Restos de Colecção

4 de dezembro de 2022

Hotel do Toural em Guimarães

O "Grande Hotel do Toural" foi inaugurado em 3 de Outubro de 1886, como "Grande Hotel de Guimarães", no, ainda, Campo do Toural (futuro Largo do Toural), sendo seu proprietário Joaquim José Pereira. Com a sua fachada pombalina, o edifício desenvolvia-se para o quarteirão das traseiras, por cima de uma viela estreita, rematando num pátio de serviço.


1902

A propósito da sua inauguração o jorna "O Commercio de Guimarães" de 4 de Outubro de 1886 noticiava:

«Abriu-se hontem o Grande Hotel de Guimarães, installado no predio 15 a 18 no campo do Toural.
Surprehendem o aceio e limpeza que se notam em todos os compartimentos d'este novo estabelecimento.
Os quartos são amplos, bem arejados e mobilados, e em excellentes condições hygienicas, principalmente os de 1ª classe.
A sala de jantar é esplendida, podendo comportar cerca de 90 pessoas. A meza, elegantemente disposta, é aproximadamente rectangular, e de serviço central e peripherico.
Em quasi todas as salas e quartos ha campainhas electricas.
O proprietario do Grande Hotel de Guimarães o snr. Joaquim José Pereira não se tem poupado a despezas, offerecendo hoje um bello estabelecimento ao publico.»

Em 1902 já tinha mudado de nome para "Grande Hotel do Toural" e de proprietário. O novo proprietário era Domingos José Pires que também era dono do "Hotel Avenida" na estância termal de Vidago. O Largo do Toural também viria a mudar de nome para Praça D. Afonso Henriques.




1907


1913

Este hotel encerrou e reabriu por várias vezes assim como mudou de proprietários, sem que muito do que importante se passou com a monarquia e a república, tenha passado por lá. Manteve a designação de "Grande Hotel do Toural" até ser encerrado em 1926, e reabrir com o novo dono, Paulino Ferreira Leite. Em 1934, este já era proprietário do "Hotel da Penha" (Guimarães) e do "Café Toural" que, entretanto instalara nas lojas e galeria do edifício do hotel.

1934

Em 1939, no guia de "Hotéis e Pensões de Portugal", já aparecia Rodrigo Silva como novo proprietário e designado como "Pensão do Toural". Isto porque a "Comissão Nacional de Turismo", não o reconhecia com a categoria de Hotel, não deixando de referir que tinha «excelente vinho» (antes isso!...). Oferecia 37 quartos e diárias desde 20$00 a 40$00.




Interior do "Hotel do Toural" depois de «ampliado e completamente remodelado»


"Café Toural"


1 de Julho de 1945

Entretanto o "Hotel da Penha", que como mencionei atrás que tinha sido do mesmo dono do "Hotel do Toural", passa para a posse de D. Antónia Teixeira Mendes Duarte, que era igualmente dona da "Pensão Império", também em Guimarães.

"Hotel da Penha"

O mesmo guia de "Hotéis e Pensões de Portugal" de 1939 referia este hotel, com 25 quartos e diárias entre 30$00 e 60$00, da seguinte forma:

«O único Hotel classificado em Guimarães, pelo C.N. de Turismo, montado com confôrto, reunindo todas as comodidades de higiene. Amplo terraço com longes admiráveis para servir refeições, sala de jantar, de visita e recreio. Serviço de 1ª ordem. Ares muito puros. Aberto todo o ano
Estância de repouso. Não se aceitam pessoas com doenças pulmonares.
Recomenda-se em Viana do Castelo a Pensão Aliança.»


25 de Julho de 1937


1 de Julho de 1945

1950

De referir que foi no 2º andar do edifício do ainda "Grande Hotel de Guimarães", que em 19 de Julho de 1889 nasceu o célebre médico, professor e investigador, Abel de Lima Salazar. Viria a falecer no Porto, onde vivia, a 29 de Dezembro de 1946.

Entrada para o Hotel do Toural", com referência ao Doutor Abel Salazar, em Agosto de 1967


"Hotel do Toural" nos anos 50 do século XX


1950


Etiqueta de bagagem


"Hotel do Toural" nos anos 50 do século XX

Hotel, Restaurante, Bilhares e Café, em 1965

Aquando das últimas obras de que foi objecto, creio que em 2013, por parte dos actuais proprietários do renovadíssimo "Hotel Toural" Residencial, de 4 estrelas, foi retirada a entrada pelo Largo do Toural, tendo a mesma sido transferida para o Largo António Leite de Carvalho.

Imagens do actual "Hotel Toural" Residencial de 4 estrelas




fotos in: Memória de AraducaJosé Castelar (Facebook)Fototeca de GuimarãesHemeroteca Digital de Lisboa, Sociedade Martins Sarmento (Hemeroteca Vimaranense), Casa Comum, Hotel Toural

27 de novembro de 2022

Casa Gouveia Machado

A "Casa Gouveia Machado", foi fundada em 1914, pelo afinador de pianos Guilherme Gouveia Machado, na Rua de S. José 152, em Lisboa. No início além da reparação e afinações de pianos, comercializava, músicas, pianos, pianolas, orgãos, harmónios, instrumentos de corda e acessórios.

Antiga "Casa Gouveia Machado", na Rua de S. José, já como "VS - Instrumentos Musicais"


15 de Julho de 1924


Catálogo de 1930



1931


27 de Junho de 1935

Gouveia Machado abriria em 1954, uma discoteca da "Casa Gouveia Machado", na Avenida de Roma, em Lisboa. Em 1968, trespassaria à firma de ferragens de Campo de Ourique "R. Santos Moreira, Lda.", que a manteve no mesmo ramo da música, mudando o nome para "Sinfonia". Ainda hoje funciona como discoteca, papelaria e livraria.

"Sinfonia" actualmente


1958

No início dos anos 60 do século XX, já seu filho, António Gouveia Machado geria, juntamente com seu pai, a "Casa Gouveia Machado", tendo iniciado a importação exclusiva das guitarras eléctricas "Eko", numa altura em que Portugal assistia ao boom da música rock. Era a alternativa mais popular às grandes guitarras americanas, que apareciam por cá em pequenas quantidades, já que o mercado nacional era reduzido, pois que tinham uma variedade enorme de modelos e de preços.


Stand na "FIL" aquando da visita do Chefe de Estado Almirante Américo Thomaz, em 1963

15 de Outubro de 1968 na revista "Plateia"

Quanto a António Bacelar Gouveia e a sua "Casa Gouveia Machado", nada melhor que transcrever uma síntese de dois apontamentos de Daniel Bacelar, em 9 de Dezembro de 2008, aquando do falecimento de Gouveia Machado em 3 de Dezembro do mesmo ano, em Miami, no belíssimo blog "IÉ-IÉ" de Luís Pinheiro de Almeida:

Nota: Daniel Bacelar foi apelidado de primeiro rocker português «e a expressão tem razão de ser. Quando em 1960 um EP de quatro canções chamado "Caloiros da Canção" anunciava a nova era, dois nomes novos dividiam as canções: duas eram pelos Conchas; as outras duas dele, e por ele, Daniel Bacelar» in: IÉ-IÉ. Faleceu em 29 de Setembro de 2017.

«Há já muito tempo que não experimentava uma decepção tão grande como a que senti há pouco quando tomei conhecimento da morte do Sr, Gouveia Machado (como nós "putos" de 19-20 anos o tratávamos com um enorme respeito).
Este Homem, foi mais que pai para toda aquela rapaziada roqueira, cheia ilusões e aspirações, facilitando sempre tudo vendendo o seu material a prestações a perder de vista, acompanhando tudo com aquele seu sorriso (como se pode ver na fotografia em que me encontro ao seu lado e rodeados pelos Shadows quando da sua única actuação com Cliff Richard no saudoso Império)


Gouveia Machado, Daniel Bacelar e os "Shadows"

Gouveia Machado era o representante da Fender para Portugal, por isso recebeu a visita na sua loja na Rua de S. José destes famosos músicos e grandes idolos da juventude daquela época.
Não me envergonho em dizer que neste momento é com dificuldade que retenho as lágrimas, pois este Homem, era um verdadeiro amigo do seu amigo, nunca o interesse comercial ficou acima de tantos e tantos músicos que se equiparam somente porque a sua amizade pelas pessoas não conhecia limites.


Facilitava as aquisições, deixava experimentar, fraccionava os pagamentos. Para muitos, foi a única oportunidade de terem algum dia nas mãos uma viola eléctrica Fender (nesse tempo ainda não se dizia guitarra, pois tinha-se uma noção mais enraizada de ser português) ou de percutir uma bateria Premier, ou soprar num saxofone Selmer.
Foi, nessa acepção, um incentivador, e a casa que dirigiu uma verdadeira escola. Tratava com a mesma deferência um violinista da Gulbenkian ou um «rocker» da Avenida de Roma. Do pai herdou o ouvido e vi-o afinar, rigorosamente, uma viola sem diapasão, corda a corda, sem voltar atrás uma vez que fosse.
O Quinteto Académico, como tantos outros grupos, deve-lhe muito. Sabia da nossa pretensão de termos sempre as últimas novidades.
O Sr. Gouveia Machado (assim o tratámos sempre, com a veneração inerente aos nossos 19 ou 20 anos) aceitava o material anterior (nunca muito usado) e facilitava os pagamentos do novo, lisonjeando-nos o ego dizendo: "Levem, que convosco não tenho problemas: em dois bailes pagam-me isto."
Todos nós lhe devemos TUDO e foi com enorme tristeza que pouco tempo depois do 25 de Abril soube da sua partida para o Brasil com a irmã Mité para não mais voltar vê-lo que soube agora. (...)»


Setembro de 1968


Na revista "Plateia", em 1973

A "Casa Gouveia Machado", encerraria definitivamente em 1976. Reabriria pelas mãos dum antigo funcionário Victor Silva, com a designação de "VS Instrumentos Musicais". Como já foi referido, António Gouveia Machado foi viver para o Brasil e mais tarde para Maimi, onde faleceria em 9 de Dezembro de 2008.

A casa "VS Instrumentos Musicais", também já não existe desde 2020.

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, IÉ-IÉ, Ilustração Portuguesa

20 de novembro de 2022

Fundição de Massarellos

A "Fundição de Massarellos" nasce em 1849, como parceria comercial entre Joaquim Lidoro de Castro, William Hawke e Joaquim Augusto Kopke (Barão de Massarellos), com um capital de 19.500$000 réis. Quanto à sua abertura, terá ocorrido em finais de 1851 início de 1852, com instalações fabris na Rua Praia de Massarellos, nº 60, no Porto. Transcrevo uma notícia publicada na "Revista Universal" de 16 de Janeiro de 1851, na qual, por sua vez, se transcrevia um «aviso» assinado por dois fundadores:

«NOVA FABRICA DE FUNDIÇÃO EM MASSARELLOS

Felicitamos a nossa industria fabril por mais um estabelecimento, com que a laboriosa cidade do Porto vae ser dotada, segundo nos consta pelo seguinte aviso, que mui gostosamente transcrevemos do Nacional.
Ha um anno que, Castro e Hawke estão construindo um espaçoso e solido edificio, proximo á barreira e alameda de Massarellos, que será aberto logo que montadas sejam as precisas e mais modernas machinas, por meio das quaes aviarão os differentes artefactos por mui commodos preços; e mesmo diversas machinas, assim como de vapôr, tanto terrestres como maritimas, por um dos socios directores (Hawke) ter sido empregado em uma das mais acreditadas fabricas de Inglaterra possuindo a precisa theoria e pratica.
Dedicar-se-ha mais particularmente em fabricar todo o necessário mechanismo para cardar, fiar, e tecer lã, seda e algodão. E além da pratica adquirida na mesma fabrica, alli e em local e compartimento accommodado ao effeito, se darão licções theoricas e praticas a todos os individuos, que methodicamente se quiserem applicar a tão util arte, para o que, desde já se convidam quantos o desejem, sem que por isso se exija compensação alguma.
Por um segundo aviso se annunciará a abertura do estabelecimento. 
Massarellos 7 de Janeiro de 1851
Castro e Hawke.»



"Fundição de Massarellos" na Alameda de Massarellos (dentro da elipse desenhada)


Para contextualizar o aparecimento da "Fundição de Massarellos" passo a descrever, sucintamente, o panorama metalúrgico na cidade do Porto, no século XIX.

A modernização do tecido industrial portuense no século XIX, passou, numa primeira fase, pela criação de um sector metalúrgico, o qual iria utilizar, pela primeira vez nesta cidade, a energia a vapor. São deste período inicial, a "Companhia de Artefactos de Metaes" - ou "Fundição do Rozario", por estar localizada na Rua do Rozario - fundada em 1837 por Francisco Inácio Pereira Rubião - começando por fabricar fogões e alambiques -, e a "Fundição do Bicalho", fundada em 1841, que foram as primeiras e mais importantes fábricas metalúrgicas da cidade nesse período. Não obstante ter sido a "Fundição do Rosario" a primeira a introduzir a energia a vapor, nos finais da década de 1830 ou nos primeiros anos da seguinte, foi a "Companhia de Fundição do Bicalho" - com estatutos publicados em 9 de Janeiro de 1851 - por David Hargreaves e John Eccles Martin - aquela que ganhou um papel de maior destaque no sector metalúrgico.

Factura da "Companhia dos Artefactos de Metaes"

 Parte dos Estatutos da nova "Companhia de Fundição do Bicalho" em 9 de Janeiro de 1851


Mas já em 6 de Março de 1945 uma "Imprudencia Funesta"

Em 19 de Janeiro de 1846, um grupo de três grandes proprietários de fábricas de fundição escrevem às Côrtes, para lembrar uma promessa da Câmara Municipal do Porto ...


No entanto, em 1849, a falência bate à porta da "Fundição do Bicalho", sendo então constituída uma nova sociedade para explorar a fábrica. Em 1856, Luiz Ferreira de Sousa Cruz - que, anteriormente, já tinha tentado estabelecer-se como industrial - entra para a administração da fábrica, como secretário, e em 1860 já era o seu arrendatário, tentando contrariar a má situação económica que a mesma então vivia. Não conseguiu, e abandona a "Fundição do Bicalho" em 1864, quando esta já era pertença de um novo proprietário, Eugénio Ferreira Pinto Basto.


"Fundição do Bicalho", numa foto de F. Flower

16 de Setembro de 1859

Sem grandes posses, mas munido do capital de conhecimentos e de experiência adquiridos na "Fundição do Bicalho", Sousa Cruz decide então instalar-se por conta própria, fundando a sua firma "Luiz Ferreira de Souza Cruz & Filhos", em 1864, proprietária da fábrica metalúrgica. Apesar de se debater com carência de capitais, conseguiu erguer rapidamente três barracões de madeira, no Campo de Ferreiros, freguesia de Lordelo do Ouro, dando ali logo início à actividade da fábrica, a que chamou de  "Fundição do Ouro". As instalações definitivas, ocupando uma área de 3000 metros quadrados, foram inauguradas dois anos mais tarde, em 15 de Agosto de 1866. Apesar das inúmeras vicissitudes por que passou ao longo da sua existência, no início do séc. XX a "Fundição do Ouro" readquiriu a sua estabilidade económica e empresarial, ao integrar a "Companhia Alliança", a qual já era proprietária da mais importante fábrica metalúrgica do Porto, a "Fundição de Massarellos"


12 de Dezembro de 1891

25 de Dezembro de 1891

Em relação à origem dos proprietários de fábricas, a primeira geração de fundições foi geralmente constituída por engenheiros ou operários, quase sempre ingleses, com o apoio do capital de alguns notáveis da cidade. Algumas experiências insipientes e efémeras caracterizaram também este período que poderá ser balizado entre as décadas de 1840 e 1850. A segunda geração de fundições, nas décadas de 1860 e 1870, foi constituída normalmente por ex-operários das fundições mais antigas ou por ampliações de oficinas de serralharia já existentes.



Principais fundições de Lisboa e Porto no "Mappa de Portugal Antigo e Moderno"  de João Baptista de Castro, em 1870

Como foi referido no início, "A Fundição de Massarellos" nasceu em 1849, como parceria comercial entre Joaquim Lidoro de Castro, William Hawke e o Barão de Massarellos, e terá começado a funcionar entre finais de 1851 e princípio de 1852.


"Fundição de Massarellos"



Localização da "Fundição de Massarellos"

A sua história começa com o inglês William Hawke. Este veio para Portugal como oficial de carpintaria de moldes da "Fundição do Bicalho" (de David Hargreaves e fundada em 1841). No entanto, pouco tempo após ter casado com uma irmã de Hargreaves, foi despedido. Pensou então em fundar a sua própria fabrica e tentou convencer Joaquim Lidoro de Castro a formarem uma sociedade, e a seguir pediram o apoio do Barão de Massarellos. Este cedeu-lhes um edifício para a instalar a fábrica. Recorde-se que o Barão de Massarellos tinha sido accionista da "Companhia de Artefactos de Metais" ("Fundição do Rosario").

