Restos de Colecção: Cabarets
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3 de dezembro de 2025

Cabaret "Alster Pavillon"

O cabaret e tea-room-restaurant "Alster Pavillon" , abriu pela primeira vez em 22 de Março de 1924 na Rua do Ferragial, 36-40, em Lisboa. Seu nome tinha origem num célebre pavilhão de exposições em Hamburgo, em 1910. O "Alster Pavillion" autointitulava-se de cabaret.


O "Alster Pavillon" descrevia-se como: «(...) o mais lindo cabaret de Lisboa, é hoje o ponto de reunião obrigatorio de todos aqueles que arrancam da vida o maximo de alegria, de prazer e de entusiasmo. 
Os mumeros de variedades do Arster Pavition, que são verdadeiras trouvarties artisticas, animam os grandes bailes que ali se realisam com a musica vibrante dum esplendido jazz band.
A cerveja alemã que ali é servida, bate todas as outras pela sua fina qualidade e sabor.
O Alster Pavilion que tem uma grande afluencia de estrangeiros que o elogiem comparando-o com os mais bem decorados lá fora, esta sendo a casa de diversões preferida por pessoas que têm a noção da arte e do prazer..»


22 de Março de 1924


2 de Junho de 1925

Na passagem seguinte é explicada sucintamente a diferença entre club nocturno e cabaret

«Noutra perspectiva, os clubes individualizam-se conquistando uma posição na hierarquia social distinta dos restaurantes e casas de pasto, leitarias ou cafés, pelas particularidades que lhe imprimem o cunho de novidade e sofisticação: uma delas, é a jazz-band. Apesar de também servirem refeições e estarem abertos depois das 0 h – o Bristol Club publicitava a sua ceia na imprensa bem como o Salão Alhambra ou o Olímpia – os clubes noturnos afastam-se dos restaurantes pela presença do ring no seu espaço, as luzes elétricas, o barulho frenético do jazz e a contorção dos corpos a dançarem o foxtrot e o charleston – "A humanidade já não marcha: dança…" .
Outra das grandes diferenças entre estes estabelecimentos reside no facto de os clubes eram locais semipúblicos, de entrada paga - exceto para portadores de bilhetes de identificação, semelhantes a cartões de sócios - sendo a clientela selecionada por um porteiro que se torna também ele, uma figura mítica associada a estes equipamentos, como o porteiro do Alster Pavillon.
Relativamente ao horário de funcionamento, poderá ser sucintamente enquadrado: às 20h o jantar dos empregados; às 23h chegavam os primeiros clientes, existindo um pico por volta das 24h quando chegavam clientes de outros espetáculos; às 02h ceava-se e era a hora mais concorrida do dancing. Depois das 03h, aparentemente, ficavam somente os jogadores até perto das 06h.» (*)

«O cabaret já é mais volúvel, mais ruidoso, mais movimentado e a ele está ligado uma ideia de boémia e de cenas galantes» .  in: revista "ABC" de 6 de Janeiro de 1927

Há mesmo os que alertam para a necessidade de multiplicar estes últimos. «A nossa época, complexa e trepidante, tem uma diversão própria, característica, inédita, que não tem antecedentes e que dificilmente terâ consequentes. Queremos falar do Cabaret, esse teatro sem bastidores, essa amálgama de dancing e casa de chá (...)  ê pois preciso modernizar as nossas cidades, dando aos clubs a feição nítida de cabarets, creando quanto antes essas lanternas mágicas de alegria» in: revista "ABC" de 25 de Agosto de 1927.

15 de Junho de 1925

Entretanto, no jornal "Diario de Lisbôa", de 11 de Julho de 1925 ...

«O Alster Pavillon continua sendo, pelos seus numerosos atractivos, o melhor cabaret de Lisboa.
Querem passar uma noite alegre? Uma noite de imprevisto, com musica, sensações e bons espectaculos de carte? Ide ao Alster Pavillon, que todas as semanas renova o seu programa teatral.
Lolita Pinet, a mais graciosa bailarina e a mais extraordinaria coupletista que tem vindo a Lisboa, conquistou o publico, na primeira Doite que se apresentou. Dansando com entusiasmo, num delirio estonteante de linhas, cantando o amor, a paixão, a merte e o ciume  - os frequentadores do Aister Pavillon todas as noites se sentem arrastados e entusiasmados pelo maravilhoso poder artistico da linda Lolita Pinet.
Boa musica, musica moderna, com abismos de ritmo desencadeado, onde o coração estremece de loucura, febril, ancioso e doloroso, só a que se ouve no Aister Pavilion, maravilhosamente interpretada pela Troupe Gounod.
O Alster Pavillon é a grande estrela vermelha das noites de Lisboa, a boite de alegria, sempre cheia e bem frequentada.» 


