Restos de Colecção

19 de julho de 2026

Arthur Gottschalk, engenheiro

O engenheiro eléctrotécnico alemão Arthur Gottschalk, iniciou a sua actividade comercial em 1902 com um escxritório de representações na Rua de Santa Justa, 98 2º andar, esquina com a Rua do Ouro, em Lisboa. Começou com a representação da empresa alemã de engenharia eléctrica "Siemens & Halske", fundada em 12 de Outubro de 1847 em Berlim.

No 2º andar do prédio à direita funcionou a "Arthur Gottschalk, engenheiro". Esquina da Rua da Rua Aurea com a Rua de Santa Justa em foto de 18 de Agosto de 1922 


1902

A casa "Arthur Gottschalk, Engenheiro" alem de comercializar, pára-raios, ventoinhas eléctricas, lâmpadas de incandescência, telefones, aparelhos para Raio X , pilhas secas, aparelhos para telegrafia, etc., era especializada em «Luz e transmissão de força em cidades, fabricas, theatros, caminhos de ferro, etc., etc.»


10 de Dezembro de 1903

1903

Em finais de Dezembro de 1904, muda-se da Rua de Santa Justa para o "Palácio Foz". Instalou-se na recém-criada loja de esquina com a Calçada da Glória, onde tinha funcionado a capela do Palácio, junto ao terminús do "Ascensor da Glória". Aí criou um salão de exposição e armazém, tendo sido uma das primeiras lojas criadas no piso térreo do Palácio. Noutras lojas viriam a funcionar: pastelaria, alfaiataria, relojoaria, casa de fotografia, restaurante, etc. 


Ainda com o aviso de mudança de instalações

O jornal "O Século" de 1 de Janeiro de 1905 noticiava:

«Mudou os seus depositos e escriptorio para uma magnifica e sumptuosa installação no Palacio Foz, Praça dos Restauradores, o nosso amigo Arthur Gottschalk, ilustre engenheiro electricista representante da importante firma de Berlim, Siemens & Halske. Na antiga capella daquelle palacio ficara a exposição de machinas e material electrico, tendo ao fundo uma divisoria de construção sobria e elegante.
E' mais uma importante casa que se instala na Avenida e que muito concorrerá para a alegria e movimento d'aquelle bello pedaço de Lisboa.»

Primeiras duas janelas térreas à direita, que seriam substituídas por portas e dariam origem à loja "Arthur Gottschalk, engenheiro"


Interior da loja no Palácio Foz


1905

Entretanto a "Arthur Gottschalk, Engenheiro" abre uma filial no Porto na, ainda, Rua de Santo António, 204 -1º andar.


No "Annuario do Commercio do Porto" de 1908


Localização da "Arthur Gottschalk, Engenheiro" , na Rua 31 de Janeiro (ex- Rua Santo António), 204 - 1º  no Porto. Indicado pela seta

De referir outra casa alemã similar e sua concorrente, a "M. Herrmann" fundada em 1865, na Calçada do Lavra, 8-10 em Lisboa. Aqui duas curiosas coincidências: ambas pertencerem a um alemão e a outra ambas terem as suas instalações junto ao terminús de um ascesor, neste caso o "Ascensor do Lavra"


1907


A "M. Herrmann, Lda." no prédio de esquina, à esquerda na foto e junto ao "Ascensor do Lavra"

Com o aparecimento dos animatografos em Portugal, Arthur Gottschalk passa a dedicar-se, também, à indústria cinematográfica e em 1908 cria a "Empreza Portugueza Animatographica, Limitada", juntamente com Raul Lopes Freire e seu irmao Augusto Freire, Carlos Ribeiro Nogueira Ferrao, Alberto Coutinho Freire e Jaime Guerra da Veiga Pinto. A loja de Arthur Gottschalk é transformada em salão animatografico, e em 18 de Abril de 1908 é inaugurado o "Salão Central".

Já em 17 de Novembro de 1907, Arthur Gottschalk era responsável pelas instalações eléctricas do itinerante "Salão High-Life", como se observa no próximo anúncio (excerto), neste caso aquando de uma digressão pelo Algarve.

Em Tavira a 19 de Novembro de 1907

"Salão Central" à direita na foto na esquina com a Calçada da Glória

Por consequência, a "Arthur Gottschalk, Engenheiro", muda-se para a Rua de S. Paulo, 103 - 1º andar, também em Lisboa, tendo reduzido drásticamente a sua actividade. Em 17 de Dezembroro de 1910 é aprovado o pedido do registo da marca "Arthur Gottschalk", na "Repartição de Propriedade Industrial".

17 de Dezembro de 1910


15 de Dezembro de 1910

Este novo escritório da "Arthur Gottschalk, engenheiro" na Rua de S. Paulo, 103 - 1º andar, ficava no andar de cima da mui conhecida "Farmácia Ultramarina" (1856), que funcionava nas portas 99 e 101.


3 de Janeiro de 1910


Antiga "Farmácia Ultramarina" na Rua de S. Paulo, 103

Em Janeiro de 1912, já a firma "Carlos Fuchs, Limitada", aparecia como sucessor de Arthur Gottschalk, na Rua de S.Paulo, como atesta o próximo anúncio, no jornal "A Capital" ...


27 de Janeiro de 1912

Relativamente a esta firma, em 6 de Fevereiro de 1912 é publicado no "Diario do Govêrno" o seguinte édito:
«Faz-se público que José Henriques Totta & C.a, Fonsecas, Santos & Viana, Banco Economia Portuguesa, J. M. Espirito Santo e Silva, Filipe Antonio Felix e Carlos Fuchs, tendo adquirido a casa comercial que Artur Gottschalk tinha nesta cidade, constituiram, por escritura de 25 de Janeiro do corrente ano de 1912, outorgada perante o notário abaixo assinado, uma sociedade por cotas, de responsabilidade limitada, para continuação dos negocios da mesma casa, nos termos dos artigos soguintes :
1.° Esta sociodade adopta a firma Carlos Fuchs, Limitada, fica com a sua sede nesta cidade e o seu estabelecimento é na Rua do S. Paulo n.° 103, 1.° andar, e com armazêns na Praça de D. Luís.
2.° O seu objecto é a continuação do comércio e indústria de máquinas e instalações eléctricas, que nesta cídade tem sido feito por Artur Gottschalk.
3.° A sua duração é por tempo indeterminado, contando-se para todos os efeitos o seu comêço desde 1 de Janeiro corrente.
4. O capital social é de 26:550$000 réis, sendo: De Jose Henriques Totta & C.a, 9:900$000 réis; De Fonsecas, Santos & Viana, 2:275$000 réis; Do Banco Economia Portuguesa, 1:400$000 réis ; De J. M. Espirito Santo e Silva, 300$000 réis; De Filipe Antonio Félix, 10:750$000 réis; e de Carios Fuchs, 1:925$000 réis.
Estas quantias correspondem as cotas sociais dos outorgantes, que por elas eram credores de Artur Gottschalk e são representadas por valores equivalentes do activo da casa do seu devedor, activo que os mesmos outorgantes adquiriram, o que para a presente sociedade transferem com todo o respectivo passivo e os mais direitos e obrigações dessa aquisição, em harmonia com a escritura pública desta data. Está, pois, o capital social  integralmente realizado.
5.° A administração da sociedade fica exclusivamente a cargo do socio Carlos Fuchs, o qual é nomeado gerente, sem prejuizo da revogabilidade do mandato. (...)  2 de Fevereiro de 1912»

Em 28 de Outubro de 1920, "Carlos Fuchs, engenheiro" ainda aparecia anunciada no jornal "O Commercio do Porto"...


28 de Outubro de 1920

Mas, pouco tempo depois entraria em processo de falência e o respectivo processo de arrolamento dos bens da firma "Carlos Fuchs, Limitada", terminaria em 9 de Março de 1926.

Voltando a Arthur Gottschalk ... de seguida, e com o rápido desenvolvimento da cinamatografia, no mesmo ano de 1912, é fundada a  "Companhia Cinematographica de Portugal" em 17 de Dezembro de 1912, tendo a sua sede na Avenida da Liberdade, 18 em Lisboa. Foram seus principais fundadores, Raul Lopes Freire (dono do "Salão Central"), o alemão e engenheiro Arthur Gottschalk, o austríaco Carlos Stella, Leopoldo O'Donell (dono do "Olympia"), Salomão Levy, etc.

21 de Dezembro de 1912

O facto de Arthur Gottschalk se ter interessado pelo cinema era justificado. Naquela época, projetores, geração de energia para os animatógrafos e iluminação eram tecnicamente desafiadores, um engenheiro eletrotécnico, e ainda para mais já com boas representações, seria muito útil para a exploraçao da industria cinematográfica.

Mas Arthur Gottschalk, não ficou por aqui, no campo cinematográfico e também participou na "Empresa Teatral de Variedades, Limitada", criada em 25 de Abril de 1916, que era arrendatária do "Teatro da Rua dos Condes", para exibição de espectáculos cinematográficos. A sociedade era composta por Arthur Gottschalk, D. Orovida Sequerra, de nacionalidade inglesa, e Luís Maria da Gama Ochôa. Com o decorrer da "I Grande Guerra Mundial" (1914-1918), esta empresa seria arrolada, num processo demorado e que se arrastaria até à sua liquidação em 31 de Dezembro de 1924. Neste processo de arrolamento os bens de Arthur Gottschalk ficaram sob sob a gestão do depositário-administrador Raúl Aureliano Gonçalves que teve inúmeras divergências com os restantes sócios, até à liquidação da empresa. 

Devido à entrada de Portugal na "I Grande Guerra Mundial" (1914-1918), viriam a ser expulsos de Portugal dois nomes então influentes nos sectores da exibição e distribuição cinematográfica, o alemão Arthur Gottschalk e o austríaco Carlos Stella. Este último, fora uma figura particularmente importante nos primeiros tempos da actividade de distribuição cinematográfica em Portugal e ambos, como já foi referido, ocupavam lugar de destaque entre os sócios fundadores da "Companhia Cinematographica de Portugal". Acerca desta Companhia consultar neste blog a sua história no seguinte link: Companhia Cinematographica de Portugal.

Lista negra publicada no jornal "O Seculo" de 18 de Setembro de 1917 

12 de julho de 2026

Hotel Roma

O "Hotel Roma" foi inaugurado em 29 de Abril de 1971, na Avenida de Roma, 33, em Lisboa. Era propriedade da firma "Sociedade Concessionária do Hotel Roma, Lda.", que tinha sido constituída em 27 de Novembro de 1970, entre os sócios Alfredo Fernandes das Neves e João Carlos Cirilo Machado. O projecto ficou a cargo do arquitecto Luís António de Gonzaga Bronze e a obra a cargo da firma "Gonçalves & Filhos, Lda.", que teve como engenheiro responsável Pedro Maggiorani Appleton.


"Hotel Roma" com o último bloco (ampliação) em construção na Rua Infante D. Pedro, por volta de 1976


Terreno onde viria a ser construído o "Hotel Roma" (terreno vazio no centro da foto)


O mesmo terreno à esquerda na foto, para sua visualização no enquadramento da Avenida de Roma

"Hotel Roma" em construção em 1970

Com os seus 10 andares, e classificado com 3 estrelas, o "Hotel Roma" oferecia 263 quartos, restaurante, cervejaria, churrasqueira, self-service, bar, sala para conferências e um cine-auditório, que chegou a funcionar como cinema a partir de 11 de Dezembro de 1976, com «sessões de cinema todos os dias». Este hotel passou a rivalizar com o seu vizinho "Hotel Lutécia", na Rua Frei Miguel Contreiras, e que tinha sido inaugurado em 8 de Dezembro de 1969.


31 de Dezembro de 1972


11 de Março de 1975


"Cine-Auditório" no excerto de lista de cinemas "de segunda linha", de 11 de Dezembro de 1976

1977

Quanto ao "Cine-Auditório" deu início às suas sessões de cinema em 11 de Dezembro de 1976, com o filme "A Grande Corrida à Volta do Mundo", de 1965. Mas foi «Sol de pouca dura». A última sessão foi em 25 de Março de 1978, com a exibição do filme "Godspell" de 1973.

Em 18 de Julho de 1972, a "Sociedade Concessionária do Hotel Roma, Lda." passa a sociedade anónima de responsabilidade, denominada de "Sociedade Concessionária do Hotel Roma, S.A.R.L.". Foram seus accionistas iniciais Alfredo Fernandes das Neves, Luís Fernandes das Neves (que já eram sócios), Eduardo Matos Castro, Mário dos Santos Alves, António Lopes Canha, José Joaquim Pequito, Enrique Fernandez Hierro, José Dias Veiguinha, Zulmira Sá das Neves e Gabriela Alves Neves.

O "Hotel Roma" viria ser adquirido, em 1982 por António Marto, hoteleiro de Fátima, que ali tinha mandado construir o "Hotel Fátima". Neste mesmo ano de 1982 tinha adquirido, também em Fátima, um edifício onde instalaria o "Hotel São José". No ano 2000 constrói o "Hotel Marquês de Pombal", em Lisboa de 4 estrelas e com 120 quartos. António Marto foi um dos fundadores da "Associação dos Directores dos Hotéis de Portugal", tendo passado a residir no "Hotel Roma".






1983

O "Hotel Roma" foi alvo da sua última renovação em 1998, passando a oferecer o mesmo número de quartos de 263 mas assim distribuídos: 36 Executivos, 44 Família e 183 Standard, todos com casa de banho completa e ar condicionado. Como serviços adicionais: tabacaria, loja de artigos regionais, cabeleireiro, 2 restaurantes, bar, 3 salas de reuniões, Auditório, Health Club e Garagem.









O Conselho de administração da "Sociedade Concessionária do Hotel Roma, S.A.", nomeado em 18 de Abril de 2006, era composto pelos seguintes elementos: António das Neves Marto (Presidente), e como vogais Fernando António dos Santos Marto e Fernanda Coelho dos Santos Marto.

Actualmente o presidente do conselho de administração da "Sociedade Concessionária do Hotel Roma, S.A." é o Dr. José Miguel Seabra Marto. O grupo conta actualmente com os seguintes hotéis: "Hotel Roma", "Hotel Marquês de Pombal", ambos em Lisboa e "Hotel São José" e "Hotel Santa Maria" estes dois em Fátima.


2026

Em 29 de Abril deste ano de 2026, o "Hotel Roma" comemorou os seus 55 anos de existência ...



José Seabra Marto à esquerda na foto e restante direcção



Para terminar, um pequeno aparte. Em 1980 a RTP começou a emitir emissões a cores regularmente, e muitas vezes ao final da tarde, saía da loja do meu pai, que era na Avenida de Roma, e ia até ao bar do "Hotel Roma" (que tinha uma televisão a cores a funcionar) consumir um sumo de laranja, para deleitar-me com a «novidade» da tv a cores. Isto até se comprar uma tv a cores lá para casa no ano seguinte. Nunca mais tinha lá entrado até 2025, ano em que recomendei este hotel a uns familiares que vieram do Brasil, e lá regressei ao bar deste hotel, 45 anos depois. Desta vez não bebi sumo de laranja ... mas o bar igualmente confortável, continuando a ter tv a cores :) ... num hotel muito bem cuidado.

8 de julho de 2026

"Novo Salão High-Life"

O "Novo Salão High-Life" foi inaugurado em 29 de Fevereiro de 1908, na Praça da Batalha, na cidade do Porto. Propriedade da "Empreza Neves & Pascaud", teve origem no "Salão High-Life", um barracão de madeira e zinco e com o chão de terra batida, montado na "Feira Recreativa", em 29 de Setembro de 1906, (em substituição da Feira de S. Miguel) que se realizava na Praça Mouzinho d'Albuquerque (Boavista), lugar onde hoje existe a Rotunda da Boavista. Dava-se assim, início à exibição cinematográfica regular na cidade do Porto. Em 1907, o "Salão High-Life", que com o final da Feira de S. Miguel, já se tinha mudado para o Jardim da Cordoaria. Eram sócios desta firma o mestre-de-obras Manoel da Silva Neves e Auguste Edmond Pascaud, um cidadão francês que chegou ao Porto com um projetor e algumas fitas da Casa "Pathé Frères".

Edifício do "Novo Salão High-Life" já como cinema "Batalha"


A lateral do edifício do "Novo Salão High-Life", ao lado do edifício do "Correio Geral"



30 de Setembro de 1906


30 de Setembro de 1906



4 de Maio de 1907


Jardim da Cordoaria

Entretanto desde o final do século XIX a firma "A Constructora S.A.R.L." sucessora da "Campos & Moraes", tinha os seus escritórios, depósito e ponto de venda de materias para construção e afins, num belo edifício na Praça da Batalha, que viria a ser demolido em 1907. 


"A Constructora S.A.R.L." sucessora da "Campos & Moraes" 



Este terreno viria a ser adquirido por Manoel da Silva Neves, que tinha amealhado uns bons dinheiros com o seu barracão, com a intenção de ali erguer um novo edifício destinado a animatógrafo. Lembro um excerto do artigo intitulado "A Primeira Élite do Cinema" publicado no "Diario de Lisbôa" em 31 de Dezembro de 1963:  
«(...) Até aqui, tudo gente humilde, que viera das barracas de feira. Saltimbancos, palhaços, prestidigitadores, formaram a primeira «élite» do cinema. Os grandes potentados, os Fox, os Zukor, os irmãos Warner haviam sido igualmente barraqueiros que enriqueceram com os «Nickel Odeons», salas de cinema no género do velho «Salão High-Life», da feira de S. Miguel, do Porto.»

Quanto à "A Constructora" ....


30 de Setembro de 1906

Em 12 de Outubro de 1907 o jornal "A Voz Publica" noticiava a vestoria camarária ao terreno:

«Nova casa de espectaculos; vistoria. Os engenheiros snrs. Henrique Bravo, Macedo de Freitas e Abílio Soares, acompanhados do snr. Vieira de Almeida, ajudante da inspecção geral dos incendios, procedeu hontem a uma vistoria nos terrenos onde esteve o deposito da fabrica A Constructora, na praça da Batalha, a fim de ser alli construida ima nova casa destinada a diversões cynematographicas.
A vistoria foi feita a requerimento do snr. Manoel Neves, estando os peritos munidos da respectiva planta. Os referidos cavalheiros acharam o terreno em condições para se fazer a ediflcação, sendo de opinião que fossem modificados os portoes de ferro que alli se veem presentemente.»

O pedido de licença de construção do "Novo Salão High-Life" daria entrada na Câmara Municipal do Porto em 17 de Outubro de 1907, juntamente com o projecto de construção.



O "Novo Salão High-Life" seria inaugurado em 29 de Fevereiro de 1908. O jornal "O Commercio do Porto", em 26 de Fevereiro anunciava a sua inauguração:

«Novo salão. - Verifica-se no sabado a inauguração do novo Pavilhão Kinematographico, a que já tivemos occasião de nos referir, mandado construir pela empreza Neves & Pascaud, n'um dos locaes mais centraes da cidade, a praça da Batalha, em terreno onde esteve o chalet da Constructora.
A nova casa de espectaculos, muito elegante o luxuosa e offerecendo ao publico todas as condições de segurança, conforto e asseio, sera explorada pelo maravilhoso «Kinamatographo Theo Pathé», de Berlim e Pariz, do emprezario Mr. E. A. Pascaud, que mandou vir expressamente de Pariz, da casa Pathé Frères, uma enorme colleccao de quadros animados, ultimas novidades, destinados a produzirem a maior sensação.
Este apparelho kinematographico é, sem duvida, uma machina das mais perfeita o completa que existe em Portugal, reproduzindo sempre com raro brilho, nitidez e fixagem a photographia com vida.
Os espectaculos apresentados pelo arrojado emprezario Pascaud, são reconhecidos por todo o publico como os mais extraordinarios que se teem visto e que ha cerca de dous annos véem obtendo um successo collossal no nosso paiz.»


Programa para o dia da inauguração


Lista de Cinematographos do Porto, em 29 de Fevereiro de 1908

O mesmo jornal no dia seguinte à inauguração, 1 de Março de 1908 noticiava:

«Novo Salão High Life .- Foi auspiciosissima a inauguração do Novo Salão High-Life, a praça da Batalha, destinado, como é sabido, á exbibição de fitas cinematographicas, espectaculo agora muito favorito, o que cahiu por completo no agrado publico.
O vasto salão encheu-se por completo nas tres sessoes. As pelliculas apresentadas, na sua maioria novas, contentaram os espectadores.»

Entretanto a "Empreza Neves & Pascaud" manteria a funcionar na Cordoaria o antigo "Salão High-Life" até 1910, em simultâneo com o "Novo Salão High-Life" na Batalha, resultado de uma estratégia de explorar este grande negócio em dois bairros, quer no Oriental quer no Ocidental da cidade.

3 de Março de 1908


1910

1911

Entretanto, em 15 de Agosto de 1908 no Rocio do Marquez de Pombal, em Estremoz, o "Grande Salão High-Life", propriedade de "Rodrigues & Piteira" e explorado pela "Empreza Portugueza Cinematographica de Lisboa".

Em 4 de Outubro de 1910, é solicitada à Câmara Municipal do Porto, a ampliação do edifício do "Novo Salão High-Life", no alçado lateral ...



Após a ampliação (à esquerda)

Durante alguns anos, o "Salão High-Life" funcionou de forma itinerante. Percorreu o Sul do país, estabelecendo-se por diversas vezes em Olhão, Faro, Tavira e Vila Real de Santo António, mas também em algumas localidades alentejanas como Beja e Montemor-O-Novo. No Algarve, o "Salão High-Life", da "Empreza Neves & Pascaud", e o empresário Alves França desempenharam um papel fundamental na afirmação do cinema enquanto espetáculo e forma de lazer. 

Em Outubro de 1907, o "Salão High-Life" apresentava-se em Vila Real de Santo António ...

                                   17 de Outubro de 1907                                                   24 de Outubro de 1907

Em Novembro do mesmo ano,  o "Salão High-Life" já se encontra em Tavira ...

No jornal "O Heraldo" de 17 de Novembro de 1907

Na última semana de Dezembro de 1907, chegou a Faro o "Salão High-Life", proveniente de Tavira, onde estivera cerca de um mês. Na edição de 2 Janeiro de 1908, o jornal "O Districto de Faro", informava os leitores do enorme sucesso do «prodigioso kinematographo Theo Pathé», que todas as noites realizava três sessões no "Salão High-Life", instalado na praça D. Francisco Gomes  ...

«Esta machina de projecção animada, sem duvida a melhor que temos visto, é a unica onde são exhibidas as mais admiraveis e modernas creações da acreditada e importante casa Pathe Freres, de Paris, para o que a empresa tem um contracto especial.
Resumindo: os espectaculos, que todas as noites offerece ao publico o incomparavel kinematographo Theo Pathé, estão obtendo, dia a dia, o mais completo, grandioso e justifcado exito. D'ahi as enchentes á cunha, com que o publico os não tem cessado de honrar. (...)
Tem, pois, o nosso publico onde passar algumas horas aprazivelmente n'estas monolonas noites de inverno, gozando, por pouco dlinheiro, espectaculos magnificos, interessantes e tambem instructivos.
Ao Salão High Life, pois!»

No jornal "O Districto de Faro" de 9 de Janeiro de 1908


No jornal "O Districto de Faro" de 23 de Janeiro de 1908

Em Faro, o sucesso registado pelo "Salão High-Life", deveu-se, sem dúvida, à variedade e qualidade da programação, onde se incluíam sessões especialmente dedicadas às «gentis e elegantes damas da cidade». Entre as fitas exibidas, destacavamse títulos como "Amor Escravo", filme protagonizado por atores e elementos do corpo de baile da Opera de Paris. Na programação do "Salão High-Life" surgiam ainda títulos como "Bêbado à Força" (identificado como quadro cómico), "Grande Corrida de Cavalos em Londres" e "A Pesca do Atum" (identificados como quadros naturais) e, nas palavras do articulista: «a lindíssima película Aventuras de Polichinello, totalmente colorida. Uma verdadeira maravilha, digna de por todos ser admirada»  in: "O Districto de Faro"

Voltando à cidade do Porto, Alberto Pimentel no seu livro "Fitas de Animatographo", de 1909, escrevia:
«Pois agora, além do theatro permanente da rua das Oliveiras, funccionam três animatógraphos nos arredores da Praça de Carlos Alberto: o «Salão Pathé», na rua de D. Carlos, o «Salão Chiado» na Galeria de Pariz e o «Salão High Life» na Cordoaria.»

Por esta altura a exibição cinematográfica começa a mudar-se das feiras para os salões, surgindo cada vez mais salas dedicadas ao cinema, como o "Salão Jardim Passos Manuel" (18 de Março de 1908), o "Olympia Kinema Theatro" (18 de Maio de 1912) e o "Salão Jardim Trindade" (14 de Junho de 1913). Assistiu-se também à projeção de cinema em alguns espaços teatrais tais como o "Teatro Carlos Alberto" (14 de Outubro de 1897), o Cine-Teatro "Águia D’Ouro" (17 de Junho de 1899) e o "Teatro Rivoli" (19 de Janeiro de 1932).


11 de Outubro de 1914


29 de Setembro de 1916


3 de Julho de 1924

O "Salão Jardim Trindade" que tinha sido inaugurado pela "Empreza Neves & Pascaud" em 14 de Junho de 1913, mantinha a mesma programação do "Novo Salão High-Life". Lembro que esta mesma empresa viria a adquirir o "Salão Jardim Passos Manuel". E Manuel Neves aquiriria o "Teatro Carlos Alberto".

1918

Entretanto, o «velhinho» "Salão High-Life", na Cordoaria, em 1919 ainda por lá funcionava ...

8 de Maio de 1919

Em 1928 o "Novo Salão High-Life" já tinha abandonado esta sua denominação e tinha adoptado a de "Cinema Batalha" ou simplesmente "Batalha". 

1928


5 de Março de 1932


10 de Dezembro de 1932


31 de Dezembro de 1932



Mais tarde, em 1944, este velho "Cinema Batalha" viria ser demolido e no seu lugar viria ser construído o novo "Cinema Batalha", projectado pelo arquitecto Artur Andrade e inaugurado em 3 de Junho de 1947.


Demolição do Cinema "Batalha", ex- "Novo Salão High-Life"


Novo Cinema "Batalha" inaugurado em 29 de Maio de 1947

Actualmente, a empresa "Neves & Pascaud, Lda." (primitiva "Empreza Neves & Pascaud") continua a ser, a proprietária do Cinema "Batalha".

Bibliografia:

 - Projeto de Mestrado em Design Gráfico e Projetos Editoriais:  "CINEMA BATALHA: MEMÓRIA, CONHECIMENTO E INOVAÇÃO - Proposta de um sistema de identidade dinâmico" - Diana Sofia Cunha Ferreira - Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (2018)

- OS PRIMEIROS ESPAÇOS DE EXIBIÇÃO CINEMATOGRÁFICA EM FARO (1898-1918) de Jorge Manuel Neves Carrega

Fotos in: Arquivo Municipal do Porto, Arquivo Municipal Sofia Mello Breyner