Restos de Colecção: Março 2021

31 de março de 2021

Casa "Barros & Santos"

A casa "Barros & Santos", abriu as suas portas, pela primeira vez, no final do século XIX, na Rua do Ouro, 39-43 em Lisboa. Comercializava artigos masculinos de vestuário e chapelaria em vários pontos do país, exportando produtos para o Brasil e África. 

«O amplo estabelecimento de Barros & Santos, rua do Ouro, 39 a 43 e rua de S. Julião, 158 a 168, constitue tambem uma das tradições brilhante do commercio Lisboeta. 

Principiando por ser uma casa modesta, propria do tempo e do meio, foi-se gradualmente transformando nos importantes armazens de alfayataria, chapellaria, camisaria, gravataria, de artigos de viagem e impermeaveis que todo o publico lisboeta e a população flutuante, que nos costuma visitar, perfeitamente conhecem.


Primitivas instalações na Rua do Ouro, 39-43, em 1911, por ocasião do Congresso do Turismo


11 de Dezembro de 1919


23 de Dezembro de 1919

Em Valle Escuro, a casa Barros & Santos tem installadas as suas grandes fabricas que honram sobremaneira a industria nacional. Um verdadeiro formigueiro de operarios trabalha ali, de manhã á noite, confeccionando, por meio dos mais aperfeiçoados engenhos mechanicos, adaptados a tal fim, aquellas lindas camisas, aquelles elegantes colarinhos e punhos que fazem as delicias da nossa sociedade "chic". A sua exportação para as provincias, para as ilhas adjacentes, para as colonias, sobe a dezenas e dezenas de contos, tendendo sempre a multiplicarem essas transacções.» Textos em itálico in: jornal "A Capital"  29 de Junho de 1916.


Fábrica de camisas em Valle Escuro no ano de 1906


Oficinas de costura


Oficina de engomados


Oficina de reparação e confecção de colarinhos


Oficina de corte


Central eléctrica

Fruto da sua expansão, o proprietário da "Barros & Santos", pede ao jovem arquitecto Carlos Chambers Ramos (1897-1969) que elabore um projecto para modificação exterior e interior dum edifício na Rua do Ouro 234-242, ex-propriedade do "Banco do Minho" e que se encontrava desabitado. O projecto, consistia na transformação dum edifício de 6 andares sendo os dois primeiros destinados ao comércio e os restantes a serviços administrativos, propunha alterações substanciais, quer no seu interior quer exteriormente, introduzindo uma nova fachada com motivos "art-déco".


Interior do novo edifício da firma "Barros & Santos"

As obras tiveram início em 1921, quando ainda Carlos Ramos era ainda estudante no último ano do curso de arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa, tendo dirigido a obra durante 16 meses. A inauguração da nova sede e loja da firma "Barros & Santos" teve lugar a 25 de Janeiro de 1922.

17 de Outubro de 1926

Esta empresa ali se manteve até ao seu encerramento definitivo em 1931. O edifício viria a ser adquirido e ocupado pela agência de notícias e publicidade francesa "Agence Havas" ("Agência Havas"), que se transferiu duma pequena loja, igualmente, na Rua do Ouro, 30. Em 30 de Setembro 1944, a "Agence Havas" daria origem às agências de informação "Agence France-Presse" e de publicidade "Havas".



Antigas instalações da "Agencia Havas" na Rua do Ouro, 30

Em 1983, este edifício seria vendido ao, então, "Banco Totta & Açores" (posteriormente "Santander Totta" ) e em 2003 é adquirido pela empresa "Amorim Imobiliária",  para aluguer de escritórios.


fotos in: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste GulbenkianHemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de Lisboa

28 de março de 2021

Café Restaurante "CHIC"

O Café Restaurante "CHIC" terá aberto as suas portas pela primeira vez por volta de 1918, numa das lojas do edifício do primeiro "Eden-Teatro", projectado pelo arquitecto Guilherme Eduardo Gomes e inaugurado em 25 de Setembro de 1914, na Praça dos Restauradores em Lisboa.



"Eden-Teatro" após a sua abertura e ainda sem o Café "CHIC"


Fornecia ceias a partir das onze da noite, sendo frequentada sobretudo por jornalistas e actores, vindo a oferecer, a partir de 1924, almoços-concerto entre o meio-dia e as duas horas da tarde, com «escolhida frequência» e «magnífica canja de galinha»

30 de Setembro de 1928


1925


1927
28 de Janeiro de 1928

Aquando da construção novo "Cine-Teatro Eden", inaugurado em 1 de Abril de 1937, o Café Restaurante "CHIC" ali permaneceu ocupando o mesmo espaço e mantendo a mesma fachada. 


"CHIC" durante e após as obras de construção do novo Cine-Teatro "Eden"



Vistas nocturnas

Viria a encerrar definitivamente em 1947, dando lugar ao Café "Avís" após uma profunda transformação do seu interior e fachada exterior, sob projecto do arquitecto João Simões. Viria ser inaugurado em 27 de Março de 1948. 




Interior do Café "Avis"

27 de Março de 1948

Fachada do Café "Avís"

Três décadas mais tarde, já nos anos 70 do século XX, este café daria lugar a um pequeno Centro Comercial: "Drugstore CHIC-CHOC", também já desaparecido.


"Drugstore CHIC-CHOC"

Na revista "Boa Noite" de 15 de Dezembro de 1977

fotos in: Arquivo Municipal de LisboaHemeroteca Digital de Lisboa

24 de março de 2021

F. Street & C.º Lda. - Engenheiros

A empresa "F. Street & C.º, Lda. - Engenheiros", foi fundada em 1887 por uma família de origem inglesa e instalou-se no Palácio Flor da Murta, no gaveto da Rua do Poço dos Negros com a Rua de S. Bento, em Lisboa. Tinha a sua sede na Rua Sá da Bandeira, 64-68, na cidade do Porto. 


Esta casa liderada por Silvester Fish e que tinha iniciado a sua actividade desde os finais do século XIX na área dos motores estacionários e de máquinas para a indústria e lavoura, vem logo no início do século XX a iniciar a distribuição dos automóveis a vapor, da marca "Locomobile", que era nessa altura a viatura mais vendida nos Estados Unidos. Esta seria uma das primeiras marcas de automóveis a serem comercializadas em Portugal: a americana "Locomobile" (junção dos nomes "locomotive" e "automobile"). Esta marca, fabricada pela "Locomobile Company of America" fundada em 1899 foi pioneira no mundo automóvel.

16 de Outubro de 1902

A empresa fabricou pequenos carros a vapor acessíveis até 1903, quando a produção mudou inteiramente para automóveis de luxo movidos a combustão interna. A "Locomobile" foi adquirida em 1922 pela "Durant Motors" e acabou fechando as portas em 1929. Todos os carros já produzidos pela empresa original sempre foram vendidos sob a marca "Locomobile". A "Durant Mototors" despareceria em 1929.

Em 17 de Agosto de 1902, tiveram lugar no "Hipódromo de Belém" as corridas velocipédicas e de automóveis organizadas pelo "Sport Club de Lisboa". Segundo o jornal "O Século" do dia 18 de Agosto ...

«Teve finalmente lugar a grande corrida de automóveis na qual tomaram parte as seguintes: do sr. Street & Cº - guiado pelo sr. Abbott, do sr. Beauvalet - pelo sr. Panhard e do sr. Alfredo Vieira – pelo sr. Darracq. O sr. Street apresentou uma máquina magnífica e muito elegante, que chegou com duas voltas de avanço sobre os outros automóveis, causando esta corrida grande entusiasmo».

Por outro lado o jornal "O Ciclista" de 20 de Agosto ...

«O primeiro prémio foi ganho pelo Locomobile com a força de 4 ½ cavalos, que chegou à meta com cerca de 2000 metros de avanço. O segundo e o terceiro foram ganhos respectivamente pelo Panhard e Darracq, também com 4 ½ cavalos de força. Pode dizer-se afoitamente que foi a corrida que maior entusiasmo despertou atendendo a que foi a primeira que se fez em Portugal.»

O vapor era outra das alternativas mas também essa pouco vingou no mercado nacional. Vários distribuidores apostaram nessa forma de motorização entre nós, com particular destaque para a "F. Street, Lda," com a "Locomobile" e com a qual chegou a participar em competições desportivas, anunciando mais tarde um contrato de distribuição exclusivo com a inglesa "Thornycroft", que também produzia automóveis desse tipo.

Publicidade à "F. Street & C.ª ", na esquina do Arco de Jesus com a Rua Cais de Santarém, em Lisboa

Os pequenos «buggies» a vapor da "Locomobile" também eram propostos a 1.100$000 réis, nas suas versões mais acessíveis, enquanto os automóveis "Ader" tinham no pequeno 9 cavalos de 2 cilindros o seu modelo mais barato, que valia 1.950$000 réis.

15 de dezembro de 1905

Porém, os automóveis mais baratos anunciados na imprensa portuguesa eram os pequenos "Oldsmobile", uns buggies semelhantes na sua concepção e simplicidade aos "Locomobile" mas equipados com um motor a gasolina de um único cilindro, que valiam, na sua versão mais acessível, a 850$000 réis.


16 de Dezembro de 1902

No princípio de 1903, o exército ainda promoveu testes com outro tipo de veículos, nomeadamente com os "Locomobile" a vapor, mas os resultados não terão correspondido às exigências do caderno de encargos imposto pelas chefias militares.


30 de Março de 1903

Com a mudança estratégica da "Locomobile", que decidiu abandonar a produção dos pequenos «buggies» a vapor em favor dos luxuosos automóveis a gasolina, a "F. Street & C.º ", em 1903 já anunciava  a representação de outra marca americana, igualmente caracterizada pela sua simplicidade de construção, a "Oldsmobile", bem como da marca inglesa "Wolseley"


1904


1905


1905

Mais tarde, em 1907, passou a distribuir também os veículos da marca holandesa "Spiker", marca fundada em Amesterdam em 1898, por Jacobus e Hendrik-Jan Spijker - «o único carro que não necessitou de mudar qualquer peça durante o percurso de 14.000 km” da prova Pequim-Paris».


1909


1909

No início da segunda década do século XX, a "F. Street & C.º" terá deixado o negócio dos automóveis e passou a dedicar-se a trabalhos de engenharia, serralharia e fundição, aliadas à comercialização de máquinas, tubagens, correias, baterias "Tungstone" e dos pneus ingleses "Avon" através da sua firma no Porto, a "Streets, Limitada".


17 de Fevereiro de1912


16 de Dezembro de 1926


29 de Dezembro de 1914


1929


1929

Quanto aos trabalhos de engenharia passo a transcrever os seguintes textos, que atestam a sua actividade especializada em determinados sectores:

Em 1912 por ocasião do concurso de fornecimento de uma máquina a vapor, dois dínamos e um quadro de distribuição, para a "Companhia Eborense de Electricidade":

«Face ao aumento crescente do consumo neste mesmo ano a Companhia de Electricidade começou a encarar a hipótese de montar um motor de 300HP e substituir os motores a gás existentes na Central por motores a vapor. Assim, em 1912 abriram um concurso para o fornecimento de uma máquina a vapor, dois dínamos e um quadro de distribuição. Em 30 de Julho de 1912, altura em que terminava o prazo do concurso, concluiu-se que tinham sido entregues propostas pelas seguintes seis empresas: A.E.G. Thompson Houston Ibérica; F. Street & C.ª; Companhia Portuguesa de Electricidade; Siemens Scherckertverke; Empresa Eléctrica H.B.C.; R. Wolf, Magdeburg Buckan. Após a análise das condições apresentadas pelas várias empresas decidiu-se adjudicar o fornecimento da maquinaria necessária à empresa F. Street & Cª, Ldª do Porto, que se propunha entregar o material pronto a funcionar no prazo de 6 meses. A máquina a vapor era do sistema Compound e conjugada com os dois dínamos podia desenvolver a energia eléctrica para alimentar 150.000 velas. O quadro eléctrico de grandes dimensões era de lousa esmaltada e possuía “todos os aparelhos eléctricos mais modernos e aperfeiçoados de modo a garantir uma regularidade absoluta no funcionamento da luz e uma fácil verificação e manobras por parte do maquinista». in: A electricidade na cidade de Évora: da Companhia Eborense de Electricidade à União Eléctrica Portuguesa - Ana Cardoso de Matos

Aquando do concurso público para Central Hidroeléctrica de Santa Rita, em Fafe a 18 de Setembro de 1913:

«Em 18 de Setembro de 1913 o Presidente da Comissão Executiva apresentou à Câmara o projecto e o orçamento do açude, canal e central de Santa Rita, com vista ao fornecimento de energia eléctrica para iluminação pública e particular. Concorreram quatro casas de material eléctrico: a F. Street & C.ª, Lda., Porto (23.100$00); os Ateliers de Constructions Oerlikon, Suíça (22.500$00); a Companhia Portuguesa de Electricidade Siemens Schuckert Werke, Lda., Lisboa, (20.293$00); e a A.E.G. Thomson-Houston Ibérica (18.550$00).»  in: A Central Hidroeléctrica de Santa Rita e o advento da electricidade (Fafe, 1914) - Paula R. Nogueira

Nota: Foi consultada Dissertação para obtenção do Grau de Doutor em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia "A Implantação do Automovel em Portugal (1850-1910)" - José Carlos Barros Rodrigues - 2012 UNL.

fotos in: Arquivo Municipal de LisboaHemeroteca Digital de Lisboa