Restos de Colecção

6 de setembro de 2026

"Barateiro Pimenta"

A ourivesaria "Barateiro Pimenta", terá aberto por volta de 1905 na Rua da Palma, 2 (esquina com a Rua dos Fanqueiros), em Lisboa, e era propriedade de Manuel da Cruz Pimenta. Este tinha iniciado a sua actividade comercial, não como ourives, mas com uma loja de fazendas na Travessa de S. Domingos (actual Rua Barros Queirós), 10 e 12 com a firma "Pires & Pimenta", no final do século XIX.


Foto in: "Lisboa Desaparecida" - Vol 7 de Marina Tavares Dias

Nota: A foto anterior, data da II Grande Guerra Mundial (1939-1945), quando por ordem da CML os proprietários, ou inquilinos, eram obrigados a proteger as tabuletas em vidro com fitas adesivas, a fim de proteger as ruas de eventuais estilhaços em caso de ataques aéreos.

Em 1902, já essa loja de fazendas era pertença exclusiva de Manuel Pimenta, tendo a denominação comercial de "M. C. Pimenta" e já ocupava as portas 10,12,e 14 da Travessa de S. Domingos. 

A sua actividade no ramo da ourivesaria, terá tido início em 1905 ou 1906, já que a comprovar esta teoria, uma notícia intitulada "Assaltos ás ourivesarias", no jornal "Vanguarda" de 21 de Outubro de 1906, relatava:

«Temos noticiado por varias vezes assaltos e roubos a differentes ourivesarias, onde os gatunos que aproveitando a ausencia da policia que vae para as camaras dos pares e dos deputados, teem roubado varios objectos de ouro, pondo-se sempre a salvo. Ainda esta semana noticiámos varios arrombamentos em ourivesarias, e já hoje temos que nos referir a mais tres assaltos e roubos em ourivesarias, nas ruas de mais transito na capital.
O primeiro assalto foi praticado na madrugada de quinta-feira, na ourivesaria e relojoaria sita na rua da Palma, 2, pertencente ao sr. Manuel C. Pimenta; 0 segundo assalto deu-se no estabelecimento do sr. Jayme Pereira Coutinho, na rua da Palma, 55 e 57, onde os gatunos tambem fizeram dois furos na montra, e da qual ainda puderam roubar uma corrente de ouro, no valor de 15$000 reis; O terceiro arrombamento foi de ante-hontem para houtem, na rua de Santo Antão, 44, no estabelecimento do sr. Manuel Augusto Ferreira Minde, tambem com relojoaria ourivesaria e violas, onde os assaltantes só poderam fazer um furo, não conseguindo furtar nada, devido a terem sido presentidos pelo guarda nocturno, que viu fugir tres vultos.
Como se ve, existe em Lisboa uma quadrilha de gatunos que se emprega naturalmente de dia a visitar as montras para á noite as ir arrombar e roubar por meio de uns ferros d'um «trado».
As queixas foram hontem enviadas para o juizo de instrucção criminal, afim da policia judiciaria proceder a investigações.»

Além dos assaltos, outros acontecimentos ...


25 de Agosto de 1908

Como se pode observar no anúncio seguinte de 1907, o "Barateiro Pimenta", no início da sua actividade acumulava a venda de ourivesaria, com a venda de acessórios para a fabricação de chapéus para senhora. Pelo que consegui apurar Manoel Pimenta manteve em funcionamento a sua loja de tecidos, na Travessa de S. Domingos, 10-14, até 1908. 

1907


5 de Agosto de 1911


1 de Outubro de 1912


12 de Janeiro de 1925

Em 18 de Janeiro de 1923, Manuel da Cruz Pimenta e seu irmão Mário da Cruz Pimenta constituem a firma "M. C. Pimenta, Lda". Estes viriam a trespassar a firma, em 1933, a Armando Soares e José Tomaz da Silva. Mário da Cruz Pimenta,i como já escrevi neste blog, funda a firma "Mário da Cruz Pimenta, Lda." em 9 de Novembro de 1936, inaugurando a sua ourivesaria na Rua dos Anjos, 34-A (ex-Rua do Registo Civil) em 30 de Novembro seguinte.

30 de Novembro de 1936

1925

Em 1937, já o "Barateiro Pimenta", adicionava ao seu negócio a  comercialização de relógios "Zenith", "Omega" e "Longines", «e outras marcas de categoria». No Natal do ano seguinte, 1938 … 

«Mantendo a tradição ... o conhecido «Barateiro Pimenta» consegue apresentar o mais completo sortido em joias ouro, pratas e relogios de todas as reputadas marcas.
O magnifico estabelecimento da Rua da Palma, 2, possue aqueles artigos proprios para brindes do Natal e Ano Novo, por preços módicos. 
Têm os nossos leitores portanto, uma bela oportunidade para visitar «0 Barateiro Pimenta», pois temos a certeza de que não saem da afamada casa sem um dos seus magníficos brindes.
Eles são tentadores ...
«O Barateiro Pimenta» atende, com prontidão qualquer encomenda pelo telefone n.° 2 7055.»


15 de Junho de 1935


15 de Dezembro de 1937

1944

A firma "M. C. Pimenta, Lda.", por escritura pública de 16 de Janeiro de 1945 passa a ter novos donos. Os únicos sócios desta sociedade passavam a ser os conhecidos joalheiros Carlos dos Santos Tôrres e Carlos Augusto das Chagas Tôrres, com um capital social inicial de 500.000$00. Estes detinham a "C. S. Torres, Lda.", sob a denominação comercial "Torres Joalheiros", fundada em Torres Vedras por Anselmo Tôrres e Carlos Tôrres. Consumava-se a sua expansão para Lisboa com a aquisição da "M. C. Pimenta, Lda.", ainda sediada na Rua da Palma, 2 em Lisboa.  


1950


16 de Outubro de 1950

Cinco anos depois, e devido às demolições iniciadas na Rua da Palma para alargamento da zona do Martim Moniz, o "Barateiro Pimenta" é forçado a mudar de instalações, e encerra o seu estabelecimento na Rua da Palma, 2, em 10 de Outubro de 1950 ... 

«Ao encerrarmos as portas do nosso estabelecimento por motivo das demolições, vimos agradecer aos nossos Ex.me Clientes e Amigos e ao Publico em geral a preferênela com que sempre nos distinguiram, e no mesmo tempo participar que todos os assuntos da firma serão tratados na Filial da Rua Augusta, 253 a 257 (esquina de Santa Justa), e que em breve abriremos a nova casa no Pavilhio das Ourivesarias, n.° 12 e 13, no largo Martim Moniz.»


À direita o pano publicitando "Liquidação Total da Existência" no "Barateiro Pimenta", em 1950

A famíla Torres tinha adquirido uma loja na Rua Augusta, 253 e 257 (esquina com a Rua de Santa Justa), a que deram o nome de "Ourivesaria Pimenta", apesar de ainda por uns tempos continuar a ser utilizada, paralelamente, a designação de "Barateiro Pimenta". No início de 1951 reabre na zona do Martim Moniz, no "Pavilhão dos Ourives", aqui com a denominação comercial e mais conhecida, de "Barateiro Pimenta", como se pode testemunhar pelas fotos seguintes.

"Barateiro Pimenta" na primeira loja à direita na foto de 1951


1953

A família Torres, viria a adquirir, em 1986, a prestigiada e antiquíssima relojoaria "J, Maury", que tinha sido fundada em 1859, na Rua Áurea, 202 (esquina com a Rua da Assunção), em Lisboa.

Em 26 de Julho de 1993 a "M. C. Pimenta, Lda." passa a sociedade anónima de responsabilidade "M. C. Pimenta, S.A.", com um capital social de 50.000.000$00. O conselho de administração nomeado ficou assim constituído: Carlos Augusto das Chagas Torres, presidente; João Carlos Arez Torres, vice-presidente; Pedro Augusto Arez Torres, vogal; Ricardo Chitas Martins Arez Torres, suplente. De referir que Carlos Augusto das Chagas Torres viria a falecer no ano seguinte, a 22 de Julho de 1994, tendo sido substituído na presidência do conselho de administração por João Carlos Arez Torres.

A "Ourivesaria Pimenta" encerraria em 2013. «Sobre o encerramento recente da Ourivesaria Pimenta, na Baixa Pombalina, Ricardo Torres diz que ele é temporário e que se deveu a uma falta de pessoal, que foi preciso desviar para a Avenida. Anteriormente, a rede Torres Joalheiros tinha encerrado a Maury. Ricardo Torres confirma que a Maury fechou definitivamente portas mas que a loja histórica junto ao Elevador de Santa Justa se manterá e que a Pimenta será reaberta, "depois de estudado o seu reposicionamento"» in: "Estação Cronographica" 10 de Dezembro de 2013.

Foto de Noemia Ardisson, em 2018

Entretanto, a "M. C. Pimenta, S.A." viria a ser liquidada e dissolvida em Junho de 2015. Por sua vez, a relojoaria "J. Maury", também encerrou definitivamente em 2013.

A "Ourivesaria Pimenta" manteve-se encerrada, apesar de em Setembro de 2023 reabrir por 2 meses, para receber a primeira pop-up store da "Oris" em Portugal. Durante dois meses, a marca de relojoaria suíça contou com um espaço exclusivo na "Ourivesaria Pimenta". Após este evento, voltou a encerrar definitivamente.


