Restos de Colecção

11 de outubro de 2026

"Antiga Casa do Chocolateiro"

A "Antiga Casa do Chocolateiro" iniciou a sua atividade como retrozaria, na esquina da Rua dos Fanqueiros, 370 com a Rua do Amparo, 39-43 em Lisboa, e com outra denominação, em 1900, pela mão de Carlos Henriques Alves Torres, que em 1907 já aparecia como sócio da firma "Carlos Torres & C.ª", proprietária deste estabelecimento. Actualmente este troço da Rua dos Fanqueiros, antes Rua (Nova) da Princesa, está incluído na Praça da Figueira. O troço da Rua do Amparo, hoje Rua João das Regras, correspondia ao troço compreendido entre as Ruas dos Franqueiros e do Arco do Marquês de Alegrete, actualmente Poço do Borratém.



1900


1907

No século XIX a definição de "Chocolateiro" era de fabricante ou mercador de chocolate. A propósito do significado desta palavra, recortei um artigo na revista "O Antonio Maria" de 13 de Junho de 1896, e intitulado "Variações", e que publico de seguida ...

13 de Junho de 1896

No entanto, consegui saber que em 1866 nesta loja funcionava uma capelista, conforme anúncio à publicação literária "Joanninha a Feitiçeira" de Alexandre Dumas, que a seguir publico. 

22 de Abril de 1866

Em 1880 já lá funcionava a loja de bijouterias e quinquilherias de Francisco Antonio da Costa, que pertencia ao Conselho Fiscal do "Banco Industrial de Lisboa" que funcionava na Travessa de S. Domingos, 25, e «Deffinidor»  da "Ordem Terceira de Santo Agostinho (Veneravel)" na Igreja da Graça.

1880

Em 1909 a retrozaria "Carlos Torres & C.ª" é adquirida pela firma "Rodrigues & Nunes" que solicita em 6 de Dezembro de 1909 o registo do nome "Antiga Casa do Chocolateiro" para esta loja. Em 1911, esta retrozaria já aprecia anunciada com a nova denominação.


1911

Em 1934, a "Antiga Casa do Chocolateiro" seria adquirida pela firma "Matos & Pires, Lda.", constituída pelos seguintes sócios: Antonio Antão; Amilcar da Silva Ramos; Gastão de Paula. Em 1943 já a firma já era propriedade da firma  "Retrozaria Chocolateiro, Limitada." e em 14 de Abril verifica-se a saída do sócio Secundino Branco Júnior, continuando como sócios Antonio Antão, Amilcar da Silva Ramos, Gastão de Paula, mas por pouco tempo ...  Em 16 de Julho de 1943, o sócio Gastão de Paula sai da sociedade cedendo a sua cota aos outros dois sócios, e esta passa a denominar-se "Antão & Ramos, Limitada".


22 de Dezembro de 1937

14 de Novembro de 1941


1946

Do livro "Praça de Lisboa" organizado por Carlos Basto, em 1946, retirei o seguinte apontamento histórico deste estabelecimento:

«Embora não subsistam documentos comprovativos, sabe-se por tradição oral fidedigna que a origem dêste conceituado estabelecimento remonta há mais de um século, perdendo-se na época distante em que as retrozarias da Rua dos Fanqueiros dispunham, por vezes. de secções anexas ou de bebidas para serviço exclusivo da sua clientela, quási sempre constituída por gente humilde que, dos arredores, vinha a Lisboa fazer compras.
Primitivamente esta casa parece ter sido dividida em duas secções, uma em que realizava o seu comércio de linhas, botões, retrozes, etc., outra na qual vendia chocolate à chavena não só aos clientes de passagem como até à população citadina do bairro. Dessa duplicidade de negócio resultou o  estabelecimento passar a ser conhecido pela Casa do Chocolateiro e, dezenas de anos decorridos, quando já havia abandonado essa modalidade curiosa, pela Antiga Casa do Chocolateiro, antonomásia de que muito bem se recordam ainda algumas pessoas idosas daquela artéria.
As gerações sucederam-se umas às outras, as firmas foram-se renovando sem deixar de si noticia, o chocolate transformou-se num aspecto tipico da fundação, e o negócio passou a ser definitivamente o que hoje é : retrozaria, malhas, meias, bordados, objectos de enfeite e os mil e um artigos da infinita variedade que constitue a tentação das mulheres de todas as categorias sociais, dêsde as mais abastadas às mais humildes.


