Restos de Colecção

8 de novembro de 2026

Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda.

A "Sociedade Comercial Luso-Americana, Limitada." foi fundada inicialmente como "Sociedade Luzo Americana dos Estabelecimentos" em 1916, por Tito Lima Netto, na Rua da Prata, 145, em Lisboa. Foi representante e importador de produtos tão variados como, automóveis "FIAT", rádios "Colossal", máquinas de escrever "Royal", máquinas de calcular "Facit", equipamentos para escritórios, etc. Manteve uma sucursal na cidade do Porto, na Rua de Sá da Bandeira, 339. 

"Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda.", na Rua da Prata 145

Como mencionado anteriormente, fundada inicialmente como "Sociedade Luzo Americana dos Estabelecimentos" em 1916, passaria a ter a sua denominação de "Sociedade Luso-Americana" (tendo caído «dos Estabelecimentos») em finais de 1919, conforme anúncio seguinte.

15 de Dezembro de 1919

Esta Sociedade foi importadora e representante dos automóveis "FIAT", para Portugal até passar para a "FIAT Portuguesa, S.A.R.L.", empresa criada por altura da inauguração do "Motor Palace FIAT" inaugurado na Avenida da Liberdade, em Lisboa em 20 de Junho de 1929. A construção deste edifício foi promovida pela "Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda." Poderá consultar a história deste stand neste blog, no seguinte link: "Motor Palace FIAT em Lisboa".


23 de Junho de 1924

Nota: no anúncio anterior, a empresa já aparece com a sua denominação definitiva: "Sociedade Comercial Luso-Americana, Limitada"

26 de Março de 1924

"Motor Palace FIAT", na Avenida da Liberdade

Tito LIma Netto, em 1918 fundaria com Alfredo Duarte a "Sociedade Italo-Portuguesa", na Rua de S. Julião, 45-43, em Lisboa, sociedade que em 1922, já então instalada na Avenida da Liberdade, adoptou  denominação de "Alfredo Duarte, Lda." e como nome comercial "Auto- Lusitania". A transferência da sede e alteração do nome da mesma, corresponderam praticamente em simultâneo com a alteração do tipo de negócio a que se dedicava, já que a partir de 1919, já esta casa se dedicava apenas ao ramo automobilístico, comercializando em alta escala representações de acessórios e peças para automóveis e bicicletas.

Stand da "Auto-Lusitania" na Avenida da Liberdade, em 23 de Outubro de 1933

Antes de mais, quanto a cursos de dactilografia e máquinas de escrever, em 1924 ...

16 de Junho de 1924

«Em Portugal é há mais de 30 anos concessionária exclusiva da venda das afamadas máquinas de escrever Royal a Sociedade Comercial Luso-Americana, Ltd. com séde na Rua da Prata 141 a 147 cujas instalações ocupam todo o prédio com excepção do 3.° andar uma das mais importantes e categorizadas organizações comerciais do nosso paiz.

Esta firma é sucessora de Lima Neto & C.ª fundada em 1909 pelo sócio principal da actual sociedade, Tito de Lima Netto. Deu-se essa sucessão em 1916, e actualmente a Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda. é constituída apenas por Tito de Lima Netto e Odilio Correia de Melo, ambos exercendo a gerência.



"Lima Netto & C.ª " no primeiro semestre de 1916 e já na Rua da Prata, 145


Em 31 de Julho de 1916, já como "Sociedade Luzo-Americana dos Estabelecimentos"

A complicada orgânica de uma empresa como a Sociedade Comnercial Luso- Americana, Lda. com uma sucursal no Porto na Rua Sá da Bandeira 339 e agentes em todo o paiz, empregando numeroso pessoal tecnicamente habilitado, exige um poder directivo de elevado sentido comercialista, aliado a uma acentuada envergadura íntelectual para conduzir com segurança o enorme volume das suas transacções e a multiplicidade dos negócios.


1926


1933 (em vez de "Sul Americana" leia-se "Luso Americana")


1943

Tito de Lima Netto e Odilio Correia de Melo, além de largos conhecimentos dos ramos a que se dedicam, possuem a energia e firmeza de caracter para dirigirem prosperamente os destinos da sua casa, dentro de um espirito modernista, auxiliado grandemente pelos recursos das suas inteligências e grau de cultura.

