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16 de junho de 2019

Antigamente (148)

Feira de Belém em Lisboa


Exposição automóvel no "Palácio de Cristal" no Porto


Carro de propaganda ao "Papel Conquistador"


Posto da "Mobil" na estrada da Caparica em 1967



11 de junho de 2019

A "Tendinha" do Rossio

A "Tendinha" localizada na Praça D. Pedro IV (Rossio) em Lisboa, foi fundada em 1818. Apesar do painel de azulejos colocado no seu interior, indicar a sua fundação em 1840, o anúncio publicitário publicado no jornal "A Capital" de 8 de Abril de 1914, e que publico de seguida, refere que a mesma terá ocorrido em 1818 ...

A "Tendinha" (dentro da elipse) em 1881


Anúncio no jornal "A Capital" em 8 de Abril de 1914


A partir de 1840 a "Tendinha", pelas mãos do seu proprietário João Lourenço Represas, começou a comercializar o negócio de vinhos «com um typo de Collares e outro de Bucellas que era um verdadeiro delirio e um completo assombro. A medicina recommendava aos convalescentes a especialidade d'este Collares, conhecido pelo nome de Collares Ramisco e, embora os conhecimentos therapeuticos se tenham desenvolvido, a verdade é que os medicos ainda hoje não encontraram melhor tonico para aconselhar os seus clientes.»

Gravura de 1848


João Represas faleceria em 1894 deixando o seu estabelecimento à sua mulher, conhecida por Viúva Represas. Mais tarde suceder-lhe-ia, na gerência seu genro José Nunes Godinho, que era proprietário da "Rouparia Central" na Rua do Ouro.

Na revista "Serões" de  Julho de 1901, pode-se ler: «Dois passos andados,cheguei então á Tendinha, á celebrada Tendinha do afamado vinho de Collares, ponto de reunião de toureiros e aficionados de todas as estações do anno, onde só se discutem, touros, cavallos e ... mulheres.»

   

Quando no início do século XX José Godinho pensou em fazer obras e melhoramentos na "Tendinha", não faltaram os protestos «contra essa profanação .... Não, a "Tendinha" devia continuar assim mesmo, visto que o seu ramo de negocio não ficava prejudicado por se manter dentro de um velho relicario. E, todavia, se bem que com aquella aparencia modesta, o tradicional estabelecimento tem altos titulos nobiliarchicos, brazões de fidalguia que não são vulgares encontrarem-se.»

Os "Marialvas" e os "Nizas", linha nobre de boémios que marcaram uma época e definiram uma geração e «confirmaram o genio venturoso e bravo duma raça», ao regressarem das touradas e antes de se dirigirem para o "Marrare", ali discutir, junto de um cálice de precioso vinho, as vitórias e derrotas das arenas. Para exemplificar aqui fica uma passagem do livro "Philosophia de João Braz" da autoria de António da Silva Pinto (1848-1911) e editado em 1895:
«Volvidos mezes encontrei o bacharel, e a custo o reconheci. Estava um homem da côrte. Tinha perdido o ar embezerrado de parvalheira com pêllo e tomara os ares decididos de frequentador da tendinha do Rocio e do Marrare do Arco do Bandeira.»

Outras referências à "Tendinha" do Rossio poderão ser encontradas em livros de Fialho d'Almeida (1857-1911), na revista "Serões", etc.

A "Tendinha" (dentro da elipse desenhada) em 20 de Julho de 1928


«E era aquella mesma porta chapeada de ferro, eram aquellas mesmas paredes, pesadas e sombrias, era aquella mesma chave com trinta centimetros de comprimento. Somente, n'esse tempo, a "Tendinha" pagava dez moedas de aluguel de casa, ao passo que, presentemente, o senhorio exige-lhe seiscentos mil reis ...» citações anteriores retiradas do jornal "A Capital" de 10 de Agosto de 1916.

Em 1934, a fadista Hermínia Silva (1907-1993) cria para a Revista "O Zé dos Pacatos" no "Teatro Apolo", o fado "A Velha Tendinha", com música de Raúl Ferrão e letra de José Galhardo.

Disco de 78 rpm do fado "A Tendinha"



Aqui fica a letra:

Junto ao Arco de Bandeira
Há uma loja a Tendinha
De aspecto rasca e banal
Na história da bebedeira
Aquela casa velhinha
É um padrão imortal

Velha taberna
Nesta Lisboa moderna
É da tasca humilde e terna
Que mantém a tradição
Velha tendinha
És o templo da pinguinha
Dos dois brancos, da gimbrinha
Da boêmia e do pifão

Noutros tempos, os fadistas
Vinham, já grossos das hortas
Pró seu balcão caturrar,
Os fidalgos, e os artistas
Iam p'rá 'li, horas mortas
Ouvir o fado e cantar

A ver pelos primeiros 7 títulos dos quadros da Revista ...  1º - Propaganda dos vinhos. 2º - O nosso S. Martinho; 3º - Vinho velho, vinho novo. 4º - Folhas de Parra. 5º - Corpos gerentes. 6º - Fadistas e Marialvas. 7º - Tarde de Touros.


A "Tendinha" em foto dos anos 60 do século XX. Repare-se na balança de rua


Fadista Alfredo Marceneiro no interior da "Tendinha"


Já em 1941, a revista "Olisipo" escrevia:
«De entre as vendas de vinho da capital, tem particular fama a Tendinha do Rossio, junto ao Arco do Bandeira, sôbre cuja porta se vê ainda hoje um quadro alusivo ao que foi a locanda em 1840. Na loja guardam-se e estão à vista na montra as enormes chaves do primitivo estabelecimento à mistura com garrafas de vinho daquele tempo. Continua a ser muito frequentada bem como casa do Zé Dieguez, na Rua Paiva de Andrade, onde se reuniam os oficiais do copo, os marialvas e decilitreiros do século passado, e a adega do Mendonça, dos vinhos da Arruda, no largo da Guia, hoje de Martim Moniz.»

A "Tendinha" continua a comercializar a "Ginginha Sem Rival", produzida pela casa com o mesmo nome e localizada na Rua das Portas de Santo Antão, desde 1894, cuja história poderá ser consultada neste blog no seguinte link: "Ginja Sem Rival".



Depois de ter ficado na posse dos herdeiros até 1974, passou para a propriedade da firma "Calheiros e Carmo Ldª", actuais donos, servindo uma das melhores sopas e sandes de presunto da Beira Baixa. 

5 de junho de 2019

Luvaria Ulisses

A "Luvaria Ulisses", localizada na Rua do Carmo, em Lisboa, foi fundada em 1925 por Joaquim Rodrigues Simões, sendo, actualmente, uma das lojas mais pequenas e mais antigas da cidade.


Quanto ao nome "Ulisses" ...
«Separa o mundo do céu, as terras e os mares, por isso que ali acaba o litoral de Espanha, e em volta dela começa o oceano da Gália, e o limite setentrional, terminando ali o oceano Atlântico e o Ocidente. Diz-se, por isso, que Lisboa é uma cidade fundada por Ulisses.» José Augusto de Oliveira, trad. 1935 "Conquista de Lisboa aos Mouros" (1147), Lisboa, CML

A “Luvaria Ulisses” é um dos sete estabelecimentos que foram construídos, a partir de escavações para o efeito, na “Muralha do Carmo”. Esta forte barreira de alvenaria, foi construída após o terramoto de 1755, para consolidação do “Monte da Pedreira”, junto às ruínas do Convento do Carmo, e que inicialmente se estendia para Norte até à Rua do Príncipe, actual Rua 1º de Dezembro.

Muralha do Carmo, à direita na foto


Em 1901 abrem as lojas até ao número 87, inclusive, até 1917 altura em que o o comerciante Joaquim Rodrigues Simões - que integrou o executivo camarário entre 1919 e 1923 - requer autorização para construir estabelecimentos na parte ainda desaproveitada da Muralha. Pelo que em 1920  é submetido à Câmara um projecto onde se pretende construir na parte livre, três estabelecimentos, compostos de loja e sobre-loja; o Ministério das Obras Públicas aprova o projecto do engenheiro Artur Cohen, para na então parte cega da muralha se abrirem estabelecimentos, visto reconhecer-se que a iniciativa não punha em perigo a muralha. As obras durariam 4 anos, pelas dificuldades na perfuração; verificou-se que além da Muralha, que é dentada pelo lado interior, agarrando-se assim à estrutura dos terrenos. O engenheiro Domingos Mesquita dirigiu a construção no que respeita a cimento armado, sendo toda a obra finalizada por parte do Estado, pelo engenheiro Valério Vilaça.

Planta de 1882


Durante o cortejo camoniano incluído nas Festas da Cidade, em Junho de 1913


Finalmente, em 1924 instalam-se na “Muralha do Carmo” a “Casa Atlas” (n.º 87-D), a Companhia “Wagons-Lits” (n.º 87 C); “Ourivesaria Raúl Pereira & C.ª, Ltda.”, (n.º 87-B) - actual "Joalharia do Carmo" - e a Joaquim Rodrigues Simões é dada a concessão da loja com o nº 87-A, pelo prazo de 25 anos, onde depois de manter apenas um escritório na sobre-loja, abriria, no espaço que servia exclusivamente de entrada para a mesma, a “Luvaria Ulisses” em 1925, cabendo à Fazenda Pública 20 % das rendas das lojas da Muralha.

Da esquerda para a direita: "Luvaria Ulisses", “Ourivesaria Raúl Pereira & C.ª, Ltda.”, "Wagons-Lits", "Casa Atlas"


O interior da "Luvaria Ulisses", com traça estilo "Império", foi da autoria de Carlos de Alcântara Knotz, mestre entalhador da extinta, e famosa, casa de móveis e decorações "Barbosa & Costa, Lda." localizada no Largo Rafael Bordalo Pinheiro. Quanto ao seu exterior, com a sua fachada em cantaria seguindo as linhas neoclássicas foi projectada pelo Engº Arthur Guilherme Rodrigues Cohen.


Em 1940 o seu proprietário, Joaquim Rodrigues Simões, abriria uma pequena fábrica de confecção de luvas, na Rua dos Correeiros. Em 1949 Artur Mendes, antigo funcionário desta loja entrava para a sociedade, vindo a falecer em 1977.

Seria na década de 70 do século XX que Carlos Carvalho entraria para a "Luvaria Ulisses" como funcionário e mais tarde tornar-se-ia sócio da firma proprietária, cargo que mantém actualmente.





No site desta loja pode-se ler:
«A decoração da loja, que permanece intacta desde a sua fundação, é constituída por móveis de inspiração império, que se coadunam harmoniosamente com a fachada neoclássica.
A Luvaria Ulisses, última casa em Portugal com venda exclusiva de luvas, que desde os primeiros tempos teve como clientes a elite política, cultural e artística da cidade, mantém-se nos nossos dias fiel aos princípios que a nortearam.
A produção conta com uma equipa de profissionais altamente qualificados, mantendo-se todos os processos de fabricação inalterados, sendo a componente artesanal predominante. As diversas pelarias são de primeira qualidade, fruto de uma permanente pesquisa do que de melhor se nos oferece a nível mundial, o design distingue-se entre o clássico e o sport wear, indo ao encontro das exigências da nova geração.»

2 de junho de 2019

A Enceradora

"A Enceradora", propriedade da firma "Joaquim Lopes & Bento, Lda.", foi fundada em 17 de Dezembro de 1927, na Avenida da República, em Lisboa, ao mesmo tempo que abria um escritório de representação na cidade do Porto, na Rua dos Poveiros 110 -1º. Mais tarde teria um distribuidor no Funchal, a “Casa Londina”.

19 de Dezembro de 1927


Fabricantes da cera "Encerite", podia-se ler no painel publicitário na entrada da sua loja: «Executa todos os trabalhos de aplainar, raspar, envernizar, polir e encerar, soalhos, lambris e mobilias. Imita parquets e modifica soalhos de taboa larga (sistema inglez). Vende todos os artigos destinados a limpeza domestica».
Na "Grande Exposição Industrial Portuguesa” de 1932 e 1933 seria premiada com a medalha de ouro.

“A Enceradora” com o seu carro “Dodge Brothers” Touring Convertible, com a propaganda à cera “Encerite”



                           
17 de Dezembro de 1927                                                          19 de Dezembro de 1927        

“A Encerite” com o edifício “Prémio Valmor de Arquitectura” de 1923 ao seu lado direito na foto




No início dos anos 40 do século XX, e consequência da forte expansão e sucesso dos seus negócios, muda de instalações para a Estrada das Laranjeiras, em Lisboa, mais adequadas a dar resposta ao elevado nível de produção, mantendo a sua loja na Avenida da República, 47. Seria nessa altura que uma nova Gerência, introduz técnicas mais avançadas de produção, assim como novos métodos de gestão, que terá ajudado "A Enceradora, Lda." a resistir ao difícil período da II Guerra Mundial, mantendo-se sempre em laboração.

Dezembro de 1932



Nos anos 80 do século XX, nova necessidade de mudança de instalações se impõe, a fim de aumentar quer a produção quer a comercialização de novos produtos, e é adquirido um novo espaço industrial na localidade de Olival Santíssimo, em Caneças.

24 de Outubro de 1977



"A Enceradora, Lda." viria a ser adquirida pelos funcionários no início do século XXI, mudando, mais uma vez, as suas instalações, desta vez para o Casal do Marco, na Margem Sul do Tejo, dando continuidade à sua forma artesanal de produção, mantendo os parâmetros de qualidade exigidos em sintonia com as novas tecnologias.

Catálogo actual



Com a gerência dos irmãos Luís Gonçalves & Rui Gonçalves, continua em funcionamento, no Parque Industrial do Soutelo, Foros da Amora.

28 de maio de 2019

Aeroporto de Lisboa (21)


Vista aérea do Aeroporto de Lisboa nos anos 50 do século XX


Notícia na "Revista Municipal" em 1942


Nota: O Aeroporto de Lisboa entrou ao serviço em 19 de Outubro de 1942.



Construção do terminal para vôos domésticos


O mesmo Terminal depois de concluído


15 de maio de 2019

Ginja Sem Rival

A loja "A Ginginha Sem Rival", foi fundada, por volta de Outubro de 1894, na, Rua de Santo Antão, em Lisboa, por João Manuel Lourenço Cima, avô dos actuais proprietários.


"Ginjinha Sem Rival" dentro da elipse desenhada, em foto dos anos 60 do século XX


Anúncio publicitário mais antigo a que tive acesso datado de 10 de Outubro de 1894


Nos rótulos das garrafas pode-se ler: «Esta casa nunca concorreu a nenhuma exposição nacional nem estrangeira».


"Granito" outra bebida muito em voga na altura


Além de comercializar o licor de ginja - «bebida peitoral e digestiva" -, capilé (ou xarope de avenca) e groselha, também ficou famosa pela comercialização de outra bebida: o "Eduardino". Este nome foi atribuído em homenagem ao palhaço Eduardo (visível nos rótulos) e que actuava ali bem perto no "Coliseu dos Recreios".
«Certas versões da história dizem que esta teve lugar antes de um espetáculo (para inspirar) ou depois (para desanuviar). O certo é que Eduardo compôs num rasgo alegre de inspiração uma bebida com a esperada ginja mas também com anis e outros cheirinhos. A composição agradou tanto que pegou, em pouco tempo apareceu engarrafada e rotulada. Tornou-se marca registrada em 1908 e hoje é parte integrante da paisagem da loja.» in: Lojas com História

Cartaz


Rótulo


A propósito de "A Ginjinha Sem Rival", a revista "Olisipo" em Outubro de 1942 escrevia ...


«A ginginha bebe-se em pequenos copos, onde o taberneiro, com o gargalo da garrafa sufocado pela rôlha, deita uma ou duas ginjas, cujos caroços os fregueses veem roendo pela rua fora, depois de sborearem a polpa do fruto.» in revista "Olisipo" - Eduardo Fernandes (Esculápio)-1941

Em 8 de Novembro de 1894 ...
                                                                                             


A actual "Ginja Sem Rival", localizada na  Rua das Portas de Santo Antão pertence, à firma "J. Manuel L. Cima (Herdeiros), Lda.", constituída pelos netos do fundador. Abre logo pelas 8 horas da manhã e, preservando a receita de antigos licores que deixaram de ser comercializados, continua a ser fornecedora de licor de ginja para outras casa de Lisboa, como a mui conhecida e antiga "Tendinha do Rossio", junto ao Arco do Bandeira.

Fotografias actuais do estabelecimento "Ginja Sem Rival"








Recordo que já em 1840, tinha sido fundada no Largo de São Domingos, e pelas mãos do galego Francisco Espinheira, outra casa famosa: "A Ginjinha". Assim como a "Ginja Sem Rival", também esta casa ainda existe.