Restos de Colecção

4 de fevereiro de 2026

"Baeta" - Ourivesaria e Joalharia

A ourivesaria e joalharia "Baeta", propriedade de Alberto Seabra Baeta desde 1922 e localizada na Rua do Ouro, 65 e 67 em Lisboa, teve origem na "Joalharia Pontes" de Joaquim Luiz Pontes, que já em 1880 ali estava estabelecido.

Antes da "Joalharia Pontes", nesta loja (antigos números 65 e 66) já tinham por lá: em 1837 uma botica; em 1852 a "Confeitaria Franceza"; e antes da "Joalharia Pontes" como o texto seguinte refere uma ourivesaria de um tal Seixas.

10 de Junho de 1837


3 de Abril de 1854


Ourivesaria de Joaquim Luiz Pontes em 1880


Ourivesaria de Joaquim Luiz Pontes em 1886

Recorrendo, mais uma vez, ao livro "Praça de Lisboa" coligido por Carlos Bastos, em 1945 transcrevo perte do texto alusivo à história da "Ourivesaria e Joalharia Baeta":

«Ao contrário do que se pode depreender do título actual, o estabelecimento agora designado por Ourivesaria Baeta tem tradições seculares e, muito embora não existam documentos escritos comprovativos, sabe-se por informações fidedignas e insuspeitas que há mais de cem anos, no prédio do Banco de Portugal, teve a sua sede uma ourivesaria pertencente a um tal Pontes, que mais tarde transferiu o estabelecimento para o actual local, onde então funcionava uma casa similar de que era dono um indivíduo de nome Seixas.

A Joalharia Pontes foi uma das mais antigas e notáveis de Lisboa, havendo executado diversos trabalhos para a Casa Real. O irmão de um dos seus primeiros proprietários, Joaquim Luís Pontes, senhor de avultada fortuna, era não só possuidor do estabelecimento como de todo o prédio onde êle se encontrava instalado. Cêrca de 1886 entrou para o serviço da casa João Martins Ferreira Baeta que, como empregado, exerceu durante vinte e dois anos uma colaboração útil e valiosa. Após a sua morte, e para o substituir, em 1908, foi convidado seu filho Alberto Seabra Baeta que, apesar de apenas contar dezassete anos de ídade, já dispunha de excelente prática profissional de oficina.

Durante dez anos se manteve Alberto Seabra Baeta nesse lugar e tais qualidades revelou que, em 1918, lhe foi confiada a gerência, delicado cargo que ocupou com igual prestígio e de molde a contribuir largamente para o progresso e expansão da casa, cujos destinos lhe vieram a pertencer em 1922, ano em que dela tomou conta em nome individual.


1926

Nota: no anúncio anterior a "Alberto S. Baeta" ocupava, também, o nº 63, onde tinha funcionado a loja do editor de partituras musicais "Raul Venancio" desde 19 de Setembro de 1901. Em 1851, já ali funcionava a "Libraire Française de P. Plantier" (portas 62 e 63). 


1 de Outubro de 1901

Conhecendo profundamente os problemas da indústria e do ramo de comércio a que se dedicava, Alberto Seabra Baeta desde então pôde pôr em prática a grande capacidade directiva que possuía e colocar a Ourivesaria Baeta no elevado nível mercantil que hoje disfruta. Nessa árdua tarefa, seu filho Carlos Alberto Baeta tem-se colocado, ùltimamente, como precioso auxiliar.

Modesto por temperamento, Alberto Seabra Baeta, agraciado com a comenda de Mérito Industrial procura sistemàticamente não abandonar a esfera do seu trabalho e evitar tudo quanto possa pôr em destaque a sua prestimosa acção em prol da classe de cujo Grémio é director, exercendo também o cargo de Presidente da Associação de Socorros Mútuos dos Ourives de Prata.»


Outubro de 1941

Dezembro de 1942

Alberto Baeta viria a ceder, em 1927, o número 63 à casa "Cardoso, Lda" que se instalou nos números 61 e 63. Constituída em 29 de Dezembro de 1933, dedicava-se a nefgociar títulos, cupões, ouro, prata e moedas nacionais, e moedas e notas estrangeiras.


19 de Novembro de 1851

Em 14 de Dezembro de 1937 dá entrada na CML o projecto de alteração da fachada e interior da loja, vindo a ser aprovado em 25 de Abril de 1938. A renovada  joalharia "Baeta" viria a ser inaugurada em 18 de Janeiro de 1939. 

Quando tive acesso à foto da fachada da "Baeta", chamou-me à atenção a mesma ser revestida a pedra mármore, facto não muito comum na época. Vim a descobrir a possível razão. Alberto Seabra Baeta tinha uma indústria de mármores em Pêro Pinheiro, Sintra, tendo vindo a constituir com seu filho Carlos Alberto Borba Baeta, Augusto Garcia Rainho e Bonfilho Augusto Rainho Faria, em 11 de Dezembro de 1946 a firma "Sociedade de Mármores B. Faria, Lda". Augusto Garcia Rainho e Bonfilho Augusto Rainho Faria deixariam de fazer parte da sociedade por escritura pública de 25 de Agosto de 1956, ficando Alberto Baeta e Carlos Baeta como únicos sócios.

1 de Janeiro de 1951

"Baeta" entre os reclames aos Câmbios e aos relógios "Roamer", à esquerda na foto

Nota: a propósito da legenda da foto anterior ... nunca ouviu falar nos relójios "Roamer"? Pois aqui fica a publicidade de 1971. A "Roamer" existe desde 1888.


2 de Dezembro de 1971

                                                       1955                                                                       1956

Alberto Seabra Baeta, depois de ter procedido a obras de benefeciação, em Outubro de 1970, viria a encerrar em definito a ourivesaria e joalharia "Baeta", em Janeiro de 1979. 

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de LisboaEstação Chronographica

1 de fevereiro de 2026

"English Bar" no Monte Estoril

O "English Bar", terá sido fundado em meados de 1941, ou pelo espanhol Luis Palau ou pelo piloto aviador escocês piloto escocês Horace Rycroft Bass, e espião aliado, que o instalou no Monte Estoril, ao lado do "Grande Casino Internacional", e junto ao troço de estrada que ligava Estoril a Cascais - que incluiria a futura "Estrada Marginal da Costa do Estoril" concluída em 26 de Junho de 1942. A minha dúvida no proprietário fundador, será justificada um pouco mais à frente.


À direita do "English Bar" avista-se o restaurante-boite "Ronda" inaugurado em 1 de Agosto de 1955


Do ângulo inverso, restaurante-boite "Ronda" e "English Bar" à esquerda na foto

O edifício do "English Bar" tinha sido construído em 1890. Um chalet de seu nome "Vila Lydia" que funcionou como casa particular até 1941, e onde viveram famílias como a de Fernando Emydio da Silva e a de Marques Guedes. 


Chalet "Vila Lydia" dentro do rectangulo amarelo, e entre o "Grande Casino Internacional" e o "Casino Portuguez"


Chalet "Vila Lydia" entre o "Grande Casino Internacional" e o "Casino Portuguez" (à esquerda da carroça)

E como escrevi no parágrafo anterior «Um chalet de seu nome "Vila Lydia" que funcionou como casa particular até 1941» que está alinhado com as minhas  modestas investigações, que podem levar a contradizer o que é afirmado de que o "English Bar" terá sido fundado em 1942, por Horace Rycroft Bass, um piloto de aviões escocês que chegou a Portugal em 1935 para operar como espião pelos Aliados passo a descrever.

Segundo o que apurei, o "English Bar" terá sido fundado nos primeiros meses de 1941, e não em 1942 - durante a II Grande Guerra Mundial (1939-1945) - pelo espanhol Luis Palau, ou este ali trabalhava, e considerado por alguns países como um negociante colaboracionista com o inimigo. De seguida publico excertos de listas de 1941, de entidades, personalidades ou empresas que «colaboravam com o inimigo» No ano anterior nem Luis Palau nem o "English Bar" eram referenciados nestas listas, que passo a dar exemplos.


15 de Maio de 1941


31 de Julho de 1941

Em 17 de Janeiro de 1942,  no americano "Federal Register", assim como no "The Proclaimed List of Certain Blocked Nationals - Revision 7-October 1, 1943",  "English Bar" continuava a ser referido como pertencente a Luis Palau, ou este ali trabalhava ... 


17 de Janeiro de 1942


7 de Outubro de 1943

Mas o "The Proclaimed List of Certain Blocked Nationals - Supplement 13-September 1, 1944" , já não aparecia mencionado o "English Bar" na referida lista. Pelo que entre Outubro de 1943 e 1944 ou a posse do mesmo terá passado de Luis Palau para o piloto escocês Horace Rycroft Bass, espião aliado, como afirma o actual "Cimas Restaurante", ou Luis Palau deixou de ali trabalhar. Isto tudo suposições minhas ! ... Mas que o "English Bar" já exisitia em 1941, parece evidente. «Como dizia o outro ... penso eu de que ...»

O primeiro "English Bar" no Monte Estoril, apareceu anunciado na revista " Semana Portuguesa" de 3 de Abril de 1933, lado a lado com o "Café Central". Localizado em frente do "Grande Hotel Estrade", fazia parte do conjunto "Café Central" e "English Bar" propriedade da firma "Pereira & Lopes", filial da pastelaria e salão de chá "Garrett" dos Estoris", como se pode ler no anúncio seguinte.


3 de Abril de 1933

Durante a II Grande Guerra Mundial (1939-1945), o Estoril «asilou reis e príncipes destronados, deu refúgio a judeus perseguidos, acolheu artistas e aqui tiveram lugar algumas das melhores histórias de espionagem (…) As vistas das janelas não só eram poéticas, como tinham uma finalidade bem específica: uma varanda privilegiada sobre o Hotel Atlântico, na altura o verdadeiro centro de espionagem alemã e situada a pouco mais de dois passos do Hotel Palácio, onde os serviços de informação inglesa tinham o seu quartel general» (*) 

O vizinho "Hotel Atlântico", propriedade do alemão Wortus, chegou a ter a bandeira nazi hasteada

Horace Bass associou-se, então, ao chefe de mesa Carlo Bursa e a Luís Lopes Blanco, ex-barman do "Estoril Palácio Hotel". Na época, esta casa funcionava como bar. As varandas eram abertas e não havia praticamente trânsito automóvel. Estacionava-se na marginal, como se pode ver na primeira foto publicada, entrava-se pelo jardim, e tinha um ambiente similar a um "pub" inglês.


Finda a II Grande Guerra Mundial em 1945, Horace Bass cedeu a sua quota a Luís Lopes Blanco em Dezembro de 1945. 

29 de Dezembro de 1945

O actual proprietário José Manuel Cima Sobral, é descende da família galega Sobral Portela, que  emigrou para Portugal no início do século XX. Os irmãos Sobral Portela estiveram na génese de restaurantes famosos, como o "Gambrinus", inaugurado na Rua Eugénio dos Santos, em Lisboa, por Claudino Sobral Portela, em 9 de Novembro de 1935. O pai de José Cima Sobral, Francisco Cima Barreiro, começara como empregado de mesa no restaurante "Aquário", fundado em 1946, também na Rua Jardim do Regedor, em Lisboa, e  propriedade da firma "Avenida-Café, Lda.", chegando à gerência. O principal sócio desta sociedade, o galego, Manuel Outerelo Costa, levou-o a integrar a sociedade "Restaurantes Marginal Lda", que englobava vários restaurantes da Estrada Marginal que eram os seguintes: "Boa Viagem" (alto da Boa Viagem), "Mónaco" (Caxias), "A Choupana" (S. João do Estoril), "Deck Bar" (Arcadas do Estoril) e o "English Bar" (Monte Estoril). Quando a parceria terminou, os sócios tiveram opção de compra e exploração dos espaços. No caso do "English Bar", «houve um trespasse comercial», em 1952 aos seus avós, Francisco Cima Barreiro e Dolores Sobral Portela, que assumiram a sua gestão, ficando a pagar uma renda.

30 de Dezembro de 1951


Já com José Manuel Cima Sobral como sócio-gerente, a propriedade plena do espaço aconteceria em 1962, depois de sua família ter exercido o direito de preferência sobre o imóvel e ser concedida  o estatuto de "Utilidade Turística" por despacho do Dr. Oliveira Salazar. Consumada a compra, deu-se início à ampliação e remodelação do restaurante, sem nunca ter encerrado o estabelecimento. As obras ficaram na responsabilidade do engenheiro Francisco Xavier Marques Maia.

José Manuel Cima Sobral

José Cima Sobral foi buscar livros de decoração ao "Instituto Britânico", no Príncipe Real, em Lisboa e retirou daí muitas ideias. A intervenção neste chalet de estilo "Tudor" acentuou o estilo inglês, com o requinte do antigo serviço de loiça inglês cantão azul "Wedgwood" e dos talheres "Christofle", encomendados à "Antiga Casa José Alexandre" «pela soma exorbitante de 38.880 escudos». Foram adquiridas peles para fazer reposteiros e foram reaproveitadas madeiras de uma demolição.


Ao longo das décadas o "English Bar", foi frequentado por espiões, escritores, reis e políticos. Casos foram do primeiro-ministro Marcelo Caetano e o que lhe sucedeu Adelino da Palma Carlos que ali almoçaram no dia anterior e posterior à revolução, respetivamente. Monarcas, como os Condes de Barcelona (pais do Juan Carlos) e que viviam no Estoril, Rei Humberto II de Itália e a irmã, a Rainha Joana da Bulgária, o Rei Carol da Roménia, e a família dos Condes de Paris. Políticos, como Sá Carneiro, Mário Soares, Freitas do Amaral, Ramalho Eanes, Marcelo Rebelo de Sousa, etc.

Almoço do Conde de Barcelona, Juan de Borbón (á direita na foto), pai do futuro Rei Juan Carlos 


"English Bar" a seguir ao Restaurante-Boite "Ronda"


Postal do início dos anos 70 do século XX

Entretanro, em 2001, o "English Bar" muda de denominação para "Restaurante Cimas" e em 2021 procede a algumas remodelações, inaugurando um terraço com 20 lugares distribuídos por cinco mesas no piso superior. 




Em 18 de Março de 2003, é constituída a sociedade "Restaurante Família Cima, Lda.", com sede social na Avenida de Sabóia, nº 9 no Monte Estoril. O capital social é de 15.000 euros distribuídos pelas seguintes quotas:  Uma quota do valor nominal de 9.000 euros, pertencente ao sócio José Manuel Cima Sobral; Uma quota do valor nominal de 3.000 euros, pertencente à socia Ana Maria Militao Silva de Cima; Uma quota do valor nominal de 1.500 euros, pertencente à socia Sara Dolores Militao Silva de Cima Sobral Roquette Teixeira;  Uma quota do valor nominal de 1.500 euros, pertencente à sócia Mafalda Luisa Militao Silva de Cima Sobral. É a sócia Sara Cima Sobral, filha de José Manuel Cima Sobral, que gere o restaurante actualmente. 

«Mantêm-se os candeeiros antigos de luz suave, apliques de ferro e abat-jours em papiro “oriundos de uma velha loja já extinta no Largo de S. Carlos”, peças de ferro e porcelana, bases de candelabros em estanho, as gravuras inglesas antigas alusivas à caça e aos cavalos, os cadeirões e ementas em couro e a tapeçaria de Arraiolos. Encimando a lareira, a talha de madeira antiga em forma de brasão, representando os símbolos da coroa britânica (o cavalo e o leão), à qual se acrescentou a sigla “EB”, de English Bar. E todos os dias se dá à corda ao relógio do século XIX, originário de Ourense... Repare nas esculturas em bronze, de uma perdiz e uma galinhola, alusivas à caça. Foi introduzida no menu nos anos 80, quando José se apercebeu do aumento “desmesurado” de restaurantes de peixe e marisco no Guincho. Resolveu que só podia continuar “sendo diferente deles todos” » (*)





Outro "English Bar" existiu, mas em Lisboa, na Rua Bernardino Costa, 42 e 44, no Cais do Sodré, e que em tudo nada tinha a ver com este. Existiu, como bar, numa primeira fase antes de 1921, altura em que o seu gerente José Tavares saíu, para fundar no nº 52 o "British Bar". Este "English Bar", transformar-se-ia no Restaurante-Bar "Paraizo". O "English Bar" voltaria a funcionar como bar pela mão da firma "Nova Inglesa, Lda." constituída em 1 de Junho de 1936, por Carlos Gomes Cardoso Pereira e Gaspar Octávio Passos de Almeida. Veio substituir o Restaurante-Bar "Paraizo", que ali tinha funcionado. A "Nova Inglesa, Lda." seria subsituída em 19 de Março de 1960, pela "English Bar, Lda." formada pelos seguintes sócios: Gaspar Octávio Passos de Almeida, Aurélio Fernandes Palha e Manuel Esteves Junior. É hoje o "English Bar 42", englobado na marca"Dote - Cervejaria Moderna", pelo que também é conhecido por "Dote Cais do Sodré".

E já que «estou com a mão na massa», aqui fica o "English Bar" no Funchal, em foto de 1 de Maio de 1984 ...



(*) - 2003: Garfo de Ouro reconhece excelência do Cimas English Bar no Estoril, da autoria Pedro José Barros in: jornal "Expresso"

Bibliografia:

50 Anos 50 Restaurantes - "2003: Garfo de Ouro reconhece excelência do Cimas English Bar no Estoril", da autoria Pedro José Barros, in: jornal "Expresso" de 23 de Fevereiro de 2023.

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Cimas Restaurante, Jornal Expresso, Lojas com Históiria