Em 1947, a “Sociedade Espinho-Praia”, adquiriu o velho edifício onde funcionava o “Café Chinez”, um dos mais afamados locais de jogo de Espinho de outrora. Meses depois todo o recheio do café foi vendido para se proceder à demolição do edifício com o intuito de aí construir, como continuação do Casino, um Cinema com ligação interna.

Em 6 de Agosto 1951, foi inaugurado o Cine-Teatro do Casino de Espinho. Mais uma vez, o luxo e o requinte foram os principais objectivos da concessionária, desde os revestimentos em mármore no hall de entrada e corredores, até um dos melhores sistemas de som e acústica, assim como de projeção cinematográfica, da época, criando assim as condições necessárias para o conforto e o bem estar dos 534 espectadores, distribuídos por 358 na plateia e 176 no balcão.

Cine-Teatro e Casino

O dia 30 de Junho de 1958 marcaria o último dia da concessionária “Sociedade Espinho-Praia” à frente dos destinos do “Casino de Espinho”. No entanto, antes de sair esta empresa sair da exploração do Casino e do Hotel, resolveu colocar à venda todo o recheio do “Palácio Hotel”, bem como o edifício, ou entregar o aluguer deste a quem o quisesse explorar até 31 de Dezembro de 1958. Esta questão iria causar graves prejuízos à vila e ao seu turismo.

Em 1958 a concessão seria entregue à nova empresa “Sociedade Turismo de Espinho”, constituída em Junho de 1958 por José Dias Vieira de Magalhães e José Gonçalves Pinto Roma e que se manteria até 1968. Excepcionalmente, e devido à mudança da concessionária, o “Casino de Espinho” abriria só a 10 de Julho de 1958.

No início de Fevereiro de 1974 foi deliberado em Conselho de Ministros, presidido pelo Professor Marcello Caetano, que seria a “Solverde” a próxima concessionária do “Casino de Espinho” pelos 15 anos seguintes.

Como todos os contratos de concessão anteriormente feitos, também a Solverde ficou obrigada a realizar diversos investimentos na cidade e na região, donde se destaca a construção de um novo Casino, sem qualquer participação pública, apesar de se manter como património do Estado e a ocupar dois quarteirões.

Com o projeto do novo Casino, e como contrapartida a esse investimento a fundo perdido, foi acrescentada a edificação, como propriedade plena da “Solverde” nos dois quarteirões a sul, onde se demoliu o velho “Palácio Hotel”, de um Centro Comercial com um Apart-Hotel de 13 pisos, o mais alto edifício de Espinho; e no quarteirão a norte um outro centro comercial de dois pisos, com parque de estacionamento subterrâneo, revertendo este no fim da concessão para a autarquia.

           

A 25 de Fevereiro de 1976 deu-se a abertura do novo “Casino de Espinho”. As obras foram divididas em duas fases, a primeira começou em finais de 1976, nos terrenos a poente do Casino onde outrora existia a “Pensão Demétrio” (edifício que tinha sido adquirido pela “Solverde” em 1972). Nessa primeira fase de edificação do novo Casino, tudo continuava a funcionar no edifício existente. Ao fim de três anos, a 14 de Agosto de 1979 ficava pronta a primeira fase das obras, abrindo ao público o novo Casino e sendo encerrado o antigo.

  

Em Janeiro de 1980, tiveram ínicio a 2ª fase das obras com a demolição do antigo Casino, no entanto nem tudo correu bem. A empresa responsável pela demolição começou pelos interiores retirando tudo o que tinha valor comercial e desaparecendo de seguida. Por consequência, a “Solverde” assumiu diretamente a execução das obras de demolição para que os prazos estabelecidos pudessem ser cumpridos.

O novo, e já completo, “Casino de Espinho” seria inaugurado a 25 de Setembro de 1982, com a presença do ministro Dr. Ângelo Correia em representação do, então, Primeiro-Ministro, Dr. Francisco Pinto Balsemão.

 

Bibliografia:  Dissertação do Mestrado em História Contemporânea de Filipe Matos do Nascimento: "O Casino de Espinho. Jogo e Lazer (1905-2005)" - 2016 - Faculdade de Letras da Universidade do Porto

fotos in: Delcampe.net, Hemeroteca Municipal de Lisboa