Restos de Colecção: 2019 F

8 de dezembro de 2019

Pastelaria "Smarta"

A pastelaria, salão de chá e restaurante "Smarta", foi inaugurada na Rua Rodrigues Sampaio, 52 esquina com a Rua Barata Salgueiro, em Lisboa, no dia 16 de Setembro de 1944, tendo os seus fundadores os irmãos José Quintas Martins e Sentório Martins.

21 de Dezembro de 1944


Edifício e pastelaria "Smarta" em foto de Julho de 1964


1 de Outubro de 1944


No dia da sua inauguração o jornal "Diario de Lisbôa" escrevia:
«Dia a dia, a cidade de Lisboa progride, acentuando-se os seus melhoramentos e iniciativas. Ainda esta tarde se verificou um grande acontecimento: a inauguração duma casa moderna - elegante, restaurante, salão de chá e pastelaria - denominada "Smarta", na Rua Rodrigues Sampaio, 52-C.
A visão panoramica da casa que hoje nasceu para o comercio lisboeta traça-se em duas linhas: ambiente moderno, confortavel e artístico; linhas simples e sobrias; instalações á altura da categoria do grande estabelecimento.
Isto mesmo tiveram ocasião de verificar as centenas de pessoas que acorreram á inauguração. Foi uma verdadeira consagração. Varios oradores, e pessoas de grande categoria social enalteceram o espirito de inicitaiva daqueles que a dirigem, os irmãos Quinta e Sentorio Martins e tiveram a iniciativa de montar "Smarta" - uma iniciativa que hora a capital.»

Outra notícia na revista "Mundo Gráfico" em 30 de Outubro de 1944


No mesmo dia e na mesma revista ...


E quanto às primeiras impressões, em 31 de Outubro de 1944 ...


A propósito da pastelaria "Smarta" e sua frequência, transcrevo o seguinte excerto, do conto "Desportos de Inverno", do escritor Luis Forjaz Trigueiros (1915-2000), e publicado no livro "Terminologias do Turismo", de Patrícia Peralta Ferreira editado pela "Edizioni Nuova Cultura" em 2013:
«Há uma dignidade sui generis na Smarta, com sua ambiguidade de freguesia ou função.Um certo burguesismo inofensivo na plataforma do five o'clock tea, senhoras serôdias, cansadas das compras nos saldos do bairro ou que, vindas da Baixa, esperam ali o fim da hora de ponta para conseguirem um lugar no autocarro e lograrem uma espécie de comunicação humana nem que seja só nos olhos curiosos, muito atentos aos outros, e que lhes falta na exiguidade dos dois quartos assoalhados onde vão enclausurando seus dias sem cor.
Lá em baixo, ao balcão, é diferente, e rapazes e raparigas muito novos ainda, ou jovens empregados na área, que emborcam a qualquer hora, num bom intervalo fugidio, o seu "galão" nutritivo, que depois do trabalho virão ao encontro com o amigo exigente ou à matinée das seis e meia e acabam as mais das vezes por jantar apenas outro "galão", ou, em casa, a sopa de pacote.
Na cave do restaurante, a maioria é composta por turistas médios, estrangeiros que até no inverno nos cobiçam o sol, pessoas dotadas do bem inestimável de acharem graça a tudo, saborearem tudo.
A cave da Smarta, essa tem mais carácter, podia ter sido uma espécie de mini-Lipp (1) lisboeta, com suas ceias nocturnas, depois do teatro ou do cinema, quando, à volta de 1960, ali se juntavam, noite fora, escritores ou artistas, uma certa boémia resignada a um certo conforto.»
(1) célebre brasserie parisiense frequentada por artistas, intelectuais e políticos.

20 de Dezembro de 1944


1 de Janeiro de 1945


Quanto ao último parágrafo da citação anterior, acrescento que se reunia na "Smarta" a tertúlia dos neo-realistas onde se destacavam Alexandre Pinheiro Torres, Castro Soromenho e Carlos de Oliveira.

Por último, além de referir que este estabelecimento ainda existe e em actividade, referir também que foi no 5º andar deste prédio nº 52 da Rua Rodrigues Sampaio, que viveu a escritora, poetisa e política Natália Correia (1923-1993).

A "Smarta" actualmente






Cerca de 1 mês após a abertura da "Smarta" em 16 de Setembro de 1944, seria inaugurado na mesma rua, o "Hotel do Império" (actual "Hotel Britania" ) , em 13 de Outubro de 1944.

1 de dezembro de 2019

"Casa Odeon" - Discos, Músicas e Gramofones

A "Casa Odeon", teve origem na "Sociedade Phonographica Portugueza", fundada por Carlos Calderon na Rua dos Fanqueiros, nº 300, tendo mudado de instalações por volta do ano de 1926 para a Rua de São Nicolau, 113. A esta loja deu o nome de "Casa Odeon", sendo representante (que se pensa ter sido em regime de exclusividade) do fabricante alemão de discos e gramofones.

Anúncio na revista "Cine" de Dezembro de 1929


Quanto à "Odeon Records", - etiqueta da "International Talking Machine Company," - esta foi fundada em Berlim, em Novembro de 1903, por Max Strauss e Heinrich Zuntz com uma postura agressiva e alguns trunfos inesperados, como a introdução dos discos com duas faces, em 1904. Nesse mesmo ano, a "Odeon" tornou-se o primeiro fabricante a fazer-se representar em Portugal, no estabelecimento de Ricardo de Lemos, na Rua Formosa, 304, no Porto, e no estabelecimento "Machinas Falantes" de José Castello Branco, na Rua de Santo Antão, 82, em Lisboa. Consultar neste blog o artigo: "Phonographo e Gramophone em Portugal".


Anúncio publicitário em 1904


Anúncios publicitários em 1906






Quanto a Carlos Maria Ferreira Calderon (1867-1945), compositor de música erudita e teatral, e irmão do cenógrafo teatral Leandro calderon, juntou-se a o portuense Arthur Barbedo - que viria a registar em 28 de Dezembro de 1905 a etiqueta "Ideal" - e fundaram, em 17 de Janeiro de 1901, a "Sociedade Phonographica Portugueza", com sede na Rua dos Fanqueiros (já perto da Praça da Figueira) em Lisboa, para edição e comercialização de partituras, além de co-edição de fonogramas da marca "Beka". Esta firma funcionou como uma empresa que conjugava a actividade de edição e comercialização quer de partituras editadas por outras empresas, quer de fonogramas editados por diferentes marcas, das quais Carlos Calderon era agente comercial. A "Sociedade Phonographica Portugueza", além de cilindros italianos, franceses, americanos, apresentava no seu catálogo português, fados, canções populares, bandas e opera

Capa de partitura de música editada por Arthur Barbedo



Desde 1904, os dois também eram agentes do maior concorrente da "Beka" e da "Odeon": a "Compagnie Française du Gramophone". Outra pista para a ligação inicial entre a "Beka" e essa loja portuguesa é o facto de uma banda com o seu nome aparecer em algumas das primeiras gravações de 1905: "Banda da Sociedade Phonographica Portugueza". Quanto à própria marca "Beka - Rekord", só viria ser registada em Portugal em 1907, três anos após o início de suas actividades no nosso país.

Registo da etiqueta "Ideal" no "Boletim da Propriedade Industrial"


Registo da etiqueta "Beka-Rekord" no "Boletim da Propriedade Industrial"


Em 29 de Maio de 1905, Carlos Calderon ainda aparece como agente da "Companhia Franceza do Gramophone"


Em 4 de Dezembro do mesmo ano, já só aparecem Arthur Barbedo e Manuel Gomes como agentes


Entre 1910 e 1911 a "Odeon Records" é adquirida por Carl Lindström, depois de em 30 de Janeiro de 1904 se ter tornado parte da "Carl Lindström Company", que também era proprietária da "Beka Records",  "Parlophone", "Fonotipia", "Lyrophon", "Homophon" e outras etiquetas. A Companhia de  Lindström viria a ser adquirida, em 1926, pela inglesa "Columbia Graphophone Company". Esta, por sua vez, e em 1931 fundir-se-ia com as "Electrola", "His Master's Voice" e outras e seria formada a "EMI Group Limited" ( EMI=Electrical and Musical Industries).

26 de Dezembro de 1926


Anúncios publicitários em 1928



1930


Quanto à loja "Casa Odeon", julgo ter tido uma existência curta, pois a partir de 1931, não encontrei mais nenhuma referência à mesma. Em 1942, apareceu-me um anúncio publicitário na revista "Vida Mundial" de 24 de Dezembro, em que indicava que a "Casa do Rádio" estava instalada na mesma loja da Rua de S. Nicolau, 113. Aqui ficam as provas ...

"Casa do Rádio" nas antigas instalações da "Casa Odeon", em 1942


24 de Dezembro de 1942


Antigas instalações da "Casa Odeon" (loja de esquina), uma ourivesaria actualmente


Bibliografia: foram consultadas, as seguintes publicações de Susana Belchior - Universidade Nova de Lisboa:
"The Introduction of phonogram market in Portugal: Lindström labels and local traders (1879-1925)" - Janeiro de 2010
"The early years of recording in Portugal: Beka" - Maio de 2011

24 de novembro de 2019

Gasogénios em Portugal

Apesar da neutralidade de Portugal na II Grande Guerra Mundial (1939-1945), o país sofreu com racionamentos de bens essenciais (açúcar, arroz, bacalhau, massas, leite, café, etc.) e matérias primas, onde estavam, naturalmente, incluídos os combustíveis. Em 1942 a situação era dramática com as importações reduzidas entre 60 a 90%.

1942


Com a proibição do consumo privado de gasolina, em 1942, os veículos a motor (automóveis e camionetes) passam a utilizar os incómodos e enormes gasogénios, aparelhos que transformam, por combustão incompleta, o carvão ou a madeira em gás combustível capaz de mover veículos automóveis.



A partir desta altura, táxis, autocarros e alguns veículos particulares, passam a circular apenas com "trambolho" traseiro (gasogénio), tornando-se quotidiano em 1942. Em alternativa regressa, como opção, a tracção animal, que havia começado a ser extinta quatro décadas antes.


Apesar de não ser a esta tracção animal que me referia ... o projecto "Auto-Hipo", originário de Mangualde. Quando a gasolina acabava, entrava o cavalito em acção.




Em 25 de Novembro de 1942, aparece o primeiro táxi em Lisboa a gasogénio. Foi um "Peugeot" 402 com 1.991 cm3 e 55 hp. A propósito o jornal "Diario de Lisbôa» noticiava:

«Hoje, a meio da tarde, apareceu na baixa o primeiro taxi movido a gasogeneo. É equipado com um "Rema-Gás", construído nos laboratorios "Rema-Radio", utilizando um aspirador da Electro-Rapida, do Largo do Andaluz.
Fez o trajecto daquele largo até aos Restauradores sem que alguem o pretendesse - tal é já a descrença em encontrar um taxi "livre" ... a valer! E só perto do Avenida-Palace teve o primeiro cliente.
Os carros equipados com este gasogeneo desenvolvem mais de 1.300 calorias - quando o limite minimo é de 1.000 - e arrancam com um minuto, podendo arrancar imediatamente mesmo depois de estarem um quarto de hora parados. Trata-se, poi, do aparelho ideal para taxis.»


Respectiva publicidade ao fabricante do gasogénio em anúncio de 25 de Novembro de 1942



Por outro lado num texto de Ana Pago no site "Notícias Magazine", pode-se ficar a saber a origem do epíteto "fogareiro":
«(...) era o chamado «gás pobre» produzido pelos gasogénios que mantinha os veículos a andar como Ferraris, entre nuvens de fumo e chispas ao acelerar, dando um novo sentido ao epíteto de «fogareiros».

Mas como nesta vida «nem tudo são rosas" ... em 22 de Agosto de 1942 ...


         Autocarro de passageiros da "AVIC", da carreira Viana do castelo-Arcos de Valdevez, alimentado por gasogénio


Alguns anúncios publicitários de fabricantes de gasógenios

24 de Dezembro de 1942



29 de Agosto de 1942


24 de Dezembro de 1942


10 de Setembro de 1942


19 de Setembro de 1942


1943


Esta situação de racionamentos e mercado negro, em Portugal, só seria extinta em 1947 quando o recente Ministro da Economia Dr. Daniel Barbosa recorre ao ouro e divisas do Estado, acumulados durante a Guerra, para efectuar uma importação maciça de géneros que espelha por postos de venda tabelados, entretanto abertos nas ruas.

1944


fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Almanaque Silva, Diário de Notícias