29 de Agosto de 1948


27 de Setembro de 1949


21 de Dezembro de 1950

Conjuntamente com a especialização deu-se o desenvolvimento da casa que, graças à modicidade dos seus preços, lhaneza de donos e empregados, e avultado sortido foi, pouco a pouco, grangeando um número apreciável de fregueses, dispondo hoje de excelente situação entre os melhores estabelecimentos similares.
Actualmente a exploração de casa tão antiga pertence à firma Antão & Ramos, L.da, da qual, desde 1934, são únicos sócios Antonio Antão e Amilcar da Silva Ramos, o primeiro natural de Trás-os-Montes e o segundo de Castelo Branco.
Ambos êstes estimados comerciantes tem uma longa experiencia do ramo que conhecem profundamente. Graças a êsse saber profissional e ao espírito de iniciativa que sempre manifestaram, a casa, sob a sua inteligente administração, progrediu de forma notável nêstes últimos anos e agora não só mantem um avultado movimento de balcão como transacciona com a provincia e ilhas através de vários e solicitos viajantes.
Fornecendo-se directamente nas fábricas mais reputadas, escolhendo escrupulosamente com acentuado bom gôsto todos as artigos do seu stock,  Antão & Ramos, L.da, limitando ao maximo os lucros para assim beneficiar o grande público, consegue apresentar à venda todos os artigos da especialidade a preços muito razoaveis sem, com isso, lhes prejudicar a boa qualidade. Daí resulta o apreço da clientela, onde conta com freguesas de longa data, algumas até netas e bisnetas das senhoras que já no século passado escolhiam e compravam as suas rendas e fitas na Antiga Casa do Chocolateiro.»


Em 27 de Outubro de 1987, é constituída a firma "Casa Chocolateiro, Comércio de Vestuário, Lda.", com sede na Praça da Figueira, 9-A, e com um capital social de 420.000$00. Esta firma foi formada entre os seguintes sócios: Pedro Manuel Marques Fernandes; Paulo Manuel Marques Fernandes; e João Manuel Marques Martins Fernandes.

«O objecto da sociedade é o exercício do comércio por grosso e a retalho e a indústria, venda e revenda, importação e exportação de artigos de vestuário, confecções, malhas, têxteis, brinquedos, brindes e utilidades, artigos para o lar, domésticos e decorativos.»

E ainda o pormenor do penúltimo artigo da escritura pública...

«A sociedade assumirá as despesas com a constituição desta sociedade, designadamente as desta escritura, registos e despesas inerentes, e ainda as havidas com o traspasse do estabelecimento comercial instalado na loja com os n.°s 5-C e 5-D da Rua de João das Regras, e 9-A da Praça da Figueira, e ainda no 2.° andar direito do prédio urbano sito na Praça da Figueira, 9 e 9-A, e Rua de João das Regras, 5-A a 5-D, nesta cidade de Lisboa, freguesia dos Restauradores, para o que os gerentes ficam desde já autorizados a proceder ao levantamento do depósito efectuado na Caixa Geral de Depósitos»

Em 2003, o capital social da "Casa Chocolateiro, Comércio de Vestuário, Lda." foi reforçado e redenominado de 420.000$00 para 100.000 euros, mantendo-se a mesma composição societária, que entretanto tinha admitido para a sociedade a "Faberimo - Imobiliária, S.A". Esta firma tinha uma quota de 97.905,04 euros e os restantes três sócios três quotas iguais de 698,32 euros.

A "Antiga Casa do Chocolateiro" ainda hoje existe e funciona no mesmo local. 


