Restos de Colecção

7 de dezembro de 2022

Livraria Avelar Machado

A "Livraria Avellar Machado", foi fundada por Augusto Aníbal de Avellar Machado, em 1876 , na Rua do Poço dos Negros, 19-21, em Lisboa. Foi a livraria e alfarrabista mais antiga do país, ao encerrar em 2016 comemorando os 140 anos de existência.


Fachada em Junho de 1942

Letreiro  anunciando: "Musica e Livros em todos os generos Compra e Vende" (à esquerda na foto)


"Alamanch do Professor Primario" para 1903, e editado em 1902


10 de Janeiro de 1907

Augusto Sá da Costa, fundador da "Livraria Sá da Costa", veio para Lisboa em 1897, com 14 anos de idade e tendo interrompido os estudos por motivos de saúde, foi trabalhar para a "Livraria Avellar Machado". Começou por empregado e chegou a gerente e administrador da mesma, até à sua saída para se estabelecer por conta própria. Em 10 de Junho de 1913, abriria a sua "Livraria Sá da Costa", no Largo do Poço Novo, 24 em Lisboa. A ligação entre as duas livrarias havia de se manter por muitos anos.  Acerca desta livraria histórica de Lisboa, e já desparecida, pode  consultar neste blog, no seguinte link: "Livraria Sá da Costa".

"Livraria Sá da Costa" no Largo do Poço Novo

"Livraria Avelar Machado", durante os 100 anos de existência, vendeu todo o tipo de livros novos e usados, livros escolares, - muitos deles edições próprias - partituras de músicas para todos os instrumentos, etc. Chegou a comercializar artigos de papelaria, pastas, malas e material escolar. Para comodidade dos seus clientes enviava encomendas à cobrança para todo o país, serviço para o qual eram editados catálogos de livros escolares.

Interior da "Livraria Avellar Machado" em Junho de 1942


Partitura dos anos 80 do século XIX


4 de Março de 1933


1940

«Pertence ao número das boas livrarias a Livraria Avelar Machado, devido ao seu vasto e valioso sortido e á correcção como efectua as suas transacções. Conta uma grande seleccionada clientela que muito aprecia as suas obras, em que figuram os mais reputados autores, tanto em livros de estudo, novos e usados, para todos os estabelecimentos de ensino como em livros novos e usados também, sobre tôdos os assuntos. Apresenta ainda esta casa o maior sortimento em músicas para tôda a espécie de instrumentos.» in: "Século Ilustrado" de 5 de Junho de 1942.




1946

1953

Em 2012, a "Livraria Avelar Machado" criou, em parceria com a agência de publicidade "DraftFCB"  uma campanha que trazia Mark Twain, Agatha Christie e James Joyce «e outros clássicos quase tão bons quanto novos». As gravuras apresentavam os célebres autores com pequenos remendos e «acidentes». Em resultado desta campanha esta agência, ao concorrer ao concurso internacional "Canes Lions", em Imprensa, conquistou dois Leões de Bronze.



Não consegui saber se a "Livraria Avelar Machado", após a morte do seu fundador Augusto Aníbal de Avellar Machado, continuou a pertencer à família. Apenas consigo afirmar que, aquando do seu encerramento definitivo em 4 de Abril de 2016, ano em que comemorou os 140 anos, pertencia à firma "Orlando, Figueiredo & André, Lda." havia 35 anos. Os seus proprietários tinham criado, em 2000, a primeira livraria alfarrabista online, em Portugal.





fotos in: Pra LerHemeroteca Digital de LisboaBiblioteca Nacional DigitalArquivo Municipal de LisboaArquivo Municipal de Lisboa 

4 de dezembro de 2022

Hotel do Toural em Guimarães

O "Grande Hotel do Toural" foi inaugurado em 3 de Outubro de 1886, como "Grande Hotel de Guimarães", no, ainda, Campo do Toural (futuro Largo do Toural), sendo seu proprietário Joaquim José Pereira. Com a sua fachada pombalina, o edifício desenvolvia-se para o quarteirão das traseiras, por cima de uma viela estreita, rematando num pátio de serviço.


1902

A propósito da sua inauguração o jorna "O Commercio de Guimarães" de 4 de Outubro de 1886 noticiava:

«Abriu-se hontem o Grande Hotel de Guimarães, installado no predio 15 a 18 no campo do Toural.
Surprehendem o aceio e limpeza que se notam em todos os compartimentos d'este novo estabelecimento.
Os quartos são amplos, bem arejados e mobilados, e em excellentes condições hygienicas, principalmente os de 1ª classe.
A sala de jantar é esplendida, podendo comportar cerca de 90 pessoas. A meza, elegantemente disposta, é aproximadamente rectangular, e de serviço central e peripherico.
Em quasi todas as salas e quartos ha campainhas electricas.
O proprietario do Grande Hotel de Guimarães o snr. Joaquim José Pereira não se tem poupado a despezas, offerecendo hoje um bello estabelecimento ao publico.»

Em 1902 já tinha mudado de nome para "Grande Hotel do Toural" e de proprietário. O novo proprietário era Domingos José Pires que também era dono do "Hotel Avenida" na estância termal de Vidago. O Largo do Toural também viria a mudar de nome para Praça D. Afonso Henriques.




1907


1913

Este hotel encerrou e reabriu por várias vezes assim como mudou de proprietários, sem que muito do que importante se passou com a monarquia e a república, tenha passado por lá. Manteve a designação de "Grande Hotel do Toural" até ser encerrado em 1926, e reabrir com o novo dono, Paulino Ferreira Leite. Em 1934, este já era proprietário do "Hotel da Penha" (Guimarães) e do "Café Toural" que, entretanto instalara nas lojas e galeria do edifício do hotel.

1934

Em 1939, no guia de "Hotéis e Pensões de Portugal", já aparecia Rodrigo Silva como novo proprietário e designado como "Pensão do Toural". Isto porque a "Comissão Nacional de Turismo", não o reconhecia com a categoria de Hotel, não deixando de referir que tinha «excelente vinho» (antes isso!...). Oferecia 37 quartos e diárias desde 20$00 a 40$00.




Interior do "Hotel do Toural" depois de «ampliado e completamente remodelado»


"Café Toural"


1 de Julho de 1945

Entretanto o "Hotel da Penha", que como mencionei atrás que tinha sido do mesmo dono do "Hotel do Toural", passa para a posse de D. Antónia Teixeira Mendes Duarte, que era igualmente dona da "Pensão Império", também em Guimarães.

"Hotel da Penha"

O mesmo guia de "Hotéis e Pensões de Portugal" de 1939 referia este hotel, com 25 quartos e diárias entre 30$00 e 60$00, da seguinte forma:

«O único Hotel classificado em Guimarães, pelo C.N. de Turismo, montado com confôrto, reunindo todas as comodidades de higiene. Amplo terraço com longes admiráveis para servir refeições, sala de jantar, de visita e recreio. Serviço de 1ª ordem. Ares muito puros. Aberto todo o ano
Estância de repouso. Não se aceitam pessoas com doenças pulmonares.
Recomenda-se em Viana do Castelo a Pensão Aliança.»


25 de Julho de 1937


1 de Julho de 1945

1950

De referir que foi no 2º andar do edifício do ainda "Grande Hotel de Guimarães", que em 19 de Julho de 1889 nasceu o célebre médico, professor e investigador, Abel de Lima Salazar. Viria a falecer no Porto, onde vivia, a 29 de Dezembro de 1946.

Entrada para o Hotel do Toural", com referência ao Doutor Abel Salazar, em Agosto de 1967


"Hotel do Toural" nos anos 50 do século XX


1950


Etiqueta de bagagem


"Hotel do Toural" nos anos 50 do século XX

Hotel, Restaurante, Bilhares e Café, em 1965

Aquando das últimas obras de que foi objecto, creio que em 2013, por parte dos actuais proprietários do renovadíssimo "Hotel Toural" Residencial, de 4 estrelas, foi retirada a entrada pelo Largo do Toural, tendo a mesma sido transferida para o Largo António Leite de Carvalho.

Imagens do actual "Hotel Toural" Residencial de 4 estrelas




fotos in: Memória de AraducaJosé Castelar (Facebook)Fototeca de GuimarãesHemeroteca Digital de Lisboa, Sociedade Martins Sarmento (Hemeroteca Vimaranense), Casa Comum, Hotel Toural

27 de novembro de 2022

Casa Gouveia Machado

A "Casa Gouveia Machado", foi fundada em 1914, pelo afinador de pianos Guilherme Gouveia Machado, na Rua de S. José 152, em Lisboa. No início além da reparação e afinações de pianos, comercializava, músicas, pianos, pianolas, orgãos, harmónios, instrumentos de corda e acessórios.

Antiga "Casa Gouveia Machado", na Rua de S. José, já como "VS - Instrumentos Musicais"


15 de Julho de 1924


Catálogo de 1930



1931


27 de Junho de 1935

Gouveia Machado abriria em 1954, uma discoteca da "Casa Gouveia Machado", na Avenida de Roma, em Lisboa. Em 1968, trespassaria à firma de ferragens de Campo de Ourique "R. Santos Moreira, Lda.", que a manteve no mesmo ramo da música, mudando o nome para "Sinfonia". Ainda hoje funciona como discoteca, papelaria e livraria.

"Sinfonia" actualmente


1958

No início dos anos 60 do século XX, já seu filho, António Gouveia Machado geria, juntamente com seu pai, a "Casa Gouveia Machado", tendo iniciado a importação exclusiva das guitarras eléctricas "Eko", numa altura em que Portugal assistia ao boom da música rock. Era a alternativa mais popular às grandes guitarras americanas, que apareciam por cá em pequenas quantidades, já que o mercado nacional era reduzido, pois que tinham uma variedade enorme de modelos e de preços.


Stand na "FIL" aquando da visita do Chefe de Estado Almirante Américo Thomaz, em 1963

15 de Outubro de 1968 na revista "Plateia"

Quanto a António Bacelar Gouveia e a sua "Casa Gouveia Machado", nada melhor que transcrever uma síntese de dois apontamentos de Daniel Bacelar, em 9 de Dezembro de 2008, aquando do falecimento de Gouveia Machado em 3 de Dezembro do mesmo ano, em Miami, no belíssimo blog "IÉ-IÉ" de Luís Pinheiro de Almeida:

Nota: Daniel Bacelar foi apelidado de primeiro rocker português «e a expressão tem razão de ser. Quando em 1960 um EP de quatro canções chamado "Caloiros da Canção" anunciava a nova era, dois nomes novos dividiam as canções: duas eram pelos Conchas; as outras duas dele, e por ele, Daniel Bacelar» in: IÉ-IÉ. Faleceu em 29 de Setembro de 2017.

«Há já muito tempo que não experimentava uma decepção tão grande como a que senti há pouco quando tomei conhecimento da morte do Sr, Gouveia Machado (como nós "putos" de 19-20 anos o tratávamos com um enorme respeito).
Este Homem, foi mais que pai para toda aquela rapaziada roqueira, cheia ilusões e aspirações, facilitando sempre tudo vendendo o seu material a prestações a perder de vista, acompanhando tudo com aquele seu sorriso (como se pode ver na fotografia em que me encontro ao seu lado e rodeados pelos Shadows quando da sua única actuação com Cliff Richard no saudoso Império)


Gouveia Machado, Daniel Bacelar e os "Shadows"

Gouveia Machado era o representante da Fender para Portugal, por isso recebeu a visita na sua loja na Rua de S. José destes famosos músicos e grandes idolos da juventude daquela época.
Não me envergonho em dizer que neste momento é com dificuldade que retenho as lágrimas, pois este Homem, era um verdadeiro amigo do seu amigo, nunca o interesse comercial ficou acima de tantos e tantos músicos que se equiparam somente porque a sua amizade pelas pessoas não conhecia limites.


Facilitava as aquisições, deixava experimentar, fraccionava os pagamentos. Para muitos, foi a única oportunidade de terem algum dia nas mãos uma viola eléctrica Fender (nesse tempo ainda não se dizia guitarra, pois tinha-se uma noção mais enraizada de ser português) ou de percutir uma bateria Premier, ou soprar num saxofone Selmer.
Foi, nessa acepção, um incentivador, e a casa que dirigiu uma verdadeira escola. Tratava com a mesma deferência um violinista da Gulbenkian ou um «rocker» da Avenida de Roma. Do pai herdou o ouvido e vi-o afinar, rigorosamente, uma viola sem diapasão, corda a corda, sem voltar atrás uma vez que fosse.
O Quinteto Académico, como tantos outros grupos, deve-lhe muito. Sabia da nossa pretensão de termos sempre as últimas novidades.
O Sr. Gouveia Machado (assim o tratámos sempre, com a veneração inerente aos nossos 19 ou 20 anos) aceitava o material anterior (nunca muito usado) e facilitava os pagamentos do novo, lisonjeando-nos o ego dizendo: "Levem, que convosco não tenho problemas: em dois bailes pagam-me isto."
Todos nós lhe devemos TUDO e foi com enorme tristeza que pouco tempo depois do 25 de Abril soube da sua partida para o Brasil com a irmã Mité para não mais voltar vê-lo que soube agora. (...)»


Setembro de 1968


Na revista "Plateia", em 1973

A "Casa Gouveia Machado", encerraria definitivamente em 1976. Reabriria pelas mãos dum antigo funcionário Victor Silva, com a designação de "VS Instrumentos Musicais". Como já foi referido, António Gouveia Machado foi viver para o Brasil e mais tarde para Maimi, onde faleceria em 9 de Dezembro de 2008.

A casa "VS Instrumentos Musicais", também já não existe desde 2020.

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, IÉ-IÉ, Ilustração Portuguesa