Restos de Colecção

28 de junho de 2026

"Bazar do Povo" - Brinquedos

A já centenária casa de brinquedos "Bazar do Povo", foi fundada por Antonio Thadeu, na Rua do Ouro 148-150 em Lisboa, segundo consegui apurar, por volta de 1893, e com a denominação de "Grande Bazar do Povo", como aparece na primeira referência publicitária que encontrei e reproduzo seguidamente. Inicialmente não eram os brinquedos o seu principal negócio, mas quinquilharias, brindes, artigos para a casa, etc. como se poderá ver no próximo anúncio de 1900. A firma fundadora "Antonio Thadeu & C.ª" viria a ser constituída só em 22 de Fevereiro de 1905.

"Bazar do Povo" à direita da "Tabacaria Marques" em 1904

Aviso de 7 de Novembro de 1894


1898

1900

Nota: a referência anterior ao "Grande Bazar do Povo" de 1898, foi retirada do "Anuario del comercio, de la industria, de la magistratura y de la administración" da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional de España. 

O jornal "A Capital", em 29 de Junho de 1916, escrevia acerca do "Bazar do Povo":

«Ali mesmo no coração da rua destaca-se uma casa cheia de um verdadeiro formigueiro de objetos de formas caprichosas e delicadas do cores vivas e saltitantes, attrahindo e fixando o espirito em uma irresistível seducção. São toda a sorte de brinquedos que fazem a felicidade das creanças o que são até uma deliciosa surpreza para os adultos; pequenas estatuetas lindas jarras, porcelanas do Saxe, molduras espelhos artísticos, etc. e etc. Todo um mundo de doirada phantasia, numa completa realização das mais inverosímeis cubiças dos nossos pequeninos.
Estamos, leitor, no «Bazar do Povo», na rua do Ouro, 148 a 150, que pertence presentemente a firma Joaquim Thadeu & C.ª. O «Bazar do Povo» vem acompanhando rigorosamente toda a efervescencia d'esse progresso que se vem manifestando em todos campos de atividade humana.
Quando as bonecas, quando os velocipedes, quando os «carros» e os «cavallos» obedeciam a linhas rudimentares, a formas imprecisas, pouco estheticas, o «Bazar do Povo» contentava assim os petizes.
Hoje, porem, que até o gosto infantil se tornou mais exigente perante a marcha dos inventos, dos engenhos, das novidades, o «Bazar do Povo» vae-lhe na esteira.»

Em 17 de Janeiro de 1943, deixaram de fazer parte da "Joaquim Thadeu & C.ª ", Joaquim Thadeu e João Thadeu, «por virtude das cessões que fizeram aos seus consócios Srs. João dos Santos Tadeu e José Pires Thadeu (...) O capital social é de 10.000$00 pertencente aos dois sócios João dos Santos Thadeu e José Pires Thadeu na proporção de 5.000$00 a cada um (...) »


Na "Revista de Turismo" de 1962



Exemplos de antigos brinquedos



Em 24 de Março de 1970 a firma "Joaquim Thadeu & C.ª " tinha como sócios, em quotas de proporção igual, João dos Santos Tadeu, Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, e um capital social total no valor de 30.000$00. Em 5 de Abril de 1973 este capital social viria ser elevado a 300.000$00  continuando as quotas proporcionalmente iguais.

Em 13 de Outubro de 1976, e por escritura pública os sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, transformaram a sociedade "Joaquim Thadeu & C.ª " numa sociedade comercial por quotas de responsabilidade limitada denominada "Pires & Thadeu, Lda.", tendo sido admitida como nova sócia D. Maria do Patrocínio Sequeira Tadeu com uma quota de 150.000$00, igual à dos outros dois sócios, perfazendo um total de 450.000$00.


Em Setembro de 1996 , a sociedade continuava a ter como sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos. É desta altura que retirei do "Jornal dos Clássicos", não só a foto anterior do exterior e 3 fotos seguintes do interior da loja, como as seguintes passagens:

