Restos de Colecção

7 de junho de 2026

"Photographia Achilles & C.ª "

A "Photgraphia Achilles & C.ª " foi fundada por Achilles Friscioni em 1898 na Rua dos Anjos, 36 em Lisboa. Achilles tinha sido empregado do fotógrafo João Francisco Camacho na sua "Photographia Camacho", um estúdio de fotografia fundado em 1878 numa dependência do "Hotel Gibraltar", que estava instalado no 2° andar da ala sul "Palacio Barcellinhos", na Rua Nova do Almada, e propriedade do Visconde de Ouguella, no Chiado.

Existe uma grande confusão, alimentada por postais e publicidade da própria casa Achilles, quanto ano da sua fundação, e que reproduzo mais abaixo. Contudo, e consultando anuários e almanaques da época, chega-se à conclusão que o ano da sua fundação terá sido, por volta de 1898. Instalou-se na Rua dos Anjos, 36, em Lisboa, desde a sua fundação até ao ano de 1902.


A partir de 1903, a  "Photographia Achilles & C.ª" já funciona o Largo do Intendente Pina Manique,7 , em Lisboa, num edifício próprio ao lado do chafariz do Intendente. A partir de 1905, passa a funcionar sob a denominação de "Photographia Achilles", na mesma morada, até 1907.




Ambos os postais referem dois anos diferentes da sua fundação, mas não ficou por aqui ... ver no final

Aqui ficam as listas de fotógrafos e ateliers de fotografia no "Alamanch Commercial de Lisboa" de 1885 e de 1886:


1885

1886

Em 1907 o edifício onde funcionava a "Photografia Achilles" é demolida para dar lugar a outros dois, e o estabelecimento muda para a Avenida Rainha D. Amelia, nº 1-E, futura avenida Almirante Reis, após 1910. Este estabelecimento  de fotografia teria uma vida longa, pois existiu até finais dos anos 60 do século XX.


Edifícios construídos entre 1907 e 1908 no lugar do edifício da "Photografia Achilles"


À esquerda na foto, a nova loja da "Photographia Achilles", a partir de 1907


Vista nocturna da "Photographia Achilles", nos anos 40 do século XX


18 de Maio de 1933


14 de Agosto de 1938


14 de Novembro de 1938


3 de Setembro de 1939


"Fotografia Achilles" à esquerda do carro preto que está de frente (rectangulo a branco)


18 de Maio de 1948


24 de Dezembro de 1950


9 de Dezembro de 1953


16 de Novembro de 1964

A "Fotografia Achilles", ou "Foto-Achilles", terá encerrado definitivamente pouco tempo depois deste último anúncio que publiquei.

2 de junho de 2026

Alfaiatarias "Ribeiro & Silva" e "Rosado & Pires"

A alfaiataria "Ribeiro & Silva", foi inaugurada em 2 de Novembro de 1908, na Rua Augusta, 150 e 152, no prédio onde funcionava desde 23 de Fevereiro de 1879, o "Grande Hotel Duas Nações", sendo actualmente o segundo hotel mais antigo de Lisboa, ainda em funcionamento, depois do "Hotel Borges" (antes de 1874) na Rua Garrett, actualmente com a denominação de "Hotel Borges Chiado".

Alfaiataria "Ribeiro & Silva"

A "Ribeiro & Silva" ocupou inicialmente as lojas dos números 150 e 152, apelidada de "Casa dos Arcos". Nestes números e em conjunto com os 154 e 156, já em 1896 os "Grandes Armazens da Casa Africana" tinham ampliado as suas instalações iniciais aquando da sua fundação em 15 de Dezembro de 1875, na Rua da Victoria, 33, 35 e 37.

12 de Janeiro de 1896

Em 1905 a "Casa Africana" muda de instalações e noa ano seguinte de 1906 o proprietário do prédio Leopoldino Ribeiro, promove grandes obras de alteração nas fachadas e ampliação das lojas, tornando-se conhecido pela "Casa dos Arcos". Dos anteriores números de portas 142 a 156 passam a 150 a 156.


 Projecto na revista "Construção Moderna" de 20 de Junho de 1906



3 de Novembro de 1908

Em 5 de Novembro de 1908 a loja de modas "Machado & Santos" que tinha sido fundada em 1900 na Praça de D. Pedro (Rossio), 121-122 esquina com a Rua da Bitesga, 26-32, muda-se para os nºs 154 e 156 com os nos 43 e 45 da Rua da Victoria. 

