Restos de Colecção

2 de junho de 2026

Alfaiatarias "Ribeiro & Silva" e "Rosado & Pires"

A alfaiataria "Ribeiro & Silva", foi inaugurada em 2 de Novembro de 1908, na Rua Augusta, 150 e 152, no prédio onde funcionava desde 23 de Fevereiro de 1879, o "Grande Hotel Duas Nações", sendo actualmente o segundo hotel mais antigo de Lisboa, ainda em funcionamento, depois do "Hotel Borges" (antes de 1874) na Rua Garrett, actualmente com a denominação de "Hotel Borges Chiado".

Alfaiataria "Ribeiro & Silva"

A "Ribeiro & Silva" ocupou inicialmente as lojas dos números 150 e 152, apelidada de "Casa dos Arcos". Nestes números e em conjunto com os 154 e 156, já em 1896 os "Grandes Armazens da Casa Africana" tinham ampliado as suas instalações iniciais aquando da sua fundação em 15 de Dezembro de 1875, na Rua da Victoria, 33, 35 e 37.

12 de Janeiro de 1896

Em 1905 a "Casa Africana" muda de instalações e noa ano seguinte de 1906 o proprietário do prédio Leopoldino Ribeiro, promove grandes obras de alteração nas fachadas e ampliação das lojas, tornando-se conhecido pela "Casa dos Arcos". Dos anteriores números de portas 142 a 156 passam a 150 a 156.


 Projecto na revista "Construção Moderna" de 20 de Junho de 1906



3 de Novembro de 1908

Em 5 de Novembro de 1908 a loja de modas "Machado & Santos" que tinha sido fundada em 1900 na Praça de D. Pedro (Rossio), 121-122 esquina com a Rua da Bitesga, 26-32, muda-se para os nºs 154 e 156 com os nos 43 e 45 da Rua da Victoria. 

5 de Novembro de 1908

Loja "Machado & Santos" já só no nº 156 de esquina com a Rua da Victoria e com a "Ribeiro & Silva" a seu lado nos nos. 150 a 154

Entretanto a "Machado & Santos" abre falência e o seu recheio vai a hasta pública em 15 de Dezembro de 1910 que é arrematado pela sua vizinha "Ribeiro & Silva" que no ano seguinte de 1911 se muda para as antigas instalações da "Machado & Santos" nos números 154 e 156 esquina com os 43 e 45 da Rua da Victoria.


1911


24 de Setembro de 1914

Quanto aos luxuosos interiores «herdados» pela "Ribeiro & Silva", transcrevo parte da notícia aquando da mudança de instalações da "Macahado & Santos"  em 5 de Novembro de 1908:

«Achamo-nos de subito n'um meio luxuoso como raros costumam ser entre nós os estabelecimentos congeneres.
A armação toda em carvalho guarnecida de espelhos e crystaes foi confeccionada pelo pessoal da "Carpinteria 5 de fevereiro." que tem como proprietario e director o sr. Luiz Soares Bandeira Junior. E' trabalho dos que melhor ficam honrando a industria nacional.
Na decoração salientaram-se por forma tambem notavel os srs. Barbosa & Costa, com officina de estofador. A elles se devem o conforto que se nota no pequeno salão do 1.° andar, o qual é destinado a provas, guarnecido a branco e ouro, bem como a feliz disposição d'uma outra sala em escuro que os srs. Machado & Torres fizeram apropriar a prova de vestidos para theatros, bailes, etc.
Não ha na capital outra que se lhe assemelhe mormente pelo que respeita á boa disposição dos focos electricos.
Entre os accessorios artisticos do 1 ° andar, é de justiça não esquecer tres magnificos "panneaux" estylo Luiz XV devidos a phantasia e ao "savoir-faire" de Augusto Pina que é hoje incontestavelmente um dos nossos mais perfeitos cultores da pintura decorativa.»


1913

Entretanto na antiga loja da "Ribeiro & Silva" nos números 150 e 152 instalou-se uma casa idêntica, a "Brito & C.ª ", mas apenas «alfaiates para senhoras e creanças».


1913

Em 24 de Dezembro de 1915 o jornal "A Capital" publicava um artigo acerca da alfaiataria "Ribeiro e Silva" donde retirei os seguintes excertos:

«(...) Não é necessario ir ao estrangeiro para apreciar em toda a sua belleza um authentico "tailleur". Quem se detiver um pouco deante das omplas vitrines do Casa dos Arcos, da rua Augusla, 154 e 156, dobrando para a rua do Victoria, 43 a 47, reconhece, apos uma leve vista de olhos, que os srs. Ribeiro & Silva estão a par dos primeiros costureiros de Paris ou Londres na confecção d'esse genero de vestidos, ultima e suprema palavra da moda.
A Casa dos Arcos occupa, entre as primeiras alfaiatarias de Lisboa, um logar de indiscutivel relevo. Fundamenta-se com justiça o renome que alcançou nos maravilhosos thesouros dos seus contra-mestres, na solicitude com que os seus proprietarios procuram estar ao correnle do que decretam os centros da moda, nos fornecimentos soberbos que importam e que cada qual pode odmirar visitando os seus "atelliers".
Os modelos em voga, envergados pelos manequins das montras da Casa dos Arcos, são um primor pela elegancia das linhas, pela qualidade dos tecidos, pelo gosto das applicações.. Qualquer senhora que disponha de senso esthetico e que saiba vestir bem, desde que entre na Casa dos Arcos, nao sahe de la sem fazer a sua encommenda, tão convincentes são as provas da competencia dos que a dirigem e tão distictamente executados os figurinos dos mais celebres creadores da moda franceza que é e continuará sendo a moda de todo o mando culto. (...)
Mas os srs. Ribeiro & Silva não se notabilisam apenas como alfaiates de senhoras. Todo o homem que se presa de vestir com esmero dn'aquella caso servido caprichosamente o merece menção o bom gosto dos padrões que a mais delicada phantasia ali seleccionou. E os seus trajos paro creancas? E oa seus uniformes para collegiaes? E' uma capital europeia aquella que conta estabelecimentos como a Casa dos Arcos e são admiraveis mestres os que lhe grangearam tamanho e tão solido prestigio!»

13 de Setembro de 1915

Este artigo era reforçado com uma nota no ano seguinte em 16 de Setembro de 1916 ...

«(...) A casa Ribeiro & Silva, na antiga Casa dos Arcos, rua Augusta 150 a 156 o rua da Victoria 48 a 47, o inegavelmente como das primeiras alfaiatarias de senhoras do paiz, possuindo todos os segredos que se relacionam com a arte de confeccionar um tailleur.
A casa Ribeiro & Silva tem ainda alfaiataria para homens e creancas, tanto para fatos civis como para uniformes militares, sendo inexcedível o acabamento que da a todos os seus trabalhos.
A sua clientela é das mais distinctas.
Os mestres dos seus atelliers visitam todas os estações as principaes casas de Paris e de Londres, d'onde trazem os ultimos modelos.»

1915

24 de Junho de 1928


Julho de 1934

A "Ribeiro & Silva" trespassaria parte das suas instalações, o nº 156, a outra alfaiataria que viria a gozar de igual ou maior prestígio, a "Rosado & Pires, Lda." que tinha sido constituída em 28 de Janeiro de 1935. 

Especializada em vestuário masculino, vendia variados artigos desde fatos, casacos e camisas até acessórios como carteiras e bengalas. A loja manteve grande parte das características do espaço anterior, conservando mobiliário de desenho ecléctico de finais do século XIX e inícios do XX. Distribuída pelos dois pisos, a alfaiataria reservava no piso térreo um amplo espaço de atendimento e exposição de artigos, sendo o primeiro piso, para onde se acedia através de uma escadaria de madeira, destinado a uma sala, quatro gabinetes de prova e um atelier. As quatros cabinas de prova, existentes na sobreloja, caracterizavam-se pelos seus diferentes estilos decorativos: Império, Luís XV, Arte Nova e Arts & Crafts, com toda a loja apresentando por um aprimorado trabalho de marcenaria. 

Alfaiataria "Rosado & Pires, Lda." em foto de 1944

Em 24 de Fevereiro de 1971 a firma "Rosado & Pires, Lda.", passava a ter um capital social de 1.200.000$00 distribuídos pelos sócios Eurico Leonis da Silva Rosado (266.675$), Manuel Dias Pires (266.675$), Luis Augusto da Silva Rosado (266.650$). Em 1989 já eram sócios-gerentes Júlio Pereira da Silva Rosado e Elisa Adelaide de Campos Rosado Galo.




Alfaiataria "Rosado & Pires, Lda." nestas 3  fotos de 1994


2002

A cadeia de lojas de lingerie multinacional "Intimissimi" (fundada por Sandro Veronesi em Itália em 1986) viria a adquirir a loja da "Rosado & Pires, Lda.", por escritura pública lavrada em 22 de Junho de 2004 e ali abriria mais uma loja,  mantendo os seus interiores originais. 

A firma "Rosado & Pires. Lda." ficaria com a seguinte composição: Sandro Veronesi, Castiglioni Delle Stivere, Via G. Leopardi, 7, Manlova, Itália; Matteo Murano, Via Camo D'Aquilio, Lavagno, Verone, Itália: Davide Scialpi, Via Cavalcaselle, 8, Verone, Itália.





fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa,Arquivo Municipal de Lisboa, Logica2 (Projetos e Construções), 3 fotos do livro "Lisboa: Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - Biblioteca de Arte da FCG 1994.

28 de maio de 2026

"Pinóquio" - Brinquedos

A loja de brinquedos e artigos para crianças "Pinóquio", foi naugurada em 14 de Agosto de 1950 na Praça dos Restauradores, 79-80, em Lisboa. Projectada pelo arquitecto Veloso dos Reis Camelo (1899-1985), era propriedade da sociedade "Avenida Café, Lda.", liderada pelo galego Manuel Outurela Costa, proprietária do Restaurante "Aquário", instalado no mesmo edifício, mas com frente para a Rua Jardim do Regedor, 50. A esta firma já tinha sido entregue, inicialmente, a exploração do "Quiosque dos Restauradores" localizado mesmo em frente, e visível na foto seguinte.


"Pinóquio" em foto de 1952


23 de Dezembro de 1950


1952

Desde os finais do século XIX e na primeira década do século XX, na loja agora ocupada pela "Pinóquio" tinha funcionado um estabelecimento de móveis de madeira, pertença de Henrique Drummond Freitas Castle.


Estabelecimento de móveis de madeira de Henrique Drummond Castle, em foto de Junho de 1895


A mesma loja nos anos 40 do século XX

No dia da inauguração da "Pinóquio" o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava ...

«Novo estabelecimento de utilidades e brinquedos nos Restauradores

O publico vai, finalmente, saber o que significa «Pinóquio», de que tanto se tem falado nos ultimos dias. Adultos e crianças - especialmente estas, para quem a palavra Pinóquio é evocadora de um Mundo de maravilhas-  vão hoje ver satisfeita a sua natural curiosidade. E, diga-se em abono da verdade, que Pinóquio corresponde á expectativa; mais, que excede tudo quanto se poderia ter imaginado.
Em pleno coração da cidade, na Praça dos Restauradores, nos. 79-80 - um lugar ideal pela facilidade de acesso e pela sua situação - Pinóquio abriu hoje as suas portas. Por que se trata de um estabelecimento de utilidades e brinquedos nacionais e estrangeiros. Pinóquio, como se fosse uma Fada dos contos da infancia, vai maravilher milhares de pessoas. Há até magnificas utilidades e brinquedos maravilhosos.
Os olhos de todos os meninos de Lisboa - e dos adultos também - vão ficar cativados por esse mundo maravilhoso onde não faltará nada para fazer a alegria de um  pequenito.
O novo bazar, onde se encontra a mais vasta colecção de brinquedos que é possivel reunir, tem a orientá-lo, como gerente, o conhecido técnico e antigo empregado da Kermesse de Paris, sr. João de Sousa. Por esse motivo, este estabelecimento, que pertence aos proprietários do Avenida Café, Lda., vai certamente merecer a confiança e a preferência da mais exigente clientela. Pinóquio está valorizado por uma magnifica decoração do arquitecto sr. Veloso dos Reis Camelo.»


Publicidade de 13 de Maio e 23 de Dezembro de 1963


19 de Dezembro de 1964


Pai Natal do "Pinóquio"


Entretanto, e em 8 de Maio de 1951, a "Pinóquio" passa para a propriedade da firma "J. J. Sousa, Lda.", constituída com um capital social de 120.000$00 e formada pelos seguintes sócios: João de Jesus Sousa (40.000$) - antigo empregado da "Kermesse de Paris" inaugurada em 19 de Novembro de 1901 -  e a firma "Sociedade Agrícola e Comercial do Lumiar, Lda." (80.000$).

