Restos de Colecção

14 de agosto de 2022

Curiosidades Automobilísticas (33)

 

Exposição da "Morris", importada pela firma "A. M. Almeida, Lda.", em 1936


Anúncio de 14 de Setembro de 1936


"Auto-Lusitania" de Alfredo Duarte, Limitada na Avenida Liberdade, Lisboa, em 1930


1934


"Stand República" de "A.R. Garcia, Limitada" , em 1930


Garagem de veículos de recolha de lixo


"Sociedade Automobilista Portugueza", na Rua Andrade Corvo, Lisboa

Fotos in:  Arquivo Nacional da Torre do TomboBiblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian 

10 de agosto de 2022

Antigamente (166)


Piquenique na Praia do Guincho, em 1898
 


Salão-Teatro do "Club Gondomarense", fundado em 1903 como "Grémio Aurora e Juventude"


Auto-Car "Unic" da "Empresa de Viação Flaviense". No tejadilho é mais fresquinho ...


Estação de Caminho-de-Ferro de Vilar Formoso


Cacilhas em 1931. Parque da chegada da prova de 10.000 Kms, organizada pelo Automóvel Clube da Alemanha


Casas de Banho públicas na Avenida da Liberdade, em Lisboa

7 de agosto de 2022

Adega Mesquita

A casa de fados "Adega Mesquita" foi fundada em 28 de Janeiro de 1938, por Domingos Guerreiro Mesquita e sua mulher Adelina Mesquita ("Tia Adelina"), na Rua do Diário de Notícias, 107-109, no Bairro Alto, em Lisboa.


Foto em 27 de Abril de 1941 com Alfredo Marceneiro a "reabastecer"


1 de Janeiro de 1947

Começou por uma tasca que servia refeições aos ardinas do "Diário de Notícias", que tinha as instalações ali na mesma rua, umas portas mais abaixo, e no edifício de esquina do lado oposto.

Edifício do "Diário de Notícias" em primeiro plano. A "Adega Mesquita" situava-se mesmo à esquerda da varina, ao fundo, com a canasta na cabeça 

Quanto ao seu início, transcrevo partes de um artigo no "Diario de Lisbôa", de 27 de Janeiro de 1968, por ocasião dos 30º aniversário da "Adega Mesquita":

«- Fui toureiro, tive um talho no Rato e um restaurante no Brasil. Estou com trabalhos forçados há sessenta e dois anos. Aos sete, menino pequeno, já eu era ajudante de cortador na Praça da Figueira! Enfim é a vida.

Quando o Mesquita veio da sua terra natal, a cidade do porto, a mãe foi-se empregar em casa do cavaleiro tauromáquico Eduardo Macedo, no Paço da Rainha. Um ano depois o menino entrava para o talho de Rafael Ribeiro Lopes, na Praça da Figueira, onde o conheceriam pela alcunha de "Pintassilgo". E aí mesmo ganhou o gosto dos toiros. Porquê? porque os toiros são uma aventura, "nunca se sabe"... Aos 26 anos recebia a alternativa de peão de brega no Campo Pequeno. Ordenado de então: 7$00 por corrida. Toureou em muitas praças, foi colhido uma vez com gravidade, partiu costelas, vértebras e uma perna. Mas está são que nem um pêro.
- Donde veio a ideia do restaurante?
- Eu era cortador, a mulher cozinheira ... lembrámo-nos disto. Começámos com os ardinas, a 3$50 a refeição. Depois vieram os jornalistas. Veio muita gente. O negócio cresceu.
O prato mais requisitado da Adega Mesquita, a chispalhada. começa a ser cozinhado ás 6 da manhã, depois de o dono chegar da Ribeira com os géneros. Quarenta quilos de carne de porco esperam semanalmente os clientes, lhe chamam "um figo".
- Sabe o que sou? - diz o Mesquita. - Sou um homem de trabalho. E a tia Adelina passa a vida ao fogão. Isso é que nos fez conhecidos!»


31 de Dezembro de 1950

Depois de encerrar para obras de ampliação, a "Adega Mesquita" reabre em 4 de Novembro de 1951, «que alargou a sua sala de restaurante, melhorando-a consideravelmente, embora conservando o mesmo traço castiço, predominando o sentido tauromáquico, que a tornam um restaurante unico na cidade de Lisboa.»


