Restos de Colecção

16 de agosto de 2026

Julio Worm - Fotógrafo

Julio Worm, de seu nome completo Julio Balate Worm (1874-1958), foi um importante fotógrafo amador, comerciante, editor e realizador cinematográfico. Em 1898, abriu como seu sócio Luiz Rosa uma loja de artigos fotográficos na Rua da Prata (Rua Bella da Rainha), 135-137, em Lisboa, a que deram a denominação de "Armazem Photographico Worm & Rosa"

"Julio Worm" ex-"Worm & Rosa", na Rua da Prata


Março de 1899


Foi uma importante casa comercial especializada em material fotográfico, sendo depositários em Lisboa de várias marcas internacionais (mas também nacionais, como as chapas fotográficas Pinheiro de Aragão, do Porto), como a "Kodak", com as suas máquinas fotográficas «elegantes, práticas, leves», a "A.G.F.A.", a "Bayer", a "Zeiss" entre outras marcas hoje menos evocativas: "Marion & C.ª", "Voigtländer & Sohn", "Guilleminot", "Jean Malvaux", "Steinhel", "Demaria Frères", "Wellington", etc.


Ambos de 1900


Lembro que foi em 1841, que em Portugal foram dados os primeiros passos no estabelecimento da arte fotográfica.  
«O jornal O Grátis incluía, na sua edição de 17 de Novembro de 1841, o anúncio de venda de uma máquina de daguerreótipo, na Rua de São Paulo, n.º 104, importada de França, por 60 mil réis. Na Rua do Vinha, também em Lisboa, Luiza Calotti vendia instrumentos para fotografia e ensinava a forma de operar com eles, já desde Março de 1841». 
Em 1856, surgia no jornal "Panorama" um curso de fotografia em 3 números consecutivos em Junho e Julho, e da responsabilidade de J. A. da Silva. Começavam a surgir os estúdios fotográficos, assim como estabelecimentos exclusivamente dedicados à venda de máquinas, acessórios e produtos químicos, direccionados para um crescente público de fotógrafos amadores. E em 1875, teria lugar a "I Exposição Nacional de Photographia", organizada por José Júlio Rodrigues (1843-1893).


Dezembro de 1903


Agosto de 1905


Setembro de 1905


Dezembro de 1905

Em 1900, Julio Worm com Arnaldo Fonseca (1868-1936?), fundam a importante revista "Boletim Photographico" - Revista Mensal Illustrada de Photographia. Arnaldo Fonseca era outro fotógrafo amador que tinha o atelier "Officinas Photographicas", na Praça dos Restauradores, 38 em Lisboa. As "Officinas Photographicas" tiveram a sua origem na "Photographia Universal", que tinha sido adquirida por Arnaldo Fonseca em 1902 ao fotógrafo S. Lima, altura que muda a denominação para "Officinas Photographicas".


6 de Junho de 1902


Ex-"Photographia Universal", em 1903


Arnaldo Fonseca (1868-1936?) 


1911


Capa e excerto do editorial do nº1 em Janeiro de 1900

A revista  "Boletim Photographico", era impressa pela "Companhia Nacional Editora" - criada em 1888 e resultado da fusão da "Tipografia Guedes" (1873) com a "Editora David Corazzi" - e tinha uma periodicidade mensal tendo sido publicada entre 1900 e 1914, com direcção de Arnaldo Fonseca. A casa "Worm & Rosa" foi encarregue da edição comercial; Luís António Sanches e Henrique Pinto do Amaral da edição literária. 

«(…) A nova revista apresenta-se com características de uma edição de luxo, quer nos materiais, quer na composição gráfica, manifestando influências da Art Nouveau, quer na qualidade das reproduções fotográficas. Ressalta ainda a qualidade do papel (couché), em que se apresenta o texto e ilustrações de razoável qualidade de reprodução, deixando-se especial destaque para as óptimas gravuras de clichés coladas em páginas extra-texto?, num papel cartonado colorido. Divulgavam-se, assim, fotógrafos representativos da fotografia portuguesa como Arnaldo Fonseca, Silva Nogueira, C. Trincão, Jorge Almeida Lima, João F. Camacho, A. Bobone, Carlos Relvas, Aníbal Bettencourt”, Júlio Worm, Joaquim Basto, príncipe D. Luis Filipe, Vicente Gomes da Silva, Paul Plantier, Emílio Biel, Alvão, Avelino Barros, Maria C. Lemos Magalhães, Alberto Marçal Brandão, Visconde de Sacavém e outros estrangeiros tão significativos como Constant Puyo, Boissonas, Emerson e Misonne, entre outros, com as suas paisagens e cenas de género marcadamente pictorialistas.» (*)