A acção da Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda., não está limitada apenas à venda das máquinas de escrever Royal. São também há muitos anos vendedores exclusivos para Portugal das magnificas máquinas suécas, de calcular, manuais e electricas, da reputada marca Facit, construídas com material à base do famoso aço do país de origem.


23 de Junho de 1946


21 de Junho de 1946


23 de Junho de 1946

Os móveis metálicos para escritório Roneo, da firma inglesa Roneo, Limited, mundialmente conhecida pelo seu impecável fabrico e condições excepcionais de resistência, encontraram na Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda., a casa representante que soube promover a sua expansão, adquirindo-lhe em Portugal grandiosa clientela.

E' ainda concessionária das conhecidas máquinas de somar americanas Victor, que tão boas provas tem dado, e dos extraordínários aparelhos de dictar Dictaphone, também americanos.

Mas, a variada série de artigos de comprovada reputação é extensa e, assim, a Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda., oferece aos seus numerosos clientes, foto-copiadores de consagrada marca e respectivos acessórios.

1947

A sua secção de venda de pequenas máquinas industriais, tais como aquelas destinadas à pintura à pistola, engenhos electricos de furar, tornos mecânicos, pequenas serras circulares e de fita, etc., etc., encontra-se excelentemente apetrechada, sendo os seus artigos, na generalidade, importados dos Estados Unidos da America.

Pode dizer se que a Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda. da trouxe ao conhecimento do comércio português, os melhores artigos que a industria americana produz nos ramos que tem a honra de representar.» in: "Praça de Lisboa" coligido por Carlos Bastos (1945).


24 de Novembro de 1952


1953

27 de Junho de 1958

Não sei quando a "Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda." terá cessado a sua actividade, mas consultando o "Arquivo Municipal de Lisboa", esta empresa em 21 de Janeiro de 1960, solicitava licença para proceder à limpeza e beneficiação do imóvel. Foi a última referência a esta empresa que tive acesso.

Entrada nº 145 e respectivas lojas nos 143 e 147, onde funcionou a "Sociedade Comercial Luso-Americana, Lda.", actualmente (via Google Maps)

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Arquivo Nacional da Torre do Tombo

5 de novembro de 2026

"Hotel Aliança" no Porto

O "Hotel Aliança" teve origem na "Hospedaria Ingleza" propriedade de Mary Castro, (mãe do tenor Frank de Castro) instalada no mesmo edifício, desde Fevereiro de 1865 na, ainda, Rua do Sá da Bandeira, 1 (actual Rua Sampaio Bruno), esquina com a Rua do Bonjardim, na cidade do Porto. Depois de transformada em "Hotel Inglez de Mary Castro" passou a chamar-se "Hotel Alliança" no início da década de 80 do século XIX.


No "Commercio do Porto" de 12 de Fevereiro de 1865

Já em 1856, Mary Castro era proprietária da "Hospedaria Ingleza" ("English Hotel") na Rua da Reboleira, 60 (ou 55) na freguesia de São Nicolau, também no Porto, que ali existiu até Dezembro de 1870, altura em que a "Hospedaria Ingleza" é transferida para a Rua Sá da Bandeira,1 com a denominação de "Hotel Inglez de Mary Castro". Quanto ao "Hotel Inglez", na Rua da Reboleira, 55, e segundo jornal "O Commercio do Porto" de 12 de Fevereiro de 1865: «Tem cômodos para 12 pessoas e os preços são de 800 a 1$600 réis com comida.»


"Hospedaria Ingleza" ("English Hotel") no "A Handbook for Travellers in Portugal (1856) de John Murray


11 de Novembro de 1857

Em finais de 1864, Mary Castro fecha o seu "Hotel Inglez" no Passeio Alegre, só voltando a S. João da Foz em Junho de 1867, instalando-se na Rua das Mottas, 48, junto ao Passeio Alegre.


