Restos de Colecção

9 de junho de 2024

Teatros de Fantoches - "Mechanico", "Pairet", "Andronic", ...

No século XVIII, o fantoche era muito popular. O seu principal representante foi o poeta e dramaturgo António José da Silva (1705-1739), chamado "O Judeu" (1705-1739), que foi garroteado e queimado na fogueira num auto-de-fé da Inquisição, em Lisboa, em 19 de outubro de 1739. As suas óperas moral e icozas  para marionetas podem ser consideradas como o embrião da ópera buffa , tanto pelo seu repertório, como pelas suas características musicais e literárias. Estão entre os conjuntos de textos para marionetas mais preciosos e originais da história do teatro europeu. Porém, absolutamente nada resta dos bonecos, nem desenhos nem descrições. Terão sido marionetes cujos corpos provavelmente foram esculpidos em madeira ou cortiça.


Bonecreiro ambulante com o seu teatro portátil

Já no século XIX, foi inaugurado em 1815, no Bairro Alto o "Theatro Pinturesco e Mechanico", ou “Theatro do Bairro-Alto”, também chamado “Theatro do Pateo do Patriarca” ou “Theatro de S. Roque”, sito no Largo de S. Roque, (actual Largo da Misericórdia) em Lisboa, onde fora o Palácio de Niza. Os espectáculos pretendiam retomar a tradição das marionetas do Bairro Alto. Roberto Xavier de Mattos, empresário, mandou desenhar e equipar uma pequena companhia de fantoches manobrados sob o tablado. Por se chamar Roberto, ficaram os bonecos a chamar-se também “robertos”, e o espectáculo de “Teatro Dom Roberto”, nome pelo qual ainda hoje é conhecido.


Onde funcionou o "Theatro do Bairro Alto"


1824



Dois desenhos de teatros de fantoches noutros países. Mas a essência era sempre igual

"Bonecos", "Fantoches", "Bonifrates", "Androidos", "Marionettes", "Dom Robertos", ... Quanto à origem da designação de "Teatro Dom Roberto", e segundo José Manuel Valbom Gil, existem 2 teorias:

«A primeira, defendida inicialmente por Henrique Delegado é que este nome tem a sua origem numa comédia de cordel que foi muito importante no reportório do teatro de marionetas europeu do século XVIII: Roberto e o Diabo, e que narra a vida do Duque de Normandia de seu nome Dom Roberto, conhecido por Roberto do Diabo por ter vendido a alma ao diabo.


A outra hipótese é que, no início do séc. XIX, devido ao grande sucesso do empresário de teatro de bonecos, Roberto Xavier, o seu nome tenha sido associado às marionetas pelo povo que assim lhes começou a chamar “Robertos”.


No livro "Feiras e divertimentos populares de Lisboa" de Mário Costa (1950), pode-se ler:

«Em Janeiro de 1813, D. Simon Sadines, um refugiado de Espanha, trouxe para Portugal e armou no Pátio do Patriarca, nas proximidades da igreja de S. Roque (…) antes de ali ter funcionado o terceiro ‘Teatro do Bairro Alto’ ou ‘Teatro de S. Roque’ (…).
O empresário do teatro era um tal Roberto Xavier de Matos, e, segundo a opinião do brilhante escritor Gustavo de Matos Sequeira, foi de então para cá que aos fantoches se começou a chamar “Robertos”». 


Gravura de Achille Pinelli

Ainda segundo José Manuel Valbom Gil ... « O documento mais antigo que descobri sobre essa hipótese, data de 1863. Todavia, a segunda hipótese data de 1813, ou seja 50 anos antes, o que me leva a concluir que ambas as hipóteses estão corretas, devido à proximidade dos acontecimentos. Terá sido a junção de ambas que popularizou o nome por todo o território.» (*)

«Bonecos - Chama-se theatro de bonecos aos que apresentam fantoches trabalhando por cordeis, ao mesmo tempo que fallam de dentro algumas pessoas, fingindo que são elles.
Fantoches - Nome que os francezes dão aos fantoccini italianos e que nós adopta mos para designar os títeres ou bonecos que representam nos theatros de feira e em outros, movidos por cordéis. Os fantoches são maiores do que  propriamente os bonecos, havendoos até de tamanho natural.
Bonifrates - Era o nome que n'outro tempo se dava aos bonecos dos theatrinhos e que hoje também se chamam fantoches ou marionettes



"Theatro do Manecas" da autoria de Stuart Carvalhais - Fantoches Quim e Manecas


1910


No "Parque Mayer" em 1929


"PIM-PAM-PUM" em foto de 10 de Abril de 1934

... A origem d'estes espectáculos de bonecos remonta á maior antiguidade. Crê-se que foram os chinezes os primeiros a admittil-os; também ha vestígios de taes espectáculos entre os egypcios e chegaram a grande perfeição na Grécia e em Roma.
Ha séculos que os theatrinhos de bonifrates ou marionnettes são popularissimos e o encanto das creanças em toda a Europa. Assim accontece também em Portugal, onde taes espectaculos foram sempre muito apreciados. No theatro do Bairro Alto as celebres operetas do Judeu foram representadas por bonecos. Ainda hoje nas nossas feiras ha grande predilecção pelos theatrinhos de fantoches, que outra coisa não são mais do que marionnettes, bonifrates, titeres
ou bonecos.» (**)

O "Theatro Mechanico" foi inaugurado em 22 de Novembro de 1857 , na Rua Oriental do Passeio Público, esquina com o Largo da Anunciada, em Lisboa. Veio ocupar o espaço do "Circo de Madrid", que ali tinha funcionado entre 16 de Janeiro de 1845 e 27 de Novembro de 1852, conforme história que poderá consultar neste blog, no seguinte link: "Circo de Madrid".


22 de Novembro de 1857


5 de Dezembro de 1857

«Agradou immensamente, fazendo os emprezarios, que eram italianos, grandes interesses. O scenario e machinismo eram explendidos. Os preços estabelecidos eram: cadeiras numeradas. 500 réis; segunda plateia, 300 réis; terceira plateia, 140 réis. Funccionou por muito tempo. O theatro, propriedade dos emprezarios, era construído de madeira e armava e desarmava com a maior facilidade.» (**)

O jornal "Revolução de Setembro", de 25 de Novembro de 1857, noticiava a sessão da véspera, com um artigo assinado por Julio Cesar Machado:

«... Todavia a grande novidade da semana foi a abertura do theatro mechanico. Realmente é digno de vêr-se um divertimento como este tão completamente novo para Lisboa.
(...) Logo no primeiro quadro, que figura as margens do Rheno ao romper da aurora ha dois cysnes que vão banhar-se, que pela exactidão de movimentos chegariam a illudir, se não, fossem tão pequeninos, a ponto de toda a gente os julgar cysnes verdadeiros e vicos! No quadro da Hollanda, que só póde ser apreciado por quem conhecer o paiz, ha uma infinidade de authomatos encarregados de diversos papeis, a qual delles mais digno de applauso; o ferreiro, o velho empoado pelo gaiato, e os que correm no gêlo, são sobretudo os que maior effeito produzem. Porém, o que mais tem agradado e com justiça é o magnifico quadro da Tempestade, onde o vento e a trovoada são de tal forma imitados que por assim dizer entristecem e amedrontam. O authomato que joga no arame, e os quadros dissolventes terminam o primeiro espectaculo que deu o theatro mechanico, que tem tido uma affluencia constante desde que abriu.
Em todas as recitas tem concorrido damas a desfructar os espectaculo, nos primeiros logares, por que não ha camarotes. Permitta Deus que com este exemplo, as senhoras portuguesas percam mais o receio que teem de assistir a um espectaculo sentadas n'uma cadeira da superior. Os chefes de familia lucrariam se a moda se introduzisse. Para um homem e uma senhora, que necessidade ha de um camarote ?! Para que hão de as senhoras portuguezas marcar como excepção o que em todos os paizes passa como boa regra? (...)»


10 de Abril de 1858


14 de Abril de 1858

Relativamente ao fim do "Theatro Mechanico", terá ocorrido certamente no ano de 1858. Quanto à data do último espectáculo antes do seu encerramento definitivo coloco duas hipóteses: encerrou em 15 de Abril de 1858, conforme anúncio seguinte; ou encerrou na cidade do Porto aquando da sua deslocação (?) que ocorreu entre 5 de Julho de 1858 e 24 de Agosto de 1858, e da qual publico a respectiva publicidade. Isto considerando que se tratava do mesmo "Theatro Mechanico". Inclino-me para esta 2ª hipótese, ou seja este teatro terá encerrado definitivamente em 24 de Agosto de 1858, já na cidade do Porto.


5 de Julho de 1858


15 de Julho de 1858


24 de Agosto de 1858

Com os fantoches vieram os primeiros teatros para crianças. O primeiro foi o "Bijou Infantil", inaugurado em Julho de 1891, por José Rodrigues Chaves, na Patriarchal (actual Rua D. Pedro V), 89 e 91, em Lisboa.

«... Quando esta tentativa parecia querer vingar, um incêndio, na noite de 1 de abril de 1893 destruiu por completo o theatrinho, ardendo egualmente os fantoches Androidos, o gabinete e apparelhos de prestidigitação, os autómatos de ventriloquia, instrumentos excêntricos, ferramenta de relojoaria, scenario, guarda roupa e adereços do theatro, finalmente tudo quanto constituía o ganha-pão do tão habilidoso quanto infeliz actor Chaves.
A segunda tentativa n'este género foi a de José dos Santos Libório, que fez construir um lindo e luxuoso theatrinho na Avenida da Liberdade, a que deu o titulo de Theatro do Infante Era uma verdadeira maravilha de luxo e bom gosto. Era ensaiador das creanças Salvador Marques e a parte musical estava entregue ao professor Filippe Duarte. A peça com que abriu foi a magica infantil Historia da Carochinha, original de Eduardo Schwalbach, que se representou
com grande luxo de mise-en-scene. Nas mesmas condições fez representar depois a oratória Santo António e outras  peças; mas a tentativa gorou, porque o prejuízo foi grande.»
(**)

O "Theatro Pairet" era um teatro de bonecos (fantoches) ambulante que em 16 de Novembro de 1890, inaugurou o seu teatrinho na nova Rua de Cascaes, construída nesse mesmo ano no bairro lisboeta de Alcântara. 


Ambos os anúncios de 16 de Novembro de 1890

Já em 21 de Janeiro de 1877, em Havana, capital de Cuba, tinha sido inaugurado um "Theatro Pairet" (actual "Cine Pairet") e era propriedade do seu fundador, o catalão Joaquin Pairet, falecido em 1885. Não consegui saber se existiria alguma relação entre estes dois teatros, ou familiar, mas inclino-me mais para a segunda hipótese.

Em 22 de Junho de 1890, o teatro de fantoches Pairet já actuava na casa de espectáculos "Évora-Terrasse", na cidade de Évora com bilhetes a preços de 40 réis, segundo o jornal "O Manuelinho de Évora" desse dia.

O "Theatro Pairet", no programa para 19 de Março de 1905 no "Theatro Aveirense" ...

19 de Março de 1905


"Theatro Aveirense"

Será em 1891, iremos encontrar o "Theatro Pairet" apresentando, na barra de Lisboa, "A Expulsão dos Jesuítas Pelo Marquez de Pombal". As liberalidades que o teatro de marionetas proporcionava, também terá contribuído com a sua quota-parte para esse lado de exclusão dos ambientes mais sérios e respeitadores da ordem instalada.

7 de Março de 1891

«No Entrudo de 1901 o animatógrafo surge na vila integrado nos festejos que o Grémio Artístico Comercial promoveu. Designado «Animatógrapho Edison» ali ter-se-á mantido até 1904. Na Feira de S. Pedro o Theatro Pairet, espécie de teatro circo que a par de fantoches dava «sessões de gramophone e scenas de alta magia», apresentava-se «ao estimadíssimo público desta vila» proporcionando aos genuínos saloios que visitavam a feira espectáculos de “cinematógrapho”. Teve sucesso o Theatro Pairet já que decidiu prolongar a temporada voltando a assentar arraiais logo no Abril seguinte, na Porta da Várzea, com uma designada «Barraca Animatógrapho». Estes cinemas de casa às costas estariam para a sua época como para a minha o da Praça da Batata..[4] Lugares de maravilha, espaços de sonho e emoções, mundos abertos ao prazer da aventura.» in: Contos e Crónicas - «O cinematographo», de António Sales

Na revista "Illustração Portugueza" de 20 de Maio de 1888

«A maior parte das feiras portuguesas, além do valor económico, relativamente pouco diminuído, que ainda oferecem, são principalmente apreciadas na sua feição pitoresca, ou pelo espectáculo oferecido em que subsistem as velhas tradições da nossa terra.
Observada na sua intimidade, ou apenas no aspecto exterior, a feira reproduz quási sempre a sua feição primitiva.
Os lisboetas de há trinta anos não devem ter esquecido os encantos da Feira de Alcântara, (…). É verdade que nos era permitido assistir aos fantoches por meio tostão a entrada (…). Ficou célebre nos anais desta feira a figura inconfundível do Ravachol, locutor – como agora se diz – a quem estava confiado o rèclamo e prólogo das peças que dentro, na antiga barraca de lona pintada, a seguir se iriam representar. Episódios ingénuos com actores de madeira, articulados e movidos do interior por numerosos cordelinhos.
No alto da barraca, em letras gordas e com os ss pintados ao contrário, lia-se esta indicação pomposa e sibilina: Colossal Teatro Andronic.» (***)


"Theatro Andronic", com cómica publicidade em 15 de Maio de 1905

A propósito o jornal "Diario Illustrado", de 21 de Junho de 1901, noticiava: 

«Theatro Andronic - Apesar de feito na feira de Alcantara, este theatro tem obtido uma concorrencia enorme, graças á perfeição dos fantoches articulados, systema Thomas Holden e aos bons espectaculos que apresenta.»

Outro autor, Mário Costa, no seu livro "Feiras e divertimentos populares de Lisboa", de 1950, refere ainda:

«Não esqueceram também o «Theatro de Marionettes» (bonecos articulados e falantes), cujas pantominas o actor Estêvão Amarante, entre bastidores ajudou a animar; e as barracas de fantoches ou robertos, entre os quais estavam o «Guignol Teatro» e o «Teatro Nova Aurora» (era precisamente com esta grafia que, em 1905, estava escrito o letreiro do último) que, como isca, davam aos passeantes o bónus de presenciarem gratuitamente, no exterior, uma parte da peça de maior movimento e espectaculosidade, que, se não era o «Noivado do Sepulcro», a coroa de glória destes palcos, era qualquer outra peça que acabava invariavelmente com grande pancadaria.»

Teatro de fantoches "Theatro Nova Aurora", na Feira de Alcântara em Maio de 1905

Bibliografia:

(*) - "O Saloio de Alcobaça. O reescrever da memória perdida no teatro tradicional de marionetas português" de José Manuel Valbom Gil -Trabalho de Projeto do Mestrado em Teatro - Universidade de Évora - 2013
(**) - "Diccionario do Theatro Portuguez" de António Sousa Bastos (1844-1911),  de 1908
(***) - "Arte Popular, Usos e Costumes Portugueses" de Armando Lucena (1886-1975), de 1944
- "Marionetas de Lisboa: Um Contributo para a Renovação do Teatro de Marionetas e Acção na Comunidade", de  Ildeberto Calmeiro da Silva Gama - Escola Superior de Teatro e Cinema - IPL - 2011
- Union Internationale de la Marionette

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca Nacional Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gettyimages, MeisterDrucke, Dreamstime

2 de junho de 2024

"Auto-Carrocerias, Lda." e "Munhás, Lda."

A "Auto-Carrocerias, Lda." foi fundada em 1925, por Manuel Ramos Munhá e seu irmão Agostinho Ramos Munhá, na Rua Eugénio dos Santos, 117 -1º andar, em Lisboa. De referir, que Agostinho Ramos Munhá, em 10 de Agosto de 1944 detinha 30% da "Empresa de Camionetas Piedense, Lda", com sede na Trafaria.


"Auto-Carrocerias, Lda." no 1º andar do prédio da Rua das Portas de Santo Antão esquina com a Rua dos Condes

Esta firma dedicou-se ao ramo de acessórios e materiais  para carrocerias de automóveis e autocarros, já no final da evolução da carruagem para o automóvel. Conseguiu , desde cedo, merecer a confiança quer dos industriais de carrocerias, quer da camionagem e da indústria automóvel portuguesa, colocando-a como a primeira em Portugal na sua especialidade.


1940

A sua clientela estava espalhada pelo continente e ilhas. As primeiras carrocerias construídas em Portugal, tiveram a a assistência ,da parte comercial, de Manuel Munhá, que nunca deixou de colaborar com a indústria de carrocerias, fornecendo todo o material exigido na construção de carroceria automóvel e autocarro.


1946

1947

Em 1937, e por iniciativa dos seus sócios, foi fundada a firma "Indústria Automobilista, Lda.", fábrica de acessórios metálicos para toda a classe de carrocerias, sendo sua distribuidora exclusiva dos produtos manufacturados a "Auto-Carrocerias, Lda.", que durante a II Guerra Mundial (1939-1945), prestou inestimáveis serviços à indústria de carrocerias e ao automobilismo em geral.

A expansão desta firma fez-se sentir em todo o continente e ilhas, mantendo agentes ativos em todas as capitais de distritos, a fim de prestar prontamente a a melhor assistência à sua dedicada clientela. 



Em 1945 era referido pela "Associação Industrial de Lisboa":

«Actualmente está trabalhando com apreciável êxito no estudo da construção metálica de carrocerias de automóveis e auto-carros, com o apoio de bons técnicos estrangeiros e das fábricas construtoras de estruturas metálicas, não se tendo poupado a esforços e sacrifícios para conseguir nessa emprêsa todos os resultados obtidos pela técnica moderna.
Para se avaliar convenientemente os benefícios resultantes de tal inovação, devemos citar em primeiro plano o facto das ligas metálicas que vai lançar no nosso mercado terem apenas um terço do pêso de qualquer outro metal, do que resultou uma dupla vantagem para o pêso total de uma viatura pesada, pois no conjunto total a carroceria ficará pelo menos com um terço de pêso a menos do que e qualquer outro material. As primeiras experiências deram a mais completa satisfação, e assim entramos numa nova era da construção e carrocerias, colocando o nosso País na vanguarda da indústria desta modalidade.»


1949

Entretanto, em 29 de Outubro de 1925, era fundada a firma "Munhás, Lda"  por Joaquim Ramos Munhá (irmão dos fundadores da "Auto-Carrocerias, Lda." ) e sua esposa Luiza Henriques Munhá, na Rua das Pedras Negras, em Lisboa, dedicando-se, inicialmente, ao negócio de artigos de borracha, tendo ampliado, mais tarde  a sua gama a todos os materiais para carrocerias.


"Munhás, Lda." na Avenida da Liberdade

Em 1937, transferiu o seu estabelecimento e sede para a Avenida da Liberdade, 96-98 e desde essa data, com a valiosa colaboração dos seus funcionários Ernesto Sizudo e Miguel Duarte, Joaquim Munhá iniciou o comércio de acessórios para automóveis, especialidade na qual se tornaria num dos principais estabelecimentos de Lisboa.

Além dos artigos atrás menconados, a "Munhás,Lda." dedicou-se também à venda de diversas tintas, pergamóides, peles e lonas, be como todos os materiais para estofos e construção de carroçerias, parte dos quais importava directamente como representante de várias firmas inglesas e americanas.


Localização do estabelecimento "Munhás, Lda." na Avenida da Liberdade (dentro da elipse desenhada)


"Munhás, Lda." debaixo da "Fotografia Ibérica" (atrás do táxi)

Em 1945, esta sociedade era constituída por Joaquim Ramos Munhá e sua esposa Luíza Henriques Munhá. Em 9 de Maio de 1952, verifica-se o aumento de capital da sociedade "Munhás, Lda." de 200.000$00 para 800.000$00 e a entrada para a sociedade de Manuel Henriques Munhá, Joaquim Henriques Munhá, D. Maria Ferreira Urbano Munhá e Carlos Manuel Urbano Munhá, que se juntavam a Joaquim Ramos Munhá e Luíza Henriques Munhá.

1957

Nos anos 50 do século XX alargaria a sua actividade à comercialização de automóveis, camiões, máquinas agrícolas e industrias, assim como seus acessórios e sobressalentes, e em 1 de Janeiro de 1953 iniciava a sua actividade na província de Angola, onde viria a ser representante da marca francesa "Peugeot" e da alemã "Steyr", entre outras. Sediada em Luanda, manteve filiais em Malange, Celas e Nova Lisboa.

1955

A empresa "Munhá, Lda." manter-se-ia em actividade até 22 de Dezembro de 1975, data em que foi liquidada e dissolvida.

Por sua vez, a "Auto-Carrocerias, Lda.", ainda manteria a sua actividade por mais umas décadas, até ser encerrada, definitivamente, no final de 2001.

26 de maio de 2024

Saboia

A loja de camisas, gravatas, cintas, espartilhos, artigos de moda para homem e senhora, etc. "Saboia" abriu em finais de 1933, na Rua Garrett, 66 e 68, em Lisboa. Veio substituir a alfaiataria e camisaria "Marques & C.ª ", que tinha promovido grandes obras de decoração exterior e interior em estilo «Art-Déco», em 1931 com projecto do arquitecto Jorge Segurado (1898-1990). Esta, por sua vez, tinha substituído a loja de flores "Lopes, Limitada"



1931


Decoração interior que viria a ser utilizada pela "Saboia" 

A firma "Marques & C.ª ", tinha vindo da esquina da Rua Garrett com a Calçada do Sacramento, no 1º andar por cima da "Antiga Casa José Alexandre". A entrada era pela Calçada do Sacramento, 6. Os seus sócios eram: Antonio Marques, Alberto do Nascimento Lopes e Miguel Pereira Lourenço.


"Marques & C.ª " Tailleurs, à direita na foto da Páscoa de Abril de 1912

No espaço desta nova loja da "Marques & C.ª ", situada ao lado da famosa "Pastelaria Marques" (inaugurada em 1903), já tinham estado instaladas, o "Bazar Suisso" da firma "Barella & Irmão" - que na altura ocupava os nos 66 a 72 -, tendo sido seguida pelo "Jardim de Lisboa" da firma "J. Peixinho, & C.ª " que tinha vindo da Rua do Carmo.

"Bazar Suisso" já reconstruído e à direita (na foto) da "Pastelaria Marques"


"Lopes, Limitada", inquilino anterior à "Marques & C.ª ", que tinha substituído o "Jardim de Lisboa" de "J. Peixinho. Lda."

Esta loja tinha sido totalmente destruída por um grande incêndio, originado por uma explosão que atingiu o prédio todo em 14 de Novembro de 1889. Publico de seguida, a notícia pormenorizada do incêndio.


14 de Novembro de 1889

Voltando à casa "Saboia", esta foi fundada em 1933, e para a qual os seus fundadores José dos Santos Mattos e António Rodrigues Correia - ambos proprietários e fundadores, em 1895 da "Fábrica de Espartilhos a Vapor Santos Mattos & C.ª " na Porcalhota (Amadora) - constituíram a sociedade "Mattos, Correia & C.ª ". Nesta sociedade entraram os respectivos filhos, Celeste Santos Mattos David e Fernando Gouveia Correia, a primeira representada pelo marido Aníbal da Silva David.

"Saboia" à esquerda na foto de 1939, antes da "Paris-Chiado" e do "Café Chiado"


1 de Janeiro de 1940


Montra de Natal nos anos 50 do século XX


1944


"Saboia" à esquerda na foto, antes (de quem descia) da "Paris-Chiado" e do "Café Chiado"

«Confiada a gerência aos cuidados e competência dêstes últimos, de tão superior maneira se desempenharam do cargo que, sob a sua direcção e conselhos dos fundadores, a Saboia adquiriu rápidamente excepcional prestígio, impondo-se à preferência da selecta clientela.
Dispondo de óptimas oficinas próprias, onde trabalham cêrca de 50 empregados escrupulosamente escolhidos e dirigidos por técnicos habilitados, a Saboia, cujas instalações são de um encanto inexcedível, especializou-se na camisaria fina, marcando pela beleza dos seus padrões e elegante corte dos tecidos confeccionados nas melhores popelines e sêdas.» in. "Praça de Lisboa" (1945)

Por morte dos fundadores da casa "Saboia" as quotas passaram para as respectivas viúvas, continuando a gerência entregue a Fernando Gouveia Correia e Aníbal da Silva David, aos quais estava entregue, também, a direcção do estabelecimento.


Localização da "Saboia" (com toldo aberto) a seguir à "Pastelaria Marques"

"Saboia" nos anos 80 do século XX

Não sei em que ano terá encerrado em definitivo, mas em 1995 ainda funcionava ...


Actualmente, no lugar da "Saboia" uma agência do "ActivoBank"