Restos de Colecção

25 de outubro de 2026

"Pérola da China"

A "Perola da China" foi fundada como armazém de chá e café, por Francisco Manuel Pereira, em 1 de Janeiro de 1880, na Rua Nova da Palma, 123, em Lisboa. Tinha como vizinhos na porta 125 a ourivesria e relojoaria de José Eduardo da Silva Gomes e nas portas 129 a 137 o armazem de vinhos de Jose Manoel de Sousa. 

"Perola da China" à esquerda na foto


Localização da "Perola da China" (rectangulo a vermelho) na Rua da Palma

Até 1890, a loja de chás e cafés de Francisco Manuel Pereira, não tinha a denominação de "Perola da China". Apenas "Armazem de chá e café de Francisco Manuel Pereira". 

A primeira ampliação da loja de Francisco Manuel Pereira foi a aquisição do trespasse da sua vizinha, a ourivesria e relojoaria de José Eduardo da Silva Gomes, no nº 125, em 1882. Seguir-se-ia a aquisição do trespasse das lojas nas portas 129 e 131, que eram parte do armazém de vinhos de Jose Manoel de Sousa, que ainda ficaria com as lojas nos 133 a 137, que mais tarde viriam tambem a ser adquiridos por Francisco Manuel Pereira.


6 de Janeiro de 1895


1896

A rua Nova da Palma que tinha sido aberta entre 1554 e 155, tornando-se numa das principais vias de saída da cidade pela forma como permitia um mais direto acesso da zona do Rossio a norte, em direção à Estrada de Sacavém. Viria nudar a sua denominação para Rua da Palma, por edital de 8 Junho de 1889.

A "Perola da China" estava para a Rua da Palma como o "Jerónimo Martins & Filho", na Rua Garrett, estava para o Chiado. Era uma mercearia fina, charcutaria, casa de chás e cafés, loja de brindes e novidades. 

O registo do nome "Perola da China", foi concedido em 20 de Fevereiro de 1896 ao seu proprietário Francisco Manuel Pereira.


24 de Fevereiro de 1902


24 de Dezembro de 1903

22 de Dezembro de 1907

A "Perola da China" viria a ser assaltada pelos populares em Maio de 1917, por ocasião das sublevações populares da apelidada "Revolta da Batata". Em resultado da nossa infeliz participação na I Guerra Mundial (1914-1918) verificou-se um agravamento na escassez de alimentos, gerando fome na população que levou a revoltar-se. Ao longo deste período, sucederam-se greves, comícios, motins e outras manifestações contra a carestia de vida, a inflação, os salários baixos, assim como contra os racionamentos, a especulação e os açambarcamentos de produtos de primeira necessidade. Em maio de 1917, tiveram lugar, na região de Lisboa, assaltos populares a mercearias, padarias, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais, em consequência da falta de víveres.


Na revista "Ilustração Portugueza" de 9 de Junho de 1917

A "Pérola da China" enquanto propriedade de Francisco Manuel Pereira, por altura do Natal, oferecia um prato diferente todos os anos, aos seus fregueses mais dedicados. O prato mais antigo que tive conhecimento da sua existência (mas não imagem) foi de 1889 e que celebrava a Exposição Universal desse ano, e que penso ter sido o ano de fundação deste estabelecimento.


Prato mais antigo a que tive acesso (1890)


Prato com a gravura da "Perola da China" e do seu fundador Francisco Manuel Pereira


Prato mais recente a que tive acesso (1898)


24 de Dezembro de 1923


31 de Dezembro de 1928

Nota: no anúncio anterior o apelido do fundador, na denominação da firma impresso, deveria ser Pereira e não Ferreira, como está apresentado.


Concurso de montras "Nestlé" em foto de 16 de Dezembro de 1930

No final de 1934 o seu proprietário, Amadeu Teixeira inicia obras de remodelação e modernização na sua "Perola da China" e que viriam a ser inauguradas em 27 de Janeiro de 1935. 