Na primeira esquina, o início da Rua das Mottas do "Hotel Inglez", no Passeio Alegre na Foz

Nota: No postal anterior e no primeiro edifício à esquerda com arvoredo, o casino "High-Life" onde «Os puritanos, os caturras da jogatina repeliram a rolêta, e continuaram a frequentar a batota do high-life no Passeio Alegre; os encanzinados no vicio do jogo, ultra-viciosos, frequentavam a roléta e a batota. - accumulavam.» in: "Porto há trinta anos" de Alberto Pimentel (1893).

Acerca de clubs e casinos na Foz do Douro, consultar neste blog o seguinte link: "Clubs e Casinos na Foz do Douro"

30 de Agosto de 1864


20 de Junho de 1867


"Hotel Inglez" e posteriormente "Pensão Mary Castro", na Rua das Mottas, 48 em S. João da Foz

Em 1870 a "Hospedaria Ingleza" na Rua Sá da Bandeira, passa a "Hotel Inglez de Mary Castro" em substituição do "Hotel Inglez" na Rua da Reboleira.

8 de Dezembro de 1870

«Suppomos que as casas em que viveu a familia Pedrossem, na rua da Reboleira, são a grande casa ameiada onde esteve o hotel Mary Castro, e que hoje sâo propriedade do rico negociante d'esta praça o snr. Francisco Cardoso Valente, e também nos dizem que entre outras quintas possuíram a quinta da Pena, em Villar, na freguezia de Massarellos.» in: "Portugal Antigo e Moderno" de Augusto Pinho Leal (1873).

Edifício de esquina «a grande casa ameiada onde esteve o hotel Mary Castro» na Rua da Reboleira

Quanto a este "Hotel Inglez", e depois de traduzido do inglês, reproduzo um trecho dum guia inglês, acerca referindo-se ao mesmo:

«Atravessámos a colina a um ritmo vertiginoso, cruzámos lentamente a ponte suspensa, sob o salutar temor de uma eventual penalização, e avançámos aos solavancos pelas ruas mais estreitas, ladeadas por casas altas que quase se tocavam por cima das nossas cabeças, até que parámos diante do hotel, universalmente conhecido como Hotel Mary Castro, nome que lhe advém da excelente proprietária, que o dirige há muitos anos e que é inglesa de nascimento. Embora o hotel tenha, sem dúvida, uma designação oficial, sou inteiramente incapaz de a registar, pois nunca o ouvi designar por outro nome que não Hotel Castro.
Os nossos quartos davam para o Douro, um rio de dimensões consideráveis, profundo e de corrente bastante rápida. E, embora a entrada do hotel se situasse numa das ruas mais escuras, sombrias e sujas que se possam imaginar, despertando preconceitos desfavoráveis no viajante acabado de chegar, encontrámos alojamento muito satisfatório em todos os aspetos. Assim, o Hotel Castro tornou-se o nosso ponto de apoio, tanto durante a nossa estadia no Porto como nas excursões que fizemos pelos arredores.»

A principal clientela dos hotéis de Mary Castro começou por ser de origem inglesa, mas rapidamente cativou clientes portugueses, nomeadamente uma certa elite literária e cultural, a mencionar … Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Raúl Brandão, António Nobre e José Rodrigues Miguéis.



Carta a Alberto Braga do livro "Cartas de Camillo Castello Branco" em 1878

«O amigo Braga corresponde ao solicitado e comunica-lhe os dados que obteve sobre o hotel: "No primeiro andar, os quartos não são muito espaçosos; mas são os destinados para famílias. A mobília não é luxuosa; mas há nela o asseio britânico muito conhecido". Sublinha ainda a deferência com que a proprietária pretende tratar Camilo Castelo Branco: "Disse-me Mary Castro que, atendendo a honra que o hotel recebe hospedando o primeiro romancista da península, pode, sem aumento de preço (1$400 réis diários por pessoa), atapetar o quarto que escolher. Os quartos que mais convém a V. Exª e à Exmª Srª D. Ana Plácido são do primeiro andar, contíguos, sem comunicação interior; porque nenhum quarto da casa a tem. A amabilidade de Mary Castro vai ao ponto de considerar isentá-lo do pagamento da taxa de 60 réis, devidos normalmente "por cada garrafa de vinho que o hóspede desarolha, não sendo fornecida pelo hotel".» in: "Hotéis Literários de Portugal" coordenado por Sílvia Quinteiro (2022).

