Projetado e construído pela “Lockheed Aircraft Corporation” sob rígidas especificações do lendário Howard Hughes, o “Super-Constellation” deu início, a uma nova era no transporte aéreo mundial.
O projeto original, encomendado por Howard Hughes, accionista maioritário da extinta “TWA - Trans World Airline”, era de uma aeronave de longo alcance, capaz de voar sem escalas entre New York e Los Angeles, com autonomia transatlântica (3.500 milhas) e com uma capacidade mínima para 40 passageiros. Foi desenvolvido pela equipe de projetistas liderada por Clarence L."Kelly" Johnson, que tinha sido anteriormente responsável pelos modelos “Electra I” e pelo “Lodestar”.
No final de 1939, surgiu o projeto definitivo do novo avião, equipado com motores «Curtis Wright» R-3350 de 18 cilindros e 2.200 hp de potência, equipados com hélices de três pás, com quase cinco metros de diâmetro. A forma da fuselagem do “Super-Constellation” é ainda hoje considerada uma das mais graciosas e elegantes já concebidas. Ao projeto da asa foi dada especial atenção: sua forma foi baseada no projeto do caça «Lockheed» P-38 Lightning, proporcionando uma performance que surpreendeu até mesmo os engenheiros da Lockheed. Entretanto com o começo da II Guerra Mundial, os aviões que estavam sendo construídos para a TWA, seriam convertidos em aviões de transporte militar e o primeiro, versão C-69, voaria a 9 de Janeiro de 1943.
Primeiro “Super-Constellation”, na versão militar C-69 em 9 de Janeiro de 1943

Em Dezembro de 1953, a primeira administração da nova “TAP - Transportes Aéreos Portugueses S.A.R.L.”, resultado da passagem de empresa pública a empresa privada, apressou-se a promover um estudo visando a remodelação da frota da empresa, com vista a poder oferecer um serviço de transporte aéreo moderno, de qualidade e compatível com as necessidades crescentes da linha de África, onde ainda operava com os velhos e obsoletos «Douglas» C-47A (DC3) Dakota. A reconversão dos velhos «Douglas» C54A (DC4) Skymaster adquiridos à KLM, em 1954, foi uma medida transitória, entretanto tomada, enquanto se procediam a esses estudos para a selecção de um avião moderno para o longo curso.
Futuro «Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama”



Havia,pois, urgentemente que aumentar a capacidade, reduzir os tempos de voo e melhorar a qualidade do serviço. Foi assim, que a TAP encomendou, em 1953, à “Lockheed Aircraft Corporation” três “Super Constellation L-1049G”, também conhecidos na gíria aeronáutica por “Connie’s”, ou “Constellation’s”.


Para a TAP iniciava-se a era dos “Super-Constellation”, representando um salto qualitativo importante, já que cada novo avião significava em tonelagem e capacidade de transporte correspondente a dois «Douglas» DC-4 “Skymaster” ou quatro «Douglas» DC-3 “Dakota”.
7 de Julho de 1956

O «Lockheed» L-1049G Super Constellation, “Super G”, com o prefixo CS-TLA, e batizado de “Vasco da Gama”, foi entregue em 15 de Julho de 1955, em Burbank, na Califórnia. Inicialmente sem radar de tempo, e tendo-o recebido apenas em 1961, foi o último aparelho da frota da TAP a ter este tipo de equipamento instalado. O vôo teria escala em New York e Santa Maria nos Açores. O percurso de New-York-Santa Maria durou 8h e 40m e Santa-Maria-Lisboa 2h e 50m.
«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama” em Heathrow (Londres)

Fotos do cockpit e interiores da cabine de passageiros, similares ao modelo “L-1049G” da TAP



«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama” no hangar da TAP na Portela

«(…) há a notar que os dois quadrimotores foram conduzidos, desde o aérodromo da fábrica, em Burbank, na Califórnia, em voo transatlantico, até ao aeroporto de destino por tripulações nacionais: os comandantes José Sequeira Marcelino, Silva Soares, Dantas Maya, Décio Braga da Silva e Simões Muller; mecanicos Dias Lourenço e Martins d'Almeida e radiotelegrafistas Santos Serpa e Pereira.
A bordo do primeiro avião "Super-Constellation", que aterrou, impecávelmente, ao meio dia viajou desde Santa Maria, nos Açores, o sr. engº Francisco de Mello e Castro, presidente do Conselho de Administração dos TAP. Dos Estados Unidos, vieram também técnicos das fábricas da Lockheed e Curtis Wright.» in: Diário de Lisboa
Comandante José Sequeira Marcelino

Dezembro de 1955 Julho de 1956

Maio de 1956

Os novos aviões, eram uma versão substancialmente melhorada da anterior versão L-1049E. Esta versão veio com maior capacidade de combustível, janelas quadradas e novos quatro motores "Curtis Wright" «turbo-compound» de 3.250 cavalos cada. Deslocavam 62 toneladas, à velocidade máxima de 600 Km/h, sendo a velocidade de cruzeiro 500 Km/h,
Estas aeronaves estavam destinadas a serem utilizados na linha de África, nas rotas Lisboa-Accra-Luanda-Lourenço Marques, tendo sido iniciadas em 27 de Novembro de 1955. O tempo de duração do vôo Lisboa-Luanda passou de 22 horas de voo para 15, e para Lourenço Marques passou de 31 horas para 22. Nessa linha foi utilizada a versão de 69 passageiros. «O viajante terá na cabina do "Super-Constellation" mais a sensação de que está instalado num moderno hotel, do que própriamente num avião a que nem falta a confortável sala de estar.»
1961

Autocarro da TAP e aeronave Escada com coberta feita para o “Super-Constellation”
A sua cozinha, funcionando a electricidade produzida por geradores, estava apta a fornecer 140 refeições quentes, além das intermédias.
A tripulação técnica era composta palo Comandante, Co-Piloto, Mecânico, Navegador e Radio-Telegrafista.
Em 1957, os «Super-Constellation» são introduzidos nas linhas de Lisboa-Paris (Orly) e Lisboa-Londres (Heathrow), ao mesmo tempo que é contratada a compra de três aviões britânicos “Vickers Viscount” para o médio curso. Em 1958, dá início às ligações aéreas com Bruxelas e restabelecimento da escala de Leopoldville na linha de África. Em 1961 são estabelecidas as ligações Lisboa-Beira (Moçambique) e Lisboa-Bissau. Neste mesmo ano seriam encomendados três aviões birreactores “Caravelle VI-R”, à francesa “Sud Aviation”.