Passados quatro anos, e por escritura pública de 26 de Outubro de 1955, João de Jesus Sousa, deixou a sociedade, mas autorizou que o seu nome J. J. Sousa continuasse a figurar na firma social.


Ambas as fotos de 1973

A loja de brinquedos "Pinóquio" encerraria definitivamente por volta de 1980, e a sociedade "J. J. Sousa, Lda." é trespassada, muda de sócios e acrescenta ao seu objecto - «comércio de brinquedos, utilidades e quinquilharias» - a «exploração de restaurantes». A nova constituição da sociedade passa a ter os seguintes sócios: Rogério Ramos Nunes, António Filipe Rosa da Costa e João Francisco Rosa da Costa. Ao mesmo tempo, o capital social era aumentado de 120.000$00 para 1.000.000$00.

No lugar da loja de brinquedos, reabre, em 13 de Maio de 1982, a "Pinóquio" mas como restaurante e cervejaria. Uma curiosidade: a inauguração deste restaurante coincidiu com o 2º dia da visita do Papa João Paulo II a Lisboa e a Portugal.


"Pinóquio" nos anos 80 do século XX



2014

Quanto ao edifício onde está instalado a cervejaria "Pinóquio", foi reconstruído durante três anos (creio que entre 2019 e Janeiro de 2022) para albergar o "Blue Liberdade Hotel". Durante esse tempo o restaurante e cervejaria tiveram de se instalar provisóriamente na Rua de Santa Justa. Agora, propriedade de Lourenço de Mello Breyner, à nova decoração juntam-se duas salas no piso térreo e uma esplanada maior, que duplicou a sua capacidade, para 120 lugares sentados.





23 de maio de 2026

"Botequim do Gonzaga" e "Café Freitas"

O "Botequim do Gonzaga" e o "Café de Freitas", vinham na sequência de outros mais antigos como o "Botequim do Nicola" ,de Nicolau Breteiro, e que já existia em 1787, o "Botequim das Parras", de Jose Pedro da Silva, ao lado do Nicola desde 1803. Todos localizados na ala ocidental do Rocio.

Quarteirão onde se localizou o "Botequim do Gonzaga"

Nota: gravura anterior referente à Formatura dos Regimentos de Voluntários Reais do Comércio, no Rossio - Nicolas Delerive (1815). Esta gravura também já apareceu referenciada, em 1947, como: "Junot passando revista às tropas no Rossio", no "Catálogo da exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa, MNAA".

Comecemos pelo "Botequim do Gonzaga":

«O botequim do Gonzaga não era o maior nem o melhor de Lisboa - mas era o mais popular. Estava no centro de operações, arrumado no Rocio, próximo do antigo Mattos Moreira, onde hoje é o Gelo, e tinha a apparencia incaracteristica dos estaminêts Luiz Philippe. Por dentro era fúnebre. Logo de manhã, ao arejar, quando a porta se abria, um cheiro a bafio escapava-se, de roldão com pontas de charuto e cascas de laranja envoltas em serradura suja. As mesas de freixo vinham, então, a limpar junto da valeta, e o casarão, desembaraçado, tomava o aspecto d'um corredor soturno, encaminhado entre dois roda-pés de azulejo, d'altura d'homem, esbotenados pela phantasia destruidora dos clientes. Três enormes candieiros de petróleo, dependurados, um outro d'azeite, no topo do balcão massiço e negro, entornavam, de noite, uma luz escassa e desbotada. reflectida tristemente nas paredes de escaiola, manchadas, aqui e alem, pelo lapis delirante dos freguezes. Os bancos extensos de palhinha enfileiravam as mesas polidas pelos cotovelos dos ociosos, riscadas pela sarapilheira indolente do moço que as espanejava. Tudo aquillo tinha o ar vetusto e desalentado d'uma mina. Por detraz do balcão, o Gonzaga ia amontoando, com serenidade descuidada, todo o lixo do estabelecimento, entre guardanapos que nenhuma barreia desencardia e garrafas vasias de licor de tangerina. (...)


No "Almanak Popular" de 1849

Era um burguez alemtejano, nédio, baixo, roliço, vermelho, com olhos redondos de mocho e pernas talhadas como fiambres. Era uma caricatura á ingenuidade, bondoso, facilmente enganavel, aberto para todas as propostas, enternecido para todas as misérias, perdoando dividas, jogando o bilhar com os freguezes, emprestando ás meiasmoedas, exuberante e vivo, orador rasgado, falando constantemente em Honra e em Pátria, palavras que pronunciava com solemnidade, a propósito de tudo e de nada. (...)
Pela noite adeante outros mac-farlanes iam chegando e os grós succediam-se, abundantes como os lumes do ceu. A aguardente transmudava o cochichar lúgubre do concilio n'uma gritaria de possessos. O botequim era, n'esses momentos, tão agitado, tão tumultuoso como uma reunião do club dos Jacobinos em noites de peroração de Gouthon ou de Robespièrre. Gonzaga esquecia a sua qualidade de proprietário ; abancava e rugia - sempre nédio e roliço. Gibatanho, o moço, entornava, então, os licores pelas guèlas insaciáveis, sem fundo como o tonnel das Danaides. A confusão crescia, por entre o fumo as ameaças vinham morrer na chamma amarellada dos candieiros, junto dos trucidados exangues de Fernão Cortêz. Havia urros, havia silvos. Era a orgia politica em toda a sua amplitude. No canto dos parceiros do dominó a embriaguez da palavra alastrava, as pedras plácidas voavam com trajectórias de projéctil. Era o paroxysmo, uma tempestade de vozes desencadeadas: - Basta! - A elles, pois! -- Vamos! - Gloria! - A Pátria d' Albuquerque! - Arranco-lhe a vida! Constituição! - Quero beber-lhe o sangue! - Pátria livre! - E, n'uma acalmia, entre duas rajadas, o botequineiro Gonzaga, com a apparencia desconcertada de Silêno, com a alma forte de Camillo Desmoulins, berrava, exasperado :
- Eis os funestos resultados da oppressão ! - Mas, filhos, eu tenho de fechar a porta !
A grita continuava no passeio. Gonzaga levava a freguezia até á valeta. Depois entrava, de novo, solitário, no seu campo de Pharsalia, cogitando na marcha que a revolução havia feito pela palavra quente dos seus consumidores. No enlevo arrebatado do seu ideal politico, Gonzaga desejava ser guerreiro, ter a espada de Marceau, porque sentia em si a pura integridade de Pichegru. E só voltava á realidade das coisas com o riso diabólico de Gibatanho, Gibatanho Lúcifer, Mephistopheles, que levantava os braços ao ceu e, sobre os destroços da peleja, gritava com voz de stentor :
- Ninguém pagou ! » (1)


Exemplo de um botequim, aqui na pintura "Taberna da Severa" de Alberto de Souza (1880-1961)

Gonzaga, já cansado do negócio arranjou um sócio de seu nome Francisco Caetano de Freitas, «menos exaltado nas ideas partidárias e mais pratico no amealhar do custo dos respectivos liquidos.» , e ...

«(...) O proprietario do café, onde tantos dramas intimos nasceram, e se desenlaçaram, o gordo Gonzaga, associara ao seu negocio um chamado Freitas, que apenas teve tempo para assistir ao desmoronamento da commum empreza.
Quando o Gonzaga viu o caso mal parado, deitou o coração á larga, e poz-se a jogar a manilha, ultima reminiscencia dos seus serões alemtejanos, terminados, como convite á socéga, por um bom paio de Souzel, e uma garrafa de vinho velho de lavra propria.» (2)

Passemos ao "Café de Freitas" ...

Eduardo de Noronha, no seu livro "Estroinas e Estroinices", de 1922 escreveu:

«A parte occidental do Rocio, muito mais irrequieta e bulhenta que a oriental, povoou-se sempre de cafés, focos e pontos de partida de quantas arruaças germinam na capital. Tudo leva a crer que o "Freitas" date de 1845. Coincide com este anno a conclusão dos prédios do duque do Cadaval, obrigado a substituir os antigos barracões pelos actuaes edifícios. Aquelle titular, que procedeu a esses melhoramentos com accentuada má vontade, viu n'um instante tudo arrendado : moradias e lojas. Estas para armazéns, estabelecimentos de vários géneros e em especial botequins.»


