Restos de Colecção

15 de março de 2026

"Photo-Velo-Club"

A "Photo-Velo-Cub" foi fundada em 1899 por Raul Teixeira e Jayme Ribeiro Pereira (também velocipedista), - que para tal formaram a sociedade "Raul Teixeira & Jayme Ribeiro" - e estava localizado na Rua de Sá da Bandeira, nº 232 e 234, no Porto. Este estabelecimento associava a venda de artigos para fotografia e pintura a bicicletas. A comercialização de bicicletas "Adler" (que na década seguinte já era marca de  automóveis) deveu-se ao facto de, nos finais do século XIX, verificar-se um interesse crescente na actividade velocipedista, em Portugal. Quanto à velocipedia na cidade do Porto existia o "Club Velocipedista Portuense", fundado em 9 de Março de 1880 e que em 1893 passou a "Velo-Club do Porto". Em 1894, com o desaparecimentos destas agremiações, foi fundado o "Real Velo Club do Porto".



8 de Abril de 1899


"Photo-Velo-Cub" na Rua de Sá da Bandeira

Como instrumento de propaganda publicava a revista mensal ilustrada "Boletim do Photo-Velo-Club”. O seu primeiro núnmero foi publicado em Agosto de 1899 como «Revista Mensal Illustrada de Photographia, Pintura e Bicycleta e orgão do Photo-Velo-Club". Teve 8 números, entre Agosto de 1899 e Dezembro de 1900, em que informou acerca de eventos de fotografia a nível nacional, assim como alguns apontamentos de Belas Artes, artigos de cariz técnico no campo da fotografia.

Primeiro número, em Agosto de 1899


No "Boletim Photographico" da "Worm & Rosa" de Fevereiro de 1900

Ao mesmo tempo a "Photo-Velo-Cub" crescia e gozava de grande receptividade, já que em 1901, outro novo sócio, César dos Santos vai a Paris com o propósito de adquirir automóveis para a firma. Ainda em 1900, organizou uma exposição de fotografias de amadores com o apoio de alguns dos maiores expoentes da Arte Fotográfica do Porto, como Antero de Araújo, Joaquim Damásio Bastos e Constantino Paes, e que se anunciava como a primeira de uma série «(...) de exposições que hão de agitar o nosso pequeno meio»


Frente e verso


15 de Abril de 1901

Estas iniciativas granjearam um enorme sucesso como se verifica pelos artigos que se publicam no próprio "Boletim do Photo-Velo-Club” e também no jornal portuense  "Primeiro de Janeiro". Em 1900, coloca à disposição dos amadores um «quarto escuro» (câmara escura), bem como uma escola de fotografia para a qual já contava com a participação de Domingos Alvão (1869-1946), que tinha vindo da casa "Emilio Biel & C.ª ", e que se transforma em atelier fotográfico onde se finalizavam trabalhos de amador. Não constituindo propriamente novidade, pois a "Emilio Biel & C.ª " já o fazia na década de 80 de século XVIII ou a "Photographia Guedes" desde 1898, este tipo de actividade desenvolvida no âmbito do "Photo-Velo-Club", porque mais vocacionado para o apoio aos amadores, terá obtido uma maior receptividade. Foi aqui, no "Photo-Velo-Club", que se terá consumado um dos primeiros furtos de material fotográfico ocorrido em Portugal, no valor de 150$000 réis, o que denota, quer o volume de comércio já alcançado pela firma, quer o aumento da procura que permitia encontrar um receptador para aquele material por forma a rentabilizar o produto do crime.





Em Janeiro de 1902, e por iniciativa do sócio Raul Teixeira, tendo como operador gerente Domingos do Espírito Santo Alvão, inaugura-se, agora com novas instalações, um atelier e ascola de fotografia na Rua de Santa Catharina, nº 100. Já Domingos Alvão gozava de um carinho especial por parte da imprensa e dele se diz já «(...) um operador distinto e de fina têmpera.(...)»”


Domingos do Espírito Santo Alvão (1869-1946)

Novas instalções (já como "Photographia Alvão"), na Rua de Santa Catharina, nº 100

Na "Revista Moderna" de 3 de Fevereiro de 1902, pode-se ler: Raul Teixeira «(...) abandonou as salas e atirando-se aos mares da vida... pôs uma photographia à vela! Trabalhos finamente executados, bom gosto, distinção e muita amabilidade, tudo se encontra na nova photographia do Photo-Velo-Club. À testa do novo atelier está o Domingos Alvão (...)».

As responsabilidades do atelier fotográfico foram completamente assumidas por Domingos Alvão, a partir de 1903, que, ao autonomizar-se, se passa a designar "Photographia Alvão". É também neste ano que José da Silva Pereira, ex-empregado do "Centro Photographico" assume a gerência da loja de fotografia que, em 1904, passa a "Photo Iris", com «um completo sortido para fotografia, pintura e illuminação por incandescencia». Enquanto propriedade de "Cruz Borges & C.ª", a firma também editava e vendia bilhetes postais. Em 1905, saldou a sua existência de máquinas fotográficas, com um desconto de 50%, e que também se dedicava à edição e venda de bilhetes postais.

22 de Dezembro de 1903

Não esquecer que ...

O "Photo-Velo-Club" funcionaria, assim, como trampolim de modo a que Domingos Alvão tenha instalado a sua própria casa fotográfica, que derivava, quer nas funções, quer nas instalações, dessa firma. 

«Algo controversa é, de facto, a data atribuída à fundação da Fotografia Alvão: se, derivando do Photo-Velo-Club, como se comprova nos vários artigos de jornal, nos é apontado o ano de 1903, já posteriormente, seja em publicidade da própria firma, seja em artigos de homenagem - como sucede aquando da comemoração das Bodas de Prata ou de Ouro ou em outras ocasiões” - é sempre indicada a data de 2 de Janeiro de 1902? e também acontece ver-se a data de 1901 no papel timbrado da própria firma.“ Consideramos, assim, esta última como a data da sua fundação, ainda que julguemos existir alguma confusão entre a criação deste Atelier, pertença do Photo-Velo- Club, e a da Fotografia Alvão naquelas instalações“. Tendo em conta que é Domingos Alvão quem assume a orientação daquela dependência desde o início, somos levados a crer que os contemporâneos de Alvão consideravam a fundação da Fotografia Alvão o momento em que, sob orientação do mestre, se criou o anexo do referido clube.
É curioso verificar-se que ainda em Abril de 1903 a publicidade feita ao Photo-Velo-Club na Imprensa (por exemplo: Diário da Tarde, 1.04.1903) refere, além dos outros ditos, «Atelier de Photographia - Santa Catarina, 100» e, simultaneamente, no mesmo jornal e na mesma página, os anúncios feitos à Fotografia Alvão indicam a mesma morada, sem fazer qualquer referência ao Photo-Velo-Club (a esse respeito apenas diz que tem «Laboratório especial e sala de trabalho para amadores»). Ainda com algum interesse parece-nos ser o facto deste anúncio à Fotografia Alvão, na fonte supracitada, aparecer inicialmente com o título «Alvão, photographo» e só depois de 7 de Abril se referir «Photographia Alvão», sendo, no entanto, o conteúdo dos dois igual.» (*)

De referir que em 1903, os principais ateliers fotográficos no Porto eram os seguintes: "Photographia Guedes", "Sala & Irmão Photographia", "Photo Velo-Club", "Photographia Lusitana - A. Santos", "Emílio Biel & Cª", "União - Fonseca & Companhia", "Atelier Photographico de Peixoto & Irmão".


A "Photographia Alvão" instalar-se-ia no espaço antes ocupado pelo atelier e escola de fotografia do "Photo-Velo-Club" na Rua de Santa Catarina, nº 100, quase junto do cruzamento com a Rua Passos Manuel, como se pode ver numa fotografia realizada pelo próprio Alvão e reproduzida anteriormente 

As instalações já muito antigas e o repectivo edifíco, seriam substituídos mais tarde por um novo edifício, que receberia os nº 118-120, em vez de 100. No prédio a seu lado instala-se-ia o famoso "Café Majestic". Em 1924, a "Photographia Alvão" passou a pertencer à firma "Alvão & C.ª, Sucessor Azevedo & Fernandes, Lda.", altura em que Domingos Alvão se associou a Álvaro Cardozo Azevedo, seu discípulo e companheiro de trabalho desde 1906.


Artigos Fotográficos "Alvão & C.ª, Sucessor Azevedo & Fernandes, Lda." e "Café Majestic"


1934

Após a sua morte, em 1946, a empresa continuou pela mão do seu sócio Álvaro Azevedo e, no final dos anos 70 do século XX, com a morte de Álvaro Azevedo em 23 de Novembro de 1967, a "Fotografia Alvão" foi adquirida por Arnaldo Soares, que manteve o mesmo nome.

(*) - Texto retirado de ... ver Bibliografia

Bibliografia:

"Nacionalismo e Pictorialismo na Fotografia Portuguesa na 1a metade do século XX: o caso exemplar de Domingos Alvão" - Dissertação de Mestrado em História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa - Novembro de 2000 - Filipe André Cordeiro de Figueiredo.

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Foto-Porto (Facebook), Delcampe.net

11 de março de 2026

Chapelarias "Azevedo Rua, Lda."

A actual Chapelarias "Azevedo Rua, Lda.", na Praça de D. Pedro IV (Rossio), 69, 72 e 73 , em Lisboa, foi fundada por Manuel d'Aquino Azevedo Rua em 1886, na Rua do Arco Marquez d'Alegrete, 48.  Manuel d'Aquino Azevedo Rua tinha deixado nesse ano a região do Douro, onde produzia vinho do Porto. Depois de ver as suas vinhas arruinadas, após desastrosas colheitas, Azevedo Rua partiu para Lisboa com dinheiro emprestado pelo seu tio padre, e com esse dinheiro abriu a sua primeira loja na Rua do Arco Marquez d'Alegrete, 48. Viria a ser acompanhado por seu irmão Adriano Augusto d'Azevedo Rua.

Chapelaria de "Azevedo Rua & Irmão" à direita na foto, 2 portas a seguir à "Pharmacia Lusitana" de "Dias & Dias"

Nota: na foto anterior pode-se observar outra chapelaria, a "Chapelaria de A. Alves" à esquerda na porta 45 e quase defronte à Chapelaria de "Azevedo Rua & Irmão" . E quanto à "Pharmacia Lusitana", o seu proprietário Antonio Dias era, também, dono da "Drogaria Lusitana", um pouco mais adiante e do lado esquerdo ...


1882


Manuel d'Aquino Azevedo


Oficina de chapéus da Azevedo Rua

 A primeira referência que encontrei à loja da Praça de D. Pedro, 69 foi no "Anuario del comercio, de la industria, de la magistratura y de la administración" de 1894, não aparecendo referenciada nos anos anteriores ...  Nesta loja da Praça de D. Pedro tinha funcionado uma loja de móveis de ferro e colchoaria pertença de M. V. Corrêa, desde finais do século XIX. Foi assim que nasceu a "Chapelaria Azevedo Rua" na Praça D. Pedro, também conhecida por Praça dos Chapeleiros. Em 1887 existiam referenciadas 6 chapelarias nesta Praça. Durante muitos anos a "Chapelaria Azevedo Rua" ditou a moda não só no mercado feminino mas principalmente no mercado masculino, produzindo chapéus de côco e cartolas para topo o tipo de eventos.

"Chapelaria Azevedo Rua"na primeira porta (nº69) no edifício de esquina com o Largo de São Domingos

Em 1904, Azevedo Rua adquire na Rua da Palma, 31 a Chapelaria de Alfredo Borges Pinto, adoptando o nome de "Chapelaria Azevedo Rua". Em 1906 Manuel d'Aquino Azevedo Rua já aparece associado a seu irmão Adriano Augusto d'Azevedo Rua, constituídos na sociedade "Azevedo Rua & Irmão" proprietários da sua chapelaria na Rua do Arco Marquez d'Alegrete, 48. 

1906 - nº 60 leia-se 69

No mesmo ano de 1906  aparece referenciada a "Chapelaria Azevedo Rua"  na Praça de D. Pedro, 69, propriedade de Manuel d'Aquino Azevedo Rua, em conjunto com as outras duas chapelarias. na Rua do Arco Marquez d'Alegrete, 48 e na Rua da Palma, 31 (fig. anterior). Por outro lado em 1908, no "Anuario del comercio, de la industria, de la magistratura y de la administración" de desaparece a chapelaria da Rua da Palma, 31 e aparece uma nova na Rua do Amparo, 32, propriedade da firma "Azevedo Rua & Carvalho". Por outro lado, a loja na Rua Arco Marquez d'Alegrete, 48, desparece em 1910 do mesmo anuário, pelo que deduzo que tenha encerrado definitivamente nesse ano, já que em 1909 ainda aparecia referenciada.

As três chapelarias de Azevedo Rua em 1909


Outra oficina de chapéus

Para melhor compreender o que escrevo de seguida, e não só, nada melhor que parte do projecto para o lado oriental da Praça de D. Pedro, com os números de porta que inseri e que muito úteis serão.

Entretanto, por volta dos anos 30 do século XX a "Chapelaria Azevedo Rua" abre outra loja três portas acima, nas 72 e 73, onde tinha funcionado, até então, a confeitaria de Augusto Francisco Cardoso. Por uma foto que retirei do Arquivo Municipal de Lisboa (e que publico de seguida), fiquei com a impressão que primeiramente a nova chapelaria de Azevedo Rua terá começado na porta 74 e só depois se transferiu para a antiga confeitaria ... Isto é apenas uma suposição minha ... Por outro lado, entre as duas lojas da Praça de D. Pedro, nas portas 70 e 71 funcionou durante muitos anos a loja de modas e confecções de Arthur Lopes, que por sua vez tinha tomado de trespasse à firma "Martins & C.ª" que ali funcionava desde os anos 80 do século XIX.

Chapelarias "Azevedo Rua" na porta 69 e na porta 74 (?) até esta se mudar para as 72 e 73. Atente-se aos 1º e 3º toldos


A segunda Chapelaria "Azevedo Rua" já nas portas 72 e 73 em substituição da antiga Confeitaria em foto de 22 de Junho de 1930

Nos anos 40 do século XX já aparece referenciada a sociedade Chapelarias "Azevedo Rua, Lda.", que entretanto tinha sido constituída, agregando todas as lojas da família.

1943

Montra da Chapelarias "Azevedo Rua, Lda." no Largo de São Domingos, ao lado de "A Ginjinha"

Mais recentemente ...

«Esta chapelaria começou a apostar mais no mercado feminino em 1988, quando o negocio de família foi assumido pelo neto e bisneto do fundador! Com esta nova liderança a chapelaria Azevedo Rua começou a apostar mais na vertente feminina, entrando em contacto com fornecedores de diversos países, com o objectivo de actualizar e modernizar o negocio do chapéu em Portugal.»





Chapelarias "Azevedo Rua, Lda." nos números 72 e 73 da Praça de D. Pedro IV

E num artigo no "Jornal de Notícias" da autoria de Gina Pereira, em 24 de Dezembro de 2006 ...

«(...) Propriedade de uma sociedade com 20 sócios - só quatro não descendem do fundador, mas do primeiro empregado, que acabou também por ter uma quota na empresa -, a Azevedo Rua é ponto de romagem obrigatória para quem gosta de andar na moda e com a cabeça aconchegada. (...)
José Manuel Azevedo Rua, 56 anos, neto do fundador, assumiu, há 19 anos, a gerência. A decisão foi tomada depois da morte do seu pai e de um período em que a casa estive entregue à gestão dos funcionários. "Encontrámos a casa em péssima situação financeira e muito degradada", recorda, ao JN, explicando que decidiram, então, encetar um processo de recuperação para a resgatar do "abismo". "Foi preciso muito empenho, gosto e paixão pela casa para a conseguir recuperar", diz.
A confiança de José Manuel - reforçada por Maria da Graça Fonseca, 64 anos, sócia e viúva de um bisneto do fundador - reside não só no facto de terem uma clientela "fiel" e diversificada, mas também porque a geração mais jovem da família está empenhada neste projecto.
Rita Azevedo Rua, 27 anos, bisneta do fundador, desiludiu-se com o curso de Design e decidiu trabalhar na loja, onde se habituou a ir "desde pequenina" com o pai. Há cinco anos, começou por dar uma ajudinha na contabilidade e, aos poucos, acabou por ganhar mais responsabilidades, estando-lhe hoje parcialmente entregues as compras nas feiras internacionais de Paris, Londres, Florença e Madrid. Rita também está muitas vezes atrás do balcão, a atender os clientes e a dar os seus conselhos profissionais. "Ela tem muito jeito para isto", confirma a prima, Graça Fonseca.
Um dos filhos de Graça, Pedro Fonseca, 24 anos, trineto do fundador, também optou, recentemente, por envolver-se no negócio. Sem paciência para os estudos, há sete meses que Pedro trabalha na loja, embora confesse não ser apreciador de chapéus, porque anda de mota e "não dá muito jeito por causa do capacete".
Teresa Ferreira, 59 anos, sócia e filha de um ex-sócio-gerente, trabalha há 25 anos na loja e diz que "é um prazer estar aqui". "As mudanças foram para melhor. Houve uma modernização de tudo", observa, explicando que mudaram as técnicas de venda, os produtos e os próprios clientes.
A Azevedo Rua, que hoje abre as portas às 9 horas, vende ainda bengalas, cachecóis, chapéus de chuva, cintos e luvas de lã.» in: Jornal de Notícias por Gina Pereira em 24 de Dezembro


foto de Duarte Drago

Já em 31 de Julho de 2016 num outro artigo da "Forbes Portugal", da autoria de Pedro Carreira Garcia ...

«(...) o gerente está obviamente satisfeito com o negócio e realça o papel do turismo na dinâmica das vendas nos últimos anos. Antes, quando chegou à loja, em 2006, “o mês de Agosto era paradíssimo, não tínhamos cá quase ninguém na loja”, afiança. Hoje acontece o contrário.
Os turistas visitam a Chapelaria e não é só para ver: 60% das vendas são feitas a estrangeiros. E, em termos de nacionalidades, os angolanos estão à cabeça, especialmente no que concerne à venda de chapéus de cerimónia para mulheres, explica Pedro. “Agora, de Maio a Setembro, não paramos”, acrescenta o gerente.»

As duas lojas na foto seguinte. A loja na porta nº 69 já desativada, merecia melhor tratamento mesmo fechada, pois parece ao abandono ... com um letreiro que informa: «Por favor dirijam-se aos números 72 e 73»
Porta nº 69 há uns anos e actualmente ...

 


As duas lojas "Azevedo Rua, Lda.", com a "Balão Club" entre elas, actualmente

8 de março de 2026

"Hotel Garantia" em Famalicão

O "Hotel Garantia" foi inaugurado em 19 de Junho de 1943, em Vila Nova de Famalicão, sendo seu proprietário a "Companhia de Seguros Garantia" (1853-1994). Projectado pelo engenheiro e arquitecto Júlio José de Brito, esteve localizado no gaveto da Rua Adriano Pinto Basto com a Rua de Santo Antonio, em Famalicão, sendo constituído por três frentes, duas alongadas pelas artérias citadas, de piso térreo (comércio) e superior (quartos) e uma, correspondendo à fachada principal, de fachada simples, possuindo no telhado, um terraço onde funcionou uma esplanada. 


Acerca da origem do "Hotel Garantia", do jornal  "Notícias de Famalicão" de 31 de Outubro de 1938, retirei o seguinte excerto dum extenso artigo acerca do grande famalicense Amadeu Correia Mesquita Guimarães, secretário da Associação Comercial e Industrial:

«Os Voluntarios Famalicenses haviam adquirido uns excelentes terrenos junto do edificio da Electrica para a construção dum quartel admirável. Os factos tristes ultimamente passadós atirariam-no para uma praça os referidos terrenos. Amadeu, que teve sempre disto conhecimento, não adormeceu e naturalriente, uma noite, a ideia incandesceu-lhe a cabeça. Voltou-se para o outro lado. Teria levantado a sua cabeça para ter a certeza que não se tratava de sonho. Podia ser uma realidade? No dia seguinte Amadeu Mesquita seguiu para o Porto.
Delegado na mesma terra duma importante Companhia de Seguros - «Garantia» - e possuindo uma carteira de seguros enorme, era justo que a semellmoça do que à referida Companhia tem feito, alguma das suas «reservas» fossem aqui empregadas. Estudando o assunto a referida Companhia concertou com o seu Delegado a obra.
Amadeu guardou sigilo e com a certeza que a obra se faria , esperou.
A «Garantia» comprometeu-se a construir na nossa terra um Hotel condigno ...» 

Nesta altura era Joaquim José de Carvalho o principal corpo dirigente da "Companhia de Seguros Garantia", fundada no Porto em 25 de Maio de 1853. Capitalista dinâmico e empreendedor, desnvolveu uma acção reformadora na Companhia, criando novos ramos de seguros. Em 1940, a sua actividade estendia-se aos ramos de seguros «Marítimo», «Incêndio», «Vida», «Acidentes de Trabalho», «Agrícola», «Transportes» e «Diversos». Considerado por alguns, a maior seguradora do Norte, o seu património imobiliário era valioso de onde se destacam: a sede da Companhia, no Porto; "Palácio da Garantia" no Porto; antigo edifício dos "Armazéns Nascimento", no Porto; o "Coliseu do Porto" e o "Hotel Garantia".


"Palácio da Garantia" na Rua Ferreira Borges, no Porto, em foto de 1928

Noutra página do mesmo jornal podia-se ler:

«Causou a mais agradavel surpresa no nosso meio, a boa nova de que a importante Companhia de Seguros « Garantia », com séde no Porto, por sugestão do seu Delegado no nosso concelho, sr. Amadeu Mesquita, comprou o terreno entre o edifício de «A Electrica, Limitada» e o palacete da família Pinto da Silva, para construir ali uma «Pousada» com todos os requisitos modernos.
Essa iniciativa esta prendendo o interesse de todos os famalicenses, pois vem dar satisfação plena a uma aspiração antiga, que não tinha sido ainda possível resolver apesar de se terem ocupado dela algumas entidades oficiais.
Trata-se de um melhoramento de indiscutível importância para Famalicão, que não possue, no momento e propriamente dito, qualquer estabelecimento com a categoria de Hotel. Isso nos faz prever que a Companhia «Garantia» vai obter compensador resultado na empresa a que se abalançou, a qual também não deixará de desdobrar-se em motivos bastantes para que a sua carteira de seguros, neste concelho, aumente consideravelmente.
Notícias de Famalicão, felicita-se e felicita todos por mais um motivo de engrandecimento local, e faz votos para que a importante seguradora nortenha encontre novas oportunidades para aplicar, na nossa terra, parte das suas já muito consideráveis reservas.»


Projecto de 1939


O "Hotel Garantia"  viria a ser construído, no gaveto da Rua Adriano Pinto Basto com a Rua de Santo Antonio onde tinha existido a "Pensão/Hotel Vilanovense", no ,então, Campo Mouzinho de Albuquerque. Fundada em 1854 por Antonio Ferreira Guimarães e Eugénia Maria Silva, oferecia 21 quartos. Em 1939, só tinha a concorrência da sua vizinha "Casa Trás da Capela", também no Campo Mouzinho de Albuquerque, propriedade de Joaquim Oliveira Mesquita e oferecia 14 quartos.


"Hotel Villanovense"


1913

Acerca deste Hotel, Fialho de Almeida (1857-1911) incluía-o «no tipo de hotéis de província, feitos à imagem e sabor dos caixeiros de amostras que lá passam: cozinha porca, por onde se passa para o comedor tapando as ventas; nos fruteiros da mesa, peritas murchas e lívidos margotões por sazonar - toalha de nódoas, garrafinhas de vinho verde sem rolha, pratos rachados, contas a lápis nas paredes…». in: "Machado, JA"

A construção do "Hotel Garantia" tomou menos de um ano, mais precisamente 50 semanas, tendo a inauguração tido lugar em 19 de Junho de 1943, numa «requintadamente elegante festa inaugural»

"Hotel Garantia" em construção (foto restaurada por IA)

« (...) O novo hotel, propriedade da Companhia de Seguros Garantia, e construído por iniciativa da Direcção da mesma companhia que por esta forma, altamente louvável, colabora na obra de ressurgimento nacional, aplicando as suas reservas num empreendimento da maior utitilidade para o desenvolvimento da região, foi construído inteiramente de novo sob projecto do eng. e arq. Júlio José de Brito, no local de uma antiga pensão de precárias condições, como tantas outras que infelizmente ainda existem por êsse país fora.

Em estilo regional tanto na sua construção como no mobiliário e decorações, pode considerar-se um modêlo no género, como o demonstram alguns dos aspectos que se reproduzem nesta págira.
Os seus trinta e dois quartos amplos, cómodos e dotados de todos os requisitos do confôrto, a enorme sala de jantar com os seus artísticos lustres em ferro forjado, o seu mobiliário do mais moderno acabamento e tôdas as decorações do artista António Nascimento Neto, o cuidadoso arnanjo e a impecável instalação de tôdas as suas  dependências, dão a esta obra um conjunto de condições que a tornam um grande exemplo a seguir.» in: revista "Panorama" de Outubro de 1943

Entre outras individualidades, regista-se a passagem pelo "Hotel Garantia" ainda no ano de 1943 de António Ferro, diretor do "Secretariado de Propaganda Nacional" (SPN), tendo regressado no ano seguinte. Ferro viu no "Hotel Garantia" «um bom serviço prestado ao turismo português». O antigo Agente Geral das Colónias, Júlio Cayola, também teceu palavras elogiosos sobre o hotel, confessando que «terei poucas vezes encontrado num hotel um conjunto tão completo». Também estiveram no "Hotel Garantia" nos anos seguintes o subsecretário de Estado das Obras Pública, José Frederico Ulrich, Júlio Botelho Moniz, Ministro do Interior, Nuno Simões, a equipa de futebol do "Sporting Club de Portugal". Há igualmente registos da passagem de José Caeiro da Matta, Ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo tecido um elogio ao hotel: «Na minha vida de judeu errante, tendo conhecido todos os grandes hotéis da Europa, dificilmente tenho encontrado casa como esta, em que tudo é de molde a merecer o nosso inconfundível aplauso.»




Existem, igualmente, inúmeras referências à realização de bailes de Carnaval, noites de Santo António, aniversários, homenagens, passagens de ano, festas de empresas e até consultas médicas. 



Anúncios de 8 de Outubro e 2 de Dezembro de 1948

A exploração do hotel foi passando por várias mãos. No ano da inauguração é entregue ao proprietário da "Confeitaria Arcádia" do Porto, mas em 1950 já se fala de um eventual encerramento. Segundo a imprensa «diz-se que o Hotel Garantia é grande de mais» para a localidade. Entre as razões são apontados os preços elevados, afastados a população local. Certo é que em Abril de 1950 este já se encontrava encerrado, gerando preocupação pela aproximação da feira de Maio e do Verão. O Hotel viria a reabrir a 8 de Maio do mesmo ano. Em menos de um ano volta a ser noticiada uma «angustiante crise»  que assolava o hotel, com as gerências a sucederem-se, e o acumular de prejuízos. No ano seguinte, e na sequência dos problemas que iam surgindo, é aberto um café e restaurante virado para a Rua de Santo António fruto da transformação do outrora salão do Hotel. Certo é que, em 1956, o "Hotel Garantia" voltou a fechar.

22 de Setembro de 1950

1952

Em 6 de Janeiro de 1956 o jornal "Notícias de Famalicão" informa:

«O Hotel Garantia, que tem passado por varias crises, acaba de fechar. 
É de lamentar que tal tenha sucedido, pois Famalicão não pode conservar encerrada uma casa que muito honra a nossa terra.
Dizem-nos que aquele Hotel fechou por não ter movimento de hóspedes compensador.
Infelizmente assim deve ter sido.
Construiu-se um hotel, mas não se procurou rodeá-lo de um recinto ajardinado, onde as famílias, em vilegiatura, pudessem passar depois das refeições umas horas agradáveis.
No Verão passado houve pessoas, que vinham na disposição de passar uma temporada no Hotel.Garantia, apenas lá ficaram uma noite, alegando o facto que acima expomos. (...)
Oxalá que as suas portas de novo se abram, pois Famalicão precisa daquele estabelecimento e, por isso, se deve interessar por ele.»

O "Hotel Garantia" oferecia aos seus clientes, nessa época, espaços que nenhum outro hotel possuía, barbearia privada, cabeleireiro, café-restaurante no terraço, ótimos quartos, salas de estar de excelência, entre outras mais valias, únicas na região minhota naquela época.

Etiqueta de bagagem

Entretanto, e ainda no mesmo ano, e em 28 de Setembro de 1956 reabre sobre o formato Café-Restaurante-Hotel, com pequenas alterações criadas pelo arquiteto Fernando Barbosa, aproximando-o dos desejos dos famalicenses. Afinal de contas, a relação distante com os habitantes locais tinha sido apontada como razão para os primeiros problemas de viabilidade. 

«Passaram-se algumas, semanas de. ansiedade até que a boa nova surgiu, trazendo a tranquilidade, à nossa gente: o contrato da «Garantia» com o Sr. Antonio da Silva Barbosa, de Joane, autorizando-o a fazer, na parte ocupada pelo hotel do seu imóvel as obras necessárias ao arranjo concebido pelo. segundo: um moderno Hotel Café-Restaurante.
Pois as novas instalações do «Garantia» foram anteontem inauguradas e diga-se sem sombra de exagero que as impressões de agrado que inspiraram excederam as expectativas dos mais exigentes!» in: "Estrela do Minho"
de 30 de Setembro de 1956.

No entretanto, em 1952, tinha aberto a "Pensão Ferreira", propriedade de Avelino da Costa Ferreira. Funcionando inicialmente como residencial e restaurante, viria a ser uma séria concorrente do "Hotel Garantia", também ela ponto de encontro para jantares comemorativos, nomeadamente dos alunos do "Externato Camilo Castelo Branco", mas também eventos religiosos e de homenagem, incluindo uma festa de  homenagem a Amadeu Mesquita, em 1956.


O "Hotel Garantia" encerraria definitivamente as suas portas no ano de 1985. Após o seu fecho, o edifício permaneceu abandonado e em estado de degradação durante quase quatro décadas, tornando-se uma figura descrita popularmente como «assombrada» no coração da cidade.

«Já nem sei quando ocorreu o fecho. O derradeiro. Porque aconteceram interlúdios, períodos de carência absoluta que se conseguiam colmatar com novas gerências. E tenho bem presente a imagem do Café, no rés-do-chão, já com o pano dos bilhares esburacado, mas ainda imponente nos seus vitrais, a ventoinha gigante bufando no aperto do calor, e os empregados de lacinho no pescoço, os enormes copos com guarnições metálicas e os bolos de arroz que eram o meu lanche antes de partir para mais um treino de judo ... »  in: "Machado, JA"


"Hotel Garantia" encerrado definitivamente

O edifício foi adquirido pela construtora "Gabriel Couto, S.A." que encetou, a partir de 2023, a sua requalificação. Será um novo empreendimento residencial e comercial. Com tipologias T2, T3 e T4, com áreas entre os 108 e os 209 metros quadrados, o futuro ‘Garantia Residences’, assim será denominado, será composto por 18 apartamentos. No rés do chão, o "Garantia Residences’" mantém a estrutura anterior com um conjunto de lojas de dimensões diversificadas com entrada por uma galeria que circunda o edifício, pela Rua Santo António e pela Rua Adriano Pinto Basto. Todas elas com destino para comércio e/ou serviços com áreas que vão desde os 11 aos 140 metros quadrados.




Bibliografia: 

- Boletim Cultural  do Município de Famalicão "Famalicão: Terra do Turismo? Passado e Presente" , com texto de Vítor Sá (2022)
- Boletim Cultural do Município de Famalicão VI, nº 2 de 2022
- Blog: "Machado, JA" de João Afonso Machado

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