Restos de Colecção: Relógios
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18 de dezembro de 2014

Relógio Padrão da Hora Legal

«Quer acertar o relógio? Use o do Cais do Sodré como padrão». Antes de haver sinal rádio e, mais tarde, o sistema de posicionamento global via satélite (GPS), os navios que partiam do porto de Lisboa necessitavam de acertar os seus cronómetros de bordo em terra para, mais tarde, calcularem a longitude no alto mar.

Até meados do século XX, a determinação da hora legal era uma tarefa exclusivamente do foro Astronómico, pois a observação rigorosa das estrelas permitia acertar os relógios de então com uma precisão muito superior ao que estes possuíam. Com o advento da electrónica e de outros padrões internacionais de medição do tempo, o “Observatório Astronómico de Lisboa” equipou-se com relógios atómicos e de quartzo, que permitem manter a hora com uma precisão da ordem do microssegundo.

“Observatório Astronómico de Lisboa” na Tapada Real da Ajuda

Quanto à adopção da “Hora Legal” em Portugal alguns factos e datas:

1884 - Reunião do Congresso internacional de Washington, em que se adoptou o sistema de fusos horários;
1911 (24 de Maio) - Promulgação do decreto da República Portuguesa, estabelecendo em todo o território nacional, desde 1 de Janeiro de 1912, a hora legal, pelo tempo médio de Greenwich
1912 (15 de Outubro) - Conferência internacional da hora realizada em Paris;
1914 (  Junho) - Inauguração do "Posto do Relógio Padrão da Hora Legal”, na Praça Duque de Terceira em Lisboa.

Relógio de Sol “Meridiana dos Remolares” que ocupou até 1874 o centro da Praça dos Remolares, futura Praça Duque de Terceira

Praça dos Remolares, futura Praça Duque de Terceira, e pontão de embarque, que depois do aterro seria ocupado pela sede da “Administração-Geral do Porto de Lisboa” e pelo "Posto do Relógio Padrão da Hora Legal”

Com o fim de emitir a Hora Legal para a cidade e, especialmente, para os navios ancorados no Tejo, foi construído em 1914 o "Posto do Relógio Padrão da Hora Legal»,  na zona do Cais do Sodré e contíguo ao edifício da “Administração- Geral do Porto de Lisboa”, equipado com um relógio mecânico, ligado directamente por cabo eléctrico ao “Observatório Astronómico de Lisboa”, situado na Tapada da Ajuda. Desta Posto partia um sistema semafórico, ao longo da costa, até Belém, para indicação luminosa da Hora a quem estava ancorado no rio.

2º “Balão da Hora” no “Arsenal da Marinha”, recebia o sinal horário enviado pelo “Observatório Astronómico de Lisboa”

Edifício da “Administração-Geral do Porto de Lisboa”

Artigo na revista “Illustração Portugueza” em Dezembro de 1913

Relógio do Cais do Sodré.1 (Dez. 1913)

"Posto do Relógio Padrão da Hora Legal”

Enquadramento do "Posto do Relógio Padrão da Hora Legal”, na Praça Duque de Terceira

A revista “Occidente” descrevia assim o “Posto do relógio padrão da Hora Legal”

«Dois corpos compõe o edifício do Posto: a torre, pouco elevada, rectangular, do relogio-padrão; e a barraca contígua que amplia a instalação e, porventura, suficientemente, para os correspondentes serviços: uns relativos á conservação da hora legal; outros, interessantes á distribuição dos signaes horarios.»

Rui Agostinho, director do “Observatório Astronómico de Lisboa” - entidade que tem a responsabilidade de difundir a hora certa no País - contava ao “Diário de Notícias” «depois do 25 de Abril o relógio esteve praticamente ao abandono». Em 2000, o então director do OAL, Nuno Marques, pediu à “Administração do Porto de Lisboa” para retirar do local a designação "hora legal", inscrita sobre a pala metálica que protegia o exemplar. «O relógio avariava, estava parado, depois arrancava, estava desfasado e confundia as pessoas».

