Restos de Colecção

21 de outubro de 2026

"Teatro Rosa Damasceno" em Santarém

O "Teatro Rosa Damasceno" teve a sua origem no "Theatro de Santarem", inaugurado em 11 de Março de 1884, depois das suas obras terem tido início em 1877, promovidas por uma associação cultural, representativa da elite local, denominada "Club de Santarem", fundado em 1851, e que para tal emitiu acções. 


Antigo "Theatro Rosa Damasceno" (1894-1937) ex-"Theatro de Santarem" (1884-1894)

O "Club de Santarem" decidiu levar a cabo a construção de um teatro, emitindo ações para o efeito, nos finais da década de 70 do século XIX. Inicialmente os estatutos desta agremiação mencionavam expressamente a obrigação da manutenção do teatro, que à época, só podia ser o da Igreja de S. João de Alporão, que viria a ser encerrado em 1876. Mas, desde 1871, que pessoas ligadas ao teatro defendiam a construção de uma moderna sala de espetáculos em Santarém. Tendo sido escolhido o local, após negociações com a Câmara, da antiga Igreja de São Martinho, cuja fundação remontava ao século XII/XIII, fora sede de freguesia até 1849. Viria a dar origem ao "Theatro de Santarem".

Outros teatros ou já tinham surgido ou surgiriam em Santarém na segunda metade do século XIX. A mencionar:  o "Theatro Club Ribeirense", inaugurado em 1864, o teatro-barraca "Theatro Alliança", inaugurado em 1892, o "Theatro Taborda", inaugurado em 28 de Abril de 1895 (e onde se instalou, a partir de 1911, o "Grémio Guilherme d'Azevedo"), e o teatrinho "Theatro Flôr da Infancia".


3 de Dezembro de 1891


7 de Janeiro de 1892

O "Theatro de Santarem", construído onde se encontravam as ruínas da Igreja de S. Martinho, era constituído por um edifício de rés-do-chão e primeiro andar e foi pintado por um dos mais famosos pintores-decoradores do século XIX, José Maria Pereira Cão, artista natural de Setúbal e aí nascido em 1841 e falecido em Lisboa em 1921. Nos seus tectos estavam representados os principais artistas da época, e em grande destaque, o retrato da famosa actriz Rosa Damasceno (1845-1904), casada com o actor e encenador lisboeta, Eduardo Brazão (1851-1925) que também teve um teatro batizado com o seu nome - "Teatro Eduardo Brazão" - e inaugurado no Bombarral em 27 de Fevereiro de 1921.

"Theatro Rosa Damasceno" em gravura de 1908

Acerca deste primitivo teatro, nada melhor que transcrever a sua história inicial disponível no "Diccionario do Theatro Portuguez" de Souza Bastos e publicado em 1908:

«Pertence a um grupo de accionistas. Começou a ser edificado em 1877. Foi a planta feita pelo architecto Monteiro e modificada pelo conductor Julio de Souza. A obra foi dirigida por Pedro Antonio Loureiro. visconde de Athouguia e Julio de Souza. Foi inaugurado este bello theatro, a 11 de marco.de 1884, ainda por concluir, por distinctos amadores, que deram um concerto a beneficio das obras. Dez annos depois, a 3 de julho de 1894, realizou-sę nova recita, tambem a beneficio das obras, com a comedia Amigo Fritz, desempenhada por distinctos amadores e pelos artistas Eduardo Brazão e Rosa Damasceno. A assembleia geral reunida. em testemunho de gratidão, deu ao theatro, que até ali era theatro de Santarem, o nome de Rosa Damasceno e nomeou Eduardo Brazão presidente honorario da Direcção. 
Este theatro possue uma vista de praça, outra de bosque, um gabinete, tres salões, vista de mar, etc. O rendimento total da casa póde elevar-se a réis 320$000. Além do aluguer do theatro, que é de 15 % da receita bruta, a despeza de cada recita regula approximadamente por 25$000 réis. 
O theatro possue 18 frizas, 21 camarotes de 1.ª ordem, 21 de 2.ª ordem, 14 de 3.ª, 104 cadeiras, 126 logares de superior e 70 de galeria. Teem ali representado muitas vezes todas as companhias dos theatros de Lisboa e algumas do Porto. Frequentemente representam tambem n'este theatro amadores de Santarem, que os há ali muito distinctos. Quasi todos os nossos melhores artistas teem representado no Theatro Rosa Damasceno, e entre elles: Virginia, Eduardo Brazão, Rosa Damasceno, Taborda, Palmyra Bastos, João Rosa, Amelia Vieira, Lucinda Simões, Augusto Rosa, Lucilia Simões, Joaquım d'Almeida, Anna Pereira, Ferreira da Silva, Falco, Valle, Barbara, José Ricardo, Angela Pinto, Alfredo Carvalho, Emília Eduarda, Augusto de Mello, Adelina Abranches, etc. O Theatro Rosa Damasceno é elegante, confortavel, bem illuminado a gaz e muito bem decorado. Póde considerar-se um dos melhores da provincia.»

Em 17 de Dezembro de 1891 o "Correio da Extremadura" noticiava:

«Já entrou em ensaios de apuro a peça de Cezar de Lacerda, que um grupo de distinctos amadores da nossa primeira sociedade se propõe levar á scena no Theatro de Santarem, revertendo o producto liquido em beneficio do cofre do mesmo Theatro.
Na primeira recita o espectaculo terminará com a comedia em 1 acto O Senhor.
A comedia original de João Arrada, sob o titulo Apanhei-os !... representarse-ha na segunda recita que deve realisar-se em fins do mez corrente.
Para a primeira recita ainda não está marcado deffinitivamente o dia, sendo certo, porém, que ella terá logar antes do Natal.»


Rosa Angélica Damasceno Rosado Brazão (1845-1904)

O "Theatro de Santarem" viria a ser rebatizado para "Theatro Rosa Damasceno" na sequência da representação da comédia «O amigo Fritz», representada em 3 e 4 de Julho de 1894 pelos artistas Eduardo Brazão e sua esposa, a actriz Rosa Damasceno e os actores Joaquim Costa (1853-1924) e Augusto Antunes (1953-1927) - que integravam a "Companhia de Theatro Normal de Lisboa" - todos convidados por Menezes e Almeida, que na altura dirigia um grupo de amadores local. 

«Se não houvesse a Rosa Damasceno seria preciso invental-a !
Depois a Graça ... Sim, senhores, a Graça, com g maiusculo ... a Graça, que faz da adoravel interprete da Madrugada uma artista excepcional, impressionadora, unica, emfim !»

Entretanto e poucos dias antes desta representação, e no jornal "Correio da Extremadura" de 30 de Junho de 1894 era noticiado:

«Na ultima reunião de socios do Club e accionistas do Theatro de Santarem foi aceite a demissão da direcção d'esta casa de espectaculos e nomeada para a administrar a commissão que em tempo apresentou alguns alvitres tendentes a livrar o Theatro
das difficuldades com que lucta.
Esta commissão poderá aggregar a si todos os cavalheiros que julgue indispensaveis para o conseguimento dos seus planos.
Confiamos em que alguma coisa de bom se fará.»

Em 1896, o cenógrafo Menezes e Almeida, também actor amador prestigiado e amador de fotografia, traz para Santarém a primeira lanterna de imagens animadas. Santarém passava a ter o seu primeiro animatógrafo, no "Theatro Rosa Damasceno".

O "Jornal de Santarem" de 30 de Junho de 1896, referindo-se ao espectáculo de animatógrafo no "Theatro Rosa Damasceno" …
«Dizem-nos que este animatographo possue quadros muito interessantes, salientando-se a Saida de Felix Faure para a Russia e a Noite de Nupcias. Tambem nos merece particular interesse a Debulhadora Mecânica em activo serviço no campo do Ribatejo … salvo seja.»


4 de Novembro de 1922




Programa para 3 e 4 de Abril de 1926

Em 16 de Março de 1924 abria o "Teatro Sá da Bandeira", que vinha substituir o antigo "Salão Ideal" que tinha funcionado entre Abril de 1913 e Agosto de 1922, para animatógrafo e gerido por Manuel Francisco de Sousa. Na véspera da abertura do "Teatro Sá da Bandeira", o jornal "Correio da Estremadura" noticiava:

«Conforme temos noticiado, reabre amanhã o antigo Salão Ideal, hoje convertido num amplo teatro que tomou o nome do grande volto scalabitano.
Após a exibição dos grandes romances cinematograficos «A orfã», «Parisete», «O pequeno miudinho> e «O garoto de Charlot», o teatro suspenderá de novo os seus espectaculos para conclusão das obras e decoração da sala, contando a empreza fazer a inauguração oficial em Outubro.
Ha já grande procura de bilhetes para o espectaculo d'amanhã em que se iniciará a exibição do monumental romance cinematografico «A orfã», publicado em folhetins no Diario de Noticias e considerado uma das melhores fitas ate hoje editadas.
Para estes espetaculos vender-se-hão apenas bilhetes de plates.
O que determinou a empreza a abrir agora esta casa de espectaculos é o interesso que tem para que o publico veja estas importantes fitas que depois de exibidas neste teatro seguirão para os Açores.»


Folheto do "Salão Ideal" 


26 de Agosto de 1922


31 de Janeiro de 1931


"Teatro Sá da Bandeira" ex-"Salão Ideal", actualmente

Em 1911 já existia outro animatografo em Santarém: o "Salão Lisbonense", em frente ao Jardim da República. Também apresentava pequenas peças teatrais, infantis, revistas e operetas.


23 de Março de 1912

O novo "Teatro Sá da Bandeira", seria inaugurado oficialmente em 12 de Outubro de 1924, sem que antes, em 6 de Setembro, o mesmo jornal informasse :

«Fica este magnifico teatro dotado com uma ampla e elegante sala, com cerca de 800 logares de plateia, 12 frisas, duas ordens de 28 camarotes, uma vasta geral e balcão de lotação superior a cem logares.
Com todos os requisitos que exige um teatro moderno, tem dois elegantes fumoirs, de artistica decoracão, bengaleiros, vestiarios de senhoras, um magnifico bufete, rasgado por 24 janelas e todas as comodidades indispensaveis, nos dias de hoje, a uma boa
casa de espeetaculos.
O palco é espaçoso e com excelentes qualidades cénicas, de modo a comportar as maiores companhias, tanto de declamação como de opereta e revista. Ha tambem uma vasta pista para aqui poder funcionar qualquer companhia de circo.
A decoracao da sala e proscenio foi confiada a um dos nossos mais conceituados cenógrafos da capital, devendo os trabalhos começar por esta semana.
O pano de bôca e cenários, modernos e de grande efeito, estllo sendo executados em Lisboa. A sua complicada e artistica instalação electrica, foi feita sob a direcção do distinto electricista sr. Antonio Pinheiro, devendo ser do um efeito deslumbrante, com o brilho das suas mil lampadas. A inauguração desta casa de espectaculos tera logar no próximo mês de Outubro, com uns das melhores companhias dramáticas.
Entretanto até á conclusão das suas obras, deverão exibir-se no «écran» algumas notáveis películas cinematográficas, como A Parisette, O Miudinho no asilo, Entre chamas e feras, e outras.»


29 de Maio de 1937

No início de 1937, a direção do "Club de Santarém" decide construir um novo edifício, no mesmo local, para aí instalar o "Teatro Rosa Damasceno" num novo edifício, e que se adequasse às necessidades técnicas do cinema bem como à «estética do nosso tempo», segundo jornais da época. Este projecto ficou a cargo do arquitecto Amílcar da Silva Pinto (1890-1978), que já desenvolvia vasta obra na cidade de Santarém, como o novo edificio dos "Correios Telégrafos e Telefones" inaugurado em 6 de Março de 1938.

As obras iniciaram-se em Junho de 1937 e a nova sala foi inaugurada em 16 de Junho de 1938. Acerca desta nova sala de espectáculos o jornal "Correio da Estremadura" de 11 de Junho de 1938 escrevia:

«(…) Santarem esta satisfeita e compreende-se com que regosijo, por ver a cidade dotada com um teatro amplo, moderno, de linhas elegantissimas, obedecendo a todos os requisitos de arte cénica e cinematográfica e reunindo todas as condições de higiene e de segurança para o público.
Propriedade do Club de Santarém que, numa hora de audaciosa iniciativa, deliberou remodelar as antiquadas e exíguas instalações do velho Rosa Damasceno, o novo teatro vai abrir em breve as suas portas para a festa inaugural, que promete o maior brilhantismo e traduzirá uma justificada manifestação de homenagem ao presidente da direcção daquela colectivitlade, o ilustre deputado sr. dr. Carlos Borges. (…)
Foi o sr. Carlos Borges quem deu alento á feliz iniciativa, impulsionando a idea a cuja realização prestou o seu melhor concurso.
Pondo à disposição da direção do Club de Santarém, perto de seiscentos contos, sem prazo fixo, nem qualquer interêsse de natureza especial, só a isenção desta atitude podia tornar possivel a realidade de tao arrojada quao dificil aspiração. (…)
A impressão geral é de elegancia e de comodidade.


Aproveitando o espaço dos corredores laterais, avançando até dois terços do palco, a plateia ganhou imenso em amplidão e desafôgo, abrangendo uma vasta quadra, com 598 lugares, dotada de coxias largas e guarnecida de mobiliário moderno, do melhor gosto.
O primeiro balcão á uma obra prima de construção, com uma inclinação que oferece a maior comodidade, prolongando-se lateralmente por duas asas de camarotes. E' dotado com dois foyers, cujo pavimento oferece um artistico parquet.
O segundo balcão, muito cómodo também, avança sôbre o primeiro, num contorno elegante, dum recorte muito feliz.
O palco oferece ainda bastante espaço e os camarins, instalados num espaço anexo, teem comodidade.
A iluminaçao com uma distribuição inteligente, oferece um conjunto de tons muito feliz. Conjugando o branco, o verde, o vermelho e o lilaz, obtiveram-se efeitos maravilhosos.
O largo vestibulo, as escadas de acesso em lanços suaves, as instalações higiénicas, os terraços, os bufetes, as bilheteiras, os pavimentos em marmorite, etc. tudo revela um aproveitamento de espaço e uma bela noção das proporções, que muito honra o autor do projecto, o conceituado arquitecto sr. Amilcar Pinto, que mais uma vez tem a consagração dos seus talentosos dotes de artista.
Assim o entendeu a Inspeccão Geral dos Espectaculos, que presidida pelo Inspector sr. Major Oscar de Freitas, ante-ontem procedeu á respectiva vistoria, considerando o novo teatro «o melhor da Provincia um dos melhores do pais
O velho pano de boca da autoria do Visconde de Atouguia e A. Figueiredo foi substituido por uma cortina em vermelho.
A execução dos trabalhos foi feita sob a direcção de diversos artistas como os srs. Bacelar, Alves, Benjamim de Almeida e João Lopes que estiveram á altura dos seus créditos.
A lotação é para 1.400 espectadores.
Muito fica por dizer. Mas o resto terao os nossos leitores ocasião de apreciar, na sua inauguração, que terá lugar na próxima semana.»



18 de Junho de 1938

O novo "Teatro Rosa Damasceno" seria inaugurado, poucos dias depois a 16 de Junho de 1938.

«Pode-se dizer que foi verdadeiramente brilhante a festa de inauguração do novo Rosa Damasceno.
A cidade teve um movimento desusado para os lados das Portas do Sol, ali concorrendo todos os que lograram ou não bilhete para a récita inaugural e que afluiam a presenciar o artistico efeito da iluminação do novo teatro.
Este oferecia na verdade um surpreendente aspecto, com a sua alta fachada a destacar-se na projecção luminosa de dentro e de fora, que lhe dava uma fulgurante belêsa.
Dentro, a linda sala de espectáculos, cuja descrição fizemos no ultimo numero, regorgitava de espectadores, ouvindo-se as mais elogiosas referencias á obra realizada. (…)
A Companhia Rey-Colaço representou em seguida a peça «Recompensa», de Ramada Curto, que teve a brilhante interpretação costumada, sendo muito aplaudida. No fim do primeiro acto o sr. presidente da Camara ofereceu a artista D. Amelia Rey Colaco um ramo de flores. Apoz o espectáculo teve lugar no Club de Santarem uma ceia de homenagem ao sr. dr. Carlos Borges, em que se trocaram calorosas saudações.»


10 de Dezembro de 1938


24 de Dezembro de 1938


29 de Abril de 1944


30 de Dezembro de 1944


27 de Janeiro de 1956


A seguir uma série de fotos (aprimoradas por IA), a partir de fotogramas de um documentário emitido pela "RTP - Radiotelevisão Portuguesa" em 7 de Fevereiro de 1979, acerca do "Teatro Rosa Damasceno" e dispnível na plataforma "RTP Arquivos".








Bilhete

Em 1999, o "Teatro Rosa Damasceno" encerraria definitivamente, tendo apenas utilizado, extraordinariamente, em 2001 para um concerto de Maria João e Mário Laginha.

Em 2004 o edifício foi cedido pelo "Clube de Santarém" ao "Grupo Enfis, Hotelaria e Turismo", liderado pelo empresário Joaquim Rosa Tomaz, dono de um vasto património em Santarém onde se incluem um ginásio, restaurante, colégio privado e residência para seniores, entre outros imóveis. Em troca o clube recebeu lotes de terreno no concelho vizinho de Almeirim, processo que foi contestado pela Câmara Municipal de Santarém. O município também tentou adquirir o imóvel mas sem conseguir convencer o "Clube de Santarém", que acabou por fechar contrato com o "Grupo Enfis", ignorando o direito de preferência da autarquia no negócio.

2023

Em Março 2007 um incêndio de causas desconhecidas destruiu quase por completo o edifício do "Teatro Rosa Damasceno".

Mas em 3 de Abril de 2025 … «O presidente da Câmara de Santarém, João Leite (PSD), assinou esta quinta-feira, 3 de Abril, a escritura que formaliza a aquisição, pelo município, do antigo e degradado Teatro Rosa Damasceno, localizado no centro histórico da cidade. Cumpriu-se assim a previsão anunciada pelo autarca no feriado municipal de 19 de Março, quando anunciou que o negócio ficaria consumado em Abril. O imóvel, ao abandono há muitos anos, integrava a massa insolvente da empresa Enfis, Hotelaria e Turismo. »

fotos in:  Delcampe.net, Arquivo Digital Correio do Ribatejo,  Arquivo Distrital de Santarém, Arquivo RTP, Eu Gosto de Santarém

18 de outubro de 2026

"Casa Suissa"

A "Casa Suissa" foi fundada por José Maria Ferreira Mendes em 9 de Outubro de 1886, na Praça de D. Pedro, 96 e 97, esquina com a Rua do Amparo, 55, tendo constituido a firma "J. Ferreira Mendes & C.ª " com Francisco Ascensão da Fonseca. 


"Casa Suissa" dentro da elipse desenhada


"Casa Suissa" na esquina à direita na foto

9 de Outubro de 1886

O restante texto do anúncio anterior informava:

«O seu proprietario José Ferreira Mendes, que foi durante muitos annos empregado da casa de Guimarães, convida o publico, e particularmente as pessoas das suas relações, a visitarem o seu estabelecimento, onde encontrarão um varia do sortimento de roupas brancas de todas as qualidades, atoalhados, fazendas brancas nacionaes e estrangeiras, e grande sortimento de bordados.
Encarrega-se de enxovaes completos para recem-nascidos, collegiaes e noivos, para o que tem um atelier nas melhores condições, dirigido por pessoa competentissima.
Garante-se a maxima perfeição, todos os artigos de roupa branca, como póde ser verificado nos artigos que se acham em exposição, para os quaes chama a attenção das pessoas de bom gosto.»

A "Casa de Guimarães" mencionada no texto anterior, localizava-se na Praça de D. Pedro, 90 e 92, e que quanto à sua origem passo a transcrever o seguinte texto que retirei do artigo que elaborei acerca da "Loja do Povo" em Outubro de 2025:

«Natural de Santarém, onde nasceu a 3 de Julho de 1873 o distinto comerciante que foi Joaquim Gomes d'Oliveira Jardim, iniciou a sua carreira na Casa Manuel Marques de Sousa daquela cidade, vindo para Lisboa em 1894.
Na capital colocou-se na Casa de Guimaraes, fundada por José Joaquim Rodrigues Guimaraes e aí de tal maneira vincou a sua personalidade que três anos depois, por escritura de 15 de Maio de 1897, foi admitido como sócio do estabelecimento que, desde então, começou a girar sob a firma Guimares & Jardim.
Mais tarde, por escritura de 8 de Julho de 1907, a referida sociedade dissolveu-se, sucedendo-lhe a firma Guimarães & Jardim, Sucessor Joaquim Gomes d'Oliveira Jardim.
Prosseguindo no desenvolvimento da sua actividade, em 1911 Oliveira Jardim adquiriu de V. Rocha a antiga Loja do Povo, criada pelo saüdoso e conhecido Francisco Grandella e assim reuniu os dois estabelecimentos que hoje ocupam um lugar de apreciável relévo no seu ramo de negócio: rouparia de senhora e cavalheiros, camisaria, enxovais para noivas, baptizados e colegiais, panos de linho e algodão, serviços de cama e mesa, colchas em tôdas as qualidades, edredons, meias, luvas e todos os demais artigos similares. Esta loja veio substituir a retrozaria "Loja da Verdade" que ali existia desde 1880.»


"Casa de Guimarães" à direita (na foto) do toldo (primeiro) da "Loja do Povo"

Voltando à "Casa Suissa", esta veio substituir a retrozaria "Loja da Verdade" que já existia anterior a 1880, e que por sua vez substituiu outra retrozaria de seu nome "Nolasco & Araujo", cujo anúncio de 1877 reproduzo de seguida. Nolasco ao trespassar esta retrozaria viria a mudar de ramo de actividade e montar uma casa de loterias e tabacos na Rua da Prata.

1877

Em 15 de Outubro de 1892 a sociedade "J. Ferreira Mendes & C.º " que José Maria Mendes mantinha com Francisco Ascensão da Fonseca, foi dissolvida passando José Mendes a ficar como único sócio, conforme anúncio seguinte do "Diario do Govêrno".

Entretanto, e já ocupando as portas 96, 97 e 98 da Praça de D. Pedro, José Maria Ferreira Mendes morre em 1903 e fica como proprietária sua viúva, passando a "Casa Suissa" funcionar sob a firma "Viuva de J. Ferreira Mendes".

Em 1907, já a "Casa Suissa" pertencia a Raul Nogueira da Silva, que ali se manteve até cerca de 1916.


1907

1908

Raul Nogueira da Silva junto à foto do fundador José Ferreira Mendes

1913


Interior da "Casa Suissa"


12 de Julho de 1913

Em 10 de Agosto de 1916 o jornal "A Capital" escrevia a propósito da "Casa Suissa":

«Façamos agora uma visita á Casa Suissa que pertence presentemente a uma sociedade constituida pelos srs. David Martins, Antonio Fernandes David de Andrade, Adolpho Pires Coelho David, João Caetano Martins, Antonio Santos Gamito e Francisco Vieira Thadeu de Almeida, chefe de escriptorio e Alberto Jose David gerente da casa.
Os trez primeiros socios foram antigos empregados da cas, o que tanto basta para dizer do conhecimento que teem do seu métier. Todos, porém, teem contribuido, dentro do campo das suas attribuições, para o desenvolvimento e prosperidade da Casa Suissa, onde a rouparia para senhoras e creanças, vestidos e capas de baptizado, blusas, as ricas parures, os bordados em todos os generos attingem um verdadeiro sonho de maravilha e de deslumbramento.
A Casa Suissa é antiquissima,e , interessante pormenor: quando ha uns annos, para importante remodelação da casa, levaram os operarios a fazer escavações, foram encontradas rendas preciosas com mais de trinta annos de existencia que os actuaes proprietarios do estabalecimento aproveitaram na decoração das suas vitrines. Os ateliers da Casa Suissa estão modelarmente organisados, o seu pessoal é habilíssimo, sendo interessante registrar que a tesoura de que ainda hoje se serve tem passado de firma para firma, gosando quasi do previlegio de um talisman.»


1916

Quanto a Raul Nogueira da Silva, por volta de 1916 tomou de trespasse o estabelecimento nas portas 114 e 115 da Praça de D. Pedro, - um pouco mais adiante, a ao lado da entrada para o "Francfort Hotel", no nº 113, - por sua vez antiga entrada para o extinto "Hotel Irmãos Unidos" -, e aí fundou a "Loja Suissa" no mesmo ramo de actividade. Pelo anúncio que publico de seguida, ainda terá funcionado como "Casa Suissa" mas, certamente, terá sido forçado a mudar o nome para "Loja Suissa". Ou poderá ter sido erro da tipografia.

1916

Interior da "Loja Suissa"


Dentro do rectângulo amarelo, onde funcionou a "Loja Suissa"

Em 1925, e no seu lugar já ali funcionava outra loja de roupa para criança, a "Loja Infantil" da firma  "Suzano & Pinto, Ltd.".


A "Loja Infantil" da firma "Suzano & Pinto, Ltd.", na Praça de D. Pedro IV, 114-116, em 1925


20 de Fevereiro de 1925

Quanto à "Casa Suissa", já como pastelaria e leitaria, começou esta a funcionar a 21 de Outubro de 1922,  sob a denominação de "Casa Suissa - Pastelaria e Leitaria", certamente para manter o mesmo arrendamento e sob a firma "Casa Suissa, Lda.". Viria ser renomeada para "Casa Suissa, Lda. - Pastelaria - Salão de Chá", mais tarde comercialmente "Pastelaria Suiça". Viria a encerrar definitivamente a 31 de Agosto de 2018.




2 de Julho de 1933



1967

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Estação Chonographica