O "Botequim do Gonzaga" e o "Café de Freitas", vinham na sequência de outros mais antigos como o "Botequim do Nicola" ,de Nicolau Breteiro, e que já existia em 1787, o "Botequim das Parras", de Jose Pedro da Silva, ao lado do Nicola desde 1803. Todos localizados na ala ocidental do Rocio.
Quarteirão onde se localizou o "Botequim do Gonzaga"
Nota: gravura anterior referente à Formatura dos Regimentos de Voluntários Reais do Comércio, no Rossio - Nicolas Delerive (1815). Esta gravura também já apareceu referenciada, em 1947, como: "Junot passando revista às tropas no Rossio", no "Catálogo da exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa, MNAA".
Era um burguez alemtejano, nédio, baixo, roliço, vermelho, com olhos redondos de mocho e pernas talhadas como fiambres. Era uma caricatura á ingenuidade, bondoso, facilmente enganavel, aberto para todas as propostas, enternecido para todas as misérias, perdoando dividas, jogando o bilhar com os freguezes, emprestando ás meiasmoedas, exuberante e vivo, orador rasgado, falando constantemente em Honra e em Pátria, palavras que pronunciava com solemnidade, a propósito de tudo e de nada. (...)
Pela noite adeante outros mac-farlanes iam chegando e os grós succediam-se, abundantes como os lumes do ceu. A aguardente transmudava o cochichar lúgubre do concilio n'uma gritaria de possessos. O botequim era, n'esses momentos, tão agitado, tão tumultuoso como uma reunião do club dos Jacobinos em noites de peroração de Gouthon ou de Robespièrre. Gonzaga esquecia a sua qualidade de proprietário ; abancava e rugia - sempre nédio e roliço. Gibatanho, o moço, entornava, então, os licores pelas guèlas insaciáveis, sem fundo como o tonnel das Danaides. A confusão crescia, por entre o fumo as ameaças vinham morrer na chamma amarellada dos candieiros, junto dos trucidados exangues de Fernão Cortêz. Havia urros, havia silvos. Era a orgia politica em toda a sua amplitude. No canto dos parceiros do dominó a embriaguez da palavra alastrava, as pedras plácidas voavam com trajectórias de projéctil. Era o paroxysmo, uma tempestade de vozes desencadeadas: - Basta! - A elles, pois! -- Vamos! - Gloria! - A Pátria d' Albuquerque! - Arranco-lhe a vida! Constituição! - Quero beber-lhe o sangue! - Pátria livre! - E, n'uma acalmia, entre duas rajadas, o botequineiro Gonzaga, com a apparencia desconcertada de Silêno, com a alma forte de Camillo Desmoulins, berrava, exasperado :
Gonzaga, já cansado do negócio arranjou um sócio de seu nome Francisco Caetano de Freitas, «menos exaltado nas ideas partidárias e mais pratico no amealhar do custo dos respectivos liquidos.» , e ...
Quando o Gonzaga viu o caso mal parado, deitou o coração á larga, e poz-se a jogar a manilha, ultima reminiscencia dos seus serões alemtejanos, terminados, como convite á socéga, por um bom paio de Souzel, e uma garrafa de vinho velho de lavra propria.» (2)
Passemos ao "Café de Freitas" ...
Eduardo de Noronha, no seu livro "Estroinas e Estroinices", de 1922 escreveu:
«A parte occidental do Rocio, muito mais irrequieta e bulhenta que a oriental, povoou-se sempre de cafés, focos e pontos de partida de quantas arruaças germinam na capital. Tudo leva a crer que o "Freitas" date de 1845. Coincide com este anno a conclusão dos prédios do duque do Cadaval, obrigado a substituir os antigos barracões pelos actuaes edifícios. Aquelle titular, que procedeu a esses melhoramentos com accentuada má vontade, viu n'um instante tudo arrendado : moradias e lojas. Estas para armazéns, estabelecimentos de vários géneros e em especial botequins.»
4 de Junho de 1852
Quanto a 1845, não estou muito de acordo. Francisco Caetano de Freitas seria dono da "Loja de Freitas" sita na Rua dos Fanqueiros, 81 desde, pelo menos, 1843. Era uma loja que se vendia desde panos, tecidos de linho, toalhas, guardanapos e também presuntos, carne ensacada, fiambres, etc. Esta loja existiu até 1850 segundo anúncios publicitários da época. Ao mesmo tempo que desparecem os anúncios à "Loja de Freitas", aparecem os anúncios ao "Café de Freitas", a partir de 1852. Coloco duas hipóteses: ou Freitas chegou a manter as duas lojas em simultâneo por poucos anos - talvez enquanto unicamente sócio de Gonzaga -, ou o "Café de Freitas" começou a funcionar como tal a partir de 1850/1852, e não 1846. Talvez Eduardo de Noronha tenha considerado o início da sociedade com Gonzaga, o início do "Café de Freitas". Isto tudo são apenas suposições minhas ...
17 de Abril de 1848
Continuando no livro "Estroinas e Estroinices" ...
Conspirava-se no "Freitas" como agora no "Gelo",por toda a parte. A maioria dos lisboetas nunca deixa de conspirar. Uma noite, após a "Patuléa", na esperança de que os sargentos de caçadores 2 trouxessem o batalhão para a rua, sahíram d'alli Manuel de Jesus Coelho, Moraes Mantas e Brito Aranha. (...)
A' esquina do Rocio, onde hoje existe o elegantíssimo Stand da firma Rugeroni & Rugeroni, quasi pegado ao "Freitas", abria as portas o café do "Balão", designação que lhe provinha do appellido do seu proprietário. Decorridos dez ou doze annos, em 1854 ou 1856, passou a denominar-se do "Moreirai" depois do " Hespanhol" ou do"Canto do Muro". Este ultimo apodo incluia um qualificativo pouco agradável para a sua frequência, classifícavamn'a os malidecentes de indivíduos semelhantes aos que surgiam aos viandantes n'aquelle teniido sitio do pinhal da Azambuja.
Alongava-se até á rua do Príncipe. Em 1868 melhoraram-n'o e intitularamn'o "Café Europa". Acabou em 1872, para ceder o logar á livraria Mattos Moreira, inaugurada no anno seguinte, em 1873.»
Possivelmente por morte de Francisco Caetano de Freitas, o "Café Freitas" encerra e dará lugar por volta de 1899, ao "Café do Gêlo". A firma "Januario & Matheus Baptista" constituida pelos irmãos Januario Ferreira Baptista e Matheus Ferreira Baptista, foi a sua primeira proprietária.. Pode consultar a sua história neste blog no seguinte link: "Café Gêlo".
"Café do Gêlo" nas portas 64 e 65
Bibliografia:
(2) - "Os excentricos do meu tempo" de Luis Augusto Palmeirim, 1891

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