Restos de Colecção

13 de julho de 2024

"Grande Hotel de Portugal" em Viseu

O "Grande Hotel de Portugal", abriu as suas portas na Avenida Alberto Sampaio, em Viseu, pela primeira vez em 1910. Foi mandado construir expressamente para esse fim, pelo seu proprietário o famoso cavaleiro tauromáquico Manoel Cazimiro de Almeida (1854-1925).


1910

De referir que por esta altura só existia outro hotel em Viseu: o "Hotel Oliveira", na Rua do Carvalho e propriedade de Francisco José d'Oliveira.

1913

Manuel Casimiro de Almeida, monárquico convicto, foi o iniciador da dinastia e o primeiro cavaleiro a tomar a alternativa na Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, em 21 de Agosto de 1892, apadrinhado por Alfredo Tinoco. Já se tinha estreado como cavaleiro tauromáquico em 1877, na Praça de São Pedro do Sul. Seu irmão, Fernando Cazimiro de Almeida, também foi cavaleiro, tal como seu filho José Casimiro de Almeida. Fundou a "Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Viseu" da qual foi comandante, até ser nomeado Inspector dos Serviços de Incêndios.

«Manoel Casimiro d'Almeida é apreciado sportman, como velocipedista, caçador, nadador, amador de música, e um dos mais notaveis cavalleiros, como mestre d'equitação e toureio.» in: jornal "A Trincheira".

Monárquico convicto, envolveu-se em lutas políticas, nomeadamente na tentativa de restauração da monarquia em Viseu e outras terras da Beira, em 1919, o que lhe causou alguns problemas.

1913

Classificado de 3ª classe, tinha 26 quartos oferecia «todas as commodidades necessarias para os forasteiros, gabinete de leitura, casa de banho, garage, etc.» Em 1913, os preços das diárias iam desde 1$200 réis, preços, que a fazer fé no anúncio publicitário que publico de seguida, se manteriam pelo menos até 1916 ... A gerência era exercida pelo próprio Manoel Cazimiro.


Sala de Jantar do Hotel, com Manoel Cazimiro sentado na mesa junto ao empregado

1916


"Grande Hotel de Portugal" num postal da época colorizado

Manoel Cazimiro retirou-se das lides tauromáquicas na Praça de Touros de Espinho, a 28 de Agosto de 1921 e morre em 1925. A gerência do Hotel passa a ser exercida pelo seu irmão Fernando Cazimiro de Almeida.

Segundo o roteiro "Hoteis e Pensões de Portugal", de 1939, as diárias variavam entre os 28$00 e os 40$00. O pequeno-almoço custava 3$00, o almoço 12$00 e o jantar 14$00. Neste ano a gerência ainda continuava a ser de Fernando Cazimiro.


1931


1934


1944


Cabecário de papel de carta em 1949


Etiqueta de bagagem

Em 1939, e também segundo o roteiro "Hoteis e Pensões de Portugal", existiam em Viseu os seguintes equipamentos hoteleiros:

Grande Hotel Avenida - Proprietário: João de Matos - Rua Miguel Bombarda (frente ao Rossio) - 40 quartos
Grande Hotel de Portugal - Gerência: Fernando Cazimiro - Avenida 28 de Maio esquina com a Rua Casimiros - 26 quartos
Hotel Regional - 49 quartos
Pensão André - Proprietário: António de Oliveira - Praça da República - 12 quartos
Casa de Hospedes Barreto - Proprietário: João Barreto - Rua Formosa - 17 quartos
Hospedaria Mário Bispo - Proprietário: Mário Francisco Bispo - Campo do Viriato - 12 quartos

Na década de 50 do século XX, o "Grande Hotel de Portugal" encerrou definitivamente, e no seu edifício instalou-se o "Colégio de Santo Agostinho", tendo como primeiro diretor o Dr. Francisco Sales Loureiro.

O "Colégio de Santo Agostinho" na, então, Avenida 28 de Maio actual Alberto Sampaio

No seu lugar, actualmente, um prédio de habitação e lojas, esquina com a Rua Casimiros

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian,  Delcampe.netHemeroteca Digital, Garfadas on line, PorViseu

6 de julho de 2024

Farmácia Vitália no Porto

A "Farmácia Vitália", foi fundada a 4 de Fevereiro de 1933 pela "Sociedade Comercial Farmacêutica, Lda.", na Praça da Liberdade, 34-37, na cidade do Porto. A direcção técnica estava entregue ao sócio-gerente Ribeiro da Cunha.


1934



Nos painéis das "Propagandas Caldevilla"


1936

Entretanto os "Laboratórios da Empreza Vitalia" já existiam, no Porto em 1919, conforme anúncio seguinte publicado no jornal lisboeta "A Imprensa" de 2 de Julho de 1919:

2 de Julho de 1919


Instalada no Palácio das Cardosas o seu projecto marcadamente modernista, Art Déco, foi da responsabilidade dos arquitectos Manuel Amoroso Lopes (1899-1953) e Manuel Marques (1890-1956) e do engenheiro Jorge Vieira Bastian. 