5 de Novembro de 1908

Loja "Machado & Santos" já só no nº 156 de esquina com a Rua da Victoria e com a "Ribeiro & Silva" a seu lado nos nos. 150 a 154

Entretanto a "Machado & Santos" abre falência e o seu recheio vai a hasta pública em 15 de Dezembro de 1910 que é arrematado pela sua vizinha "Ribeiro & Silva" que no ano seguinte de 1911 se muda para as antigas instalações da "Machado & Santos" nos números 154 e 156 esquina com os 43 e 45 da Rua da Victoria.


1911


24 de Setembro de 1914

Quanto aos luxuosos interiores «herdados» pela "Ribeiro & Silva", transcrevo parte da notícia aquando da mudança de instalações da "Macahado & Santos"  em 5 de Novembro de 1908:

«Achamo-nos de subito n'um meio luxuoso como raros costumam ser entre nós os estabelecimentos congeneres.
A armação toda em carvalho guarnecida de espelhos e crystaes foi confeccionada pelo pessoal da "Carpinteria 5 de fevereiro." que tem como proprietario e director o sr. Luiz Soares Bandeira Junior. E' trabalho dos que melhor ficam honrando a industria nacional.
Na decoração salientaram-se por forma tambem notavel os srs. Barbosa & Costa, com officina de estofador. A elles se devem o conforto que se nota no pequeno salão do 1.° andar, o qual é destinado a provas, guarnecido a branco e ouro, bem como a feliz disposição d'uma outra sala em escuro que os srs. Machado & Torres fizeram apropriar a prova de vestidos para theatros, bailes, etc.
Não ha na capital outra que se lhe assemelhe mormente pelo que respeita á boa disposição dos focos electricos.
Entre os accessorios artisticos do 1 ° andar, é de justiça não esquecer tres magnificos "panneaux" estylo Luiz XV devidos a phantasia e ao "savoir-faire" de Augusto Pina que é hoje incontestavelmente um dos nossos mais perfeitos cultores da pintura decorativa.»


1913

Entretanto na antiga loja da "Ribeiro & Silva" nos números 150 e 152 instalou-se uma casa idêntica, a "Brito & C.ª ", mas apenas «alfaiates para senhoras e creanças».


1913

Em 24 de Dezembro de 1915 o jornal "A Capital" publicava um artigo acerca da alfaiataria "Ribeiro e Silva" donde retirei os seguintes excertos:

«(...) Não é necessario ir ao estrangeiro para apreciar em toda a sua belleza um authentico "tailleur". Quem se detiver um pouco deante das omplas vitrines do Casa dos Arcos, da rua Augusla, 154 e 156, dobrando para a rua do Victoria, 43 a 47, reconhece, apos uma leve vista de olhos, que os srs. Ribeiro & Silva estão a par dos primeiros costureiros de Paris ou Londres na confecção d'esse genero de vestidos, ultima e suprema palavra da moda.
A Casa dos Arcos occupa, entre as primeiras alfaiatarias de Lisboa, um logar de indiscutivel relevo. Fundamenta-se com justiça o renome que alcançou nos maravilhosos thesouros dos seus contra-mestres, na solicitude com que os seus proprietarios procuram estar ao correnle do que decretam os centros da moda, nos fornecimentos soberbos que importam e que cada qual pode odmirar visitando os seus "atelliers".
Os modelos em voga, envergados pelos manequins das montras da Casa dos Arcos, são um primor pela elegancia das linhas, pela qualidade dos tecidos, pelo gosto das applicações.. Qualquer senhora que disponha de senso esthetico e que saiba vestir bem, desde que entre na Casa dos Arcos, nao sahe de la sem fazer a sua encommenda, tão convincentes são as provas da competencia dos que a dirigem e tão distictamente executados os figurinos dos mais celebres creadores da moda franceza que é e continuará sendo a moda de todo o mando culto. (...)
Mas os srs. Ribeiro & Silva não se notabilisam apenas como alfaiates de senhoras. Todo o homem que se presa de vestir com esmero dn'aquella caso servido caprichosamente o merece menção o bom gosto dos padrões que a mais delicada phantasia ali seleccionou. E os seus trajos paro creancas? E oa seus uniformes para collegiaes? E' uma capital europeia aquella que conta estabelecimentos como a Casa dos Arcos e são admiraveis mestres os que lhe grangearam tamanho e tão solido prestigio!»