Imagens captadas pelo "Google Maps" em Julho de 2024


fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Casa Comum

8 de outubro de 2026

"Grande Ourivesaria da Moda"

A "Ourivesaria e Joalheria da Moda" foi fundada pela firma "Barbosa, Esteves & C.ª" em 1906, na Rua Bella da Rainha (Rua da Prata), 257-259, em Lisboa. Esta ourivesaria nasceu da compra do trespasse de outra que ali já existia mas que só ocupava a loja no nº 257, esquina com a Rua de Santa Justa. No nº 259 tinha funcionado a tabacaria de Antonio Jacintho Vidal, para onde se estendeu a nova ourivesaria a partir de 1906. A seu lado, no nº 261, funcionava a "Casa das Manteigas".

Lembro que, a joalharia e relojoaria "Barbosa, Esteves & C.ª ", cuja história pode ser consultada neste blog (Barbosa, Esteves & C.ª), tinha sido fundada em 1902 por Daniel Barbosa, Joaquim Esteves Nogueira, Albano Barbosa e José Joaquim Barbosa, tendo aberto a sua primeira loja na Rua da Prata, 295.


"Barbosa, Esteves & C.ª " na Rua da Prata, 295

A gerência do estabelecimento viria ser exercida por António Esteves de Araújo, parente de um dos fundadores. Este e Maximino Esteves de Araújo viriam a entrar como sócios da "Barbosa, Esteves & C.ª", em 1922.

Logo nos primeiros anos da sue existência um primeiro contratempo. A "Ourivesaria e Joalheria da Moda" foi assaltada na madrugada de 27 de Fevereiro de 1910, e cuja respectiva notícia no "Diario Illustrado" passo a transcrever:

«A ourivesaria dos srs. Barbosa Esteves & C.", na rua Bella da Rainha, que faz esquina para a rua de Santa Justa, foi na madrugada de domingo visitada por José Papeluser y Péry, de 27 annos, creado, natural de Buenos-Ayres, e Henrique Dubois, de 30 annos, modelador, de Montreal, Canadá.
Mas a policia apanhou os em flagrante, quando se dispunham a sahir do estabelecimento, com os principaes objectos que estavam nas montras, avaliados em 8 contos.
Os larapios entraram pela «Casa das Manteigas», que fica junto.
Escusado será dizer que o caso foi hontem bastante falado e que defronte da loja, que se conservou fechada, estiveram numerosas pessoas, sendo preciso o auxilio da policia para afastar a multidão.
Pelas 3 da tarde, os galunos foram interrogados pelos agentes Silva e Patricio, negando com o maior descaramento terem sido auctores do roubo, seguindo o processo adoptado pelos seus collegas internacionaes, que negam as proezas, mesmo quando apanhados em fiagrante.
Dizem que ao passar pela «Casa das Manteigas» viram a porta aberta e entraram, sem intenção de roubar :.. para comprar, tendo a infelicidade de serem presos quando se retiravam, por não encontrar quem os servisse, e affirmam que não traziam os saccos contendo as joias.
Na busca a que hontem se procedeu n'aquella casa, encontraram-se varios objectos e ferramentas que serviram para o arrombamento.
Tambem estiveram em casa das duas francezas, amantes dos presos, mas nada encontraram alli que os comprometta.
No Juizo de Instruccao Criminal esteve prestando declarações o sr. Barbosa, tendo-se procedido na secretaria do Juizo á avaliação das joias roubadas, para o que compareceram dois peritos.
Os presos só hontem, á noite, é que começaram a ser interrogados pelos agentes Patricio e Figueiredo.»

A seguir ao assalto. Os mirones até faziam fila para saber notícias na vizinha "Casa das Manteigas" ...

Em 1926, já a "Barbosa, Esteves & C.ª", tinha três estabelecimentos: ourivesaria "Barbosa, Esteves & C.ª", na Rua da Prata, 293-295 e sede da firma desde a sua fundação em 1902; "Ourivesaria e Joalheria da Moda" na Rua da Prata 257-259; e a "Ourivesaria, Joalheria e Relojoaria Barbosa, Esteves & C.ª" no Torreão da Praça da Figueira - ex "Tabacaria José Gusmão" -  que fazia esquina Rua da Betesga com a Rua dos Correeiros.

