Restos de Colecção

18 de junho de 2026

"Primeira Casa das Bandeiras"

António de Almeida Cardoso, após trabalhar como alfaiate em São Pedro do Sul, mudou-se para Lisboa e abriu a alfayateria e fazendas "Antonio Cardoso", na Rua da Boa Vista, 18. A primeira referência a esta alfaiataria que encontrei foi já em 1900, no "Almanach Palhares". Nos anos anteriores, e também noutras fontes, e após aturadas buscas, não encontrei qualquer referência a esta alfaiataria, que esteve na génese da "Primeira Casa das Bandeiras", mas na porta na loja atual na Rua dos Correeiros, 149 e no site "Lojas com História" indicam o ano de 1885 para a sua fundação ... Certo é que só a partir de 1900 a alfaiataria "Antonio Cardoso" aparece anunciada com regularidade, não aparecendo em listagens de alfaiates de Lisboa nas últimas duas décadas do séc. XIX  ...


1900


Excerto da lista alfabética da alfayates de Lisboa, em 1899, sem Antonio Cardoso, assim como nos anos anteriores

Anúncio publicitário publicado em 1901 e 1902

E já em 1884 , um fabricante de signaes e bandeiras ...


1884

Em 1900, anunciava a comercialização de «Bandeiras e Signaes - Pendões e Estandartes». Desde 1900 a 1902 mantem sómente domicílio na Rua da Boa Vista, 18-20. Mas é em 1903 que António Cardoso abre outra loja na Rua dos Correeiros, 149-151, (então, vulgo Travessa da Palha) a "A Thesoura de Prata" ficando proprietário das duas lojas em simultâneo, situação que se manteria até 1904, ano em que encerra em definitivo a primeira loja na Rua Boa Vista, 18-20.

1903


1903


Ambos de 1904



1907

Durante uns anos manteve duas atividades distintas: alfaiataria com venda de fazendas e fabrico e comercialização de bandeiras. A primeira bandeira da República portuguesa, após a implantação da República em 5 de Outubro de 1910, foi confeccionada por esta casa.




Foto original disponibilizada pelo "Museu da Presidência da República"

«Encontrámos na bandeira a etiqueta de origem que nos levou a uma loja histórica da baixa lisboeta, que ainda existe (Primeira Casa das Bandeiras, na Rua dos Correeiros), e que participou depois, na sequência do 5 de Outubro, na elaboração da primeira bandeira nacional. Infelizmente, não lhes restou nenhuma documentação que traga mais alguma luz sobre a bandeira.» in: "Museu da Presidência da República".


 Ambas as gravuras e postal restaurados por IA




1913


1917

Entretanto, em 22 de Maio de 1936, Deocleciano Costa e José Monteiro da Silva, antigos empregados da alfaiataria "Casa da Talha" na Rua dos Fanqueiros, 223-227, em Lisboa, formam a firma "D. Costa & Monteiro, Lda.". Por morte dos fundadores da "Casa da Talha", esta já era propriedade dos seus empregados sendo estes dois sócios os gerentes, pelo que ... «sem qualquer auxílio financeiro estranho, servindo-se apenas do excelente crédito do seu nome, os actuais proprietários da casa imprimiram-lhe grande impulso, e, além de manterem primorosas secções de alfaiataria e confecção, dedicaram-se ao comércio especializado de bandeiras.» . Por consequência esta casa passa a denominar-se "Casa das Bandeiras" de "D. Costa & Monteiro, Lda.", mantendo-se na Rua dos Fanqueiros, 223-227. Esta "Casa das Bandeiras" ainda existe, e tem sede e loja no Bairro de Alvalade.

"Casa das Bandeiras"

Quando a "A. Cardoso", no início dos anos 40 do século XX, foi registar o nome de "Casa das Bandeiras" já este nome era utilizado pela "D. Costa & Monteiro, Lda.", na Rua dos Fanqueiros, e, para não perder o seu lugar na história, que já em 1913 a alfaiataria "A. Cardoso" se intitulava "Casa das Bandeiras" - e já aparecendo em 1917 anunciada como a «1ª Casa das Bandeiras - Alfaiataria com Fazendas de A. Cardoso» -, esta optaria pela denominação "Primeira Casa das Bandeiras", propriedade da firma "Antonio Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa".


1 de Janeiro de 1940


1 de Janeiro de 1943

Por escritura pública de 24 de Outubro de 1967, é constituída a sociedade "Primeira Casa das Bandeiras de António Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda."
«O objecto social é o exercicio do comércio de bandeiras e seus afins, quinquilharias e artigos decorativos ou qualquer outro em que os sócios acordem e não dependa de autorização especial.
O capital social é de 800 000$, está integralmente realizado e divide-se em três quotas, pertencentes aos sócios pela forma seguinte: D. Margarida Cardoso da Costa, 160 000$; Rui Dinis de Almeida Costa, 70 000$, e António José Cardoso da Costa, 70 000$.»
A loja sita Rua dos Correeiros 149-151, em Lisboa, era propriedade de D. Margarida Cardoso da Costa.

Em 27 de Julho de 1973 a sociedade passa a ser constituída apenas por D. Margarida Cardoso da Costa, 195 000$, e António José Cardoso da Costa, 105 000$.

Em 4 de Julho de 1985 « O abaixo assinado, Rui Dinis de Almeida Costa, casado, residente na Rua dos Lagares, 20, 3.°, esquerdo, em Lisboa, e natural da freguesia de São Sebastiao da Pedreira, do concelho de Lisboa, como herdeiro de Margarida Cardoso da Costa, e, portanto, também herdeiro de António Baptista de Almeida Cardoso e ou António Cardoso, autoriza que o nome dos mesmos continue a fazer parte integrante da denominação - firma - social da Primeira Casa das Bandeiras de António Cardoso Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda, com sede social na Rua dos Correeiros, 149-151, em Lisboa. »

Em 10 de Março de 1986, António José Carlos da Costa e Margarida da Conceição Moreira da Silva da Costa, são nomeados como únicos sócios da sociedade "Primeira Casa das Bandeiras de António Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda.".


Calendário para 1988


Ambas as fotos de 1997

Em 7 de Novembro de 2000 procedeu-se à nomeação de gerente: Margarida da Conceição Moreira da Silva ou Margarida da Conceição Moreira da Silva da Costa.

Esta centenária "Primeira Casa das Bandeiras" ainda existe, na mesma morada, mantendo-se na mesma família, girando sob a firma "Primeira Casa das Bandeiras de Antonio Cardoso, Sucessora Margarida Cardoso da Costa, Lda." sendo a atual sócia gerente D. Margarida da Conceição Moreira da Silva, e cujo falecido marido era neto do fundador. 




3 Fotos anteriores de 2017 in: "Lojas Com História"

« A mão que faz uma bandeira, hábil na costura e no bordado, é tão antiga quanto a necessidade de as ter: marcar território, identificar uma família ou projecto colectivo, fazer uma distinção, ostentar uma crença ou um poder. Tudo isto é quase tão antigo quanto o próprio tempo: a guerra, a hierarquia, a religião. Hoje, no entanto, a Casa das Bandeiras não serve só clientes militares, nobres e religiosos, mas também diversas entidades públicas e privadas – uma sociedade filarmónica, misericórdias, autarquias, empresas ou clubes desportivos. Mudam-se os tempos, mudam-se as identidades...


Imagem via "Google Maps", captada em Abril de 2024

O talento que acarreta este saber-fazer está bem manifesto na bandeira dedicada à casa, no estandarte à direita de quem entra, feita em cetim de seda, debruada a cordão de três cores, com os melhores materiais. A produção manual decresce frente à mecanização e à impressão em série. O contrário é o que buscam os colecionadores, que atentam nas três gavetas etiquetadas “Bandeiras Antigas” e que só são abertas com muita parcimónia, só para olhos de entendedor, tal não é a delicadeza dos materiais e a sua fragilidade. Além das bandeiras e das insígnias, a loja procura diversificar serviços, oferecendo carimbos e plastificações a quente. » in "Lojas com História" (Jan 2017).

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ("Lojas de um tempo ao outro, Vol I" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997), Lojas Com História

13 de junho de 2026

"Restaurante Tábuas"

A casa de pasto "Taboas", terá sido fundada, por um galego de apelido Taboas, na segunda metade do século XIX na, ainda, Travessa de S. Domingos, 47, em Lisboa. Era considerada uma simples casa de pasto. A primeira referência que consegui foi obtida no "Novo Guia do Viajante em Lisboa" de 1880 e que reproduzo abaixo.

1880

Em 1900 já aparecia referenciado no "Almanach Palhares" como "Restaurant Taboas". Quanto a proprietários posteriores foi difícil de obter as informações, mas em 1908, e segundo o mesmo almanach, a casa de pasto/restaurant "Taboas" pertencia a José Bento Carreira e Luiz Esteves. Entretanto em 1904, o mesmo galego Taboas, fundou outra casa de pasto, bem perto, na Rua Nova de S. Domingos, 12 e que girava sob a firma "Taboas & Fernandes".


1900

1904

1908


"Restaurant Taboas" à direita na foto de 1908

Em Fevereiro de 1925, após « sofrer completa transformação de pessoal, serviço e aformoseamento» e com nova gerência ... 

20 de Fevereiro de 1925

Nota: o anúncio anterior refere «fundada ha uns cento e vinte e cinco anos» ... creio que, ou foi engano de tipografia ou exagero do autor, certamente ...

Lembro que foi em 1926 que a Travessa de S. Domingos, - que ligava o Largo de S. Domingos à Rua Nova da Palma - mudou de denominação para Rua Barros Queiroz. O vereador republicano da Câmara Municipal de Lisboa, Tomé José de Barros Queiroz (1872-1926) tinha falecido em 6 de Maio desse ano. Barros Queiroz tinha trabalhado na casa de candeeiros e canalizações "José d'Oliveira & Barros" que funcionava no prédio onde estava instalado o "Restaurant Taboas", para o lado da Travessa de S. Domingos.. Depois de ter sido promovido a gerente em 1891, em 1902 foi convidado para sócio, e por morte de José de Oliveira em 1911, Barros Queiroz tornou-se proprietário desta firma, mudando a denominação para "T. J. Barros Queiroz", em nome individual.

Em 1935 o "Restaurante Taboas" já era propriedade da firma "Avenida Café, Lda." do mui conhecido galego Manuel Outerelo Costa, que viria a fundar, entre outros, os restaurantes "Aquário" na Rua do Jardim do Regedor e "A Choupana" em S. João do Estoril, em 1946 e 1948 respectivamente.


1935

Nesta altura o "Restaurante Táboas" além de serviço de restaurante funcionava como cervejaria-marisqueira e tinha uma charcutaria, que ali funcionaria por muitos anos.

Dezembro de 1936


25 de Fevereiro de 1938


"Restaurante Taboas" Na área a vermelho (à esquerda) na Rua Barros Queiroz

Em 1956, uma nova gerência procede a umas obras de remodelação profundas na secção de restaurante, introduzindo o serviço de «Frangos no espeto». De seguida fotos do novo "Restaurante Tábuas".

31 de Janeiro de 1956


Interior do novo "Tabuas" em 1956


Em 1957, nova gerência ...

2 de Fevereiro de 1957


Restaurante e Charcutaria "Tábuas" nos anos 80 do século XX

Antes de encerrar definitivamente, no final de 2023, o restaurante e churrasqueira "O Tábuas" tinha como seu proprietário a firma  "Mota & Cleto, Lda." (salvo erro ...) que tinha sido contituída em 20 de Março de 2014. 


Encerrada em 2013


"O Tábuas" no toldo na Rua Barros Queirós (à esquerda)


Exterior e interior em 2017


E o restaurante "O Tábuas" de novo encerrado em Julho de 2024 ...


fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)