Restos de Colecção

1 de março de 2026

"Taberna Ingleza", "English Bar" e "British Bar"

 A "Taberna Ingleza" terá sido fundada por volta de 1850, como "Café Price" - também apelidado de "Taberna Ingleza" - na esquina do Caes do Sodré, 76 com a Travessa dos Remolares, 2-6 em Lisboa. Lembro que «N'esse tempo não havia sombra de Aterro. O molhe do Caes do Sodré prolongava-se até á esquina da Taberna Ingleza, distanciado da porta apenas uns dois metros; desciam-se tres degráos de pedra carcomidos e entrava-se em plena Ribeira Nova.». E também que «O sitio que hoje occupa o cáes do Sodré e Corpo-Santo era tudo praia, onde se reunia a gente do mar, nacionaes e estrangeiros, e d'estes muitos, porque o commercio então era grande, por causa dos generos do Brasil, que se fazia todo pelo porto de Lisboa.» in: "Archivo Pittoresco" nº 1, de 1860. 

Dentro do rectangulo a vermelho onde existiu o "Café Price - Taberna Ingleza"

Antes de mais, no "Archivo Pittoresco" de 9 de Maio de 1844 ...

E em 1853, na "Nova Descripção de Lisboa e seus Arredores" ...



1856

Já em 1877, na 1ª edição do "O Primo Basílio" de Eça de Queiroz (1845-1900) se podia ler:

«Ao fundo do Aterro voltaram; e o Visconde Reinaldo passando os dedos pelas suíças:
- De modo que estás sem mulher...
Basílio teve um sorriso resignado. E, depois de um silêncio, dando um forte raspão no chão com a bengala:
- Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! E foram tomar xerez à Taverna Inglesa.»

Bulhão Pato (1828-1912) no livro "Memorias - Homens Politicos" publicado em 1894

«Dos rapazes do meu tempo, António de Serpa era exemplo de sobriedade!
Ao jantar vinho e agua; ao café, nem sombras de cognac; mas bom conviva, sempre egual, acompanhava-nos aos nossos ágapes, por vezes ruidosos, no Matta, no José Manuel, no Simão, na Taberna Ingleza.
Foi, talvez, esta ultima a casa de pasto mais frequentada em Lisboa, por todas as classes. E a propósito d'ella ainda um rápido episodio, n'esta minha conversação com o leitor, que já vae no segundo volume, e que, se elle continuar a ter equanimidade bastante para aturar-me, dará seguidamente para terceiro e quarto.
O marechal Saldanha, nos primeiros annos da Regeneração, resolveu — um dia — fazer economias, começando a cortar pela mesa, e decidindo-se a ir jantar á Taberna Ingleza, muito resumidamente — apenas com quatro ajudantes de ordens, cinco sobrinhos, dois deputados, e dois pares do reino, seus capitães inimigos nas Camarás, e mais o seu medico homoeopatha — nada homoeopatha á mesa — medico e collega, porque o marechal também professava a sciencia de Hahnemann I Foram para a sala interior, que era a maior, n'aquella modestissima convivência.
Pois, senhores — d'alli a três dias não havia, litteralmente, quem podesse agarrar um bife em semelhante casa! Todas as mesas estavam atulhadas de amigos políticos e admiradores do grande general! O seu mordomo punha as mãos na cabeça, e o próprio duque achou que lhe saía mais barato o seu banquete de todos os dias em Santo Ambrósio!»


1877


1880

O mesmo Antonio de Serpa Pimentel que numa carta enviada a Bulhão Pato, e publicada no mesmo livro ...

«(...) No segundo dia da crise ministerial, e estando o duque da Terceira encarregado da formação do novo gabinete, fui jantar com alguns deputados e um outro amigo a um restaurant, que havia, e não sei se ainda ha, no Caes do Sodré, que então se chamava a Taberna Ingleza, e que era muito bem frequentado. Foi lá que me foram avisar, de que o duque da Terceira me convidava para ir, n'aquella noite, a sua casa, d'onde saí ministro das obras publicas. Isto constou, e d'alli a poucos dias dizia um jornal da opposição, que eu era um ministro de tal ordem, que, para entrar no ministério, me foram chamar a uma taberna! (...)»

Bulhão Pato no capítulo "A Minha Oração da Corôa"  de 1896 no livro "Memorais" ...

«Pelos annos de 1854 e 1855 jantava, duas vezes por mez, no Price - Taberna Ingleza - um grupo de rapazes do meu tempo: Rodrigo Paganino, auctor dos Contos do Tio Joaquim; Ricardo Guimarães - visconde de Benalcanfôr - folhetim vivo e faiscante; dr. José de Avellar, então alumno da Escola Medica, cérebro vigoroso e modelo de belleza viril; Galeazzo Fontana, insigne na harpa; Guilherme Cossoul, o sympathico e primoroso regente de S. Carlos; Eugénio Mazoni, correcto e delicado pianista; Francisco Montez de Champalimaud, que ultimava o curso de engenharia, cheio de vida e intelligencia, depois de uma cegueira do coração, morto na flor da vida.
Os jantares, de quinze em quinze dias, tinham como pretexto uma perna de carneiro inglez, que vinha pela intervenção do Price, e uma salada temperada por Kugenio Mazoni. Chamava-lhe Salada Russa como lhe podia chamar das Quatro partidas do mundo. Entravam n'ella camarões da nossa barra, enxovas do cabo de S. Vicente, amêijoas de Alvor, azeite de Itália, vinagre de estragão, conservas de Londres, azeitonas de Sevilha, caril da índia, beterrabas, variedade de hervas finas, alface de Lisboa e de Romal Custava uma libra esterlina a salada. (...)
Um dia fui eu incumbido das ostras. A salada preparava-se antes do jantar e levava uma hora larga! N'esse tempo não havia sombra de Aterro. O molhe do Caes do Sodré prolongava-se até á esquina da Taberna Ingleza, distanciado da porta apenas uns dois metros; desciam-se três degráos de pedra carcomidos e entrava-se em plena Ribeira Nova.»

Mas outra "Taberna Ingleza" existia na Travessa do Corpo Santo, desde pelo menos 1863 como anunciado como "Casa de Pasto Ingleza", numa lista publicada no "Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus arredores" de J.J. Bordalo de 1863. Em 1865 já aparecia mencionada como "Taberna Ingleza" no "Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865", por João Antonio Peres Abreu. 


1863


1865

Em 25 de Julho de 1890 é decretada a falência da firma "Covello & Vianna", na altura proprietária da "Taberna Ingleza", no Cais do Sodré, 76 com a Travessa de Romulres, sendo seus sócios Estevão Francisco Covello y Otero e João Antonio Rodrigues Vianna. A arrematação dos bens em hasta publica verificou-se em 21 de Agosto de 1893.



Entretanto alguem deve ter adquirido esta "Taberna Ingleza" e seus bens,  pois a partir de  Maio de 1894 já aparecia de novo anunciada, conforme publicidade que publico de seguida. Viria a encerrar pouco tempo depois, e restaria a "Taberna Ingleza" da Travessa do Corpo Santo.


5 de Maio de 1894

31 de Março de 1896

25 de Abril de 1896

Na loja de esquina funcionou o "Café Price - Taberna Ingleza" (via "Google Maps")

Com o encerramento desta "Taberna Ingleza" no Caes do Sodré, 76, abria, em 1908, uma nova "Taberna Ingleza" na Rua Jardim do Regedor, 33 que se descrevia como «um elegante restaurant que tomou o título da celebre e bem conhecida Taberna Ingleza, que há anos existiu no Caes do Sodré”.



Almanach para 1909, oferecido aos clientes pela "Taberna Ingleza" da Rua Jardim do Regedor (via  "Garafadas on line")

E, pormenor importante ... «aceita às suas mesas todas as classes da sociedade quando elas se apresentem com decência e ordem»

Entretanto outros restaurantes, além de cafés, existiam pelas «bandas do Caes do Sodré»", como por exemplo ...


1900



Rectângulo a vermelho "Taberna Ingleza" ex-"Café Price"; a azul "Taberna Ingleza" futuro "British Bar"; a amarelo "English Bar"; a roxo "Café-Restaurant Gibraltar"

Entretanto, e no início da segunda década do século XX, nas portas 42 e 44 da Travessa do Corpo Santo abre o "English Bar". Em 1919 em virtude da saída do seu gerente José Tavares para fundar o "British Bar", este encerra, e dará lugar a restaurante e bar "Paraizo". Em escritura de 1 de Junho de 1936 é constituída a nova firma proprietária do espaço, a  "Nova Inglesa, Lda." com Carlos Gomes Cardoso Pereira e Gaspar Octávio Passos de Almeida, como sócios. Em 3 de Otubro do mesmo ano a denominação da firma á alterada para "English Bar, Lda.", ao mesmo tempo que se verifica a entrada do novo sócio Aurélio Fernades Palha, além dos já existentes. Passa a ser de novo o "English Bar". Viria a encerrar definitivamente nos anos 60 ou 70 do século XX.


"English Bar"  (vide taboleta no toldo a meio)


Depois de encerrado o primitivo "English Bar" , e em anúncio de 22 de Setembro de 1935


Depois de reaberto como "English Bar" nos anos 50 do século XX

O "English Bar" viria a encerrar por muitos anos, e viria a reabrir como "English Bar 42" ...



Hoje é a "Dote Cervejaria Moderna" ...


Quanto ao "British Bar", como disse anteriormente, foi fundado por José Tavares e Amadeu Prazeres em 18 de Fevereiro de 1919, na Travessa do Corpo Santo (actual Rua Bernardino Costa), 52-54. Anteriromente nesta loja, e depois da "Taberna Ingleza", funcionou a ourivesaria e relojoaria "Lino Marques d'0liveira", pelo menos desde 1904, e visível na foto seguinte e no primeiro toldo.

Ourivesaria e relojoaria "Lino Marques d'0liveira",  futuro "British Bar"


"British Bar", exterior e interior

Em 11 de Agosto de 1982, e por escritura pública a sociedade "British Bar, Lda." passa a ter os seguintes sócios: Manuel Bergaña Cuntin, José Dominguez Castillo, Manuel Gomez Cuntin, Eduardo Rosa do carmo Coelho e Artur Rodrigues Barbosa. Em 12 de Dezembro de 1988 Manuel Bargaña Cuntin deixa a sociedade, e passa a ter como sócios os seguintes: Nuno Manuel Nobre Ribeiro, Luis Manuel Bergaña Ribeiro, Manuel Gomez Cuntin, Artur Rodrigues Barbosa e António da Silva Luis.



Actualmente o "British Bar, Lda" é composta apenas por dois sócios: Artur Rodrigues Barbosa e Luis Manuel Bergaña Ribeiro.


2024


fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de Lisboa, Garfadas on lineDote Cervejaria Moderna, British Bar

25 de fevereiro de 2026

Alfaiataria J. Gomes dos Santos, Lda.

A alfaiataria "J. Gomes dos Santos, Lda." foi fundada em 3 de Outubro de 1941, por José Gomes dos Santos, na Praça dos Restauradores, 69-71, em Lisboa, ocupando, simultâneamente,  os 1º e 4º andar do mesmo edifíco, onde mantinha as suas oficinas.



"J. Gomes dos Santos, Lda." no primeiro toldo


18 de Outubro de 1941


Estabelecimento anterior à "J. Gomes dos Santos" à direita do automóvel em fundo


24 de Dezembro de 1943

José Gomes dos Santos, tinha trabalhado entre 1910 e 1916 na alfaiataria "Lourenço & Santos, Lda."  fundada em 10 de Maio de 1910, na Rua do Príncipe (actual Rua do Primeiro de Dezembro) esquina com a  Praça dos Restauradores, em Lisboa, por seu irmão Manuel Gomes dos Santos, em sociedade com Miguel Pereira Lourenço, dois reputados nomes no ramo. 

Alfaiataria "Lourenço & Santos, Lda." no edifício do "Avenida Palace Hotel"

Acerca da alfaiataria "J. Gomes dos Santos, Lda." a livro "Praça de Lisboa", organizado por Carlos Bastos em 1946, historiava:

«Natural de Mata de Mourisca, concelho de Pombal, José Gomes dos Santos, que hoje conta setenta e dois anos de idade em plena pujança de espirito e actividade, é uma figura de relêvo no nosso meio comercial, quer pela posição que brilhantemente ocupa no ramo de alfaiataria - mercador, quer pelas altas qualidades profissionais e de carácter que destacam o seu nome individual.
Tendo iniciado a carreira no ramo de fazendas, começou a trabalhar aos catorze anos na extinta casa de João Crisostomo Sequeira, à Rua dos Fanqueiros, de onde transitou mais tarde para J. A. Nunes (Loja do Galo), no Conde Barão. Após uma estadia de quatro anos no estabelecimento de Manuel Antonio Soares, em Setúbal, ingressou sucessivamente nas casas Africana e Xavier da Silva. Nesta última exerceu as suas funções durante nove anos, até à data em que se transferiu para a loja de modas de A. Rodrigues Chamusca, na Rua de Santa Justa. A pedido do sócio Azevedo que lhe tributava profunda estima e aprêço, voltou de novo à Casa Africana.


José Gomes dos Santos (1873 - ? )

Entretanto, como seu falecido irmão Manuel Gomes dos Santos fundasse, em 1910, a firma Lourenço & Santos, a que noutro lugar nos referimos, José Gomes dos Santos foi por ele convidado a entrar no estabelecimento recêm-criado, pedido a que acedeu, tendo aí prestado valiosa colaboração durante seis anos.
De comum acôrdo abandonou o cargo em fins de 1916, para, a 3 de Janeiro do ano seguinte, fundar a firma Castilla & Santos, no Palácio Foz, à Praça dos Restauradores, estabelecimento que, desde princípio, se colocou entre as melhores alfaiatarias de Lisboa.
Como o sócio Castilla desejasse afastar-se da actividade, José Gomes dos Santos, a partir de Janeiro de 1924, ficou com todo o activo e passivo da casa à sua responsabilidade, prosseguindo sòzinho no negócio.


Comércio no "Palácio Foz" nos anos 20 de século XX e alfaiataria "Castilha & Santos" primeiro estabelecimento à esquerda.

Em 28 de Janeiro de 1926, querendo recompensar a cooperação dedicada de alguns dos seus empregados, José Gomes dos Santos constituiu a actual firma, na qual deu sociedade a Augusto Izasca, David dos Reis Henriques e José Ramos dos Santos, que, como sócios, lhe continuam a dar a mesma excelente colaboração de sempre, dentro do maior espirito de harmonia e amizade.
Em virtude do Palacio Foz haver sido comprado pelo Estado e de obrigar, portanto, à transferência dos estabelecimentos que preenchem o rés-do-chão, a firma, em 3 de Outubro de 1941, mudou a sede para a mesma praça, 69 a 71, vindo então a ocupar as magnificas e modernas instalações actuais, executadas propositadamente segundo projecto de Norte Júnior.
Além da loja, ocupa o 1.° e 4.° andares com as suas oficinas.»


"Casa Favorita", (toldo com marca de bicicletas "Rover") no início do século XX e onde se viria a instalar a alfaiataria em 1941



"J. Gomes dos Santos, Lda." com o stand da "Sociedade Comercial Guérin, S.A.R.L." ao lado e ali desde os anos 30 do século XX

Em Outubro de 1971, a sociedade "J. Gomes dos Santos, Lda.", com um capital social de 1.200.000$00 era constituída pelos seguintes sócios: António Augusto Ferreira Izasca, Fernando Pina Ferreira Izasca, António Manuel Cabeceiro, Fernando Manuel Martins Gomes da Silva e Armando Oliveira Lagoaça.


28 de Agosto de 1972

Em 18 de Junho de 1976, António Augusto Ferreira Izasca e Fernando Pina Ferreira Izasca, cedem as suas cotas a D. Esmeralda Heise Henriques Moreira.

Já em 1906 o poeta popular Luiz d'Araujo no seu livro "Cem Fados de Luiz d'Araujo - Collecção de cantigas escriptas delicadamente para se cantarem á guitarra e ao piano" ...

Em 2017 ... «Tem alfaiataria por medida mas sobretudo pronto-a-vestir e camisas com marca própria. A decoração de 1989 dá um ambiente, com brilho e elegância: paredes forradas a granito róseo, entrecortadas por espelhos de alto a baixo, um lustre, uma “teia” de pequenas lâmpadas de tecto reforçam a sensação de leveza que toda a exposição transmite. No 1º andar uma sala de provas exibe uma consola em boa madeira clara, encimado por um espelho, da anterior decoração da loja».  



Esta conceituada alfaiataria, viria a encerrar definitivamente em 2019, tendo a firma "J. Gomes dos Santos, Lda." sido liquidada e dissolvida, em Outubro do mesmo ano. O seu espaço é hoje ocupado pela loja "Women'Secret".


fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa,Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)