27 de Janeiro de 1935

Na ocasião o jornal "Diario de Lisbôa", em 31 de Janeiro visitou as novas instalações e publicou um artigo do qual retirei a seguinte passagem:

« (…) Para melhor podermos informar as nossos leitores, fômos visitar este estabelecimento, completamente renovado com instalagões amplas e higienicas, sendo digna de referência a magnifica disposição dos artigos que apresenta.
Os cafés da «Perola da China» gozam de grande fama, devido aos seus lotes especiais, sendo igualmente apreciadíssimos os seus esplendidos chás, que têm tanta procura como as massas alimentícias, entre elas italianas, tão preferidas pela sua grande clientela.
O seu proprietário sr. Amadeu Francisco Teixeira, a cuja inteligencia, proficiencia e dedicação está confiada a Gerencia, recebeu-nos com a mais franca cordialidade. Na sua modestia, que bem caracteriza o seu extraordinario valor, visto o que é bom não precisa de reclamo, pois se enaltece por si, disse-nos após uma minuciosa visita a todas as secções:
- Como vê, não se trata dum estabelecimento de luxo exterior. O que apresentamos é bom e procuramos por todos os meios tornar os nossos artigos acessiveis a todos os clientes. Roupamos em ostentação e beneficiamos a qualidade e os preços.
- Efectivamente assim era: Tudo o que ali se vende em genero de mercearia e especiarias é tudo de primeira qualidade e por preços mais que razoaveis.
- E porquê? Tão sómente porque «Perola da China» tomou por lêma sortir-se dos melhores artigos e ganhar pouco para vender muito.
Durante esta semana, a «Perola da China» oferece um brinde a todos os clientes cujas compras atinjam 50$00. (…)»

E em 28 de Agosto de 1942, no jornal "A Capital", com o título «Um Abono» …
«Ha anos, o empresario José Loureiro precisou umas cenas e mandou-as pintar a um conhecido cenografo, cujo nome não vem para o caso. No proprio dia da encomenda, o pintor, alegando compra de material-papel, pano de orlar e tintas-pediu um abono de cem escudos, pois sem isso, dizia ele, não poderia trabalhar.
José Loureiro abonou a quantia exigida e pouco depois, por acaso, passou pela Perola da China e foi encontrar o cenografo em frente de uma montanha de compras.
- Mas que é isso? Então os cem mil réis eram para material e você está para ai a gastar o dinheiro em comestiveis?
- Então ... isto tambem é material.
- Mas não é para pintar.
- Não é para pintar, mas é para alimentar ...
E' material interno.»


26 de Março de 1944

Com as demolições na Rua da Palma, a "Perola da China" seria transferida, em 1952, para um dos novos pavilhões na nova Praça Martim Moniz, o "Pavilhão 3". 

Novas instalações da "Perola da China" no "Pavilhão nº 3" (rectangulo a vermelho)


6 de Julho de 1952

Ficaria ali por muito pouco tempo, pois em 31 de Maio de 1953, Amadeu Francisco Teixeira noticiava a mudança de instalações para a Avenida de Roma, nº 8-A, em Lisboa.

31 de Maio de 1953


"Pérola da China" na loja de esquina à esquerda na foto


21 de outubro de 2026

"Teatro Rosa Damasceno" em Santarém

O "Teatro Rosa Damasceno" teve a sua origem no "Theatro de Santarem", inaugurado em 11 de Março de 1884, depois das suas obras terem tido início em 1877, promovidas por uma associação cultural, representativa da elite local, denominada "Club de Santarem", fundado em 1851, e que para tal emitiu acções. 


Antigo "Theatro Rosa Damasceno" (1894-1937) ex-"Theatro de Santarem" (1884-1894)

O "Club de Santarem" decidiu levar a cabo a construção de um teatro, emitindo ações para o efeito, nos finais da década de 70 do século XIX. Inicialmente os estatutos desta agremiação mencionavam expressamente a obrigação da manutenção do teatro, que à época, só podia ser o da Igreja de S. João de Alporão, que viria a ser encerrado em 1876. Mas, desde 1871, que pessoas ligadas ao teatro defendiam a construção de uma moderna sala de espetáculos em Santarém. Tendo sido escolhido o local, após negociações com a Câmara, da antiga Igreja de São Martinho, cuja fundação remontava ao século XII/XIII, fora sede de freguesia até 1849. Viria a dar origem ao "Theatro de Santarem".

Outros teatros ou já tinham surgido ou surgiriam em Santarém na segunda metade do século XIX. A mencionar:  o "Theatro Club Ribeirense", inaugurado em 1864, o teatro-barraca "Theatro Alliança", inaugurado em 1892, o "Theatro Taborda", inaugurado em 28 de Abril de 1895 (e onde se instalou, a partir de 1911, o "Grémio Guilherme d'Azevedo"), e o teatrinho "Theatro Flôr da Infancia".


