Restos de Colecção: Maio 2021

30 de maio de 2021

Estabelecimentos Comerciais de Lisboa (64)


Papelaria Camões, na Largo Luís de Camões


Café e Bilhares "Astória", na Avenida Igreja


"Ourivesaria da Moda", na Rua da Prata


Exterior e interior da "Fotocolor" inaugurada em 14 de Maio de 1949 na Rua Áurea



"Rouparia Central" de J. Nunes Godinho, na Rua Áurea


Loja da "Panair do Brasil SA" e da "Pan American World Airways", na Praça dos Restauradores

26 de maio de 2021

Litografia Nacional

A "Lithographia Nacional" foi fundada em 1894, na cidade do Porto, por João Ignacio da Cunha e Souza (1821-1905), capitalista, irmão do caricaturista Sebastião Sanhudo, e sócio deste na "Lithographia Portugueza", em sociedade com o seu filho, Ignacio Alberto de Souza, resultando a firma "C. Souza e Filho".


Dois anúncios publicitários de 1932



João Ignacio da Cunha e Souza numa gravura feita por seu irmão Sampaio de Souza Sanhudo em 12 de Abril de 1874

Já em 1877, João Ignacio da Cunha e Souza tinha fundado, como sócio capitalista, com seu irmão Sebastião Sampaio de Souza Sanhudo (1851-1901) e outro sócio, a "Lithographia Portugueza", (firma "S. Sanhudo & Irmão") conhecida pela "Lithographia do Sanhudo".

«Largas centenas de reproduções litográficas foram espalhadas por livros, calendários, anúncios, mapas e pela imprensa portuguesa, com um estilo realista mas crítico, irónico e fazendo uso dos meios e técnicas do seu tempo.» in: Arquivo Municipal de Ponte de Lima


Após o falecimento de João Ignacio da Cunha e Sousa, o seu filho daria continu­idade à "Litografia Nacional", que em 1910, estava localizada Rua de Malmerendas (actual Rua Dr. Alves da Veiga), nº 22. Inácio Alberto de Sousa residia, bem perto, no Largo do Padrão, nº 20, sendo, naquela data, o seu pai já falecido há 5 anos.




Jornal "Miau" editado pela "Litografia Nacional"

Naquela ano, mais propriamente em 9 de Julho de 1910, Inácio de Sousa solicita à Câmara Municipal do Porto, autorização para ampliar as instalações da Litografia da Rua Dr. Alves da Veiga. Estas, acabariam por estender-se, mais tarde, até à Rua D. João IV, cuja área lhe era contígua, pelas traseiras e, por aqui, continuariam por muitos anos.

A "Litografia Nacional", nestas instalações junto da rotunda da Boavista viria, anos mais tarde, a ser a "Litografia Lusitana", sita à Praça Mouzinho de Albuquerque, nº 197 (na Rua Particular Meneses Russell, 197) e, que, até ao final da década de 80 do século XX, ainda era propriedade dos descendentes - a família Russel de Sousa.





1929

Entretanto, uma "Real Tipografia e Litografia Lusitana", que tinha sido fundada, em 1865, por Apolino da Costa Reis, em 1885, já se tinha tornado na firma "Reis & Monteiro" e ficava na antiga Rua D. Fernando, depois, Rua da Bolsa. Em 1941, viria a ser adquirida por Inácio Alberto de Sousa, que a junta à sua "Litografia Nacional", e o património daí resultante, em 1947, permaneceria na rotunda da Boavista com a nova designação de "Litografia Lusitana", em local que já vinha sendo ocupado desde os anos 20 do século XX.



Julho de 1932


Stand da "Litografia Nacional" na Exposição Industrial Portuguesa de 1932

O negócio litográfico e tipográfico teve durante o regime do Estado Novo (1933-1974) um notável desenvolvimento, para o qual contribuiria a política de propaganda de António Ferro, o ideólogo do regime (SPN e SNI), que se apoiava muito pela mensagem através do cartaz. Eram épocas também, em que o regime, na mesma senda, incentivava as grandes empresas a apoiar socialmente os seus operários.

A "Litografia Nacional" do Porto e a "Litografia de Portugal de Lisboa, na "Exposição de Artes Decorativas" no Palácio Foz, em Lisboa no ano de 1949

Ignacio Alberto de Sousa (1874-1948), que veio a ser comendador, casou com Ângela Maria Bandeira Russell e desta teve dois filhos, dos quais o primogénito, António Russel de Sousa (1897-1969). Foi Presidente da Comissão Concelhia do Porto da "União Nacional", Procurador à Câmara Corporativa (II Legislatura), Presidente do "Grémio Nacional dos Industriais de Litografia e Fotogravura", Presidente da Comissão Municipal de Assistência do Porto, comendador, financeiro e industrial gráfico.



Painéis pintados de Eduardo Malta publicados no álbum comemorativo da 1ª Exposição Colonial Portuguesa no Porto pela "Litografia Nacional", em 1934

Em 1935, tinha sido já apresentado um requerimento dirigido à Câmara do Porto, por "Ignacio A. de Sousa e Filho", proprietários da "Litografia Nacional", solicitando que lhes fosse feita a vedação, arruamento e iluminação do terreno do antigo Bairro Xavier da Mota, um bairro operário que lhes tinha sido cedido, destinado a habitação para os seus operários, como prémio anual do trabalho, situado no Monte Pedral. A finalização da segunda fase de construção do bairro habitacional destinado aos funcionários da Litografia Nacional, ocorreria em 1956.


               

Exemplo de cartazes impressos pela "Litografia Nacional" de 1934 , 1935 e os dois últimos de 1936


1 de Abril de 1943

Em 1976, a "Litografia Lusitana" es­tava ainda nas mãos do comendador António Russel de Sousa (neto de João Inácio de Sousa) que, depois da sua morte, a deixará à sua filha Maria Gabriela Dias de Almeida Russel de Sousa. A gestão da empresa passaria então a ser executada pelo marido de Maria Gabriela Russel de Sousa, o Dr. Fernando Adolfo Rocha Martins Barbosa que, em finais da década de oitenta, a acabará por vender a um grupo estrangeiro.


Fachada da "Litografia Nacional" na R. Dr. Alves da Veiga


Fachada da "Litografia Nacional" na R. D. João IV

Fachada da "Litografia Lusitana"

A "Litografia Nacional" foi dissolvida e liquidada em 2017.

Nota: o texto deste artigo foi baseado noutro, da autoria de Américo Conceição e Simão Gomes, proprietários do blog "Porto de Antanho", a quem agradeço desde já.

fotos in:  Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca Nacional Digital, Porto de Antanho

22 de maio de 2021

Laboratório Sanitas

O "Laboratório Sanitas", foi fundado em Abril de 1911 na Travessa do Carmo, 1 - 1º, em Lisboa pelo médico Francisco Cortez Pinto, e o farmacêutico Horácio Pimentel, tendo, para o efeito, constituído a firma "Cortez Pinto & Pimentel, Lda.". A palavra Sanitas é um substantivo latino que significa Saúde ...

Francisco Cortez Pinto (1885-1974) foi um major médico de carreira, que teve consultório no nº 24 da Rua Dom João V, tendo sido, a partir de 1939, o 1º Presidente da Direção do "Grémio Nacional dos Industriais de Especialidades Farmacêuticas".

Francisco Cortez Pinto (1858-1974)

Como industrial, Francisco Cortez Pinto exerceu cargos dirigentes em empresas dos setores metalúrgico, eléctrico, do papel, do mobiliário metálico, da banca e dos seguros tendo também até aos seus 89 anos de vida desempenhado vários funções na direção da "AIP  – a Associação Industrial Portuguesa" tendo sido seu Presidente da no período entre 1941 a 1960, tendo logo no exercício do seu primeiro mandato a AIP adquirido uma nova sede na Avenida da Liberdade. Em 1949, recuperou  pavilhões da "Exposição do Mundo Portuguêsde 1940 e transformou-os na "FIP – Feira das Indústrias Portuguesas", a antecessora da "Feira Internacional de Lisboa" inaugurada em 26 de Maio de 1957. 

O "Laboratório Sanitas" teve sempre a sede em Lisboa. Em 1917 figurava já, com comprimidos e ampolas, entre as firmas exportadoras de especialidades farmacêuticas. Nesse mesmo ano foi criada uma outra sociedade onde participavam os proprietários do Sanitas, a "Neto, Natividade & C.ª", dedicada ao comércio de produtos farmacêuticos. Em 1923, foi instalada na Travessa do Carmo, 1 uma secção de material cirúrgico e afins.