«Em 1886, o número de cultores da nova arte permitiu a criação da Academia Portuguesa dos Amadores Photographicos, em Lisboa, sob a presidência do Príncipe D. Carlos e de António Augusto de Aguiar. Em 1889, surge o Instituto Photographico de Lisboa, primeiro estabelecimento dedicado à fotografia amadora e dirigido por Arnaldo Fonseca. Em 1890, por iniciativa de Carlos Relvas e Alberto de Oliveira, é a vez do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos, com sede na Rua Ivens, que será presidido pelo barão Itanhaem de Andrade. Ainda nesta década, o Photo-Velo Club, do Porto, propriedade de Leopoldo Cirne, com sede na Rua da Santa Catarina, onde chegou a funcionar uma Eschola Practica de Photographia. Em 1907, surge finalmente a Sociedade Portuguesa de Photographia, com sede em Lisboa, por iniciativa de Julio Worm, Arnaldo Fonseca e Arnaldo de Bettencourt.(...)
Pelo que fica dito, a maior parte da colaboração textual assinada é de autoria de estrangeiros, tratando-se quase exclusivamente de artigos traduzidos de publicações da especialidade. Excepção a este panorama são nomes como os de Arnaldo Fonseca (que assina textos de opinião e as respostas às cartas dos leitores), Camilo António dos Santos, Clemente dos Santos, Eduardo de Barros Lobo, Gago Coutinho. Na colaboração fotográfica, corroborando a ideia do director do Boletim – “em Portugal trabalha-se… e muito” –, são muitos os clichés publicados de fotógrafos nacionais (começando pelo rei D. Carlos, pela rainha D. Maria Pia, pelo príncipe D. Luís Filipe, todos eles fotógrafos amadores), numa extensa lista que inclui trabalhos de Augusto Bobone, A. Novais, Augusto Soares, Eduardo Brasão e, postumamente, de Carlos Relvas, a par de obras fotográficas estrangeiras.
Outro fenómeno a registar, decorrente da abertura, em 1905, de agências do Boletim Photographico na África Ocidental (Torres & Torres, em Benguela) e Brasil (A. J. da Silva Porto, em Niteroi), é o surgimento na revista de clichés provenientes das colónias africanas (autores Paulo Ennes, Carlos da Costa Carvalho, João Freiria, Jaime de Macedo) e do Brasil (autores Bastos Dias, Augusto Malta).» in: Hemeroteca Digital (Ficha Técnica)

A "Sociedade Portuguesa de Photographia", juntamente com a "Academia de Amadores Photographicos", o "Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos" e o "Photo-Velo-Club" do Porto, formaram o grupo dos verdadeiros pioneiros dos clubes de Amadores de fotografia de Portugal.
«Alguns dos sócios em Dezembro de 1910: Alfredo Roque Gameiro, Dr. Anibal de Bettencourt, D. José de Bragança, Júlio Worm e Dr. Salvador Brum do Canto. No triénio de 1911 a 1913 a S. P. P. dispõe de novas instalações e desenvolve grande actividade, em parte devido à acção e entusiasmo do Visconde de Sacavém (José). Em Julho de 1913 realiza a 1.° Exposição de Fotografia das Cores (no Salão da Trindade), oportunidade aproveitada para nomear os irmãos Lumière sócios honorários da S.P.P. - constituindo um verdadeiro tributo de homenagem da Fotografia ao Cinema.» in: "Plano Focal" (Mar 1953).


Fevereiro de 1902


Abril de 1902


Abril de 1902


1 de Agosto de 1907

A sociedade "Worm & Rosa" seria dissolvida em 30 de Junho de 1909, assumindo Julio Worm o activo e passivo da firma. A loja "Armazem Photographico Worm & Rosa", passa a denominar-se "Julio Worm".


