A casa de fados e restaurante "A Tipoia" foi fundada em 15 de Julho de 1950, na rua do Norte, 100-102 ao Bairro Alto, em Lisboa, pela fadista Adelina Ramos (1916-2008) e seu marido José Maria Baptista Coelho. Ambos exerceriam a gerência desta casa nos 25 anos seguintes da sua existência, ficando Adelina Ramos com a direção artistica, com intenção de proporcionar um melhor serviço ao público de Fado, oferecendo-lhe um local apropriado.
Adelina Ramos (1916-2008)
Por ali passaram toda a elite do Fado, de onde se destacam os nomes de Manuel de Almeida - que fez parte do cartaz durante 12 anos -, Carlos Ramos, José Ferreira Rosa, Celeste Rodrigues, Tereza Tarouca, Deolinda Rodrigues, Maria da Fé ou Fernanda Baptista, etc.
Adelina Ramos na sua "A Tipoia"
Celeste Rodrigues e Adelina Ramos
Em 22 de Maio de 1963 o jornal "Diario de Lisboa" noticiava:
Nota: a notícia, e respectivo anúncio publicitário, cometem uma imprecisão. A 14 de Junho de 1963 comemorava-se o 47º aniversário de Adelina Ramos, e não os catorze anos da inauguração de "A Tipoia". Seriam comemorados os treze anos deste estabelecimento (e não catorze), e só em 15 de Julho seguinte. Quanto à carreira artística seriam comemorados os trinta anos, como diz correctamente o anúncio, completados em Março anterior.
7 de Julho de 1962
«Na década de 1960, até antes, foi um espaço de referência do fado e de tertúlia de poeta. Nos inícios da década de 1970, era um espaço onde pontuava o poeta José Carlos Ary dos Santos», afirmou Vítor Duarte Marceneiro. Na década de 70 do século XX, «todas as noites como que em romaria ia lá, com o meu avô, Alfredo Marceneiro, que gostava de ouvir declamar o Ary e apreciava aquele espírito de tertúlia, pois passava por lá toda a gente de Lisboa, como dizíamos na época», recordou ainda.
José Carlos Ary dos Santos n' "A Tipóia" (*)
No jornal "Diario de Lisbôa" de 29 de Outubro de 1971 podia-se ler a propósito:
- Ir à Tipoia não é apenas um gesto de amizade para com Adelina Ramos. É, também, uma atitude de sinceridade para com a Poesia. Nunca a escrevi para «ficar nos livros». Nem nas antologias. E muito menos nas selectas. Fi-la para a servir, às mãos cheias, a pessoas porventura incompletas. Se eu pudesse enchê-las dessa comida, dessa bebida, dessa vida, tornaria meus dois versos portugueses que muito invejo no bom sentido da palavra e que foram escritos por Natália Correia: «Oh subalimentados do sonho/A poesia é para comer!»
De "A Tipoia", o poeta José Carlos Ary dos Santos (1936-1984) só arredou pé porque a "Inspecção Geral dos Espectáculos" disse que ele não podia recitar sem fazer um exame de artista de variedades. Claro que Ary dos Santos se recusou. Hoje, é impensável mas ... naqueles tempos a história era outra.
Após o 25 de Abril de 1974, "A Tipóia" sofre os efeitos da redução do número de frequentadores, resultante da conotação do Fado com o regime deposto, e consequente afastamento do público deste género musical. As dificuldades desta casa de fados intensificaar-se-iam pela doença irremediável do marido de Adelina Ramos, José Maria Baptista Coelho, que entretanto viria a falecer.
"A Tipoia" na lista de casa de fado, no guia norte americano "Fodor's Portugal 1974" de Eugene Fodor
Adelina Ramos retira-se da vida artística em 1975, mas na história do Fado deixa a contribuição de um espaço que durante décadas foi referência obrigatória, bem como algumas interpretações que lhe valeram as considerações de "voz vibrante e autêntica fadista de raça" ou "a verdadeira fadista de raça" que encontramos nos cartazes dos seus espectáculos.
Quanto à casa de fados "A Tipóia" continuaria a funcionar, com novos proprietários, até encerrar em 1984. Reabriria em Outubro de 1985, com Paulo Gomes proprietário e António Lourival como gerente artístico, tendo o jornal "Diario de Lisboa" publicado, em 12 de Outubro desse ano o seguinte texto:
Muita gente na festa: Maluda, Albérico Cardoso, António Ribeiro da Cunha, José Pracana, Luz Sá da Bandeira, Carlos Guedes Amorim, Plínio Sérgio, dr. Torres do Vale, Luís Stau Monteiro, dr. Jorge Botelho Moniz e, como dissémos, em ponto alto as graças de Solnado e a classe de Amália. Enfim: «A Tipóia» voltou: todas as noites é um convite.»
Não sei por quantos mais anos se manteve em funcionamento, mas em 1993 ainda aparecia nos guias turísticos estrangeiros.
Adelina Ramos viria a falecer em 26 de Julho de 2008, aos noventa e dois anos de idade, na "Casa do Artista". Adelina Ramos permanece na memória coletiva como uma intérprete de voz singular, uma gestora cultural visionária através da criação da histórica "A Tipóia" e uma das mulheres que mais contribuíram para preservar o espírito genuíno do fado.
fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Museu do Fado, (*) Lisboa Desaparecida de Marina Tavares Dias, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)
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2 comentários:
Neste caso, não sei se a “Tipóia” não terá menos a ver com “carruagem” e mais com “mulher considerada de maus costumes”.
Não há dia que não visite este blog, sempre à procura de novidades. É uma fonte de informação fantástica.
Cumprimentos.
Caro Pedro Nogueira,
Grato pelo seu comentário e pelas amáveis palavras
Os meus melhores cumprimentos
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