22 de julho de 2018

Cambista Testa

A casa de câmbios e venda de lotarias “Cambista Testa”, foi fundada em 1883 pelo membro republicano da elite financeira lisboeta José Rodrigues Testa, na Rua do Arsenal, nº 78 em Lisboa. Estaria “à testa” do seu negócio por vinte e seis anos, já que faleceria em 14 de Janeiro de 1909.

“Cambista Testa” em 1966

Muito próximo do “Cambista Testa”, nos números 56-64,  um concorrente “de respeito” o cambista “Antonio Ignacio da Fonseca”, casa fundada em 1866.

10 de Julho de 1883

A primeira referência publicitária ao “Cambista Testa”, a que tive acesso, data de 22 de Junho de 1893. Os negócios faziam-se em réis (câmbios, títulos de crédito) e a sorte tentava-se na lotaria também em réis.

O “Cambista Testa” dentro da elipse desenhada e anúncio de 22 de Junho de 1893

 

Entretanto em 1897, o “Cambista Testa” abria a sua filial na Rua dos Capellistas, 136-140 em Lisboa.

Em 26 de Abril de 1900 o jornal "Folha de Lisboa" noticiava e publicitava:

«Acaba de ser brindado pela Santa Casa da Misericordia de Lisboa, o feliz cambista Testa, da rua dos Capellistas, 136 e 140, e rua do Arsenal, 78, com a bonita cifra de vinte contos de réis.
Este honrado cambista não querendo de modo algum arrecadar nos seus cofres tão importante quantia deliberou distribuil-a pelos seus numerosos freguezes, e foi assim que todos aquelles que tiveram a fortuna de possuir o nº 2725 se encontraram de um momento para o outro com as algibeiras cheias de bellas notas do banco.
Como este nosso amigo tivesse recebido aviso de que no dia 25 lhe mandavam nova remessa de 12 contos de réis, participa-o por este modo, e os que desejarem serem contemplados com cem mil réis, pelo menos, corram a comprar uma cautella da firma d'este feliz cambista.
Nós, pelo sim pelo não, vamos tratar de mandar comprar uma cautella. Emquanto ha vento é que se molha a véla.»

15 de Abril de 1900

E realmente o “Cambista Testa” era bafejado pela sorte, já que em 1 de Novembro do mesmo ano de 1900, nova notícia no mesmo jornal “A Folha de Lisboa”, e pelos mesmos motivos: 

«Lá foi outra vez parar á casa d'este feliz cambista a sorte grande da loteria do dia 31 de outubro.
Nada menos que 12:000$000 foram distribuidos pelos frequentadores de tão acreditado estabelecimento.
Escusado será dizer que já ali se encontra á venda bilhetes e cautelas para a loteria do Natal, e que se espera dar a sorte grande.»

1908

1908 Testa

Mas não foi só nos jornais que este cambista foi referido. No livro “Contos y Narrativo do Insólito” de Afonso Henriques Ferreira pode-se ler a seguinte passagem:

«Amâncio travou a charola. à montra do Cambista Testa parámos. Amâncio sabia do vício do meu avô: cinquenta anos a jogar o mesmo número. Um bilhete inteiro que o cambista, metódicamente, lhe enviava pelo correio. Se ganhou prémio chorudo nunca se soube, nem a minha avó se dera conta. Abancámos num boteco ao lado do cambista:
-Alguma vez jogou no Testa?
-Joguei. »
 

Após a morte do seu fundador José Rodrigues Testa, em 14 de Janeiro de 1909, a casa “Cambista Testa” mudou de proprietários por diversas vezes como os anúncios publicitários que a seguir publico o comprovam. Em 1913 pertencia à firma “António Duarte Xavier, Lda.” e em 1931 já era propriedade da firma “Castelo & Diniz, Lda.”. Actualmente pertence á firma “Casa Testa - Comércio de Lotarias e Numismática, Unipessoal, Lda.”.

1913

1913 Testa

1931

1931 Testa

E “Se quer festa …” , em 24 de Dezembro de 1959

Em 1966, inaugura as renovadas instalações da Rua do Arsenal, sob o traço do arquitecto Francisco da Conceição Silva (1922-1982).