«Há uma atmosfera esquisita, nos dias de hoje, no Bazar do Povo. O encantamento, a magia dos brinquedos, testemunha frases de certo modo desgostadas em relação ao ambiente actual deste tipo de lojas. Que continuam a ter os seus clientes fiéis, como aconteceu com o jovem senhor que procurava jogos de família (do tipo Monopólio), ou com o senhor menos jovem que veio saber das novidades da Bburago… Ou clientes infiéis, como eu, que no fim de todos estes anos acabei por trazer uma estação para o comboio eléctrico HO do meu filho…O Bazar do Povo ficou assim conhecido, muito, mas muito antes das conotações de “povo” de 25 de Abril, sendo uma loja centenária; não tão antiga como a dos carimbos que quase lhe fica defronte. Essa datando de 1891, mas diz-se que remonta a pouco depois… no entanto, a escritura oficial data de 1905, com o nome que a casa teve no início, bem como os que se seguiram, sempre na família Thadeu – tal como hoje, já que é explorada por sobrinhos-netos. E – desfaçam-se as dúvidas – do Bazar Thadeu (da Rua Augusta) apenas há ligações familiares.


Os sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos


Últimas 4 fotos (anteriores a 1996) foram publicadas no site "Jornal dos Clássicos", em Setembro de 1996 

“Tenho postais de 1893 em que já apareceu a casa”, diz um destes sócios. Ao longo de todos estes anos, a casa sempre teve do que melhor existia em brinquedos, num tempo que não havia importadores: “A Schuco, por exemplo, era importada directamente; em comboios eléctricos vendemos Marklin, Lima, Jouef, Lilliput, Tri-ang… agora vendemos mais Lima. Tivemos muita coisa da Chad Valley – o que se vendia mais eram os bonecos – os bebés, eram o artigo número um da Chad Valley…” – Mas tenho um tractor deles e… – “Tractores eram os da Merit… e uns muito bem feitos, da Brittains”. Todas as coisas têm a sua “febre”. Na década de 60, a “febre” grande foi para os comboios eléctricos e pistas de automóveis. Foi a grande loucura. Depois entrou-se mais no campo dos brinquedos técnicos – como o Mecano, que antigamente era o mais vendido. E que também era importado directamente pelo “Bazar do Povo”, tal como os Dinky Toys – e não só: “Como as miniaturas… fomos o primeiro importador em Portugal da Quiralu… a Norev tal como a Heller, foi nossa”. Havia clientes que iam até ao Bazar do Povo só por causa dos modelos: “Ainda hoje temos gente que vem apenas pelas miniaturas”. (...)
É para lhe contar umas histórias, porque apesar de tudo a boa disposição continua a existir no Bazar do Povo, já que tanto José João Thadeu como Joaquim Manuel Pires, os sobrinhos-netos do fundador têm sempre uma brincadeira ou um diboche pronto a sair. E histórias que ficaram na história: “A primeira coisa que aqui se vendeu foi uma chaminé de candeeiro – e o dinheiro ainda ali está dentro”, diz com um sorriso José João Thadeu, recordando o tamanho grande da moeda. Bem vindos ao ano 2000!»





3 fotos do livro "Lisboa: Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997


Por escritura pública de 15 de Dezembro de 1999, Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, cedem as suas quotas, na "Pires & Thadeu, Lda." aos novos proprietários: Maria Rosa Capelo Pinto, sócia-gerente, Carla Sofia Pinto Almeida e Bruno Miguel Capelo Pinto de Almeida com um capital social total de 5.000 euros.


Exterior e interior em fotos de 2013



2018

Esta casa com pelo menos cerca de 130 anos de existência, felizmente ainda funciona, com os seus brinquedos, na Rua do Ouro, 148-150.


"Bazar do Povo" em captura de 2024 via Google Maps


2025

23 de junho de 2026

"José Mayer" - Casa de Penhores

A Casa de Penhores "José Mayer" foi fundada em 12 de Fevereiro de 1917, por José Mayer, na Rua do Loreto, 18-20, em Lisboa. José Mayer, natural da província, veio para Lisboa onde se empregou na Casa de Penhores de António Pedro da Silva (ex- "Hermida & C.ª " ), na Rua das Gáveas, 10-1º. 

A casa "José Mayer" negociava simultâneamente em penhores, antiguidades e jóias. José Mayer, falecido em 1962, foi penhorista, antiquário, ourives, fotógrafo amador, e como grande aficcionado da tourada fundou os grupos tauromáquicos "Sector I" e a "Festa Brava".


1994


José Mayer e seus filhos Ivo (esq.) e Augusto (dir.) em foto de 1956


13 de Fevereiro de 1917


Primeiro penhor na casa "José Mayer"


Na 2ª porta à direita, nº 10, Casa de Penhores onde José Mayer tinha trabalhado até 1917

Em 1919 José Mayer junta-se a Marcos Pereira Ramalheira e fundam na Avenida Duque d'Ávila, 177-179, em Lisboa, outra Casa de Penhores: a "Monte Auxiliar", propriedade da firma "Mayer & Ramalheira, Lda".

