Restos de Colecção: Cacilhas
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18 de outubro de 2018

Empresa de Camionetes Piedense

A "Empreza de Camionetes Piedense, Lda.", foi fundada em 2 de Abril de 1928 na Trafaria, por João Baptista Carneiro Zagallo e Mello e António Fabrero Antunes, criando o primeiro serviço público de transportes de passageiros em autocarros no Concelho de Almada, quando as povoações ainda eram pequenas e as estradas péssimas.

Primeiras camionetas da "Empreza de Camionetes Piedense" em Cacilhas

 

As suas primeiras instalações, garagem, oficinas e sede, localizaram-se na Avenida Marginal, na Trafaria, na antiga “Fabrica 23 de Fevereiro”, de conservas, da firma “Marianno, Martins & C.ª”, que existiu na segunda década do século XX, «originariamente de Setúbal, que dispunha de um cerco americano constituído por um galeão, oito buques e um vapor, com tripulações trafarienses e pesca ao largo da Costa de Caparica, sendo frequentes conflitos com companhas de arte xávega.» e … «tem frota pesqueira própria em nome da firma (uma embarcação e ancoradouro) e recorre a mão de obra local e forasteira».

Garagem e sede da “Empresa de Camionetes Piedense, Lda.” na Trafaria (dentro da elipse desenhada), em 1955

Cabeçalho de carta da “Marianno, Martins & C.ª”

Acerca do início da actividade da ”Empresa de Camionetes Piedense, Lda.”, o jornal do destacamento misto do Forte de Almada, o “Sentinela de Almada”, relatava em 1930:

«Para corresponder a estas necessidades, a Empresa de Camionetes Piedense L.da arrojou-se a estabelecer carreiras entre todas as povoações do concelho, servindo-se assim a Cova da Piedade, Pragal, Monte de Caparica, Charneca, Sobreda, Trafaria, V.a Nova e Praia da Costa.
Esta empresa, hoje uma das mais importantes nos seu genero no nosso país, pôz ao serviço das referidas carreiras os carros mais comodos e luxuosos do mercado, marcas GMC e Buick, com horarios que cumpre com todo o rigor, com carros de reserva para garantia no caso de qualquer superveniencia; - é um raro exemplo de organisação, tenacidade e arrojo que bem merece a contemplação e protecção das instancias e do publico
.
Como em toda a parte, a concorrencia com carros inferiores tem procurado tirar proveito dos sacrificios que aquela Empresa fez para estabelecer as carreiras dentro do concelho, mas o publico tem correspondido, fiel e constantemente, aos esforços e modelar serviço da Empresa Piedense.»

Autocarro “Buick” estacionado na Trafaria

Largo de Cacilhas, com autocarros da “Piedense” ao fundo à esquerda nesta foto de 25  de Maio de 1931, referente à chegada dos concorrentes da prova dos 10.000 Kms, organizada pelo Automóvel Club da Alemanha

1934

Primeiros autocarros da “Empreza de Camionetes Piedense, Lda.”, no Largo de Cacilhas

Com o crescimento notável desta empresa, os dois sócios e concessionários do serviço, separaram-se ficando a "Empreza de Camionetes Piedense, Lda" na posse de António Febrero, enquanto que João Zagallo e Mello ficava com o sector dos transportes da Piedense, com o nome de "Autocarros do Sul, Lda.", que daria origem à “Transportes Beira Rio, Lda.” em 1943, e cuja história ilustrada poderá consultar, neste blog, no seguinte link: Transportes Beira Rio, Lda.

Publicidade em 1949

 

Paragem na Trafaria

Piedense.1 

Em 10 de Agosto de 1944 é efectuado um aumento de capital da "Empresa de Camionetes Piedense, Lda.", sendo elevado o seu capital de 20.000$00 para 150.000$00, inteiramente realizado e assim subscrito pelos dois sócios: José de Sousa e Silva 99.900$00 e Agostinho Ramos Munhá com 30.100$00. Simultâneamente a sede da empresa passa da Cova da Piedade para a Trafaria. Possuía, nesta data, doze carros de carga e passageiros conforme imagem seguinte.