1926

Depois de terem adquirido a "Ourivesaria Moitinho" em 1938, a "Barbosa, Esteves & C.ª", dois anos depois, em 1940, promove grandes obras de ampliação e modernização na "Ourivesaria e Joalheria da Moda", que passa a denominar-se "Grande Ourivesaria da Moda". Expandiram o espaço ocupando a loja da "Casa das Manteigas" e uma loja de vidros na Rua de Santa Justa, ficando assim com quatro montras para a Rua da Prata e duas para a Rua de Santa Justa. 

"Grande Ourivesaria da Moda" em foto de 1945

Por ocasião da reabertura da "Grande Ourivesaria da Moda" em 23 de Novembro de 1940, o jornal "Diário de Lisboa" noticiava:

«O grande acontecimento do dia na baixa foi hoje - pode dizer-se - a inauguração da magnifica exposição de arte de ourivesaria e joalharia que se efectuou na Rua da Prata, 257, á esquina da Rua de Santa Justa, comemorando a reabertura da «GRANDE OURIVESARIA DA MODA» e para apresentação das modernas e luxuosas instalações deste estabelecimento.
Os mais lindos objectos de oiro, as joias de beleza mais rara, as pratas de inconfundível cunho artistico e tantas outras maravilhas perpassaram perante os olhos extasiados dos visitantes num ambiente de requintada elegância - vidros, espelhos e cromados, formando um conjunto equilibrado, admiravel, dum modernismo que não choca, que impressiona agradavelmente.
Merecem os melhores louvores pelo brilhante exito de hoje os srs. Albano Barbosa, Maximino Esteves de Araujo e Antonio Esteves de Araujo, socios da firma Barbosa, Esteves & C.a, proprietaria da «GRANDE OURIVESARIA DA MODA» - que nos aparece agora como um dos melhores estabelecimentos de Lisboa.»


25 de Dezembro de 1941


1943

28 de Dezembro de 1947

Nos finais dos anos 50 adquiriram um deposito de tabacos o que permitiu nova ampliação do lado da Rua de Sta. Justa. 


17 de Julho de 1952


26 de Dezembro de 1953

1956 (restaurado por IA)

 

17 de Novembro de 1966

Em 31 de Julho de 1981 a sociedade "Ourivesarias Barbosa Esteves, Lda." é transformada na sociedade anónima "Ourivesarias Barbosa Esteves, S.A.". Com um capital social de 21.000.000$ distribuído pelos seguinte acionista: Maria Luisa Ribeiro Lopes de Araújo;  Matilde Rosa Lopes de Araujo; Maria Albertina Lopes de Araujo Veloso; Jorge Rafael Lopes de Araujo; Antonio Eduardo Lopes de Araujo. Com a sua sede a permanecer na Rua da Prata, 293, tinha os seus estabelecimentos todos na Rua da Prata nos números 67 e 69, 257, e 293 a  297, em Lisboa. O prédio onde estava instalada a "Ourivesaria da Moda" já era propriedade desta sociedade.

O capital social viria a ser aumentado para 270.000.000$ em escritura pública de 17 de Março 1992. O conselho de Administração ficou constituído pelos seguintes elementos: Jorge Rafael Lopes Araújo (presidente); António Eduardo Lopes de Araújo (vice-presidente); Maria Luísa Ribeiro Lopes de Araújo (vogal).

Em 10 de Agosto de 1992, resultado da cisão da "Ourivesarias Barbosa, Esteves, Lda.", a "Ourivesaria Barbosa, Esteves, Lda." foi transmitida para a nova sociedade "Ourivesaria Barbosa, Esteves S.A." constituída com um capital social de 50.000.000$. O destaque, ou cisão, da "Ourivesaria Barbosa Esteves, Lda." deu origem às seguinte novas sociedades anónimas: "Ourivesaria da Moda, S.A.", "Ourivesaria Barbosa, Esteves, S.A.", e "Ourivesaria Araújo & Primos, S.A." (constituída em 17 de Março de 1992) na Rua da Prata 67 e 69.

Das três ourivesarias, a "Ourivesaria da Moda", em 30 de Junho de 1991, era, de longe, a mais valiosa. ...



1984 e 1986


1988

«Passada a magnífica porta em ferro Art Déco, entra-se nesta ourivesaria aberta desde 1906, na mesma família há 4 gerações. No interior, o ex-libris da casa, uma fonte em prata maciça com 2 metros de altura, dá-nos as boas-vindas. Especialistas em peças tradicionais portuguesas, o destaque vai para as jóias em filigrana, feitas artesanalmente com fios muito finos em ouro ou prata. Verdadeiros tesouros!»


Frente para a Rua da Prata (via Google Maps 2024)


Frente para a Rua de Santa Justa (via Google Maps 2024)

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Estação Chronographica

4 de outubro de 2026

"Au Rendez-vous des Gourmets"

A confeitaria, pastelaria, salsicharia, restaurante "Au Rendez-vous des Gourmets" foi inaugurada em 23 de Dezembro de 1896 pelo francês Pierre Gadel, na Rua Aurea, 135 e 137, em Lisboa. Pierre Gadel tinha sido dispenseiro no "Grande Hotel Internacional", inaugurado a 10 de Outubro de 1892 e poucos anos depois redenominado de  "Avenida Palace Hotel".

23 de Dezembro de 1896


Pierre Gadel (? - 1915)


Casa de câmbios "Montenegro Chaves & C.ª, Lda",  onde funcionou a "Au Rendez-vous des Gourmets", em foto de 1968

Nota:  não tendo sido possível obter alguma foto do exterior do "Au Rendez-vous des Gourmets", mais fotos dos últimos «inquilinos» da loja 135-137 , no final deste artigo.


24 de Dezembro de 1896


31 de Dezembro de 1896

Esta confeitaria vinha substituir outra que ali tinha funcionado, por muitos anos, a "Castellar & C.ª" de Manuel José Rodrigues.


"Castellar & C.ª ", em 11 de Abril de 1862

Poro ocasião da inauguração da "Au Rendez-vous des Gourmets", o jornal "Diario Illustrado", no mesmo dia, dava uma pequena nota do acontecimento:

«Chamamos a attenção dos nossos leitores para a abertura, que tem logar hoje, d'este estabelecimento, que vem preencher uma lacuna na cidade de Lisboa.
A sociedade elegante terá, d'ora ávante, onde tomar o seu chá, acompanhando-o de saborosas eguarias.
Os Gourmets poderão levar para as suas casas pratos opiparos, e a partir do dia 1 de janeiro proximo, os empregados publicos, o pessoal do commercio e outros terão onde almoçar ou lanchar economicamente, como só em Paris, nas appetitosas crêmeries se encontra.
Quem quizer manteiga pura vá ao novo estabelecimento, e o mesmo tem de fazer quem queira um prato recherché ou uma garrafa de vinho de comprovada vehice.»

1898


Muitos dos anúncios publicitários eram exclusivamente em «franciú», como este de 1900

Esta afamada casa, fornecia casamentos, baptizados, soirées, eventos sociais etc. Caso disso, a soirée que teve lugar na casa «do sr. Manoel Pinto da Fonseca, abastado capitalista do Porto.», e que publico de seguida.

22 de Março de 1903


6 de Janeiro de 1905

Outro evento, em 5 de Maio de 1907, foi fornecido pela "Au Rendez-vous des Gourmets": o casamento do ano, entre Clara Montalvo e o austríaco conde Constantin Dayan, barão de Stritaz, que teve lugar na Igreja dos Martyres, no Chiado.

Noivos, padrinho, madrinha, e núncio apostólico monsenhor Tonti, nos jardins da legação austríaca

«Depois da cerimonia e offarecido a todos os convidados um elegante «lunch» na legação da Austria, cujo «menu», primoroso, fornecido pelo «Rendoz-vous des Gourmets» é o seguinte:

Bol de consomme à la Souvaraine-Petits pains Garnis a la Francaise-Saumon à la Daumont.
Sauce Verte-Filet Mignon Henri IV, Bearnaise - Poulard du Mans a la Neva - Salade a l'Orientale - Montpensier a la Chantilly-Gateau Egyptien - Ananas a la Melba-Petits fours parisiens - Glace Gismonda - Friandises - Raisins Frais.
Vina: Bordeaux, Champagne, etc .- Cafe et Liqueurs.»

Em 8 de Julho de 1908 Pierre Gardel submeteu o registo do nome "Au Rendez-vous des Gourmets", que viria a ser concedido em 26 de Maio de 1909. 


1909

Em 14 de Dezembro de 1909 podia-se ler numa nota à imprensa da época, que depois de traduzida do francês ... «O senhor Gadel, proprietário do "Au Rendez-vous des Gourmets", de regresso de sua viagem de negócios, firmou contratos com as melhores casas de Paris, a fim de poder apresentar à sua amável clientela as suas  especialidades.
É também depositário de todos os produtos da Casa “À la Marquise de Sévigné”, de Royat.
Esses produtos serão sempre de primeira frescura, sendo expedidos pelo Sud-Express todas as semanas.
A clientela encontrará igualmente todos os gêneros alimentícios finos e variedades de queijos, como no passado.
A casa recomenda-se sobretudo pelos seus artigos para presentes e baptizados.»


23 de Dezembro de 1909

No anúncio anterior é mencionado que esta casa era "Fornecedor da Casa Real" e por isso mesmo ... mais uma referência à "Au Rendez-vous des Gourmets" em 4 de Fevereiro de 1903, desta vez não pelas melhores razões ... mas não por culpa dela ...



Excerto do extenso extracto de fornecedores e repectivos valores a pagar

Pierre Gadel viria a falecer em Junho de 1915, e a "Au Rendez-vous des Gourmets" viria a ser gerida e detida por seu filho A. Gadel

"Au Rendez-vous des Gourmets"  no guia "Reise Fher von Europa",  para 1914

Talão de compra de 30 de Abril de 1915

Não consegui saber quando terá encerrado definitivamente a "Au Rendez-vous des Gourmets", ou se terá reaberto depois do anúncio seguinte, já que a partir daqui não consegui obter mais nenhuma referência a este estabelecimento.

11 de Julho de 1924

Em 1930, Maria O'Neill no seu romance "A Víbora", referiu-se à "Au Rendez-vous des Gourmets" na seguinte passagem ... «A sua alma subleváva-se contra o facto e um espanto infantil a invadia a par dum inexplicavel terror: a estas primeiras contrariedades quantas mais se seguiriam? Afinal ergueu-se do banco, ajoelhou de novo e saiu. Dirigiu-se depois ao Rendez-vous des Gourmets, comeu alguma cousa e, comprando o Diario de Noticias, viu onde estava lausperenne. Era na igreja da Conceição Velha.»


Dentro do rectangulo a amarelo, loja onde funcionou a "Au Rendez-Vous des Gourmets", nos anos 40 do séc. XX

Muitos anos mais tarde, em 2 de Junho de 1952, na mesma morada, viria a abrir a casa de câmbios "Montenegro Chaves & C.ª, Limitada" , que tinha sido fundada no Porto em 19 de Maio de 1913. Esta sociedade constituída por Miguel Augusto Coimbra Pacheco, Joaquim Franco Canas e Francisco Franco Canas, tinha como «objecto o comércio de câmbios e papéis de crédito, ou em qualquer outro ramo que os sócios entendessem por bem explorar.» 


"Montenegro Chaves & C.ª, Limitada" 

Em Março de 1975, a banca nacional foi nacionalizada e no ano seguinte, o Decreto-Lei nº 167/76, de 01 de Março cancelou todas as autorizações concedidas às casas de câmbios para o exercício do seu comércio, com efeitos a partir de 30 de Junho desse ano. Perante a situação, em 21 de Fevereiro de 1977, a firma "Montenegro Chaves & Companhia, Limitada" deixou de excercer a actividade de cambista, concentrando-se na medalhística e numismática. Viria a encerrer definitivamente em 2014.

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)