A guarita do Cais do Sodré exibiu, até 2008, o título de “Hora Legal”. No entanto, o “Observatório Astronómico de Lisboa” pediu que esta designação fosse retirada, pois o relógio nunca tinha funcionado em condições. O local está sujeito a grandes amplitudes térmicas e nem a pala que foi acrescentada à estrutura impediu que o mecanismo sofresse com isso. Por outro lado, as trepidações cada vez mais fortes, fruto da passagem do trânsito rodoviário, também afectavam a marcha do mecanismo.

Em 21 de Janeiro de 2009 e ao fim de quase 40 anos, o “Posto do Relógio Padrão da Hora Legal” ,voltou a ter a “Hora Legal”. A “Administração do Porto de Lisboa” anunciava a reactivação a sincronização do mecanismo com o “Observatório Astronómico de Lisboa”, passando esta a ser feita via Internet.

Foi necessário esperar quase um ano para encontrar uma solução que permitisse ao relógio do Cais do Sodré aceder à hora legal. O novo equipamento, vindo da Suíça, da marca “Tissot”, foi montado em finais de Novembro pela empresa portuguesa “Tempus”.

Este relógio recebe sistematicamente a “Hora Legal” e processa um ajuste automático da hora interna, garantindo, assim, a sua exactidão. Esta interface tem um relógio electrónico próprio, com uma unidade de energia eléctrica independente. Deste modo, se houver um corte de energia na zona, os ponteiros param, mas reposicionam-se na hora correcta assim que seja restabelecido o fornecimento de energia. A única desvantagem é que o aparelho não tem ponteiros dos segundos. Se quiser acertar o seu relógio, terá que esperar atentamente pelo movimento do ponteiro dos minutos.

Enquadramento actual

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, A Imagem da Paisagem

14 de fevereiro de 2012

A Boa Construtora

Ao contrário do que o nome possa indicar não se trata de uma empresa de construção civil, mas sim da firma “A Boa Construtora - Fábrica Nacional de Relógios Monumentais”.  fundada em 1930 por Manuel Francisco Cousinha, na Rua Capitão Leitão, em Almada, que fabricava relógios monumentais sobretudo para monumentos públicos e igrejas. Chegaram a trabalhar 40 operários nesta oficina no pós guerra.

Para matar o tempo, que passava devagar nos anos em que era pastor, Manuel Francisco Cousinha inventou e construiu uma máquina para o medir. O seu primeiro relógio era feito de casca de carvalho, folha de flandres e um chocalho de cabra, no lugar da campainha. O inventor, que, na altura, tinha apenas nove anos, viria a trabalhar como ajudante de um relojoeiro da Rua da Prata.

                                                              Manuel Francisco Cousinha

                                                                

Durante a Primeira Grande Guerra foi para França e, depois de vários meses de campanha, instalou-se perto da Suíça, onde adquiriu novos conhecimentos com os fabricantes de relógios. Terminada a guerra, voltou a Portugal, onde, definitivamente, se dedicou à relojoaria.

                                         Instalações originais, na Rua Capitão Leitão, em Almada

                              

                                      No mesmo terreno foram construídas as novas instalações

                                                            

Há relógios de “A Boa Construtora” pelo país, ex-colónias e Brasil. Quem viajar pela zona centro de Portugal, nomeadamente no concelho de Arganil, encontra relógios fabricados por esta firma na torre das igrejas de várias aldeias, o que para quem é natural de Almada deixa algum orgulho. Em Lisboa podemos também ver relógios fabricados em Almada, no Arco da Rua Augusta, no Museu Militar e no Mercado 24 de Julho.

                                               Alguns exemplos de relógios carrilhões mecânicos

   No Instituto Superior Missionário em Carcavelos              Na Basílica do Sagrado Coração de Jesus, em Viana

 

1ª foto: Relógio mecano-horário, de corda electro-automática, de horas, repetição e meias horas.Este relógio que movimenta ponteiros em 4 mostradores exteriores, dispara automáticamente um repique num sino de 150 quilos conforme o horário das entradas e saídas das aulas no Instituto Superior Missionário do Espírito Santo, em Carcavelos.

2ª foto: Relógio mecano-carrilhão, de corda electro-automática, de horas, repetição, meias horas e quartos, estes anunciados musicalmente em 5 sinos, pela introdução do hino "Coração Santo".
Está munido duma roda astronómica que permite o dispare automático das Avé-Marias musicadas pela máquina-carrilhão apresentada noutro local, de manhã, ao meio dia e ao Pôr do sol; as horas, repetição e meias horas são matraqueadas num sino de 960 quilos com a nota Fá. Instalado na Basílica do Sagrado Coração de Jesus, no Monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo.

          Na Igreja de Gabela - Amboim - Angola                    Na Empresa Fabril de Malhas do Calhabé, em Coimbra

 

3ª foto: Relógio mecano-carrilhão, de horas e quartos, estes anunciados musicalmente em 4 sinos devidamente afinados, pelo Westeminster do Big-Ben de Londres; toca ás horas automática e alternadamente, as melodias " A Treze de Maio " e " Ó Mãe Ternura ", em oito sinos afinados com o peso total aproximado a 700 quilos. O próprio relógio interrompe automaticamente de noite o toque das melodias, recomeçando de manhã.

4ª foto: Relógio mecano-fabril, de horas e meias horas, com movimento de força constante e oito dias de corda, possuindo dois dispositivos: o dispositivo de relógio-padrão, destinado ao comando de diversos relógios eléctricos secundários, de minuto a minuto e o dispositivo-horário, para o comando duma sirene eléctrica, que por meio de diversos alarmes, indica a entrada e a saída do pessoal fabril.

Famosos ficaram os carrilhões fabricados por esta firma, como o retratado nas fotos seguintes para a nova Igreja de Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em 8 de Dezembro de 1947 na Praça Marquês de Pombal na cidade do Porto. Fabricado em 1947, tratou-se do maior relógio-carrilhão mecânico construído em Portugal, por Manuel Francisco Cousinha.

                               

Características:

Relógio-carrilhão de horas e quartos, sendo estes devidamente musicados e anunciados pela parte coral do hino «A Treze de Maio».
As horas são dados em acorde de três sinos, devidamente afinados, e seguida a estas, tem lugar a introdução do aludido hino.
Ao toque da meia hora, seque-se a melodia «Salvé Rainha».
Além do discriminado, o mesmo relógio toca as Avé-Marias musicadas: ao nascer do Sol, seguida a nove badalados em três séries, a melodia «A Virgem Pura»; ao meio dia, depois de iguais badaladas, o hino «Salvé Nobre Padroeira, Imaculado Conceição»; ao pôr do Sol, depois de outras nove badaladas a melodia «Com Minha Mãe Estarei». No outro dia ao nascer do Sol, em vez de a «Virgem Pura», ouvimos a melodia «Senhora Nossa».
Ao pôr do Sol passa a ser a «Virgem Pura» em vez de «Com Minha Mãe Estarei» e assim sucessivamente, o fenomenal relógio, vai tocando estas três melodias ao nascer e ao pôr do Sol alternadamente.
O hino «Salvé Nobre Padroeira» é sempre ao meio-dia, em homenagem à Imaculada Conceição.
O mesmo relógio contém ainda um electroíman junto do disparador, que por meio dum contacto eléctrico feito no sacristia, põe em andamento um dos cilindros musicais, ouvindo-se o toque automático de todas as músicas nele gravadas, em dias festivos ou de visitas.
Funciona por meio de sete pesos cuja ascendência é feita automaticamente.
As suas dimensões são de 3,70 x 1,50 x 1,00 metros, comprimento, largura e altura respectivamente e pesa cerca de três mil quilos.
As sete músicas apresentadas, são tocadas automática e mecanicamente em dezoito sinos rigorosamente afinados com o peso total de sete mil quilos aproximadamente.
O relógio discriminado que movimenta ponteiros em 4 mostradores exteriores, está instalado na torre da Igreja da Nossa Senhora da Conceição no Porto e constitui mais um retumbante êxito da indústria nacional, sob a direcção técnica de Manuel Francisco Cousinha
.

