Restos de Colecção: Pintura
Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura. Mostrar todas as mensagens

7 de dezembro de 2025

"Au Petit Peintre"

A papelaria "Au Petit Peintre", foi fundada em 1909 por Antonio Franco na Rua de S. Nicolau, 102 e 104, em Lisboa. Passado uns tempos Antonio Franco constituiu a firma "Franco & C.ª ", para mais tarde constituir a "Antonio Franco, Lda" que se mantem ativa ainda hoje.




Dezembro de 1909


25 de Junho de 1910


Com uma troca de números na morada, em vez de 102 aparece 120, em 1 de Janeiro de 1911

Começou por funcionar como papelaria, onde se podia encontrar tudo o que era necessário em materiais de escritório e cartas: eram papéis, canetas de pena, tintas especiais para a escrita. Mas com o correr dos anos foi comercializando outros produtos como: artigos de pintura e desenho, óleo, aguarela, pastel, pirogravura, metaloplastica, fotominiatura, coreoplastia, esculptulina, etc., artigos para flores, fotografias para fotominiatura, postais, cópias de quadros dos melhores pintores, tintas a óleo e aguarela, vernizes e pincéis, telas a metro e engradadas, cobre e estanho para repousé, cavaletes, ranchetas, réguas para desenho e aguarela, papéis: Ingres, Wathmans continuo, vegetal, etc., papéis de luxo de alta fantasia para cartas, próprio para brindes. Era representante da marca "Lefranc" e, na década de 1930, para além desta já representava também as marcas "Winsor & Newton" (1832), "Lefranc Bourgeois" (1720), "Artisan", entre outras.

Interior da "Au Petit Peintre" na primeira metade do século XX


13 de Abril de 1916

Na loja que "Au Petit Peintre" se instalou, a partir de 1909, tinha funcionado entre 1903 e 1908 a camisaria e gravataria "Uceda & Silva", que sucediam à camisaria "R. Oliveira" que ali funcionou só no ano de 1902.

Anterior inquilino  em anúncio de 1906

Em 1910 a papelaria "Au Petit Peintre", funda o "Jornal da Mulher" (1910-1937), cujo nº 1 seria publicado em 5 de Julho de 1910, ainda composto e impresso pela "Tipografia Liberty". Distribuído em carroças por Lisboa, a partir de 1928, este jornal passaria a ser impresso pela e na própria papelaria. Teve como primeira diretora a escritora e poetisa Albertina Paraíso (1864-1954). O editor era José Henriques. A partir de Outubro de 1911, a diretora passou a ser Maria Luísa Aguiar, pseudónimo de Maria Brak-Lamy Barjona de Freitas, a qual contou com Carlos Cilícia de Lemos como secretário de redação.

1927

Em 10 de Junho de 1914, a propósito da publicação do "Catalogo Comico da Exposição de Belas Artes 1914"  a revista "Occidente" escrevia:

«Subordinado á rubrica de critica humoristica, acaba a conhecida papelaria Au Petit Peintre, do sr. Franco, de publicar um gracioso album de caricaturas, encerrado n'uma artistica e bonita capa.
Abre com um prefacio - Palavras a mais e ditos ... amenos, em que Carlos Simões, n'uma graça esfusiante, nos explica ao que vêm, usando d'estes termos que não resistimos á tentação de transcrever :

«O presente Catalogo Comico da Exposição será a rubrica leve, inoffensiva e insulsa, vista atravéz do monoculo da critica humoristica. Tocará a todos e a tudo o que na Exposição tenha uma nota comica, ainda que o trabalho seja uma obra prima ... irmã do Genio.»

Baseando-se nas publicações congeneres que se publicam em Paris, por occasião das Exposições do Salon, a critica segue, saltitante, feita pelo lapis de Francisco Valença, o nosso conhecido e talentoso caricaturista, sendo as rubricas de Carlos Simões, homem de lettras modesto, mas de muito merecimento, e que cultiva com engenho o trocadilho, genero pouco facil.
Encontra-se n'esse gracioso catalogo a critica de télas de Columbano, Alves Cardoso, Falcão Trigoso, Almeida e Silva, Simão da Veiga, David de Mello, Velloso Salgado, Gyrão, Condeixa, etc., e a esculpturas de Netto, Moreira e Julio Vaz Junior. Algumas são magnificas e de facto só podem apreciál-as bem as pessoas que têem tido o prazer de vêl-as na Exposição.
O final da capa é uma excellente caricatura do sr. Franco, o proprietario do Au Petit Peintre.»


8 de Março de 1925


28 de Dezembro de 1930


1930


Postais editados pela "Au Petit Peintre"

José Dominguez actual proprietário da "Au Petit Peintre",  «recorda-se de ouvir dizer que o “patrão Carlos”, como era conhecido o responsável pela loja, ia dando todos os anos uma quota aos seus empregados para a casa não morresse. Mais tarde, o mesmo viria a ser feito pelo casal proprietário da casa, João Martins Viegas dos Santos e Natália Afonso Viegas dos Santos, que cederam a firma aos seus afilhados de casamento, José Dominguez e sua mulher.


José Dominguez, actual proprietário

O actual proprietário entrou para a loja em 1963, como empregado, mal tinha finalizado a Escola Primária. Lembra-se de ter  entrado ao serviço na casa do vizinho e amigo da família, vestido de calções com suspensórios, camisa e gravata. Mais tarde, regressado da guerra em Angola, assumiu a responsabilidade da gerência da loja, aprendendo com o Sr. João Viegas dos Santos o método de como se deve estar no comércio.» in: "Circulo das Lojas de Carácter e Tradição de Lisboa".



31 de Dezembro de 1970



30 de Dezembro de 1977


1997

Nos dias de hoje, e com mais de 100 anos de existência ... «Entre histórias e memórias, é possível encomendar uma moldura, comprar lacre e sinetes, cartas timbradas, tintas para carimbo, tintas de escrever, todo o tipo de artigos para pintura e para desenho, mas também para o escritório e para a escola; papéis químicos, antigas sebentas e cadernos diários. 


(...) Sobrevive a tudo isto a simpatia e o entusiasmo de José Dominguez, que chama à sua loja um “museu vivo”, e nos fala longamente dela enquanto tal. Esta expressão relaciona-se com a panóplia de objectos que ali estão pela riqueza do espólio, produtos de antigamente; mas também pela maioria das pinturas em exposição que, não obstante poderem ser compradas, são uma forma de promover e dar a ver o talento de alguns clientes da loja. » in: "Lojas com História".

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaLojas com História, Delcampe.net

28 de abril de 2024

Fotógrafo Augusto Bobone

O fotógrafo e pintor Augusto Bobone (1852-1910),  nasceu no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, estudou pintura na Academia de Belas Artes de Lisboa, curso que concluiu com louvor, e casou com Elisa da Glória Cabral de Albuquerque de Sacadura do Amaral, igualmente de Santo Ildefonso. Tiveram três filhos, Coríntia, Crisália e Octávio que viria a suceder ao pai na direção da casa fotográfica após a sua morte infeliz por congestão diabética ocorrida a 11 de Maio de 1910.


Augusto Bobone, sucedeu a  outro grande fotógrafo, Alfred Fillon (1825-1881), proprietário do estúdio fotográfico da rua Serpa Pinto, número 87, e veio a receber o alvará de fotógrafo da Casa Real de Portugal, que acumulou com o título de fotógrafo da Casa Real de Espanha. A qualidade do seu trabalho fotográfico foi amplamente recompensada com a obtenção de vários grandes prémios, diplomas e medalhas de ouro e prata em exposições nacionais e internacionais, sendo de destacar a medalha de ouro da "Exposição Universal de Paris", em 1900. A sua obra foi virada sobretudo para o retrato mas não deixou de fotografar vistas, tendo também colaborado na preparação da representação portuguesa à "Exposição Universal de Chicago" de 1893.


A qualidade dos retratos do estúdio A. Fillon, em particular de actores e personalidades, conseguiu deixar uma marca importante na sociedade portuguesa do seu tempo e foi por isso, e com naturalidade, que na sequência da morte acidental de Alfred Fillon (1825-1881), em 27 de Agosto de 1881, - morte devida a picada de insecto venenoso aquando de uma excursão ao Bussaco - o seu sucessor à frente do atelier, Augusto Bobone, herdou a preferência dos actores e dos artistas, na ocasião de se fazerem retratar, situação de privilégio comercial a que Bobone deu continuidade e se prolongou durante a derradeira década do século XIX e primeiros anos da seguinte.

Alfred Fillon (1825-1881)



30 de Maio de 1865

O estúdio Bobone foi criado por Augusto Bobone (1852–1910), na sequência da compra do antigo estúdio de Alfred Fillon em 1889, que também realizava exposições. Situado na Rua Serpa Pinto, 79-87, Lisboa, foi ainda, no século XIX, um local de referência cultural da cidade de Lisboa como galeria de arte e com ligações a alguns artistas. No século XX, o seu filho, Octávio Bobone manteve o estúdio e a tradição da galeria de exposições, bem como o prestígio do mesmo.

«Regressa hoje de Paris, onde foi visitar a exposição, o sr. Bobone, o distincto photographo que tão zelosamente tem sabido conservar os antigos creditos da casa Fillon, em cuja propriedade sucedeu.» in. "Diario Illustrado", de 13 de Outubro de 1889.

       

1900

       


10 de Junho de 1906


10 de Abril de 1904


Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade de Coimbra (foto A. Bobone)


Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (foto A. Bobone)

Num artigo publicado no "Almanak Palhares" para 1900,  era assim descrito o atelier de A. Bobone:

«E’ justo dizer-se que a photographia tem adiantado muitissimo nos ultimos dez annos, e que já possuimos alguns photographos que se pódem tomar a sério. Sobresahem no primeiro plano d’estes artistas, em Lisboa o sr. Augusto Bobone, e no Porto o sr. Emilio Biel. O sr. Bobone tem feito estudos muito notáveis, e póde-se dizer afoitamente que acompanha a vanguarda dos progressos photographicos. O seu atelier na rua Serpa Pinto está montado com magnificencia e luxo e provido das mais modernas e apuradas machinas e apparelhos. Aqui revela-se apenas a feição do industrial esmerado que se compraz no luxo e na perfeição. Operando no seu laboratorio manifesta-se o artista em toda a sua expansão. Nas suas provas photographicas demonstra-se que a missão do photographo vae muito alêm da simples tarefa de tirar clichés e que a arte intervem em muito na photographia reduzindo a machina á sua verdadeira importancia de copiadora fiel das imagens.
E’ no atelier da rua Serpa Pinto que se photographa a familia real portugueza; é ali que, geralmente, se photographam as notabilidades extranjeiras que visitam Lisboa.
Em resumo aquella casa é sem hesitação alguma a primeira da nossa capital e está a par das primeiras que existem nas primeiras capitaes do mundo. Quem visitar o atelier do sr. Bobone e examinar as photographias expostas notará que em tudo quanto ali se vê se revela o espirito culto e refinadamente delicado d’um artista de raça. Na simples disposição dos quadros e em mais miudos pormenores se colhe esta boa impressão. Cada photographia é um depoimento indiscutível do talento e alto valor do sr. Bobone.
E ha ainda mais: o sr. Augusto Bobone é um investigador que tem estudos muito sérios mesmo no campo da sciencia. São muito notáveis os seus trabalhos de radiographia a que se dedicou logo que o celebre doutor Rontgen deu a publico as suas interessantes descobertas da photographia attravez dos corpos opacos.
O sr. Bobone, de collaboração com algumas das nossas notabilidades medicas, fez uns brilhantes ensaios que são uma grande gloria do laureado artista. Publicou um folheto sobre os Raios X, onde dava conta dos seus estudos até ao  anno de 1897, data da apparição d’este livro curiosissimo e digno de lêr-se.»



1902


1911


15 de Março de 1903

O "Salão Bobone", estúdio do fotógrafo Augusto Bobone, ficava situado na Rua Serpa Pinto,  perto do "Museu Nacional de Arte Contemporânea". Em 1916, José Pacheco (que assinava como Pacheko) abriu aí a "Galeria das Artes", onde logo expuseram ele próprio, Almada, Jorge Barradas, Francisco Smith, António Soares e Alice Rey-Colaço, cada um com o seu entendimento modernista. Várias foram as exposições que o Salão acolheu ao longo dos anos e variadas as tendências expostas.


14 de Janeiro de 1916



Chefe de Estado, General Carmona, na inauguração da exposição de Columbano, em 1926


Exposição de Trabalhos Femininos em 4 de Abril de 1927


Exposição de Diego de Macedo (1889-1959) em 1928

Foi no "Salão Bobone" que os  os primeiros contornos do movimento modernista, iniciado com as acções artísticas decorridas entre 1915 e 1917 em torno da revista "Orpheu" que pretendia romper com o passado, tornou-se bastante significativo no quadro sociocultural do país. Estes fizeram-se sentir a partir da "Exposição Livre", em 1911, realizada no "Salão Bobone", em Lisboa, organizada por Manuel Bentes (1885-1961) e sob o lema: «Queremos ser livres! Fugimos aos dogmas do ensino, às imposições dos mestres (…)». Conforme afirma José Augusto França “«Exposição Livre», em 1911 (…), no salão de exposições artísticas do famoso fotógrafo Bobone, na Rua Serpa Pinto.

       

1928


Exposição de Maria Adelaide Lima Cruz (1908-1985) na foto com sua mãe e Mestre Carlos Reis (1863-1940), em 1928


Exposição de José Tagarro (1902-1931) em Março de 1928


Exposição de Expo Júlio de Sousa (1907-1966), com José Tagarro (1902-1931) e Lázaro Velloso (1897-1993), em Abril de 1929

Mas ... por outro lado, em 20 de Janeiro de 1924, José Rodrigues Miguéis escrevia na revista "Seara Nova", a propósito da exposição "Ar Livre" levada a cabo no "Salão Bobone" :

«Aquele salão Bobone devia ser arrazado. Acreditamos que a sala influi aziagamente na obra dos dois artistas, pois deve ser horrível a idea de que se pinta um quadro para o expôr naquela cripta funerária. Deve fazer vontade de não trabalhar. E, a bem da própria dignidade dos artistas, da realização dos seus intuitos de arte, já vai sendo tempo de se pensar em qualquer coisa mais larga, mais arejada, mais iluminada, do que o casebre da rua da "Leva da Morte". Olham-se ali os quadros de esguelha - e se ao menos êles merecessem ser olhados sempre com enternecido entusiasmo ...
Ainda desta vez as nossas impressões se confirmaram: meia duzia de artistas que, mal enchendo uma sala pequeníssima, não chegam a produzir um total de seis quadros que mereçam um aplauso sincero e vivo. Que desalento enorme, olhando aquelas telas quasi sempre inexpressivas, cheias de velhos motivos, de processos velhos, com molduras imitando o velho - e na sala caduca e senil!»


"Salão Bobone" e Octávio Bobone (1894-1959) em 15 de Janeiro de 1929

Bibliografia: "Imagens da saudade: a fotografia de Fillon de "O Contemporâneo" à carte de visite" de Paulo Ribeiro Baptista