Restos de Colecção

3 de julho de 2026

"Photographia Ingleza" de "J. & M. Lazarus"

A casa "Photographia Ingleza" foi fundada em 1 de Maio de 1909, na Rua Ivens, 53, em Lisboa., pelos irmãos ingleses Joseph Lazarus (1876-1940) e Maurice Lazarus (1866-1949), girando sob a firma "J. & M. Lazarus".  Decorridos três dias após a inauguração foram oficializados com o título de fotógrafos da Casa Real. 


1901


Joseph Lazarus (1876-1940)


Rua Araujo num postal da autoria de "J. & M. Lazarus"

Estes dois irmãos, naturais de Durham Sunderland, Nordeste de Inglaterra iniciaram a sua actividade de fotografia na cidade de Lourenço Marques, em Moçambique, por volta de 1899, após a sua família judia ter rumado a Durban (África do Sul) em 1883.

Em 1899, Joseph Lazarus com 23 anos e Maurice Lazarus com 33 anos partiram de Durban para Lourenço Marques e inauguraram, um dos maiores e bem sucedidos estúdios fotográficos com o nome comercial "J. & M. Lazarus". Tiveram uma loja de fotografia na Rua Araújo e depois no Avenida Building, em Lourenço Marques entre os anos 1890 e cerca de 1908. Foi o primeiro estúdio fotográfico em Lourenço Marques na produção em série de postais ilustrados e na publicação do primeiro álbum fotográfico designado de "A Souvenir of Lourenço Marques" (1901) seguindo-se mais dois álbuns fotográficos "A Souvenir of Beira" (1902-1903) e "Views of Lourenço Marques" (1906).

 



Cais de embarque de passageiros para os navios


1906

As fotografias de Lourenço Marques e Moçambique, numa fase de mudança de uma sociedade agrária e rural para os primórdios da modernidade, foram editadas em diversas revistas, jornais nacionais e internacionais. Produziram registos fotográficos de elevada importância documental e cobriram a visita oficial de Luís Filipe de Bragança, Príncipe Real de Portugal, no Verão de 1907, às colónias portuguesas em África.

Depois de terem vendido a sua loja e estúdio em Lourenço Marques a Sidney Hocking, entre 1908 e 1909, os dois irmãos emigram para Lisboa e instalam um estúdio na Rua Ivens, 53, inaugurado em 1 de Maio de 1909, onde trabalhara o fotógrafo João Carlos Coutinho entre 1906 e 1908. Provavelmente essa mudança para Lisboa se deu na sequência da viagem do Príncipe D. Luís Filipe às Colónias, cuja passagem por Moçambique foi profusamente documentada pelos irmãos Lazarus e publicada na imprensa ilustrada de Lisboa, como a revista "Occidente". 


20 de Julho de 1907

Lembro que desde 1897, nesta Rua Ivens, no nº 28, já funcionava a "Photographia Julio Novais", desde que Julio Novaes tinha abandonado a gerência da "Photographia Bastos", sita na Calçada do Duque 19-25. Neste endereço na Rua Ivens, 28 tinha funcionado, até 1896, o "Instituto Photographico" , de "Arnaldo Fonseca & Commandita".


12 de Janeiro de 1902

Chegados a Lisboa, Joseph e Maurice Lazarus cedo se distinguem pela qualidade dos seus trabalhos e manter-se-iam em actividade até 1939.


1 de Maio de 1909


Loja com o toldo, nº 53 onde esteve instalada a "Photographia Ingleza". Mais tarde mudou-se para a loja ao lado, nº 59 (loja fechada com porta central e duas montras e fachada em ferro)


Dentro do rectangulo a amarelo localização na Rua Ivens da loja, nº 59 onde funcionou por último a "Photographia Ingleza"

A "Photographia Ingleza" veio ocupar a loja onde tinha funcionado a "Photographia de Lisboa" , entre 1906 e 1908 e propriedade do fotógrafo João Carlos Coutinho.


1908


1 de Julho de 1912


25 de Agosto de 1913


1915


25 de Agosto de 1916

Produziram fotografias e postais coloridos da mais elevada qualidade gráfica do seu tempo e foram autores de várias capas da "Ilustração Portuguesa".


