Restos de Colecção

26 de junho de 2022

Paraíso Piscina-Praia do Palace Hotel Curia

O "Palace Hotel da Curia", projecto do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962), e propriedade do empresário hoteleiro Alexandre d'Almeida, era inaugurado em 25 de Julho de 1926, na estância termal da Curia.

Em 1934, é inaugurada uma piscina desportiva e de lazer nos jardins do Palace Hotel, de seu nome "Paraíso Piscina-Praia" e concebida numa arquitectura modernista e numa arrojada forma de convés dum navio, que se viria a tornar o centro de animação das termas nas décadas seguintes. A sua concepção foi da responsabilidade do arquitecto Raúl Martins (1892-1934) e a sua construção do engenheiro José Belard da Fonseca (1889-1969).


Devido às suas dimensões seria a segunda piscina olímpica construída em Portugal, a seguir à do "Sport Algés e Dafundo" (consultar artigo neste blog), inaugurada em 13 de Julho de 1930.  De referir que, na época, o comprimento de uma piscina olímpica era de 33 metros. Campos de ténis e piscinas são equipamentos relativamente frequentes em hotéis desde o início do século XX. 

Piscina do "Sport Algés e Dafundo"

A sua criação, projetou o "Palace Hotel da Curia" como o primeiro hotel do País equipado com piscina para lazer aquático e para a realização de competições oficiais, quer de saltos quer de natação, além do pioneirismo de promover a sua utilização para aulas de natação aos hóspedes.




Aula de natação


A "Paraíso Piscina-Praia", era um pequeno complexo equipado com um vasto conjunto de serviços e equipamentos: torre de saltos, bancadas, solários, restaurante, bar, dancing, chuveiros, duches e banhos de imersão de água quente e fria, cabines para senhoras e cavalheiros, gabinetes privados para massagens, cabeleireiro, barbeiro, manicure e rouparia.

gentilmente cedido pelo blog "Garfadas On Line"


Notícia na revista "Stadium" de 20 de Agosto de 1947


Paraíso Piscina-Praia, actualmente

Na grande remodelação do "Palace Hotel da Curia" entre 2005 e 2006, a piscina também sofreu alterações, à que se adicionou um SPA com piscina interior de jatos, banho japonês, turco e sauna.

Após a renovação do hotel e a título de equipamentos instalados nos seus parques, a mencionar: piscina,  de espelho de água, courts de ténis, badminton, campo de futebol society, ping pong, quinta ecológica, parque de gamos, colecção de faisões e agricultura biológica, assim como um campo de golfe de nove buracos par trinta e quatro, contíguo.

fotos in:  Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian

19 de junho de 2022

Palace-Hotel de Coimbra

O "Palace-Hotel" de Coimbra, foi inaugurado em 17 de Novembro de 1912, na Avenida Emídio Navarro, em Coimbra, tendo como proprietárias D. Maria da Encarnação Alves de Souza Vieira e suas filhas. A mesma D. Maria Vieira já era proprietária do "Grande Hotel Universal", na Figueira da Foz. De referir que, o edifício foi mandado construir, e mantendo-se como proprietário, Julio da Cunha Pinto, que ali vivia e mantinha uma "Casa de Loterias", como veremos mais adiante.


"Palace Hotel", na Avenida Emídio Navarro


O jornal "Gazeta de Coimbra" de 20 de Novembro de 1912 noticiava a sua inauguração:

«Instalado no magnifico predio do sr. Julio da Cunha Pinto, uma das construções particulares mais grandiosas de Coimbra, sito na Avenida Navarro, inaugurou-se no domingo o Hotel Palace, de que são proprietarias as sras. D. Maria da Encarnação A. de S. Vieira & Filhas.
É incontestavelmente um dos melhores hoteis de Coimbra, não só pelo local em que está situado, mas ainda pelas ótimas condições em que se encontra, obedecendo aos mais recentes processos, ultimamente tratados nos congressos de turismo.
O mobiliario dos quartos é de primeira ordem e completamente novo, e honra bastante a industria conimbricense, pois é um magnifico trabalho confeccionado nas oficinas dos srs. João Crisostomo dos Santos & Irmão.
(...) Felicitamos a empresa exploradora do novo hotel, desejando-lhe as maiores prosperidades.
Igualmente felicitamos o nosso estimado amigo sr. Julio da Cunha Pinto, pelo aparatoso edificio com que dotou Coimbra e que honra os operarios desta terra que nele trabalharam.»