3 de Dezembro de 1891


7 de Janeiro de 1892

O "Theatro de Santarem", construído onde se encontravam as ruínas da Igreja de S. Martinho, era constituído por um edifício de rés-do-chão e primeiro andar e foi pintado por um dos mais famosos pintores-decoradores do século XIX, José Maria Pereira Cão, artista natural de Setúbal e aí nascido em 1841 e falecido em Lisboa em 1921. Nos seus tectos estavam representados os principais artistas da época, e em grande destaque, o retrato da famosa actriz Rosa Damasceno (1845-1904), casada com o actor e encenador lisboeta, Eduardo Brazão (1851-1925) que também teve um teatro batizado com o seu nome - "Teatro Eduardo Brazão" - e inaugurado no Bombarral em 27 de Fevereiro de 1921.

"Theatro Rosa Damasceno" em gravura de 1908

Acerca deste primitivo teatro, nada melhor que transcrever a sua história inicial disponível no "Diccionario do Theatro Portuguez" de Souza Bastos e publicado em 1908:

«Pertence a um grupo de accionistas. Começou a ser edificado em 1877. Foi a planta feita pelo architecto Monteiro e modificada pelo conductor Julio de Souza. A obra foi dirigida por Pedro Antonio Loureiro. visconde de Athouguia e Julio de Souza. Foi inaugurado este bello theatro, a 11 de marco.de 1884, ainda por concluir, por distinctos amadores, que deram um concerto a beneficio das obras. Dez annos depois, a 3 de julho de 1894, realizou-sę nova recita, tambem a beneficio das obras, com a comedia Amigo Fritz, desempenhada por distinctos amadores e pelos artistas Eduardo Brazão e Rosa Damasceno. A assembleia geral reunida. em testemunho de gratidão, deu ao theatro, que até ali era theatro de Santarem, o nome de Rosa Damasceno e nomeou Eduardo Brazão presidente honorario da Direcção. 
Este theatro possue uma vista de praça, outra de bosque, um gabinete, tres salões, vista de mar, etc. O rendimento total da casa póde elevar-se a réis 320$000. Além do aluguer do theatro, que é de 15 % da receita bruta, a despeza de cada recita regula approximadamente por 25$000 réis. 
O theatro possue 18 frizas, 21 camarotes de 1.ª ordem, 21 de 2.ª ordem, 14 de 3.ª, 104 cadeiras, 126 logares de superior e 70 de galeria. Teem ali representado muitas vezes todas as companhias dos theatros de Lisboa e algumas do Porto. Frequentemente representam tambem n'este theatro amadores de Santarem, que os há ali muito distinctos. Quasi todos os nossos melhores artistas teem representado no Theatro Rosa Damasceno, e entre elles: Virginia, Eduardo Brazão, Rosa Damasceno, Taborda, Palmyra Bastos, João Rosa, Amelia Vieira, Lucinda Simões, Augusto Rosa, Lucilia Simões, Joaquım d'Almeida, Anna Pereira, Ferreira da Silva, Falco, Valle, Barbara, José Ricardo, Angela Pinto, Alfredo Carvalho, Emília Eduarda, Augusto de Mello, Adelina Abranches, etc. O Theatro Rosa Damasceno é elegante, confortavel, bem illuminado a gaz e muito bem decorado. Póde considerar-se um dos melhores da provincia.»

Em 17 de Dezembro de 1891 o "Correio da Extremadura" noticiava:

«Já entrou em ensaios de apuro a peça de Cezar de Lacerda, que um grupo de distinctos amadores da nossa primeira sociedade se propõe levar á scena no Theatro de Santarem, revertendo o producto liquido em beneficio do cofre do mesmo Theatro.
Na primeira recita o espectaculo terminará com a comedia em 1 acto O Senhor.
A comedia original de João Arrada, sob o titulo Apanhei-os !... representarse-ha na segunda recita que deve realisar-se em fins do mez corrente.
Para a primeira recita ainda não está marcado deffinitivamente o dia, sendo certo, porém, que ella terá logar antes do Natal.»


Rosa Angélica Damasceno Rosado Brazão (1845-1904)

O "Theatro de Santarem" viria a ser rebatizado para "Theatro Rosa Damasceno" na sequência da representação da comédia «O amigo Fritz», representada em 3 e 4 de Julho de 1894 pelos artistas Eduardo Brazão e sua esposa, a actriz Rosa Damasceno e os actores Joaquim Costa (1853-1924) e Augusto Antunes (1953-1927) - que integravam a "Companhia de Theatro Normal de Lisboa" - todos convidados por Menezes e Almeida, que na altura dirigia um grupo de amadores local. 

«Se não houvesse a Rosa Damasceno seria preciso invental-a !
Depois a Graça ... Sim, senhores, a Graça, com g maiusculo ... a Graça, que faz da adoravel interprete da Madrugada uma artista excepcional, impressionadora, unica, emfim !»

Entretanto e poucos dias antes desta representação, e no jornal "Correio da Extremadura" de 30 de Junho de 1894 era noticiado:

«Na ultima reunião de socios do Club e accionistas do Theatro de Santarem foi aceite a demissão da direcção d'esta casa de espectaculos e nomeada para a administrar a commissão que em tempo apresentou alguns alvitres tendentes a livrar o Theatro das difficuldades com que lucta.
Esta commissão poderá aggregar a si todos os cavalheiros que julgue indispensaveis para o conseguimento dos seus planos.
Confiamos em que alguma coisa de bom se fará.»

Em 1896, o cenógrafo Menezes e Almeida, também actor amador prestigiado e amador de fotografia, traz para Santarém a primeira lanterna de imagens animadas. Santarém passava a ter o seu primeiro animatógrafo, no "Theatro Rosa Damasceno".

O "Jornal de Santarem" de 30 de Junho de 1896, referindo-se ao espectáculo de animatógrafo no "Theatro Rosa Damasceno" …
«Dizem-nos que este animatographo possue quadros muito interessantes, salientando-se a Saida de Felix Faure para a Russia e a Noite de Nupcias. Tambem nos merece particular interesse a Debulhadora Mecânica em activo serviço no campo do Ribatejo … salvo seja.»


4 de Novembro de 1922




Programa para 3 e 4 de Abril de 1926

Em 16 de Março de 1924 abria o "Teatro Sá da Bandeira", que vinha substituir o antigo "Salão Ideal" que tinha funcionado entre Abril de 1913 e Agosto de 1922, para animatógrafo e gerido por Manuel Francisco de Sousa. Na véspera da abertura do "Teatro Sá da Bandeira", o jornal "Correio da Estremadura" noticiava:

«Conforme temos noticiado, reabre amanhã o antigo Salão Ideal, hoje convertido num amplo teatro que tomou o nome do grande volto scalabitano.
Após a exibição dos grandes romances cinematograficos «A orfã», «Parisete», «O pequeno miudinho> e «O garoto de Charlot», o teatro suspenderá de novo os seus espectaculos para conclusão das obras e decoração da sala, contando a empreza fazer a inauguração oficial em Outubro.
Ha já grande procura de bilhetes para o espectaculo d'amanhã em que se iniciará a exibição do monumental romance cinematografico «A orfã», publicado em folhetins no Diario de Noticias e considerado uma das melhores fitas ate hoje editadas.
Para estes espetaculos vender-se-hão apenas bilhetes de plates.
O que determinou a empreza a abrir agora esta casa de espectaculos é o interesso que tem para que o publico veja estas importantes fitas que depois de exibidas neste teatro seguirão para os Açores.»


Folheto do "Salão Ideal" 


26 de Agosto de 1922


31 de Janeiro de 1931


"Teatro Sá da Bandeira" ex-"Salão Ideal", actualmente

Em 1911 já existia outro animatografo em Santarém: o "Salão Lisbonense", em frente ao Jardim da República. Também apresentava pequenas peças teatrais, infantis, revistas e operetas.


23 de Março de 1912

O novo "Teatro Sá da Bandeira", seria inaugurado oficialmente em 12 de Outubro de 1924, sem que antes, em 6 de Setembro, o mesmo jornal informasse :

«Fica este magnifico teatro dotado com uma ampla e elegante sala, com cerca de 800 logares de plateia, 12 frisas, duas ordens de 28 camarotes, uma vasta geral e balcão de lotação superior a cem logares.
Com todos os requisitos que exige um teatro moderno, tem dois elegantes fumoirs, de artistica decoracão, bengaleiros, vestiarios de senhoras, um magnifico bufete, rasgado por 24 janelas e todas as comodidades indispensaveis, nos dias de hoje, a uma boa
casa de espeetaculos.
O palco é espaçoso e com excelentes qualidades cénicas, de modo a comportar as maiores companhias, tanto de declamação como de opereta e revista. Ha tambem uma vasta pista para aqui poder funcionar qualquer companhia de circo.
A decoracao da sala e proscenio foi confiada a um dos nossos mais conceituados cenógrafos da capital, devendo os trabalhos começar por esta semana.
O pano de bôca e cenários, modernos e de grande efeito, estllo sendo executados em Lisboa. A sua complicada e artistica instalação electrica, foi feita sob a direcção do distinto electricista sr. Antonio Pinheiro, devendo ser do um efeito deslumbrante, com o brilho das suas mil lampadas. A inauguração desta casa de espectaculos tera logar no próximo mês de Outubro, com uns das melhores companhias dramáticas.
Entretanto até á conclusão das suas obras, deverão exibir-se no «écran» algumas notáveis películas cinematográficas, como A Parisette, O Miudinho no asilo, Entre chamas e feras, e outras.»


29 de Maio de 1937

No início de 1937, a direção do "Club de Santarém" decide construir um novo edifício, no mesmo local, para aí instalar o "Teatro Rosa Damasceno" num novo edifício, e que se adequasse às necessidades técnicas do cinema bem como à «estética do nosso tempo», segundo jornais da época. Este projecto ficou a cargo do arquitecto Amílcar da Silva Pinto (1890-1978), que já desenvolvia vasta obra na cidade de Santarém, como o novo edificio dos "Correios Telégrafos e Telefones" inaugurado em 6 de Março de 1938.

As obras iniciaram-se em Junho de 1937 e a nova sala foi inaugurada em 16 de Junho de 1938. Acerca desta nova sala de espectáculos o jornal "Correio da Estremadura" de 11 de Junho de 1938 escrevia:

«(…) Santarem esta satisfeita e compreende-se com que regosijo, por ver a cidade dotada com um teatro amplo, moderno, de linhas elegantissimas, obedecendo a todos os requisitos de arte cénica e cinematográfica e reunindo todas as condições de higiene e de segurança para o público.
Propriedade do Club de Santarém que, numa hora de audaciosa iniciativa, deliberou remodelar as antiquadas e exíguas instalações do velho Rosa Damasceno, o novo teatro vai abrir em breve as suas portas para a festa inaugural, que promete o maior brilhantismo e traduzirá uma justificada manifestação de homenagem ao presidente da direcção daquela colectivitlade, o ilustre deputado sr. dr. Carlos Borges. (…)
Foi o sr. Carlos Borges quem deu alento á feliz iniciativa, impulsionando a idea a cuja realização prestou o seu melhor concurso.
Pondo à disposição da direção do Club de Santarém, perto de seiscentos contos, sem prazo fixo, nem qualquer interêsse de natureza especial, só a isenção desta atitude podia tornar possivel a realidade de tao arrojada quao dificil aspiração. (…)
A impressão geral é de elegancia e de comodidade.


Aproveitando o espaço dos corredores laterais, avançando até dois terços do palco, a plateia ganhou imenso em amplidão e desafôgo, abrangendo uma vasta quadra, com 598 lugares, dotada de coxias largas e guarnecida de mobiliário moderno, do melhor gosto.
O primeiro balcão á uma obra prima de construção, com uma inclinação que oferece a maior comodidade, prolongando-se lateralmente por duas asas de camarotes. E' dotado com dois foyers, cujo pavimento oferece um artistico parquet.
O segundo balcão, muito cómodo também, avança sôbre o primeiro, num contorno elegante, dum recorte muito feliz.
O palco oferece ainda bastante espaço e os camarins, instalados num espaço anexo, teem comodidade.
A iluminaçao com uma distribuição inteligente, oferece um conjunto de tons muito feliz. Conjugando o branco, o verde, o vermelho e o lilaz, obtiveram-se efeitos maravilhosos.
O largo vestibulo, as escadas de acesso em lanços suaves, as instalações higiénicas, os terraços, os bufetes, as bilheteiras, os pavimentos em marmorite, etc. tudo revela um aproveitamento de espaço e uma bela noção das proporções, que muito honra o autor do projecto, o conceituado arquitecto sr. Amilcar Pinto, que mais uma vez tem a consagração dos seus talentosos dotes de artista.
Assim o entendeu a Inspeccão Geral dos Espectaculos, que presidida pelo Inspector sr. Major Oscar de Freitas, ante-ontem procedeu á respectiva vistoria, considerando o novo teatro «o melhor da Provincia um dos melhores do pais
O velho pano de boca da autoria do Visconde de Atouguia e A. Figueiredo foi substituido por uma cortina em vermelho.
A execução dos trabalhos foi feita sob a direcção de diversos artistas como os srs. Bacelar, Alves, Benjamim de Almeida e João Lopes que estiveram á altura dos seus créditos.
A lotação é para 1.400 espectadores.
Muito fica por dizer. Mas o resto terao os nossos leitores ocasião de apreciar, na sua inauguração, que terá lugar na próxima semana.»



18 de Junho de 1938

O novo "Teatro Rosa Damasceno" seria inaugurado, poucos dias depois a 16 de Junho de 1938.

«Pode-se dizer que foi verdadeiramente brilhante a festa de inauguração do novo Rosa Damasceno.
A cidade teve um movimento desusado para os lados das Portas do Sol, ali concorrendo todos os que lograram ou não bilhete para a récita inaugural e que afluiam a presenciar o artistico efeito da iluminação do novo teatro.
Este oferecia na verdade um surpreendente aspecto, com a sua alta fachada a destacar-se na projecção luminosa de dentro e de fora, que lhe dava uma fulgurante belêsa.
Dentro, a linda sala de espectáculos, cuja descrição fizemos no ultimo numero, regorgitava de espectadores, ouvindo-se as mais elogiosas referencias á obra realizada. (…)
A Companhia Rey-Colaço representou em seguida a peça «Recompensa», de Ramada Curto, que teve a brilhante interpretação costumada, sendo muito aplaudida. No fim do primeiro acto o sr. presidente da Camara ofereceu a artista D. Amelia Rey Colaco um ramo de flores. Apoz o espectáculo teve lugar no Club de Santarem uma ceia de homenagem ao sr. dr. Carlos Borges, em que se trocaram calorosas saudações.»


10 de Dezembro de 1938


24 de Dezembro de 1938


29 de Abril de 1944


30 de Dezembro de 1944


27 de Janeiro de 1956


A seguir uma série de fotos (aprimoradas por IA), a partir de fotogramas de um documentário emitido pela "RTP - Radiotelevisão Portuguesa" em 7 de Fevereiro de 1979, acerca do "Teatro Rosa Damasceno" e dispnível na plataforma "RTP Arquivos".








Bilhete

Em 1999, o "Teatro Rosa Damasceno" encerraria definitivamente, tendo apenas utilizado, extraordinariamente, em 2001 para um concerto de Maria João e Mário Laginha.

Em 2004 o edifício foi cedido pelo "Clube de Santarém" ao "Grupo Enfis, Hotelaria e Turismo", liderado pelo empresário Joaquim Rosa Tomaz, dono de um vasto património em Santarém onde se incluem um ginásio, restaurante, colégio privado e residência para seniores, entre outros imóveis. Em troca o clube recebeu lotes de terreno no concelho vizinho de Almeirim, processo que foi contestado pela Câmara Municipal de Santarém. O município também tentou adquirir o imóvel mas sem conseguir convencer o "Clube de Santarém", que acabou por fechar contrato com o "Grupo Enfis", ignorando o direito de preferência da autarquia no negócio.

2023

Em Março 2007 um incêndio de causas desconhecidas destruiu quase por completo o edifício do "Teatro Rosa Damasceno".

Mas em 3 de Abril de 2025 … «O presidente da Câmara de Santarém, João Leite (PSD), assinou esta quinta-feira, 3 de Abril, a escritura que formaliza a aquisição, pelo município, do antigo e degradado Teatro Rosa Damasceno, localizado no centro histórico da cidade. Cumpriu-se assim a previsão anunciada pelo autarca no feriado municipal de 19 de Março, quando anunciou que o negócio ficaria consumado em Abril. O imóvel, ao abandono há muitos anos, integrava a massa insolvente da empresa Enfis, Hotelaria e Turismo. »

fotos in:  Delcampe.net, Arquivo Digital Correio do Ribatejo,  Arquivo Distrital de Santarém, Arquivo RTP, Eu Gosto de Santarém