17 de Novembro de 1913 (foto da "Photographia Ingleza" )

Em 3 de Dezembro de 1925 o jornal "Diario de Lisboa" publicou uma entrevista a Joseph Lazarus que passo a transcrever:

«Desde 1908, que Lisboa está a par do melhor que lá fora se faz em fotografia.
Porque, desde 1908, raro é o ano em que a Fotografia Inglesa de J. & M. Lazarus, não envia a lnglaterra e a França o seu proprietario, sr. Joseph Lazarus-que é um apaixonado pela sua arte e que lhe conhece todos os segredos.
Justamente agora, o sr. Joseph Lazarus acaba de regressar de uma dessas viagens de estudo. Não havia, portanto, melhor pretexto para ouvir da sua boca algumas impressões que interessassem o leitor.
Foi no seu «atelier» da rua Ivens, onde ha uma multidão de fotografias, de aguarelas, de aguas.fortes e de molduras nacionais e inglesas, que nos encantam pela sua beleza, que se realizou a conversa :
-Visitei agora quasi toda a Inglaterra e Paris, em busca de coisas novas em fotografia. Vi tudo quanto se faz de mais moderno e de mais perfeito. E devo confessar que na provincia encontrei trabalhos muito melhores do que propriamente em Londres.

-Novos estilos ?
- O nosso estilo deste ano, que já iniciámos, é a fotografia representando aguas-fortes. E' o que ha de mais moderno. Em Inglaterra, só os melhores - e muito poucos - estabelecimentos o fazem, por agora. E isto, sobretudo, porque é um genero muito dificil, exigindo bastante estudo e cuidado.
-E em Portugal ha artistas que o possam fazer desde já?
-Lancaster - o artista da nossa casa - é, desde muito novo, um admiravel pintor a oleo, a aguarela, etc., e um retratista do maior gosto artistico. Para esta especialidade, fizemos com ele um novo contracto. E vamos agora abrir uma nova exposição permanente dos trabalhos realisados. A nossa casa está completamente renovada, possuindo actualmente uma explendida sala de exposições que pode ser visitada por toda a gente, sem obrigação de mandar fazer qualquer fotografia.
-Na Exposição das Artes Decorativas de Paris ...
-Adquiri numerosas gravuras, aguas-fortes, coloridas e «pointes sèches» que estão já á venda, juntamente com aguarelas inglesas.
Falámos de molduras-que a casa Lazarus foi sempre a que melhores e mais belos modelos apresentou:
-Temos uma fabrica propria, onde fabricamos bastantes. E estamos agora a executar la os melhores modelos adquiridos em Londres e na Exposição de Paris. Além disso, constantemente nos chegam molduras de Inglaterra.
-Tem algum plano de futuro?
-O meu plano é hoje o de sempre: fazer o melhor possivel pelo menor preo possivel ...»



Corpo Médico Militar em 1917 (foto da "Photographia Ingleza" )

"J. & M. Lazarus" foi responsável pela produção de retratos de uma elite burguesa. Joseph Lazarus,  cerca de 1930, viria a ser agraciado com uma condecoração do governo português.

«Por ocasião da nomeação de Oliveira Salazar para o cargo de Presidente do Conselho, a quatro de Julho de 1932, conheciam-se muito poucos retratos seus. Na maior parte dos casos a sua imagem era representada com o recurso a uma fotografia realizada na Fotografia Inglesa, muito provavelmente aquando da sua primeira e fugaz passagem pelo governo da ditadura militar, em 1926.»


Doutor Oliveira Salazar, em 1928, e em foto da "J. & M. Lazarus"



Na "Revista do Ar" de Fevereiro de 1938


1942

Tendo mantido a atividade da "Lazarus" (antiga "Photographia Ingleza" ) até cerca de 1944, os dois irmãos permaneceram em Portugal até às suas mortes. Joseph faleceria em 1940 com 64 anos e seu irmão Maurice em 1949 com 83 anos. Ambos seriam sepultados no cemitério dos judeus em Lisboa.

Bibliografia:

- Tese de Doutoramento em História de Arte "Estrelas e Ases: o retrato fotográfico em Portugal (1916-1936)" de Paulo Artur Ribeiro Baptista - FCSH - Outubro de 2015

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, The Delagoa Bay World, Africa in the Photobook

28 de junho de 2026

"Bazar do Povo" - Brinquedos

A já centenária casa de brinquedos "Bazar do Povo", foi fundada por Antonio Thadeu, na Rua do Ouro 148-150 em Lisboa, segundo consegui apurar, por volta de 1893, e com a denominação de "Grande Bazar do Povo", como aparece na primeira referência publicitária que encontrei e reproduzo seguidamente. Inicialmente não eram os brinquedos o seu principal negócio, mas quinquilharias, brindes, artigos para a casa, etc. como se poderá ver no próximo anúncio de 1900. A firma fundadora "Antonio Thadeu & C.ª" viria a ser constituída só em 22 de Fevereiro de 1905.

