Restos de Colecção: Leitarias
Mostrar mensagens com a etiqueta Leitarias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leitarias. Mostrar todas as mensagens

25 de março de 2026

Leitaria Araújo

A "Nova Leitaria do Camões", localizada na Praça Luiz de Camões, 41, em Lisboa, terá aberto pela primeira vez em 1923 sendo na altura propriedade da firma "Araujo & Araujo", e veio substituir o antigo "Capilé do Camões". Em 1937, já aparecia como pertencendo a José Esteves Araujo. Ostentava no seu início um placard publicitário em que referia "Antigo Capilé do Camões", e um pormenor importante «Aberto toda a noite» ...


1933


Possívelmente o "Capilé do Camões", ao lado do "Ascensor Camões-Estrela" (entre os dois toldos) e que deixou de funcionar em 1913, durante a "Procissão do Entêrro"

Com se pode ler na fachada deste estabelecimento ali se vendiam os seguintes produtos: pastéis de Belém, limonadas, xaropes, capilé gelado, Guaraná, águas de mesa minerais, gazosas, carapinhadas, champagne, licores, vinhos do Porto e da Madeira, tabacos, chás e torradas, etc. Enfim, um manancial de bebidas para todos os gostos, além do pormenor importante de permanecer aberta toda a noite .


Com grande probabilidade o sr. José Araújo nesta foto e na do anúncio seguinte

1937

Nesta loja, nº 41, tinha estado instalada antes, a loja de fogões e utensílios para cozinha de Joaquim Ignacio dos Santos, conforme fotos seguintes. A seguir, no nº 42, a loja de loterias e tabacos de João Gomes da Costa, que viria a ser substituída, em 1918, pela "Papelaria Camões".


No nº 41 (2ª porta a contar da esquerda) a loja de Joaquim Ignacio dos Santos


No nº 40 (1ª porta a contar da esquerda e na esquina com a Rua das Gáveas), a Antiga Tabacaria Justino de Antonio Pedro da Silva


1905

A partir da década de 40 do século XX já esta leitaria tinha a designação de "Leitaria e Pastelaria Araújo", - na foto seguinte tirada após 1943, já que a empresa "Movex, Lda", fundada em 1943 e instalada no primeiro andar,  aqui alvo de um incêndio - para anos mais tarde passar a chamar-se apenas "Leitaria Araújo". E foi com esta última denominação que encerrou nos finais dos anos 60 do século XX.


Incêndio nos escritórios da "Movex, Lda.", por cima da "Leitaria e Pastelaria Araújo" e "Papelaria Camões"

"Leitaria Araújo" com a "Papelaria Camões" a seu lado, em foto de Março de 1965


"Leitaria Araújo" encerrada em finais dos anos 60 do séc. XX ( foto in: "Lisboa Desaparecida" Vol. IV de Marina Tavares Dias)

Na foto seguinte (in: "Lisboa Desaparecida" Vol. IV de Marina Tavares Dias) pode-se ver à direita da "Leitaria Araújo" (na foto) e da esquerda para a direita: a "Papelaria Camões" (encoberta pela camioneta), a loja da "Companhia União Fabril", e a "Leitaria Trevo, Lda.", já na esquina com a Rua da Misericórdia. 



A concorrência 3 portas abaixo, na esquina com a Rua da Misericórdia, em anúncio de 24 de Dezembro de 1934

Como já referi anteriormente, a "Leitaria Araújo" encerrou definitivamente em finais dos anos 60 do séc. XX.

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa

3 de setembro de 2025

Leitaria Garrett

No ano de 1915 a "Leitaria Garrett" já funcionava na Rua Garrett, 46, em Lisboa. Anteriormente tinha funcionado nessa loja a relojoaria de José Pires da Silva entre 1881 e 1907, e que a partir de Maio de 1909 passaria a designar-se "Relojoaria Suissa" na posse da firma "Pereira & Miranda". Seguiu-se-lhe a loja de carteiras e afins, de Manoel P. Mendonça, a partir de 1908.

"Leitaria Garrett" e o sr. João, seu proprietário

Nota: A foto anterior é certamente após 1955, já que a "Rajá" (cartaz visível à direita na foto) foi fundada em Portugal em 1955, - com as suas instalações fabri na Serra de Monsanto - tendo sido líder de mercado até ser adquirida em 1970  pela "Olá", pertença do grupo "Unilever".