Após a publicação do último número do "Boletim Photographico", em 1914, Antonio de Sena em resposta a uma carta de Gérard Castello-Lopes escrevia: «...desde o último número do ‘Boletim Photographico’ de Arnaldo Fonseca e Júlio Worm (1910) Portugal viveu uma intensa actividade fotográfica na produção e impressão de imagens. A partir daí tudo se desmoronou ao abrigo da Censura dos Júris de Exposições realizadas com o patrocínio de Bancos, Grandes Empresas e mesmo da Mocidade Portuguesa. Até hoje. E, no entanto, existiam certos fotógrafos que se recusavam a participar nessas exposições correndo o risco de nunca virem a mostrar aquilo que viam de uma certa maneira...».

Julio Worm viria a substituir Arnaldo Fonseca como diretor do "Boletim Photographico", a partir de 1911, quando este abandona a atividade fotográfica para se dedicar à política e à carreira diplomática. Participaria na representação portuguesa na "Esposizione Internazionale di Fotografia Artistica e Scientifica di Torino" de 1902, assim como na Exposição Internacional de Dresden em 1909, e ainda na "Exposição de Photographia Artística" em 1910, que decorreu em Lisboa, no Salão da "Illustração Portugueza". Participaria noutras como a "I Exposição de Artes Graphicas" realizada na Imprensa Nacional por iniciativa de Luís Derouet, em 1913, e três anos depois, na "Exposição Nacional de Photographia" patente na "Sociedade Nacional de Bellas Artes". Viria a integrar o júri da exposição-concurso organizado por Santos Leitão na sala alugada da "Sociedade Nacional de Belas Artes", em 1931. Seria igualmente júri de admissão com Roque Gameiro, Silva Nogueira e San-Payo no segundo Salão Nacional (S.N.B.A.) de 1934 e no I, II e III "Salão Internacional de Arte Fotográfica" de 1937, 1938 e 1939.

23 de Junho de 1921


8 de Setembro de 1926

Com a inauguração, em 1926, do edifício Palácio "A Nacional", na Praça da Liberdade (futuro nº 1 da Avenida dos Aliados), na cidade do Porto, logo de seguida Julio Worm abre nesse mesmo edifício uma filial, tendo sido dos primeiros inquilinos.



9 de Janeiro de 1927 (restaurado por IA)

Outra actividade a que Julio Worm se dedicou foi a de realizador de cinema. No início do século XX, foi pioneiro na realização de documentários fílmicos em Portugal, onde se destacarm: 

  • Inauguração de Uma Estátua de Afonso de Albuquerque (1902)
  • Festa na Basilica da Estrela (1903)
  • Compilação dos seguintes filmes de 1903: IV Corrida da Rampa da Calçada da Glória; Prova de ciclismo na Calçada da Glória, Lisboa; Temporal na Boca do Inferno; Comemoração do 1º de Dezembro, Lisboa. 
  • Primeiro Voo Em Aeroplano Tripulado por Julien Mamet em Lisboa no Aeródromo de Belém (1910)
  • Visita a Lisboa da Esquadra Inglesa (1910)
  • Actualidades Portuguesas (1926)
  • Prova de automobilismo no Campo Grande, Lisboa. (1926)
  • Comemorações do 30º aniversário da Manutenção Militar (1927)
  • A Família Real (1942) 

Fotogramas obtidos na "Cinemateca Portuguesa"


Julio Worm (com laço e folheto na mão) em 17 de Dezembro de 1937

Na foto anterior referente ao "I Salão Internacional de Arte Fotográfica", e da esquerda para a direita: Gustavo de Matos Sequeira (olissipógrafo); general Daniel de Sousa (Presidente da Comissão Administrativa da CML); Raul Reis (fotografo); Artur Portela (jornalista); San Payo (fotógrafo); Julio Worm (Fotografo); engenheiro Carneiro Mendes (cineasta amador).


8 de Fevereiro de 1938


1947

Quanto à loja "Julio Worm" na Rua da Prata, 135-137, penso ter encerrado definitivamente no início dos anos 50 do século XX. A loja depois de ter tido novos inquilinos, pelo menos desde 2021 ...