"Bazar do Povo" à direita da "Tabacaria Marques" em 1904

Aviso de 7 de Novembro de 1894


1898

1900

Nota: a referência anterior ao "Grande Bazar do Povo" de 1898, foi retirada do "Anuario del comercio, de la industria, de la magistratura y de la administración" da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional de España. 

O jornal "A Capital", em 29 de Junho de 1916, escrevia acerca do "Bazar do Povo":

«Ali mesmo no coração da rua destaca-se uma casa cheia de um verdadeiro formigueiro de objetos de formas caprichosas e delicadas do cores vivas e saltitantes, attrahindo e fixando o espirito em uma irresistível seducção. São toda a sorte de brinquedos que fazem a felicidade das creanças o que são até uma deliciosa surpreza para os adultos; pequenas estatuetas lindas jarras, porcelanas do Saxe, molduras espelhos artísticos, etc. e etc. Todo um mundo de doirada phantasia, numa completa realização das mais inverosímeis cubiças dos nossos pequeninos.
Estamos, leitor, no «Bazar do Povo», na rua do Ouro, 148 a 150, que pertence presentemente a firma Joaquim Thadeu & C.ª. O «Bazar do Povo» vem acompanhando rigorosamente toda a efervescencia d'esse progresso que se vem manifestando em todos campos de atividade humana.
Quando as bonecas, quando os velocipedes, quando os «carros» e os «cavallos» obedeciam a linhas rudimentares, a formas imprecisas, pouco estheticas, o «Bazar do Povo» contentava assim os petizes.
Hoje, porem, que até o gosto infantil se tornou mais exigente perante a marcha dos inventos, dos engenhos, das novidades, o «Bazar do Povo» vae-lhe na esteira.»

Em 17 de Janeiro de 1943, deixaram de fazer parte da "Joaquim Thadeu & C.ª ", Joaquim Thadeu e João Thadeu, «por virtude das cessões que fizeram aos seus consócios Srs. João dos Santos Tadeu e José Pires Thadeu (...) O capital social é de 10.000$00 pertencente aos dois sócios João dos Santos Thadeu e José Pires Thadeu na proporção de 5.000$00 a cada um (...) »


Na "Revista de Turismo" de 1962



Exemplos de antigos brinquedos



Em 24 de Março de 1970 a firma "Joaquim Thadeu & C.ª " tinha como sócios, em quotas de proporção igual, João dos Santos Tadeu, Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, e um capital social total no valor de 30.000$00. Em 5 de Abril de 1973 este capital social viria ser elevado a 300.000$00  continuando as quotas proporcionalmente iguais.

Em 13 de Outubro de 1976, e por escritura pública os sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, transformaram a sociedade "Joaquim Thadeu & C.ª " numa sociedade comercial por quotas de responsabilidade limitada denominada "Pires & Thadeu, Lda.", tendo sido admitida como nova sócia D. Maria do Patrocínio Sequeira Tadeu com uma quota de 150.000$00, igual à dos outros dois sócios, perfazendo um total de 450.000$00.


Em Setembro de 1996 , a sociedade continuava a ter como sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos. É desta altura que retirei do "Jornal dos Clássicos", não só a foto anterior do exterior e 3 fotos seguintes do interior da loja, como as seguintes passagens:

«Há uma atmosfera esquisita, nos dias de hoje, no Bazar do Povo. O encantamento, a magia dos brinquedos, testemunha frases de certo modo desgostadas em relação ao ambiente actual deste tipo de lojas. Que continuam a ter os seus clientes fiéis, como aconteceu com o jovem senhor que procurava jogos de família (do tipo Monopólio), ou com o senhor menos jovem que veio saber das novidades da Bburago… Ou clientes infiéis, como eu, que no fim de todos estes anos acabei por trazer uma estação para o comboio eléctrico HO do meu filho…O Bazar do Povo ficou assim conhecido, muito, mas muito antes das conotações de “povo” de 25 de Abril, sendo uma loja centenária; não tão antiga como a dos carimbos que quase lhe fica defronte. Essa datando de 1891, mas diz-se que remonta a pouco depois… no entanto, a escritura oficial data de 1905, com o nome que a casa teve no início, bem como os que se seguiram, sempre na família Thadeu – tal como hoje, já que é explorada por sobrinhos-netos. E – desfaçam-se as dúvidas – do Bazar Thadeu (da Rua Augusta) apenas há ligações familiares.


Os sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos


Últimas 4 fotos (anteriores a 1996) foram publicadas no site "Jornal dos Clássicos", em Setembro de 1996 

“Tenho postais de 1893 em que já apareceu a casa”, diz um destes sócios. Ao longo de todos estes anos, a casa sempre teve do que melhor existia em brinquedos, num tempo que não havia importadores: “A Schuco, por exemplo, era importada directamente; em comboios eléctricos vendemos Marklin, Lima, Jouef, Lilliput, Tri-ang… agora vendemos mais Lima. Tivemos muita coisa da Chad Valley – o que se vendia mais eram os bonecos – os bebés, eram o artigo número um da Chad Valley…” – Mas tenho um tractor deles e… – “Tractores eram os da Merit… e uns muito bem feitos, da Brittains”. Todas as coisas têm a sua “febre”. Na década de 60, a “febre” grande foi para os comboios eléctricos e pistas de automóveis. Foi a grande loucura. Depois entrou-se mais no campo dos brinquedos técnicos – como o Mecano, que antigamente era o mais vendido. E que também era importado directamente pelo “Bazar do Povo”, tal como os Dinky Toys – e não só: “Como as miniaturas… fomos o primeiro importador em Portugal da Quiralu… a Norev tal como a Heller, foi nossa”. Havia clientes que iam até ao Bazar do Povo só por causa dos modelos: “Ainda hoje temos gente que vem apenas pelas miniaturas”. (...)
É para lhe contar umas histórias, porque apesar de tudo a boa disposição continua a existir no Bazar do Povo, já que tanto José João Thadeu como Joaquim Manuel Pires, os sobrinhos-netos do fundador têm sempre uma brincadeira ou um diboche pronto a sair. E histórias que ficaram na história: “A primeira coisa que aqui se vendeu foi uma chaminé de candeeiro – e o dinheiro ainda ali está dentro”, diz com um sorriso José João Thadeu, recordando o tamanho grande da moeda. Bem vindos ao ano 2000!»





3 fotos do livro "Lisboa: Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997


Por escritura pública de 15 de Dezembro de 1999, Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, cedem as suas quotas, na "Pires & Thadeu, Lda." aos novos proprietários: Maria Rosa Capelo Pinto, sócia-gerente, Carla Sofia Pinto Almeida e Bruno Miguel Capelo Pinto de Almeida com um capital social total de 5.000 euros.


Exterior e interior em fotos de 2013



2018

Esta casa com pelo menos cerca de 130 anos de existência, felizmente ainda funciona, com os seus brinquedos, na Rua do Ouro, 148-150.


"Bazar do Povo" em captura de 2024 via Google Maps


2025

23 de junho de 2026

"José Mayer" - Casa de Penhores

A Casa de Penhores "José Mayer" foi fundada em 12 de Fevereiro de 1917, por José Mayer, na Rua do Loreto, 18-20, em Lisboa. José Mayer, natural da província, veio para Lisboa onde se empregou na Casa de Penhores de António Pedro da Silva (ex- "Hermida & C.ª " ), na Rua das Gáveas, 10-1º. 

A casa "José Mayer" negociava simultâneamente em penhores, antiguidades e jóias. José Mayer, falecido em 1962, foi penhorista, antiquário, ourives, fotógrafo amador, e como grande aficcionado da tourada fundou os grupos tauromáquicos "Sector I" e a "Festa Brava".


1994


José Mayer e seus filhos Ivo (esq.) e Augusto (dir.) em foto de 1956


13 de Fevereiro de 1917


Primeiro penhor na casa "José Mayer"


Na 2ª porta à direita, nº 10, Casa de Penhores onde José Mayer tinha trabalhado até 1917

Em 1919 José Mayer junta-se a Marcos Pereira Ramalheira e fundam na Avenida Duque d'Ávila, 177-179, em Lisboa, outra Casa de Penhores: a "Monte Auxiliar", propriedade da firma "Mayer & Ramalheira, Lda".