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama” em Orly (Paris)


«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Mouzinho de Albuquerque” em Lourenço Marques
Em Junho de 1958 um L1049H (CS-TLD) foi recebido da “Seabord & Western” americana, para operar durante um ano. Esta versão, basicamente idêntica ao modelo “G”, possuía a fuselagem da versão militar de carga 1049 F, tendo o chão da cabina reforçado para utilização de carga, e o seu peso em vazio era bastante superior.
A aquisição de dois L1049-G em segunda mão em Maio de 1961, permitiram à TAP adicionar novas rotas e outros destinos a este equipamento. De salientar a particularidade destes aviões virem munidos com radar de tempo, que lhes acrescentou um nariz mais comprido, e tanques suplementares nas pontas das asas, os designados “tip-tanks”. O nariz alongado incorporando o radar de tempo, foi mais tarde introduzido nos três primeiros aviões da empresa, aumentando a sua segurança e operacionalidade.
«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Vasco da Gama” em Leopoldville

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Salvador Correa” no Rio de Janeiro
Em 8 de Julho de 1961 foi inaugurada a rota Lisboa-Goa, operada pelo L-1049 CS-TLA “Vasco da Gama” e pilotado pelo Comandante José Sequeira Marcelino. Este vôo fazia escalas em Beirut, Damasco e Karachi, sendo a rota quinzenal. Com a invasão da Índia portuguesa pelas tropas da União Indiana, a rota é encerrada nesse mesmo ano, em 18 de Dezembro, cinco meses depois de ter sido iniciada, com o “Super-Constellation” da TAP a levantar vôo de Goa, pouco tempo depois do Aeroporto ter sido bombardeado.
A 27 de Maio de 1966, o Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, efectuou a sua única viagem de avião no voo TP104 Lisboa - Porto, a bordo do “Super Constellation” L-1049 “Mouzinho de Albuquerque”, quando se dirigia a Braga para as comemorações do 28 de Maio de 1966. No final da viagem, terá desabafado ao Comandante António Abel Rodrigues Mano: “não gostei!”. E realmente foi a única vez que viajou de avião.

Depois de, em 11 de Julho de 1965, um “Super-Constellation” da TAP ter estado presente na inauguração do “Aeroporto de Faro”, em 14 de Setembro de 1967, chegaria a Lisboa, pelas 17h 35m, e proveniente do Rio de Janeiro o último voo da era “Super Constellation” na TAP. Era o CS-TLC “Gago Coutinho”, que tinha entrado ao serviço em 19 de Setembro de 1955, sendo comandado pelo Comandante Costa Cabral.
“Super Constellation” na inauguração do Aeroporto de Faro em 11 de Julho de 1965

No Aeroporto de Santa Catarina no Funchal em 1964

«Lockheed» L-1049G Super Constellation “Gago Coutinho” e sua tripulação à chegada a Lisboa

Assim se fez a história dos “Super-Constellation” na TAP, ao longo de 12 anos, com cerca de 16.000 voos efectuados num total superior a 33 milhões de quilómetros percorridos.
Os "Super-Constellation" que estiveram ao serviço da "TAP - Transportes Aéreos Portugueses" foram os seguintes:
Matricula: CS - TLA Nº de Série: 4616 Nome: "Vasco Da Gama" Período de serviço: 1955-1967
Matricula: CS - TLB Nº de Série: 4617 Nome: "Infante Dom Henrique" Período de serviço: 1955-1967
Matricula: CS - TLC Nº de Série: 4618 Nome: "Gago Coutinho" Período de serviço: 1955-1967
Matricula: CS - TLD Nº de Série: 4808 Nome: " ---------" Período de serviço: 1958-1959
Matricula: CS - TLE Nº de Série: 4677 Nome: "Salvador Correa" Período de serviço: 1961-1967
Matricula: CS - TLF Nº de Série: 4672 Nome: "Mouzinho de Albuquerque" Período de serviço: 1961-1967
Uma curiosidade: o atrás mencionado “Gago Coutinho”, depois de ter sido vendido à “International Aerodyne Incorporated”, que o transferiu para Miami, foi posteriormente, vendido à “Jack A. Crosson” a 21 de Novembro de 1968. Contudo o avião já estava a ser usado na ponte aérea do Biafra. Posteriormente viria a ser comprado pela “Phoenix Air Transport”, e baptizado de “Endeavour”. Mais tarde, é abandonado em Faro a 13 de Novembro de 1969.

Em 1978 foi vendido por 350 Libras esterlinas a um sucateiro, que posteriormente o vendeu aos irmãos Hohbert que o recuperaram e transformaram em restaurante - o “Super G” - junto à aerogare do Aeroporto de Faro, de Maio a Setembro de 1981. Com as obras de ampliação da nova aerogare, o avião viria a ser retirado e desmantelado.
fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Voa Portugal, Airliners.net
Nota: Muito agradeço as fotos e propaganda disponibilizados pelos Srs. Sotero Ribeiro e José Guedes