13 de Setembro de 1915

Este artigo era reforçado com uma nota no ano seguinte em 16 de Setembro de 1916 ...

«(...) A casa Ribeiro & Silva, na antiga Casa dos Arcos, rua Augusta 150 a 156 o rua da Victoria 48 a 47, o inegavelmente como das primeiras alfaiatarias de senhoras do paiz, possuindo todos os segredos que se relacionam com a arte de confeccionar um tailleur.
A casa Ribeiro & Silva tem ainda alfaiataria para homens e creancas, tanto para fatos civis como para uniformes militares, sendo inexcedível o acabamento que da a todos os seus trabalhos.
A sua clientela é das mais distinctas.
Os mestres dos seus atelliers visitam todas os estações as principaes casas de Paris e de Londres, d'onde trazem os ultimos modelos.»

1915

24 de Junho de 1928


Julho de 1934

A "Ribeiro & Silva" trespassaria parte das suas instalações, o nº 156, a outra alfaiataria que viria a gozar de igual ou maior prestígio, a "Rosado & Pires, Lda." que tinha sido constituída em 28 de Janeiro de 1935. 

Especializada em vestuário masculino, vendia variados artigos desde fatos, casacos e camisas até acessórios como carteiras e bengalas. A loja manteve grande parte das características do espaço anterior, conservando mobiliário de desenho ecléctico de finais do século XIX e inícios do XX. Distribuída pelos dois pisos, a alfaiataria reservava no piso térreo um amplo espaço de atendimento e exposição de artigos, sendo o primeiro piso, para onde se acedia através de uma escadaria de madeira, destinado a uma sala, quatro gabinetes de prova e um atelier. As quatros cabinas de prova, existentes na sobreloja, caracterizavam-se pelos seus diferentes estilos decorativos: Império, Luís XV, Arte Nova e Arts & Crafts, com toda a loja apresentando por um aprimorado trabalho de marcenaria. 

Alfaiataria "Rosado & Pires, Lda." em foto de 1944

Em 24 de Fevereiro de 1971 a firma "Rosado & Pires, Lda.", passava a ter um capital social de 1.200.000$00 distribuídos pelos sócios Eurico Leonis da Silva Rosado (266.675$), Manuel Dias Pires (266.675$), Luis Augusto da Silva Rosado (266.650$). Em 1989 já eram sócios-gerentes Júlio Pereira da Silva Rosado e Elisa Adelaide de Campos Rosado Galo.




Alfaiataria "Rosado & Pires, Lda." nestas 3  fotos de 1994


2002

A cadeia de lojas de lingerie multinacional "Intimissimi" (fundada por Sandro Veronesi em Itália em 1986) viria a adquirir a loja da "Rosado & Pires, Lda.", por escritura pública lavrada em 22 de Junho de 2004 e ali abriria mais uma loja,  mantendo os seus interiores originais. 

A firma "Rosado & Pires. Lda." ficaria com a seguinte composição societária: Sandro Veronesi, - Manlova, Itália; Matteo Murano, - Verone, Itália; Davide Scialpi, - Verone, Itália.





fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa,Arquivo Municipal de Lisboa, Logica2 (Projetos e Construções), 3 fotos do livro "Lisboa: Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - Biblioteca de Arte da FCG - 1994.

28 de maio de 2026

"Pinóquio" - Brinquedos

A loja de brinquedos e artigos para crianças "Pinóquio", foi naugurada em 14 de Agosto de 1950 na Praça dos Restauradores, 79-80, em Lisboa. Projectada pelo arquitecto Veloso dos Reis Camelo (1899-1985), era propriedade da sociedade "Avenida Café, Lda.", liderada pelo galego Manuel Outurela Costa, proprietária do Restaurante "Aquário", instalado no mesmo edifício, mas com frente para a Rua Jardim do Regedor, 50. A esta firma já tinha sido entregue, inicialmente, a exploração do "Quiosque dos Restauradores" localizado mesmo em frente, e visível na foto seguinte.


"Pinóquio" em foto de 1952


23 de Dezembro de 1950


1952

Desde os finais do século XIX e na primeira década do século XX, na loja agora ocupada pela "Pinóquio" tinha funcionado um estabelecimento de móveis de madeira, pertença de Henrique Drummond Freitas Castle.


Estabelecimento de móveis de madeira de Henrique Drummond Castle, em foto de Junho de 1895


A mesma loja nos anos 40 do século XX

No dia da inauguração da "Pinóquio" o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava ...

«Novo estabelecimento de utilidades e brinquedos nos Restauradores

O publico vai, finalmente, saber o que significa «Pinóquio», de que tanto se tem falado nos ultimos dias. Adultos e crianças - especialmente estas, para quem a palavra Pinóquio é evocadora de um Mundo de maravilhas-  vão hoje ver satisfeita a sua natural curiosidade. E, diga-se em abono da verdade, que Pinóquio corresponde á expectativa; mais, que excede tudo quanto se poderia ter imaginado.
Em pleno coração da cidade, na Praça dos Restauradores, nos. 79-80 - um lugar ideal pela facilidade de acesso e pela sua situação - Pinóquio abriu hoje as suas portas. Por que se trata de um estabelecimento de utilidades e brinquedos nacionais e estrangeiros. Pinóquio, como se fosse uma Fada dos contos da infancia, vai maravilher milhares de pessoas. Há até magnificas utilidades e brinquedos maravilhosos.
Os olhos de todos os meninos de Lisboa - e dos adultos também - vão ficar cativados por esse mundo maravilhoso onde não faltará nada para fazer a alegria de um  pequenito.
O novo bazar, onde se encontra a mais vasta colecção de brinquedos que é possivel reunir, tem a orientá-lo, como gerente, o conhecido técnico e antigo empregado da Kermesse de Paris, sr. João de Sousa. Por esse motivo, este estabelecimento, que pertence aos proprietários do Avenida Café, Lda., vai certamente merecer a confiança e a preferência da mais exigente clientela. Pinóquio está valorizado por uma magnifica decoração do arquitecto sr. Veloso dos Reis Camelo.»


Publicidade de 13 de Maio e 23 de Dezembro de 1963


19 de Dezembro de 1964


Pai Natal do "Pinóquio"


Entretanto, e em 8 de Maio de 1951, a "Pinóquio" passa para a propriedade da firma "J. J. Sousa, Lda.", constituída com um capital social de 120.000$00 e formada pelos seguintes sócios: João de Jesus Sousa (40.000$) - antigo empregado da "Kermesse de Paris" inaugurada em 19 de Novembro de 1901 -  e a firma "Sociedade Agrícola e Comercial do Lumiar, Lda." (80.000$).

Passados quatro anos, e por escritura pública de 26 de Outubro de 1955, João de Jesus Sousa, deixou a sociedade, mas autorizou que o seu nome J. J. Sousa continuasse a figurar na firma social.


Ambas as fotos de 1973

A loja de brinquedos "Pinóquio" encerraria definitivamente por volta de 1980, e a sociedade "J. J. Sousa, Lda." é trespassada, muda de sócios e acrescenta ao seu objecto - «comércio de brinquedos, utilidades e quinquilharias» - a «exploração de restaurantes». A nova constituição da sociedade passa a ter os seguintes sócios: Rogério Ramos Nunes, António Filipe Rosa da Costa e João Francisco Rosa da Costa. Ao mesmo tempo, o capital social era aumentado de 120.000$00 para 1.000.000$00.

No lugar da loja de brinquedos, reabre, em 13 de Maio de 1982, a "Pinóquio" mas como restaurante e cervejaria. Uma curiosidade: a inauguração deste restaurante coincidiu com o 2º dia da visita do Papa João Paulo II a Lisboa e a Portugal.


"Pinóquio" nos anos 80 do século XX



2014

Quanto ao edifício onde está instalado a cervejaria "Pinóquio", foi reconstruído durante três anos (creio que entre 2019 e Janeiro de 2022) para albergar o "Blue Liberdade Hotel". Durante esse tempo o restaurante e cervejaria tiveram de se instalar provisóriamente na Rua de Santa Justa. Agora, propriedade de Lourenço de Mello Breyner, à nova decoração juntam-se duas salas no piso térreo e uma esplanada maior, que duplicou a sua capacidade, para 120 lugares sentados.