Restos de Colecção

30 de agosto de 2026

"Hospital de Bonecas"

O "Hospital de Bonecas" teve a sua génese na "Ervanaria Portugueza", que se instalou na, ainda Rua do Amparo, 66, (actual Praça da Figueira,7) em Lisboa, junto ao antigo "Mercado da Praça da Figueira" - ainda arborizado e ao ar livre, até 1849. Segundo «reza» a história, a "Ervanaria Portugueza" terá iniciado a sua actividade em 1830, e que à sua porta se sentava uma senhora, de seu nome Carlota, e que remendava umas bonecas de trapo. 


"Hospital de Bonecas" na área delimitada a vermelho, em foto de 1949


1952

Hospital de Bonecas e Ervanaria onde está a senhora à porta, em 1960


Já com indicativo na bandeira da porta nº 7 (à esq.), em 1961

Já no século XX, a propriedade desta ervanária e hospital de bonecas, localizada na Rua do Amparo, 66, passa para a firma "Lilia Tavares, Lda.", constituída em 6 de Novembro de 1941, tendo como sócios João Barros e Melo de Carvalho e Lilia Dinah da Silva Luz Tavares. Em 17 de Abril de 1945 a mesma sociedade substitui o sócio João Barros e Melo de Carvalho por António da Conceição Rosado Tavares.


1959

Na revista "Boa Noite" de Dezembro de 1977

Um concorrente no Chiado ... Mas este não é um Hospital, mas sim uma Casa de Saúde ...


E ainda outro, mas este sem instalações hospitalares ...


1 de Abril de 1903

A actual proprietária do "Hospital de Bonecas",  D. Manuela Cutileiro lembra: « (...) Assim de vez em quando a manhã era passada junto à D. Carlota a espreitar as bonecas que ela ía fazendo. Depois conversando, sempre se ía contando os males das bonecas e ela, pouco a pouco, lá as ía consertando. Acho que foi assim que começou o Hospital de Bonecas!
Os anos passaram e o mercado acabou, mas as crianças de então, já mães e avós foram contando aos seus filhos que havia uma pequena loja onde o tempo passava um pouco mais devagar e onde sem pressas se podia brincar ao “faz de conta”. Ainda hoje é isso que fazemos.
Quando há dois séculos atrás, em 1830, ela se sentava à porta a remendar e cozer bonecas de trapo, não poderia imaginar que a coisa viesse a ganhar estas proporções. É que, além da vertente de hospital, há também a loja, o restauro de outros brinquedos além de bonecas, a confecção de roupas e vestidos, trajes regionais e para o carnaval, e o museu. Só no museu há mais de 3500 tipos de bonecas diferentes, um número que só pode ser uma estimativa aproximada, dado que as doações e as ofertas de novas bonecas acontecem a ritmo quase diário.»




As três fotos anteriores, de 1997

Como se pode observar nas várias fotos aqui publicadas a loja situa-se, desde sempre, em parte do hall de entrada do prédio nº 7 da Praça da Figueira. Inclusivé na foto anterior podem ser observadas tabuletas indicativas de vários consultórios médicos no prédio. As oficinas e museu ocupam o 1º andar do mesmo prédio e onde funcionou em tempos a "Escola de Ensino Primário Elementar nº 78" - Sexo Masculino.

«O espaço já não comporta mais inquilinos, o que confere ao museu uma intensidade, uma sobrelotação de olhos e expressões e rostos e formas e membros e trajes, quase excessiva, mas que torna a visita uma experiência mesmo especial, mas nem sempre cómoda. Ícone de infância, a boneca não remete só para uma planície feliz de um passado pleno – dado que raramente é isso, a infância – e é incrível como diferentes visitantes o experienciam no museu. Os medos e o imaginário, o crescer e o descobrir.




Ambas as fotos da loja na entrada do prédio. Porta ao fundo de acesso à escada do prédio


Também na parte do hospital, boa parte dos clientes são adultos a querer recuperar memórias de infância, o que enche o espaço de biografias e memórias, e lhe confere uma carga que transcende em larga medida a questão material do braço partido ou a questão estética do vestido rasgado. Aqueles bonecos são partes de nós. » in: "Lojas com História".


Informação no "AA Citypack Guide to Lisbon", em 2016

Fotos seguintes das oficinas do "Hospital das Bonecas" instaldas no no primeiro piso.




Fotos seguintes do museu do "Hospital das Bonecas" também no primeiro piso.




fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ("Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997), Lojas Com História, Estação Chronographica, We Heart Lisbon

23 de agosto de 2026

"Casa Macário"

A actual "Casa Macário" abriu pela primeira vez em 1913, na Rua Augusta, 272-276, em Lisboa, e propriedade de Macario Moraes Ferreira. Tudo começou quando Macario Moraes Ferreira, que tinha plantações de café em Angola, decidiu, em 1902, abrir uma loja de «café torrado ou moído», na Rua do Carmo nº 10, em Lisboa, nas lojas do piso térreo do edifício dos "Grandes Armazéns do Chiado", com a denominação "Macario M. Ferreira".

Loja "Macario M. Ferreira" na Rua do Carmo, 10 e respectiva tabuleta, à direita na foto

20 de Fevereiro de 1902


Loja "Macario M. Ferreira" no toldo branco à direita


1902

Quando em 1912, a firma "Nunes dos Santos & C.ª" co-proprietária do edifício dos "Grandes Armazéns do Chiado" - na altura propriedade da firma "Santos, Cruz & Oliveira, Lda." -  decide ampliar as suas instalações às lojas instaladas na ala direita do palácio na Rua do Carmo, Macario Moraes Ferreira viu-se forçado - tendo mesmo existido querela judicial entre ele e a firma "Nunes dos Santos & C.ª" - a procurar nova loja na baixa lisboeta, tendo a escolha recaído na Rua Augusta 272-276, onde tinha funcionado uma loja de vestuário para criança, a "Aranha & C.ª".


A seguir publico parte dum artigo publicado no jornal "A Capital" de 26 de Março de 1920, em que é mencionada uma carta de Macario Moraes Ferreira, dirigida ao "Centro Colonial", contestando os cálculos nas margens de lucro dos retalhistas de café ...


26 de Março de 1920

Esta carta de Macario Ferreira mereceu a seguinte resposta na continuação, noutra página, do artigo que publiquei: «Para o armazenista o preço de venda pode ser elevado, sem que o publico com isso seja lezado. Basta que se tire uma parte do lucro do vendedor a retalho, para haver uma justa compensação. Mesmo admitindo que esse lucro seja apemas de 32,8 por cento, como o sr. Macario Ferreira diz na sua carta, a que acima fazemos referencia, cremos bem que da margem para ser diminuído, revertendo a parte que se entender equitativa em favor dos armazenistas.»

Em 6 de Julho de 1922 é constituída a firma "Macario Moraes Ferreira, Lda." com sede na loja na Rua Augusta, 272-276, em Lisboa. Em 19 de Janeiro de 1933, morre Macario Moraes Ferreira, ficando a "Macario M. Ferreira, Lda." na posse de sua viúva, D. Antonia Augusta Iniguez Ferreira. 

Participação da "Macario Moraes Ferreira, Lda." na "Semana dos Artistas" em 25 de Janeiro de 1928

Abril de 1940

Em 12 de Maio de 1942, o jornal "Diario de Lisbôa" , na sua coluna «Vida Mundana», referente a acontecimentos sociais, noticiava:
«Realizou-se com a maior intimidade o casamento da srª D. Roșa Luiza Barbosa com o sr. Adelino Morais Ferreira, socio da firma Macario M. Ferreira, Lda.
Testemunharam o acto, a srª D. Maria Luiza Fonseca Barbosa e os srs. João Cipriano Furtado, João Alves e José Tomaz Ribeiro Mendes.
Os noivos seguiram em viagem para o Algarve.»

Adelino Moraes Ferreira que em 1953 aparecia como proprietário da "Garagem Macário", na Rua dos Anjos, em Lisboa.