27 de Setembro de 1925


25 de Fevereiro de 1926

Contudo podemos, dizer que o tipo de cabaret mundano e cosmopolita não existiu em Portugal. Apenas verificámos um estabelecimento que assim se autodenominou nos anos 20 do século XX - o "Alster Pavillon". Todos os outros, que apresentam características semelhantes ao cabaret moderno, são os clubs-dancing de topo.

O "Alster Pavillon", que se fazia anunciar como o «Único cabaret artístico de Lisboa», não gozava de boa fama, como o demonstra a passagem do romance  «A virgem do Bristol Club», do Repóeter X:

«A «ex», está pilulas!
A «ex», deu no ordinário!
A «ex», esiá aqui está no Alster Pavillon»
 

Outro famoso cabaret em Lisboa dos anos 20 do século XX, foi o "Bal-Tabarin - Club Montanha" desde 1921 e cuja história pode consultar neste blog no seguinte link: "Ritz Club e Club Montanha"

9 de Fevereiro de 1928

Bibliografia:

(*) - Monografia realizada no âmbito da finalização do curso de História da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia de Lisboa de.Manuel Domingos de Moura Teixeira - "Mundanismo, Transgressão e Boémia em Lisboa dos anos 20: o Clube Noturno como paradigma -, 2012

 - "Os Night Clubs de Lisboa nos anos 20" de Júlia Leitão de Barros, 1990 

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaCasa Comum

19 de novembro de 2025

Cabaret "Alhambra"

O cabaret "Alhambra" foi inaugurado em 19 de Fevereiro de 1925 no "Parque Mayer", por sua vez inaugurado em 15 de Junho de 1922 como "Avenida Parque", em Lisboa. Instalou-se no espaço onde tinha existido um ringue de patinagem.


«Mulheres Ardentes» e «10 Formosas Girls»

«E' hoje que no Parque Mayer se realisa a abertura do Salão Alhambra que, tendo passado por uma completa transformação, apresenta agora um magnifico aspecto de beleza e de contorto. Trata-se de um belo «dancing», amplo, feericamente iluminado, onde, além de bailados luminosos, de patinagem artistica, haverá ceias genuinamente portuguesas, cosinha á maneira de Chaves, pois o Alhambra possue um serviço excelente de «restaurant» e um «Bar» onde nada falta. Ali se reunem todas as comodidades para quem, após a labuta diaria, sente a necessidade de distrair o espirito.
Tiveram os iniciadores do Salão Alhambra o cuidado de consentirem a entrada sómente por convites. Deste modo o publico do Alhambra será um publico escolhido, um publico distincto, um publico «smart» como é de uso dizer se na vida elegante.»

E no dia seguinte, também no jornal "Diario de Lisbôa" ...

«Decorreu brilhantemente a sua inauguração.
Como ontem dissemos, realisou-se no Parque Mayer a inauguração do «Salão AJbambra». A vasta sala esteve repleta por um publico muito escolhido e que do «Albambra» levou as melhores recordações.
Agora está o «Alhambra» preparando entusiasticamente os seus bailes de Carnaval que deverão resultar sensacionais.
O serviço de bar, e de restaurants causou no publico a melhor impressão, assim como a rapidez em atender aquela multidão, chegando horas seguidas a não haver uma mesa vaga.»


21 de Fevereiro de 1925

Na revista "ABC" de 7 de Janeiro de 1926 um «mimo» ao porteiro do cabaret "Alhambra" ... «enorme, com ares e corpo de alemão que tomou muita cerveja e que afinal parece ser benevolente, porque cumprimenta a todos os que saem e que entram…»


20 de Julho de 1925


6 de Setembro de 1925


13 de Setembro de 1925

Em Junho de 1930, muda de proprietários e de denominação para "Galo d'Ouro". A iniciativa tinha partido dos «proprietários, rapazes empreendedores, que se preocupam mais com a satisfação de contribuirem para o bom nome da sua terra, do que com benefícios materiais. Sim, porque em qualquer outra indústria lhes seria muito mais fácil uma maior remuneração.»


