Restos de Colecção

15 de outubro de 2026

Hotéis em Queluz e Belas

Neste pequeno apontamento vou debruçar-me, dentro da escassa informação que pude obter, sobre as unidades hoteleiras que existiram no final do século XIX , no então, lugar de Queluz - anexado à freguesia de Bellas até 29 de Junho de 1925 - muito conhecido pelo seu Palácio Real.

«Configuração do lanço d'estrada comprehendido entre o sitio da Porcalhota, e o atalho de Queluz para Bellas» em 20 de Agosto de 1841

Na "Revista Universal Lisbonense" de 14 de Agosto de 1845 ...

«Vamos trazer para exemplo a estrada de Caneças, uma das mais frequentadas da gente da capital, e de outras muitas povoações. O logar de Caneças que poder ser o em que se restabelecam os valetudinarios, e cançados da vida artificial e penosa que soffre a gente de Lisboa, deve ter mais que outras povoações uma estrada que communique com a capital. Mas por descuido , ou necessidade, deixou-se em abandono a maior parte da estrada que vai da ponte, junto á quinta do Lobo, até ao alto defronte de Adaveja. Agora a Camara mandou reparar alguns destroços que havia na calcada junto a Caneças, e continuam os operarios a refazer de novo a calcada defronte de Adaveja.»

Quanto a Bellas, já em 1853 ...

27 de Agosto de 1853

Neste ano de 1853, e até 24 de Outubro de 1855, Bellas era sede de concelho, ano em que a vila de Bellas é integrada, como freguesia, no concelho de Cintra.

O "Novo Guia do Viajante em Lisboa e Seus Arredores" de 1863 dava a seguinte informação acerca do lugar de Queluz: «Palácio e quinta real. de que falámos no artigo competente. Fica fóra da estrada de Cintra, em logar ermo e desagradavel».

Quanto a Bellas, o mesmo Guia informava: «Tambem fóra da dita estrada, para a direita, e a duas leguas de Lisboa, como Queluz. Tem uma preciosa quinta pertencente ao conde de Pombeiro, herdeiro do ultimo marquez de Bellas, onde annualmente se festeja o Senhor Jesus da Serra, com arraial, bôdo, e todo o genero de folia popular.»

O jornal "Diario Illustrado" de 29 de Abril de 1876, imformava: «Está novamente aberta a estação telegráfica de Queluz, com serviço de dia limitado, que passará a permanente durante a estada de suas majestades no palácio de localidade». Mas em 15 de Julho seguinte, o mesmo jornal voltava a informar: «Reabriu a estação telegráfica de Queluz, em estação permanente.»

Os transportes de pessoas e bens eram assegurados pela "Companhia de Tramway a Vapor de Lisboa a Cintra" que teve início em 5 de Julho de 1873, «char-à-bancs», omnibus, diligências, carruagens e carroças, já que, como veremos mais à frente, os comboios da linha de caminho de ferro da "Companhia Real dos Caminhos de Ferro" só chegariam a Queluz em 2 de Abril de 1887, para passageiros, e em 9 de Maio seguinte para mercadorias.


5 de Julho de 1873

Horários e preços de Omnibus e Diligencias em 1887

O primeiro Hotel em Queluz, que consegui ter conhecimento, foi o "Hotel União" que terá aberto pela primeira vez na Primavera de 1877. Como era costume fora das grandes cidades os hotéis encerrarem no Inverno e só reabrirem na Primavera seguinte, este não fugiu à regra encerraria temporariamente em 2 de Novembro do mesmo ano. Seria propriedade de Thomás Elias dos Santos.

1 de Novembro de 1877


31 de Maio de 1878

Como diziam os anúncios publicitários a este hotel, contava com «Bom cozinheiro e bons criados». Pelo que em 26 de Julho de 1879 o jornal "Diario Illustrado" noticiava em tom publicitário:

«O habil cosinheiro do hotel União em Queluz que ha pouco inventou uma magnifica sopa a que deu o nome de Moriones, annuncia hoje na secção respectiva, uns pastelihnos á la Carmen y Cros e um podim á Lacarra, para todos os domingos e quintas feiras da presente estação. É bom provar para ao menos saber se correspondem no sabor á fama dos distinctos artistas do theatro de zarzuella.»


14 de Abril de 1878


31 de Agosto de 1879

O "Hotel União" viria a ser substituído pelo "Hotel Syndicato" em 1883, que para o qual foi constituída uma parceria para a sua exploração, tendo como sócios Thomás Elias dos Santos (ex-proprietário do "Hotel União"), Antonio Tavares de Almeida e José Carlos da Luz. Por falecimento do primeiro em 1884, esta parceria viria a ser dissolvida em 13 de Setembro de 1884. Não consegui saber se o "Hotel Syndicato" terá encerrado de imediato, mas como não tive acesso a mais nenhuma referência posterior ao mesmo, julgo que sim.


7 de Julho de 1883

10 de Agosto de 1883


16 de Abril de 1887

Em 2 de Abril de 1887 é inaugurada a linha férrea Lisboa (Alcântara) a Cintra e Torres Vedras. A viagem de Lisboa a Cintra, na distância de 28 quilômetros demorava uma hora e meia a ser percorrida. Esta ligação entre Lisboa e Cintra era assegurada por seis comboios diários ascendentes e descendentes. è inaugurado o apeadeiro de Queluz-Bellas. Mais tarde seria construída o abrigo/estação apar o apeadeiro, depois de lançado o concurso em 13 de Abril de 1894.

28 de Abril de 1894



Notícias de 28 de Março e de 7 de Maio de 1887 
 


Transporte de passageiros nos "Chora" para Bellas, após a chegada do comboio a "Queluz-Bellas"

E quanto à estrada que ligava a Estação a Bellas, o jornal  "Diario Illustrado" de 20 de Abril de 1889, escrevia a seguinte nota: 

«O verão está á porta, e a estrada que da estação de Queluz se dirige para Bellas ainda se encontra por empedrar, no estado em que a vimos o anno passado !!
E' para ser ... collega da rua do Ouro!»

Em 1887, já existiam dois hotéis em Queluz: o "Hotel Malveira" e o "Hotel Ladislau". Quanto ao "Hotel Malveira" não consegui qualquer referência publicitária ou notícia da época.. Na vizinha freguesia de Bellas, nesse mesmo ano existiam o "Hotel Central", o "Hotel Paschoaes" e o "Hotel Vieira".

1887


1 de Setembro de 1878


"Hotel Central" em Bellas

Por outro lado, a primeira referência ao "Hotel Ladislau", instalado na Rua Conselheiro Pedro Victor (futura Rua da República), em Queluz, aparece no "Diario Illustrado" de 7 de Maio de 1887: 

«D. Carlota Emilia Barreiros Arrobas, agradece a todos os seus parentes e pessoas de suas relações, que tanto se interessaram durante a grave doença que soffreu, e participa-lhes que segue hoje para Queluz, Hotel Ladislau onde offerece o seu limitado prestimo.»


"Hotel Ladislau", último prédio com 2 andares ao cimo da rua


1890


"Hotel Ladislau", último prédio com 2 andares ao cimo da rua

Em 1888 abre o "Hotel Bragança", na Rua Sarath, em Queluz, e era propriedade do espanhol Gonçalo Verol Junior, que já tinha sido proprietário do "Hotel Verol" em Bellas, na década de 60 do século XIX . Em 1869 já era propriedade de Eduardo Fernandes d'Araújo, casado com Filipa Verol, e ainda existia em 1877 como se pode comprovar pela seguinte notícia de 27 de Março do mesmo ano:

«A meza da irmandade do Santissimo da freguezia de Bellas, de que é actualmente juiz o ex mo sr. Francisco Moreira Freire Manoel de Aboim, resolveu celebrar este ano as festas da semana Santa.
O dono do bem conhecido hotel Verol mandou restaurar os quartos, e acha se desde já, á disposiçãe dos seus freguezes, e do publico que quizer aproveitar as festas, gosando ao mesmo tempo dos bellos ares e agua tão uteis e proveitosas.»


20 de Junho de 1869


"Hotel Bragança" à esquerda em frente ao burrito


9 de Maio de 1889


14 de Julho de 1889


22 de Junho de 1890

O "Hotel Bragança" terá sido o último hotel a ser inaugurado em Queluz.


Último anúncio, de 31 de Maio de 1891, de hotéis em Queluz a que tive acesso

O "Hotel Bragança" em 1900 ainda existia, já que era mencionado na seguinte notícia publicada pelo jornal "Diario Illustrado" de 29 de Julho de 1900:

«A grande commissão presidida pelo sr. Campos de Andrade, e encarregada de promover grandes festas em Queluz nos dias 18, 19 e 20 de Agosto, tem tido as suas reuniões no Hotel Bragança e deve em breve publicar o programma, que conterá bastantes attractivos.
Entre outros, falla se n'um baile n'uma das maia espaçosas e historicas salas de Queluz.»

E para comer em Bellas, em 1894 ...


7 de Julho de 1894

Relativamente a este restaurante o jornal "Folha de Lisboa" recomendava:

«A'quelles que visitam a aprazivel villa de Bellas recommendamos o Restaurant Reis, de que é proprietario o nosso amigo Joaquim Raphael dos Reis, um cavalheiro muito sympathico e serviçal, que se não poupa a esforços para tornar o seu estabelecimento recommendavel sob todos os pontos de vista.
Ahi encontrará o publico todas as commodidades e um serviço por lista esmerado, e economico.
Visitando o Restaurant Reis terá a certeza de ser bem servido e ajudará um homem em extremo conceituado e trabalhador.»

E para terminar, aqui deixo uma notícia/nota do "Diario Illustrado", de 12 de Agosto de 1877, e em primeira página:

«Um dono de hotel, de uma terra de provincia, teve a peregrina idéa de mandar pôr na taboleta do seu estabelecimento o seguinte:
«Aqui falla se francez, inglez, hespanbol, italiano e allemão».
Ha poucos dias um inglez entrou no hotel e perguntou em mau portuguez pelo interprete da sua lingua.
- Nao ha, respondeu o criado.
- Como não ha, replicou o inglez! Quem é então que falla as linguas enumeradas na taboleta?
- Os hospedes, quando os ha, observou o criado com a maior serenidade.» 

11 de outubro de 2026

"Antiga Casa do Chocolateiro"

A "Antiga Casa do Chocolateiro" iniciou a sua atividade como retrozaria, na esquina da Rua dos Fanqueiros, 370 com a Rua do Amparo, 39-43 em Lisboa, e com outra denominação, em 1900, pela mão de Carlos Henriques Alves Torres, que em 1907 já aparecia como sócio da firma "Carlos Torres & C.ª", proprietária deste estabelecimento. Actualmente este troço da Rua dos Fanqueiros, antes Rua (Nova) da Princesa, está incluído na Praça da Figueira. O troço da Rua do Amparo, hoje Rua João das Regras, correspondia ao troço compreendido entre as Ruas dos Franqueiros e do Arco do Marquês de Alegrete, actualmente Poço do Borratém.



1900


1907

No século XIX a definição de "Chocolateiro" era de fabricante ou mercador de chocolate. A propósito do significado desta palavra, recortei um artigo na revista "O Antonio Maria" de 13 de Junho de 1896, e intitulado "Variações", e que publico de seguida ...

13 de Junho de 1896

No entanto, consegui saber que em 1866 nesta loja funcionava uma capelista, conforme anúncio à publicação literária "Joanninha a Feitiçeira" de Alexandre Dumas, que a seguir publico. 

22 de Abril de 1866

Em 1880 já lá funcionava a loja de bijouterias e quinquilherias de Francisco Antonio da Costa, que pertencia ao Conselho Fiscal do "Banco Industrial de Lisboa" que funcionava na Travessa de S. Domingos, 25, e «Deffinidor»  da "Ordem Terceira de Santo Agostinho (Veneravel)" na Igreja da Graça.

1880

Em 1909 a retrozaria "Carlos Torres & C.ª" é adquirida pela firma "Rodrigues & Nunes" que solicita em 6 de Dezembro de 1909 o registo do nome "Antiga Casa do Chocolateiro" para esta loja. Em 1911, esta retrozaria já aprecia anunciada com a nova denominação.


1911

Em 1934, a "Antiga Casa do Chocolateiro" seria adquirida pela firma "Matos & Pires, Lda.", constituída pelos seguintes sócios: Antonio Antão; Amilcar da Silva Ramos; Gastão de Paula. Em 1943 já a firma já era propriedade da firma  "Retrozaria Chocolateiro, Limitada." e em 14 de Abril verifica-se a saída do sócio Secundino Branco Júnior, continuando como sócios Antonio Antão, Amilcar da Silva Ramos, Gastão de Paula, mas por pouco tempo ...  Em 16 de Julho de 1943, o sócio Gastão de Paula sai da sociedade cedendo a sua cota aos outros dois sócios, e esta passa a denominar-se "Antão & Ramos, Limitada".


22 de Dezembro de 1937

14 de Novembro de 1941


1946

Do livro "Praça de Lisboa" organizado por Carlos Basto, em 1946, retirei o seguinte apontamento histórico deste estabelecimento:

«Embora não subsistam documentos comprovativos, sabe-se por tradição oral fidedigna que a origem dêste conceituado estabelecimento remonta há mais de um século, perdendo-se na época distante em que as retrozarias da Rua dos Fanqueiros dispunham, por vezes. de secções anexas ou de bebidas para serviço exclusivo da sua clientela, quási sempre constituída por gente humilde que, dos arredores, vinha a Lisboa fazer compras.
Primitivamente esta casa parece ter sido dividida em duas secções, uma em que realizava o seu comércio de linhas, botões, retrozes, etc., outra na qual vendia chocolate à chavena não só aos clientes de passagem como até à população citadina do bairro. Dessa duplicidade de negócio resultou o  estabelecimento passar a ser conhecido pela Casa do Chocolateiro e, dezenas de anos decorridos, quando já havia abandonado essa modalidade curiosa, pela Antiga Casa do Chocolateiro, antonomásia de que muito bem se recordam ainda algumas pessoas idosas daquela artéria.
As gerações sucederam-se umas às outras, as firmas foram-se renovando sem deixar de si noticia, o chocolate transformou-se num aspecto tipico da fundação, e o negócio passou a ser definitivamente o que hoje é : retrozaria, malhas, meias, bordados, objectos de enfeite e os mil e um artigos da infinita variedade que constitue a tentação das mulheres de todas as categorias sociais, dêsde as mais abastadas às mais humildes.


29 de Agosto de 1948


27 de Setembro de 1949


21 de Dezembro de 1950

Conjuntamente com a especialização deu-se o desenvolvimento da casa que, graças à modicidade dos seus preços, lhaneza de donos e empregados, e avultado sortido foi, pouco a pouco, grangeando um número apreciável de fregueses, dispondo hoje de excelente situação entre os melhores estabelecimentos similares.
Actualmente a exploração de casa tão antiga pertence à firma Antão & Ramos, L.da, da qual, desde 1934, são únicos sócios Antonio Antão e Amilcar da Silva Ramos, o primeiro natural de Trás-os-Montes e o segundo de Castelo Branco.
Ambos êstes estimados comerciantes tem uma longa experiencia do ramo que conhecem profundamente. Graças a êsse saber profissional e ao espírito de iniciativa que sempre manifestaram, a casa, sob a sua inteligente administração, progrediu de forma notável nêstes últimos anos e agora não só mantem um avultado movimento de balcão como transacciona com a provincia e ilhas através de vários e solicitos viajantes.
Fornecendo-se directamente nas fábricas mais reputadas, escolhendo escrupulosamente com acentuado bom gôsto todos as artigos do seu stock,  Antão & Ramos, L.da, limitando ao maximo os lucros para assim beneficiar o grande público, consegue apresentar à venda todos os artigos da especialidade a preços muito razoaveis sem, com isso, lhes prejudicar a boa qualidade. Daí resulta o apreço da clientela, onde conta com freguesas de longa data, algumas até netas e bisnetas das senhoras que já no século passado escolhiam e compravam as suas rendas e fitas na Antiga Casa do Chocolateiro.»


Em 27 de Outubro de 1987, é constituída a firma "Casa Chocolateiro, Comércio de Vestuário, Lda.", com sede na Praça da Figueira, 9-A, e com um capital social de 420.000$00. Esta firma foi formada entre os seguintes sócios: Pedro Manuel Marques Fernandes; Paulo Manuel Marques Fernandes; e João Manuel Marques Martins Fernandes.

«O objecto da sociedade é o exercício do comércio por grosso e a retalho e a indústria, venda e revenda, importação e exportação de artigos de vestuário, confecções, malhas, têxteis, brinquedos, brindes e utilidades, artigos para o lar, domésticos e decorativos.»

E ainda o pormenor do penúltimo artigo da escritura pública...

«A sociedade assumirá as despesas com a constituição desta sociedade, designadamente as desta escritura, registos e despesas inerentes, e ainda as havidas com o traspasse do estabelecimento comercial instalado na loja com os n.°s 5-C e 5-D da Rua de João das Regras, e 9-A da Praça da Figueira, e ainda no 2.° andar direito do prédio urbano sito na Praça da Figueira, 9 e 9-A, e Rua de João das Regras, 5-A a 5-D, nesta cidade de Lisboa, freguesia dos Restauradores, para o que os gerentes ficam desde já autorizados a proceder ao levantamento do depósito efectuado na Caixa Geral de Depósitos»

Em 2003, o capital social da "Casa Chocolateiro, Comércio de Vestuário, Lda." foi reforçado e redenominado de 420.000$00 para 100.000 euros, mantendo-se a mesma composição societária, que entretanto tinha admitido para a sociedade a "Faberimo - Imobiliária, S.A". Esta firma tinha uma quota de 97.905,04 euros e os restantes três sócios três quotas iguais de 698,32 euros.

A "Antiga Casa do Chocolateiro" ainda hoje existe e funciona no mesmo local. 


Imagens captadas pelo "Google Maps" em Julho de 2024


fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Casa Comum

8 de outubro de 2026

"Grande Ourivesaria da Moda"

A "Ourivesaria e Joalheria da Moda" foi fundada pela firma "Barbosa, Esteves & C.ª" em 1906, na Rua Bella da Rainha (Rua da Prata), 257-259, em Lisboa. Esta ourivesaria nasceu da compra do trespasse de outra que ali já existia mas que só ocupava a loja no nº 257, esquina com a Rua de Santa Justa. No nº 259 tinha funcionado a tabacaria de Antonio Jacintho Vidal, para onde se estendeu a nova ourivesaria a partir de 1906. A seu lado, no nº 261, funcionava a "Casa das Manteigas".

Lembro que, a joalharia e relojoaria "Barbosa, Esteves & C.ª ", cuja história pode ser consultada neste blog (Barbosa, Esteves & C.ª), tinha sido fundada em 1902 por Daniel Barbosa, Joaquim Esteves Nogueira, Albano Barbosa e José Joaquim Barbosa, tendo aberto a sua primeira loja na Rua da Prata, 295.


"Barbosa, Esteves & C.ª " na Rua da Prata, 295

A gerência do estabelecimento viria ser exercida por António Esteves de Araújo, parente de um dos fundadores. Este e Maximino Esteves de Araújo viriam a entrar como sócios da "Barbosa, Esteves & C.ª", em 1922.

Logo nos primeiros anos da sue existência um primeiro contratempo. A "Ourivesaria e Joalheria da Moda" foi assaltada na madrugada de 27 de Fevereiro de 1910, e cuja respectiva notícia no "Diario Illustrado" passo a transcrever:

«A ourivesaria dos srs. Barbosa Esteves & C.", na rua Bella da Rainha, que faz esquina para a rua de Santa Justa, foi na madrugada de domingo visitada por José Papeluser y Péry, de 27 annos, creado, natural de Buenos-Ayres, e Henrique Dubois, de 30 annos, modelador, de Montreal, Canadá.
Mas a policia apanhou os em flagrante, quando se dispunham a sahir do estabelecimento, com os principaes objectos que estavam nas montras, avaliados em 8 contos.
Os larapios entraram pela «Casa das Manteigas», que fica junto.
Escusado será dizer que o caso foi hontem bastante falado e que defronte da loja, que se conservou fechada, estiveram numerosas pessoas, sendo preciso o auxilio da policia para afastar a multidão.
Pelas 3 da tarde, os galunos foram interrogados pelos agentes Silva e Patricio, negando com o maior descaramento terem sido auctores do roubo, seguindo o processo adoptado pelos seus collegas internacionaes, que negam as proezas, mesmo quando apanhados em fiagrante.
Dizem que ao passar pela «Casa das Manteigas» viram a porta aberta e entraram, sem intenção de roubar :.. para comprar, tendo a infelicidade de serem presos quando se retiravam, por não encontrar quem os servisse, e affirmam que não traziam os saccos contendo as joias.
Na busca a que hontem se procedeu n'aquella casa, encontraram-se varios objectos e ferramentas que serviram para o arrombamento.
Tambem estiveram em casa das duas francezas, amantes dos presos, mas nada encontraram alli que os comprometta.
No Juizo de Instruccao Criminal esteve prestando declarações o sr. Barbosa, tendo-se procedido na secretaria do Juizo á avaliação das joias roubadas, para o que compareceram dois peritos.
Os presos só hontem, á noite, é que começaram a ser interrogados pelos agentes Patricio e Figueiredo.»

A seguir ao assalto. Os mirones até faziam fila para saber notícias na vizinha "Casa das Manteigas" ...

Em 1926, já a "Barbosa, Esteves & C.ª", tinha três estabelecimentos: ourivesaria "Barbosa, Esteves & C.ª", na Rua da Prata, 293-295 e sede da firma desde a sua fundação em 1902; "Ourivesaria e Joalheria da Moda" na Rua da Prata 257-259; e a "Ourivesaria, Joalheria e Relojoaria Barbosa, Esteves & C.ª" no Torreão da Praça da Figueira - ex "Tabacaria José Gusmão" -  que fazia esquina Rua da Betesga com a Rua dos Correeiros.

1926

Depois de terem adquirido a "Ourivesaria Moitinho" em 1938, a "Barbosa, Esteves & C.ª", dois anos depois, em 1940, promove grandes obras de ampliação e modernização na "Ourivesaria e Joalheria da Moda", que passa a denominar-se "Grande Ourivesaria da Moda". Expandiram o espaço ocupando a loja da "Casa das Manteigas" e uma loja de vidros na Rua de Santa Justa, ficando assim com quatro montras para a Rua da Prata e duas para a Rua de Santa Justa. 

"Grande Ourivesaria da Moda" em foto de 1945

Por ocasião da reabertura da "Grande Ourivesaria da Moda" em 23 de Novembro de 1940, o jornal "Diário de Lisboa" noticiava:

«O grande acontecimento do dia na baixa foi hoje - pode dizer-se - a inauguração da magnifica exposição de arte de ourivesaria e joalharia que se efectuou na Rua da Prata, 257, á esquina da Rua de Santa Justa, comemorando a reabertura da «GRANDE OURIVESARIA DA MODA» e para apresentação das modernas e luxuosas instalações deste estabelecimento.
Os mais lindos objectos de oiro, as joias de beleza mais rara, as pratas de inconfundível cunho artistico e tantas outras maravilhas perpassaram perante os olhos extasiados dos visitantes num ambiente de requintada elegância - vidros, espelhos e cromados, formando um conjunto equilibrado, admiravel, dum modernismo que não choca, que impressiona agradavelmente.
Merecem os melhores louvores pelo brilhante exito de hoje os srs. Albano Barbosa, Maximino Esteves de Araujo e Antonio Esteves de Araujo, socios da firma Barbosa, Esteves & C.a, proprietaria da «GRANDE OURIVESARIA DA MODA» - que nos aparece agora como um dos melhores estabelecimentos de Lisboa.»


25 de Dezembro de 1941


1943

28 de Dezembro de 1947

Nos finais dos anos 50 adquiriram um deposito de tabacos o que permitiu nova ampliação do lado da Rua de Sta. Justa. 


17 de Julho de 1952


26 de Dezembro de 1953

1956 (restaurado por IA)

 

17 de Novembro de 1966

Em 31 de Julho de 1981 a sociedade "Ourivesarias Barbosa Esteves, Lda." é transformada na sociedade anónima "Ourivesarias Barbosa Esteves, S.A.". Com um capital social de 21.000.000$ distribuído pelos seguinte acionista: Maria Luisa Ribeiro Lopes de Araújo;  Matilde Rosa Lopes de Araujo; Maria Albertina Lopes de Araujo Veloso; Jorge Rafael Lopes de Araujo; Antonio Eduardo Lopes de Araujo. Com a sua sede a permanecer na Rua da Prata, 293, tinha os seus estabelecimentos todos na Rua da Prata nos números 67 e 69, 257, e 293 a  297, em Lisboa. O prédio onde estava instalada a "Ourivesaria da Moda" já era propriedade desta sociedade.

O capital social viria a ser aumentado para 270.000.000$ em escritura pública de 17 de Março 1992. O conselho de Administração ficou constituído pelos seguintes elementos: Jorge Rafael Lopes Araújo (presidente); António Eduardo Lopes de Araújo (vice-presidente); Maria Luísa Ribeiro Lopes de Araújo (vogal).

Em 10 de Agosto de 1992, resultado da cisão da "Ourivesarias Barbosa, Esteves, Lda.", a "Ourivesaria Barbosa, Esteves, Lda." foi transmitida para a nova sociedade "Ourivesaria Barbosa, Esteves S.A." constituída com um capital social de 50.000.000$. O destaque, ou cisão, da "Ourivesaria Barbosa Esteves, Lda." deu origem às seguinte novas sociedades anónimas: "Ourivesaria da Moda, S.A.", "Ourivesaria Barbosa, Esteves, S.A.", e "Ourivesaria Araújo & Primos, S.A." (constituída em 17 de Março de 1992) na Rua da Prata 67 e 69.

Das três ourivesarias, a "Ourivesaria da Moda", em 30 de Junho de 1991, era, de longe, a mais valiosa. ...



1984 e 1986


1988

«Passada a magnífica porta em ferro Art Déco, entra-se nesta ourivesaria aberta desde 1906, na mesma família há 4 gerações. No interior, o ex-libris da casa, uma fonte em prata maciça com 2 metros de altura, dá-nos as boas-vindas. Especialistas em peças tradicionais portuguesas, o destaque vai para as jóias em filigrana, feitas artesanalmente com fios muito finos em ouro ou prata. Verdadeiros tesouros!»


Frente para a Rua da Prata (via Google Maps 2024)


Frente para a Rua de Santa Justa (via Google Maps 2024)

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Estação Chronographica