O "Colégio Moderno", localizado na, então, Estrada de Malpique, 19, em Lisboa, foi inaugurado e iniciou as suas actividades educativas em 3 de Outubro de 1936, início do ano lectivo 1936/1937. Foi fundado pelo professor e pedagogo Dr. João Lopes Soares (1878-1970).
O Dr. João Soares, além de ter tido carreira de sacerdote católico (que abdicou em 1923) e política, já tinha fundado, com João de Deus Ramos, o "Bairro Escolar do Estoril", o "Colégio de Nun’Álvares", em Tomar. Enquanto diretor de todos estes estabelecimentos de ensino, e muito em particular do "Colégio Moderno", o Dr. João Soares marcou gerações de estudantes, desenvolvendo métodos pedagógicos inovadores e modernos, que se refletem nas inúmeras obras escolares que escreveu, entre as quais se destacam "Portugal Nossa Terra - Educação Cívica" (com Elísio de Campos, 1917), "A Idade Moderna e Contemporânea" (1922), "Novo Atlas Escolar Português" (1925) e "Quadros da História de Portugal" (com Chagas Franco, 1932). Era pai do Dr. Mário Soares (1949-2015), que além de advogado, foi professor do Ensino Secundário particular e diretor do "Colégio Moderno".
O "Colégio Moderno" instalou-se no edifício que restava da "Quinta das Ameixiais de Santa Rita de Malpique", como era denominada em 1867. Em 1898, era conhecida, simplesmente, como "Quinta de Santa Rita de Malpique". Esta quinta já existia em 1675, nos arredores de Lisboa, com o nome de Malpique, que deve ter designado o nome da estrada. Nessa quinta, no princípio desse século, funcionava uma fábrica de sebo. No tempo em que o colégio foi criado, a quinta denominava-se "Quinta do Cônsul da Holanda", também conhecida por "Quinta da Misericórdia" e "Quinta do Tarujo" e, nela, trabalhava-se na agricultura e na criação de gado. O actual ginásio era, nesse tempo, uma vacaria. Foi arrendada pelo "Colégio Moderno", na altura à firma "Flora & Fauna, Lda.".
Já outro "Collegio Moderno" tinha existido, em Lisboa, a partir de 1908, na Travessa de Santo Ildefonso, 7 esquina da Rua de Santo Amaro, em Lisboa.
Prédio de esquina da Travessa de Sto. Ildefonso onde funcionou o "Collegio Moderno" a partir de 1908
1 de Novembro de 1912
E, ainda outro em 1915, mas em Coimbra ...
26 de Setembro de 1915
Depois de ter recebido o diploma que o autorizava a dirigir estabelecimentos de ensino, superior ao primário particular, ao Dr. João Soares, viria a ser concedido pelo Ministério da Instrução Pública, em 26 de Novembro de 1926, o alvará que o autorizava a dirigir, em Lisboa, um estabelecimento de ensino particular com a denominação "Colégio Moderno", com a capacidade para 35 alunos internos e 75 externos, do sexo masculino e feminino, podendo ministrar o curso primário e secundário (os primeiros dois ciclos) em regime de planos e programas oficiais.
Em 4 de Outubro de 1937 o jornal "Diário de Lisboa", numa referência a este estabelecimento de ensino, informava:
Sob a inteligente direcção do sr. dr. João Soares, antigo professor dos Pupilos do Exercito, autor do «Novo Atlas Escolar Português», e de outros livros didaticos, prestigioso pedagogo que se encontra rodeado dos melhores professores, o «Colegio Moderno» admite alunos, semi-internos e externos de ambos os sexos, para ensino infantil, instrução primaria, admissão dos liceus, curso geral dos liceus, curso comercial, curso do conservatorio, especiais de lavores, arte aplicada, desenho e pintura. Tem tambem o curso pratico de linguas, dactilografia e estenografia; dansa ritmica, desenho artistico, gimnasio. equitação, jogos educativos, canto coral e gimnastica medica.
No «Colegio Moderno». existe o maximo conforto, aulas e dormitorios espaçosos e bem arejados obedecendo a todos os preceitos higienicos e pedagogicos.
Possui uma rigorosa educação moral, uma alimentação sadia e as mensalidades são muito reduzidas. Os seus professores são especializados em todas as disciplinas.
Para que nada falte no «Colegio Moderno», existe um esplendido gabinete de fisica, museu e laboratorio para o ensino experimental das ciências.
Numa secção separada funciona o Pensionato Feminino que é dirigido por senhoras da maior respeitabilidade e onde se ministra, lavores, piano, violino, canto e arte aplicada e curso familiar.
O «Colegio Moderno» - ao Campo Grande, estrada de Malpique, 9, cujo telefone é o 57038 - é pois um dos bons estabelecimentos de ensino.»
A 15 de Dezembro de 1938, o "Colégio Moderno" teve autorização para ministrar o ensino do sétimo ano do curso liceal, podendo, assim, aumentar a sua lotação de alunos até 70 internos e 200 externos, sendo 150 do liceu e 50 da primária. Desde a sua fundação até à publicação da lei que proibia o ensino misto, este colégio admitiu alunos de ambos os sexos no regime de internato, semi-internato e externato. Os alunos eram provenientes, geralmente, das colónias ultramarinas e da província, onde as escolas eram escassas. Os internos dormiam onde, actualmente, é o pavilhão A (mais conhecido como «O pavilhão da Anabela»), no piso superior. Por Despacho Ministerial, a 28 de Janeiro de 1941, o colégio é autorizado a instalar um pensionato para uma frequência máxima de 12 pensionistas do sexo feminino. "Estado Novo" viria a instituir a separação dos sexos nas escolas, pelo que o Colégio passou a ser masculino. Só depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 voltou a ter ambos os sexos.
Em 13 de Setembro de 1947, estando o Dr. João Soares preso, as funções de director do "Colégio Moderno" são exercidas pela sua sobrinha Maria da Conceição. Nesta altura, o colégio estava a ser vigiado pela "PIDE", nomeadamente o seu director e a sua família, sendo anotadas todas as matrículas dos carros que estacionassem na área.
Em Março de 1952, a polícia política anexa a um dos seus múltiplos processos, em que aparece referido o Dr. João Lopes Soares, o exemplar nº 1 do jornal "Gente Moça - Jornal dos Alunos do Colégio Moderno", dirigido por Rogério Araújo. Em 1954, João dos Santos criou no colégio, com a pedagoga Maria Amélia Borges, um dos primeiros Centros de Orientação Escolar existentes em Portugal (o outro foi na escola de "A Voz do Operário", em Lisboa).
De referir que em 1952, o médico do "Colégio Moderno" era o Dr. Tertuliano Lopes Soares (1906 - ?), filho de uma relação que o Dr. João Soares, ainda padre, manteve com D. Joaquina Ribeiro da Silva, anterior à que viria a manter, e casar, com D. Elisa Nobre. D. Era licenciado em medicina, médico-cirurgião, interno dos Hospitais Civis de Lisboa e professor na Escola Superior Colonial.
Dr. Tertuliano Lopes Soares (1906 - ?)
Em 27 de Março de 1955 é constituída a sociedade "Colégio Moderno de João Soares & Filhos, Lda.", pelos sócios João Lopes Soares, Cândido Nobre Baptista e Mário Alberto Nobre Lopes Soares - filho do Dr. João Lopes Soares -, com um capital social inicial de 200.000$ A propriedade do Alvará do "Colégio Moderno" seria transmitida a favor desta sociedade. Um pouco mais tarde, a 16 de Janeiro de 1958, a direcção do colégio é exercida por João Soares e pelo seu filho Mário Soares. Em 30 de Agosto de 1961, e por escritura pública João Lopes Soares cedia parte da sua quota de 100.000$ a Joaquim Maria Nobre que fica com uma quota de 5.000$, ficando a outra quota de 100.000$ na posse de Mário Alberto Nobre Lopes Soares.
De início, o ensino neste estabelecimento ia da Escola Primária ao 7.º ano do Liceu, que era o último. No início dos anos 1960 criou-se a Infantil (3 aos 5 anos) e um curso noturno para adultos, que terminaria no início dos anos 1970. Na década seguinte nasceria o infantário (dos 4 meses aos 2 anos). Hoje um aluno pode frequentar o Colégio desde o berço até ir para a Universidade.
Por ocasião da celebração das Bodas de Prata do "Colégio Moderno", e da abertura da «Secção Infantil», o Dr. João Soares concedeu uma pequena entrevista ao "Diario de Lisbôa", em 11 de Agosto de 1962, que passo a transcrever parte do artigo:
Começou ele por nos dizer:
- Bem, O Colegio Moderno, que fundei e iniciou a sua actividade no ano lectivo de 1936-37, celebra de facto as estas bodas de prata. Pessoalmente. como professor, já há multo que celebrei as bodas de ouro ... E espero comemorar as de diamante, com a ajuda da energia contagiante de toda essa rapaziada que ai vê!
- Impressões da sua vida de professor e director do colégio ...
- Sabe, não é fácil falar duma actividade que nos enche a vida inteira. Muitas canseiras, que deixam marca mas que depressa esquecem. A profissão do ensino gasta como tudo o que se faz com paixão. Mas, ao fim e ao cabo, é impossível lidar com rapazes, sem nos deixarmos possuir pela sua natural alegria. E a consciência de lhes ser de facto útil, que é o melhor galardão de quem se entrega ao ensino. aumenta essa alegria com a satisfação do dever cumprido. (…)
-Espero que em Outubro próximo tudo esteja pronto, As instalações para o ensino infantil merecem-nos especiais cuidados. As crianças precisam de muito e merecem tudo. Nessas instalações não haverá luxo. A meu ver luxo é deseducativo. Mas tudo foi concebido em função dos pequeninos - rapazes e raparigas dos 4 aos 6 anos - e das suas naturais necessidades de carinho, de orientação e de vida física e moralmente sadia. A secção funcionará numa vivenda, aqui bem perto, protegida por um jardim, a que se dará a graça necessária. Toda a obra de adaptação, interior e exterior, está sendo dirigida pelo arquitecto e urbanista Miguel Jacobetty, de quem muito de bom haveria que dizer mas de quem não posso falar, por a minha muita amizade me tornar suspeito ... Direi finalmente que a direcção do Colégio Moderno confiou a orientação directa da sua secção infantil a professora D. Dulce de Morais e Castro, que em estudo no estrangeiro e em longos anos de prática tem vindo a acumular uma notável experiência.
Só não aprendeu o amor pelas crianças, que nela é inato e que as mulheres portugueses não têm que aprender em parte nenhuma. Enfim ... o resto é trabalho e não há palavras que o expliquem.»
No dia 3 de Outubro de 1968, á autorizada o exercício de funções de director do "Colégio Moderno" a José Mota Costa juntamente com Mário Soares, Rogério Jorge Ribeiro de Araújo e João Soares (presidente da Direcção). Lembro que foram professores neste colégio nomes como: Álvaro Salema, Raúl Rêgo, Mário Dionísio, Álvaro Cunhal e Mário Soares, entre outros.
22 de Junho de 1973
Nota: Foi no ano lectivo de 1967/1968 que entrei para este colégio, por ser muito perto da casa de meus pais, no Bairro Santos (Rêgo). Aqui completei o 1º e 2º anos do liceu. Conheci a Dra. Maria Barroso e ainda cheguei a ver o Dr. João Soares entrar diversas vezes para o "Renault" 16 cor grenat, da família. O chefe de disciplina era o sr. Tenente (não sei se de nome se de posto no exército) e o chaffeur da carrinha, marca "OM - UTIC", que me transportava a casa era o sr. Diniz. A minha passagem por este colégio marcou-me, literalmente, para o resto da vida ... Ao jogar «ao pendura», e com a pressa de não ser apanhado, saltei para um banco de ferro, que se pode avistar na foto seguinte, escorreguei e bati com a cara, junto ao olho direito, no banco, e lá fui para ao hospital da seguradora. Levei dois pontos e lá fiquei com uma cicatriz junto à vista direita ... Na outra vista tenho outra quase impercéptivel, resultado de uma pedrada, junto ao campo de futebol, noutra brincadeira da época ... Nada de grave, mas que cá estão ... estão. Tirando esses acidentes a minha passagem por lá foi agradável. De lá segui para o "Colégio Manuel Bernardes", no Paço do Lumiar, que frequentei a partir de 1970/1971 até ao final do curso liceal.
O «maldito» banco, ao fundo à direita junto à coluna branca. Da direita para esquerda: Dra. Maria Barroso, e seus filhos Isabel Soares e João Soares
Aquando do 25 de Abril de 1974, a esposa do Dr. Mário Soares, Dra. Maria Barroso Soares (1925-2015) - actriz, professora e activista política, com licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas - já era diretora do "Colégio Moderno", cargo que exerceu até 1986, quando o marido é eleito Presidente da República.
Dra. Maria Barroso Soares no seu gabinete de direcção
Em 3 de Dezembro de 1974 a Rua de Malpique, onde se localizava o "Colégio Moderno", é redenominada para Rua Dr. João Soares, em homenagem ao fundador do colégio.
Por escritura pública de 10 de Novembro de 1981, o capital social do "Colégio Moderno" é aumentado de 200.000$ para 250.000$ assim distribuído: Mário Alberto Nobre Lopes Soares (200.000$), Maria de Jesus Simões Barroso Soares (30.000$), João Barroso Soares (10.000$) e Maria Isabel Barroso Lopes Soares (10.000$). Em 12 de Dezembro de 1988 este capital social viria a ser aumentado para 15.000.000$ e distribuído pelos mesmos sócios em idênticas proporções. Em 2006 a sociedade era a mesma, apenas com o mesmo capital social, e respectivas quotas, convertidos em euros (75.000 €).
Em 1998, a sociedade "Colégio Moderno de João Soares & Filhos, Lda.", adquire a "Quinta da Misericórdia", até então arrendada à firma "Flora & Fauna, Lda." desde 1936.
A diretora do "Colégio Moderno" é, desde 1985, a psicóloga clínica, e co-proprietária, Isabel Barroso Soares, neta do fundador e filha de Maria Barroso e Mário Soares. Foram seus antecessores no cargo figuras como Mário Soares, Maria Barroso Soares, José Luís Mota Costa e Rogério Araújo.
O "Colégio Moderno", tem cerca de 2000 alunos divididos em quatro secções que vão dos bebés ao final do Ensino Secundário: Infantário (4 meses aos 2 anos), Infantil (3 aos 5 anos), Primária (1.º Ciclo do Ensino Básico) e Liceu (2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e Ensino Secundário). Além dos programas curriculares destes níveis de ensino, oferece atividades extracurriculares como Música, Ballet, Ginástica, Judo, Ténis, Andebol e Futebol.
fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Fundação Mário Soares (Casa Comum), Colégio Moderno








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