 
                                           1949                                                                                  1964


Em 12 de Fevereiro de 1942 a casa "José Mayer" comemorou as suas bodas de prata. Na ocasião a "Gazeta dos Caminhos de Ferro" publicou uma nota evocativa, da qual retirei o seguinte excerto:

«José Mayer, nome prestigioso no meio comercial de Lisboa, e pessoa com quem os amigos e «aficionados» do Grupo Tauromáquico «Sector I» sempre contam -pois a sua colaboração é sempre preciosa - festejou, no dia 12 do corrente, as bodas de prata do seu estabelecimento de antiguidades e penhores, duma maneira digna de especial registo e louvor, não só permitindo que todos os penhores depositados até à importância de 12 escudos fôssem levantados gratuitamente, mas distribuíndo também esmolas aos pobres protegidos pelos jornais da capital.
Á noite, na Pastelaria «Marques», José Mayer reüniu em primoroso banquete, que decorreu na mais cordial distinção, numerosos amigos, tendo êstes elegido a mesa de honra, que foi presidida pelo sr. dr. Ferreira Deusdado, e de que fizeram parte os srs. Marcus Ramalheira, Coronel Rêgo, dr. Sant'Ana Rodrigues, dr. Sabido da Costa, Henrique Ferreira Martins, Alexandre Ferreira, dr. David Gonçalves. (...)
José Mayer, alma generosa, e modêlo de amigo, poude vêr, mais uma vez, quanto a sua honestidade e o seu carácter são sinceramente admirados.»


1 de Janeiro de 1934


1 de Julho de 1941


28 de Abril de 1947

Em 1969 a família Mayer possuía duas casas de penhores, a original na Rua do Loreto, gerida por Augusto Mayer, e uma segunda na Avenida Almirante Reis, gerida por seu irmão Ivo Mayer, e uma casa de antiguidades em São Pedro de Sintra, dirigidas pelos dois filhos de José Mayer, Augusto e Ivo Mayer.

No início do século XX, muitos dos penhoristas em contacto permanente com peças belas e valiosas, convivendo com uma clientela requintada, adquiriram o gosto dos objectos de arte e, avaliando as possibilidades de um tal negócio, tornaram-se antiquários e coleccionadores.

A casa "José Mayer" ficava no n.° 18 da Rua do Loreto, uma porta pequena entre duas montras. Liam-se vários letreiros: PENHORES; ANTIGUIDADES; LEILÃO; OURIVESARIA; COMPRA E VENDE ... O interior lembrava mais um Antiquário que uma Casa de Penhores. Nas paredes, nas vitrinas, peças de valor, porcelanas, cristais, relógios antigos, quadros ... É que as Casas de Penhores também se dividiam em classes, em categorias, um estabelecimento do Chiado tinha uma clientela diferente da de um estabelecimento situado num bairro popular A "José Maver" era especializada em objectos de arte. «Claro que também tem muitos clientes daqueles que vão «entregar ao usurário umas coisinhas» como diz a canção, compra e vende toda a espécie de artigos, roupas, electrodomésticos, etc., mas tudo isso está catalogado, guardado nas traseiras, armazenado».



Augusto Maria Pinto Mayer - irmão de Ivo Pinto Mayer e Isabel Maria Pinto Mayer - como o pai, penhorista, antiquário, ourives, coleccionador, aficcionado, amador de música jazz e fotografia, era uma «figura de Lisboa». Foi neste contexto que a revista "Século Ilustrado" o entrevistou, em 8 de Julho de 1969, e que passo a transcrever na sua maioria:

Augusto Maria Pinto Mayer

«Ao contrário do que a sua voz decidida e autoritária ao telefone parecia indicar, Augusto Mayer é um homem de aspecto simples, simpático, afável, bem humorado ... A sua secretária, grande e saída, está colocada mesmo atrás do balcão, protegida apenas por um tabique, para poder estar permanentemente em contacto com o negócio. Porque Augusto Mayer gosta da sua profissão:

- Como nas outras profissões é preciso gostar. Fui criado neste ambiente, habituado desde pequeno a conviver com peças antigas. Não, nunca pensei seguir outra profissão, acabei o liceu e vim logo para aqui, foi esta a minha faculdade ...

- Foi o meu pai que fundou a Casa, há 52 anos. Eu dirijo este estabelecimento e o meu irmão o da Almirante Reis. A minha irmã está em casa mas também é proprietária assim como a minha mãe ... Propriamente a respeito do negócio de penhores pouco posso dizer, é um negócio estritamente confidencial, há certas coisas que não podemos divulgar.

- Hoje vem mais gente porque é dia 8 ... a renda da casa ... O negócio varia conforme as alturas, os princípios dos meses são mais férteis em  empréstimos, há sempre muitas despesas, letras ... Depois baixa e volta a subir no fim do mês quando o ordenado se acaba. Temos vários clientes regulares, clientes com muitos anos de casa, alguns vêm todos os meses, enfim, depende ... em certas épocas até vêm todos os dias! As pessoas preferem empenhar a vender porque podem voltar a levantar os objectos se tiverem possibilidades e, além disso, há coisas que ninguém quer comprar. Aqui sempre recebem alguma coisa, talvez uma importância um pouco inferior ao valor dos objectos. Por exemplo, uma pessoa pretende vender uma peça por 500$00, nós podemos emprestar 400$00 e assim sempre arranja algum dinheiro rapidamente e se quiser pode recuperar, se pagar os juros, claro. A maioria, mais de 50 por cento vem levantar os objectos. Outros, por diversos motivos, abandonam. (...)


Interior da "José Mayer" na Rua do Loreto em 1994

-Temos clientes de todas as classes sociais. Pessoas até muito conhecidas. Claro que não posso dizer nomes, como já disse, este é um negócio confidencial. Em princípio pode parecer que as pessoas escolhem o estabelecimento mais próximo mas nem sempre assim acontece. Há quem vá empenhar as coisas muito longe de casa, até chegam a vir do Porto a Lisboa!

No fundo não há motivo para as pessoas se envergonharem, isto é o negócio de um banco. A única diferença é que enquanto no banco a garantia é um aval bancário, o banco só empresta se um comerciante avalisar as letras, para nós a garantia é o objecto. Funcionamos exactamente como um banco. Ora ninguém se envergonha de pedir dinheiro a um banco e portanto não há razão para se envergonharem de pedir um empréstimo numa casa de penhores. Nomes não posso dizer mas pelos objectos que estão expostos, pode-se calcular, que as pessoas que vêm empenhar objectos destes não podem ser pessoas , sem posição, sem categoria. Nós temos peças empenhadas em troca de empréstimos na ordem dos 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 contos! Não há hipótese de uma pessoa vir empenhar um objecto de 70 ou 80 contos se não tiver esses objectos em casa e por conseguinte pode ver a categoria da pessoa ... (...)


Interior da "José Mayer" na Rua do Loreto em 1994

A família Mayer aliás tem colecções particulares. 

-Já em miúdo coleccionava tudo o que apanhava, desde aqueles retratos de futebolistas que vinham dentro dos rebuçados. Colecciono tudo, mesmo coisas sem valor, etiquetas de hotéis, de companhias de aviação, emblemas, caixas de fósforos ... Agora estou a fazer uma colecção de sapatos e botas de porcelana, de metal, de madeira, já tenho cerca de 200. Também tenho uma grande colecção de máquinas fotográficas. Desde muito novo que sou um apaixonado da fotografia, como o meu pai, deve ser hereditário. Participei em várias exposições, até ganhei uma medalha!

Augusto Mayer mostra algumas fotografias a cores da sua casa de antiguidades de São Pedro de Sintra. É uma das várias lojas que constituem uma espécie de Drugstore, luxuosamente decorado, que ainda não foi inaugurado oficialmente.

- Depois tive que desisitir, tenho muito trabalho e não me sobra tempo para me dedicar a sério à fotografia. Claro que continuo fotografando sempre que tenho ocasião, quando viajo ... Eu gosto muito de viajar, mas também quem é que não gosta? Sempre que possível dou um saltinho nem que seja só até Badajoz para tomar um café!

Os irmãos Mayer, como o pai, dedicam-se às mais variadas actividades. Grandes aficcionados nunca perdem uma tourada. Ivo Mayer tem a paixão dos automóveis e já participou em numerosos «rallies» e gincanas. Como não podia deixar de ser também se dedicaram à música:

- Pode dizer-se que sou um dos dois pais do «jazz» em Portugal, fui eu um dos fundadores do Hot Club. Pessoalmente não toco nenhum instrumento, em tempos aprendi violino mas acabei por desistir. O meu irmão é que toca piano, tem tocado na Emissora, na Televisão. Agora, desde que o meu pai morreu afastou-se um bocado, enfim, há mais trabalho ...

Os clientes continuam a seguir-se, atendidos por um funcionário que avalia ràpidamente os objectos.

-A avaliação é feita na altura, por mim ou pelos funcionários. É preciso muita prática e conhecimentos. Chega-nos aqui toda a espécie de artigos e temos de julgar ràpidamente. Não temos muita coisa à vista, está tudo guardado nos armazens, era impossível ter tudo aqui. Para desempatar capital realizamos leilões periódicos, de três em três meses. São leilões iguais aos outros só têm é os 10 por cento de impostos e os 5 por cento de selo. Procuramos nunca perder o dinheiro emprestado, geralmente começamos a leiloar a partir do valor do empréstimo. As peças que não atingem este mínimo vendêmo-las depois durante o ano. Também temos muitos clientes que vêm para comprar. Às vezes pedem coisas muito estranhas, estou-me a lembrar de uma senhora, muito bem posta, que, aqui há tempos, entrou cá na casa e pediu para eu lhe vender ... uma Nossa Senhora de Fátima do século XVIII! Ainda os pastorinhos não eram nascidos! 

Num negócio como este passam-se coisas imprevistas, é isso que o torna apaixonante. A propósito, um pormenor curioso, o grande toureiro que foi Carlos Arruza comprou aqui o primeiro fato que usou em Portugal. Vestiu-o mesmo ali dentro. Sim, porque nós também temos fatos de toureiro!» 


22 de Janeiro de 1972

12 de Março de 1974

Em 16 de Maio de 1996 Augusto Maria Pinto Mayer, sócio com seus irmãos Ivo Pinto Mayer e Isabel Maria Pinto Mayer na firma "José Mayer, Lda." renuncia à gerência da mesma, continuando como sócio com seus irmãos. A sede da firma é transferida para a loja da Avenida Almirante Reis, 66-A, em Lisboa, após encerramento definitivo da loja na Rua do Loreto, 18-20. 

Em 23 de Outubro do mesmo ano nova alteração na firma, quanto ao Artigo 1 que passou a ter a seguinte redacção: «A sociedade continua a adoptar a firma José Mayer. L.da, tem a sua sede na Avenida do Almirante Reis, 66-A, em Lisboa, freguesia dos Anjos, e tem por objecto social a comercialização de máquinas de costura domésticas e industriais, respectivos acessórios, componentes e reparações.».

Augusto Maria Pinto Mayer (1926-2012) e seu irmão Ivo Pinto Mayer (1931-2012), foram sócios-fundadores, com Luiz Villas-Boas e Gerard de Castello Lopes, do "Hot Clube de Portugal" em 16 de Março de 1950. Augusto Mayer fotografou vários momentos da história do jazz em Portugal, com destaque para as iniciativas do Hot Clube. Morreu em 22 de Dezembro de 2012, um dia depois do seu irmão, o pianista de jazz Ivo Mayer. Segundo o boletim do "Hot Clube de Portugal" de Abril 2011, «a sua colecção fotográfica, de discos e de livros, é das mais ricas que existem em Portugal». Fotografou Jam Sessions históricas nos anos 1940 e 1950, e concertos como o de Sidney Bechet em 1955, de Count Basie em 1956 ou o de Louis Armstrong em 1961.

Em 1927, José Mayer tinha comprado na vila de Sintra, o "Chalet Mayer", projetada pelo arquiteto italiano Luigi Manini e cuja construção tinha sido concluída em 1897. Seria herdado pelos filhos, Augusto e Ivo Mayer. Depois de ter sido vendido em 2024, vai ser transformado num hotel de charme.


A firma "José Mayer, Lda." terá sido liquidada e dissolvida em 2005.



E no seu lugar, actualmente, um loja de óptica "Hawkers"

Quanto à loja da Almirante Reis, actualmente, um restaurante de comida vietnamita ...


Restaurante de comida vietnamita (não arrisquei a escrever o nome)

Entretanto a firma "Mayer & Ramalheira, Lda.", como anteriormente referido fundada em 1917, continua em actividade e com loja no mesmo lugar, na Avenida Duque d'Ávila, 177-179, em Lisboa. A última composição societária a que tive acesso, datada de 15 de Junho de 2004, era a seguinte: Nazaré Luzia da Silva, António Augusto Cardoso Lopes, João Armando Diogo Almeida, Marcos José Martins da Silva Ramalheira e Marcos André Martins da Silva Ramalheira.

"Ramalheira - Jóias"

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ("Lojas de um tempo ao outro, Vol I" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1994)

18 de junho de 2026

"Primeira Casa das Bandeiras"

António de Almeida Cardoso, após trabalhar como alfaiate em São Pedro do Sul, mudou-se para Lisboa e abriu a alfayateria e fazendas "Antonio Cardoso", na Rua da Boa Vista, 18. A primeira referência a esta alfaiataria que encontrei foi já em 1900, no "Almanach Palhares". Nos anos anteriores, e também noutras fontes, e após aturadas buscas, não encontrei qualquer referência a esta alfaiataria, que esteve na génese da "Primeira Casa das Bandeiras", mas na porta na loja atual na Rua dos Correeiros, 149 e no site "Lojas com História" indicam o ano de 1885 para a sua fundação ... Assim como um anuncio publicitário de 1911, e postal que publico mais adiante. Certo é que só a partir de 1900 a alfaiataria "Antonio Cardoso" aparece anunciada com regularidade, não aparecendo em listagens de alfaiates de Lisboa nas últimas duas décadas do séc. XIX  ... Fica a minha dúvida, talvez infundada.


1900


Excerto da lista alfabética da alfayates de Lisboa, em 1899, sem Antonio Cardoso, assim como nos anos anteriores

Anúncio publicitário publicado em 1901 e 1902

E já em 1884 , um fabricante de signaes e bandeiras ...


1884

Em 1900, anunciava a comercialização de «Bandeiras e Signaes - Pendões e Estandartes». Desde 1900 a 1902 mantem sómente domicílio na Rua da Boa Vista, 18-20. Mas é em 1903 que António Cardoso abre outra loja na Rua dos Correeiros, 149-151, (então, vulgo Travessa da Palha) a "A Thesoura de Prata" ficando proprietário das duas lojas em simultâneo, situação que se manteria até 1904, ano em que encerra em definitivo a primeira loja na Rua Boa Vista, 18-20.

1903


1903


Ambos de 1904



1907

Durante uns anos manteve duas atividades distintas: alfaiataria com venda de fazendas e fabrico e comercialização de bandeiras. A primeira bandeira da República portuguesa, após a implantação da República em 5 de Outubro de 1910, foi confeccionada por esta casa.




Foto original disponibilizada pelo "Museu da Presidência da República"


2 de Outubro de 1911

«Encontrámos na bandeira a etiqueta de origem que nos levou a uma loja histórica da baixa lisboeta, que ainda existe (Primeira Casa das Bandeiras, na Rua dos Correeiros), e que participou depois, na sequência do 5 de Outubro, na elaboração da primeira bandeira nacional. Infelizmente, não lhes restou nenhuma documentação que traga mais alguma luz sobre a bandeira.» in: "Museu da Presidência da República".


 Ambas as gravuras e postal restaurados por IA




1913

Em 1913, um concorrente, na Rua dos Fanqueiros ...


1913


1917

Entretanto, em 22 de Maio de 1936, Deocleciano Costa e José Monteiro da Silva, antigos empregados da alfaiataria "Casa da Talha" na Rua dos Fanqueiros, 223-227, em Lisboa, formam a firma "D. Costa & Monteiro, Lda.". Por morte dos fundadores da "Casa da Talha", esta já era propriedade dos seus empregados sendo estes dois sócios os gerentes, pelo que ... «sem qualquer auxílio financeiro estranho, servindo-se apenas do excelente crédito do seu nome, os actuais proprietários da casa imprimiram-lhe grande impulso, e, além de manterem primorosas secções de alfaiataria e confecção, dedicaram-se ao comércio especializado de bandeiras.» . Por consequência esta casa passa a denominar-se "Casa das Bandeiras" de "D. Costa & Monteiro, Lda.", mantendo-se na Rua dos Fanqueiros, 223-227. Esta "Casa das Bandeiras" ainda existe, e tem sede e loja no Bairro de Alvalade.