                               

Actualmente  torre da Igreja de Nossa Senhora da Conceição contém ao nível dos mostradores um relógio fabricado pela "A Boa Construtora", montado sobre uma estrutura com 3,7 m de comprimento, 1,5 m de largura e 1,0 m de altura pesando cerca de 3 toneladas. Este relógio que comandava os quatro mostradores, controlados agora pelo sistema informático, pode assinalar as horas, quartos e meias horas, actuando sobre o carrilhão e ainda tocar as “Avé-Maria".

               Igreja de Nossa Senhora da Conceição                             O carrilhão actualmente

          

No seu interior está instalado um carrilhão constituído por dezoito sinos, confeccionados pela "Fundição de Sinos de Braga", cujo peso ronda as oito toneladas. Este carrilhão pode ser comandado por uma pedaleira, pelo relógio e por um sistema informático que possui também associado um teclado, permitindo, a pedaleira e o teclado, a actuação de carrilhonistas aumentando, assim, a capacidade do carrilhão em termos de repertório musical. O sistema informático permite a programação de um repertorio com 154 melodias.

                  

O relógio do Arco da Rua Augusta, em Lisboa, tem, também, a “mão” de Manuel Cousinha. O relógio data de 1941, altura em que ainda não tinha corda automática, pelo que necessitava de funcionários que, algumas vezes por semana, lhe dessem corda e o acertassem. Mais tarde, Manuel Francisco Cousinha, inventou um mecanismo de corda automática que tinha por base o mercúrio. Mesmo assim, por questões climáticas, como a humidade e, também, a falta de verbas para manutenção, o relógio foi-se degradando e, além de parar constantemente, atrasava-se ou adiantava-se. Este relógio em 2007 foi totalmente recuperado e posto de novo a funcionar por Luís Manuel Cousinha, neto do fabricante do mecanismo e seguidor dos passos do avô e do pai. Esta recuperação e restauro ficou a dever-se ao mecenato da “Torres Distribuição”, a marca de relógios suiça “Jaeger-leCoultre” e o Igespar (Instituto para a Gestão do Património).

                                                     Relógio do arco da Rua Augusta, em Lisboa

                            

A título de curiosidade transcrevo a acta da secção da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Penamacor, distrito de Castelo Branco, de 20 de Junho de 1955, sob a presidência do tenente-coronel João Maria Prazeres Milheiro, em que se descreve o contrato de fornecimento de um relógio-carrilhão à “Boa Construtora”:

«A Fábrica Nacional de Relógios Monumentais - «A Boa Construtora» de Manuel Francisco Cousinha, sita em Almada, Portugal, compromete-se a construir e colocar na Torre do Castelo de Penamacor, Distrito de Castelo Branco, , um Relógio-Carrilhão de horas e quartos, estes musicados pelo Westminster de Londres, com repetição de horas, acompanhado de todos os acessórios incluindo um mostrador de cristal fosco para horas luminosas, com dois metros de diâmetro assente em chassis de ferro, conforme desenho enviado, um quadrante e dois ponteiros exteriores de alumínio, e bem assim quatro sinos de bronze campanil, devidamente afinados com as notas musicais, DÓ - FÁ - SOL - LÁ, com o peso total aproximado de 549 Quilos, munidos de cabeçalhos de madeira de mogno, veios de suspensão e toda a restante ferragem de fixação, pela quantia total de 88.070$00 (Oitenta e oito mil e setenta escudos).
Condições: - Ficam por conta da Fábrica, a embalagem, o seguro, o despacho e o transporte de todo o material até à Torre, ficando por conta do cliente, todos os trabalhos e materiais de construção civil que forem necessários, incluindo a construção dos pesos de funcionamento, de pedra ou de cimento e a instalação eléctrica do mostrador.
Prazo de fornecimento: - Imediato.
Pagamento: - 26 contos depois de tudo a funcionar e o restante em duas prestações periódicas dentro de três anos.
Garantia: - Quinze anos, contra todos os defeitos de construção e montagem, mediante um certificado onde fica assumida a responsabilidade.
Almada, 29 de Maio de 1955 » in: Relógios de Torres e Sinos

Esta fábrica de relógios que dava horas a Almada, tinha as suas oficinas no rés-do-chão do prédio da foto. Era objecto da curiosidade das pessoas que passavam pelo local e sobretudo dos miúdos das Escolas Primárias Conde Ferreira, existentes na proximidade. Actualmente o edifício está desactivado para a produção e encontra-se alugado.

                                                  

Fotos, características técnicas excertos de textos  in: Relógios de Torres e Sinos, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, AlmaDalmada

Deixou de produzir depois do 25 de Abril de 1974, devido às complicações da Revolução então em curso.

A continuidade do trabalho de relojoaria tem sido mantida pelo neto Luís Manuel Cousinha Vasconcelos Forra com oficina de restauro e assistência técnica aos relógios de "A Boa Construtora" instalados pelo país, através da "Cousinha - Electromecânica e Informática, Lda.", fundada em 27 de Julho de 1999 em Marisol - Corroios.

Como o nome indica, a empresa alargou as suas actividades aos computadores, mas continua a garantir a manutenção e reparação de dezenas de relógios mecânicos de torre, provenientes de muitas igrejas e edifícios públicos. Apesar de ser hoje possível substituir estes mecanismos por sistemas computorizados, algumas pessoas preferem manter o funcionamento antigo, o que justifica , o trabalho da oficina.

16 de junho de 2011

A Boa Reguladora

A empresa "A Boa Reguladora" resultou de uma sociedade de "capital e indústria" constituída a 14 de Fevereiro de 1892, em Vila Nova de Famalicão, entre João José de São Paulo, negociante e natural do Porto, e José Gomes da Costa Carvalho, proprietário e natural de Mouquim.

Destinada ao comércio de relógios ou de objectos relacionados com relojoaria e particularmente ao seu fabrico, a oficina incorporava o trabalho dos dois sócios como empregados, ganhando de salário o sócio São Paulo, o verdadeiro relojoeiro, 1000 réis diários e José Carvalho 700 réis. A oficina-fábrica foi estabelecida na Rua Gomes Freire (depois Rua Faria Guimarães), no Porto no ano de 1893.

Em 1894 aparecem no mercado os primeiros relógios saídos das oficinas manuais, e no ano seguinte em 1895, conquistam medalha de ouro na Exposição Agrícola e Industrial de Vila Nova de Gaia

Devido a doença do sócio João de São Paulo (que viria a falecer pouco depois), a 11 de Julho d 1895 a sociedade foi reconstituída, cedendo este a quota a José Carvalho associando este seu irmão Lino de Carvalho, relojoeiro e o principal credor de João de São Paulo, Joaquim Martins de Oliveira Rocha. A firma passa a designar-se "Carvalho Irmão & Cª." A fábrica foi logo transferida em 1896, para Vila Nova de Famalicão. Lino de Carvalho, que tinha uma relojoaria comercial e oficina na Rua de Santo António, em Vila Nova de Famalicão, deixa esta actividade, e foi implantar e dirigir a fábrica com o seu irmão ficando as instalações junto à linha férrea, em Calendário.

Em 1897 as suas instalações famalicenses, a fábrica já contava com 34 máquinas de diverso tipo, na sua maioria movidas a vapor, empregando 36 operários, e produzindo uma média mensal d e160 relógios para mesa e parede.

Em 1901, Oliveira Rocha é reembolsado da sua quota, obtida apenas como garantia da dívida contraída por João de São Paulo, pelo que a firma, através de novo pacto social incluiria apenas os dois irmãos, sob nova designação "J. Carvalho & Irmão, Lda.".

Instalações fabris, em S. Julião de Calendário

Numa notícia de 24 de Maio de 1903 no jornal “Estrela do Minho”, é noticiada a intenção dos irmãos Carvalho, proprietários de “A Boa Reguladora”, dotar da cidade de Famalicão de energia eléctrica:

«Está prestes a concluir-se a instalação do grande motor ultimamente adquirido pela fábrica de relógios «A Boa Reguladora» dos activos industriais Carvalho e Irmão desta vila. Ai tem a nossa terra ensejo de primeira ordem implantar aqui o alto melhoramento da luz eléctrica por preço mais económico do que nenhuma outra.Sabemos que os proprietários da grande casa industrial se prestam a fornecer a iluminação desde que se lhes garanta apenas a despesa das instalações nas ruas, que é relativamente pequena, fazendo um preço às lâmpadas bastante económico».

Central eléctrica a vapor, que também fornecia iluminação pública e particular a Famalicão

 

                             Fabricação de caixas e peças                                                    Montagem de relojoaria

 

Em 1907 constrói a sua própria central eléctrica a vapor e a 16 de Outubro do mesmo ano torna-se concessionária do fornecimento de iluminação pública e particular de Vila Nova de Famalicão, num raio de 2 Km e por um prazo de 30 anos. A sua actividade foi-se alargando, explorando as elevadas capacidades energéticas que dispunha , e no início do século XX a "A Boa Reguladora" de "J. Carvalho & Irmão", alargava as suas actividades, além da fábrica de relógios, à carpintaria mecânica, serração e moagem.

A relojoaria Andrade Mello, na Rua Mouzinho da Silveira, no Porto, foi nomeada agente distribuidor dos produtos da fábrica.

1926

1933

Em 1910 já empregava 112 operários dos quais 92 homens, 6 mulheres, 3 rapazes e 11 raparigas. Em 1914 o seu negócio duplica exponencialmente e a sua força de trabalho passa para 220 operários, e a sua produção de relógios nesse ano cifrou-se em 6.408 unidades.

Em 1923 Constrói  de raiz de um edifício em cimento armado, para ampliação das suas instalações, constituindo, hoje, o mais significativo elemento do património industrial da cidade. Neste mesmo ano “A Boa Reguladora” é premiada com a medalha de ouro, na Exposição Internacional do Rio de Janeiro.

Junto à estação ferroviária de Famalicão, é construído um bairro operário para os trabalhadores de “A Boa Reguladora” incluindo, além das residências e seus terrenos (destinados a hortas, etc), uma capela e centro social. Foi o primeiro bairro operário com o tratamento da sua envolvente a ser concebido por um arquitecto paisagista, Francisco Caldeira Cabral, tendo sido percursor de outros construídos nas décadas de 50 e 60.

Etiqueta.2      Etiqueta

A partir de 1955 a empresa evoluiu e alargou o leque das suas actividades, passando também a fabricar contadores de energia eléctrica e de água da marca “Reguladora”. Em 1974 internacionalizou-se, passando uma empresa espanhola a fabricar contadores do modelo “Reguladora”.

Em Dezembro de 1992 “A Boa Reguladora’” foi integrada na Divisão Europa-Sul do grupo Schlumberger e em 2001, pelo grupo Actaris.

Exemplos de relógios fabricados por “A Boa Reguladora”

Algumas páginas do catálogo de “A Boa Reguladora”

Em 2007, José Cunha, José Varela e Filipe Marques, três ex-trabalhadores, adquiriram a patente "A Boa Reguladora", regressando a Vila Nova de Famalicão o fabrico de relógios, sob a nova empresa “Regularfama”, instalada na antiga fábrica. Como curiosidade a média de idades dos funcionários ronda os sessenta anos. Na senda de “A Boa Reguladora”, a nova empresa, além de restaurar e prestar assistência técnica a modelos antigos, continua a fabricar despertadores, relógios de parede, de coluna e outros, com a tecnologia do século XXI. As caixas em madeira são feitas por antigos funcionários, a tecnologia vem da indústria alemã, que fabrica peças de qualidade, em exclusividade para esta empresa e aproveitando e adaptando máquinas de fabrico da “Reguladora”.

“Jornal de Notícias” de 7 de Junho de 2007

2007 Notícia (7-06)

É a mais antiga fábrica de relógios da Península Ibérica. Muitos dos relógios que existem nas estações dos caminhos-de-ferro portugueses, e estações dos CTT, foram construídos por essa empresa e continuam a funcionar.

Relógio-despertador mais recente

Relógio

Bibliografia: blog  HistóriGeo Portugal

fotos in: Estação Cronográfica, Jorge Paulo Oliveira, RelogiosTempo