No entanto, nos primeiros anos, a fábrica não progredia e as dívidas iam aumentando, que iam sendo pagas pelo Barão de Massarellos. Esta situação termina em 1852, com a entrada na sociedade de Gaspar da Cunha Lima, que tinha abandonado, nesse ano, o lugar de professor na Escola Industrial do Porto. Este já estava ligado à industria da fundição de metais desde o início da década de 1840, pois tinha sido director da "Companhia Perseverança" (ex-"José Pedro Collares, Gomes & Irmão"). Por outro lado, antes de se juntar à sociedade, Gaspar da Cunha Lima tinha feito parte da sociedade anónima que geria a "Fundição do Bicalho".


Com a entrada de Gaspar da Cunha Lima, acompanhado de Antonio Thomaz Negreiros, a fabrica passa para a posse da "Companhia Alliança", passando a fundição a designar-se "Companhia Alliança - Fundição de Massarellos". William Hawke continuava responsável pela parte técnica da fabrica, tendo ficado Gaspar da Cunha Lima com o cargo de director geral, durante muitos anos. Em 1861 não só a fabrica ganhou uma medalha de prata com distinção, como o próprio Gaspar da Cunha Lima.


Factura de Julho de 1961

Em 1881, a fabrica estava instalada em armazéns que não tinham sido construídos para fundição e que, por isso, possuíam deficientes iluminação e ventilação, assim como o espaço era exíguo para uma fabrica com tão grande volume de trabalho. A máquina a vapor primitiva era de 1851, de fabrico inglês e com 16 cv. Em 1870 já possuía outra com 8 cv. As caldeiras primitivas tinham sido substituídas, havia alguns anos, por outras, construídas na própria fabrica. Os laminadores de calandra para chapa e o punção-tesoura da oficina das caldeiras, possuíam também uma máquina auxiliar, cuja caldeira vertical, isolada, alimentava o guindaste a vapor colocado no cais, sobre o rio. As máquinas eram consideradas boas e, em parte, inglesas, havendo também outras construídas na própria fábrica, mas feitas segundo modelos estrangeiros.

"Fundição de Massarellos" em frente ao "seu" cais de Massarellos

Em 1881, a fabrica respirava prosperidade. No ano anterior tinha produzido um valor total de 72.000$000 réis. Na gestão já estava Joaquim Carvalho de Assunção, que tinha assumido o cargo recentemente, uma vez que em 1878 ainda era director Gaspar da Cunha Lima. O diretor de fabrico era William Hawke, que recebia como honorários 10% dos lucros líquidos anuais, com um valor mínimo estipulado de 900$000 réis. De referir que, William Hawke tinha abandonado a "Fundição de Massarellos" em 31 de Dezembro de 1873, para fundar a sua própria fabrica - a "Fundição de Monchique" -, mas regressaria à "Fundição de Massarellos" em 1880.

Principais fundições de ferro no Porto, no "Almanach Comercial de Lisboa" de 1885

Em Agosto 1882, aquando da inauguração da "Linha da Beira Alta" dos "Caminhos de Ferro da Beira Alta" (entre a Figueira da Foz e Vilar Formoso), o Rei D. Luiz I, no seu regresso de Vilar Formoso para Lisboa, parou em Massarelos a 14 de Agosto, para visitar a "Fundição de Massarellos".

«O Rei aclamado pelos operarios, louvou muito os trabalhos que lhe foram apresentados. Os chefes de oficina, os srs. Joaquim Francisco Praça, Manoel Lugarinho e João Barros, foram recebidos por sua majestade, que, depois de lhes ter dirigido algumas palavras, colocou-lhes no peito a cruz de cavaleiros da Ordem de Cristo».

No processo de crescimento da "Companhia Alliança" registou-se, em 1899, a construção de uma unidade auxiliar, próxima da "Fundição de Massarellos", dedicada à especialidade de caldeiraria, a "Caldeiraria de D. Pedro". Em 1906, a companhia aumentou a sua dimensão através da aquisição da "Fundição do Ouro", passando assim a explorar os dois maiores estabelecimentos metalomecânicos da cidade do Porto.


24 de Setembro de 1894

25 de Dezembro de 1895

O progresso desta fundição foi evidente e, em pouco tempo, já era considerada a maior e melhor fundição do Porto e do país, só superada pelas "Empreza Industrial Portugueza" e "Companhia Perseverança" ("Fábrica Collares"), ambas em Lisboa. Devido ao grande volume de encomendas, a "Fundição de Massarellos" chegou a laborar nos dias santos e durante a noite.

Um anúncio publicitário, publicado em vários jornais e almanaques na década de 1880, descrevia a "Fabrica de Massarellos" da seguinte forma:

«Um dos maiores estabelecimentos d'esta natureza no paiz (...) está habilitada desde ha muitos annos a produzir, com rapidez, melhor e mais barato do que qualquer outro estabelecimento, aqui ou em Lisboa. 
Fornece e tem fornecido toda a qualidade de obras em ferro fundido, forjado e metal (...).
Varias medalhas e distinções honrosas nas diversas exposições a que tem concorrido.»

Na "Fábrica de Massarellos" foram, a título de exemplos, antes de 1881, executadas as seguintes obras: doze máquinas a vapor; as marquises das gares de Nine e Viana; os elevadores hidráulicos das alfândegas de Lisboa e Porto; duas lanchas de vapor para a Alfândega do Porto; cinquenta moinhos para grão; parte da estufa do Jardim Botânico de Coimbra; parte da estrutura de ferro do Mercado Ferreira Borges; Ponte do Pinhão; a estátua de D. Afonso Henriques, em Guimarães; etc. Assim como muitas em obras para os cemitérios da Foz do Douro, da Lapa, de Agramonte e Prado do Repouso, de Leça da Palmeira, de Braga, etc.


Fachada da Ourivesaria e Joalharia "Reis, Filhos, Lda." fabricada pela "Fundição de Massarellos" em 1880


Elevador e bebedouro


"Mercado Ferreira Borges", obra da "Fundição de Massarellos" e construído entre 1885 e 1888

Em 1904, a direcção e pessoal técnico da "Companhia Alliança" - "Fundição de Massarellos" e Fundição do Ouro", era composta pelos seguintes elementos ...


1904


28 de Dezembro de 1906


Stand da "Companhia Alliança" na Exposição Industrial do Porto em 1921

Em 1917 a "Companhia Alliança" explorava três unidades produtivas no Porto: a "Fundição de Massarellos", a "Fundição do Ouro", e a "Caldeiraria de D. Pedro". A maior unidade era a de Massarelos, que se considerou ser um dos estabelecimentos metalomecânicos com mais de 250 operários. Já em 1909 empregava 210 e no ano seguinte sensivelmente o mesmo número.


Na tabela, a "Carlos Alfredo da Silva, Lda" era a proprietária da "Fábricas Vulcano e Collares", em Lisboa

A "Companhia Aliança - Fundição de Massarelos" viria a encerrar, definitivamente, em 1975 ...


Do que resta da "Fundição de Massarelos", com o palácio do Barão de Massarelos na rectaguarda

Quanto à "Fundição do Ouro", também propriedade da "Companhia Aliança",  no princípio da década de 80 do século XX, e após 125 anos de actividade, encerra definitivamente. Em Maio de 1984, as instalações, os terrenos (14.000 m2) e o espólio da fábrica são alvo de um auto de penhora, sendo igualmente fixada para Novembro desse ano a sua arrematação em hasta pública.

Bibliografia:

- “Subsídios para a História das Fábricas de Fundição do Porto no Século XIX”, de Francisco Queiroz - Publicação da "Associação Cultural Amigos do Porto" - Boletim 2001, 3ª série nº 19.

- "O Triste Fim da Fundição do Ouro" - José Manuel Lopes Cordeiro - Jornal "O Público" de 25 de Abril de 1999.

- "A Companhia de Artefactos de Metais Estabelecida no Porto (1837-1852) - J. Francisco Ferreira Queiroz - Arqueologia Industrial nº 1 e 2 - 2005.

- "A Produção de Mobiliário Urbano de Fundição em Portugal: 1850 a 1920 - Tese para grau de Doutora - Sílvia Barradas - Universidade de Barcelona (Julho de 2015).

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaDelcampe.net, Arquivo Municipal do Porto, Biblioteca Nacional Digital, Porto de Antanho, Francisco Queiroz