 

 

“Casa Testa”, actualmente

 

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de LisboaArquivo Municipal de Lisboa

19 de julho de 2018

Lambertini - Pianos, Música, Instrumentos

Nomes como Driesel, Francisco Manuel Ferreira, Ziegler, Haupt, Thibeau, Neuparth, Lambertini e Sassetti, faziam já parte da história, quer da produção, quer da comercialização de instrumentos musicais, na primeira metade do século XIX.  A segunda metade do século XIX, assim como o início do século XX, daria continuação a alguns e daria à iniciação no ramo e a implantação de muitos outros, caso da “Custódio Cardoso Pereira & C.ª”, fundada em 1 de janeiro e de 1860 no Porto.

A casa “Lambertini” foi fundada por Luiz Joaquim Lambertini (1790-1864), italiano, fabricante de pianos, pianista e afinador de pianos. Ao chegar a Portugal, em 1836, instalou a sua fábrica de pianos no palacete do Largo de São Roque esquina com a Travessa da Queimada. Além de quatro operários italianos, incorporaram-se nessa fábrica diversos oficiais e aprendizes portugueses. Em 1838 teve uma presença brilhante na exposição da "Sociedade Promotora da Industria Nacional".

Mas o hábil industrial era mau administrador e além disso a indústria estrangeira fazia-lhe uma feroz concorrência, e a fábrica não conseguiu sustentar-se na situação em que estava. Pelo que, em 1840, mudou-se para um estabelecimento mais modesto na Rua Jardim do Regedor, mudando-se, em 1844 para a Rua da Trindade, voltando depois para a Rua do Chiado, para finalmente se instalar no Largo do Passeio (actual Praça dos Restauradores), mas já sem a especialidade de construção de pianos, apenas venda e aluguer.

“Casa Lambertini” por volta de 1906

                                         Abril de 1911                                                                         Março de 1912

 

A “Casa Lambertini”, com a licença nº 454 registada e paga para o ano inteiro em 12 de Janeiro de 1861, localizava-se na rua oriental do Passeio (Público), no nº 2, em Lisboa, como armazém de pianos e instrumentos musicais. No ano seguinte à morte de Luiz Joaquim Lambertini, em 1864, os filhos Evaristo Lambertini e Ermete Lambertini, já gerentes desta casa que tinha prosperado e ganho prestígio a nível nacional e internacional, renomeiam a designação comercial da casa, passando a chamar-se “Lambertini & Irmão” localizada no, então, Largo do Passeio nº 8 a 26, (futura Praça dos Restauradores). A anterior loja tinha estado instalada na Rua do Chiado, 83-85. Recordo que na época, a Rua do Chiado era o troço que ia da confluência da, então Rua das Portas de Santa Catarina (actual Rua Garrett) com a Rua Ivens, até ao “Palácio dos Barcelinhos”, futuro edifício dos “Grandes Armazéns do Chiado”.

  

No limiar do séc. XX a “Casa Lambertini”, na Praça. dos Restauradores, 43 - 49, já era propriedade de um dos netos do bolonhês Luiz Lambertini, Michel’angelo Lambertini (1862-1920), declarando uma renda anual de 400$000 réis, sintomática da prosperidade económica da casa e da sua implantação no mercado, não atingindo, no entanto, os 600$000 réis declarados, no mesmo ano, pela casa “Sassetti & C.ª” fundada na Rua do Carmo, 56 em 1848.

                                                                                         1896                                                                                           

 

Como se pode observar pelas facturas publicadas de seguida, a designação de “Lambertini & Irmão” cessaria em 1894 e em 1895 já funcionava sob a nova “Lambertini”, vulgo “Casa Lambertini”.

                                  1892                                                                1894                                                   1895

  

1899

1907

                                           1903                                                                                          1908

 

Capas de partituras de música editadas pela “Lambertini”

  

                            Pianista Elisa de Souza Pedroso                                                Meninas com viola e piano

 

Michel'angelo Lambertini nasceu na cidade do Porto mas cedo se mudou para Lisboa, onde efectuou estudos musicais no “Conservatório Real de Lisboa”. A sua visão interdisciplinar da música levou-o a exercer funções tão diversas como as de pianista, maestro, compositor, musicógrafo e organólogo, para além de editor e comerciante. Foi o autor da primeira síntese da história da música portuguesa, publicada na "Encyclopédie de la Musique et Dictionaire du Conservatoire". Em 1920, fundou a “Sociedade de Música de Câmara”, a “Grande Orquestra Portuguesa” (1906-1908) e a “Caixa de Socorro a Músicos Pobres”. Promoveu a representação portuguesa na Exposição Musical de Milão em 1881, editou o "Diccionario Biographico de Musicos Portugueses", de Ernesto Vieira (2 vols., Lisboa, 1900) - ainda hoje uma obra fundamental. Foi um dos fundadores, director e redactor da revista "A Arte Musical" cujo primeiro número foi publicado em 15 de Janeiro de 1899.

Michel'angelo Lambertini (1862-1920)

  

“Sociedade de Música de Câmara”

 

Num âmbito cultural mais alargado, há ainda que referir a sua actividade como organizador e animador de eventos musicais e literários. A ele se deve, por exemplo, a primeira actuação em Portugal, em 1901, da Filarmónica de Berlim. Teve igualmente um papel decisivo na reforma do ensino da música em Portugal e era, também, um ávido coleccionador de pintura (possuindo telas de Columbano, Malhoa ou Machado de Castro), porcelanas, bronzes, pratas, e outros objectos, para além dos, já referidos, instrumentos musicais.

Livros editados pela “Lambertini”

 

O seu palacete na Avenida da Liberdade - actual “Wall Street Institute” - junto ao Victoria Hotel”, foi projectado, em 1901, pelo arquitecto veneziano Nicola Bigaglia (1841-1908), e mereceu uma menção honrosa doPrémio Valmor de Arquitectura de 1904. Posteriormente seria objecto de duas alterações importantes, a primeira em 1927 segundo projecto do arquitecto Carlos Chambers Ramos (1897-1969), e a segunda, em 1939, com projecto do arquitecto Raúl Tojal (1900-1969) com a construção de mais um piso. Era um pequeno museu, para além de centro de reuniões artísticas e intelectuais, onde ao longo de um espaço onde se reunia uma selecção criteriosa de objectos, registos e testemunhos de alguma forma associados à sua vida e obra, se desvendavam as múltiplas facetas que compuseram a sua personalidade e intervenção.

Casa de Michel’Angelo Lambertini

Artigo acerca da casa na revista “Illustração Portugueza” em 11 de Junho de 1906

Depois de acrescentado um piso

Michel’angelo Lambertini esteve na génese da criação do “Museu da Música”, quando, em 1911, consegue fazer-se nomear pelo governo para iniciar a recolha de instrumentos musicais, partituras e peças de iconografia musical dispersos em edíficios públicos e religiosos.

O objectivo era a criação de um museu, projecto a que Lambertini se dedica com todo o entusiasmo. Contudo, rapidamente o musicólogo se depara com a falta de vontade da classe governante, o que o leva a re-equacionar o projecto do museu, procurando a ajuda de particulares. Recorre então a António Augusto de Carvalho Monteiro (1848-1920) - “Monteiro dos Milhões” - também coleccionador, para que adquirisse a colecção de Alfredo Keil, em perigo de sair para o estrangeiro. Vende-lhe a sua própria colecção e propõe-lhe avançarem com o projecto em conjunto. Carvalho Monteiro aceita e cede um espaço para acomodação dos espécimes organológicos no seu palacete no Largo Barão de Quintela (antiga residência do Conde de Farrobo), onde se reúnem o conjunto das colecções Lambertini, Alfredo Keil e Carvalho Monteiro. A recolha continuaria até à morte de Carvalho Monteiro em 24 de Outubro de 1920, logo seguida da morte de Lambertini em 21 de Dezembro de 1920, altura em que a colecção perfaz um número superior a 500 espécimes. De fora ficaria a colecção Lamas (leiloada pelos herdeiros, em 1916), da qual algumas peças terão possivelmente sido adquiridas.

Carta de autorização de entrega

Quanto à loja “Lambertini”, esta encerraria em 1922, dois anos após a morte do seu proprietário, Michel’angelo Lambertini. No seu lugar instalar-se-ia a loja “Arameiro”, especializada em artigos em arame, e não só, e no início dos anos 60 do século XX já era o “Restaurante Arameiro”.

Loja “Arameiro” por altura da inauguração da “Estação dos CTT nos Restauradores”, em 10 de Julho de 1939

 

Restaurante “Arameiro” no início dos anos 60 do século XX

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Do Porto e Não Só, Biblioteca Municipal de Alpiarça