4 de Outubro de 1930


25 de Dezembro de 1931


8 de Janeiro de 1932

O Decreto-lei 19860 emanado da Secretaria-geral do Ministério do Interior, instituía o feriado obrigatório no 13 de Junho de 1931, dia de Santo António, aquando do sétimo centenário da sua morte, e noticiado do seguinte modo (acreditem que é verdade. Santo António no cabaret! ...):

«O decreto que determina o feriado no dia de hoje veio estimular o povo a reviver as tradições do santo, incitando-o a procurar festejar o dia com as maiores solenidades, e foi assim que várias empresas de espetáculos procuraram proporcionar-lhe festejos de toda a categoria, destacando a empresa do aprazível cabaret Galo d’Ouro, no Parque Mayer, que organizou um programa exemplar disponibilizando aos seus clientes vários descantes, toques populares pela sua magnífica orquestra, havendo distribuição grátis do tradicional manjerico e vários brindes, tudo confortado com um ótimo serviço de restaurante e bar e a presença de uma assistência polvilhada de senhoras, rigorosamente selecionada, embora com entrada gratuita, que toda a noite se divertiram com variedades e surpresas, dançando as danças populares do vasto repertório da sua orquestra.» Retirado do site do jornal "Sol" de 13 de Junho de 2017

Em 1932, o "Galo d'Ouro" volta à primitiva denominação: "Alhambra". E por lá funcionou até vir a ser substituído pelo "Casablanca" .




1932


1935

1935

E em 19 de Dezemro de 1942 o "Alhambra" é subsituído pelo "Casablanca", propriedade do empresário de espctáculos José Miguel, e com gerência de Alberto Nunes.

.

19 de Dezembro de 1942


"Casablanca" ao fundo da rua da entrada para o "Teatro Maria Vitória", em foto de 1942

Em 13 de Janeiro de 1957, e também pelas mãos do empresário José Miguel, nasce o Teatro "A B C", no espaço onde tinham funcionado o “Alhambra” e o “Casablanca". Inaugurou-se com a revista “Haja Saúde”. 

Teatro "A B C" no lugar do "Casablanca"

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de LisboaPublisite

1 de dezembro de 2024

"Olimpia Club" em Lisboa

O Salão “Olympia”, situado na Rua dos Condes, em Lisboa, foi inaugurado a 22 de Abril de 1911, na Rua dos Condes, em Lisboa. Propriedade da “Empreza do Olympia, Limitada” de Leopoldo e Henrique O'Donell, Júlio Petra Viana e Victor Alves da Cunha Rosa, - os mesmos que viriam a fundar o Salão Lisboa, e inaugurado em 20 de Novembro de 1915 - o Salão “Olympia”  tinha cabina de projecção de filmes isolada da sala de espectáculos, salões para concertos, gabinete de leitura e restaurante, etc ... tornando «esta casa de espectáculos como a primeira da capital.»


"Olimpia Club" no 1º piso


"Orquestra-Salão" - Sexteto residente que acompanhava os filmes mudos e dava pequenos concertos



1916


Leopoldo O'Donell (1870-1941) e artigo na "Folha de Lisboa" de 2 de Janeiro de 1922

Desde início que este Salão oferecia um serviço de "bufete" com «esmerado serviço», mas não passou disso mesmo até 1 de Junho de 1924, dia em que Leopoldo O'Donnell inaugura o novo "Bufete Olimpia" anunciado na seguinte notícia:

«Leopoldo O'Donell o infatigável emprezario acaba de iniciar mais um importante melhoramento no Salão Olimpia.
De ora ávante todos os espectadores do Olimpia poderão aproveitar-se dum beneficio interessante que lhes permitirá sem sairem do edificio, tomar qualquer refeição por preços convidativos.
O novo bufete Olimpia tem o seu serviço organizado para o fornecimento diario de almoços, chás, jantares e ceias, estando a sua direção a cargo de Camilo Fernandes.
Durante as refeições haverá sempre concerto musical por um grupo de distintos artistas.»

film "Fatima Milagrosa" (mudo) de Rino Lupo, depois de estreado no "Teatro Rivoli" no Porto em 7 de Abril  a que se seguiu a sua estreia no "Teatro Politeama" em Lisboa a 12 de Maio de 1928, em 28 de Julho era a vez de estrear no "Olimpia" que foi acompanhado «com partitura adequada por Guilherme Ferreira, violino director do Olimpia-Orquestra-Jazz e pelos distintos artistas Alberto Fernandes (pianista), Jose de Sousa Pinto (saxofone), Francisco Furtado (trompete), Antonio Moreira (trombone de varas), Francisco Fonseca (contrabaixo) e Antonio Lopes (jazz-band).» No final do texto anterior jazz-band equivaleria a bateria.

Publico de seguida, anúncio do jornal "Diario de Lisbôa", de 13 de Julho de 1927, ao "Restaurant Olimpia", (ex-"bufete") explorado pela firma "Amoedo Portela & Nazaret", que confirma que até esta data ainda não funcionava como club nocturno.


13 de Julho de 1927

Este novo «bufete» que virou «restaurant», e que funcionava no 1º andar do edifício do Salão "Olimpia", terá sido o embrião para o aparecimento, dois anos depois, do "Olimpia Club", cujo primeiro anúncio a que tive acesso publico de seguida, e que data de 6 de Fevereiro de 1929, por altura do Carnaval.

Primeiro anúncio que tive acesso ao "Olimpia Club", de 6 de Fevereiro de 1929


Nota: foto anterior (s.d. colecção Silvestre Navarro) do livro "Roteiro do Jazz na Lisboa dos anos 20-50" de João Moreira dos Santos.

Como «casa de jogo» presume-se que já funcionaria desde 1918, a fazer fé na seguinte passagem, que transcrevo, do "Diario da Câmara dos Deputados" da sessão de 25 de Fevereiro de 1920, na página 7:

«Informação que colhi convencido do que apenas poderia trazer à Camara a nota das verbas cobradas e distribuídas desde 1918 para cá.
Eu vou ler à Câmara.
O Sr. Eduardo de Souza (interrompendo): - Peço a V. Ex,a que leia primeiramente os nomes das casas de jogo que pagaram.
O Orador (lendo): - Clube Vila Garcia, Pedrouços, 100$; Palácio da Regaleira, rã, 1.500$; Sporting Clube de Lisboa, 1.000$; Clube dos Restauradores, (Ma-xime), 4.0000-; Clube dos Patos, 1.000$; Grémio Português (Redondo), 800$; Clube Nacional, 1.000$; Palace Clube, 3.000$; Clube da Restauração, 200$; Clube a Fita, 200$; Recreativo Popular, 200$; Clube Internacional, 800$; Rossio Clube, 1:000$; Bristol Clube, 1.000$; Majestic Clube, 3.000$; Índia Clube, 200$; Clube da Forra, 200$; Olímpia Clube, 200$; Petit Foz, 200$; Palais Royal, 300$; Moulin Rouge, 200$; Clube Montanha, 200$; Academia Recreativa Estrela Polar, 200$; Clube Recreativo Internacional, 200$; Clube Recreativo do Monte, 200$; Rato Clube, 200$: Clube dos Bebianos, 200$; Clube Recreativo, 200$; Clube dos Quatro, 200$; Recreativo Aliança, 200$; Beato Clube, 200$: Clube 31 de Janeiro, 200$; Clube Recreativo 5 de Outubro, 200$; Clube Luso-Breme, 200$; Ritz-Club, 1.500$. »

Penso que seria uma sala dedicada exclusivamente a jogo, como era costume na época, não tendo espectáculos nem jazz-band. Neste tipo de salas os jogos mais concorridos eram a roleta, o bacarat e a banca francesa, todos jogos de azar proibidos. Mas também se jogava bilhar, mah-jong, king, e bridge. A partir de 1929 (deduzo eu) terá se transformado exclusivamente em cabaret, com jazz-band privativa, ou convidada, e, como já referi, passa a denominar-se "Olimpia Club".


1929

Acerca dos clubs nocturnos, aqui fica um artigo da autoria de Félix Correia, publicado no jornal "Diario de Lisbôa", em 13 de Julho de 1927. 

(clicar para ampliar)

Nesta altura reinavam o "Alhambra", no "Parque Mayer", o "Bal-Tabarin Montanha" na Rua da Glória, o "Avenida Palace Club" no Palácio Lima Mayer, "Monumental Club" (ex-"Majestic Club") na Rua Eugénio dos Santos, o "Palace Dancing" (ex-"Ritz Club") e o "Maxim's" ambos no Palácio Foz.

Foi nesta sala que o famoso guitarrista Armandinho (1891-1946), fez a sua estreia como guitarrista profissional, acompanhado à viola por João da Mata Gonçalves. Continuaria a manter em simultâneo com outros trabalhos como sapateiro, operário da "Companhia Nacional de Fósforos", servente do "Casão Militar" ou fiscal do "Mercado da Ribeira".


1930

O "Olimpia Club" esteve presente no desenvolvimento do jazz em Portugal ao ter estreado, em 12 de Março de 1930, a jazz-band cubana  "The Ibero American Syncopators", liderada por Santiago Sanches, e composta por nove músicos, a maioria dos quais negros. A sua contratação para o "Olímpia Club" entre 12 e 28 de Março foi resultado do grande sucesso que alcançara no decurso d o evento «Semana Portuguesa» na "Exposição Ibero-Americana" realizada em Sevilha entre Maio de 1929 e Junho de 1930, onde actuara no restaurante "Plantación". Também deu espectáculo o bailarino Elias Pierre, anunciado na imprensa como «o rei do charleston e do black-bottom». Aqui deu, aliás, lições grátis, tendo ensinado «a dançar todas as damas e cavalheiros em 10 segundos o black bottom».


18 de Março de 1930


28 de Março de 1930

Também em Março de 1930, apresentou-se no "Olímpia Club" a orquestra do pianista António Roman Navarro. Além desta, passaram por esta sala a "Orquestra Abel Rezende", que se estreou no Salão "Olímpia" em 1927 e que aqui atuou regularmente durante mais de 14 anos, assim como, nos anos 50 do século XX, a "Orquestra Royal Jazz", com o violinista Rosário, o cantor Abreu Moreira e "Os Magos do Ritmo".

29 de Março de 1935


1939

1940


1949

«Mais importante nesta década foi a presença do conjunto de Domingos Vilaça, músico que aqui atuava em Fevereiro de 1954 e cujo prestígio como instrumentista era já tão significativo na época que a direção do Olímpia Club chegou mesmo a publicar anúncios na imprensa para realçar a sua contratação. Justamente distinguido, Vilaça foi um dos pioneiros no jazz em Portugal, tendo gravado nos anos 50, para a editora Alvorada, os primeiros dois discos deste género musical realizados por músicos portugueses» in: "Roteiro do jazz na Lisboa dos anos 20-30" de João Moreira dos Santos (2012).

27 de Fevereiro de 1954

Após uns tempos encerrado, reabriria em 4 de Dezembro de 1958. O jornal "Diario de Lisbôa" assinalaria o evento com o seguinte artigo:

«O «Olympia Clube» - o popular «Sempre em Festa» - que sempre beneficiou da circunstancia de ser considerado o ponto de reunião favorito das mais diferentes camadas sociais, reabre, esta noite, integrado nas suas tradições, mas com um programa de inciativas cuidadosamente estudadas, que vão merecer os mais vivos aplausos do publico e lhe asseguram vir a ocupar condignamente o lugar a que se propõe entre os mais selectos «dancings» da capital. Agora sob a direcção técnica e artística do sr. António Martins, ex-chefe do grande Casino de Espinho, que sempre soube corresponder as crescentes exigências de diversão impostas pelas novas concepções de espírito moderno, o «Olympia Clube» assinala: a partir de hoje. o começo de uma actividade que visa proporcionar melhores horas de conforto e de convívio alegre aos que vivem sob a intensa fadiga de terem de suportar os mesmos hábitos nocturnos há muito estagnados no mais absoluto marasmo. E' contra esse espírito rotineiro, em que o «Olympia Clube» sempre viveu, que o sr. 'António Martins decidiu reagir, com a certeza de que o seu esforço será amplamente recompensado pela presença não só dos mais selectos sectores sociais, mas também para todos aqueles que se deslocam da Província ou se encontrem de passagem em Lisboa. Além destes motivos, já de si suficientes para darem foros de grande acontecimento á reabertura do «Sempre em Festa», concorrem, ainda. para o justificar a circunstancia da nova gerência caprichar em apresentar um notável serviço de «bar» e de restaurante e de ter contratado um esplêndido conjunto de artistas de «music-hall», entre os quais se destaca a actuação, pela primeira vez: em Portugal, de Margarita Ruiz, famosa vedeta de baile, e Paquita Fortes, admirável intérprete da canção moderna. Do elenco fazem parte, ainda. a  extraordinária parelha coreográfica «Adoracion y Jose Luis» e outras brilhantes atraccões, além da reputada Orquestra Almeida Cruz, com o seu cantor Fernando de Oliveira. (Adultos - Maiores 17 anos).»


5 de Dezembro de 1958

Mas foi «Sol de pouca dura», o "Olimpia Clube", explorado pela "Empresa António Martins", encerraria em definitivo no Carnaval de 1959. Nestes anos «reinavam» o "Tágide", "Maxime" "Ritz Club", "Negresco", "Bico Dourado", "Nina", "Príncipe Negro", "Pasapoga", etc. Outras casas, outras espanholas ...

9 de Fevereiro de 1959


25 de Novembro de 1959

"Olimpia" em foto de 1960


fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaCasa Comum, Publisite

1 de setembro de 2019

Ritz Club e Club Montanha

O primeiro “Ritz Club” foi inaugurado, na ala sul do “Palácio Foz” (ouPalácio de Castelo Melhor) na Praça dos Restauradores em Lisboa, em Julho de 1921 vindo a ocupar as antigas instalações da americana “Colonial Oil Company”, que dali saíra aquando da sua integração na “Vacuum Oil Company”.

1922


No 1º andar desta ala viria a instalar-se o "Ritz Club"


Anúncio publicitário mais antigo a que tive acesso, de 26 de Abril de 1921


Em meados de Fevereiro de 1921, os estabelecimentos autorizados a estarem  abertos da meia-noite às quatro horas da madrugada, incluíam já o “Monumental Club, o “Bristol Club” (Rua Jardim do Regedor), oMaxim’s - Club dos Restauradores (ala norte do "Palácio Foz”, o “Palais Royal” (esquina da Avenida da Liberdade junto ao "Ascensor da Glória"), o "Ritz  Club" e o “Club dos Patos” (no Largo do Picadeiro).

O “Ritz-Club” iniciou a sua atividade após o fim da I Guerra Mundial (1914-1918), a exemplo de outras já existentes, como casa de jogo, diversificando progressivamente os seus serviços com o duplo objetivo  de cativar mais clientes, - serviço de barbearia, salas de leitura, salas de fumo, jazz bands e espetáculos, entre outros - e camuflar a sua principal atividade e fonte de lucro: o jogo de casino.  Além do consumo de substancias ilícitas como ópio, o absinto, morfina; em menor escala a heroína mas a grande novidade era sem dúvida alguma, a cocaína, também conhecida como fada branca ou neve.

Entrada para o "Ritz Club" no "Palácio Foz"


O restaurante era um dos principais serviços dos clubes nocturnos lisboetas. "Maxim´s", o "Clube dos Patos", o "Monumental Club", o "Regaleira Club" o "Bristol Club", o "Olympia Club", o "Ritz-Club" e o "Club Montanha" encontravam-se licenciados como restaurantes. Os próprios clubes anunciavam-se como restaurantes, juntando a esta designação o dancing, actividade que acrescentavam à primeira. A existência de uma jazz-band em restaurantes ou mesmo casas de chá começava a generalizar-se em Lisboa.

16 de Julho de 1921


Os Clubs menos bem frequentados, seriam o “Ritz Club” e o “Clube dos Patos”, e os mais elitistas eram o Maxim’s - Club dos Restauradores” ou  o “Monumental Club” (ex-Majestic Club”, por sua vez ex- “Palace Club) «o mais rico e civilizado de Lisboa» , que obviamente geravam receitas mais avultadas.

13 de Janeiro de 1921


Artigo em 24 de Dezembro de 1922


Infelizmente, eram frequentes desacatos, e até assassinatos dentro e à porta de alguns clubes nocturnos. Exemplo disso, em Outubro de 1926 era noticiado um incidente no "Ritz Club":
«Esta madrugada, cerca das 2 horas e meia, apareceram no Hospital S. José (...) dois indivíduos que levavam nos braços um homem gravemente ferido (...). os dois passageiros, um empregado do Ritz Club e um frequentador dessa casa contaram o sucedido, "um azar" ...».

1 de Março de 1926


24 de Outubro de 1926


O jornal "Diario de Lisbôa" complementava a notícia anterior, com mais pormenores: 
«Pelas averiguações a que a polícia procedeu, apurou-se que o caso do Ritz Club, de que resultou a morte do alfaiate José Saraiva, foi motivado pela imprevidencia do barbeiro daquele Club, João Pereira.
Este vai ser enviado para o tribunal da Boa Hora, acusada de homicídio involuntario. O barbeiro tinha licença de porte de arma, encontrando-se detido para averiguações o ex-agente Candeias da P.I.C. que assistiu a toda a scêna.»

Artigo no "Diario de Lisbôa" em 13 de Julho de 1927


A última referência ao “Ritz-Club” no “Palácio Foz”, a que tive acesso, foi um anúncio no “Diario de Lisbôa” de 20 de Agosto de 1927, pelo que deduzo que terá encerrado definitivamente pouco tempo depois, já que nem nos festejos de passagem desse ano para 1928 aparece. Lembro que foi nesse ano de 1927 em 3 de Dezembro que foi publicado um decreto-lei nº14.643 (que criou o Conselho de Administração dos Jogos, atribuindo lhe funções de administração, regulação e fiscalização) que proibia definitivamente com o jogo ilegal em Lisboa e arredores, e decretando que «só será permitido o jogo de fortuna ou azar em casino ou casinos construídos a Oeste de São João do Estoril» . No Monte Estoril existia o "Grande Casino Internacional" desde o primeiro decénio de 1900. O "Casino Estoril" (primeiro) seria inaugurado em 15 de Agosto de 1931.

20 de Agosto de 1927


Em 18 de Fevereiro de 1928 já era o "Palace Dancing"


O espaço anteriormente ocupado pelo “Ritz-Club” e "Palace Dancing" viria a ser ocupado pela nova sede do “SCP - Sporting Club de Portugal”, inaugurada em 15 de Junho de 1933.

Dia da inauguração da nova sede do SCP em 15 de Junho de 1933


Quanto ao “Club Montanha” ou “Bal-Tabarin - Club Montanha”, ter-se-á instalado na Rua da Glória, 57 igualmente em 1921, vindo a ocupar o antigo edifício-sede da “Tuna Commercial de Lisboa” fundada em 1903 e resultado da fusão de dois grupos de bandolinistas ativos no início do século XX: o da Associação de Caixeiros de Lisboa e o de Alcântara. A sua primeira apresentação pública da foi realizada no dia 17 de Abril de 1904 no Theatro D. Amelia, em Lisboa, sob a direção de Miguel Ferreira.

A inauguração deste edifício mandado construir por Feliciano da Silva (benemérito desta instituição), e projectado pelo arquitecto Jorge Pereira Leite, teve lugar em 11 de Outubro de 1908.

Inauguração do edifício-sede da "Tuna Commercial de Lisboa" 



"Tuna Commercial de Lisboa"


Como se pode depreender da designação de “Bal-Tabarin - Club Montanha”, - O Bal-Tabarin foi um conhecido cabaret parisiense inaugurado em 1904 e encerrado em 1953, que acolheu em  1915 o Moulin Rouge após um incêndio que destruiu as suas instalações - outras como esta, acusavam tentativas de internacionalismo (ou melhor francesismo) numa tentativa de luxo e sofisticação: “Moulin Rouge”, o “Olympia Club”, “Palais Royal”, “Magestic Club” (ex- “Palais Royal”), “Ritz-Club”, “Maxim’s”, etc.

30 de Dezembro de 1921


Artigo em 24 de Dezembro de 1922


Os clubes nocturnos com as licenças de jogo mais altas nos primeiros anos dos anos vinte do século XX , seriam o “Maxim’s” (quatro mil escudos), o “Majestic Club” (três mil escudos), o “Regaleira Club” , o “Ritz-Club” (mil e quinhentos escudos) e por fim os Bristol Club e “Club dos Patos” (mil escudos). Em 1925, o “Maxim’s” pagava, anualmente, o valor de dez mil escudos, o “Bristol Club” sete mil  escudos, o “Monumental Club” pagou no primeiro semestre desse ano, nove mil escudos assim como o “Club Montanha” que pagou quatro mil, trezentos e vinte escudos. Em 1929, o “Maxim’s” pagou ao Governo Civil um total de vinte e quatro mil escudos, apesar da lei antijogo de 1927 ter já sido publicada. 

"Slot-Machine" em Portugal nos anos 20 do século XX


Capas de partituras de músicas alusivas ao jogo e à cocaína nos anos 20 do século XX


1924


O “Club Montanha” do empresário Maximiano Ferreira era assim descrito num apontamento publicitário em 3 de Janeiro de 1927: 

«Mais uma vez este elegante cabaret, da rua da Gloria veiu demonstrar ser o unico que no seu genero existe em Portugal, devido aos esforços empregados pelo seu empresario sr. Maximiano Ferreira, que não se cança de contratar para a sua casa de espectaculos as melhores artistas espanholas (...)
O "Bal-Tabarin" Montanha, além de ter um magnifico salão para "soirées", tem tambem um esplendido restaurante que fornece magnificamente jantares completos a 10 escudos e ceias completas a 12 escudos.»

Nos primeiros meses de 1928 encerraria e só reabriria em 4 de Outubro de 1930, cujos pormenores da sua reabertura poderá ler no anúncio publicitário seguinte.

25 de Janeiro de 1928


4 de Outubro de 1930


A última referência ao “Club Montanha”, a que tive acesso, foi um anúncio no “Diario de Lisbôa” de 4 de Março de 1934, pelo que terá encerrado definitivamente pouco tempo depois, já que por altura da passagem de ano já não aparecia publicidade sua em jornais.       

4 de Março de 1934


Apesar de existirem referências (nunca indicando o espaço temporal) dum “Treze da Glória” neste edifício, nunca vi em parte alguma referencia noticiosa ou publicitária, em jornais, revistas, etc, acerca do mesmo, pelo que permitam-me duvidar da sua existência.

No Carnaval do ano de 1940 já o edifício da Rua da Glória, 57 era ocupado pelo Bar-Dancing “Concha”, dirigido por Pedro Saldanha ex-gerente do “Eden Bar-Dancing”, que funcionava no edifício do Teatro e Cinema “Éden”. Creio que a propriedade do Bar-Dancing "Concha" era do maestro Sousa Pinto. Esta casa não teve grande existência e em 1943 já estava encerrada.