1953

Entretanto desde 1942 que a sua torrefação se tinha mudado da Rua Maria, 50 para a Rua Caminho do Forno do Tijolo. 6 e 7, em Lisboa.


1952

Por escritura pública de 12 de Novembro de 1957, é remodelado o pacto social da firma. O capital social ficou em 150.000$00, correspondente à soma das quotas dos sócios, que eram as seguintes: Adelino Morais Ferreira, 135.000$ (que ficou como gerente), e Marino Rodrigues da Costa Ferreira, 15.000$. Mas atenção que ... «O sócio Marino Rodrigues da Costa Ferreira obriga-se a dedicar todo o seu tempo e actividade, zelo e inteligência aos negócios sociais, sendo motivo suficiente para a amortização da sua quota a inobservância do disposto neste artigo, recebendo pelos seus serviços o ordenado mensal que a assembleia geral fixar.». Terá sido a partir desta altura que a loja passou a denominar-se de "Casa Macário".

Montra da "Casa Macário" na Rua Augusta, por ocasião dum concurso de montras


4 de Outubro de 1960

Em 1972 Carlos dos Santos Torres, um dos fundadores, com seu pai Anselmo Torres, da "Torres Joalheiros" em 1910, e avô do actual sócio-gerente, Luís Alberto Torres de Lima Alves, comprou o prédio onde está instalada a "Casa Macário", acabando por ficar com esta loja em 1973. Até então negócio desta loja era essencialmente, cafés, chás, chocolates, bombons, vinhos e aguardentes. A partir de 1974 passou a vender vinhos do Porto, sendo actualmente o seu principal negócio, tendo a "Casa Macário" se transformado basicamente num garrafeira de Vinho do Porto.

Em 27 de Março de 1974, e por escritura pública, o capital social da "Macário Moraes Ferreira, Lda." passa para 500.000$00, distribuídos pelas seguintes quotas: Carlos dos Santos Torres, 400.000$; D. Maria Cândida das Chagas Torres, 50.000$ e "C. S. Torres, Lda. ", 50.000$.

Nota: a firma "C. S. Torres, Lda." (actualmente "Torres Joalheiros, S.A.") mencionada como sócia, era a proprietária da "Joalharia Torres", fundada em 1910que tinha sido nomeada, em 3 de Março de 1972, único distribuidor para Portugal da marca de relógios "Rolex". A "Torres Joalheiros" tinha o seu estabelecimento ali bem perto, na Rua Áurea, 253-255 junto ao "Elevador de Santa Justa".


"Casa Macário" na Rua Augusta em 1982

Em 31 de Julho de 1996, renunciam à gerência da "Macário Moraes Ferreira, Lda." Carlos dos Santos Torres, João Carlos Arez Torres, Luís Alberto Torres de Lima Alves. São designados como novos gerentes: Luís Alberto Torres de Lima Alves (actual sócio-gerente) e Ana Maria Torres de Lima Alves de Soisa Rego.





As quatro fotos anteriores, de 1997

Atualmente, continua a vender café para clientes nacionais, que representam apenas 20%, e os restantes 80% da clientela são estrangeiros que procuram o vinho do Porto. Sendo o principal negócio a venda de café, comercializa, atualmente, os seguintes produtos: aguardentes; aguardentes velhas; bebidas alcoolicas; bombons; cafés; champanhe; chás; chocolates; garrafeira especializada; licores; vinhos do Porto novos e velhos; vinhos de mesa especiais.

 









Fotos in "Lojas com História" da "Casa Macário" em 2017

Quanto ao futuro, é inserto. O actual proprietário Luís Alberto Torres de Lima Alves não sabe se os seus três filhos, João Carlos Torres, Pedro Torres e Carlos Augusto Torres, proprietários da "Torres Joalheiros", darão seguimento a esta negócio, ou não, quando este se retirar. Desta vez, penso que problemas com rendas ou senhorio, não vão existir ...


 Luís Alberto Torres de Lima Alves à porta da sua "Casa Macário", em 2022


fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ("Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997), Lojas Com História