Restos de Colecção

18 de outubro de 2026

"Casa Suissa"

A "Casa Suissa" foi fundada por José Maria Ferreira Mendes em 9 de Outubro de 1886, na Praça de D. Pedro, 96 e 97, esquina com a Rua do Amparo, 55, tendo constituido a firma "J. Ferreira Mendes & C.ª " com Francisco Ascensão da Fonseca. 


"Casa Suissa" dentro da elipse desenhada


"Casa Suissa" na esquina à direita na foto

9 de Outubro de 1886

O restante texto do anúncio anterior informava:

«O seu proprietario José Ferreira Mendes, que foi durante muitos annos empregado da casa de Guimarães, convida o publico, e particularmente as pessoas das suas relações, a visitarem o seu estabelecimento, onde encontrarão um varia do sortimento de roupas brancas de todas as qualidades, atoalhados, fazendas brancas nacionaes e estrangeiras, e grande sortimento de bordados.
Encarrega-se de enxovaes completos para recem-nascidos, collegiaes e noivos, para o que tem um atelier nas melhores condições, dirigido por pessoa competentissima.
Garante-se a maxima perfeição, todos os artigos de roupa branca, como póde ser verificado nos artigos que se acham em exposição, para os quaes chama a attenção das pessoas de bom gosto.»

A "Casa de Guimarães" mencionada no texto anterior, localizava-se na Praça de D. Pedro, 90 e 92, e que quanto à sua origem passo a transcrever o seguinte texto que retirei do artigo que elaborei acerca da "Loja do Povo" em Outubro de 2025:

«Natural de Santarém, onde nasceu a 3 de Julho de 1873 o distinto comerciante que foi Joaquim Gomes d'Oliveira Jardim, iniciou a sua carreira na Casa Manuel Marques de Sousa daquela cidade, vindo para Lisboa em 1894.
Na capital colocou-se na Casa de Guimaraes, fundada por José Joaquim Rodrigues Guimaraes e aí de tal maneira vincou a sua personalidade que três anos depois, por escritura de 15 de Maio de 1897, foi admitido como sócio do estabelecimento que, desde então, começou a girar sob a firma Guimares & Jardim.
Mais tarde, por escritura de 8 de Julho de 1907, a referida sociedade dissolveu-se, sucedendo-lhe a firma Guimarães & Jardim, Sucessor Joaquim Gomes d'Oliveira Jardim.
Prosseguindo no desenvolvimento da sua actividade, em 1911 Oliveira Jardim adquiriu de V. Rocha a antiga Loja do Povo, criada pelo saüdoso e conhecido Francisco Grandella e assim reuniu os dois estabelecimentos que hoje ocupam um lugar de apreciável relévo no seu ramo de negócio: rouparia de senhora e cavalheiros, camisaria, enxovais para noivas, baptizados e colegiais, panos de linho e algodão, serviços de cama e mesa, colchas em tôdas as qualidades, edredons, meias, luvas e todos os demais artigos similares. Esta loja veio substituir a retrozaria "Loja da Verdade" que ali existia desde 1880.»


"Casa de Guimarães" à direita (na foto) do toldo (primeiro) da "Loja do Povo"

Voltando à "Casa Suissa", esta veio substituir a retrozaria "Loja da Verdade" que já existia anterior a 1880, e que por sua vez substituiu outra retrozaria de seu nome "Nolasco & Araujo", cujo anúncio de 1877 reproduzo de seguida. Nolasco ao trespassar esta retrozaria viria a mudar de ramo de actividade e montar uma casa de loterias e tabacos na Rua da Prata.

1877

Em 15 de Outubro de 1892 a sociedade "J. Ferreira Mendes & C.º " que José Maria Mendes mantinha com Francisco Ascensão da Fonseca, foi dissolvida passando José Mendes a ficar como único sócio, conforme anúncio seguinte do "Diario do Govêrno".

Entretanto, e já ocupando as portas 96, 97 e 98 da Praça de D. Pedro, José Maria Ferreira Mendes morre em 1903 e fica como proprietária sua viúva, passando a "Casa Suissa" funcionar sob a firma "Viuva de J. Ferreira Mendes".

Em 1907, já a "Casa Suissa" pertencia a Raul Nogueira da Silva, que ali se manteve até cerca de 1916.


1907

1908

Raul Nogueira da Silva junto à foto do fundador José Ferreira Mendes

1913


Interior da "Casa Suissa"


12 de Julho de 1913

Em 10 de Agosto de 1916 o jornal "A Capital" escrevia a propósito da "Casa Suissa":

«Façamos agora uma visita á Casa Suissa que pertence presentemente a uma sociedade constituida pelos srs. David Martins, Antonio Fernandes David de Andrade, Adolpho Pires Coelho David, João Caetano Martins, Antonio Santos Gamito e Francisco Vieira Thadeu de Almeida, chefe de escriptorio e Alberto Jose David gerente da casa.
Os trez primeiros socios foram antigos empregados da cas, o que tanto basta para dizer do conhecimento que teem do seu métier. Todos, porém, teem contribuido, dentro do campo das suas attribuições, para o desenvolvimento e prosperidade da Casa Suissa, onde a rouparia para senhoras e creanças, vestidos e capas de baptizado, blusas, as ricas parures, os bordados em todos os generos attingem um verdadeiro sonho de maravilha e de deslumbramento.
A Casa Suissa é antiquissima,e , interessante pormenor: quando ha uns annos, para importante remodelação da casa, levaram os operarios a fazer escavações, foram encontradas rendas preciosas com mais de trinta annos de existencia que os actuaes proprietarios do estabalecimento aproveitaram na decoração das suas vitrines. Os ateliers da Casa Suissa estão modelarmente organisados, o seu pessoal é habilíssimo, sendo interessante registrar que a tesoura de que ainda hoje se serve tem passado de firma para firma, gosando quasi do previlegio de um talisman.»


1916

Quanto a Raul Nogueira da Silva, por volta de 1916 tomou de trespasse o estabelecimento nas portas 114 e 115 da Praça de D. Pedro, - um pouco mais adiante, a ao lado da entrada para o "Francfort Hotel", no nº 113, - por sua vez antiga entrada para o extinto "Hotel Irmãos Unidos" -, e aí fundou a "Loja Suissa" no mesmo ramo de actividade. Pelo anúncio que publico de seguida, ainda terá funcionado como "Casa Suissa" mas, certamente, terá sido forçado a mudar o nome para "Loja Suissa". Ou poderá ter sido erro da tipografia.

1916

Interior da "Loja Suissa"


Dentro do rectângulo amarelo, onde funcionou a "Loja Suissa"

Em 1925, e no seu lugar já ali funcionava outra loja de roupa para criança, a "Loja Infantil" da firma  "Suzano & Pinto, Ltd.".


A "Loja Infantil" da firma "Suzano & Pinto, Ltd.", na Praça de D. Pedro IV, 114-116, em 1925


20 de Fevereiro de 1925

Quanto à "Casa Suissa", já como pastelaria e leitaria, começou esta a funcionar a 21 de Outubro de 1922,  sob a denominação de "Casa Suissa - Pastelaria e Leitaria", certamente para manter o mesmo arrendamento e sob a firma "Casa Suissa, Lda.". Viria ser renomeada para "Casa Suissa, Lda. - Pastelaria - Salão de Chá", mais tarde comercialmente "Pastelaria Suiça". Viria a encerrar definitivamente a 31 de Agosto de 2018.




2 de Julho de 1933

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Estação Chonographica

15 de outubro de 2026

Hotéis em Queluz e Belas

Neste pequeno apontamento vou debruçar-me, dentro da escassa informação que pude obter, sobre as unidades hoteleiras que existiram no final do século XIX , no então, lugar de Queluz - anexado à freguesia de Bellas até 29 de Junho de 1925 - muito conhecido pelo seu Palácio Real.

«Configuração do lanço d'estrada comprehendido entre o sitio da Porcalhota, e o atalho de Queluz para Bellas» em 20 de Agosto de 1841

Na "Revista Universal Lisbonense" de 14 de Agosto de 1845 ...

«Vamos trazer para exemplo a estrada de Caneças, uma das mais frequentadas da gente da capital, e de outras muitas povoações. O logar de Caneças que poder ser o em que se restabelecam os valetudinarios, e cançados da vida artificial e penosa que soffre a gente de Lisboa, deve ter mais que outras povoações uma estrada que communique com a capital. Mas por descuido , ou necessidade, deixou-se em abandono a maior parte da estrada que vai da ponte, junto á quinta do Lobo, até ao alto defronte de Adaveja. Agora a Camara mandou reparar alguns destroços que havia na calcada junto a Caneças, e continuam os operarios a refazer de novo a calcada defronte de Adaveja.»

Quanto a Bellas, já em 1853 ...

27 de Agosto de 1853

Neste ano de 1853, e até 24 de Outubro de 1855, Bellas era sede de concelho, ano em que a vila de Bellas é integrada, como freguesia, no concelho de Cintra.

O "Novo Guia do Viajante em Lisboa e Seus Arredores" de 1863 dava a seguinte informação acerca do lugar de Queluz: «Palácio e quinta real. de que falámos no artigo competente. Fica fóra da estrada de Cintra, em logar ermo e desagradavel».

Quanto a Bellas, o mesmo Guia informava: «Tambem fóra da dita estrada, para a direita, e a duas leguas de Lisboa, como Queluz. Tem uma preciosa quinta pertencente ao conde de Pombeiro, herdeiro do ultimo marquez de Bellas, onde annualmente se festeja o Senhor Jesus da Serra, com arraial, bôdo, e todo o genero de folia popular.»

O jornal "Diario Illustrado" de 29 de Abril de 1876, imformava: «Está novamente aberta a estação telegráfica de Queluz, com serviço de dia limitado, que passará a permanente durante a estada de suas majestades no palácio de localidade». Mas em 15 de Julho seguinte, o mesmo jornal voltava a informar: «Reabriu a estação telegráfica de Queluz, em estação permanente.»

Os transportes de pessoas e bens eram assegurados pela "Companhia de Tramway a Vapor de Lisboa a Cintra" que teve início em 5 de Julho de 1873, «char-à-bancs», omnibus, diligências, carruagens e carroças, já que, como veremos mais à frente, os comboios da linha de caminho de ferro da "Companhia Real dos Caminhos de Ferro" só chegariam a Queluz em 2 de Abril de 1887, para passageiros, e em 9 de Maio seguinte para mercadorias.


5 de Julho de 1873

Horários e preços de Omnibus e Diligencias em 1887

O primeiro Hotel em Queluz, que consegui ter conhecimento, foi o "Hotel União" que terá aberto pela primeira vez na Primavera de 1877. Como era costume fora das grandes cidades os hotéis encerrarem no Inverno e só reabrirem na Primavera seguinte, este não fugiu à regra encerraria temporariamente em 2 de Novembro do mesmo ano. Seria propriedade de Thomás Elias dos Santos.

1 de Novembro de 1877


31 de Maio de 1878

Como diziam os anúncios publicitários a este hotel, contava com «Bom cozinheiro e bons criados». Pelo que em 26 de Julho de 1879 o jornal "Diario Illustrado" noticiava em tom publicitário:

«O habil cosinheiro do hotel União em Queluz que ha pouco inventou uma magnifica sopa a que deu o nome de Moriones, annuncia hoje na secção respectiva, uns pastelihnos á la Carmen y Cros e um podim á Lacarra, para todos os domingos e quintas feiras da presente estação. É bom provar para ao menos saber se correspondem no sabor á fama dos distinctos artistas do theatro de zarzuella.»


14 de Abril de 1878


31 de Agosto de 1879

O "Hotel União" viria a ser substituído pelo "Hotel Syndicato" em 1883, que para o qual foi constituída uma parceria para a sua exploração, tendo como sócios Thomás Elias dos Santos (ex-proprietário do "Hotel União"), Antonio Tavares de Almeida e José Carlos da Luz. Por falecimento do primeiro em 1884, esta parceria viria a ser dissolvida em 13 de Setembro de 1884. Não consegui saber se o "Hotel Syndicato" terá encerrado de imediato, mas como não tive acesso a mais nenhuma referência posterior ao mesmo, julgo que sim.


7 de Julho de 1883

10 de Agosto de 1883


16 de Abril de 1887

Em 2 de Abril de 1887 é inaugurada a linha férrea Lisboa (Alcântara) a Cintra e Torres Vedras. A viagem de Lisboa a Cintra, na distância de 28 quilômetros demorava uma hora e meia a ser percorrida. Esta ligação entre Lisboa e Cintra era assegurada por seis comboios diários ascendentes e descendentes. è inaugurado o apeadeiro de Queluz-Bellas. Mais tarde seria construída o abrigo/estação apar o apeadeiro, depois de lançado o concurso em 13 de Abril de 1894.

28 de Abril de 1894



Notícias de 28 de Março e de 7 de Maio de 1887 
 


Transporte de passageiros nos "Chora" para Bellas, após a chegada do comboio a "Queluz-Bellas"

E quanto à estrada que ligava a Estação a Bellas, o jornal  "Diario Illustrado" de 20 de Abril de 1889, escrevia a seguinte nota: 

«O verão está á porta, e a estrada que da estação de Queluz se dirige para Bellas ainda se encontra por empedrar, no estado em que a vimos o anno passado !!
E' para ser ... collega da rua do Ouro!»

Em 1887, já existiam dois hotéis em Queluz: o "Hotel Malveira" e o "Hotel Ladislau". Quanto ao "Hotel Malveira" não consegui qualquer referência publicitária ou notícia da época.. Na vizinha freguesia de Bellas, nesse mesmo ano existiam o "Hotel Central", o "Hotel Paschoaes" e o "Hotel Vieira".

1887


1 de Setembro de 1878


"Hotel Central" em Bellas

Por outro lado, a primeira referência ao "Hotel Ladislau", instalado na Rua Conselheiro Pedro Victor (futura Rua da República), em Queluz, aparece no "Diario Illustrado" de 7 de Maio de 1887: 

«D. Carlota Emilia Barreiros Arrobas, agradece a todos os seus parentes e pessoas de suas relações, que tanto se interessaram durante a grave doença que soffreu, e participa-lhes que segue hoje para Queluz, Hotel Ladislau onde offerece o seu limitado prestimo.»


"Hotel Ladislau", último prédio com 2 andares ao cimo da rua


1890


"Hotel Ladislau", último prédio com 2 andares ao cimo da rua

Em 1888 abre o "Hotel Bragança", na Rua Sarath, em Queluz, e era propriedade do espanhol Gonçalo Verol Junior, que já tinha sido proprietário do "Hotel Verol" em Bellas, na década de 60 do século XIX . Em 1869 já era propriedade de Eduardo Fernandes d'Araújo, casado com Filipa Verol, e ainda existia em 1877 como se pode comprovar pela seguinte notícia de 27 de Março do mesmo ano:

«A meza da irmandade do Santissimo da freguezia de Bellas, de que é actualmente juiz o ex mo sr. Francisco Moreira Freire Manoel de Aboim, resolveu celebrar este ano as festas da semana Santa.
O dono do bem conhecido hotel Verol mandou restaurar os quartos, e acha se desde já, á disposiçãe dos seus freguezes, e do publico que quizer aproveitar as festas, gosando ao mesmo tempo dos bellos ares e agua tão uteis e proveitosas.»


20 de Junho de 1869


"Hotel Bragança" à esquerda em frente ao burrito


9 de Maio de 1889


14 de Julho de 1889


22 de Junho de 1890

O "Hotel Bragança" terá sido o último hotel a ser inaugurado em Queluz.


Último anúncio, de 31 de Maio de 1891, de hotéis em Queluz a que tive acesso

O "Hotel Bragança" em 1900 ainda existia, já que era mencionado na seguinte notícia publicada pelo jornal "Diario Illustrado" de 29 de Julho de 1900:

«A grande commissão presidida pelo sr. Campos de Andrade, e encarregada de promover grandes festas em Queluz nos dias 18, 19 e 20 de Agosto, tem tido as suas reuniões no Hotel Bragança e deve em breve publicar o programma, que conterá bastantes attractivos.
Entre outros, falla se n'um baile n'uma das maia espaçosas e historicas salas de Queluz.»

E para comer em Bellas, em 1894 ...


7 de Julho de 1894

Relativamente a este restaurante o jornal "Folha de Lisboa" recomendava:

«A'quelles que visitam a aprazivel villa de Bellas recommendamos o Restaurant Reis, de que é proprietario o nosso amigo Joaquim Raphael dos Reis, um cavalheiro muito sympathico e serviçal, que se não poupa a esforços para tornar o seu estabelecimento recommendavel sob todos os pontos de vista.
Ahi encontrará o publico todas as commodidades e um serviço por lista esmerado, e economico.
Visitando o Restaurant Reis terá a certeza de ser bem servido e ajudará um homem em extremo conceituado e trabalhador.»

E para terminar, aqui deixo uma notícia/nota do "Diario Illustrado", de 12 de Agosto de 1877, e em primeira página:

«Um dono de hotel, de uma terra de provincia, teve a peregrina idéa de mandar pôr na taboleta do seu estabelecimento o seguinte:
«Aqui falla se francez, inglez, hespanbol, italiano e allemão».
Ha poucos dias um inglez entrou no hotel e perguntou em mau portuguez pelo interprete da sua lingua.
- Nao ha, respondeu o criado.
- Como não ha, replicou o inglez! Quem é então que falla as linguas enumeradas na taboleta?
- Os hospedes, quando os ha, observou o criado com a maior serenidade.»