(*) - "Nacionalismo e Pictorialismo na Fotografia Portuguesa na 1º metade do século XX: o caso exemplar de Domingos Alvão" - Filipe André Cordeiro de Figueiredo - Dissertação de Mestrado em História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa - Novembro de 2000

2 de agosto de 2026

"Narciso" e a Praia de Carcavelos

A estalagem, albergaria ou residencial "Narciso" terá sido inaugurada em 1967/68, por Narciso Luiz Grave Júnior na praia de Carcavelos, na freguesia de Carcavelos do concelho de Cascais. 

Narciso Júnior tinha iniciado a sua actividade como banheiro em 1937, nesse mesmo local com barracas de praia, e um barracão onde vendia pão e vinho aos trabalhadores que construíam a "Estrada Marginal da Costa do Estoril" e que seria concluída e inaugurada em 26 de Junho de 1942.


Construção da "Estrada Marginal" na zona do "Narciso"


Ao fundo e à direita ao lado da primeira casa, a da entrada dos cabos submarinos (que ligavam Carcavelos a Inglaterra, Gibraltar e Vigo desde 1878), um barracão de banheiro que poderia ser o de Narciso Júnior (1ª hipótese)


A mesma recta em Carcavelos e após a conclusão da Estrada Marginal. À direita do automóvel do fotógrafo Mário Novais, um barracão de banheiro que, tambem, poderia ser o de Narciso Júnior (2ª hipótese)


1902

Não esquecer o "Grande Casino de Carcavelos", que em Agosto de 1907 ...


Carcavelos era o início da "Costa do Sol" (finalizando em Cascais) designação que, englobando a orla marítima de Carcavelos a Cascais, foi criada em 1922 - sucedia "Comissão de Iniciativa para o Fomento da Indústria de Turismo de Cascais" (1921-1922) - seria oficializada pela lei n.º 1909, de 22 de Maio de 1935. À "Comissão de Iniciativa e Turismo do Concelho de Cascais" sucedeu, por decreto de 18 de Maio de 1937, a "Junta de Turismo de Cascais". Já por decreto de 26 de Julho de 1957 se estabeleceu que a zona de turismo passasse a coincidir com a do concelho e que o órgão responsável pela sua administração se designasse "Junta de Turismo da Costa do Sol", denominação que veio a desaparecer em 31 de Maio de 1979, para dar lugar à de "Junta de Turismo da Costa do Estoril", extinta em 2008, «para efeitos de organização do planeamento turístico».


Na foto anterior: Inauguração das carreiras de "Auto-cars" entre Monte Estoril, Cascais e Sintra, pela "Cooperativa Lisbonense de Chauffeurs", em 9 de Dezembro de 1928, junto às instalações da "Comissão de Iniciativa e Turismo do Concelho de Cascais", no Mont'Estoril, no mesmo dia que era inaugurado o placard do jornal "O Século", no qual se podia ler: «Ao inaugurar o seu placard saúda a população efectiva e flutuante do Mont'Estoril.»

Que em 20 de Agosto de 1931, já tinha novas instalações...



 

Em 1933 e anos seguintes, além dos combóios da "Sociedade Estoril", os transportes de passageiros para Carcavelos eram assegurados, também, pela empresa "A Boa Viagem", propriedade de José Baptista da Fonseca e mais tarde denominada simplesmente "Boa Viagem". Não confundir com a atual "Boa Viagem", nascida em 1972 pela aquisição das concessões da empresa "Lopes & Matos", fazendo parte do grupo "Barraqueiro Transportes, S.A." e com sede em Torres Vedras.



1933


Autocarro "Panhard" da "Boa Viagem". Carreira Cacém-Carcavelos em 29 de Julho de 1950


Horário das carreiras no "Jornal de Cascaes" de 22 de Agosto de 1934


Autocarro da "Boa Viagem" em direcção à praia de Carcavelos, nos anos 50 do século XX


1946

Voltando ao Narciso Luiz Grave Junior ...

Barracão do banheiro Narciso Júnior, no seu espaço definitivo, em foto de 15 de Julho de 1949


«Comes e bebes» e esplanada "Narciso" nos anos 50 do século XX. Em fundo um dos edifícios do "Colegio Inglez de São Julião" fundado em 21 de Outubro de 1932, na Quinta Nova de Santo António ou Quinta dos Inglezes


Praia de Carcavelos nos anos 50 do século XX

Entretanto já em 30 de Junho de 1934, o "Jornal de Cascais" noticiava a inauguração do "Pavilhão Primavera" :

«Foi inaugurado, no dia 30 de Junho, na praia de Carcavelos, o «Pavilhão Primavera», propriedade do nosso amigo sr. António Ribeiro Duarte.
As condições em que ele está instalado, além de merecerem os maiores elogios dos convidados que assistiram á inauguração, merecerão tambem a preferencia dos banhistas e frequentadores da maior e mais linda praia da «Costa do Sol».
Com uma pequena esplanada e centralisado num ponto elevado, o Pavilhão oferece a quem o visita um dos mais pitorescos panoramas marítimos que na «Costa do Sol» é dado presencear.
O seu proprietário não descurou nenhuma das exigencias que o aparato e a necessidade do novo estabelecimento exigem. Porém, não satisfeitas as suas aspirações, tem em projeto outros melhoramentos para agregar a este, já por si de tão grande importância. As carreiras de auto-cares para a praia, projecto de A. Ribeiro Duarte, com ligação directa ao Pavilhão, interessa a todas as pessoas que a frequentem. 
Dada a distância um tanto elevada que separa da vila, decerto os veraneantes, conhecendo o alcançe da iniciativa e os advindos dela, darão a preferência ás carreiras»

António Ribeiro Duarte, que já era proprietário da Leitaria "A Primavera" ...


1933

Apesar de, em 12 de Agosto seguinte, o mesmo jornal noticiar: 

«Continuam activamente os trabalhos para o fornecimento de água à praia de Carcavelos. Sendo um empreendimento que se pode considerar banal, visto não ser mais do que uma ramificação da canalisação existente em Carcavelos, é, no entanto, de capital importancia para a nossa praia, pois não fazia sentido que numa linha de turismo como a nossa, existisse uma praia - por sinal a mais extensa e linda - que só tinha água, em logar público, a mais de 1 kilómetro de distancia, isto é, na povoação.»

Em 1947, o "Pavilhão Primavera" ainda funcionava e estava arrendado a José da Silva Casais.

 

Cartazes de 1957 e 1958

No Boletim da "Junta de Turismo da Costa do Sol", publicado em Dezembro de 1961, pode-se ler: «Carcavelos talvez seja a praia de maior agrado para a classe média portuguesa. Para bem servir, foi construído nesta praia uma espécie de paredão, onde ficam restaurantes a preços módicos, chuveiros e vestiários. Mas ao mesmo tempo construiu-se algo tão útil como prático: um recinto infantil, no meio da areia, com trampolins e brinquedos, de modo que as crianças possam brincar enquanto os pais descansam. »

Neste paredão foi erguida a estalagem "Narciso". Era propriedade da firma "Narciso, Lda." que foi constituída em 4 de Maio de 1967, entre os sócios Narciso Luiz Grave Júnior, Júlia da Graça Rodrigues, Luís Carrapicho Félix e Maria da Conceição Rodrigues Grave Félix. «A duração da sociedade é por tempo indeterminado, contando-se, para todos os efeitos, o seu começo desde esta data, sendo o seu objecto o exercício da indústria e comércio de restaurante e mariscos, bem como a exploração hoteleira, de balneários e zonas de banho de praia, assim como qualquer outro ramo de comércio ou indústria que a sociedade resolva explorar.»


"Narciso" nos anos 60 do século XX


Narciso Luiz Grave Júnior

Com classificação de 4 estrelas, além dos seus 17 quartos, todos com casa de banho, tinha também um restaurante, uma gelataria, uma cervejaria e uma esplanada. Eram 6.583 metros quadrados frequentados por muitos banhistas, habitantes da linha do Estoril e diplomatas estrangeiros. Este edifício, e segundo palavras do neto, Luís Narciso Félix, foi «construído pelo próprio, com os recursos do trabalho familiar e de todos os sacrifícios que daí advieram, sempre criaram invejas injustificáveis. Inveja por alguém que teve a coragem de esperar 19 anos pela autorização camarária para iniciar a construção de um edifício, que viria a ser ícone da Costa do Sol, e posteriormente Costa do Estoril.»


