Restos de Colecção

23 de junho de 2024

Ernesto Victor Wagner - Músico e Fabricante de Pianos

Ernesto Victor Wagner (1826-1903), parente do grande maestro e compositor Richard Wagner (1813-1883), e casado com uma das filhas (Leopoldina Carolina Neuparth) de Eduardo Neuparth (1784-1871), foi marceneiro e músico de grande qualidade, fundou, em 1848, de sociedade com o fabricante de pianos Carlos Augusto Habel, uma fábrica destes instrumentos, a primeira portuguesa, que, mais tarde, lhe veio a pertencer exclusivamente. Foi Mestre de trompa do D. Luís I de Portugal, então ainda Infante, que muito se lhe afeiçoou, sendo, em 1849, nomeado Músico da Real Câmara e, em 1861, mediante concurso, tornou-se professor do "Real Conservatório de Lisboa", leccionando a cadeira de instrumentos metálicos. 


Reprodução de quadro propriedade (à época) da D. Laura 

11 de Dezembro de 1852

Outro filho Leopoldo Manillius Wagner (1850-1927), dedicou-se aos negócios e consignações, apesar de também saber tocar trompa, ficando conhecidas as suas “sessões” instrumentais de trompa enquanto tomava banho. Estudou no "Instituto Industrial e Comercial de Lisboa", fez serviço militar na guarnição de Viana do Castelo, ingressando mais tarde na "Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal", sediada no Porto. Finalmente em 1882 fixou-se em Lisboa onde veio a adquirir em 1894, ao Dr. Carlos Lima Mayer a "Fábrica Âncora" de licores, que geriu até à data de sua morte. Leopoldo Wagner casa-se com Virgínia de Oliveira Basto Wagner (1859-1939), também ela ligada à música, ficando reconhecida tardiamente pelas obras que compôs.


1906


1909

1909

Carlos Augusto Habel e Ernesto Victor Wagner desfazem a sociedade (c.1860) e o primeiro estabelece-se no Largo do Calhariz e o segundo, em 1865 estabelece-se na R. do Arco do Marquês à R. Formosa. Em 1880 continua a sua actividade, começada em 1848, já na Rua Nova da Trindade, 107-111, com o seu estabelecimento "Fabrica e Armazem de Pianos de Ernesto Victor Wagner", chamando a si os louros da invenção dos tampos harmonicos para piano "Patent Wagner"; para além da venda, consertava e alugava pianos, bem como instrumentos de arco, e variedade de cordas e pertences para instrumentos de arco. Nesta loja trabalhavam dois dos seus sete filhos: Herman Max Wagner (1850-1915) e Daniel Wagner (1856-1905) como afinador de pianos.


"Patent Wagner"


Na Exposição Internacional do Porto em 12 de Abril de 1862


1881


20 de Setembro de 1883

«Descendente de uma familia de musicos Ernesto Wagner tornou-se chefe de outra familia de artistas dos mais illustres, pois não só sua filha Virginia foi uam notavel pianista, como seus filhos Eduardo e Victor alcançaram logares distinctos no nosso meiso musical como afamados concertistas que eram.
Na sua faina de constructor e adpatador de instrumentos antigos, Wagner produziu notaveis milagres de arte. No seu atelier, que era o seu santuario, elle estudava, analysava, desmanchava, reconstruia os instrumentos antigos que adquiria, e por tal forma elles sahiam perfeitos das suas mãos que os amadores mais distinctos e os professores mais considerados lhes disputavam a posse, cabendo a El-Rei D. Luiz dois soberbos violoncellos e outros varios instrumentos aos srs. Marques Pinto, Visconde de Charruada, Guerschey, Sauvinet, etc.» in:
revista "Occidente" de 30 de Maio de 1903.


1886

Ernesto Victor Wagner, nascido em 16 de Março de 1826, em Zeulenroda, principado de Reuss-Greiz (Alemanha) viria  a falecer, em Lisboa em 2 de Maio de 1903, com 77 anos de idade.


Na revista "A Arte Musical" de 15 de Maio de 1903

Após a morte de Ernesto Wagner a loja de pianos e instrumentos musicais, continuou na posse de seus filhos sob a designação de "Wagner & Wagner", pelo menos até 1919, ano em que foi endereçado por Herman Wagner a seu irmão Leopoldo, o postal que publico de seguida.

Em: "Welt-Adrebbuch der Musikinstrumenten-Industrie" von Paul de Wit (1912)


Na revista "A Arte Musical" de 30 de Novembro de 1914


Datado de 21 de Novembro de 1919

Era na Rua Nova do Almada, Rua Nova do Carmo, Rua do Loreto ou Rua das Portas de Santa Catharina (mais tarde, Rua do Chiado e Rua Garrett) que se encontravam os principais estabelecimentos de venda de pianos ou armazéns de música na segunda metade do século XIX. Manuel António da Silva, Sassetti, Wagner, Canongia, Steglich, Matta Junior, José de Figueiredo, Galeazzo Fontana, Neuparth ou Custódio Cardoso Pereira foram casas que preencheram durante décadas os letreiros do Chiado.


Piano vertical fabrico de Ernesto Victor Wagner

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca Nacional Digital

17 de junho de 2024

Tabacaria Marécos

A "Tabacaria Marécos" localizada na Rua do Primeiro de Dezembro (antiga Rua do Principe), nº 124 em Lisboa, foi fundada por volta de 1912, por José Rodrigues Marécos.


Foto de 1882, ainda com a entrada para o "Passeio Público" com a localização futura (à direita na foto) da "Tabacaria Marécos"

Em 1880, no nº 117 da Rua do Principe, existia a "Nova Casa Havaneza de Lisboa" que encerraria em 1883. Também em 1880, mas nos números 81 e 81-A, existia a "Tabacaria Phenix" que em 1881 se mudou para os nos 103 e 105 sendo propriedade da firma "Alves, Baptista & C.ª" - em 1905 já era propriedade d a firma "Alves & Carlos". Quanto aos nos. 81 e 81A da mesma rua continuariam como "Tabacaria Brito & Azevedo".

"Tabacaria Phenix" à esquerda na foto

Primeiramente, em 1895 já estava instalada no, ainda, nº 122 da Rua do Principe, no prédio contíguo ao do "Grande Hotel de Inglaterra", a "Tabacaria Moura", a que se lhe seguiu a "Tabacaria Lydia". Em 1908, já pertencia a Rogeria Cardi Nery e em 1910 já era a "Tabacaria Moura".


"Tabacaria Moura" em foto de 1895

Por volta de 1912 o trespasse da "Tabacaria Moura" é adquirido por José Rodrigues Marécos, que depois de transformada a sua fachada e seu interior, passa a denominar-se "Tabacaria Marécos", já no nº 124 - o nº 122 viria a ficar para a entrada da sede da "Sociedade Industrial Aliança". Em 1916, adquire por trespasse da mui conhecida "Tabacaria Mónaco" na Praça de D. Pedro IV (Rossio), que tinha sido fundada em 1875 por João Cezar Vieira da Cruz. A "Tabacaria Marécos", tinha como vizinho a norte, o café e restaurante "Imperial". No lado sul o "Café Suisso". Bem acompanhada ...

Localização da "Tabacaria Marécos" com o Café Imperial à esquerda da Tabacaria na foto de 1916

No mesmo ano, o jornal "A Capital" publicava o seguinte apontamento acerca da "Tabacaria Marécos":

«Na rua do Principe nº 124 fica a Tabacaria Marécos, cujo dono tomou de trespasse ultimamente tambem a Tabacaria Monaco. A Tabacaria Marécos vende tabacos nacionaes e estrangeiros, dos mais modestos aos mais luxuosos, loterias, aguas potaveis e mineraes a copo ou engarrafadas, sellos, estampilhas, artigos de papelaria, jornaes e illustrações nacionaes e estrangeiras, artigos diversos e de grande gosto para fumadores, etc. Pelas suas tradições de credito e pelo desejo gentilissimo de agradar á sua numerosa freguezia, a Tabacaria Marécos é uma das casas n'este genero que mais sympathias e preferencias merece do publico.»


"Tabacaria Marécos" à esquerda na foto com a loja da "Sociedade Industrial Aliança", ainda em montagem


Montra da "Sociedade Industrial Aliança", sua vizinha


Aquando das demolições dos dois prédios contíguos, que iam desde a Rua Jardim do Regedor até à Praça D. João da Câmara, e que albergavam entre outros estabelecimentos, o "Grande Hotel de Inglaterra" e o conhecido "Café Suisso", a "Tabacaria Marécos" foi "na onda". A escritura de desocupação ocorreu em 25 de Novembro de 1949. 


"Tabacaria Marécos" ainda a funcionar ...


... e já demolida em 1950

Mas ... Aquando da construção do primeiro edifício esquina da Rua do Primeiro de Dezembro com a Rua Jardim do Regedor, construíram um "anexo" (se assim possa chamar) no extremo sul, propositadamente só para esta tabacaria, (como se poderá observar nas fotos publicadas) que assim permaneceu por muitos anos. A escritura de ocupação ocorreu em 15 de Agosto de 1951.


Projecto de 31 de Julho de 1953 para o reclamo luminoso da nova "Tabacaria Marécos"


Já nos finais dos anos 60 do século XX


9 de junho de 2024

Teatros de Fantoches - "Mechanico", "Pairet", "Andronic", ...

No século XVIII, o fantoche era muito popular. O seu principal representante foi o poeta e dramaturgo António José da Silva (1705-1739), chamado "O Judeu" (1705-1739), que foi garroteado e queimado na fogueira num auto-de-fé da Inquisição, em Lisboa, em 19 de outubro de 1739. As suas óperas moral e icozas  para marionetas podem ser consideradas como o embrião da ópera buffa , tanto pelo seu repertório, como pelas suas características musicais e literárias. Estão entre os conjuntos de textos para marionetas mais preciosos e originais da história do teatro europeu. Porém, absolutamente nada resta dos bonecos, nem desenhos nem descrições. Terão sido marionetes cujos corpos provavelmente foram esculpidos em madeira ou cortiça.


Bonecreiro ambulante com o seu teatro portátil

Já no século XIX, foi inaugurado em 1815, no Bairro Alto o "Theatro Pinturesco e Mechanico", ou “Theatro do Bairro-Alto”, também chamado “Theatro do Pateo do Patriarca” ou “Theatro de S. Roque”, sito no Largo de S. Roque, (actual Largo da Misericórdia) em Lisboa, onde fora o Palácio de Niza. Os espectáculos pretendiam retomar a tradição das marionetas do Bairro Alto. Roberto Xavier de Mattos, empresário, mandou desenhar e equipar uma pequena companhia de fantoches manobrados sob o tablado. Por se chamar Roberto, ficaram os bonecos a chamar-se também “robertos”, e o espectáculo de “Teatro Dom Roberto”, nome pelo qual ainda hoje é conhecido.


Onde funcionou o "Theatro do Bairro Alto"


1824



Dois desenhos de teatros de fantoches noutros países. Mas a essência era sempre igual

"Bonecos", "Fantoches", "Bonifrates", "Androidos", "Marionettes", "Dom Robertos", ... Quanto à origem da designação de "Teatro Dom Roberto", e segundo José Manuel Valbom Gil, existem 2 teorias:

«A primeira, defendida inicialmente por Henrique Delegado é que este nome tem a sua origem numa comédia de cordel que foi muito importante no reportório do teatro de marionetas europeu do século XVIII: Roberto e o Diabo, e que narra a vida do Duque de Normandia de seu nome Dom Roberto, conhecido por Roberto do Diabo por ter vendido a alma ao diabo.


A outra hipótese é que, no início do séc. XIX, devido ao grande sucesso do empresário de teatro de bonecos, Roberto Xavier, o seu nome tenha sido associado às marionetas pelo povo que assim lhes começou a chamar “Robertos”.


No livro "Feiras e divertimentos populares de Lisboa" de Mário Costa (1950), pode-se ler:

«Em Janeiro de 1813, D. Simon Sadines, um refugiado de Espanha, trouxe para Portugal e armou no Pátio do Patriarca, nas proximidades da igreja de S. Roque (…) antes de ali ter funcionado o terceiro ‘Teatro do Bairro Alto’ ou ‘Teatro de S. Roque’ (…).
O empresário do teatro era um tal Roberto Xavier de Matos, e, segundo a opinião do brilhante escritor Gustavo de Matos Sequeira, foi de então para cá que aos fantoches se começou a chamar “Robertos”». 


Gravura de Achille Pinelli

Ainda segundo José Manuel Valbom Gil ... « O documento mais antigo que descobri sobre essa hipótese, data de 1863. Todavia, a segunda hipótese data de 1813, ou seja 50 anos antes, o que me leva a concluir que ambas as hipóteses estão corretas, devido à proximidade dos acontecimentos. Terá sido a junção de ambas que popularizou o nome por todo o território.» (*)

«Bonecos - Chama-se theatro de bonecos aos que apresentam fantoches trabalhando por cordeis, ao mesmo tempo que fallam de dentro algumas pessoas, fingindo que são elles.
Fantoches - Nome que os francezes dão aos fantoccini italianos e que nós adopta mos para designar os títeres ou bonecos que representam nos theatros de feira e em outros, movidos por cordéis. Os fantoches são maiores do que  propriamente os bonecos, havendoos até de tamanho natural.
Bonifrates - Era o nome que n'outro tempo se dava aos bonecos dos theatrinhos e que hoje também se chamam fantoches ou marionettes



"Theatro do Manecas" da autoria de Stuart Carvalhais - Fantoches Quim e Manecas


1910


No "Parque Mayer" em 1929


"PIM-PAM-PUM" em foto de 10 de Abril de 1934

... A origem d'estes espectáculos de bonecos remonta á maior antiguidade. Crê-se que foram os chinezes os primeiros a admittil-os; também ha vestígios de taes espectáculos entre os egypcios e chegaram a grande perfeição na Grécia e em Roma.
Ha séculos que os theatrinhos de bonifrates ou marionnettes são popularissimos e o encanto das creanças em toda a Europa. Assim accontece também em Portugal, onde taes espectaculos foram sempre muito apreciados. No theatro do Bairro Alto as celebres operetas do Judeu foram representadas por bonecos. Ainda hoje nas nossas feiras ha grande predilecção pelos theatrinhos de fantoches, que outra coisa não são mais do que marionnettes, bonifrates, titeres
ou bonecos.» (**)

O "Theatro Mechanico" foi inaugurado em 22 de Novembro de 1857 , na Rua Oriental do Passeio Público, esquina com o Largo da Anunciada, em Lisboa. Veio ocupar o espaço do "Circo de Madrid", que ali tinha funcionado entre 16 de Janeiro de 1845 e 27 de Novembro de 1852, conforme história que poderá consultar neste blog, no seguinte link: "Circo de Madrid".


22 de Novembro de 1857


5 de Dezembro de 1857

«Agradou immensamente, fazendo os emprezarios, que eram italianos, grandes interesses. O scenario e machinismo eram explendidos. Os preços estabelecidos eram: cadeiras numeradas. 500 réis; segunda plateia, 300 réis; terceira plateia, 140 réis. Funccionou por muito tempo. O theatro, propriedade dos emprezarios, era construído de madeira e armava e desarmava com a maior facilidade.» (**)

O jornal "Revolução de Setembro", de 25 de Novembro de 1857, noticiava a sessão da véspera, com um artigo assinado por Julio Cesar Machado:

«... Todavia a grande novidade da semana foi a abertura do theatro mechanico. Realmente é digno de vêr-se um divertimento como este tão completamente novo para Lisboa.
(...) Logo no primeiro quadro, que figura as margens do Rheno ao romper da aurora ha dois cysnes que vão banhar-se, que pela exactidão de movimentos chegariam a illudir, se não, fossem tão pequeninos, a ponto de toda a gente os julgar cysnes verdadeiros e vicos! No quadro da Hollanda, que só póde ser apreciado por quem conhecer o paiz, ha uma infinidade de authomatos encarregados de diversos papeis, a qual delles mais digno de applauso; o ferreiro, o velho empoado pelo gaiato, e os que correm no gêlo, são sobretudo os que maior effeito produzem. Porém, o que mais tem agradado e com justiça é o magnifico quadro da Tempestade, onde o vento e a trovoada são de tal forma imitados que por assim dizer entristecem e amedrontam. O authomato que joga no arame, e os quadros dissolventes terminam o primeiro espectaculo que deu o theatro mechanico, que tem tido uma affluencia constante desde que abriu.
Em todas as recitas tem concorrido damas a desfructar os espectaculo, nos primeiros logares, por que não ha camarotes. Permitta Deus que com este exemplo, as senhoras portuguesas percam mais o receio que teem de assistir a um espectaculo sentadas n'uma cadeira da superior. Os chefes de familia lucrariam se a moda se introduzisse. Para um homem e uma senhora, que necessidade ha de um camarote ?! Para que hão de as senhoras portuguezas marcar como excepção o que em todos os paizes passa como boa regra? (...)»


10 de Abril de 1858


14 de Abril de 1858

Relativamente ao fim do "Theatro Mechanico", terá ocorrido certamente no ano de 1858. Quanto à data do último espectáculo antes do seu encerramento definitivo coloco duas hipóteses: encerrou em 15 de Abril de 1858, conforme anúncio seguinte; ou encerrou na cidade do Porto aquando da sua deslocação (?) que ocorreu entre 5 de Julho de 1858 e 24 de Agosto de 1858, e da qual publico a respectiva publicidade. Isto considerando que se tratava do mesmo "Theatro Mechanico". Inclino-me para esta 2ª hipótese, ou seja este teatro terá encerrado definitivamente em 24 de Agosto de 1858, já na cidade do Porto.


5 de Julho de 1858


15 de Julho de 1858


24 de Agosto de 1858

Com os fantoches vieram os primeiros teatros para crianças. O primeiro foi o "Bijou Infantil", inaugurado em Julho de 1891, por José Rodrigues Chaves, na Patriarchal (actual Rua D. Pedro V), 89 e 91, em Lisboa.

«... Quando esta tentativa parecia querer vingar, um incêndio, na noite de 1 de abril de 1893 destruiu por completo o theatrinho, ardendo egualmente os fantoches Androidos, o gabinete e apparelhos de prestidigitação, os autómatos de ventriloquia, instrumentos excêntricos, ferramenta de relojoaria, scenario, guarda roupa e adereços do theatro, finalmente tudo quanto constituía o ganha-pão do tão habilidoso quanto infeliz actor Chaves.
A segunda tentativa n'este género foi a de José dos Santos Libório, que fez construir um lindo e luxuoso theatrinho na Avenida da Liberdade, a que deu o titulo de Theatro do Infante Era uma verdadeira maravilha de luxo e bom gosto. Era ensaiador das creanças Salvador Marques e a parte musical estava entregue ao professor Filippe Duarte. A peça com que abriu foi a magica infantil Historia da Carochinha, original de Eduardo Schwalbach, que se representou
com grande luxo de mise-en-scene. Nas mesmas condições fez representar depois a oratória Santo António e outras  peças; mas a tentativa gorou, porque o prejuízo foi grande.»
(**)

O "Theatro Pairet" era um teatro de bonecos (fantoches) ambulante que em 16 de Novembro de 1890, inaugurou o seu teatrinho na nova Rua de Cascaes, construída nesse mesmo ano no bairro lisboeta de Alcântara. 


Ambos os anúncios de 16 de Novembro de 1890

Já em 21 de Janeiro de 1877, em Havana, capital de Cuba, tinha sido inaugurado um "Theatro Pairet" (actual "Cine Pairet") e era propriedade do seu fundador, o catalão Joaquin Pairet, falecido em 1885. Não consegui saber se existiria alguma relação entre estes dois teatros, ou familiar, mas inclino-me mais para a segunda hipótese.

Em 22 de Junho de 1890, o teatro de fantoches Pairet já actuava na casa de espectáculos "Évora-Terrasse", na cidade de Évora com bilhetes a preços de 40 réis, segundo o jornal "O Manuelinho de Évora" desse dia.

O "Theatro Pairet", no programa para 19 de Março de 1905 no "Theatro Aveirense" ...

19 de Março de 1905


"Theatro Aveirense"

Será em 1891, iremos encontrar o "Theatro Pairet" apresentando, na barra de Lisboa, "A Expulsão dos Jesuítas Pelo Marquez de Pombal". As liberalidades que o teatro de marionetas proporcionava, também terá contribuído com a sua quota-parte para esse lado de exclusão dos ambientes mais sérios e respeitadores da ordem instalada.

7 de Março de 1891

«No Entrudo de 1901 o animatógrafo surge na vila integrado nos festejos que o Grémio Artístico Comercial promoveu. Designado «Animatógrapho Edison» ali ter-se-á mantido até 1904. Na Feira de S. Pedro o Theatro Pairet, espécie de teatro circo que a par de fantoches dava «sessões de gramophone e scenas de alta magia», apresentava-se «ao estimadíssimo público desta vila» proporcionando aos genuínos saloios que visitavam a feira espectáculos de “cinematógrapho”. Teve sucesso o Theatro Pairet já que decidiu prolongar a temporada voltando a assentar arraiais logo no Abril seguinte, na Porta da Várzea, com uma designada «Barraca Animatógrapho». Estes cinemas de casa às costas estariam para a sua época como para a minha o da Praça da Batata..[4] Lugares de maravilha, espaços de sonho e emoções, mundos abertos ao prazer da aventura.» in: Contos e Crónicas - «O cinematographo», de António Sales

Na revista "Illustração Portugueza" de 20 de Maio de 1888

«A maior parte das feiras portuguesas, além do valor económico, relativamente pouco diminuído, que ainda oferecem, são principalmente apreciadas na sua feição pitoresca, ou pelo espectáculo oferecido em que subsistem as velhas tradições da nossa terra.
Observada na sua intimidade, ou apenas no aspecto exterior, a feira reproduz quási sempre a sua feição primitiva.
Os lisboetas de há trinta anos não devem ter esquecido os encantos da Feira de Alcântara, (…). É verdade que nos era permitido assistir aos fantoches por meio tostão a entrada (…). Ficou célebre nos anais desta feira a figura inconfundível do Ravachol, locutor – como agora se diz – a quem estava confiado o rèclamo e prólogo das peças que dentro, na antiga barraca de lona pintada, a seguir se iriam representar. Episódios ingénuos com actores de madeira, articulados e movidos do interior por numerosos cordelinhos.
No alto da barraca, em letras gordas e com os ss pintados ao contrário, lia-se esta indicação pomposa e sibilina: Colossal Teatro Andronic.» (***)


"Theatro Andronic", com cómica publicidade em 15 de Maio de 1905

A propósito o jornal "Diario Illustrado", de 21 de Junho de 1901, noticiava: 

«Theatro Andronic - Apesar de feito na feira de Alcantara, este theatro tem obtido uma concorrencia enorme, graças á perfeição dos fantoches articulados, systema Thomas Holden e aos bons espectaculos que apresenta.»

Outro autor, Mário Costa, no seu livro "Feiras e divertimentos populares de Lisboa", de 1950, refere ainda:

«Não esqueceram também o «Theatro de Marionettes» (bonecos articulados e falantes), cujas pantominas o actor Estêvão Amarante, entre bastidores ajudou a animar; e as barracas de fantoches ou robertos, entre os quais estavam o «Guignol Teatro» e o «Teatro Nova Aurora» (era precisamente com esta grafia que, em 1905, estava escrito o letreiro do último) que, como isca, davam aos passeantes o bónus de presenciarem gratuitamente, no exterior, uma parte da peça de maior movimento e espectaculosidade, que, se não era o «Noivado do Sepulcro», a coroa de glória destes palcos, era qualquer outra peça que acabava invariavelmente com grande pancadaria.»

Teatro de fantoches "Theatro Nova Aurora", na Feira de Alcântara em Maio de 1905

Bibliografia:

(*) - "O Saloio de Alcobaça. O reescrever da memória perdida no teatro tradicional de marionetas português" de José Manuel Valbom Gil -Trabalho de Projeto do Mestrado em Teatro - Universidade de Évora - 2013
(**) - "Diccionario do Theatro Portuguez" de António Sousa Bastos (1844-1911),  de 1908
(***) - "Arte Popular, Usos e Costumes Portugueses" de Armando Lucena (1886-1975), de 1944
- "Marionetas de Lisboa: Um Contributo para a Renovação do Teatro de Marionetas e Acção na Comunidade", de  Ildeberto Calmeiro da Silva Gama - Escola Superior de Teatro e Cinema - IPL - 2011
- Union Internationale de la Marionette

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca Nacional Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gettyimages, MeisterDrucke, Dreamstime