2023


Julho de 2024 (via Google Maps)

3 de setembro de 2026

"Pavilhão Chinez"

O armazém de víveres, chás, cafés, mercearia e pastelaria "Pavilhão Chinez" abriu as suas portas pela primeira vez em 1901, na Rua de D. Pedro V (antiga Rua do Moinho de Vento), 89-91, em Lisboa. Inicialmente era propriedade da firma "Simões & Trindade", constituída por José Simões e José António Trindade. 



José António Trindade (1880- ?)


Em 9 de Outubro de 1902, o jornal "Diario Illustrado" numa pequena nota referia:

«No elegante estabelecimento da rua D. Pedro V, 89 e 91, encontram os nossos leitores o deliciosos café Timor que recomendamos com especialidade. Mandem ao Pavilhão Chinez pedir o café Timor a titulo de experiencia.»


10 de Outubro de 1902


Localização do "Pavilhão Chinez" na Rua de D. Pedro V (dentro do rectângulo vermelho). Foto do funeral do Rei D. Carlos I e do Príncipe D. Filipe em 8 de Fevereiro de 1908

11 de Novembro de 1902

Segundo o "Almanaque Palhares" para 1904 (dados relativos a 1903) o "Pavilhão Chinez", tinha como seus vizinhos os seguintes estabelecimentos: nas portas 85 e 87 funcionava a "Pharmacia Guerreiro da Costa", e nas portas 101 e 103 uma loja de chá e café de J. d'Oliveira Figueiredo.

Em finais de 1906 a sociedade "Simões & Trindade" é dissolvida, e José Antonio Trindade torna-se  único proprietário do "Pavilhão Chinez".  José Antonio Trindade era uma das figuras mais prestigiadas no ramo da mercearia. Esteve na criação ou desenvolvimento de algumas casas, além do "Pavilhão Chinez", como: "Despensa Ideal", na Rua da Prata, "Casa Pekin", na Rua dos Correeiros, "João Pedro, Lda.", na Rua do Mundo, "Ideal das Avenidas", na Avenida da República, e "Drogaria de São Domingos". Com José António Trindade, viria a fundar em 1929 a "Confeitaria Aurea", na Rua do Ouro 262-264. Em 1940 através da firma "Vilarinho & Trindade, Lda.", montou na Rua Rodrigo da Fonseca a "Aurea do Parque, Lda.", com secções de pastelaria e mercearia.

Curiosamente, um pouco mais abaixo na direcção do Chiado, e na Rua de S. Pedro d'Alcântara, outra loja também com a denominação de "Chinez", o "Dragão Chinez", de Manoel Marçal Nunes, e cuja fundação era dos finais do século XIX, anterior ao "Pavilhão Chinez".

3 de Maio de 1907


1900

Fevereiro de 1907

 

O "Pavilhão Chinez" manteve-se ao longo das décadas como mercearia até ser adquirida pelo decorador Luís Pinto Coelho (1933-2012), em 1985. Mantendo a fachada e o seu interior no essencial, inaugurou como bar em 18 de Fevereiro de 1986, e como José Cardoso Pires (1925-1998) no seu livro sobre Lisboa "Livro de Bordo: Vozes, Olhares, Memorações" escreveu ... «Guardou-lhe o nome de Pavilhão Chinês, respeitou-lhe a fachada, somou-lhe relíquias, sinais das guerras e dos senhores reis, pôs em altar uma colecção de manguitos Zé-povinho (Bordalo, outra vez) e fez-se bar.» 

Luís Pinto Coelho também era colecionador e tinha uma loja de antiguidades na Rua do Patrocínio, 26 e inaugurada em 27 de Abril de 1974, - que viria a dar lugar ao bar "A Paródia" em 1976 - e estas foram a base das suas decorações. No caso do "Pavilhão Chinês", a decoração das cinco salas é composta de milhares de objectos do séc. XVIII a XX de várias artes, como: medalhas, capacetes militares, modelos de aviões, quadros, canecas, bandeiras, bustos, peças únicas de Bordalo Pinheiro, etc. Este trouxe a tradição dos bares clássicos, quando ampliou o antigo espaço e recuperou todo o imóvel, incluindo a fachada e os estuques artísticos.  




Recordo que Luís Pinto Coelho,  já era proprietário de outros bares famosos de Lisboa: "Procópio" de 1972, "A Paródia" de 1976 e o "Fox Trot" de 1978. Foi decorador da "Summertime" (em Montechoro), da "Twins" e da "Swing" (no Porto), da "Diabo" (em Lisboa) e do "Rasputine", na Alapraia, em Cascais.

Os actuais proprietários do "Pavilhão Chinez" são 3 antigos empregados da casa junto com os herdeiros de Luis Pinto Coelho.




fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de LisboaLojas Com História

30 de agosto de 2026

"Hospital de Bonecas"

O "Hospital de Bonecas" teve a sua génese na "Ervanaria Portugueza", que se instalou na, ainda Rua do Amparo, 66, (actual Praça da Figueira,7) em Lisboa, junto ao antigo "Mercado da Praça da Figueira" - ainda arborizado e ao ar livre, até 1849. Segundo «reza» a história, a "Ervanaria Portugueza" terá iniciado a sua actividade em 1830, e que à sua porta se sentava uma senhora, de seu nome Carlota, e que remendava umas bonecas de trapo. 


"Hospital de Bonecas" na área delimitada a vermelho, em foto de 1949


1952

Hospital de Bonecas e Ervanaria onde está a senhora à porta, em 1960


Já com indicativo na bandeira da porta nº 7 (à esq.), em 1961

Já no século XX, a propriedade desta ervanária e hospital de bonecas, localizada na Rua do Amparo, 66, passa para a firma "Lilia Tavares, Lda.", constituída em 6 de Novembro de 1941, tendo como sócios João Barros e Melo de Carvalho e Lilia Dinah da Silva Luz Tavares. Em 17 de Abril de 1945 a mesma sociedade substitui o sócio João Barros e Melo de Carvalho por António da Conceição Rosado Tavares.


1959

Na revista "Boa Noite" de Dezembro de 1977

Um concorrente no Chiado ... Mas este não é um Hospital, mas sim uma Casa de Saúde ...


Outros dois, mas estes sem instalações «hospitalares» ...


24 de Dezembro de 1900


1 de Abril de 1903

A actual proprietária do "Hospital de Bonecas",  D. Manuela Cutileiro lembra: « (...) Assim de vez em quando a manhã era passada junto à D. Carlota a espreitar as bonecas que ela ía fazendo. Depois conversando, sempre se ía contando os males das bonecas e ela, pouco a pouco, lá as ía consertando. Acho que foi assim que começou o Hospital de Bonecas!
Os anos passaram e o mercado acabou, mas as crianças de então, já mães e avós foram contando aos seus filhos que havia uma pequena loja onde o tempo passava um pouco mais devagar e onde sem pressas se podia brincar ao “faz de conta”. Ainda hoje é isso que fazemos.
Quando há dois séculos atrás, em 1830, ela se sentava à porta a remendar e cozer bonecas de trapo, não poderia imaginar que a coisa viesse a ganhar estas proporções. É que, além da vertente de hospital, há também a loja, o restauro de outros brinquedos além de bonecas, a confecção de roupas e vestidos, trajes regionais e para o carnaval, e o museu. Só no museu há mais de 3500 tipos de bonecas diferentes, um número que só pode ser uma estimativa aproximada, dado que as doações e as ofertas de novas bonecas acontecem a ritmo quase diário.»




As três fotos anteriores, de 1997

Como se pode observar nas várias fotos aqui publicadas a loja situa-se, desde sempre, em parte do hall de entrada do prédio nº 7 da Praça da Figueira. Inclusivé na foto anterior podem ser observadas tabuletas indicativas de vários consultórios médicos no prédio. As oficinas e museu ocupam o 1º andar do mesmo prédio e onde funcionou em tempos a "Escola de Ensino Primário Elementar nº 78" - Sexo Masculino.

«O espaço já não comporta mais inquilinos, o que confere ao museu uma intensidade, uma sobrelotação de olhos e expressões e rostos e formas e membros e trajes, quase excessiva, mas que torna a visita uma experiência mesmo especial, mas nem sempre cómoda. Ícone de infância, a boneca não remete só para uma planície feliz de um passado pleno – dado que raramente é isso, a infância – e é incrível como diferentes visitantes o experienciam no museu. Os medos e o imaginário, o crescer e o descobrir.




Ambas as fotos da loja na entrada do prédio. Porta ao fundo de acesso à escada do prédio


Também na parte do hospital, boa parte dos clientes são adultos a querer recuperar memórias de infância, o que enche o espaço de biografias e memórias, e lhe confere uma carga que transcende em larga medida a questão material do braço partido ou a questão estética do vestido rasgado. Aqueles bonecos são partes de nós. » in: "Lojas com História".


Informação no "AA Citypack Guide to Lisbon", em 2016

Fotos seguintes das oficinas do "Hospital das Bonecas" instaldas no no primeiro piso.




Fotos seguintes do museu do "Hospital das Bonecas" também no primeiro piso.




fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ("Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997), Lojas Com História, Estação Chronographica, We Heart Lisbon