2 de Abril de 1917

Uma publicação dos anos 50 do "Laboratório Sanitas" dá bem conta do panorama da indústria farmacêutica nacional nos anos 1910 e do contexto que levou à fundação daquela sociedade:
«Situa-se em 1911 esse primeiro balbuciar de indústria farmacêutica. Todas as tentativas feitas, até então, não tinham qual- quer carácter de continuidade, eram meramente esporádicas e, na maior parte dos casos, cingiam-se a um só produto.
Todavia a infiltração das especialidades farmacêuticas es- trangeiras no nosso mercado agigantava-se de ano para ano, aproveitando-se do campo que lhe estava aberto por ausência de uma indústria nacional efectiva e de quaisquer disposições oficiais que dificultassem essa infiltração.»


Folheto de 1926


Rótulo


Stand na "Exposição Industrial Portugueza" de em Novembro de 1932


1938


O "Laboratório Sanitas", manteve por décadas a sua "Farmácia Sanitas" na Praça Luís de Camões, em Lisboa. Era sua directora técnica, em 1931, a farmacêutica Esperança Castro Ferreira, licenciada pela Faculdade de Farmácia de Lisboa. «Escrevo no antigo laboratório da Farmácia [Sanitas], no tempo em que as mezinhas eram manipuladas aqui nas traseiras. São cerca de 17:00 e os empregados tomam cházinho com bolos. (...) Ah! o cházinho é porque a minha tia Esperança faz... 71» in: blog "Kant o Photomático"


Na foto seguinte, e segundo o proprietário do blog "Kant o Photomático" (donde foi retirada a foto) ... «Foto de família - até se reformar a minha tia-avó Esperança, farmacêutica, foi directora técnica da Farmácia Sanitas, em Lisboa, ao Camões. Na foto com a menina Conceição, a caixa». 


Esta farmácia ainda se manteve, pelo menos até 2007, como "Farmácia Sanitas". Mais recentemente tornou-se na "Farmácia Camões". 



Frente e verso de postal publicitário



Embalagem de medicamento


Publicação da Secção Infantil do "Laboratório Sanitas", em 1952

O "Laboratório Sanitas", que adquiriu uma dimensão inédita no cômputo da indústria farmacêutica nacional, como deixou, aliás, bem claro no seu Catálogo Geral de 1934: 

«Tal como está actualmente organizado, o Laboratório Sanitas é um dos melhores estabelecimentos do género na Europa, não só pela proficiência como estão montadas todas as suas secções, como ainda pela organização científica que a elas preside. As suas instalações são constantemente visitadas por Médicos, Professores de Medicina e pelos cursos dos últimos anos de medicina das Por toda a parte se admiram os mais modernos maquinismos, tanto nos laboratórios propriamente ditos, com os seus aparelhos de emulsionar, comprimir, encher ampolas, fabrico de pastas, pensos e outros produtos, como nas sa- las de estufa, empacotamentos, galeria de máquinas, instalação de caldeiras, gabinete de consultas e tratamento e oficinas de lavagem de garrafas e frascos. Os serviços são extraordinariamente simplificados pelo emprego mecânico, que lhes assegura o máximo da produção com um mínimo de pessoal. Nos mesmos edifícios encontram-se os depósitos de embalagens. A colagem de rótulos, o encher dos frascos, dos tubos, a rolhagem, tudo tem o seu maquinismo apropriado a assegurar-lhe a perfeição do acabamento. Nos vastos terrenos onde se encontram os laboratórios estão situadas todas as instalações fabris da Sanitas, num conjunto de edifícios. Assim, logo à entrada fica a secção de contabilidade, numa casa própria e os armazéns de drogas num grande pavilhão com anexos, onde se faz a distribuição dos produtos químicos e se recebem os já manufacturados, a fim de serem transportados para as secções de Expedição e Exportação. Há também um serviço especial de bacteriologia, com salas de preparação, salas de estufa, geleiras, etc., sob a direcção de três técnicos especializados, distintos bacteriologistas, ocupando outro edifício, em cujo primeiro andar fica a sala de Conferências. Escolas Médicas, que todos os anos fazem uma visita de instrução ao nosso Laboratório»




Fruto do desenvolvimento comercial que alcançara em menos de 20 anos, em Junho de 1930, o "Laboratório Sanitas" inaugurou novas instalações, concentrando perto das Amoreiras, na então Rua Silva Carvalho, (futuro quarteirão formado pelas Ruas D. João V, Custódio Carvalho e Silva Carvalho) toda a componente fabril. Num conjunto edificado que ocupava mais de 7.000 metros quadrados, os laboratórios em si encontravam-se instalados em seis edifícios com 40 metros de comprimento e 8 de largura

O jornalista da revista "Indústria Portuguesa" que cobriu a inauguração afirmou que «por toda a parte se admiram os mais modernos maquinismos, tanto nos laboratórios propriamente ditos, com os seus aparelhos de emulsionar, comprimir, encher ampolas, fabrico de pastas, pensos e outros produtos, como nas salas de estufa, empacotamento, galeria de máquinas, instalação de caldeiras, gabinete de consultas e tratamento e oficinas de lavagem de garrafas e frascos». O repórter ficou particularmente impressionado com a mecanização das diferentes secções «que lhes assegura o máximo de produção com um mínimo de pessoal». 




Os laboratórios possuíam uma central geradora de electricidade própria a vapor, uma sala com as máquinas de granular, de confeitar e de comprimir «dirigidas por um único homem», outras salas de encher e encapsular, de embalagem, de preparação dos solutos para as ampolas, de enchimento das ampolas, de lavagens de vasilhame e de fabrico de água oxigenada. Um dos pavilhões era o denominado de culturas, com o serviço de bacteriologia, com salas de preparação, de estufa e de geleiras. O serviço era dirigido por três bacteriologistas, cujos gabinetes privativos («à maneira da organização alemã 'Bayer'») se situavam em outro pavilhão, junto com a contabilidade e a Sala de Conferências. Num grande pavilhão com anexos funcionava o armazém, para as drogas, produtos químicos e produtos acabados e prontos para serem expedidos. Os funcionários dispunham de vestiário, refeitório e «recreio ajardinado num miradouro sobre a cidade e o Tejo».

Em 1930, fruto do sucesso dos seus produtos no mercado brasileiro, e por intermédio de Thomaz Pimentel, foi instalado um laboratório na cidade de São Paulo, denominado "Laboratório Sanitas do Brasil".

Em 1945 inauguraria m novo e grandioso edifício implantado no mesmo local, e cujo projecto foi da autoria do arquitecto Raúl Rodrigues Lima (1909-1980), o mesmo que projectou o "Cinema-Teatro Monumental", o "Cinema Cinearte" e o "Cinema Europa".










Livrinho promocional editado em 1954

O investimento na área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) levou à constituição de um Gabinete de Estudos constituído pelos dois directores técnicos - João Carvalho Guerra e Eurico Pimentel -, seis médicos, três farmacêuticos, dois professores de Medicina Veterinária e dois engenheiros químicos. Além de especialidades, o Laboratório Sanitas comercializava material cirúrgico, de medicina dentária, de raios X e electromedicina, de anestesia e oxigenoterapia e material de laboratório. 

O "Laboratório Sanitas" tinha sucursais no Porto, Coimbra, Évora, Lourenço Marques e Luanda. Encontrava-se também associada à "Metalúrgica da Longra, Lda" para a produção de material hospitalar e outro mobiliário metálico, tendo fornecido o "Hospital de Santa Maria" de Lisboa.


Duas vistas da Rua D. João V


Foto nos anos 60 do século XX


1964

«Como refere Bispo (2015), Luís Dourdil e Fernando Carvalho Seixas (administrador e sócio do laboratório Sanitas) partilhavam amizade e gosto pelas artes. Carvalho Seixas era tido como um inovador no que diz respeito às embalagens farmacêuticas, decidindo convidar Luís Dourdil para responsável do gabinete de publicidade e artes gráficas do Laboratório Sanitas. Ficou ainda encarregue de executar murais, por forma a ilustrar melhor a função e a atividade do laboratório, garantindo desta forma maior respeitabilidade ao Laboratório. Em 1996, devido a alterações no edifício os murais foram destacados e após conservação e restauro (colocação das pinturas em suporte artificial) pela empresa Mural da História, vieram a integrar a atual  exposição do Museu da Farmácia  anos.» (MCG - 1973.10.31)


Painéis de Luís Dourdil (1914-1989) para o "Laboratório Sanitas"

Este complexo viria ser demolido nos anos 90 do século XX, para dar lugar a conjunto de edifícios de escritórios e habitação. Quanto ao "Laboratório Sanitas" mantém um escritório em Miraflores - Algés.

Espaço onde esteve implantado o "Laboratório Sanitas" (via Google Maps)

Nota: Foi consultado o livro: "A Indústria Farmacêutica em Portugal - 75 Anos" - Edição APIFARMA - Dez.2014.

fotos in:  Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca Nacional DigitalArquivo Nacional da Torre do Tombo, Kant o Photomático