Arquitecto Manuel Marques (1890-1956)

Quanto ao resultado a "Fundacion Docomomo Iberico" descreve:

«A intervenção arquitectónica da Farmácia Vitália da autoria de Manuel Marques é sintomática do espírito renovador que o meio artístico português viveu na década de 1930. [...] A obra da Farmácia Vitália interfere violentamente na fachada, até então intacta, da edifício de raiz pombalina edificado no extremo sul da Praça Nova, no Passeio das Cardosas. É um espaço marcado no exterior por uma intervenção que trata essencialmente da superfície, como se o objetivo pretendido fosse um elemento gráfico, quase publicitário. O símbolo da cruz vermelha destaca-se no fundo negro das superfícies de vidro emolduradas por delicados trabalhos em metal. Em contraste, projetam-se outros dois elementos suspensos no vidro, densos, brancos, nos quais se abrem duas aberturas quadradas, sublinhadas por frisos com conotações art déco. A fachada torna-se um exercício de composição abstrata de qualidade inesquecível. Pode-se dizer que Vitália, o nome da farmácia, expresso numa grafia vigorosa, traduz um conceito que estará presente nas obras projetadas por Manuel Marques nesse período de afirmação de uma renovação profunda e da mais fecunda criatividade.» Equipa IAPXX Norte, coordenação Sérgio Fernandez


Dentro do rectângulo em amarelo o local onde se instalaria a "Farmácia Vitália"



Outubro de 1942


1943



Maio de 1964


1972


No "Diário da República de 11 de Junho de 2001

"Farmácia Vitália" está, actualmente, assim distribuída pelos 3 pisos:

Piso -1: Gabinete para aconselhamento de nutrição e podologia e massagens; armazém e área para recepção de encomendas; área de apoio à compra de órteses e calçado ortopédico.

Piso 0 : Atendimento ao público; sala para atendimento personalizado; instalações sanitárias.

Piso 1: Laboratório de manipulados; Sala de convívio; gabinete do diretos técnico; escritório dos serviços administrativos; instalações sanitárias; armazém.

E é descrita no site "Revista Saúde" do seguinte modo:

«Para além de elegante, a Vitália é grande que se farta. São três pisos de cem metros quadrados cada um. E já ocupou o prédio todo, no tempo em que tinha alvará de fábrica de medicamentos. Falta de espaço nunca foi problema nos edifícios art-déco, basta lembrar como eram os cinemas dessa época, com piolho, duas plateias, balcões e camarotes. Montras e portas de vidro enormes, com molduras de ferro de origem, apresentam à Praça da Liberdade uma gama impressionante de produtos de saúde e de bem-estar, sete postos de atendimento e muita, muita tecnologia. O aparato digital do século XXI reveste de luz branca, como as batas dos farmacêuticos, uma farmácia antiga, com um laboratório de medicamentos manipulados a bater forte no coração.​



A Vitália ainda produz todos os dias, agora com a arte centenária da manufactura dos antigos boticários. Do laboratório saem cápsulas de carbonato de cálcio para doentes hemodialisados, xaropes para crianças, pomadas e cremes dermatológicos, produtos específicos de veterinária. O serviço de manipulados oferece às crianças do Porto uma série de medicamentos que não têm versões pediátricas disponíveis no mercado. E responde, ao miligrama, às receitas “secretas” dos médicos mais exigentes, com destaque para os dermatologistas. O maior cliente são outras farmácias, mas também é procurado directamente por muitos portuenses com necessidades terapêuticas específicas, para quem a indústria farmacêutica não oferece soluções, pelo menos na dose adequada. Uma pomada para a psoríase e outras doenças, que ganhou fama de curar só pela pronúncia do nome, recebe encomendas de todo o país.» 



30 de junho de 2024

Ao Ultimo Figurino

A loja de modas "Ao Último Figurino", terá aberto as suas portas pela primeira vez entre 1912 e 1914, na Rua Garrett, 20-24, em Lisboa, tendo sido seu fundador António Gonçalves Marques. Nos anos seguintes a loja seria ampliada ao nº 26, tomando as sobrelojas e andares superiores. Vinha substituir a famosa casa "Carlos Augusto Magiolo" que já existia em 1863 ...




«Na esquina de cima foi, durante muito tempo, a Casa Magiolo, que negociava em café, chá, brinquedos, etc. As portas da Calçada do Sacramento e a primeira do Chiado davam para a secção de chá, café e  outros generos. As duas restantes serviam a secção de brinquedos e quinquilharias. As duas tinham communicação interior. A fina roda de Lisboa frequentava a casa d'este estrangeiro, que foi um dos introdutores em Portugal do brinquedo artistico.
Hoje n'essa loja fica O Ultimo Figurino que é uma das mais reputadas casas de modas da capital. Os seus proprietarios escrupulisam em lançar no mercado os melhores modelos que as grandes modistas lá de fóra criam. Por isso fazem sucessivas e repetidas viagens ao estrangeiro, sendo as suas amplas montras aquellas que mais se destacam pela riqueza com que estão sempre armadas e ornamentadas. O Ultimo Figurino conta hoje entre as suas clientes muitas das mais elegantes senhoras da alta roda alfacinha.» in: "A Capital" de 17 de Julho de 1916.


"Magiolo & Magiolo" na esquina da Rua Garrett com a Calçada do Sacramento


1863


No "Almanak Palhares" de 1909


Outra foto da "Magiolo & Magiolo", na esquina da Rua Garrett com a Calçada do Sacramento

"Casa Magiolo" (no canto inferior direito da foto) ainda presente no Carnaval de 1910

O mesmo jornal "A Capital", em 5 de Junho do mesmo ano de 1916, dava conta de uma inovação:

«O "Ultimo Figurino" envia representantes ás cidades do paiz.

Já lá vae longe o tempo em que Lisboa tinha, por assim dizer, o exclusivo das manifestações de progresso social. Presentemente, além do Porto, muitas outras cidades procuram pôr-se ao lado da capital, rodeando a vida das suas populações com o conforto, a belleza e o chic, que, durante annos, eram como que o previlegio da Rainha do Tejo. Hoje, Santarem, Coimbra, Vizeu, Evora, Faro, e tantas outras terras de provincia apresentam uma elite que nada tem que invejar á de Lisboa. (...) O esmero da toilette chega por vezes a ser alli mais refinado do que na propria capital. AS principaes familias d'essas cidades vestem ou directamente de Paris ou conseguidos dos ateliers de Lisboa a execução dos seus vestidos. Está n'estes casos o Ultimo Figurino que, entre a sua elegante clientella, conta bom numero de senhoras das principaes cidades do paiz.
A essas senhoras vae 'A Capital' fornecer uma agradavel informação, recebida agora mesmo do proprietario d'esse acreditado estabelecimento. A'manhã, representantes do Ultimo Figurino partem ao encontro das suas clientes, evitando-lhe suma viagem forçada a Lisboa, para o que levam o mais completo sortimento de vestidos e toilettes da estação e, ao memso tempo, uma collecção espantosa de blusas.
Antonio Marques, que nos dá conta da innovação que o seu estabelecimento introduziu no mercado, annuncia-nos que o seu representante, com o mais perfeito conhecimentos do metier deve depois de ámanhã tocar a sua primeira étape na cidade de Coimbra.»


Duas vistas nocturnas, em épocas diferentes



2 de Março de 1914


30 de Dezembro de 1942


18 de Fevereiro de 1943


"Ao Último Figurino" à direita na foto, podendo-se avistar atrás do sinaleiro a famosa "Casa Pereira"

Tinha como vizinha, a famosa loja "A Pompadour" . Nas primeiras décadas da sua existência ainda teve a loja de cutelarias finas, a "Sheffield House" como vizinha (entre "A Pompadour" e "Ao Último Figurino"), mas  que viria a ser tomada aquando da ampliação das suas instalações de "Ao Último Figurino".


1943


"A Pompadour" e a "Sheffield House"


1947

Mas em 8 de Novembro de 1923 era inaugurada em Coimbra uma loja denominada "Ultimo Figurino", que nada tinha a ver com a "Ao Ultimo Figurino" de Lisboa, e onde «o Sr. Alfredo Coroado e o Sr. Fausto ajudavam a comprar vestuário da moda ou a escolher uma gravata de seda» in: blog "Visto de Dentro". A propósito, o jornal "Gazeta de Coimbra", de 10 de Outubro noticiava:

«Coimbra continua a ser dotada com honrosos e importantes estabelecimentos, sem duvida uma notavel afirmação do seu progresso.
Foi ante-ontem inaugurado que honra de sobremaneira esta cidade, pois no genero pode rivalisar com qualquer casa de Lisboa e Porto.
Denomina-se este novo estabelecimento de modas Ultimo Figurino, o qual se encontar montado com todos os requisitos de luxo e nas condições indespensaveis para estabelecimentos desta natureza. (...)
Ultimo Figurino foi instalado na rua Ferreira Borges, em frente do Arco de Almedina, sendo propriedade da mesma firma.»
Mas o tailleur era de Lisboa ... «(...) é um dos estabelecimentos que faz honra á cidade em disposição e arranjo internos, como, tambem, nos tarbalhos apresentados em publico, executados nos seus ateliers, a cargo do afamado tailleur A. Pinto, de Lisboa ...» (17 de Novembro de 1923)


"Ultimo Figurino", em Coimbra


"Gazeta de Coimbra" de 3 de Novembro de 1923

Ainda antes do incêndio do Chiado de 25 de Agosto de 1988, a "Ao Ultimo Figurino" tinha mudado de donominação para "Galerias Novo Figurino". A Calçada do Sacramento que a separava do quarteirão da "Antiga Casa José Alexandre" salvou-a do incêndio, não tendo sido atingida pelo mesmo. Anos depois, viria a encerrar definitivamente, já no século XXI.


Nos dias seguintes ao incêndio do Chiado de 25 de Agosto de 1988