1971


"Narciso" em 1978

Narciso Luiz Grave Júnior foi um dos percursores do surf em Portugal, mais concretamente em Carcavelos. Para tal, em 7 de Julho de 1978 funda  a associação "Clube Nacional de Surf e Skate", juntamente com António Esteves Gonçalves e João Luís Morais, sediada na Residência Narciso, na praia de Carcavelos. Esta associação tinha «como fins a propaganda, a difusão, o incremento e a representação das modalidades de surf e skate». Mais uma vez, e segundo palavras do neto Luís Narciso Félix … Narciso Júnior «foi o pioneiro nas mais diversas áreas de investimento e divulgação da Zona além fronteiras, desde a publicidade do que havia na "linha", de promover, patrocinar, reservar áreas especificas para a pratica de surf na Praia de Carcavelos, contra tudo e todos pagar do seu próprio bolso a vinda de equipas de Espanha, França e Inglaterra para disputar um campeonato, em promover os surfistas como os nadadores salvadores mais competentes que existiram».


Cartão de sócio

Em Agosto de 2000, o conjunto "Narciso" «viu-se forçado a fechar portas depois de uma inspeção sanitária ter concluído que não reunia as devidas condições para estar em funcionamento. Mas os problemas do Narciso terão começado em 1998, quando foi aprovado o Plano de Ordenamento da Orla Costeira de Cascais, segundo o qual a estalagem se encontrava em domínio público marítimo, o que tinha duas consequências. Por um lado, a estalagem passava para a propriedade do Estado. Por outro, a família era obrigada a fazer obras no espaço para não perder a concessão. (…)
A câmara de Cascais confirma que o atual proprietário do edifício é o Estado, “como em todas as restantes concessões no domínio público marítimo”. A família, no entanto, não concorda e escuda-se numa licença de utilização do estabelecimento por 99 anos que teria sido entregue a Narciso Júnior e que, entretanto, terá desaparecido.» texto de José Pero Pincha in: jornal "Observador" 27 de Outubro de 2014.

A Câmara Municipal de Cascais, decidiu encerrá-lo e entaipá-lo, até à abertura de um concurso, em 2014 para aí se instalar uma nova escola de surf. Pelo que as duas das principais marcas mundiais ligadas ao surf, "Billabong" e "Quiksilver", candidataram-se à conclusão da reabilitação do antigo "Narciso", na Praia de Carcavelos. As duas candidaturas para concluir o "Cascais Surf Center" foram apresentadas no dia 29 de Setembro de 2014, na "Casa das Histórias Paula Rego".

"Narciso" entaipado em 2005


"Narciso" entaipado em Janeiro de 2013


Proposta da "Billabong"


Proposta da "Quiksilver"

Cumprindo os prazos estipulados pelo "Centro Recreativo e Cultural Quinta dos Lombos", entidade promotora do concurso de ideias para o edifício do antigo "Narciso", o anúncio do vencedor teve lugar no dia 31 de Outubro de 2014. «Após uma saudável disputa entre dois gigantes internacionais do surf, Billabong e Quiksilver, pela reabilitação do antigo Narciso na Praia de Carcavelos, foi hoje escolhido como vencedor o projeto apresentado pela Quiksilver Internacional.» 

Passados 12 anos do anúncio do vencedor do concurso, o que se construiu, e não construiu, está patente nas fotos seguintes, tiradas por mim no passado mês de Julho de 2026. Um pouco diferente da "ideia" vencedora do concurso em 2014 ... penso eu ...





Não é meu hábito tecer comentários, mas desta vez permitam-me que deixe aqui uma pergunta. Como é possível que a Câmara Municipal de Cascais permita um edifício entaipado durante mais de 20 anos - repito: 20 anos! - na maior e melhor praia da "Linha do Estoril" 

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Delcampe.net, Narciso-Praia de Carcavelos (Facebook), Fotold, Arquivo Histórico Municipal de Cascais