Restos de Colecção: Abril 2021

7 de abril de 2021

Papelaria da Moda

Em 1915,  António Pina Vieira funda a "Papelaria Vieira", (futura "Papelaria da Moda") na Rua do Ouro 167-169, nas antigas instalações da papelaria do antigo palhaço Wythoine do "Theatro-Circo de Price".


Quanto à "Papelaria Vieira" (futura "Papelaria da Moda")  o jornal "A Capital" em Agosto de 1916, escrevia:

«Nos nos 167 e 169 está presentemente instalada a Papelaria Vieira, cuja especialidade consiste na venda de penas com tinta, tendo uma collecção enorme e riquissima.
Antes estava ali uma casa de brinquedos varios, pertencente ao sr. Antonio Candido de Menezes. Foi nessa loja que o palhaço Wythoine teve a sua tabacaria. É curiosa a historia d'esse palhaço, que trabalhou com Sechi e Alfano, no Circo Price, à esquina da travessa das Vaccas. Sahindo d'essa casa de espectaculos, Wythoine fundou a empresa de onde sahiu a do Colyseu dos Recreios, dando-lhe o nome "Lisbon Pavillon and Summer Garden's". Mais tarde, porém, como fosse posto fóra da empreza, fundou a tabacaria alludida, onde passou o resto da vida.
A papelaria Vieira está na antiga loja de Whythoine ha dois annos o maximo. Entretanto, conta já uma notavel clientella, recrutada na alta roda lisboeta, sendo notavel o negocio que ella faz de penas com tinta e dos respectivos acessorios. Na sua especialidade, esta casa virá dentro em pouco a ser uam das mais importantes de Lisboa.»




Interior da "Papelaria da Moda" aquando da "Semana dos Artistas", em 24 de Janeiro de 1928


1920


Carro alegórico da "Papelaria da Moda", nas "Festas da Cidade de Lisboa" em Junho de 1928


Janeiro de 1930


A, já, "Papelaria da Moda", propriedade da empresa "Vieira & Cª." viria a ser, a partir de 1935, importadora e representante para Portugal das canetas "Parker". A partir dos anos 50 do século XX passaria a importação desta marca de canetas, a ser feita por outra empresa da família a "Vialga - Representações S.A.R.L." sediada na Avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa.


1930



1935


1936






1959

A "Papelaria da Moda", viria a sofrer obras de remodelação de interiores, em 1948 sob projecto do engenheiro Francisco Silva Mata. Em 1969 seria alvo de outra intervenção desta vez pelo arquitecto Raúl Hestnes Ferreira (1931-2018), tendo reaberto a 18 de Dezembro do mesmo ano, precisamente 8 anos após a reabertura da "Papelaria Progresso", após obras de renovação como já aqui referenciado.



1969



Variantes de montras da "Parker"

Por essa ocasião o jornal "Diário Popular" escrevia:

« (...) É curioso salientar que o seu fundador, Sr. António Pina Vieira, cerca de 1915, lançou no mercado português a caneta de tinta permanente.
Sendo, portanto, a mais antiga papelaria da Baixa, alia uma experiência de quase meio século a um sentido prático de actualização e bom gosto. As suas amplas secções de artigos de escritório, papelaria, pintura e desenho oferecem ao cliente a possibilidade de uma escolha fácil e a rápida aquisição de qualquer artigo.»


1949


1955

Maria Violante Vieira e Maria Antónia Vieira Gagean sucederam a seu pai António Pina Vieira, na firma "António Vieira, Lda." e à frente das "Papelaria Progresso", da "Papelaria da Moda", e do escritório "Vialga - Representações S.A.R.L", representante de diversas marcas como a "Parker", "Ronson" e outras. Maria Violante Vieira afastou-se da gerência nos anos 70 do século XX, para se dedicar exclusivamente ao "Comité Português para a UNICEF".



A "Papelaria da Moda" viria a encerrar, definitivamente, por volta de 2010, e em 2013 foi adquirida pela "Papelaria Fernandes" (fundada em 1891), passando a ser designada por "Papelaria Fernandes - Loja Moda". «A loja mantém o ênfase na escrita de prestígio, oferecendo ainda, uma oferta diversificada de gift, embalagem, papel e artigos de papelaria, bem como todos os exclusivos Papelaria Fernandes.»


2013


2018

4 de abril de 2021

"J. Heliodoro d'Oliveira" - Armazém de Pianos

A "Casa Oliveira" foi fundada em 1853, por Jacintho Heleodoro de Oliveira sob a firma "J. Heleodoro d'Oliveira", na Rua dos Fanqueiros, 262 sobreloja, em Lisboa.

Em Junho de 1868 seria transferida para a Praça D. Pedro IV (Rossio), 56 -58 num prédio pertença da Duquesa do Cadaval. Este prédio tinha sido acabado de construir em 1819, tendo esta loja sido arrendada na altura a José Maria de Carvalho, e em 1863 ocupada pelo "Armazem de Moveis de Antonio Macedo dos Santos".


Loja que viria a ser ocupada pela "Casa Oliveira", a partir de Junho de 1868 (dentro da elipse)


"Casa Oliveira" dentro da elipse desenhada

Cinco anos após se ter instalado no Rossio, o fundador da "Casa Oliveira" faleceu, em 1873, passando o estabelecimento a ser dirigido pela sua viúva, sob a firma "Viuva Heleodoro d'Oliveira", comercializando pianos verticais franceses: Aucher Fréres, Thibouville-Lamy, Henri Herz, Ignace Pleyel, Erard, etc.

Em 1862 já estava estabelecida na Praça D. Pedro IV (Rossio), 66, - ao lado do botequim do Freitas  e futuro "Café Gelo" - a casa "E. Meumann & C.ª" comercializando pianos das marcas: Erard, Bord, Doerner e Spreoher


13 de Julho de 1864


Capa de partitura publicada pelo "Armazem de Pianos e musica de Viuva Heleodoro d'Oliveira" em 1877

«Um piano de Aucher Fréres, pequeno modelo, cordas verticaes, armado em madeira, vendia-se por 40 libras oiro; um modelo nº 2, medio por 44 libras. Era uso cotarem-se entºao os pianos em libras.
Um piano vertical Pleyel, modelo medio, vendia-se por 66 e um grande modelo por 90 libras. Um grande modelo vertical Erard custava 100 libras.
É de admirar como, apezar de notavel aperfeiçoamento na contrucção dos pianos, estes preços pagos em oiro, são ainda hoje os mesmos. Por 41 libras obtem-se um piano de cordas verticaes ou obliquas armado em ferro, e por 59 libras um bom instrumento com cordas cruzadas.


Piano Ignace Pleyel & C.º

(...) Aos oitenta annos do seculo passado crescia a importação dos pianos allemães, que começara depois da guerra franco-prussiana, operando-se uma verdadeira revolução no mercado da capital. Não tanto assim no Porto que, acceitando o piano alemão, se manteve mais fiel á tradição franceza.

Em 1884 tomára a casa Oliveira a honrosa representação da reputadissima da firma Rud Ibach Sohn, de Bermen. Em 1888 assumia ainda a representação da acreditada firma Carol Otto, para todos os seus modelos com excepção de um que continuou a ser fornecido exclusivamente á Casa Lambertini.» 



Dois anúncios publicitários de 15 de Julho de 1924

E quando um piano era vendido ... os galegos tratavam do transporte.


Em 8 de Março de 1900 falecia a viúva Oliveira, tendo deixado a firma a seu filho, José de Oliveira Garção de Carvalho Campelo de Andrade (1849-1931), em franca expansão. A "Casa Oliveira" de novo sob a firma "J. Heliodoro d'Oliveira" nome adoptado pelo pai do novo proprietário. "este esteve durante annos a limitar a sua acção ás relações exteriores, confiando a gerencia dos negocios internos ao seu empregado mais antigo sr. Francisco Pinto, em serviço na casa desde 1884."

"J. Heliodoro d'Oliveira" ao lado da "Companhia Portuguesa de Higiene, Lda. " (futura "Farmácia Estácio") , em foto de 04 de Janeiro de 1928 (Funeral do Comandante João Belo)

 

«Desenvolveu-se então o ramo de negocios em pianos de cauda Ibach. Em 1901 forneceu a casa para o Paço das Necessidades um piano de cauda de concerto, modelo Ricardo Wagner, o favorito do insigne maestro. Ibach recebeu então o diploma de Fornecedor da Casa Real.
Em 1908 forneceu a casa ao Conservatorio um piano Ibach de grande cauda de concerto, mediante concurso publico em que tomaram parte as grandes firmas mundiais representadas em Lisboa e Porto.»
citações in: jornal "A Capital",  Agosto de 1916.


A "Casa Oliveira", em 1916 ainda conservava todo o seu antigo pessoal com excepção do afinador, que nesse ano era Affonso Gaspin de Sousa "muito notavel não só pela sua aptidão technica como pela sua educação musical". Com o andar dos anos, e acompanhando o desenvolvimento da indústria musical comercializou auto-pianos, gramofones, discos, partituras musicais, etc.


1929

Com a morte do proprietário José de Oliveira Garção de Carvalho Campelo de Andrade, em 1931 este estabelecimento viria a encerrar, definitivamente em 1934, dando lugar ao "Café Portugal" inaugurado em 16 de Abril de 1938, e cuja história poderá consultar neste blog no seguinte link: "Café Portugal"

fotos in:  Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital