Restos de Colecção

20 de setembro de 2026

"A Tipóia" - Casa de Fados

A casa de fados e restaurante "A Tipoia" foi fundada em 15 de Julho de 1950, na rua do Norte, 100-102 ao Bairro Alto, em Lisboa, pela fadista Adelina Ramos (1916-2008) e seu marido José Maria Baptista Coelho. Ambos exerceriam a gerência desta casa nos 25 anos seguintes da sua existência, ficando Adelina Ramos com a direção artistica, com intenção de proporcionar um melhor serviço ao público de Fado, oferecendo-lhe um local apropriado. 


"A Tipoia" na Rua do Norte


Adelina Ramos (1916-2008)


Exemplo de uma Tipoia


15 de Julho de 1950


Adelina Ramos e Jayme Santos na guitarra

Por ali passaram toda a elite do Fado, de onde se destacam os nomes de Manuel de Almeida - que fez parte do cartaz durante 12 anos -, Carlos Ramos, José Ferreira Rosa, Celeste Rodrigues, Tereza Tarouca, Deolinda Rodrigues, Maria da Fé ou Fernanda Baptista, etc.

Adelina Ramos na sua "A Tipoia"



1952


Adelina Ramos, Casimiro Ramos (guitarra) e Nicolau Neves (viola) 


13 de Janeiro de 1953

Celeste Rodrigues e Adelina Ramos

Em 22 de Maio de 1963 o jornal "Diario de Lisboa" noticiava:

«A popular artista Adelina Ramos festeja, no próximo dia 14 de Junho, a abertura do seu restaurante típico «A Tipoia» que há 14 anos foi inaugurado. A castiça cantadeira, que fez parte do escolhido escola de fadistas que actuou no «Retiro da Severa», ao lado das saudosas Maria Emília Ferreira e Rosa Maria, e de Joaquim Campos, José Porfírio, Julio Proença, Alfredo Marceneiro, Alberto Costa, Filipe Pinto e Armandinho, celebra também nessa noite os seus 30 anos de actividade artistica. Decerto, «A Tipoia» vai ser pequena para acolher os inúmeros admiradores daquela festejada fadista, que está organizando a «Noite do fado castiço».


13 de Junho de 1963

Nota: a notícia, e respectivo anúncio publicitário, cometem uma imprecisão. A 14 de Junho de 1963 comemorava-se o 47º aniversário de Adelina Ramos, e não os catorze anos da inauguração de "A Tipoia". Seriam comemorados os treze anos deste estabelecimento (e não catorze), e só em 15 de Julho seguinte. Quanto à carreira artística seriam comemorados os trinta anos, como diz correctamente o anúncio, completados em Março anterior.

7 de Julho de 1962

«Na década de 1960, até antes, foi um espaço de referência do fado e de tertúlia de poeta. Nos inícios da década de 1970, era um espaço onde pontuava o poeta José Carlos Ary dos Santos», afirmou Vítor Duarte Marceneiro. Na década de 70 do século XX, «todas as noites como que em romaria ia lá, com o meu avô, Alfredo Marceneiro, que gostava de ouvir declamar o Ary e apreciava aquele espírito de tertúlia, pois passava por lá toda a gente de Lisboa, como dizíamos na época», recordou ainda.

José Carlos Ary dos Santos n' "A Tipóia" (*)

No jornal "Diario de Lisbôa" de 29 de Outubro de 1971 podia-se ler a propósito: 

« (…) Assim o vai fazendo em Portugal Ary dos Santos. Alguns acusam-no, hoje, de dar recitais todas as sextas-feiras na casa de fados «Tipoia». A esses remoques replica o poeta: 
- Ir à Tipoia não é apenas um gesto de amizade para com Adelina Ramos. É, também, uma atitude de sinceridade para com a Poesia. Nunca a escrevi para «ficar nos livros». Nem nas antologias. E muito menos nas selectas. Fi-la para a servir, às mãos cheias, a pessoas porventura incompletas. Se eu pudesse enchê-las dessa comida, dessa bebida, dessa vida, tornaria meus dois versos portugueses que muito invejo no bom sentido da palavra e que foram escritos por Natália Correia: «Oh subalimentados do sonho/A poesia é para comer!»

De "A Tipoia", o poeta José Carlos Ary dos Santos (1936-1984) só arredou pé porque a "Inspecção Geral dos Espectáculos" disse que ele não podia recitar sem fazer um exame de artista de variedades. Claro que  Ary dos Santos se recusou. Hoje, é impensável mas ... naqueles tempos a história era outra.


E para acompanhar a sessão de fados e guitarradas ...



31 de Março de 1970

Após o 25 de Abril de 1974, "A Tipóia" sofre os efeitos da redução do número de frequentadores, resultante da conotação do Fado com o regime deposto, e consequente afastamento do público deste género musical. As dificuldades desta casa de fados intensificaar-se-iam pela doença irremediável do marido de Adelina Ramos, José Maria Baptista Coelho, que entretanto viria a falecer.

"A Tipoia" na lista de casa de fado, no guia norte americano "Fodor's Portugal 1974" de Eugene Fodor

Adelina Ramos retira-se da vida artística em 1975, mas na história do Fado deixa a contribuição de um espaço que durante décadas foi referência obrigatória, bem como algumas interpretações que lhe valeram as considerações de "voz vibrante e autêntica fadista de raça" ou "a verdadeira fadista de raça" que encontramos nos cartazes dos seus espectáculos.

Quanto à casa de fados "A Tipóia" continuaria a funcionar, com novos proprietários, até encerrar em 1984. Reabriria em Outubro de 1985, com Paulo Gomes proprietário e António Lourival como gerente artístico, tendo o jornal "Diario de Lisboa" publicado, em 12 de Outubro desse ano o seguinte texto:

«Há cerca de um ano que o restaurante típico «A Tipóia», aqui bem perto de nós (Rua do Norte, 100, Lisboa) estava encerrado. Casa prestigiada por grandes elencos artísticos, com um belo «palmarés» no seu historial, não poderia continuar de porta fechada: e, um dia destes, com festa bem rija, convidou os órgãos de Comunicação Social para um «drink» e, entre uma plêiade de vedetas (de Amália Rodrigues a Raul Solnado) fez questão de apresentar o novo «visual» de «A Tipóia» e, simultaneamente, o cartaz que vai marcar as noites lisboetas (Beatriz da Conceição, Judite Maria, Pedro Figueira, o guitarrista António Proença, o viola Filipe Pinto Júnior e ainda António Lourival, que é o director artístico daquela casa típica e, simultaneamente, um dos intérpretes musicais que actuam todas as noites).
Muita gente na festa: Maluda, Albérico Cardoso, António Ribeiro da Cunha, José Pracana, Luz Sá da Bandeira, Carlos Guedes Amorim, Plínio Sérgio, dr. Torres do Vale, Luís Stau Monteiro, dr. Jorge Botelho Moniz e, como dissémos, em ponto alto as graças de Solnado e a classe de Amália. Enfim: «A Tipóia» voltou: todas as noites é um convite.»

Não sei por quantos mais anos se manteve em funcionamento, mas em 1993 ainda aparecia nos guias turísticos estrangeiros.

Adelina Ramos viria a falecer em 26 de Julho de 2008, aos noventa e dois anos de idade, na "Casa do Artista". Adelina Ramos permanece na memória coletiva como uma intérprete de voz singular, uma gestora cultural visionária através da criação da histórica "A Tipóia" e uma das mulheres que mais contribuíram para preservar o espírito genuíno do fado. 

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Museu do Fado, (*) Lisboa Desaparecida de Marina Tavares Dias, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)

13 de setembro de 2026

Hospital Cruz Vermelha

O actual "Hospital Cruz Vermelha", em Lisboa, foi inaugurado em Lisboa, a 1 de Fevereiro de 1965, com a denominação de "Casa de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa", tendo sido projectada pelo arquitecto Sebastião Formosinho Sanchez (1922-2004). Era propriedade da "Cruz Vermelha Portuguesa" fundada, pelo médico militar José António Marques (1822-1884), em 11 de Fevereiro de 1865, com a denominação de "Comissão Portuguesa de Socorros a Feridos e Doentes Militares em Tempo de Guerra" e posteriormente, a partir de 1877, denominada "Sociedade Portugueza da Cruz Vermelha", comemorando, portanto, o seu 1º centenário dez dias depois da inauguração da sua Casa de Saúde.

Este hospital tem a sua génese em 1904, quando médico Dr. Gomes de Amorim, adquire um terreno com 30.000 metros quadrados, num lugar denominado "Santo Antonio da Convalescença" no Bairro Heredia, à Estrada de Bemfica, com a ideia de ali construir a "Casa de Saude Portugal e Brazil". Par tal constitui com outros accionistas a empresa "Casa de Saude Portugal e Brazil, S.A.R.L.", e encomenda o projecto da casa de saúde ao arquiteto Alvaro Machado, sendo o mesmo apresentado em 1904. Era um projecto arrojado para a época, e contemplava quatro edifícios: "Edificio Central", "Edificio dos Alienados", "Maternidade" e "Hotel de Saude". Apenas foi construído o edifício denominado no projecto inicial de "Hotel de Saúde" - no desenho mais abaixo, e de 1906, o primeiro edifício ao subir a rua. 

 

Projecto inicial em 20 de Setembro de 1904

«Demos-lhe este nome porque ella se destina aos dois paises. A propaganda intensa que fazemos de norte a sul do Brazil, principalmente no Pará, Manaus, Pernambuco e Rio de Janeiro, onde teremos agentes nossos e na Africa Portuguêsa, esta propaganda, repetimos, intensa, permanente, profusa, conjugada com a necessidade que brasileiros e portuguêses do Brasil ou da Africa, teem, de, quando doentes, quer do foro cirurgico ou do foro medico, vir para a Europa, asseguram-nos que poderes recrutar ali uma grande clientela. (...)
Não podemos no momento actual estabelecer já uma tabela de preços, o que desde já podemos afirmar é que não serão excessivos. Os accionistas, é claro, terão, como é de uso, um desconto certo.
Na escolha do pessoal seremos meticulosíssimos exigindo que seja, material e moralmente perfeito, tanto quanto possivel, de sorte que, não haja a minima rasão de queixa. A questão alimentar mereceu nos especial attenção tendo encarado o assumpto sob todas as faces O leite, por exemplo, é fornecido por vaccas que são propriedade da casa de saude, permittindo-nos portanto uma fiscalização rigorosa. Os legumes, fructas, etc., como temos bastante terreno para plantar, não precisaremos compra-los, servimos assim melhor os clientes, e, ponto de vista economico, é preferivel.» in: "A Construcção Moderna" de 20 de Setembro de 1904.


"Casa de Saude Portugal e Brazil"


13 de Maio de 1906

Em 1906, era constituida a "Casa de Saude Portugal e Brazil, sociedade anonima de responsabilidade limitada", Bairro Heredia, Estrada de Bemfica, e com sede provisoria na Calçada da Estrela, 131 r/c, em Lisboa.

Mas só em Março de 1907 era lançada «a primeira pedra», e a revista "Brasil-Portugal" nessa data iniciava a notícia do seguinte modo:

«Lisboa vae ser dotada com mais um estabelecimento hospitalar.
Foi ja ha dias lançada a primeira pedra para esse edificio. No alicerce da fachada ficou encerrada uma caixa de folha com as moedas de prata, nickel e cobre actualmente em circulação e um auto assignado pelas pessoas presentes.
Assistiram a ceremonia o director da futura casa de saude, que sera denominada Portugal e Brasil, dr. Gomes de Amorim, o vice-presidente e o secretario da assemblea geral, rev. Alves Diniz e Silva Diniz, o conselho de administração, sr. visconde de Barreira, Pacifico de Sousa, Carlos Gomes, muitas senhoras e jornalistas.
O terreno destinado a edificação é n'uns terrenos adjacentes á estrada de Bemfica e com entrada pelo bairro Heredia.»


Imagens de 16 de Março de 1907


Dr. Gomes de Amorim no uso da palavra, na cerimónia da «primeira pedra»

A "Casa de Saude Portugal e Brasil", viria a abrir logo nos primeiros meses de 1909.




Imagens de 16 de Março de 1909

O jornal "Occidente" de 20 de Junho de 1910, num extenso artigo acerca desta casa de saúde, e donde retirei as fotos seguintes, relatava:


«Ali estivemos de visita, muito amavelmente recebido pelo sr. dr. Gomes de Amorim, que nos franqueou todo o edificio, para o qual se entra por um espaçoso vestibulo cujas paredes revestidas de lambris de marmore, sobrepondo se lhes apainelados de estuque, é fechado por um guarda vento envidraçado, deixando ver a ampla escadaria que dá acesso ao primeiro andar.

No pavimento terreo esta a residencia do diretor gerente, á direita, e na ala esquerda as instalações hidroterapica, refeitorio do pessoal, dispensa, rouparia, farmacia, gabinete do fiscal, e uma sala de espera, comodamente mobilada, que se depara logo á entrada. Ao fim desta ala um balniario para douches e banhos de agulheta e a cosinha. Todas estas instalações são irrepreensiveis de asseio e ordem.


Subindo ao primeiro andar pela ampla e elegante escada, a que nos referimos, e que se desdobra em dois lances de suave acesso, entra se num longo corredor de setenta e dois metros de comprido, que abrange toda a estensão do edificio, e para o qual abrem suas portas 24 quartos, alguns com ante camara, inundados de luz que entra pelas janellas a iluminar as paredes de estuques claros, revestidas até certa altura de lambris de marmore artificial de facil limpesa, sendo o chão de lanitite.
Desoito destes quartos tem mobilia de nogueira perfeitamente acabada. Os restantes quartos tem moveis de ferro invernisados a branco e doirado. Em todos elles nada falta a comodidade das pessoas que ali habitarem, tendo em vista que tudo tem um aspeto alegre, que impressiona bem o espirito, fazendo esquecer completamente que se está numa casa para tratamento de doentes.
Foi esta a impressão que nos fez e parece que fará a quantos ali vão.




Os quartos deste primeiro andar são destinados a homens; os do segundo andar, em tudo eguaes áquelles, são destinados a senhoras. Nestes pavimentos ha casas de banho assim como retretes. Entre o primeiro e o segundo pavimento, há a secção de operações, perfeita e amplamente instalada, compondo se de tres salas: a de esterilisações, a de operações e a de observações, com todo o material mais moderno, fornecido pelo Instituto Pasteur.


Os grandes corredores, que atravessam todo o edificio, oferecem um estenso passeio aos doentes, tendo o corredor do ultimo pavimento uma béla galaria em cada um dos seus extremos, com terraço onde se gosa o bom ar assim como um esplendido panorama até á serra de Cintra, de que se ve o Castelo da Pena.
Ao centro deste pavimento fica uma sala luxuosamente mobilada, para as senhoras, iluminada por uma ampla janella, da qual se desfruta tambem o lindo panorama de edificios e campos que se estendem para o nascente.
Resta nos referir a sala de jantar guarnecida de mesas independentes para cada doente ou familia, e que está mobilada com extrema elegancia e comodidade.
Ha tambem uma sala de bilhar.


Todo o edificio é iluminado a luz eletrica, com instalação propria, em uma casa de tijolo situada no parque, Neste ha tambem um reservatório para 50 metros cubicos de agua, que uma bomba eletrica eleva a 122 metros de altura, na encosta, onde ha outro reservatorio de 300 metros do qual se reparte, por meio de canalisação, a agua para todos os serviços do edificio.


Um estabelecimento modelar, com acomodações para cincoenta doentes, que além de receber estes, tem a vantagem de receber também as pessoas de familia que os queiram acompanhar, para o que tem todo o serviço como o dos melhores hoteis.
Não obstante a casa de saude ter os seus medicos, principiando pelo diretor-gerente da mesma, os doentes tem completa liberdade de se tratarem com clinicos da sua escolha e em que mais confiem, podendo realisar ali todas as operações de que possam carecer, para o que nada falta.
A media das pensões regula de 28$500 a 68$000 réis diarios, conforme os quartos que os doentes ocupam, pensão bastante moderada em relação ao que lá fóra se paga, se somarmos o que custa separadamente cada serviço.»


1910


28 de Fevereiro de 1911

Não funcionou muitos anos como "Casa de Saude Portugal e Brazil", e em 1919 é adquirida pela "Cruz Vermelha Portuguesa", que arrenda o espaço e cujos arrendatários mudam a denominação para "Casa de Saude de Benfica" que veio substituir a anterior. Sob a direção do Dr. Lopo de Carvalho, viria a ser profusamente remodelada em 1930. Na ocasião o jornal "Diario de Lisbôa" relatava:

«Não contentes, ainda, com as suas esplendidas condições, os proprietários da Casa de Saude de Benfica remodelaram-na completamente, introduzindo-lhe grandes melhoramentos.
Desses melhoramentos, devem destacar-se as enormes e admiraveis galerias de repouso, situadas nos extremos do edificio, que oferecem o maior conforto, tendo as melhores condições de higiene. (…)
No rés-do-chão, fica a sala de estar e a sala de jantar, ambas com estilo moderno e com todas as comodidades exigidas. Junto à copa, procede-se á lavagem e a desinfecção de louças, copos e talheres, feitas sempre com todo c cuidado, como os proprios doentes pódem verificar. E, ha, além disso, no mesmo pavimento, as diversas instalações dos serviços internos.
Os aposentos destinados aos hospedes e aos doentes ficam no primetro andar e no segundo, sendo na parte norte o consultorio, o gabinete de tratamentos, as copas e os quartos de servico e havendo nos extremos as confortaveis e amplas galerias de repouso.




Todos os quartos têm luz electrica, sistema especial de ventilação e de aquecimento central, permitindo uma lemperatura média permanente de 15.° centigrados. (…)
As salas de operacões, modernissimas e cheias de luz, estão instaladas entre o primeiro e o segundo andar, sendo o chão de mármore.
A instalação da cosinha mereceu tambem a maior atenção porque todos sabem como é desagradavel o cheiro resultante da preparacão dos alimentos. Por isso, foi construída isoladamente do resto do edifício. (…)
A Casa de Saude de Benfica é dirigida pelo ilustre professor dr. Lopo de Carvalho, e tem como médico interno o sr. dr. Nuno dos Santos, que reside no estabelecimento. Mas quasi todos os medicos de Lisboa enviam para lá doentes, seja para operações, seja para outros tratamentos. E qualquer doente póde escolher para seu medico assistente o clinico que entender, sendo-lhe dadas na Casa de Saude todas as facilidades necessarias, e havendo três enfermeiros que tomam a seu cargo as prescrições e indicações do medico do doente. O medico interno prestará todos os serviços de urgencia e os que lhe indicar o medico assistente do enfermo.
Um detalhe que convem fixar: São admitidos, na Casa de Saude de Benfica, os doentes de medicina Interna não contagiosos; os que necessitem de qualquer intervencão cirurgica, e as pessoas fracas ou esgotadas que desejem submeter-se a uma cura de repouso num clima de planicie. E' recusada a admissão aos doentes atacados de alienação mental e aos doentes contagiosas, exceptuando-se os que necessitem de qualquer intervenção cirurgica, havendo para eles três quartos especialmente reservados.
A pensão oscila entre 60 e 100 escudos, incluindo quarto, alimentação luz, aquecimonto e serviços de enfermagem fazendo-se descontos a quem pernanecer durante mais dum mes.
Em resumo: os portugueses têm, em Lisboa, a dois passos do electrico e a dois quilometros do Rossio, uma Casa de Saude magnifica, especialmente construida para esse fim, em condições que rivalizam com as dos melhores estabelecimentos estrangeiros do genero.»


3 de Maio de 1930


6 de Junho de 1930


10 de Setembro de 1957

A "Casa de Saude de Benfica", localizada na, já, Rua Duarte Galvão, 54 em "Santo António da Convalescença", encerraria definitivamente em 1958, e seria demolida em Março do mesmo ano, em resultado de um processo de aumento rendas pretendido pela Cruz Vermelha, e posterior acordo na desocupação do imóvel por parte dos inquilinos. No seu lugar a "Cruz Vermelha Portuguesa" construiu a "Casa de Saúde de Santo António da Convalescença", cuja construção teve início em Maio de 1958 e sob o projecto do arquitecto Sebastião Formosinho Sanches (1922-2004).

11 de Fevereiro de 1960

Num artigo do "Diario de Lisbôa" de 30 de Novembro de 1961, quando o novo hospital já estava em fase de acabamentos, e a propósito da visita do Ministro das Obras Públicas, engenheiro Eduardo de Arantes e Oliveira (1907-1982) ...

«O novo estabelecimento hospitalar compõe-se de um edifício de 6 pisos, tendo no ultimo andar um amplo terraço, de onde se desfruta um excelente panorama, abarcando a serra de Monsanto, Amadora, Queluz e parte da cidade. Neste andar ficam instalados 80 quartos, dispondo de casas de banho privativas. Este novo edifício possui todas as condições técnicas apropriadas a uma casa de saude, e encontra-se num ponto privilegiado para o fim a que se destina. (...)
Todas as obras do edifício importaram em cerca de nove mil contos, faltando ainda os acabamentos do edifício e o respectivo equipamento, que está orçado em cerca de seis mil contos. (…)
Dispondo de uma cave, com cem metros quadrados, destinada a casa de máquinas, o edifício - que terá a altura de 21 metros - disporá de cinco ascensores, entre eles dois montacargas e um para condução de camas No primeiro piso, ficarão instalados os serviços de secretaria, arquivos, tesouraria, cozinha, refeitorio, dispensa e armazens, vestuário, eabina eléctrica, instalações de aquecimento, dependências arrumações e instalações sanitárias, tendo ainda um bar.
O segundo piso disporá de sala de visitas, de uma série de quartos, de agentes físicos, de farmacia, de instalações para médico e pessoal de enfermagem, de copas e de instalações sanitárias.
No terceiro piso, destinado a maternidade, ficará série de quartos. casas de banho, arrecadações, salas de visitas e dormitórios para crianças, com instalações independentes para recem-nascidos prematuros, biberons e tratamentos, desinfecção e sala de partos.
O quarto piso será constituído por duas salas de operações com salas independentes de anestesia e reanimação, quartos, sala de visitas, copa, instalações sanitárias, dependências para pessoal de enfermagem e uma capela.
O quinto piso destina-se a internamento geral, dispondo também de uma série de quartos, com central de esterilização, sala de operações, também com dependências para anestesia e reanimação, sala de visitas, copa e instalações para clínicos e enfermeiras.
O sexto piso é constituído quartos particulares, dispondo cada um de casa de banho e instalações sanitárias privativas, e dispõe também de sala de visitas, copa e instalações para vigilantes e mais pessoal.
O ultimo piso, o sétimo, que fica no terraço coberto. disporá de um amplo refeitório de acompanhantes, de uma sala de estar, de copa e de serviços sanitários.
É arquitecto da obra o sr. Formosinho Sanches, e construtor o sr. Carlos Eduardo Rodrigues.»


A "Casa de Santo António da Convalescença", mais conhecida por "Casa de Saúde da Cruz Vermelha" viria a ser inaugurada a 1 de Fevereiro 1965, «para dar resposta na avaliação, diagnóstico e tratamento dos doentes com graves ferimentos sofridos na guerra colonial através do desenvolvimento das áreas da traumatologia e neurocirurgia.» Muitos serviços e especialidades foram entrando em funcionamento ao longo desse mesmo ano. Em 1 de Abril de 1965 aquando da vista da imprensa o "Diario de Lisbôa" noticiava:

«A Casa de Saude de Santo António da Convalescenca, da Cruz Vermelha Portuguesa, edifício que se ergue precisamente no local onde existiu a conhecida Casa de Saude de Benfica, ao topo da Rua Duarte Galvão e rodeada por arvoredo, foi durante a manhã de hoje, visitada pelos representantes da Imprensa, da Rádio e da Televisão.
Os visitantes foram recebidos pelo sr. coronel Mateus Cabral, secretário-geral da Cruz Vermelha Portuguesa: dr. Lopes da Costa, director clinico; dr. Fernando Caldeira, D. Maria da Graça Silva Dias, enfermeira superintendente e chefes de servicos. O sr. coronel Mateus Cabral, antes do começo da visita ao importante imóvel que se encontra já devidamente apetrechado e, em parte, já a funcionar, agradeceu em nome do presidente nacional da Cruz Vermelha Portuguesa, prof. dr. Castro Freire, a presenca dos representantes dos órgãos de informação. Depois fez uma breve descricao do notavel empreendimento.
Afirmou que a Casa de Saude da C. V. P. pode e deve ser utilizada por todos, pois não é privativa de qualquer sociedade. E' para todos e não apenas para alguns. Em virtude dos grandes investimentos - pois a sua construção e o respectivo equipamento custou cerca de 20 mil contos - é justo que ali os que podem paguem, os que podem pouco paguem menos, mas haverá casos em que não se pagará nada.
Não há corpo clínico privativo, mas sim o director clínico e o médico residencial, de clínica geral. As enfermeiras que ali servem foram formadas na Escola de Enfermeiras da C. V. P.
Foi depois percorrido todo o grande e moderno imóvel, que abrange uma área de 1140 metros quadrados. Com a altura de 21 metros, dispõe de cinco ascensores..»

Três anos depois da sua abertura, a 6 de Setembro de 1968 esta Casa de Saúde ficaria «nas bocas do mundo» quando o Presidente do Conselho, Dr. António de Oliveira Salazar (1889-1970), ali foi internado.

«Do Hospital de S. José, o doente é conduzido para a Casa de Saúde de Benfica: chega pelas onze e meia da noite, é conduzido ao elevador de serviço, na parte de trás do edifício: parece acordado e consciente, mas é nitida a sua dificuldade em mover os membros direitos: e fica logo internado no quarto 68.
Mota Veiga, vindo de Cascais, e Paulo Rodrigues já se encontram em Benfica. Na ala que foi entretanto desocupada no sexto andar, e além do quarto para Salazar, estão preparados outros compartimentos contiguos: para os médicos, entidades oficiais, agentes de segurança, visitas: e ao fundo do corredor, no outro extremo, um quarto para a governanta, que acaba de chegar noutro automóvel com Maria Lívia Nosolini. Pelo país, não há ainda um rumor e nada transpirou nas redacções dos jornais, sem embargo do que Manuel Figueira surpreendera; mas apesar disso o subsecretário de Estado dá ordem aos serviços de censura para cortarem qualquer noticia sobre a saúde do presidente do Conselho. É uma hora da madrugada de 7 de Setembro.» in: "Salazar O Último Combate" VI Vol. (1964-1970) de Alberto Franco Nogueira (1918-1993).

À espera para assinar o livro de cumprimentos ao presidente do Conselho, em 22 de Setembro de 1968

O actual "Hospital Cruz Vermelha" desenvolve a sua atividade com o propósito de prestar cuidados de saúde especializados, tendo em conta as necessidades do setor em que se insere. O hospital tem como eixo prioritário da sua missão, a melhoria contínua da qualidade clínica e da segurança do doente, visando a obtenção de resultados suportados nas melhores práticas médicas.


Este hospital é, desde Novembro de 2022, detido pela "Santa Casa da Misericórdia de Lisboa" (54,79%) e pelo Estado português, através da "Parpública - Participações Públicas, SGPS, S.A." (45%). Tem como Presidente do Conselho de Administração Luís Filipe Pereira e Vice-Presidente Maria do Carmo Neves.

Localizada em Lisboa, numa área superior a 10 mil metros quadrados, o "Hospital Cruz Vermelha" tem mais de 60 camas de internamento, realiza por ano mais de 100 mil consultas, cinco mil cirurgias e seis mil atendimentos urgentes, e conta com uma equipa de quase 700 pessoas, integrando o corpo clínico mais de 500 profissionais.



fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Delcampe.net, Hospital Cruz Vermelha, Fotold, Casa Comum