4 de Novembro de 1951


1 de Outubro de 1952


1954

A fadista Celeste Rodrigues (1923-2018), irmã de Amália Rodrigues,  começou a cantar a sério aos 22 anos, a convite do empresário José Miguel, - proprietário de várias casas de fado e teatros lisboetas. José Miguel tinha-a ouvido cantar na "Adega da Mesquita", (onde viria a ganhar 150$00 por noite) no dia em que, vencendo a timidez, Celeste se deixou desafiar para uma desgarrada. Convencido do talento da fadista, o empresário insistiu na sua profissionalização, começando assim uma longa carreira dedicada ao fado, sobretudo ao mais castiço. A estreia aconteceu em 1945, no "Casablanca" (atual "Teatro ABC" ), no "Parque Mayer"


Celeste Rodrigues (1923-2018)


31-12-1953


Amália Rodrigues cumprimentando Domingos Mesquita


Fadista Maria Augusta

27 de Janeiro de 1954


3 de Agosto de 1957 

Certo dia nos anos 60 do século XX "Um Acontecimento no Bairro Alto":

«A Rua do Diário de Notícias teve ontem movimento desusado, parecia em festa. Tanta gente, que até meteu polícia, dois guardas da PSP que, com toda a delicadeza, conduziram a multidão, para que todos conseguissem, com calam, admirar a fantástica montra da castiça Adega Machado. Até parecia mentira ... Uma porca com os seu bacorinhos e dois letreiros:
«Hoje assim!», «Amanhã assado»: tudo oferta do sr. D. José António, conde de Sabrosa (vindos da sua quinta, Casal da Penalva, Sintra). Fidalgo da melhor têmpera e um dos primeiros frequentadores da Adega que quis deste modo patentear a sua amizade e admiração pelo casal Mesquita. (...)
A acrescentar aos melhores pitéus possui a Adega Mesquita o melhor conjunto de artistas, tais como: Estela Alves, Teresa Nunes, Mariana Silva, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Alfredo Duarte Júnior, Raúl Nery e Joaquim do Vale.»


Amália Rodrigues, Fernando Farinha e Alfredo Marceneiro




Outro grande fadista, que foi uma referência desta casa de fados, foi Fernando Farinha (1928-1988) que ali actuou durante onze anos, ganhando 250$00 por noite - o que para altura era um belíssimo ordenado -, depois de regressado do Brasil e Argentina. «Os donos viam-no como um filho e ele gostava muito daquilo, mas os contratos para sair continuavam a chover» lembrou sua mulher, Lucinda Farinha. Fernando Farinha descobre-se então como poeta e assina letras para fados que inicialmente eram musicados por Alberto Correia, Joaquim Luís Gomes, Ferrer Trindade, Carlos Dias e Artur Ribeiro.


Fernando Farinha (1928-1988)


Alfredo Marceneiro e Fernando Farinha, com Domingos Mesquita de pé



LP de 1958

Foi, em 1964, de Fernando Farinha a seguinte quadra, a propósito da famosa chispalhada da "Tia Adelina":

O «chispe» bem cozinhado
Prova, que os porcos também
Podem ser «Prato» asseado
Quando alguém os trata bem

Em 28 de Janeiro de 1969, a "Adega Mesquita" comemorava o seu 31º aniversário.



No "Diario de Lisbôa" de 28 de Janeiro de 1971


31 de Julho de 1972

Com a "Tia Adelina" e Domingos Mesquita como proprietários, a "Adega Mesquita" terá encerrado em 1972, não tendo sido um encerramento definitivo.

A seguir, publico algumas fotos, da "Adega Mesquita" - últimas que consegui - uma de 2009 e as restantes quatro de 2012, antes do seu encerramento definitivo.


2009


2012


Actualmente, aparece na internet, uma "Adega Mesquita" em Torres Vedras cuja informação comercial indicada é a seguinte:

«A empresa Adega Mesquita tem 13 anos, tendo sido constituída em 01/04/2009. A sua sede fica localizada em Torres Vedras. O capital social é de € 5000,00. Desenvolve a sua atividade principal no âmbito de Restaurantes típicos. A empresa já foi conhecida no passado como Arminda Dias & Paulo Lemos, Lda.» ...

3 de agosto de 2022

Hotel Astória em Coimbra

O "Hotel Astoria", propriedade do empresário hoteleiro Alexandre d'Almeida, foi inaugurado em 28 de Março de 1926, na Avenida Navarro, em Coimbra, num prédio propriedade da Companhia de Seguros "A Nacional". A gerência deste hotel, com 62 quartos e de 1ª classe, ficou entregue a José Soleiro.

Em 1918 o Jornal "Gazeta de Coimbra" noticiava:

«Com referência ao predio que a Companhia Nacional vai mandar construir no terreno contiguo ao do antigo Hotel Avenida, tambem estamos informados de haver recomendação para que o projecto seja igualmente digno da cidade e, até alguem nos afirmou que, já pelas linhas gerais, se vê que êle ficará sendo um dos mais belos predios de Coimbra.» 