Quanto à zona da Foz e Passeio Alegre o mesmo livro "Portugal Antigo e Moderno" de Augusto Pinho Leal (1873) referia:

«Ha cinco hospedarias, tambem ordinarias, a que é alguma cousa soffrivel é a de M.me Mary Castro. A melhor foi feita em 1874, e pertence à senhora D. Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos.
Não ha una casa de assembleia, um theatro nem um botequim decente!»

Em 1880, o "Hotel Inglez de Mary Castro", é substituído pelo "Hotel Alliança", propriedade de João Rezende, que mantinha a "Hospedaria Rezende" (sucessor de Bento Izidoro) na mesma Rua Sá da Bandeira, 14.

20 de Agosto de 1883

No ano seguinte, e em 7 de Fevereiro de 1884, é fundada a casa de câmbios "Casa António Nunes Borges & Irmão", que entra em funcionamento no piso térreo do prédio do "Hotel Alliança", a 27 de Fevereiro do mesmo ano. 

"Casa António Nunes Borges & Irmão" no edifício do "Hotel Alliança"


1909

Mary Castro viria a falecer a 27 de Fevereiro de 1898, com 75 anos e conforme o "Register of the British Cemetry, OPorto." cujo excerto publico de seguida. Neste registo aparece como sendo espanhola, mas tendo sido sepultada neste cemitério inglês, decerto tinha ascendências inglesas.

Em 19 de Setembro de 1911 o "Hotel Alliança" era propriedade de Antonio Joaquim da Rocha Guimarães, que solicita autorização «colocar uma marquise de ferro coberta a vidro com o comprimento de 3mts x 2,10mts e , substituir a porta existente por uma outra nova na entrada do mesmo hotel (…)» 

Em 23 de Junho de 1919 a firma "Tabacaria Alliança, Limitada", «desejando fazer a instalação do seu estabelecimento de vendas de tabacos, loterias e papel sellado, na Rua de Sá da Bandeira, nº 49 e 51, e precisando para isso de fazer umas pequenas obras na loja onde primitivamente estava uma barbearia, de acordo com o projecto junto para o qual pede a devida aprovação.» 

Nota: na primeira foto deste artigo pode-se observar esta tabacaria na frontaria do Hotel

Em 1932 era esta a lista de hotéis existentes na cidade do Porto ...

1932



1934

6 de Abril de 1939

Em 1939, no guia "Hoteis e Pensões de Portugal", o "Hotel Aliança" tinha como gerente José Neto Leal Júnior e com a s seguintes características:

Categoria: 3ª
Quartos: 46
Pequeno Almoço: 2$50
Almoço: 13$00
Jantar: 14$00
Diária: 30$00 - 45$00


1 de Junho de 1941



1958

Em 1962:

Categoria: 3ª
Quarto s/ banho: 35$00 - 50$00  e c/ banho: 85$00 (preços p/pessoa)
Pequeno Almoço: 8$00
Almoço: 30$00
Jantar:  30$00
Diária: 30$00 - 45$00

Em 7 de Dezembro de 1944, os proprietários do "Hotel Aliança", os irmãos António e José Abrantes Jorge, compraram o "Grande Hotel da Batalha", na Praça da Batalha, 106-110 no Porto.

A "Pensão Mary Castro", com os seus 12 quartos sobreviveu muitas décadas na Rua das Motas, 48, até ser transformada numa casa particular. A última referênca a esta pensão, a que tive acesso, foi no guia turístico inglês "Fofor's Portugal" de 1992.

11 de Julho de 1931


No guia inglês "Fodor's Portugal" de 1992


ex-"Pensão Mary Castro", actualmente uma casa particular (foto em 2024 de David Zamith)

Atualmente no lugar no "Hotel Aliança", e desde Agosto de 2017, está instalado o "Eurostars Porto Centro" de 4 estrelas e com 74 quartos, que como é meu hábito aqui deixo umas fotos actuais.





fotos in:  Arquivo Municipal do Porto, Foto-Porto (Facebook), Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, Eurostars Porto Centro, Delcampe.net, Biblioteca Nacional Digital, Archive.org