Localização do "Café de Freitas", dentro do rectangulo a amarelo, no Rocio


3 de Abril de 1852

4 de Junho de 1852

Quanto a 1845, não estou muito de acordo. Francisco Caetano de Freitas seria dono da "Loja de Freitas" sita na Rua dos Fanqueiros, 81 desde, pelo menos, 1843. Era uma loja que se vendia desde panos, tecidos de linho, toalhas, guardanapos e também presuntos, carne ensacada, fiambres, etc. Esta loja existiu até 1850 segundo anúncios publicitários da época. Ao mesmo tempo que desparecem os anúncios à "Loja de Freitas", aparecem os anúncios ao "Café de Freitas", a partir de 1852. Coloco duas hipóteses: ou Freitas chegou a manter as duas lojas em simultâneo por poucos anos - talvez enquanto unicamente sócio de Gonzaga -, ou o "Café de Freitas" começou a funcionar como tal a partir de 1850/1852, e não 1846. Talvez Eduardo de Noronha tenha considerado o início da sociedade com Gonzaga, o início do "Café de Freitas". Isto tudo são apenas suposições minhas ...


5 de Agosto de 1843

17 de Abril de 1848


18 de Ouubro de 1850

A "Loja de Freitas" em 1880 era propriedade de Antonio Francisco Ribeiro Ferreira.


Lista de caffés no "Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus Arredores", de 1853

Continuando no livro "Estroinas e Estroinices" ...

«Frequentavam o Freitas com chronologica assiduidade, depois da Regeneração, Pinto Carneiro, polemista ferrenho e mais tarde general de divisão ; o acirrado miguelista Cabral Maneta ; Costa Camarate, também general de divisão com o rodar dos annos ; Daniel da Silva, mathematico e lente da Escola Naval ; Mendes Leal, Rebello da Silva, Dr. Luiz da Costa Pereira, Luiz Augusto Palmeirim, Lopes de Mendonça, folhetinista ; o actor Rosa, pae ; José Vaz de Carvalho, Gonçalves Lobo, o aspirante Figueiredo, do 14; o Sant'Anna de Vasconcellos ; quatro desempenados mocetões capazes de jogar as cristas com os mais valentes.
Conspirava-se no "Freitas" como agora no "Gelo",por toda a parte. A maioria dos lisboetas nunca deixa de conspirar. Uma noite, após a "Patuléa", na esperança de que os sargentos de caçadores 2 trouxessem o batalhão para a rua, sahíram d'alli Manuel de Jesus Coelho, Moraes Mantas e Brito Aranha. (...)


Gravuras de Rocha Vieira (1883-1947)


A' esquina do Rocio, onde hoje existe o elegantíssimo Stand da firma Rugeroni & Rugeroni, quasi pegado ao "Freitas", abria as portas o café do "Balão", designação que lhe provinha do appellido do seu proprietário. Decorridos dez ou doze annos, em 1854 ou 1856, passou a denominar-se do "Moreirai" depois do " Hespanhol" ou do"Canto do Muro". Este ultimo apodo incluia um qualificativo pouco agradável para a sua frequência, classifícavamn'a os malidecentes de indivíduos semelhantes aos que surgiam aos viandantes n'aquelle teniido sitio do pinhal da Azambuja.
Alongava-se até á rua do Príncipe. Em 1868 melhoraram-n'o e intitularamn'o "Café Europa". Acabou em 1872, para ceder o logar á livraria Mattos Moreira, inaugurada no anno seguinte, em 1873.» 


Ambos de 13 de Abril de 1864



19 de Abril de 1864


Lista de Botequins ou cafés no "Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus Arredores" de 1880

Possivelmente por morte de Francisco Caetano de Freitas, o "Café Freitas" encerra e dará lugar por volta de 1899, ao "Café do Gêlo". A firma "Januario & Matheus Baptista" constituida pelos irmãos Januario Ferreira Baptista e Matheus Ferreira Baptista, foi a sua primeira proprietária.. Pode consultar a sua história neste blog no seguinte link: "Café Gêlo".

"Café do Gêlo" nas portas 64 e 65

Bibliografia:

(1) - "Lisboa do romantismo (Lisboa antes da Regeneração)" de Mario de Almeida, 1916
(2) - "Os excentricos do meu tempo" de Luis Augusto Palmeirim, 1891

fotos in: 
Hemeroteca Digital de Lisboa
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de Lisboa