 
                                           1949                                                                                  1964


Em 12 de Fevereiro de 1942 a casa "José Mayer" comemorou as suas bodas de prata. Na ocasião a "Gazeta dos Caminhos de Ferro" publicou uma nota evocativa, da qual retirei o seguinte excerto:

«José Mayer, nome prestigioso no meio comercial de Lisboa, e pessoa com quem os amigos e «aficionados» do Grupo Tauromáquico «Sector I» sempre contam -pois a sua colaboração é sempre preciosa - festejou, no dia 12 do corrente, as bodas de prata do seu estabelecimento de antiguidades e penhores, duma maneira digna de especial registo e louvor, não só permitindo que todos os penhores depositados até à importância de 12 escudos fôssem levantados gratuitamente, mas distribuíndo também esmolas aos pobres protegidos pelos jornais da capital.
Á noite, na Pastelaria «Marques», José Mayer reüniu em primoroso banquete, que decorreu na mais cordial distinção, numerosos amigos, tendo êstes elegido a mesa de honra, que foi presidida pelo sr. dr. Ferreira Deusdado, e de que fizeram parte os srs. Marcus Ramalheira, Coronel Rêgo, dr. Sant'Ana Rodrigues, dr. Sabido da Costa, Henrique Ferreira Martins, Alexandre Ferreira, dr. David Gonçalves. (...)
José Mayer, alma generosa, e modêlo de amigo, poude vêr, mais uma vez, quanto a sua honestidade e o seu carácter são sinceramente admirados.»


1 de Janeiro de 1934


1 de Julho de 1941


28 de Abril de 1947

Em 1969 a família Mayer possuía duas casas de penhores, a original na Rua do Loreto, gerida por Augusto Mayer, e uma segunda na Avenida Almirante Reis, gerida por seu irmão Ivo Mayer, e uma casa de antiguidades em São Pedro de Sintra, dirigidas pelos dois filhos de José Mayer, Augusto e Ivo Mayer.

No início do século XX, muitos dos penhoristas em contacto permanente com peças belas e valiosas, convivendo com uma clientela requintada, adquiriram o gosto dos objectos de arte e, avaliando as possibilidades de um tal negócio, tornaram-se antiquários e coleccionadores.

A casa "José Mayer" ficava no n.° 18 da Rua do Loreto, uma porta pequena entre duas montras. Liam-se vários letreiros: PENHORES; ANTIGUIDADES; LEILÃO; OURIVESARIA; COMPRA E VENDE ... O interior lembrava mais um Antiquário que uma Casa de Penhores. Nas paredes, nas vitrinas, peças de valor, porcelanas, cristais, relógios antigos, quadros ... É que as Casas de Penhores também se dividiam em classes, em categorias, um estabelecimento do Chiado tinha uma clientela diferente da de um estabelecimento situado num bairro popular A "José Maver" era especializada em objectos de arte. «Claro que também tem muitos clientes daqueles que vão «entregar ao usurário umas coisinhas» como diz a canção, compra e vende toda a espécie de artigos, roupas, electrodomésticos, etc., mas tudo isso está catalogado, guardado nas traseiras, armazenado».



Augusto Maria Pinto Mayer - irmão de Ivo Pinto Mayer e Isabel Maria Pinto Mayer - como o pai, penhorista, antiquário, ourives, coleccionador, aficcionado, amador de música jazz e fotografia, era uma «figura de Lisboa». Foi neste contexto que a revista "Século Ilustrado" o entrevistou, em 8 de Julho de 1969, e que passo a transcrever na sua maioria:

Augusto Maria Pinto Mayer

«Ao contrário do que a sua voz decidida e autoritária ao telefone parecia indicar, Augusto Mayer é um homem de aspecto simples, simpático, afável, bem humorado ... A sua secretária, grande e saída, está colocada mesmo atrás do balcão, protegida apenas por um tabique, para poder estar permanentemente em contacto com o negócio. Porque Augusto Mayer gosta da sua profissão:

- Como nas outras profissões é preciso gostar. Fui criado neste ambiente, habituado desde pequeno a conviver com peças antigas. Não, nunca pensei seguir outra profissão, acabei o liceu e vim logo para aqui, foi esta a minha faculdade ...

- Foi o meu pai que fundou a Casa, há 52 anos. Eu dirijo este estabelecimento e o meu irmão o da Almirante Reis. A minha irmã está em casa mas também é proprietária assim como a minha mãe ... Propriamente a respeito do negócio de penhores pouco posso dizer, é um negócio estritamente confidencial, há certas coisas que não podemos divulgar.