3 de Fevereiro de 1940



10 de Setembro de 1942


Em 29 de Janeiro de 1944 era inaugurado o "Ritz", salão de chá e restaurante, instalado no 1º andar do nº 240 da Avenida da Liberdade, esquina com a Rua Alexandre Herculano (onde hoje está a loja "Cartier"). Não sei se foi coincidência de nome, ou não, mas como a sua abertura ocorreu praticamente 2 anos antes do novo "Ritz Club" e o seu desaparecimento aquando da abertura deste, arriscaria a dizer que o proprietário poderia ser o mesmo, mas certeza não tenho nenhuma. De referir que após o desaparecimento deste salão de chá e restaurante "Ritz" foi criada a "Pensão Ritz" no mesmo prédio.

31 de Dezembro de 1943


29 de Janeiro de 1944 


Dentro da elipse desenhada o edifício onde se instalou o "Ritz" salão de chá-restaurante, podendo-se avistar no último piso o reclamo à "Pensão Ritz"


No dia 6 de Dezembro de 1945 foi inaugurado o novo "Ritz Club" na Rua da Glória, 57 no mesmo edifício construído para a "Tuna Commercial de Lisboa" e onde já tinham estado instalados o "Club Montanha" e o Bar Dancing "Concha".



A propósito da sua inauguração, o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava na véspera:

«É amanhã que se realiza, na Rua da Glória, a inauguração dum novo recinto de variedades, com uma festa especial dedicada á Imprensa de Lisboa - "Ritz-Club" que está montado com um luxo extraordinário, de requintada elegância, com salas cheias de conforto, "bars" e "dancing". Exibir-se-á no palco um programa organizado pela Agência Dulini, que apresenta as atracções The Jasmin's Torr Ballet, as bailarinas de classe, Argentina Moral e Nita Uchés e a orquestra Espña-Marins.»

                                                Interior do “Ritz-Club” nos anos 70 e nos anos 50 do século XX


Anúncio publicitário em 1 de Agosto de 1954


No anúncio anterior, e no seu final, pode-se ler uma referência ao "Casino de São Jorge". Em 1953, o "Ritz Club" tinha aberto a sua sucursal na "Feira Popular de Lisboa", na Palhavã, com a designação de "Casino de São Jorge", auto intitulando-se de «ponto de reunião da Lisboa elegante». Lembro que a "Feira Popular de Lisboa", nesta altura, possuía três dancings: o "Meia-Noite", o "São Jorge" e o "Tamariz".

1 de Junho de 1955


1 de Junho de 1956


9 de Dezembro de 1953


Mas não só de espanholitas "viveu" o "Ritz Club". De vez em quando também ali se cantava o fado, como o anúncio seguinte o demonstra. Claro, que dias depois, as ditas voltavam "à carga" ...

2 de Setembro de 1958


15 de Setembro de 1958


Segundo um artigo de Raquel Moleiro publicado no jornal "Expresso" em 2004, o "Ritz Club" «Foi poiso de artistas, prostitutas, nobres e fadistas. Foi palco de vaudeville e striptease. Dali partiam os soldados para o Ultramar. Ali chegavam os marujos de além-mar"

Interior do “Ritz- Club” já no século XXI



O mesmo artigo, conta que o "Ritz Club" era um cabaret popular que se gabava de ser o mais barato de Lisboa. Estava sempre em festa: «No palco, a Grande Orquestra Ritz – bateria ao centro, metais alinhados em primeiro plano, ao estilo big band americana - tocava música de baile, tangos, boleros». Décadas depois, nos anos 80 do século XX, quando o cantor Vitorino, o seu irmão Janita, a actriz Maria do Céu Guerra e outros sócios ficam à frente da casa, o "Ritz Club" tornou-se palco de eventos culturais. É nesta fase que aqui são lançadas bandas como os Da Weasel ou os Blasted Mechanism, além de terem lugar representações teatrais.

10 de Agosto de 2012


Em 2 de Março de 2013


12 de Abril de 2013



Apesar o edifício se ter degradado, a autarquia lisboeta, liderada pelo presidente de então, João Soares, entre 1995 e 2002, tomou em mãos a sua recuperação e conservação com enfoque na sua lindíssima fachada e nos seus azulejos da "Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego" (fundada em 1849), refazendo a sua designação original em azulejos: "Tuna Commercial de Lisboa".



Depois de vários "abre e fecha" e de várias tentativas de revitalização do espaço, ao longo dos últimos anos - em que a última reabertura em 2012 se confrontou com as queixas da vizinhança do ruído além do aceitável, tendo sido forçado a encerrar em 2013 - o edifício encontra-se, actualmente, para venda.