"Leitaria Garrett" em foto de 14  de Maio de 1915 (in: "Lisboa Desaparecida" Vol 4 de Marina Tavares Dias)

Depois de em 1891 existir uma "Relojoaria Suissa" na Rua das Gallinheiras, 87, em Lisboa, propriedade da firma "Meyer & C.ª" ...


18 de Dezembro de 1891

Eis que se instala, em 1909, na Rua Garrett, 46 uma outra "Relojoaria Suissa" ...


2 de Junho de 1909


Foto provavelmente de 1907 com a relojoaria de José Pires da Silva encerrada, dentro do rectangulo vermelho

Dezasseis anos depois da abertura da "Relojoaria Suissa" abria mesmo defronte, no outro lado da rua, e em 1897 a "Joalharia Eloy de Jesus", que se tinha mudado da Rua de São Paulo para a Rua Garrett 43-45.

26 de Agosto de 1897

De referir que a "Leitaria Garrett" tinha a fama de ter um belíssimo café de saco.

Relativamente à "Leitaria Garrett", propriedade da firma "Antunes, Castanheira & Rodrigues, Lda.", passo a transcrever um artigo publicado no "Diario de Lisbôa" de 31 de Julho de 1981, aquando do seu encerramento definitivo na véspera dia 30 de Julho.


Anúncio publicado do "Diario de Lisbôa" em 6 de Agosto de 1981

«Do Chiado desapareceu mais um lugar de convivio. Trata-se do número quarenta e seis da Rua Garrett, uma velha leitarla, com três ou quatro mesas que durante quase um século manteve o ar anónlmo de botequim de bairro. Nao tinha nome que a identificasse mas era poiso certo dos alunos das Belas-Artes que nele gastavam as horas mortas, nos intervalos das aulas.

Ontem à tarde, por volta das 19 e 30, encerrou a porta para sempre, perante o desapontamento dos seus habituais clientes que lhe renderam uma última homenager. Mesmo por baixo do letreiro onde se lê Antunes, .Castanheira e Rodrigues, foi colocada uma coroa de flores, indIcativa de morte. Gesto, aliás, que espicaçou a curiosidade dos transeuntes, nacionais e estrangeiros que passavam no Chiado. Alguns dos fregueses da velha leitaria fizeram questão em beber o «martini histórico», convictos de que nunca mais teriam outra oportunidade ...


Localização da "Leitaria Garrett" entre os tapumes e a "Miranda & Filhos"

Dentro de pouco tempo, um pronto-a-vestir vai substituir a velha leitaria, nesta escalada veloz para a banalização da cidade de Lisboa, outrora de rosto digno como o povo que é povo autêntico. Mais um crime a juntar aos outros cometidos, aqui, no Chiado - comentou para o «DL», João, cliente tão antigo e tao regular que quase fazia parte do mobiliário da casa. Acaba tudo, agora não temos outro remédio senão comer de pé, ombro a ombro como nas manjedouras ...

Também o actor-encenador João Lourenço, nascido, ali, na Rua Garret, no prédio fronteiro à leitaria, lamenta a transfiguração que lentamente está a sofrer aquela zona de Lisboa. Conheci três gerações na leitaria. Estragam a cidade e a Câmara exulta de contente ... Máquinas fotográficas, nas mãos dos clientes, captaram para os álbuns de recordações a fachada da leitaria, ao lado da qual se juntou, ern clima de espectáculo, um grupo de pessoas. Era necessário chamar as atenções, embora sabendo que nada iria mudar o curso das coisas. Quem conseguiu evitar a morte do café Chiado, a extinção da papelaria Havanesa, a destruição da Brasileira?


Localização da "Leitaria Garrett"  em foto de 1939

O jornalista José de Lemos, figura do Chiado, com a paixão de Lisboa, associou-se ao grupo de protesto que assinalava, com copos e música, o fecho da leitaria. Reparem que lindo ... já não há disto. Referia-se à tabuleta, em letra redonda, onde sobressaía esta informação: Esmerado serviço de chá e torradas.

A leitaria Garrett definia-se por Uma frequência heterogénea, apesar da constância de uns tantos sentaram-se advogados, estudantes, pintores, poetas, escritores, mulheres de limpeza, empregados de balcão, professores ... Enfim! Gente das mais variadas classes sociais. Nos anos cinquenta fechava por volta das duas horas da manhá ... Recorda João. (proprietário)

Depois das sete, participou na homenagem o cabeleireiro António, outra figura do Chiado que consumia os tempos livres, ora na leitaria, ora na Brasileira. Qualquer dia já não sabemos para onde ir ... Foi este o seu comentário.

Morreu a leitaria. Paz à sua alma. À laia de despedida o cantor Vitorino, freguês do quarenta e seis da Rua Garrett, desde os seus tempos de Belas-Artes, acompanhado pelo maestro Vitorino de Almeida tocou acordeão, enquanto algumas pessoas dançavam.

O último dia da leitaria Garret.

Um imenso adeus ...»


"Leitaria Garrett" logo após o encerramento (in: "Lisboa Desaparecida" Vol 4 de Marina Tavares Dias)


Capa do LP (vinyl)  de Vitorino, lançado em Dezembro de 1984

O cantor, músico e arranjador Vitorino Salomé (1942 - ) numa entrevista ao jornal "Blitz" em 6 de Novembro de 1984, no mês anterior ao lançamento do álbum "Leitaria Garrett", comentava: 

«Ainda ontem estive a cantar, numa tasca - os alentejos trequentam multo tascas - com um pessoal do Alentejo. Essa boémia de que se fala, de que me farem falar, è uma questão de  formação, de hábito cultural. A antiga 'Leltaria Garrett', que fol trequentada por multos estudantes de Belas-Artes durante várias gerações, e onde cheguei a estar sentado dez horas seguidas, era um dos úitimos locais possivels de convivio depols da destruição do Gelo, do Café Porlugal, do Martinho e da quase destruição da Brasileira. Agora já quase não existem esses sitios para estar, beber um copo, calmo e barato, e conversar com os amigos.»

Aqui fica a letra da canção "Leitaria Garrett":

No Chiado à tardinha, às vezes,
Sorridentes vão de mão na mão,
Bons rapazes, são bons portugueses
Ai Madame a sua indigestão

Ideal das empregaditas
A finória vai um figurino
Tão caraça, veste muitas chitas
Diz olé! prò Montefiorino

Leitaria Garrett dá cá o pé
Ai tira a mão, João,
Da coxa doce,
Já está, antes não fosse...
O Saricoté, foi parar à Marques
Lá pràs Belas-Artes...

Assim mesmo á que è!
(Diz o progresso)
Chá com torradas, João,
Prà onde é que eu vou,
Já fui, mas já não sou
Linda mocidade, foi-se o Sol embora,
Fica-me à Saudade...

Na capa do LP o sr. João, último dono da "Leitaria Garrett", que viria a mover um processo a Vitorino por abuso da sua imagem ... não se sabe qual foi o desfecho ...

Depois do seu encerramento, abriria a loja da famosa cadeia "Migacho" que por lá ficou uns anos. Seguiu-se-lhe a loja "St. Tropez Kiwi" que tambem já encerrou. 


"Migacho" em substituição da "Leitaria Garrett" (in: "Lisboa Desaparecida" Vol 4 de Marina Tavares Dias)


"Migacho" a seguir à "Ourivesaria Aliança" (1944-2012)

Actualmente, apenas resta a fachada em ferro da antiga "Leitaria Garrett" e, para variar, instalou-se a "Garrett 48 Apartments Lisbon", que demoliu a loja ampliando a entrada do nº 48, como se pode observar na foto seguinte.



Interior da entrada do nº 48 e o que resta da "Leitaria Garrett" (interior da fachada)

Entretanto, a firma  "Antunes, Castanheira & Rodrigues, Lda.", com sede social na Rua Barros Queiroz, 4-6 em Lisboa, continuaria a sua atividade, no ramo da pastelaria e casas de chá até à sua liquidação e dissolução em Outubro de 2013.

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa,, Arquivo Municipal de Lisboa, "Lisboa Desaparecida" Vol 4 de Marina Tavares Dias

23 de novembro de 2017

Leitaria Luso Central e Pique-Nique

A “Leitaria Luso Central” na Praça D. Pedro IV (Rossio), em Lisboa, terá aberto por volta de 1913, aquando da remodelação e transformação deste edifício (entre 1912 e 1913) para Hotel, conforme projecto do construtor civil Frederico Augusto Ribeiro, e cuja fachada seria alterada pela proposta de um desenho de um arquitecto alemão. Este edifício viria a albergar o “Hotel Metrópole”, do empresário hoteleiro Alexandre d’Almeida, e inaugurado em 18 de Novembro de 1914.

A primitiva “Leitaria Luzo Central”, à esquerda do toldo na foto

A “Leitaria Luzo Central”, viria a ocupar o mesmo espaço onde tinha funcionado, primeiramente, o “Botequim das Parras”, no primitivo edifício, e a “Tabacaria Gusmão”. Onde são hoje os números 22-25 e 27-29, ficavam no princípio do século XIX os celebérrimos “Botequim do Nicola” (1787) - actual “Café Nicola” - e o já referido “Botequim das Parras”, onde se reuniam os literatos do tempo, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Nuno Álvares Pato Moniz, Francisco Joaquim Bingre, João Vicente Pimentel Maldonado, etc..

Recordo que o “Botequim das Parras”, desde 1803, era propriedade de José Pedro da Silva, vulgo o José Pedro das Luminarias - assim chamado por iluminar a frontaria do botequim nos dias de gala nacional - que tinha sido administrador do “Botequim do Nicola”. Entre os dois botequins era a porta da escada do prédio. O “Botequim das Parras” era assim chamado pelo facto da pintura dos frisos dos tetos do interior reproduzia cachos de uvas e folhas de videira. Dizia-se, mais tarde, que nas paredes desse botequim havia muitos versos nas paredes, escritos a lápis, por Bocage.

“Botequim do Nicola” na elipse desenhada à esquerda, na foto, e “Botequim das Parras” na elipse desenhada à direita

 

“Botequim das Parras” na elipse desenhada

Em 1915, a “Leitaria Lvso Central” expande-se à loja de modas, contígua, e transforma-se interiormente e exteriormente sob o risco do Arquitecto Manuel Norte Júnior (1878-1962), reabrindo em 1916.

1930

 

1940

 

Mas como nada dura para sempre, em 1950, e para o lugar da “Leitaria Lvso Central” é encomendado um projecto ao gabinete de arquitectura de Víctor Palla e Bento d’Almeida, para a construção do primeiro snack-bar de Lisboa e do país, o “Pique-Nique”, que viria a ser inaugurado em 23 de Outubro de 1954.

              Arquitectos Víctor Palla e Bento d’Almeida                                       “Pique-Nique” em construção 

 

23 de Outubro de 1954

Exterior e interior do Snack-Bar “Pique-Nique”

  

Saco

António Martins Sena da Silva, designer, arquitecto, artista plástico, fotógrafo, cronista, etc.,  escreveria, a este propósito:

«O Pique-Nique apareceu em Lisboa com a designação inglesa de «Snack-Bar» e uma clientela de formação cinematográfica. Existe agora no Rossio como coisa que faltava e não podemos pôr em dúvida a sua integração perfeita naquela zona nem a justificação da modalidade de refeições rápidas que se propunha fornecer.»

O “Pique-Nique” viria a desaparecer, e actualmente é uma pizzaria e restaurante de comida italiana, tendo adoptado a primitiva designação de “Leitaria Luso Central”.

“Leitaria Luso Central”, actualmente

 

Vou transcrever o texto do site oficial da actual “Leitaria Central”:

«Em 2014 o Luso-Central ganha uma nova vida, combinando a tradição original com as exigências contemporâneas. Quando passamos a lindíssima fachada do arquiteto Norte Júnior, cuidadosamente recuperada, encontramos um espaço moderno e confortável dedicado às irresistíveis tentações da gastronomia italiana.»

Quanto ao texto anterior resta-me dizer, ou recordar ao autor do mesmo, que a actual fachada nada tem a ver com a primitiva, do arquitecto Manuel Norte Júnior, apesar de referida como «cuidadosamente recuperada», o que não se verificou, infelizmente … bastará comparar as fotos que publico.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Hemeroteca Municipal de Lisboa