Julio Worm, de seu nome completo Julio Balate Worm (1874-1958), foi um importante fotógrafo amador, comerciante, editor e realizador cinematográfico. Em 1898, abriu como seu sócio Luiz Rosa uma loja de artigos fotográficos na Rua da Prata (Rua Bella da Rainha), 135-137, em Lisboa, a que deram a denominação de "Armazem Photographico Worm & Rosa".
"Julio Worm" ex-"Worm & Rosa", na Rua da Prata
Foi uma importante casa comercial especializada em material fotográfico, sendo depositários em Lisboa de várias marcas internacionais (mas também nacionais, como as chapas fotográficas Pinheiro de Aragão, do Porto), como a "Kodak", com as suas máquinas fotográficas «elegantes, práticas, leves», a "A.G.F.A.", a "Bayer", a "Zeiss" entre outras marcas hoje menos evocativas: "Marion & C.ª", "Voigtländer & Sohn", "Guilleminot", "Jean Malvaux", "Steinhel", "Demaria Frères", "Wellington", etc.
«O jornal O Grátis incluía, na sua edição de 17 de Novembro de 1841, o anúncio de venda de uma máquina de daguerreótipo, na Rua de São Paulo, n.º 104, importada de França, por 60 mil réis. Na Rua do Vinha, também em Lisboa, Luiza Calotti vendia instrumentos para fotografia e ensinava a forma de operar com eles, já desde Março de 1841».
Em 1856, surgia no jornal "Panorama" um curso de fotografia em 3 números consecutivos em Junho e Julho, e da responsabilidade de J. A. da Silva. Começavam a surgir os estúdios fotográficos, assim como estabelecimentos exclusivamente dedicados à venda de máquinas, acessórios e produtos químicos, direccionados para um crescente público de fotógrafos amadores. E em 1875, teria lugar a "I Exposição Nacional de Photographia", organizada por José Júlio Rodrigues (1843-1893).
A revista "Boletim Photographico", era impressa pela "Companhia Nacional Editora" - criada em 1888 e resultado da fusão da "Tipografia Guedes" (1873) com a "Editora David Corazzi" - e tinha uma periodicidade mensal tendo sido publicada entre 1900 e 1914, com direcção de Arnaldo Fonseca. A casa "Worm & Rosa" foi encarregue da edição comercial; Luís António Sanches e Henrique Pinto do Amaral da edição literária.
«(…) A nova revista apresenta-se com características de uma edição de luxo, quer nos materiais, quer na composição gráfica, manifestando influências da Art Nouveau, quer na qualidade das reproduções fotográficas. Ressalta ainda a qualidade do papel (couché), em que se apresenta o texto e ilustrações de razoável qualidade de reprodução, deixando-se especial destaque para as óptimas gravuras de clichés coladas em páginas extra-texto?, num papel cartonado colorido. Divulgavam-se, assim, fotógrafos representativos da fotografia portuguesa como Arnaldo Fonseca, Silva Nogueira, C. Trincão, Jorge Almeida Lima, João F. Camacho, A. Bobone, Carlos Relvas, Aníbal Bettencourt”, Júlio Worm, Joaquim Basto, príncipe D. Luis Filipe, Vicente Gomes da Silva, Paul Plantier, Emílio Biel, Alvão, Avelino Barros, Maria C. Lemos Magalhães, Alberto Marçal Brandão, Visconde de Sacavém e outros estrangeiros tão significativos como Constant Puyo, Boissonas, Emerson e Misonne, entre outros, com as suas paisagens e cenas de género marcadamente pictorialistas.» (*)
Pelo que fica dito, a maior parte da colaboração textual assinada é de autoria de estrangeiros, tratando-se quase exclusivamente de artigos traduzidos de publicações da especialidade. Excepção a este panorama são nomes como os de Arnaldo Fonseca (que assina textos de opinião e as respostas às cartas dos leitores), Camilo António dos Santos, Clemente dos Santos, Eduardo de Barros Lobo, Gago Coutinho. Na colaboração fotográfica, corroborando a ideia do director do Boletim – “em Portugal trabalha-se… e muito” –, são muitos os clichés publicados de fotógrafos nacionais (começando pelo rei D. Carlos, pela rainha D. Maria Pia, pelo príncipe D. Luís Filipe, todos eles fotógrafos amadores), numa extensa lista que inclui trabalhos de Augusto Bobone, A. Novais, Augusto Soares, Eduardo Brasão e, postumamente, de Carlos Relvas, a par de obras fotográficas estrangeiras.
Outro fenómeno a registar, decorrente da abertura, em 1905, de agências do Boletim Photographico na África Ocidental (Torres & Torres, em Benguela) e Brasil (A. J. da Silva Porto, em Niteroi), é o surgimento na revista de clichés provenientes das colónias africanas (autores Paulo Ennes, Carlos da Costa Carvalho, João Freiria, Jaime de Macedo) e do Brasil (autores Bastos Dias, Augusto Malta).» in: Hemeroteca Digital (Ficha Técnica)
Após a publicação do último número do "Boletim Photographico", em 1914, Antonio de Sena em resposta a uma carta de Gérard Castello-Lopes escrevia: «...desde o último número do ‘Boletim Photographico’ de Arnaldo Fonseca e Júlio Worm (1910) Portugal viveu uma intensa actividade fotográfica na produção e impressão de imagens. A partir daí tudo se desmoronou ao abrigo da Censura dos Júris de Exposições realizadas com o patrocínio de Bancos, Grandes Empresas e mesmo da Mocidade Portuguesa. Até hoje. E, no entanto, existiam certos fotógrafos que se recusavam a participar nessas exposições correndo o risco de nunca virem a mostrar aquilo que viam de uma certa maneira...».
Julio Worm viria a substituir Arnaldo Fonseca como diretor do "Boletim Photographico", a partir de 1911, quando este abandona a atividade fotográfica para se dedicar à política e à carreira diplomática. Participaria na representação portuguesa na "Esposizione Internazionale di Fotografia Artistica e Scientifica di Torino" de 1902, assim como na Exposição Internacional de Dresden em 1909, e ainda na "Exposição de Photographia Artística" em 1910, que decorreu em Lisboa, no Salão da "Illustração Portugueza". Participaria noutras como a "I Exposição de Artes Graphicas" realizada na Imprensa Nacional por iniciativa de Luís Derouet, em 1913, e três anos depois, na "Exposição Nacional de Photographia" patente na "Sociedade Nacional de Bellas Artes". Viria a integrar o júri da exposição-concurso organizado por Santos Leitão na sala alugada da "Sociedade Nacional de Belas Artes", em 1931. Seria igualmente júri de admissão com Roque Gameiro, Silva Nogueira e San-Payo no segundo Salão Nacional (S.N.B.A.) de 1934 e no I, II e III "Salão Internacional de Arte Fotográfica" de 1937, 1938 e 1939.
23 de Junho de 1921
Com a inauguração, em 1926, do edifício Palácio "A Nacional", na Praça da Liberdade (futuro nº 1 da Avenida dos Aliados), na cidade do Porto, logo de seguida Julio Worm abre nesse mesmo edifício uma filial, tendo sido dos primeiros inquilinos.
Outra actividade a que Julio Worm se dedicou foi a de realizador de cinema. No início do século XX, foi pioneiro na realização de documentários fílmicos em Portugal, onde se destacarm:
- Inauguração de Uma Estátua de Afonso de Albuquerque (1902)
- Festa na Basilica da Estrela (1903)
- Compilação dos seguintes filmes de 1903: IV Corrida da Rampa da Calçada da Glória; Prova de ciclismo na Calçada da Glória, Lisboa; Temporal na Boca do Inferno; Comemoração do 1º de Dezembro, Lisboa.
- Primeiro Voo Em Aeroplano Tripulado por Julien Mamet em Lisboa no Aeródromo de Belém (1910)
- Visita a Lisboa da Esquadra Inglesa (1910)
- Actualidades Portuguesas (1926)
- Prova de automobilismo no Campo Grande, Lisboa. (1926)
- Comemorações do 30º aniversário da Manutenção Militar (1927)
- A Família Real (1942)
Julio Worm (com laço e folheto na mão) em 17 de Dezembro de 1937
Na foto anterior referente ao "I Salão Internacional de Arte Fotográfica", e da esquerda para a direita: Gustavo de Matos Sequeira (olissipógrafo); general Daniel de Sousa (Presidente da Comissão Administrativa da CML); Raul Reis (fotografo); Artur Portela (jornalista); San Payo (fotógrafo); Julio Worm (Fotografo); engenheiro Carneiro Mendes (cineasta amador).
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