- Hoje vem mais gente porque é dia 8 ... a renda da casa ... O negócio varia conforme as alturas, os princípios dos meses são mais férteis em  empréstimos, há sempre muitas despesas, letras ... Depois baixa e volta a subir no fim do mês quando o ordenado se acaba. Temos vários clientes regulares, clientes com muitos anos de casa, alguns vêm todos os meses, enfim, depende ... em certas épocas até vêm todos os dias! As pessoas preferem empenhar a vender porque podem voltar a levantar os objectos se tiverem possibilidades e, além disso, há coisas que ninguém quer comprar. Aqui sempre recebem alguma coisa, talvez uma importância um pouco inferior ao valor dos objectos. Por exemplo, uma pessoa pretende vender uma peça por 500$00, nós podemos emprestar 400$00 e assim sempre arranja algum dinheiro rapidamente e se quiser pode recuperar, se pagar os juros, claro. A maioria, mais de 50 por cento vem levantar os objectos. Outros, por diversos motivos, abandonam. (...)


Interior da "José Mayer" na Rua do Loreto em 1994

-Temos clientes de todas as classes sociais. Pessoas até muito conhecidas. Claro que não posso dizer nomes, como já disse, este é um negócio confidencial. Em princípio pode parecer que as pessoas escolhem o estabelecimento mais próximo mas nem sempre assim acontece. Há quem vá empenhar as coisas muito longe de casa, até chegam a vir do Porto a Lisboa!

No fundo não há motivo para as pessoas se envergonharem, isto é o negócio de um banco. A única diferença é que enquanto no banco a garantia é um aval bancário, o banco só empresta se um comerciante avalisar as letras, para nós a garantia é o objecto. Funcionamos exactamente como um banco. Ora ninguém se envergonha de pedir dinheiro a um banco e portanto não há razão para se envergonharem de pedir um empréstimo numa casa de penhores. Nomes não posso dizer mas pelos objectos que estão expostos, pode-se calcular, que as pessoas que vêm empenhar objectos destes não podem ser pessoas , sem posição, sem categoria. Nós temos peças empenhadas em troca de empréstimos na ordem dos 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 contos! Não há hipótese de uma pessoa vir empenhar um objecto de 70 ou 80 contos se não tiver esses objectos em casa e por conseguinte pode ver a categoria da pessoa ... (...)


Interior da "José Mayer" na Rua do Loreto em 1994

A família Mayer aliás tem colecções particulares. 

-Já em miúdo coleccionava tudo o que apanhava, desde aqueles retratos de futebolistas que vinham dentro dos rebuçados. Colecciono tudo, mesmo coisas sem valor, etiquetas de hotéis, de companhias de aviação, emblemas, caixas de fósforos ... Agora estou a fazer uma colecção de sapatos e botas de porcelana, de metal, de madeira, já tenho cerca de 200. Também tenho uma grande colecção de máquinas fotográficas. Desde muito novo que sou um apaixonado da fotografia, como o meu pai, deve ser hereditário. Participei em várias exposições, até ganhei uma medalha!

Augusto Mayer mostra algumas fotografias a cores da sua casa de antiguidades de São Pedro de Sintra. É uma das várias lojas que constituem uma espécie de Drugstore, luxuosamente decorado, que ainda não foi inaugurado oficialmente.

- Depois tive que desisitir, tenho muito trabalho e não me sobra tempo para me dedicar a sério à fotografia. Claro que continuo fotografando sempre que tenho ocasião, quando viajo ... Eu gosto muito de viajar, mas também quem é que não gosta? Sempre que possível dou um saltinho nem que seja só até Badajoz para tomar um café!

Os irmãos Mayer, como o pai, dedicam-se às mais variadas actividades. Grandes aficcionados nunca perdem uma tourada. Ivo Mayer tem a paixão dos automóveis e já participou em numerosos «rallies» e gincanas. Como não podia deixar de ser também se dedicaram à música:

- Pode dizer-se que sou um dos dois pais do «jazz» em Portugal, fui eu um dos fundadores do Hot Club. Pessoalmente não toco nenhum instrumento, em tempos aprendi violino mas acabei por desistir. O meu irmão é que toca piano, tem tocado na Emissora, na Televisão. Agora, desde que o meu pai morreu afastou-se um bocado, enfim, há mais trabalho ...

Os clientes continuam a seguir-se, atendidos por um funcionário que avalia ràpidamente os objectos.

-A avaliação é feita na altura, por mim ou pelos funcionários. É preciso muita prática e conhecimentos. Chega-nos aqui toda a espécie de artigos e temos de julgar ràpidamente. Não temos muita coisa à vista, está tudo guardado nos armazens, era impossível ter tudo aqui. Para desempatar capital realizamos leilões periódicos, de três em três meses. São leilões iguais aos outros só têm é os 10 por cento de impostos e os 5 por cento de selo. Procuramos nunca perder o dinheiro emprestado, geralmente começamos a leiloar a partir do valor do empréstimo. As peças que não atingem este mínimo vendêmo-las depois durante o ano. Também temos muitos clientes que vêm para comprar. Às vezes pedem coisas muito estranhas, estou-me a lembrar de uma senhora, muito bem posta, que, aqui há tempos, entrou cá na casa e pediu para eu lhe vender ... uma Nossa Senhora de Fátima do século XVIII! Ainda os pastorinhos não eram nascidos! 

Num negócio como este passam-se coisas imprevistas, é isso que o torna apaixonante. A propósito, um pormenor curioso, o grande toureiro que foi Carlos Arruza comprou aqui o primeiro fato que usou em Portugal. Vestiu-o mesmo ali dentro. Sim, porque nós também temos fatos de toureiro!» 


22 de Janeiro de 1972

12 de Março de 1974

Em 16 de Maio de 1996 Augusto Maria Pinto Mayer, sócio com seus irmãos Ivo Pinto Mayer e Isabel Maria Pinto Mayer na firma "José Mayer, Lda." renuncia à gerência da mesma, continuando como sócio com seus irmãos. A sede da firma é transferida para a loja da Avenida Almirante Reis, 66-A, em Lisboa, após encerramento definitivo da loja na Rua do Loreto, 18-20. 

Em 23 de Outubro do mesmo ano nova alteração na firma, quanto ao Artigo 1 que passou a ter a seguinte redacção: «A sociedade continua a adoptar a firma José Mayer. L.da, tem a sua sede na Avenida do Almirante Reis, 66-A, em Lisboa, freguesia dos Anjos, e tem por objecto social a comercialização de máquinas de costura domésticas e industriais, respectivos acessórios, componentes e reparações.».

Augusto Maria Pinto Mayer (1926-2012) e seu irmão Ivo Pinto Mayer (1931-2012), foram sócios-fundadores, com Luiz Villas-Boas e Gerard de Castello Lopes, do "Hot Clube de Portugal" em 16 de Março de 1950. Augusto Mayer fotografou vários momentos da história do jazz em Portugal, com destaque para as iniciativas do Hot Clube. Morreu em 22 de Dezembro de 2012, um dia depois do seu irmão, o pianista de jazz Ivo Mayer. Segundo o boletim do "Hot Clube de Portugal" de Abril 2011, «a sua colecção fotográfica, de discos e de livros, é das mais ricas que existem em Portugal». Fotografou Jam Sessions históricas nos anos 1940 e 1950, e concertos como o de Sidney Bechet em 1955, de Count Basie em 1956 ou o de Louis Armstrong em 1961.

Em 1927, José Mayer tinha comprado na vila de Sintra, o "Chalet Mayer", projetada pelo arquiteto italiano Luigi Manini e cuja construção tinha sido concluída em 1897. Seria herdado pelos filhos, Augusto e Ivo Mayer. Depois de ter sido vendido em 2024, vai ser transformado num hotel de charme.


A firma "José Mayer, Lda." terá sido liquidada e dissolvida em 2005.



E no seu lugar, actualmente, um loja de óptica "Hawkers"

Quanto à loja da Almirante Reis, actualmente, um restaurante de comida vietnamita ...


Restaurante de comida vietnamita (não arrisquei a escrever o nome)

Entretanto a firma "Mayer & Ramalheira, Lda.", como anteriormente referido fundada em 1917, continua em actividade e com loja no mesmo lugar, na Avenida Duque d'Ávila, 177-179, em Lisboa. A última composição societária a que tive acesso, datada de 15 de Junho de 2004, era a seguinte: Nazaré Luzia da Silva, António Augusto Cardoso Lopes, João Armando Diogo Almeida, Marcos José Martins da Silva Ramalheira e Marcos André Martins da Silva Ramalheira.

"Ramalheira - Jóias"

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ("Lojas de um tempo ao outro, Vol I" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1994)