"Casa das Bandeiras"

Quando a "A. Cardoso", no início dos anos 40 do século XX, foi registar o nome de "Casa das Bandeiras" já este nome era utilizado pela "D. Costa & Monteiro, Lda.", na Rua dos Fanqueiros, e, para não perder o seu lugar na história, que já em 1913 a alfaiataria "A. Cardoso" se intitulava "Casa das Bandeiras" - e já aparecendo em 1917 anunciada como a «1ª Casa das Bandeiras - Alfaiataria com Fazendas de A. Cardoso» -, esta optaria pela denominação "Primeira Casa das Bandeiras", propriedade da firma "Antonio Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa".


1 de Janeiro de 1940


1 de Janeiro de 1943

Por escritura pública de 24 de Outubro de 1967, é constituída a sociedade "Primeira Casa das Bandeiras de António Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda."
«O objecto social é o exercicio do comércio de bandeiras e seus afins, quinquilharias e artigos decorativos ou qualquer outro em que os sócios acordem e não dependa de autorização especial.
O capital social é de 800 000$, está integralmente realizado e divide-se em três quotas, pertencentes aos sócios pela forma seguinte: D. Margarida Cardoso da Costa, 160 000$; Rui Dinis de Almeida Costa, 70 000$, e António José Cardoso da Costa, 70 000$.»
A loja sita Rua dos Correeiros 149-151, em Lisboa, era propriedade de D. Margarida Cardoso da Costa.

Em 27 de Julho de 1973 a sociedade passa a ser constituída apenas por D. Margarida Cardoso da Costa, 195 000$, e António José Cardoso da Costa, 105 000$.

Em 4 de Julho de 1985 « O abaixo assinado, Rui Dinis de Almeida Costa, casado, residente na Rua dos Lagares, 20, 3.°, esquerdo, em Lisboa, e natural da freguesia de São Sebastiao da Pedreira, do concelho de Lisboa, como herdeiro de Margarida Cardoso da Costa, e, portanto, também herdeiro de António Baptista de Almeida Cardoso e ou António Cardoso, autoriza que o nome dos mesmos continue a fazer parte integrante da denominação - firma - social da Primeira Casa das Bandeiras de António Cardoso Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda, com sede social na Rua dos Correeiros, 149-151, em Lisboa. »

Em 10 de Março de 1986, António José Carlos da Costa e Margarida da Conceição Moreira da Silva da Costa, são nomeados como únicos sócios da sociedade "Primeira Casa das Bandeiras de António Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda.".


Calendário para 1988


Ambas as fotos de 1997

Em 7 de Novembro de 2000 procedeu-se à nomeação de gerente: Margarida da Conceição Moreira da Silva ou Margarida da Conceição Moreira da Silva da Costa.

Esta centenária "Primeira Casa das Bandeiras" ainda existe, na mesma morada, mantendo-se na mesma família, girando sob a firma "Primeira Casa das Bandeiras de Antonio Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda." sendo a atual sócia gerente D. Margarida da Conceição Moreira da Silva, e cujo falecido marido era neto do fundador. 




3 fotos anteriores in: "Lojas Com História" (2017)

« A mão que faz uma bandeira, hábil na costura e no bordado, é tão antiga quanto a necessidade de as ter: marcar território, identificar uma família ou projecto colectivo, fazer uma distinção, ostentar uma crença ou um poder. Tudo isto é quase tão antigo quanto o próprio tempo: a guerra, a hierarquia, a religião. Hoje, no entanto, a Casa das Bandeiras não serve só clientes militares, nobres e religiosos, mas também diversas entidades públicas e privadas – uma sociedade filarmónica, misericórdias, autarquias, empresas ou clubes desportivos. Mudam-se os tempos, mudam-se as identidades...


Imagem via "Google Maps", captada em Abril de 2024

O talento que acarreta este saber-fazer está bem manifesto na bandeira dedicada à casa, no estandarte à direita de quem entra, feita em cetim de seda, debruada a cordão de três cores, com os melhores materiais. A produção manual decresce frente à mecanização e à impressão em série. O contrário é o que buscam os colecionadores, que atentam nas três gavetas etiquetadas “Bandeiras Antigas” e que só são abertas com muita parcimónia, só para olhos de entendedor, tal não é a delicadeza dos materiais e a sua fragilidade. Além das bandeiras e das insígnias, a loja procura diversificar serviços, oferecendo carimbos e plastificações a quente. » in "Lojas com História" (Jan 2017).

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ("Lojas de um tempo ao outro, Vol I" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997), Lojas Com História