Na "Gazeta de Coimbra" de 16 de Novembro de 1912

Como sendo o mais luxuoso hotel da cidade no princípio do séc. XX, o "Palace-Hotel" foi construído de raiz e praticava preços, para os seus 18 quartos, que variavam entre os 1$200 e 2$000 réis. 

«(...) O mesmo era considerado um dos melhores de Coimbra no século XX pelo local, mas também por integrar as condições estabelecidas nos mais recentes congressos de turismo de 1912. Neste sentido, ao contrário da maioria dos hotéis em Coimbra, o Palace Hotel possuía casas de banho em todos os quartos, encontrando-se em linha com as novas teses higienistas.
Constituído por cerca de dezoito quartos, cada um equipado com mobiliário de primeira ordem, o hotel dispunha ainda de aquecimento a gás em todos os compartimentos e de um serviço de cozinha à francesa e à portuguesa.
(...) O mesmo, condicionado ao meio citadino, distanciava-se da tipologia do Palace Hotel Bussaco que privilegiava o contacto com a natureza ou da tipologia termal como o Palace Hotel Vidago. Numa ótima de diferenciação importa também salientar que as dimensões do mesmo se mostram, em comparação com os restantes Palaces nacionais, extremamente reduzidas, aproximando-o dos restantes hotéis existentes na cidade.
Face a esta característica dimensional, pode ser avançada a hipótese de que este foi concebido para ser um hotel de pequenas dimensões, justificando-se pelo facto de ser uma construção privada que envolvia um grande investimento financeiro. Neste sentido, pode ser comparado um hotel de pequenas dimensões, mas que recorreu a todo um conjunto de opções estéticas que o aproximavam, ainda que de modo ilusório, de um Palace, quer pela elegância quer pelo pendor clássico que lhe fora impresso.» (1)


Lembro que o primeiro hotel projetado de raiz para o seu fim em Coimbra, tinha sido o "Hotel Bragança", localizado um pouco mais à frente, ao lado da estação de caminhos de ferro, e inaugurado em 2 de Abril de 1899, tendo nesta altura como proprietário de Guilherme Máximo. Vide artigo acerca deste hotel, neste blog, no seguinte linkHotel Bragança em Coimbra. Outros dois também o foram, como o "Hotel dos Caminhos de Ferro" - construído definitivamente na Praça 8 de Maio em 1900 e propriedade de José Gomes Ribeiro - e o "Hotel Avenida", ex-"Coimbra-Hotel" na  Avenida Emídio Navarro e propriedade de José Garcia.


Além do "Palace-Hotel", publicidade a alguma oferta hoteleira de Coimbra no ano de 1913

A juntar aos equipamentos hoteleiros publicitados em 1913, na imagem anterior ,os seguintes:

"Hotel Novo", na Rua Adelino Veiga - 700 a 800 réis
"Hospedaria Raposo", no Largo do João d'Aveiro - - 700 a 800 réis
"Hospedaria Francisco dos Santos", na Rua do Pateo da Inquisição - 600 réis
"Hospedaria Antonio d'Oliveira Barros", na Rua da Sophia
"Hospedaria Raposo", no Largo da Fornalhinha
"Estalagem Joaquim Marques Perdigão", na Rua da Louça

Nas lojas da ala lateral esquerda (Norte) do Hotel, que fazia esquina com o Largo das Ameias, - que se pode ver na 2ª foto deste artigo - estava instalada a casa de loterias "Júlio da Cunha Pinto" (proprietário do edifício): «Géneros alimentícios, bebidas engarrafadas, tabacaria, perfumaria, papelaria, artigos de novidade, artigos para caça, postais ilustrados, águas minerais e sortimento em bilhetes e fracções de loterias para todas as extrações» in: "Boletim da Sociedade de Defesa e Propaganda de Coimbra" de 15 de Agosto de 1916.

27 de Dezembro de 1912


Publicidade no "Guia Oficial dos Caminhos de Ferro de Portugal" de 1913



Publicidade ao "Grande Hotel Universal" na Figueira da Foz, da mesma proprietária

A existência do "Palace-Hotel" seria efémera, pois viria a ser vítima de um grande incêndio, com origem no depósito de lenha na noite de 29 para 30 de Abril de 1919, que o destruiria em cerca de dois terços da sua área, deixando apenas intacta a ala lateral esquerda (Norte), ocupada pela mercearia e residência de Júlio da Cunha Pinto. Anos mais tarde, esta ala viria à sua função hoteleira, passando a designar-se "Pensão Internacional" .

O jornal "Gazeta de Coimbra", de 3 de Maio de 1919 noticiava o sucedido da seguinte forma:

«O incêndio teve o seu inicio no deposito de lenha do hotel junto á cosinha e com grande rapidez se propagou ás outras dependencias devido ao derramamento de gaz.
(...) O incendio na sua marcha devastadora destruiu quase todo o predio, que se encontrava seguro em 38 contos nas companhias Portugal Previdente, Futuro, Indemnisadora, Comercial, Segurança, Douro e Fidelidade.
A mobilia do hotel estava segura em 10 contos n'A Colonial.
Os prejuizos montam a mais de 100 contos.
O sr. Alberto Davim, proprietario duma casa de modas em Lisboa, perdeu o seu mostruario de peles e de outros artigos do seu comercio, na importancia de 12 contos.
A familia do sr. Nunes Geraldes, um cofre com joias no valor de 4 contos, etc.»


6 de Maio de 1919


10 de Maio de 1919

Depois das alas central e direita Sul do edifício do "Palace Hotel" serem demolidas, seria construído no mesmo lugar outro edifício, que albergou no seu primeiro andar, a "Academia de Música de Coimbra" onde as artes musicais e dança passaram a ser rainhas. A sua inauguração ocorreu a 10 de Fevereiro de 1929.

Anos mais tarde, neste mesmo edifício, viriam a instalar-se o "Pensão Internacional" e o "Café Internacional", muito frequentado pelos estudantes da época. Actualmente, só resta a "Residencial Internacional".


(1) - A "Hotelaria Coimbrã dos anos 20: dos pequenos hotéis à utopia do Grande Hotel" - Dissertação de Mestrado em Arte e Património, de Sara Filipa Baptista Gomes da Silva (2018) - Universidade de Coimbra.

fotos in:  Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca Nacional Digital, AlmaMater UCDigitalis

5 de junho de 2022

Antigamente (164)



Construção do monumento a D. Pedro IV, no Rossio, que seria inaugurado em 29 de Abril de 1870


Seixal em 1886


Fila para abastecer numa "garage", no Largo da Madalena em Faro. Talvez algum aumento da gasolina ...


Estabelecimentos comerciais na Praça Carlos Alberto, no Porto


Distribuição de carne congelada


1 de junho de 2022

Perfumarias "Nally" e Cremes "Benamôr"

Tudo começa cerca de 1915, quando o farmacêutico J. Nobre abre a "Farmacia J. Nobre", na Rua da Mouraria 35-37, em Lisboa, e criando ao mesmo tempo os "Laboratórios J. Nobre", localizados no Campo Grande, 189, igualmente em Lisboa.


Loja onde esteve instalada a "Farmácia J. Nobre" (dentro da elipse desenhada). Foto de 1951

Interior da farmácia "J. Nobre", na Rua da Mouraria


25 de Dezembro de 1915


1915

Em Março de 1916, muda a sua farmácia da Mouraria para a Praça D. Pedro IV (Rossio), 109-110 em Lisboa. Poucos anos mais tarde já os "Laboratórios Nobre" tinham-se transformado na "Fábrica Nally" instalada no Campo Grande, 189 em Lisboa - nas traseiras do "Horto do Campo Grande". Dedicava-se  à fabricação e comercialização de perfumaria, sabonetes, batons, vernizes para as unhas, pastas dentífricas, etc. Em 1935 eram seus proprietários e diretores-gerentes Fortunato Abecassis, Henrique Abecassis e Luiz Belo. Para atender à grande procura, em 1933 foi transformada numa importante unidade produtiva que chegou a empregar cerca de 200 trabalhadores.


"Farmacia J. Nobre" na Praça D. Pedro IV


13 de Março de 1916




1918


1921

Desde então, daqui saíram muitos cosméticos e perfumes de muito gabarito e grande popularidade, com direito até a referência nas comédias portuguesas dos anos 40 do século XX, como no filme “O Pai Tirano” (1941) - quando na "Perfumaria da Moda" Arthur Duarte promete oferecer um frasco de "Noite de Prata" («dos maiores que houver!») à empregada- e apreciados por clientes como Dr. Oliveira Salazar e a Rainha D. Amélia. 

Cena do filme "O Pai Tirano" atrás referida e rodada na "Perfumaria da Moda"

Entretanto em 1925 J. Nobre, registava o creme para o rosto e as mãos "Benamôr", um «adorável produto de beleza que transmite à pele um encantador tom de frescura». Por volta de 1925/1926 é inaugurada, na Rua Augusta, 200, em Lisboa, a "Perfumaria Benamôr", que vinha substituir a "Farmácia J. Nobre" da Praça D. Pedro IV. 


"Perfumaria Benamôr", na Rua Augusta


1926

Capa de partitura de música composta e editada em 1927

A seguir uma série de fotografias do interior da "Fábrica Nally" (ex-"Laboratórios J. Nobre"), localizada no Campo Grande, 189 em Lisboa.





Notícia no "Diario de Lisbôa" de 5 de Junho de 1935, onde é descrita a "Fábrica Nally"



Num texto publicado no Expresso, assinado por Catarina Nunes pode-se ler:
« ... Nasceram depois um pó de arroz e uma água de colónia e a constituição da fábrica Nally (ainda no Campo Grande). Um produto dedicado à queda do cabelo (Petróleo Químico) teve sucesso em 1934, a que se seguiram um bronzeador e a produção para marcas internacionais como Helena Rubinstein, Pantene e Schwarskopf-Sillouet. 1999 foi um ano terrível com o incêndio na fábrica e destruição do espólio e décadas de trabalho.»




gentilmente cedida por Carlos Caria








Stand na "Grande Exposição Industrial Portuguesa" em Lisboa e em Outubro de 1932

Nos anos 60 do século XX a "Fábrica Nally", entra em falência e um funcionário administrativo Sr. Nunes, adquire a fábrica à família Abecassis. Esta família de industriais detinha na altura, também, a "Lusalite", "Cel-Cat" e a "A Mundial Companhia de Seguros", além de fábricas em Angola e Moçambique.

Expositor da "Nally-Benamôr" da Drogaria Howell Guedes, no Cartaxo (in: Jornal de Cá)

1956



Actualmente, a "Sociedade de Perfumarias Nally, Lda.", instalada no Carregado e que detém a marca "Benamôr", tem como sócio principal o francês Pierre Starck, em sociedade com Filipe Serzedelo e Takehide Takase. «Este parisiense, que durante vários anos trabalhou no marketing do grupo "L’Oréal" e foi o responsável em Portugal por marcas como Lancôme ou Biotherm, apaixonou-se pela história da empresa de cosmética que ainda conserva a sua fábrica em Sacavém, acabando por adquiri-la em finais de 2015. Desde então, já conseguiu romper fronteiras, e a sua intensão é transportá-la pelo mundo.»


"Perfumaria Benamôr", na Rua Augusta, em 2013, entretanto já encerrada



Tudo continue a ser feito como antes: os produtos na fábrica da "Sociedade de Perfumarias Nally, Lda.", no Carregado, as bisnagas de alumínio na "Sociedade Artística MQM, Lda.", em Monção, parceira de há 90 anos, e as caixas de papel em Braga.

Na nova loja, flagship, "Benamôr Lisboa 1925", inaugurada em Novembro de 2017 na Rua dos Bacalhoeiros, em Lisboa, reflete a imagem de marca de todas as lojas. Os rótulos das embalagens ligeiramente retro brilham no mármore da grande bancada que ocupa o centro da sala. Nas paredes foram emolduradas fotografais antigas e uma carta da rainha D. Amélia, então no exílio, a falar sobre os cremes que usava. 


Loja na Rua dos Bacalhoeiros, em Lisboa

Loja "Benamôr Lisboa 1925", na Rua das Flores, no Porto em 2020

fotos in:  Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca Nacional DigitalArquivo Municipal de LisboaArquivo Nacional da Torre do TomboBiblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian