Restos de Colecção: Galerias de Arte
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28 de abril de 2024

Fotógrafo Augusto Bobone

O fotógrafo e pintor Augusto Bobone (1852-1910),  nasceu no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, estudou pintura na Academia de Belas Artes de Lisboa, curso que concluiu com louvor, e casou com Elisa da Glória Cabral de Albuquerque de Sacadura do Amaral, igualmente de Santo Ildefonso. Tiveram três filhos, Coríntia, Crisália e Octávio que viria a suceder ao pai na direção da casa fotográfica após a sua morte infeliz por congestão diabética ocorrida a 11 de Maio de 1910.


Augusto Bobone, sucedeu a  outro grande fotógrafo, Alfred Fillon (1825-1881), proprietário do estúdio fotográfico da rua Serpa Pinto, número 87, e veio a receber o alvará de fotógrafo da Casa Real de Portugal, que acumulou com o título de fotógrafo da Casa Real de Espanha. A qualidade do seu trabalho fotográfico foi amplamente recompensada com a obtenção de vários grandes prémios, diplomas e medalhas de ouro e prata em exposições nacionais e internacionais, sendo de destacar a medalha de ouro da "Exposição Universal de Paris", em 1900. A sua obra foi virada sobretudo para o retrato mas não deixou de fotografar vistas, tendo também colaborado na preparação da representação portuguesa à "Exposição Universal de Chicago" de 1893.


A qualidade dos retratos do estúdio A. Fillon, em particular de actores e personalidades, conseguiu deixar uma marca importante na sociedade portuguesa do seu tempo e foi por isso, e com naturalidade, que na sequência da morte acidental de Alfred Fillon (1825-1881), em 27 de Agosto de 1881, - morte devida a picada de insecto venenoso aquando de uma excursão ao Bussaco - o seu sucessor à frente do atelier, Augusto Bobone, herdou a preferência dos actores e dos artistas, na ocasião de se fazerem retratar, situação de privilégio comercial a que Bobone deu continuidade e se prolongou durante a derradeira década do século XIX e primeiros anos da seguinte.

Alfred Fillon (1825-1881)



30 de Maio de 1865

O estúdio Bobone foi criado por Augusto Bobone (1852–1910), na sequência da compra do antigo estúdio de Alfred Fillon em 1889, que também realizava exposições. Situado na Rua Serpa Pinto, 79-87, Lisboa, foi ainda, no século XIX, um local de referência cultural da cidade de Lisboa como galeria de arte e com ligações a alguns artistas. No século XX, o seu filho, Octávio Bobone manteve o estúdio e a tradição da galeria de exposições, bem como o prestígio do mesmo.

«Regressa hoje de Paris, onde foi visitar a exposição, o sr. Bobone, o distincto photographo que tão zelosamente tem sabido conservar os antigos creditos da casa Fillon, em cuja propriedade sucedeu.» in. "Diario Illustrado", de 13 de Outubro de 1889.

       

1900

       


10 de Junho de 1906


10 de Abril de 1904


Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade de Coimbra (foto A. Bobone)


Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (foto A. Bobone)

Num artigo publicado no "Almanak Palhares" para 1900,  era assim descrito o atelier de A. Bobone:

«E’ justo dizer-se que a photographia tem adiantado muitissimo nos ultimos dez annos, e que já possuimos alguns photographos que se pódem tomar a sério. Sobresahem no primeiro plano d’estes artistas, em Lisboa o sr. Augusto Bobone, e no Porto o sr. Emilio Biel. O sr. Bobone tem feito estudos muito notáveis, e póde-se dizer afoitamente que acompanha a vanguarda dos progressos photographicos. O seu atelier na rua Serpa Pinto está montado com magnificencia e luxo e provido das mais modernas e apuradas machinas e apparelhos. Aqui revela-se apenas a feição do industrial esmerado que se compraz no luxo e na perfeição. Operando no seu laboratorio manifesta-se o artista em toda a sua expansão. Nas suas provas photographicas demonstra-se que a missão do photographo vae muito alêm da simples tarefa de tirar clichés e que a arte intervem em muito na photographia reduzindo a machina á sua verdadeira importancia de copiadora fiel das imagens.
E’ no atelier da rua Serpa Pinto que se photographa a familia real portugueza; é ali que, geralmente, se photographam as notabilidades extranjeiras que visitam Lisboa.
Em resumo aquella casa é sem hesitação alguma a primeira da nossa capital e está a par das primeiras que existem nas primeiras capitaes do mundo. Quem visitar o atelier do sr. Bobone e examinar as photographias expostas notará que em tudo quanto ali se vê se revela o espirito culto e refinadamente delicado d’um artista de raça. Na simples disposição dos quadros e em mais miudos pormenores se colhe esta boa impressão. Cada photographia é um depoimento indiscutível do talento e alto valor do sr. Bobone.
E ha ainda mais: o sr. Augusto Bobone é um investigador que tem estudos muito sérios mesmo no campo da sciencia. São muito notáveis os seus trabalhos de radiographia a que se dedicou logo que o celebre doutor Rontgen deu a publico as suas interessantes descobertas da photographia attravez dos corpos opacos.
O sr. Bobone, de collaboração com algumas das nossas notabilidades medicas, fez uns brilhantes ensaios que são uma grande gloria do laureado artista. Publicou um folheto sobre os Raios X, onde dava conta dos seus estudos até ao  anno de 1897, data da apparição d’este livro curiosissimo e digno de lêr-se.»



1902


1911


15 de Março de 1903

O "Salão Bobone", estúdio do fotógrafo Augusto Bobone, ficava situado na Rua Serpa Pinto,  perto do "Museu Nacional de Arte Contemporânea". Em 1916, José Pacheco (que assinava como Pacheko) abriu aí a "Galeria das Artes", onde logo expuseram ele próprio, Almada, Jorge Barradas, Francisco Smith, António Soares e Alice Rey-Colaço, cada um com o seu entendimento modernista. Várias foram as exposições que o Salão acolheu ao longo dos anos e variadas as tendências expostas.


14 de Janeiro de 1916



Chefe de Estado, General Carmona, na inauguração da exposição de Columbano, em 1926


Exposição de Trabalhos Femininos em 4 de Abril de 1927


Exposição de Diego de Macedo (1889-1959) em 1928

Foi no "Salão Bobone" que os  os primeiros contornos do movimento modernista, iniciado com as acções artísticas decorridas entre 1915 e 1917 em torno da revista "Orpheu" que pretendia romper com o passado, tornou-se bastante significativo no quadro sociocultural do país. Estes fizeram-se sentir a partir da "Exposição Livre", em 1911, realizada no "Salão Bobone", em Lisboa, organizada por Manuel Bentes (1885-1961) e sob o lema: «Queremos ser livres! Fugimos aos dogmas do ensino, às imposições dos mestres (…)». Conforme afirma José Augusto França “«Exposição Livre», em 1911 (…), no salão de exposições artísticas do famoso fotógrafo Bobone, na Rua Serpa Pinto.

       

1928


Exposição de Maria Adelaide Lima Cruz (1908-1985) na foto com sua mãe e Mestre Carlos Reis (1863-1940), em 1928


Exposição de José Tagarro (1902-1931) em Março de 1928


Exposição de Expo Júlio de Sousa (1907-1966), com José Tagarro (1902-1931) e Lázaro Velloso (1897-1993), em Abril de 1929

Mas ... por outro lado, em 20 de Janeiro de 1924, José Rodrigues Miguéis escrevia na revista "Seara Nova", a propósito da exposição "Ar Livre" levada a cabo no "Salão Bobone" :

«Aquele salão Bobone devia ser arrazado. Acreditamos que a sala influi aziagamente na obra dos dois artistas, pois deve ser horrível a idea de que se pinta um quadro para o expôr naquela cripta funerária. Deve fazer vontade de não trabalhar. E, a bem da própria dignidade dos artistas, da realização dos seus intuitos de arte, já vai sendo tempo de se pensar em qualquer coisa mais larga, mais arejada, mais iluminada, do que o casebre da rua da "Leva da Morte". Olham-se ali os quadros de esguelha - e se ao menos êles merecessem ser olhados sempre com enternecido entusiasmo ...
Ainda desta vez as nossas impressões se confirmaram: meia duzia de artistas que, mal enchendo uma sala pequeníssima, não chegam a produzir um total de seis quadros que mereçam um aplauso sincero e vivo. Que desalento enorme, olhando aquelas telas quasi sempre inexpressivas, cheias de velhos motivos, de processos velhos, com molduras imitando o velho - e na sala caduca e senil!»