O edifício da Companhia de Seguros "A Nacional" viria a ser construído à direita (na foto) do "Hotel Avenida" que seria demolido primeiramente

O edifício do “Hotel Astória”, em Coimbra foi mandado construir pela Companhia de Seguros "A Nacional", eme 1919 sob o projecto do arquitecto Adães Bermudes, que já tinha sido o responsável pela "Agência do Banco de Portugal" de Coimbra, em 1907.

Em 1925 este edifício foi arrendado ao empresário Alexandre de Almeida, que ficou responsável pela conclusão do seu interior e adaptação à indústria hoteleira, de acordo com o projecto do arquitecto portuense Francisco de Oliveira Ferreira. O contrato tinha o prazo de 19 anos a partir de 1 de Janeiro de 1926, e o valor da renda mensal era de 4 mil escudos. A Companhia de Seguros "A Nacional" ficou com três divisões no 1º andar para funcionamento da sua agência.

O empresário Alexandre d’Almeida foi o criador da cadeia de equipamentos hoteleiros “Hotéis Alexandre de Almeida Lda.”, proprietário do Palace Hotel do Bussaco (1915), Palace Hotel da Curia (1922), Francfort Hotel (1917), Hotel Metrópole (1914) e Hotel de L’ Europe (1921) estes três últimos em Lisboa. Foi também da sua iniciativa a criação da primeira escola de ensino hoteleiro em Portugal, sendo com o seu apoio e com a colaboração da Federação dos Sindicatos da Indústria Hoteleira que surgiu a Escola Hoteleira Portuguesa, denominada durante alguns anos por Escola Hoteleira Alexandre de Almeida.

         

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Outra inovação de Alexandre d’Almeida foi que um hotel deveria ter a sua própria adega, à semelhança do que acontecia com os exuberantes locais de pernoita na Riviera francesa e italiana. Como ponto de partida, utilizou as vinhas da sua própria família, situada nos sopés da Serra do Bussaco, para produzir um vinho especial, engarrafado, numa altura em que esta era ainda uma actividade rara. Pelo que o vinho doPalace Hotel do Bussaco”, sua propriedade e localizado na Mata do Bussaco (Luso), passou a ser distribuído exclusivamente pela cadeia de “Hotéis Alexandre de Almeida”.

A quando da inauguração do Palace Hotel da Curia”, em 25 de Julho de 1926, a ementa do banquete era acompanhada da seguinte mensagem da autoria de Alexandre d’Almeida:

"A industria hoteleira é considerada benemerita em muitos paízes, tal é o seu valor como factor de progresso em todos os ramos da sua actividade. A essa eu tenho prestado toda a minha energia e dedicação para conseguir que o nosso Paíz alcance o lugar a que tem direito na civilisação mundial, pelo seu passado historico, pelos seus encantos naturaes e pelo seu clima sem egual:

"O Paíz aonde o sol sorri."
"Auxiliem-me todos n'esta cruzada, que de muitos vive e para todos produz!"

O “Hotel Astória”  foi inaugurado em 28 de Março de 1926, considerado na altura como a catedral dos hotéis nacionais e internacionais, pela oferta de comodidades invulgares para a época como a central telefónica, o elevador – um dos primeiros a ser instalado na cidade – o aquecimento central ou o requintado e luxuoso mobiliário. Por este Hotel passaram as mais ilustres personalidades da nossa história. A festa de inauguração consistiu num banquete (almoço) e num chá dançante (jantar), um verdadeiro acontecimento social. A orquestra que animou estes dois momentos foi o sexteto de jazz com o nome "Jazz Band César Magliano".


30 de Março de 1926

O jornal "Gazeta de Coimbra" no dia 30 de Março noticiava a inauguração do "Hotel Astoria":

«Com grande concorrencia de pessoas e reinando a maior alegria, efectuou-se anteontem a inauguração deste Hotel mais um triunfo, senão o maior, - pelo que representa de iniciativa e de energia - do seu proprietario, sr. Alexandre d'Almeida, hoje incontestavelmente um português de raras qualidades e que muito tem beneficiado a sua pátria. O esplendor e o modernismo dos hoteis que possue e dirige, Palace Hotel do Bussaco, Palace Hotel da Curia, Hotel de L'Europe, Metropole, Francfort, os trez de Lisboa, e agora a inauguração do Astoria, são um esforço colossal, no sentido de proporcionar aos estrangeiros as comodidades indespensaveis, uma vez que o Turismo, só grandes beneficios traz a Portugal. (...)


Recepção e Lobby

O Hotel Astoria é um vasto edificio, decorado e mobilado com luxo, podendo classificar-se um dos primeiros do país. É seu gerente o sr. José Soleiro.


A sala de mesa, o mais moderno que há em Portugal, é de trabalho importante da importante e acreditada casa Venancio do Nascimento da Rua do Bonjardim no Pôrto.

As paredes são guarnecidas com lambriz em madeira, com talha e papel género couro patinado. Do lambriz ao tecto as paredes são decoradas com papel, imitação de veludo, e a completar a decoração da sala existem colunas em marmelite e cestas ornamentais, com flôres iluminadas. A sala tem originais candeeiros de tecto e apliques.

A sala de visitas, decoração da mesma casa "Venancio do Nascimento, é formada por lambriz com panneaux em papel e madeira com talha.


A iluminação tanto das paredes, como dos tectos, é feita por cristais artisticos fundidos e assinados, uma das maiores novidades da exposição de artes decorativas de Paris.

Os quartos mobilados com muito gosto pela casa Bartolo e Lopes, de Vila Nova de Gaia, encerram todas as comodidades, como compartimento para banho e telefones.


As instalações electricas são da casa Otto-Biener de Coimbra, as secções de água da casa Lambate, de Lisboa. As cozinhas do hotel são tudo o que ha tambem de mais moderno e espaçoso.

Pela 1 e meia da tarde realizou-se o almoço com a comparencia de mais de 100 convidados. (...)

Ás sete horas da tarde, realizou-se na sala de mesa, iluminada artisticamente, oferecendo um conjunto surpreendente, um chá dançante que decorreu com muita animação.»                                                     

O “Hotel Astória” foi projectado de acordo com um modelo eclético afrancesado, de grande riqueza decorativa, com traços da estética Arte Nova e Art Déco (particularmente notórios nos interiores). À data da inauguração possuía 62 quartos «cheios de luxo e de conforto, com telefones para todo o país», distribuídos  pelos seus 4 pisos. Este hotel tornou-se, desde cedo, num ex-líbris de Coimbra, sendo conhecido pelos seus chás dançantes, num ambiente de grande requinte.

1 de Abril de 1926

Em 1939, e segundo o guia "Hoteis e Pensões de Portugal" de 1939, os preços das diárias variavam entre os 35$00 e os 100$00. Pequeno almoço: 5$00, Almoços e jantares: 17$00. «O melhor da cidade. Instalação Moderna. Todos os aposentos com água corrente, aquecimento e telefone.»

Os seus concorrentes, em 1939, na cidade de Coimbra eram:

Coimbra Hotel (fundado em 1916) e Hotel Avenida (fundado em 1902), ambos do mesmo proprietário Filipe Pais Fidalgo - diárias em ambos: 25$00 a 70$00 - 3ª classe
Hotel Bragança (fundado em 1878) - diária:24$00 a 35$00 - 3ª classe
Hotel Central (fundado em 1866) - diária: 25$00 a 50$00 - 3ª classe
Hotel Mondego (fundado por volta de 1860) - diária: 25$00 a 50$00 - 3ª classe
Hotel Internacional - diária: 25$00 a 30$00 - 3ª classe

Em 1945, sofre obras de ampliação, passando a ocupar, também o prédio a seu lado - e igualmente propriedade da Companhia de Seguros "A Nacional", que terá adquirido à "Caixa Económica Portuguesa" - e restauro e por ali passam muitos jovens para obter formação no ramo de hotelaria. De referir que o prédio em questão, foi construído no lugar do edifício do antigo "Hotel Avenida", que depois de demolido passou para mais à frente onde mantinha a sua sucursal. O terreno tinha sido comprado pela "Caixa Económica Portuguesa", em 26 de Julho de 1918, por 30.000$00. O arrendatário e dono do "Hotel Avenida", José Garcia, recebeu uma indemnização de 15.000$00 ...

Em 1980 iniciaram-se a construção de casas de banho privativas em alguns quartos, o que limitou o número de quartos. Teve recentes obras de restauro (2002), que abrangeram as fachadas e os interiores. Aqui se conservam as cadeiras e mesas encomendadas à “Casa Venâncio do Nascimento”, no Porto, os revestimentos de madeira das paredes, os apliques e o pavimento.

Em 1990, é alvo de um minucioso restauro, por se encontrar bastante degradado. Conserva o aspecto romântico da época da abertura e contém autênticas relíquias no seu recheio artístico e arquitectónico.






Actualmente o “Hotel Astória” conta, com  60 quartos e 2 suites juniores, decorados com magnífico mobiliário original dos anos 20.

No dia 20 de Janeiro de 2011 foi anunciado que o “Hotel Astória” passou a integrar a lista de monumentos de interesse público, classificados pelo Ministério da Cultura. Ao imóvel foi ainda fixada uma Zona Especial de Protecção que impede qualquer intervenção, naquela área, sem autorização do IGESPAR.

fotos in: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais)