O "Teatro Rosa Damasceno" teve a sua origem no "Theatro de Santarem", inaugurado em 11 de Março de 1884, depois das suas obras terem tido início em 1877, promovidas por uma associação cultural, representativa da elite local, denominada "Club de Santarem", fundado em 1851, e que para tal emitiu acções.
Outros teatros ou já tinham surgido ou surgiriam em Santarém na segunda metade do século XIX. A mencionar: o "Theatro Club Ribeirense", inaugurado em 1864, o teatro-barraca "Theatro Alliança", inaugurado em 1892, o "Theatro Taborda", inaugurado em 28 de Abril de 1895 (e onde se instalou, a partir de 1911, o "Grémio Guilherme d'Azevedo"), e o teatrinho "Theatro Flôr da Infancia".
O "Theatro de Santarem", construído onde se encontravam as ruínas da Igreja de S. Martinho, era constituído por um edifício de rés-do-chão e primeiro andar e foi pintado por um dos mais famosos pintores-decoradores do século XIX, José Maria Pereira Cão, artista natural de Setúbal e aí nascido em 1841 e falecido em Lisboa em 1921. Nos seus tectos estavam representados os principais artistas da época, e em grande destaque, o retrato da famosa actriz Rosa Damasceno (1845-1904), casada com o actor e encenador lisboeta, Eduardo Brazão (1851-1925) que também teve um teatro batizado com o seu nome - "Teatro Eduardo Brazão" - e inaugurado no Bombarral em 27 de Fevereiro de 1921.
"Theatro Rosa Damasceno" em gravura de 1908
Acerca deste primitivo teatro, nada melhor que transcrever a sua história inicial disponível no "Diccionario do Theatro Portuguez" de Souza Bastos e publicado em 1908:
O theatro possue 18 frizas, 21 camarotes de 1.ª ordem, 21 de 2.ª ordem, 14 de 3.ª, 104 cadeiras, 126 logares de superior e 70 de galeria. Teem ali representado muitas vezes todas as companhias dos theatros de Lisboa e algumas do Porto. Frequentemente representam tambem n'este theatro amadores de Santarem, que os há ali muito distinctos. Quasi todos os nossos melhores artistas teem representado no Theatro Rosa Damasceno, e entre elles: Virginia, Eduardo Brazão, Rosa Damasceno, Taborda, Palmyra Bastos, João Rosa, Amelia Vieira, Lucinda Simões, Augusto Rosa, Lucilia Simões, Joaquım d'Almeida, Anna Pereira, Ferreira da Silva, Falco, Valle, Barbara, José Ricardo, Angela Pinto, Alfredo Carvalho, Emília Eduarda, Augusto de Mello, Adelina Abranches, etc. O Theatro Rosa Damasceno é elegante, confortavel, bem illuminado a gaz e muito bem decorado. Póde considerar-se um dos melhores da provincia.»
Em 17 de Dezembro de 1891 o "Correio da Extremadura" noticiava:
Na primeira recita o espectaculo terminará com a comedia em 1 acto O Senhor.
A comedia original de João Arrada, sob o titulo Apanhei-os !... representarse-ha na segunda recita que deve realisar-se em fins do mez corrente.
Para a primeira recita ainda não está marcado deffinitivamente o dia, sendo certo, porém, que ella terá logar antes do Natal.»
O "Theatro de Santarem" viria a ser rebatizado para "Theatro Rosa Damasceno" na sequência da representação da comédia «O amigo Fritz», representada em 3 e 4 de Julho de 1894 pelos artistas Eduardo Brazão e sua esposa, a actriz Rosa Damasceno e os actores Joaquim Costa (1853-1924) e Augusto Antunes (1953-1927) - que integravam a "Companhia de Theatro Normal de Lisboa" - todos convidados por Menezes e Almeida, que na altura dirigia um grupo de amadores local.
Depois a Graça ... Sim, senhores, a Graça, com g maiusculo ... a Graça, que faz da adoravel interprete da Madrugada uma artista excepcional, impressionadora, unica, emfim !»
Entretanto e poucos dias antes desta representação, e no jornal "Correio da Extremadura" de 30 de Junho de 1894 era noticiado:
das difficuldades com que lucta.
Esta commissão poderá aggregar a si todos os cavalheiros que julgue indispensaveis para o conseguimento dos seus planos.
Confiamos em que alguma coisa de bom se fará.»
No início de 1937, a direção do "Club de Santarém" decide construir um novo edifício, no mesmo local, para aí instalar o "Teatro Rosa Damasceno" num novo edifício, e que se adequasse às necessidades técnicas do cinema bem como à «estética do nosso tempo», segundo jornais da época. Este projecto ficou a cargo do arquitecto Amílcar da Silva Pinto (1890-1978), que já desenvolvia vasta obra na cidade de Santarém, como o novo edificio dos "Correios Telégrafos e Telefones" inaugurado em 6 de Março de 1938.
As obras iniciaram-se em Junho de 1937 e a nova sala foi inaugurada em 16 de Junho de 1938. Acerca desta nova sala de espectáculos o jornal "Correio da Estremadura" de 11 de Junho de 1938 escrevia:
Propriedade do Club de Santarém que, numa hora de audaciosa iniciativa, deliberou remodelar as antiquadas e exíguas instalações do velho Rosa Damasceno, o novo teatro vai abrir em breve as suas portas para a festa inaugural, que promete o maior brilhantismo e traduzirá uma justificada manifestação de homenagem ao presidente da direcção daquela colectivitlade, o ilustre deputado sr. dr. Carlos Borges. (…)
Foi o sr. Carlos Borges quem deu alento á feliz iniciativa, impulsionando a idea a cuja realização prestou o seu melhor concurso.
Pondo à disposição da direção do Club de Santarém, perto de seiscentos contos, sem prazo fixo, nem qualquer interêsse de natureza especial, só a isenção desta atitude podia tornar possivel a realidade de tao arrojada quao dificil aspiração. (…)
A impressão geral é de elegancia e de comodidade.
Aproveitando o espaço dos corredores laterais, avançando até dois terços do palco, a plateia ganhou imenso em amplidão e desafôgo, abrangendo uma vasta quadra, com 598 lugares, dotada de coxias largas e guarnecida de mobiliário moderno, do melhor gosto.
O primeiro balcão á uma obra prima de construção, com uma inclinação que oferece a maior comodidade, prolongando-se lateralmente por duas asas de camarotes. E' dotado com dois foyers, cujo pavimento oferece um artistico parquet.
O segundo balcão, muito cómodo também, avança sôbre o primeiro, num contorno elegante, dum recorte muito feliz.
O palco oferece ainda bastante espaço e os camarins, instalados num espaço anexo, teem comodidade.
A iluminaçao com uma distribuição inteligente, oferece um conjunto de tons muito feliz. Conjugando o branco, o verde, o vermelho e o lilaz, obtiveram-se efeitos maravilhosos.
O largo vestibulo, as escadas de acesso em lanços suaves, as instalações higiénicas, os terraços, os bufetes, as bilheteiras, os pavimentos em marmorite, etc. tudo revela um aproveitamento de espaço e uma bela noção das proporções, que muito honra o autor do projecto, o conceituado arquitecto sr. Amilcar Pinto, que mais uma vez tem a consagração dos seus talentosos dotes de artista.
Assim o entendeu a Inspeccão Geral dos Espectaculos, que presidida pelo Inspector sr. Major Oscar de Freitas, ante-ontem procedeu á respectiva vistoria, considerando o novo teatro «o melhor da Provincia um dos melhores do pais
O novo "Teatro Rosa Damasceno" seria inaugurado, poucos dias depois a 16 de Junho de 1938.
A cidade teve um movimento desusado para os lados das Portas do Sol, ali concorrendo todos os que lograram ou não bilhete para a récita inaugural e que afluiam a presenciar o artistico efeito da iluminação do novo teatro.
Este oferecia na verdade um surpreendente aspecto, com a sua alta fachada a destacar-se na projecção luminosa de dentro e de fora, que lhe dava uma fulgurante belêsa.
Dentro, a linda sala de espectáculos, cuja descrição fizemos no ultimo numero, regorgitava de espectadores, ouvindo-se as mais elogiosas referencias á obra realizada. (…)
A Companhia Rey-Colaço representou em seguida a peça «Recompensa», de Ramada Curto, que teve a brilhante interpretação costumada, sendo muito aplaudida. No fim do primeiro acto o sr. presidente da Camara ofereceu a artista D. Amelia Rey Colaco um ramo de flores. Apoz o espectáculo teve lugar no Club de Santarem uma ceia de homenagem ao sr. dr. Carlos Borges, em que se trocaram calorosas saudações.»
Em 1999, o "Teatro Rosa Damasceno" encerraria definitivamente, tendo apenas utilizado, extraordinariamente, em 2001 para um concerto de Maria João e Mário Laginha.
Em 2004 o edifício foi cedido pelo "Clube de Santarém" ao "Grupo Enfis, Hotelaria e Turismo", liderado pelo empresário Joaquim Rosa Tomaz, dono de um vasto património em Santarém onde se incluem um ginásio, restaurante, colégio privado e residência para seniores, entre outros imóveis. Em troca o clube recebeu lotes de terreno no concelho vizinho de Almeirim, processo que foi contestado pela Câmara Municipal de Santarém. O município também tentou adquirir o imóvel mas sem conseguir convencer o "Clube de Santarém", que acabou por fechar contrato com o "Grupo Enfis", ignorando o direito de preferência da autarquia no negócio.
2023
Em Março 2007 um incêndio de causas desconhecidas destruiu quase por completo o edifício do "Teatro Rosa Damasceno".
Mas em 3 de Abril de 2025 … «O presidente da Câmara de Santarém, João Leite (PSD), assinou esta quinta-feira, 3 de Abril, a escritura que formaliza a aquisição, pelo município, do antigo e degradado Teatro Rosa Damasceno, localizado no centro histórico da cidade. Cumpriu-se assim a previsão anunciada pelo autarca no feriado municipal de 19 de Março, quando anunciou que o negócio ficaria consumado em Abril. O imóvel, ao abandono há muitos anos, integrava a massa insolvente da empresa Enfis, Hotelaria e Turismo. »
fotos in: Delcampe.net, Arquivo Digital Correio do Ribatejo, Arquivo Distrital de Santarém, Arquivo RTP, Eu Gosto de Santarém

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