Restos de Colecção

13 de outubro de 2019

Salão Neuparth

O "Salão Neuparth", propriedade do professor de música Erdamnn (Eduardo) Neuparth (1784-1871), abriu pela primeira vez as suas portas na Rua Nova do Carmo, em Lisboa, em 14 de Fevereiro de 1824, começando por vender instrumentos musicais e partituras de música impressas. A partir de 1854 estabeleceria a sua loja definitiva, na Rua Nova do Almada, 97-99.


Erdmann (Eduardo) Neuparth (1784-1871)


Eduardo Neuparth, natural de Poelwitz (principado de Reuss-Greiz, Voigtland - Alemanha), músico de profissão, de certo modo infeliz e aventureiro, serviu na banda das hostes de Napoelão, assistiu a dezenas de batalhas e assistiu às derrotas dos franceses, e em 1814 ofereceu-se para chefe da banda do "4 de Infantaria", de Portugal, que estava em Tolosa (Alentejo). Veio para Lisboa, tocou no "Theatro da Rua dos Condes" e o "Real Theatro de S. Carlos"; foi mestre da banda da Casa Real no Rio de Janeiro, onde em 1817 se associou com Valentim Ziegler, músico da real câmara, que tinha um estabelecimento de venda de instrumentos, e casou com a filha do consócio. Viria a fundar, em 1834, o "Monte-Pio Phiilarmonico".

Em 1821, Eduardo Neuparth regressa a Lisboa com D. João VI, e três anos depois estabeleceu-se no mesmo ramo na Rua Nova do Carmo, 23. O sócio morreu, a mulher também, mas voltaria a casar com D. Margarida Bohemier, e transfere a sua casa de instrumentos e músicas para o nº 47 da Rua Nova do Almada, uma sobreloja. Já era nascido seu filho, Augusto Neuparth (1830-1887), que viria a ser professor e secretário do "Conservatorio Real de Lisboa" e professor da "Real Academia dos Amadores de Musica", e o «mais extraordinario tocador de fagotte». Segundo Ernesto Vieira, foi Augusto Neuparth quem pela primeira vez tocou saxofone em Portugal.

Em Junho de 1854, Eduardo Neuparth transfere, de novo, para uma loja/armazém defronte onde permaneceria em definitivo, e a que chamará de "Salão Neuparth", tendo-se tornado num centro de cultura e música. Com o agravar da sua doença de olhos de que sempre tinha sofrido, deixou de exercer a arte e em 1859 entregou a direcção do estabelecimento a seu filho Augusto Neuparth.

Augusto Neuparth (1830-1887)


1874


1882


1885


Em 1863 o "Salão Neuparth" fazia-se anunciar na Rua Nova do Almada, 97-99 como «armazem de musica e instrumentos; Cordas de tripa e bordões para todos os instrumentos, rebecas, violetas, violoncelos, contrabaixos, violetas francesas e todos os pertences para os mesmos instrumentos. Pianos. Musica, flautins, flautas, clarinetes, saxhorns em todos os tons, cornetins, trompas, cornetas, trombones, figles, bombos, pratos, etc; aceita encomendas para a província; afina e constrói instrumentos; recebe dos melhores fabricantes de França e Alemanha; edições de música para todos os instrumentos».

Com o falecimento do professor Augusto Neuparth, sucede-lhe no "Salão Neuparth" seu filho, Julio Candido Neuparth (1863-1919), que foi professor de harmonia no "Conservatório Real de Lisboa" e crítico no "Diario de Noticias", tendo-se associado a Ricardo Felgueiras, empregado da casa, dando origem à firma "Neuparth & C.ª". A esta firma sucederia a "Neuparth & Carneiro".

Julio Neuparth (1863-1919)


1893


Sucursal no Porto e publicidade à "Amphion" em anúncio de 1894


Numa entrevista ao jornal "Diario de Lisbôa" em 31 de Maio de 1948, Manuel Paz funcionário do "Salão Neuparth" desde 1886, relatava:
«Com tais antepassados na gerência comercial, professores e diletantes se explica que o "Salão Neuparth" já fosse em 1886, um paradouro de musicos, de amadores distintos, de artistas. Nesse tempo, e ainda anos depois, havia mais amadores de boa musica e apaixonados do que há hoje. Por motivos que escapam ao meu descernimento, apagou-se um pouco a chama dos amadores executantes. Isto chegou a ser quase uma sucursal do S. Carlos ...»

Factura de 29 de Outubro de 1894


1895


Em 1901 o "Salão Neuparth" é alvo de uma remodelação e com ela desaparace um teatrinho, pintado por Alfredo Keil que existia no fundo da loja. Ali tocaram ou cantaram o maestro Arbós, o professor Alexandre Rey Colaço o seu fado, o guitarrista-concertista Julio Silva, Emilio Cabello, Angela Penchi, o viola rabel, Julio Camara, etc.

Postal  enviado em 12 de Abril de 1908 (frente e verso)



Anúncio publicitário de 5 de Dezembro de 1909


Capa de partitura da música "A Filha das Aguas"


De referir que foi no "Salão Neuparth" que Alfredo Cristiano Keil (1850-1907) compôs a canção de cariz patriótico "A Portuguesa", em 1890, com versos de Henrique Lopes de Mendonça, e que viria a transformar-se no hino nacional em 19 de Junho de 1911. Este compositor de ascendência alemã e português de gema, já editara na Neuparth, além da sua "Souvenir de Vienne" e o "Carnaval", a "Donna Bianca" (1888), opera cantada em 1888, no "Real Theatro Nacional de S. Carlos". Na mesma entrevista de 31 de Maio de 1948, Manuel Paz recordava:
«(...) - E então um disse: e se tu ó Keil, fizesses um hino? Olhe ... Estava aqui um piano, neste sitio, onde agora desce a escadaria nova. Foi aqui, precisamente aqui. Estou a ver o sr. Keil, com  a sua barbinha muito elegante. Tinha para aí 34 ou 35 anos (com efeito o pintor e compositor nascera em 1854). Sentou-se, pensou um pedaço, trauteou e escreveu. Coisa de um quarto de hora. Depois foi a instrumentar, parece-me que por Ernesto Vieira, que ensinara harmonia e instrumentação ao sr. Keil.»



Num artigo acerca de estabelecimentos comerciais na Baixa de Lisboa, em Agosto de 1916, o jornal "A Capital" relatava:
«No predio 103, antes da viuva do tintureiro Francisco Alves, sogra de Alves Correia, esteve a luveira Cisneiros. Presentemente, além d'outras, encontra-se ali a Casa Neuparth, que é muito antiga. É um grande, um opulento armazem de pianos e musicas, cujos archivos são enormes. As edições de musica pertencentes ao Canccioneiro Popular portuguez, feitos pela casa Neuparth, são notaveis e representam um grande serviço prestado ao Folk-lore portuguez. A Casa Neuparth é ainda representante de varias casas fabricantes de instrumentos musicos, sendo as marcas que ella tem lançado no nosso mercado das de mais solida representação no estrangeiro. Musico illustre, um dos socios da Casa, o sr. Julio Neuparth, tem prestado á sua arte relevantes serviços, resentindo-se a sua casa da sua influencia intelligente e do seu apurado gosto artistico.»




Em 1923, o "Salão Neuparth" é trespassado ao senhor Valentim de Carvalho, (antigo empregado de Neuparth até 1914), que desde 1914 estava estabelecido numa loja na Rua da Assunção, 37 - "Casa Valentim de Carvalho" - e altera-lhe a designação social para "Valentim de Carvalho/Salão Neuparth", comercializando instrumentos musicais, gramofones e pautas de música. Cinco anos depois, em 1928, promove profundas obras de remodelação exteriores e interiores, segundo orientação e projecto do arquitecto Raúl Lino (1879-1974).

"Casa Valentim de Carvalho", ainda só na Rua da Assunção



Interiores já remodelados, em 1928



1927


1 de Abril de 1928


Postal enviado em 22 de Maio de 1928


Já como "Estabelecimentos Valentim de Carvalho, Lda.", e ocupando a cave, loja, 1º e 3º andares a antiga "Valentim de Carvalho/Salão Neuparth" sofreria, em 1947, profundas obras de remodelação, exteriores e interiores.


1947


Acerca do percurso histórico e ilustrado dos "Estabelecimentos Valentim de Carvalho" consultar, neste blog o seguinte link:  "Estabelecimentos Valentim de Carvalho".

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Ephemera

10 de outubro de 2019

Hotel Bragança em Coimbra

O primeiro "Hotel Bragança" em Coimbra, abriu as suas portas na Rua Sofia, nº 15 em 1878, pelas mãos do seu proprietário Guilherme Máximo. A partir daí, viria a ocupar vários edifícios até se instalar num construído de raiz, no Largo das Ameias, nº 10 ao lado da Estação de Caminhos de Ferro, e que seria inaugurado em 2 de Abril de 1899. Este seria  o primeiro hotel projectado de raiz, em Coimbra, destacando-se dos demais, quer em ornamentação quer em estrutura, ao demonstrar um maior cuidado estético e arquitectónico.

No jornal "Resistência" (Coimbra) em 17 de Outubro de 1897


"Hotel Bragança" inaugurado em 2 de Abril de 1899


No jornal "Resistência" (Coimbra) em 30 de Março de 1899


Recordo que em 1865, o "Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro" fazia menção à existência de quatro unidades hoteleiras em Coimbra: a "Hospedaria do Lopes", o "Hotel Mondego", a "Hospedaria Paço do Conde", e o "Hotel dos Caminhos de Ferro" (1862). Estas quatro hospedarias, com excepção da do Lopes que acabou por desaparecer em função da agregação ao "Hotel Mondego", permaneceram em funcionamento na viragem do século XIX para o século XX, resistindo às alterações de paradigmas e às novas necessidades de hospedagem. O "Hotel Central" seria inaugurado em 1873, na Praça 8 de Maio, defronte da Câmara Municipal.


Em 1888, com o prolongamento do ramal dos Caminhos de Ferro e a edificação do apeadeiro no topo da Avenida Navarro, começaram a ser construídos novos equipamentos hoteleiros próximos da estação, nomeadamente ao longo da Avenida Navarro, como o "Palace Hotel", o "Hotel Bragança" e o "Hotel Avenida". Em 1899 seria inaugurado o "Hotel Commercio", na Praça do Commercio. Em 1916 o "Coimbra-Hotel" na Avenida Navarro e em 28 de Março de 1926 seria inaugurado o "Hotel Astória", propriedade do grande industrial hoteleiro Alexandre d'Almeida.

"Hotel Commercio" e o "Hotel Central" à esquerda na foto da direita

"Hotel Avenida" na Avenida Navarro


"Palace Hotel" na Avenida Navarro


O "Hotel Bragança" cujo edifício seria o primeiro a ser construído de raiz com a finalidade de hotel, oferecia vinte seis quartos, numa planta rectangular e era composto por cinco pisos. O primeiro piso seria correspondente à cave e o último ao sótão. A entrada era realizada, como actualmente, pela fachada lateral direita, então precedida por um jardim e pátio. Neste sentido, acedia-se ao hotel pela porta central do primeiro registo.



Como se poderá ver nos anúncios seguintes do "Guia Official dos Caminhos de Ferro de Portugal" publicado em 1913, o "Hotel Bragança" já pertencia à firma "José Garcia & C.ª", que também era proprietária do "Hotel Avenida".

Hotéis em Coimbra, na "Gazeta dos Caminhos de Ferro" em 1913, com indicação dos seus proprietários


No que diz respeito ao seu interior, o segundo andar era inteiramente destinado aos quartos dos hóspedes. Com base na estrutura interior do "Hotel Mondego" - fundado por volta de 1861, no Largo das Ameias, por Domingos Maria Pereira e José Maria de Oliveira - poderá supor-se a existência, no primeiro andar, de uma sala de jantar onde se situava a varanda central da fachada principal e uma sala de visitas também apetrechada por uma sacada e pelas três janelas, na fachada direita do edifício. Os restantes espaços do primeiro andar poderiam ser destinados a cómodos, tal como acontecia com o "Hotel Mondego". O piso térreo, albergava possivelmente um restaurante, um bar e uma cozinha.

Na revista "Semana Ilustrada" em Dezembro de 1933


Por volta de 1955, este edifício seria demolido e daria lugar a outro "Hotel Bragança", de maiores dimensões, totalmente diferente do anterior no seu traço arquitectónico, e que abriria em 1957. Passou a oferecer 83 quartos, singles, duplos, twins, triplos e quádruplos, assim como restaurante, e bar.




O "Hotel Bragança" está actualmente a funcionar classificado com 3 estrelas, tendo sofrido a sua última remodelação em 1997. Os preços começam nos 35,00 € (quarto individual com duche) com pequeno almoço incluído. Baratito!...


Interiores do "Hotel Bragança" actualmente e com a sua aparência super clássica






Bibliografia: Foi consultada a Dissertação de Mestrado em Arte e Património, de Sara Filipa Gomes da Silva, intitulada "Hotelaria Coimbrã dos anos 20" - FLUC - 2018