Frota em 10 de Agosto de 1944

Em 31 de Outubro de 1952 e segundo a revista inglesa “Commercial Motor Archive”, a frota da “Empresa de Camionetes Piedense, Lda.”, era de 44 autocarros, a maioria dos quais com base nos chassis “Volvo” e “Berliet” de motor frontal. As carrocerias em alumínio eram, inicialmente, construídas nas oficinas da própria empresa, localizadas na Trafaria e dirigidas por Agostinho Ramos Munhá. O material utilizado era, em grande parte, fornecido pela empresa britânica “Aluminium Union, Ltd.”. Mais tarde, passariam a ser construídas por empresas especializadas em carrocerias, como atesta o seguinte anúncio publicitário de 1949.

“Berliet” PCK e suas características numa carroceria similar

 

A mesma revista inglesa referia em relação aos autocarros:
«As carrocerias apresentam-se sem pintura, e têm-se revelado particularmente fáceis de limpar e manter. As grandes janelas curvas, à frente e atrás, e as portas de dobrar são características do design. O sistema de entrada de passageiros pela traseira e saída pela frente, com o sistema de portas dobráveis, operadas manualmente, é generalizado em Portugal.
Os interiores são revestidos a alumínio natural, com estofos em vermelho. As janelas são de correr, de manuseamento rápido, com cortinas, e as luzes do teto têm painel antirreflexo. As camionetes têm instalado um relógio e um aparelho de rádio porque também são usadas ​​em serviços interurbanos e de turismo.
Acima do lugar do motorista está um espelho à largura total que lhe dá uma visão completa do interior e, a seu lado, está disponível um assento especial para funcionários da empresa e da polícia, que são transportados gratuitamente.
São transportados pelos veículos mercadorias, correio e passageiros. As mercadorias são transportadas no tejadilho (...) Na parte traseira do veículo, do lado de fora, há uma caixa de correio (...).
Apesar, da qualidade dos veículos britânicos ser admirada pelo director da empresa, este crê que actualmente não é viável a compra de mais veículos britânicos, tendo em conta o seu preço. Os veículos franceses e suecos sempre prestaram boas provas.»
Textos anteriores, entre aspas em itálico, foram transcritos a partir do blog “Almada Virtual Museum”.

“Volvo” B513 de 42 lugares, da “Piedense” e estacionado em Cacilhas por volta de 1952

Outra área de actividade, dentro do transporte de passageiros foi a criação dos, conhecidos por “comboios”, na Costa da Caparica. Estes não eram mais que pequenas composições de passageiros, abertas e atreladas umas às outras e puxadas por um pequeno tractor. A sua actividade restringia-se aos meses de verão e consistia no transporte de passageiros entre o terminal de camionetes da Costa da Caparica e a praia.

Atrelado (vulgo “comboio”) da “Piedense” no centro da Costa da Caparica

Autocarros estacionados junto ao Mercado da Costa da Caparica

1953

A “Empreza de Camionetes Piedense, Lda.", além das carreiras regulares, mantinha oito ligações (ou comummente designadas por “carreiras”) de longa distância, para o Sul e Centro de Portugal. Estas ligações abrangiam uma distância total de cerca de 1.600 quilómetros. Entre carreiras regulares e de longa distância, esta empresa transportava, anualmente (dados de 1952) cerca de 2 milhões de passageiros nos cerca de 34 milhões de quilómetros percorridos.

12 de Julho 1957

 

Horário para 1958

 

Piedense.2

Em 7 de Junho de 1966, e a propósito da inauguração da sede do "Clube Desportivo e Recreativo da Empresa de Camionetas Piedense" o jornal "Diario de Lisbôa" escrevia:
«Foi recentemente inaugurada a sede do Clube Desportivo e Recreativo da Empresa de Camionetas Piedense, que dispõe de optimas instalações para a sua massa associativa.
Também foram eleitos os novos corpos gerentes que ficam a ser presididos pelos srs. Venceslau Parreira (assembleia geral), Alberto Almeida Costa (direcção) e Constantino Lopes dos Santos (conselho fiscal).
A novel colectividade propõe-se promover diversas iniciativas de interesse.»

Entretanto, a “Empresa de Camionetes Piedense Lda.”, propriedade de Fernando Sobral José e José de Sousa e Silva, funde-se com a “Transporte Beira Rio, Lda.” dos irmãos Zagallo e Melo, dando origem à nova empresa “Transul - Empresa de Transportes, Lda.”, oficialmente constituída em 1 de Janeiro de 1968, e cujos autocarros ostentavam cores das duas empresas fundidas: vermelho da Beira Rio e prata da Piedense. De referir que esta nova empresa já tinha começado a operar pouco depois da inauguração da “Ponte Salazar”, em 6 Agosto de 1966.

A “Transul - Empresa de Transportes, Lda.”, tornava-se, assim, na empresa portuguesa com a mais jovem frota do país. No final do ano de 1968, já tinham ultrapassado os 200 autocarros, possuindo a segunda maior frota do país de veículos para Turismo, a seguir à empresa “Claras Transportes, S.A.R.L.”.

Em 29 de Abril de 2016 a Câmara Municipal de Almada foi autorizada a comprar as antigas instalações da “Empresa de Camionetes Piedense, Lda.” que detinha no centro de Almada e na Trafaria.

“Restos mortais” das instalações da “Empresa de Camionetes Piedense, Lda.” na Trafaria

 

 Fotos gentilmente cedidas por Carlos Caria

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Memórias de Empresas e Autocarros Antigos,  Almada Virtual Museum, almaDalmada, Jornal de Almada

30 de setembro de 2018

Restaurante “Floresta do Ginjal”

O restaurante “Floresta do Gingal”, propriedade de “José A. de Melo & Filhos, Lda.”, foi inaugurado nos primeiros anos da década de 50 do século XX, no Ginjal, Cacilhas.

“Floresta do Ginjal” dentro da elipse desenhada

Edifício da “Floresta do Ginjal” em duas perspectivas em lados opostos

 

O Ginjal compreendia toda a extensão da margem sul do Tejo, entre a Estação Fluvial, de embarque de Cacilhas, e os armazéns situados no cais, junto às “escadinhas” que dão acesso a Almada, pela “Boca do Vento”. Era um local muito frequentado pelos lisboetas devido aos típicos retiros com os “comes e bebes” e onde se cantava o fado. A vida castiça dos clientes que frequentavam as antigas tabernas e os “retiros” do Ginjal foi registada por alguns escritores e jornalistas de Lisboa. Desde os princípios da década de 1910, os “retiros” da “Marraca”, da “Parreirinha” e, em especial, do “Retiro Universo”, assim como a famosa taberna do “Corredor”, (onde Luís dos Galos se viria a estabelecer poucos anos depois), eram locais muito procurados pelos alfacinhas. Por exemplo, o antigo “Retiro Universo”, situado junto ao cais que dava acesso pelo Ginjal, n.º 6 - escada, ou pela Rua das Terras, actual Rua Carvalho Freirinha, por volta de 1900, possuía um belo salão onde se exibia um dos melhores animatógrafos desta margem do Tejo, aos sábados e domingos. Atraídos pelo fado e boas caldeiradas e do vinho de “pique” ou de “agulha”, organizavam-se tertúlias que duravam de manhã até às altas horas da noite.

 

Um artigo datado de 19 de Setembro de 1931 no jornal “O Almadense”, com o título “Os restaurantes do Ginjal vão-se civilizando”, mostrava que há muito se criara o hábito de aí procurar boa comida e boa bebida:
«Os toldos de serapilheira que lhes tapavam as portas noutros tempos e a fila de fogareiros de barro onde se assavam sardinhas e se abria o marisco, tudo isso desapareceu para dar lugar a casas decentes onde decentemente se pode comer». Criavam-se, assim, condições para que cada vez mais pessoas se deslocassem propositadamente ao cais do Ginjal para apreciar os petiscos preparados nos vários restaurantes da zona.

«Do lado de Cacilhas, estes ocupavam logo os primeiros edifícios. Começando aqui pelo princípio do Ginjal, há o Farol, que era dantes a Fonte da Alegria, que era uma tasca. Foi sempre uma tasca que deu muito dinheiro… Aquilo a vender sandes e copos era um disparate! (…)  Depois, onde está aquele restaurante baixinho, era o restaurante da Maria Vagueira.
Depois a entrada da Floresta era aquela entrada que ia dar a uma tasca lá por cima, pela Rua das Terras (…). Depois a seguir havia um restaurante que era o Pepe. (…) Depois ainda havia o Pita, que era o restaurante Abrantino no primeiro andar, que ardeu, e por baixo outro restaurante que era a Palmira das Batatas. (…) Depois ao lado era o Gonçalves (…) e a seguir era o restaurante da espanhola. Era a mãe da Madalena Iglésias. Ao fundo do cais ainda havia o Ponto Final. (…)
O Floresta do Ginjal (…) era assim chamado por ser todo tapado com folhas de parreira, permitindo a realização de grandes festas com fados (…).»

“Fonte da Alegria” com o «Hispano-Suiza» de D. José de Anadia aquando da partida para uma excursão a Sevilha em 1912

  

O edifício do restaurante “Floresta do Ginjal” foi adquirido pelo Santos da “Floresta". Posteriormente este vendeu a José Alves de  Melo, que criaria a firma “José A. de  Melo e Filhos, Lda.”.  A “Floresta do Ginjal” tinha um porteiro recepcionista para receber e dar as boas vindas aos clientes, de seu nome Silvano, que também trabalhou na sucursal “Churrasqueira do Ginjal”, propriedade do mesmo José Alves de Melo, existente ao lado da “Floresta do Ginjal”. No rés-de-chão do edifício ficavam os armazéns de azeites, óleos e vinhos de “José Pinto Gonçalves Lda”.

Com a sua original entrada o antigo restaurante “Floresta do Ginjal”, foi uma referência gastronómica de então em Cacilhas, que atraía muita gente, incluindo e sobretudo de Lisboa que se dispunha a atravessar o Rio Tejo nos famosos “cacilheiros” para ir almoçar à «outra banda», para disfrutar também da maravilhosa vista sobre Lisboa, que se avistava das suas salas no primeiro e segundo andares.

Postal

7 de Agosto de 1964

Entrada da “Floresta do Ginjal” e copo com a imagem da mesma

  


Postal, copo e este cartão gentilmente cedidos por Carlos Caria

Em entrevista ao Jornal de Notícias de 15 de janeiro de 2011, Álvaro Pereira, de 55 anos, que trabalhava no restaurante "O Farol", e que resistiu ao declínio da zona, recordava: «Vinha aqui gente do Norte para o Grande Elias. A fama das caldeiradas era daqui. As pessoas atravessavam o rio só para comer a caldeirada. E a Floresta do Ginjal chegava a ter 70 trabalhadores ao fim-de-semana. Muita gente casou ali».

Com o declínio e encerramento da “Floresta do Ginjal” como restaurante, e pouco tempo depois de ter fechado as portas como casa de pasto, alguns empresários, a partir de 2006, resolveram utilizar o espaço vago como sala de espectáculos musicais, apresentando bandas de música alternativa.

    

«Era comum cruzarmo-nos nas imediações do Ginjal com gente que primava pela diferença, essencialmente pela sua forma peculiar de vestir e pentear. Ao passarmos pela "Floresta" éramos obrigados a escutar sons metálicos que aconselhavam as gaivotas a voar para outras freguesias. Hoje a música continua, mas é bastante diferente... O som que sai das janelas é mais calmo e tenta reviver os bailes e as músicas mais apropriadas para se dançar aos pares, dos anos cinquenta e sessenta. Pelas suas portas entram homens e mulheres de meia idade, à procura de muitas coisas, com um destaque especial, para o combate à solidão.» 

Em 23 de Novembro de 2012 seria substituído pelo “Bar Floresta do Gingal”

 

 

Foi assim até 2015, altura em que a 28 de Fevereiro desse ano, foi inaugurado o “Ginjal Terrasse” ocupando o primeiro andar do antigo restaurante “Floresta do Ginjal”.

                     

 

Ao celebrar o seu segundo aniversário, em 2017, o “Ginjal Terrasse” organizou um festival, com três dias e várias propostas. Foi uma grande festa com muita música, animação e vista sobre o rio Tejo e Lisboa. «Queremos ter uma oferta diversificada e apelar a vários públicos porque o Ginjal não é uma sala fechada num género musica»”, explicava na altura o programador David Pinheiro. Actualmente, continua a funcionar, quer como discoteca com dj’s, quer com espectáculos e concertos ao vivo, servindo pequenas refeições.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Delcampe.net