"Salão Bobone" e Octávio Bobone (1894-1959) em 15 de Janeiro de 1929

Bibliografia: "Imagens da saudade: a fotografia de Fillon de "O Contemporâneo" à carte de visite" de Paulo Ribeiro Baptista

26 de dezembro de 2023

Galeria UP

A Galeria "UP" foi inaugurada em 6 de Março de 1933, rua Serpa Pinto, 28-30, em Lisboa. Foi fruto da sociedade, constituída em Dezembro de 1932, por António Pedro (1909-1966) e António Júlio de  Castro Fernandes (1903-1975), e o seu projecto de arquitectura e decoração ficou a cargo do arquitecto Jorge de Almeida Segurado (1898-1990).


António Pedro  nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1909. Foi artista plástico, crítico de arte, encenador, escritor, jornalista, poeta, novelista, escultor, dramaturgo.

Expôs regularmente a partir de 1930, individualmente e em grupo, em Portugal, Londres, Paris, Rio de Janeiro e São Paulo. O seu percurso artístico foi igualmente distinguido em várias exposições retrospectivas ou antológicas. Subscreveu o "Manifeste du dimensionniste" (Paris, 1934), foi co-fundador e membro do "Grupo Surrealista de Lisboa" em 1947 e participou na "1.ª Exposição Surrealista" em 1949,  e coorganizou o "1.º Salão dos Independentes" em 1930 em Lisboa. 

                                            António Pedro (1909-1966)                     António Castro Fernandes (1903-1975)

A Galeria "UP" foi a primeira galeria de arte comercial e privada em Portugal, tendo sido inaugurada em 6 de Março de 1933. Ergueu-se como forma de reação ao regime político em vigor e à falta de liberdade artística, bem como à escassez de apoios e locais de exposição, providenciando suporte a artistas nacionais e estrangeiros que viviam em Portugal.

Constituída em Dezembro de 1932 por António Pedro e António Castro Fernandes, a "UP" esteve em atividade durante três anos. Em Junho de 1934 com a saída de Castro Fernandes da sociedade, entra Thomaz de Mello (1906-1990) - conhecido por "Tom" -, artista gráfico e caricaturista, com estilo modernista O espaço disponibilizava serviços de tipografia,  tabacaria (Revistas e Jornais), livraria, galeria de arte, e artigos para decoração. A Galeria "UP" e o "Salão Bobone" do fotógrafo Augusto Bobone (1825-1910) coexistiram na mesma rua Serpa Pinto.

 Thomaz de Mello (1906-1990)

"Salão Bobone" em 15 de Janeiro de 1929

Galeria "UP", no edifíco da mui conhecida "Photographia Vasques" aqui instalada desde 1907



1932

Numa primeira fase, a Galeria "UP" esteve associada ao "Movimento Nacional Sindicalista", com a impressão e publicação de manifestos do político conservador e monárquico Rolão Preto, e obras como o texto da conferência "Direcção Única" de Almada Negreiros (1893-1970), que se incompatibilizara com as propostas do "SPN.- Secretariado da Propaganda Nacional" (1933-1945) Os seus dirigentes revelavam-se bastante ecléticos, chegando também a imprimir catálogos para a "SNBA - Sociedade Nacional de Belas Artes" (cat. UP, 1933). Distinguiu-se por iniciativas como a publicação de uma revista – a revista "UP", «de divulgação e cultura de bom gosto», de que apenas foram publicados dois números, o primeiro, de 25 de Dezembro de 1933, com capa de Almada Negreiros.


Exposição de Thomaz de Mello em 1933



Abril de 1933

Maio de 1933

Mais tarde, surgiriam os cinco números da revista "Cartaz", de Fevereiro a Outubro de 1936. A galeria apoiou a carreira de vários artistas, mantendo obras em consignação como Almada Negreiros, Jorge Barradas, Ofélia Marques, Bernardo Marques, Mário Eloy, Carlos Botelho, Sarah Afonso, Abel Manta, Diogo de Macedo, Hein Semke, Emanuel Altberg e Gameiro. Mais tarde, em 1935, realizou uma sucessão de exposições individuais – de Álvaro Perdigão, Carlos Botelho (1932), Tom (1933), Jorge Barradas (1935), Javier Aracena (1935), Pamela Boden, Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva (1935).


Como foi referido anteriormente, a Galeria "UP" teve vida curta, tendo encerrado no final de 1935.

No seu lugar um antiquário, nos anos 60 do século XX. O edifício já contava com mais um piso


Actualmente. a loja "Nica" «açambarcou» todo o piso térreo ...

Bibliografia: "Galerias de Arte em Lisboa. Passado e presente". Dissertação para obtenção de grau de Mestre em Mercados de Arte, de Maria Luísa Santana Ramires - ISCTE IUL - 2018