Restos de Colecção: Feiras
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10 de março de 2024

"Floresta Egypcia" em Lisboa

A "Floresta Egypcia" foi inaugurada em 1 de Junho de 1854, nos jardins do palácio dos Morgados de Alagoa (edificado entre 1757 e 1762), na, então, Rua Direita da Fabrica das Sedas (actual Rua da Escola Politécnica), logo a seguir ao edifício da "Real Fábrica das Sedas". Era constituída por grandes jardins onde existia toda a espécie de divertimentos, salas para bailes, concertos, fogos de artifício, montanhas russas, jogos de toda a espécie, carroussel, balanças para pesar, balouços, etc. A entrada custava 160 réis e tudo lá dentro se pagava. Tinha restaurant e café. O empresário do recinto era Jose Osti, com a sua firma "Jose Osti & Companhia", o «pyrothecnico da epocha», que tinha, alegadamente, introduzido a indústria dos fósforos em Portugal, e que já tinha sido empresário do "Jardim Mytologico", inaugurado em 11 de Junho de 1851 na, então, Rua Direita do Calvario, e que tinha encerrado em finais de Setembro de 1854.


Antiga entrada para a "Floresta Egypcia"


Onde esteve instalada a "Floresta Egypcia" (área delimitada a vermelho), nesta carta topográfica de 1857, ano em que ainda funcionava. Está desenhada a possível "Sala de Crystal"

17 de Junho de 1854


Um ideia aproximada de como seria a "Floresta Egypcia". Aqui em Paris, numa pintura de Jean  Béraud 

«O Topo da rua Nova de Santo Antonio para o lado do Rato, é ocupado por um lanço de muro onde se abre um portão. Para dentro ha umas dependencias utilisadas, de ha muito, para cavalariças e cocheiras. Separa-a da quinta, que foi pertença do palacio dos Cruzes Alagoas e que hoje é da viuva Vaz Monteiro, um tosco tapume de madeira. Esse portão e esses terrenos teem a sua historia.» in: "Occidente" (1909).

«Foi a seguir à montagem de uma fábrica de foguetes, ali na praia de Santos em 1849, onde hoje corre a Rua de Vasco da Gama, que o divertissement da Floresta Egipcia começou a funcionar, chamando os saudoso frequentadores do Jardim Chinés e do Tivoli da Flor da Murta que, em 1841, acabara vendendo em leilão todos os seus móveis e utensílios.» 


"Jardim Chinez", Floresta Egypcia" e "Jardim Mythologico" coexistindo neste anúncio de 12 de Agosto de 1854

«O jornal Theatros e Assembléas fallava assim dos bailes do entrudo: "Desde a Floresta Egypcia até aos salões da Assembléa Portugueza, desde as primorosas salas do marquez de Vianna até ao Paço, o baile impera e estrepita." No Baile Nacional, à Guia, polkavam as grisettas e os valentões, na Floresta Egypcia mazurkava a caixeirada, divertia-se a burguezia. Esta ultima diversão tinha jardim, salas de baile, salão a que chamavam de crystal, pavilhões dos jogos e dos balouços, montanha russa, cavallinhos como outr'ora no Tivoli da Flôr da Murta, jogos chinezes como no antigo Jardim Chinez, tiros de pistola e de espingarda como no antigo Jardim Mythologico, tudo, tudo desapparecido ha muito, porque, como as rosas de Malherbe, as mais bellas coisas d'este mundo teem o peor destino ...» in: "Lisboa d'Outrora" de Pinto de Carvalho. (1909)

10 de Junho de 1851

A "Floresta Egípcia" situava-se, do ponto de vista conceptual, entre feira popular e recinto de espectáculos. Era um espaço de diversão tão imaginativo como a actividade profissional do seu criador Jose Osti , um pirotécnico italiano, detentor de excelente reputação, o qual soube proporcionar espectáculos coloridos e um animado ambiente de lazer. «Os lisboetas adoravam pavonear-se por ali, a beber capilés e outros refrescos, tentando um namorico ou passeando com a família atrás». Nos dias de semana, a partir das oito da noite, exibiam-se comédias e operetas, ou mesmo óperas, que eram repetidas às quatro horas da tarde aos Domingos.


Mais duas ideias aproximadas de como seria a "Floresta Egypcia". Aqui em Paris, "Le Bal Élysée-Menilmontant " e "Le Bal Public Élysée-Menilmontant " , pinturas de Jean  Béraud 



Onde esteve instalada a "Floresta Egypcia", no que restava do jardim, à direita na foto

Do livro "Depois do Terramoto" Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Vol II, de Gustavo de Matos Sequeira (1917), onde é descrito pormenorizadamente e primorosamente este recinto, transcrevi alguns textos:

«Nunca ouviu o leitor falar da Floresta Egípcia? Pois foi exactamente ai a entrada e o sítio desse popular  divertimento, que recreou a Lisboa de há cinquenta anos.
O famoso pirotécnico José Osti era o empresário desse recinto predilecto da burguesia lisboeta. Vejamos quem era José Osti.
José Osti era um italiano engenhoso e cheio de iniciativa, popularíssimo na capital que festejava e aplaudia sempre as suas habilidades pirotécnicas. Foi o primeiro que introduziu em Portugal a indústria dos fósforos, montando uma fábrica desses utilíssimos cooperadores das delícias do fumar, no sítio da Cruz de Pau.
Um dia, em julho de 1842, pegou fogo na fábrica, e os fósforos, cumprindo o seu dever, arderam todos.
Não desanimou José Osti com o desastre, e logo ligou o seu nome a novas emprezas. O Jardim Mitológico de Alcântara fez furor; as iluminações e fogos de artifício no Passeio Público deram brado.
Foi a seguir à montagem de uma fábrica de foguetes, ali na praia de Santos em 1849, onde hoje corre a rua de Vasco da Gama, que o 'divertissement' da Floresta Egípcia começou a funcionar, chamando os saudosos frequentadores do Jardim Chinês e do Tivoli da Flor da Murta que, em 1841, acabara vendendo em leilão todos os seus móveis e utensílios.
Aí por 1851 já funcionava esta espécie de feira vedada a oito vinténs por cabeça, pagos ali ao portão que mostrei ao leitor. Lá dentro novas tentações arrancavam aos visitantes variadíssimas quantias.
O carroussel a montanha russa, o pim-pam-pum, o tiro ao alvo, os jogos chineses e outras diversões, acarretavam novas sobretaxas. 
Em 1855 inaugurou-se o teatro, no dia 31 de agosto, por sinal. A casa de espectáculos, a que chamavam sala de cristal, por ser toda envidraçada, tinha junto o respectivo café-restaurante e a sala de baile, onde a caixeirada aos domingos polkava e mazurkava desenfreadamente.
A primeira companhia que representou neste teatro tinha como emprezário Francisco Fernandes, actor aderecista que veio a falecer no Brasil. Dela fazia parte o velho actor Pinto de Campos.
Depois seguiu-se-lhe a Companhia Portuguesa Lirico-Dramatica, que não teve mais prosperidades do que a primeira.
Os preços dos lugares no teatro eram os seguintes: camarotes, 1$600 réis; frisas, 1$400 réis; plateia, 240 réis (quês de refrescos, e a orquestra habitual deliciava os ouvidos dos habitues executando, como diziam os cartazes, la 'Marca de Meyerber aux Flanbau', ou outra qualquer, convenientemente estropeada na execução e na ortografia.


Ideia aproximada de como seria um espectáculo na "Floresta Egypcia". Aqui em Paris, "Le Spectacle et l'orchestre à l'Alcazar d’été",  pintura de Jean  Béraud 

Em 1855 inaugurou-se na Floresta um outro atractivo. Nada mais nada menos do que o perigoso 'Looping the Loup' que não há muito ainda constituiu uma excelente fonte de receita para a empreza do Coliseu dos Recreios, sendo aceito como absoluta novidade. Pois, já há cinquenta anos, fez esse mesmo acrobatismo scientífico as delícias dos alfacinhas, Tinha-se executado pela primeira vez, nove anos antes, em setembro de 1846, no Havre, nos jardins de Mr. Frascati, com a assistência do Ministro dos Trabalhos Públicos, Mr. Dumou. A 'Ilustração Francesa' desse mês e ano traz do caso minuciosa descripção.
Nenhum desastre que eu saiba ocasionou o arrojado divertimento. Já a montanha russa se não pode gabar do mesmo, porque uma vez um desgraçado rapaz, descendo-a no clássico carrinho, partiu ambas as pernas. A tradição oral conservou também memória de outro desastre que custou a vida a um pobre moço, que linha ido passear à Floresta. Uma caixa de fósforos (dos tais fósforos do Osti) incendiou-se-lhe no bolso; houve certo pânico, e um amigo, destes perigosos amigos que o demo inspira, vendo-lhe o fato a arder, pegou nele e atirou-o a um dos lagos. O incêndio extinguiu-se logo, mas o rapaz morreu afogado.
Hoje que resta disso tudo? Nem o menor vestígio; Nem sombra dos lagos, dos pavilhões e do teatro! O terreno, em vez de macadamizado e arruado para o rodopiar dos foliões, acha-se bravio e revolto e entrou de criar couves e alfaces. Deixou de divertir e passou a alimentar.
José Osti morreu há bastantes anos. A casa número 61 da rua nova de Santo António, construiu-a êle para sua   habitação. Possue-a agora a sra. D. Maria Augusta Delié Nunes.
Acabado esse divertimento, outro lhe sucedeu na voga. Foi o Jardim de Itália na rua de São Bento que, em 1874 deu festas estrondosas à moda do Minho, e onde os artistas e costureiras bailavam ao ar livre.»


"Floresta Egípcia" e alguns outros divertimentos populares em 1855


30 de Agosto de 1856


11 de Setembro de 1856

Como foi atrás referido, em 31 de Agosto de 1855 era inaugurado na "Sala de Crystal", que existia nos jardins da "Floresta Egípcia", o Teatro. Foi também seu empresário José Osti. A companhia era dirigida por Francisco Fernandes, que foi actor, empresário de província, maquinista e excelente aderecista e como tal viria a estabelecer-se no Brasil. Da companhia faziam parte a «velha» Ludovina, Maria Jose Fernandes, Amelia, Guilhermina, J. Ramos, Costa (marreco), João Ferreira Sá, Pinto de Campos (tio), Maldonado. A tarefa de "ponto", estava entregue a Costa Braga.

Em 1887 esta Companhia foi substituída pela "Companhia portugueza lyrico-dramatica", assim constituída: Andrade Ferreira, Eduardo Roque, Luiz Lassance, Antonio Apparicio e Carolina d'Oliveira.

O Teatro era todo envidraçado e, como já foi atrás referido, os preços praticados eram os seguintes: camarotes, 1$600 réis; frisas, 1$400 réis; plateia, 240 réis.

Mais uma ideia aproximada de como seria a "Floresta Egypcia". "Diner aux Ambassadeurs", pintura de Jean  Béraud 

Quanto aos espectáculos exibidos neste Teatro, e continuando a socorrer-me do atrás mencionado livro "Depois do Terramoto" ...

«A Revista dos Espectáculos, jornal teatral que se publicou em Lisboa de 1850 a 1855, dá-nos algumas notícias teatrais deste recinto de folguedos populares.. 
«Em 1S54 deram-se aí concertos de accordeon pelo professor Gasparini e representaram-se comédias e operetas, como 'Antes ceder que morrer', 'Dois Augustos', 'Lord Spleen' e 'A assinatura em branco' estas duas últimas com música do maestro Casimiro. Um tal Spira (em agosto e setembro desse ano) executava, com aplauso dos frequentadores da Floresta, várias peças de música, num instrumento de pau e palha que não sei o que fosse.
O 'Pirata', outro jornal teatral de 1856, nos seus números 1 e 2, anuncia terem principiado os bailes de máscaras na Floresta, com notável sensaboria e ausência absoluta de espírito. No domingo anterior a 6 de janeiro houve mosquitos por cordas na sala de cristal, tendo o público, por lhe desagradar a peça, obrigado os actores a cessar a representação.
Do ano de 1860 tenho nota de alguns espectáculos aí realizados, pelos anúncios nos jornais do tempo.
Em 20 de junho realizou-se no teatro um grande festival pela companhia dos zuavos franceses, em benefício do zuavo Lucien. Representou-se a comédia, num acto. 'Une filie terrible' em que entrava o beneficiado, 'Les quatres ages de Coeur' melodia por Mr. Frederic, e 'Les Deux Aveugles', opereta-bufa.
A abertura do jardim era às 8 horas, e o espectáculo principiava às 9.
Em 28 de julho estreou-se, na sala de cristal, uma companhia ginástica dirigida por Salvador Siciliani, em que se apresentavam quadros vivos e em que se exihia Emília Siciliani como clarividente. Abria, então, o jardim às quatro horas da tarde. Esta companhia, que se compunha de 16 pessoas, ainda dava espectáculos na Floresta em meados de agosto. Depois passou para o Salitre.
Uma das companhias de declamação e canto que aqui funcionou levou à scena a mágica de Joaquim Augusto de Oliveira 'A pedra de toque' que, em 1863, se representou no teatro do Salitre com o título de O magico das Minas No ano de 1861, a actriz mais cotada do teatro da Floresta era a irrequieta Maria Joana, que representou com agrado as comédias 'Marido, mulher e tio', 'O soldado da guerra peninsular' e 'Uma hora no Cacem'. Tinha uma voz bonita e numerosos admiradores.»


13 de Julho de 1857

«Para os que não assistiram ás festas do Tivoli a Floresta Egypcia é o melhor divertimento de verão que Lisboa tem possuído; não só a sociedade que o frequenta é de ordinário escolhida e da melhor esphera, mas tudo parece reunir-se para que sejam agradáveis as noites passadas n'aquelle grande jardim illuminado a giorno abundante em jogos, enriquecido pela já histórica montanha egypcia, espécie de caminhos de ferro mais vagarosos talvez, mas que sairam mais baratos ao povo.
Pelo carnaval as salas de baile preparadas ad hoc recebem uma quantidade infinita de mascaras e de visitadores. São ao todo nove salas, a maior parte d'ellas pequenas, onde n'essas noites é quasi impossível transitar, quanto mais dar rendez-vous a alguém. Os rendez-vous de ordinário teem legar nas salas do rez-de-chaussée, n'algum dos gabinetes do botequim, ou no salão térreo, que precede a sala de crystal que não é mais nem menos do que um prédio de vidro, que serve de theatro, de sala, de tudo que se precise!» in: "A Vida em Lisboa" de Julio Cesar Machado, Vol I de 1901.


Mais uma ideia aproximada de como seria a "Floresta Egypcia". "Le Jardin de Paris sur les Champs-Élysées en 1898", pintura de Jean  Béraud 

Após a morte de José Osti a sua viúva, juntou-se com um sócio, continuou a explorar a mesma empresa "Jose Osti & Companhia". A falta do antigo empresário apressou a decadência do estabelecimento. Mais tarde, no teatro só representavam amadores e depois de prévio aluguer. A novidade do "Caffé-Concerto", inaugurado em 26 de Dezembro de 1857, no Largo da Abegoaria (actual Largo Rafael Bordallo Pinheiro), ao Chiado, vibrou-lhe o golpe de misericórdia, vindo a encerrar, falido, em 1859.


Último anúncio publicitário da "Floresta Egypcia" em 15 de Janeiro de 1859


No edifício à direita, onde está o transeunte, funcionou o "Caffé Concerto", seguido do famoso "Casino Lisbonense" a partir de 6 de Novembro de 1864

Em 12 de Junho de 1874, abriria o "Jardim d'Italia", na Rua de S. Bento, nº 222. Mais modesto e em quase tudo bem diferente e menos espectacular. Como anunciavam, basicamente serviço de restaurant e "Bailes Campestres" aos Sábados e Domingos, mas fica aqui a referência com foto da entrada e respectiva publicidade.


12 de Junho de 1874


Entrada para o "Jardim d'Italia", no nº 222 entre a "Ourivesaria e Relojoraia Oliveira"  e o "Deposito da Drogaria Teixeira"


20 de Junho de 1874

16 de maio de 2022

Feira das Amoreiras e os Irmãos Dallot

 A "Feira das Amoreiras", instalava-se na Praça das Amoreiras, sempre entre Junho e Agosto. A primeira realizou-se em 1851. «Em 1865 a mudou para o largo da Patriarchal Queimada; mas decidindo-se fazer alli um jardim, a tornou pouco depois a mudar para as Amoreiras». A última na Patriarchal teve lugar em 1868, já que «assim se decidiu em sessão de 27 de Maio». De regresso às Amoreiras, era principalmente frequentada por forasteiros e vendilhões, que quase todas as noites armavam zaragata. Esta passou depois para Alcântara, passando chamar-se "Feira de Alcântara".


Praça das Amoreiras, já transformado no "Jardim das Amoreiras"


Referência no "Guia do Viajante em Lisboa (Anno 1880)"

«Eil-as que se approximam abafadiças, quentes, replectas de luar e de semsaboria! Os theatros fecham as portas, jardins públicos nao os temos, apenas o Colyseu nos sorri com uma companhia de zarzuella, e o Martinho nos acena com os seus sorvetes apetitosos! E muito pouco para quem detesta os perfumes culinários da feira das Amoreiras, e os perfumes nauseabundos da praça de D. Luiz! Nos clubs, os bilhares, as cartas, o dominó e o xadrez preparam-se para um encerramento provLorio, ao passo que os cafés franqueiam as suas portas. ao vento, que teima, a seu turno, em não comparecer.» in: "Gazeta Theatral", de 30 de Junho de 1884

Planta de 1857 com a localização da Praça das Amoreiras e da "Floresta Egípcia"

Nota: acerca da "Floresta Egipcia" falarei num próximo artigo neste blog, assim como de outros  lugares de divertimento nocturno, em Lisboa, no século XIX.

Já nos anos 20 do século XIX «o Juiz e mais festeiros da capella de Monserrate ás Amoreiras promoviam, todos os anno, pela Paschoa, uma feira que durava tres dias, e que se fazia no largo das Amoreiras». Foi nesta feira que Alexandre Herculano que  em 29 de Maio de 1828 «sem se saber como nem porquê, foi ferido» fruto de uma zaragata.

Os irmãos Dallot e Eduardo Villar eram proprietários de dois teatros de feira, começando como empresários na "Feira das Amoreiras". Aqui os teatros eram um amontoado de tábuas pintadas, de lonas às riscas e papéis de cores mal definidas. Ali se exibiram arlequins, robertos, circos de pulgas, alem dos citados teatrinhos. Ali nasceu o "Pim-Pam-Pum" (cada bola mata um), que resistiu até à extinta "Feira Popular de Lisboa" em Entre-Campos.


                                                    Joseph Dallot                                 Actores Guilherme e Domingos Silva 


Teatro de Fantoches

Segundo Matos Sequeira , destes teatros de feira, o mais notável era o dos irmãos Dallot. Filhos de  funâmbulos, Charles Dallot, seu irmão Joseph e a irmã Júlia , terão nascido em Versalhes e vindo parar a Portugal, em meados do século XIX, tendo começado por trabalhar na Praça do Salitre, em seguida, na velha Praça do Campo de Santana e, posteriormente, no "Theatro-Circo de Price". De regresso a Portugal, na segunda metade do século XIX, os irmãos Dallot montaram o seu próprio teatro -barraca - de arlequins, como era costume dizer-se - representando umas «comédias ingénuas entremeadas com as habilidades do célebre cavalo elástico (...) "O Mosca" e com as graçolas e as truanices do Joaquim Confeiteiro , que ficou célebre na personagem do "Malhão" , no "Processo do Rasga" , e que foi durante muito tempo o palhaço do "Teatro Infantil das Amoreiras" »

O teatro de “boulevard”, do famoso "Boulevard du Temple", em Paris, chegou a Portugal pela mão dos Dallot, que criaram uma escola de artes do espectáculo para muitos actores populares. Será o caso do actor espanhol Jaime Venâncio, autor de uma famosa opereta "O Processo do Rasga", e de sua mulher, a actriz Eliza Aragonez, que fez sucesso no "Theatro do Rato" e no segundo "Theatro da Alegria", onde representou Torpeza, e, posteriormente, no "Theatro da Rua dos Condes" e no do "Theatro do Principe Real" (1897), na paródia "José João".

Á porta dos teatros de feira chamavam-se os clientes espectadores: 

« – Entrar, senhores! Entrar!... grita lá de cima, do alto do corrimão do proscénio da parada, um arlequim de boa voz, meio pendurado no ar, irmão dos cometas e das estrelas, passeando no éter como os deuses, e berrando a seguinte frase, singela e grande
– Esta é a barraca frequentada pelas damas diplomáticas!... (…)
– Vai principiar, senhores!
– Já vai tocar-se a grrrande sinfonia, e dar começo ao espectáculo!
– Toca a música! berra um d’esses Cíceros da feira, rompendo em eloquência. Comprem os seus bilhetes, senhores; a função hoje é a melhor. Admirável! É admirável! Entram todos os artistas da companhia.
É um delírio. As três barracas da entrada (…) abalam-se de júbilo e de bulha! É a metralha toda do motim musical, abrindo com os latões, que são o artigo de fundo da harmonia, trrrão, tão tão, até já não haver forças para tocar o rufo, e assoar com os beiços o nariz de pau de pifano!...
E o palhaço grita ainda por cima daquela inferneira:
– Entrem senhores! Aproveitem os poucos lugares que ainda há e passem a tomar assento no meio da numerosa e escolhida sociedade, que está lá dentro à espera de que vá o pano acima! » Por Julio Cesar Machado (1835-1890)

Quanto à "Feira das Amoreiras" e os artistas, o livro "Mulheres da Beira - Contos por Abel Botelho", de 1898, descrevia:

«Então aquella feira das Amoreiras, essa era o seu maior incanto ! Achava ali augmentada, embellezada, enriquecida a feira franca de Viseu; era como se a estivesse vendo pola lente ampliadora de um cosmorama.
Elle pertencia a Caçadores 2, aquartelado em Valle do Pereiro; portanto, não longe do largo do pittoresco mercado, que a magestosa arcaria do aqueducto ladeia, n'uma affirmacào colossal de solícita previdência. Assim, cada tarde seguia para lá invariavelmente, e por lá vagueava ditoso, até ao recolher. Por vezes mesmo levava o seu enthusiasmo polos Dallot e o peixe frito ao ponto de se arriscar a pedir uma dispensa do recolher. Se a lograva, que reinação impagavel !
Plantava-se, horas seguidas, ante os barracões dos theatros, a remirar convulsionado os palhaços, os gladiadores, as actrizes, sobretudo as dançarinas, - anemicas, doentes, soffredoras, - sujamente vestidas de cassa, de papel doirado e de panninho.
Aquelles pernis desangrados e esguios que a malha cor de carne vestia, n'uma escarnecedora abundância de rugas sobrepostas; aquelles seios murchos, longos, pendentes, numa bandalhice aceusando a fome, a crapula e o desmazêlo ; aquellas claviculas salientes e pontudas, escala- vrando os collos em desegualdades tragicas de protesto, eram outros tantos aphrodisiacos poderosos para o bom do rapaz. Davam lhe energicos rebates na sensualidade ; punham lhe desejos febris na carne.
Emfim... rapaziadas, verdores, éstos do sangue dos 20 annos, — que admira!»


Artigo de Pinheiro Chagas no "Diario Illustrado" de 17 de Julho de 1872

Quanto aos Dallot o livro "Estroinas e Estroinices" de Eduardo Noronha, publicado em Maio de 1922, faz uma belíssima descrição, que passo a transcrever alguns passos:

«Por traz das barracas de quinquilharias, das que vendiam fructa sêcca, das mais ou menos luxuosas onde se tomavam refrescos, da fila de queijadeiras assentadas em bancos com as canastras dos esplendidos doces da Sapa e do Ramalhão na frente, arruavam-se as dos petiscos cosinhados n'essa quadra com puríssimo azeite ou banha e que rescendíam apetitosos e convidativos aromas. A'retaguarda d'estas prolongava se a dos espectáculos, com os seus phenomenos, os seus monstros, figuras de cera, a imprescindível "Cabeça falante", a "Mulher gigante», a "Eléctrica", e ainda o mais indispensável theatro dos irmãos Dallot, artistas desconhecidos da hodierna juventude, mas que ainda se exhíbem na memoria dos que transpuzeram a edade madura e se preparam para atravessar as fronteiras da velhice.
O occorrido nos nossos antigos e portuguezissimos tablados, bafôrdos, pateos, corros, mogigangas, festas, recreios e diversões populares e da corte fornecia elementos para se elaborar uma obra recheada de interesse e de attractivos.
Entre os innúmeros donos de barracas de espectaculos, que peregrinavam por todas as feiras do paiz, o mais popular, o mais applaudido, o que attingiu maior longevidade, foi Carlos Dallot.
Filho de funambulos, Carlos Dallot, seu irmão Joseph e a irman Julia, tinham os trez nascido em Versailles. Porque sahiram da sua terra, em 1846 ou 1848. elle, Carlos, na edade de nove annos? Naturalmente por causa da profissão dos pães, que os obrigava a deslocarem-se sem descanço n'uma existência nómada. O que os trouxe a Portugal de preferencia a outro paiz? Ninguém o averiguou. O que se sabe, segundo as suas próprias declarações, é que se apresentaram pela primeira vez ao publico lisboeta na antiga pista do Salitre, simultaneamente praça de toiros e circo equestre. Tempos depois mostra-se na velha praça do Campo de Sant'Anna e em seguida no circo do Price, sacrificado em holocausto á expansão da avenida da Liberdade.
Clowns, gymnastas, acrobatas, elles ; "jongleuse", a Julia, depressa conquistaram nomeada entre os frequentadores d'essa espécie de diversões. O Price escriptura os três irmãos na sua companhia e leva-os comsigo primeiro para Hespanha, que percorrem de um extremo ao outro, depois para Inglaterra, onde arrancam entusiásticos applausos ao publico de Londres, de Liverpool, de Manscheter, de Olasgow, das principaes cidades do Reino Unido, em competência com Wittoyne e outros artistas de egual renome.
Na feira das Amoreiras, entre outros números de sensação, hypnotiza as pessoas que se prestam a isso. Adormecia um rapaz, agarrado a uma vara. Em seguida, no somno magnético, elevava-o até formar com a vara um angulo recto. Abandonava o corpo que se mantinha n'essa impossível posição até que acordavam o somnolento. Nunca mais, nem o Onofroff, um hypnotizador inventado por António Santos, e que no Coliseu de Lisboa, da rua da Palma, deu alli enchentes successivas, com todas as pantomimices, nem outros magnetistas de egual jaez, precedidos de retumbante fama, realizaram trabalho mais limpo.


Julia Dallot no regresso enamora se de um portuguez e casa com elle. Morre ha cerca de quatorze annos em Pedrouços dei- xando descendência, que continua o mesmo género de vida da familia, sendo dona de barracas que surgem e se armam confor- me o itinerário das feiras.
Os irmãos Dallot visitam todo o paiz. Ha quasi quarenta annos estadeavam as suas habilidades na Madeira e nos Açores e em especial nas ilhas de S. Miguel e da Terceira. Improvizam os seus theatros em Santarém, no largo dos Pastelleiros, no Campo de Sá da Bandeira, por occasião da feira da Piedade; e, em outubro, e no largo do Milagre, em abril, no mercado d'essa designa- ção. Ahi morreu ha perto de vinte annos Joseph Dallot, que deixou uma filha. Estrella Dallot, actriz mais tarde na companhia ambulante do actor Oliveira Tainha.
Trabalham com igual exito na feira de S. Miguel, no Porto, na rotunda da Boavista; na feira de S. Lazaro, no Poço das Patas; na romaria de Mattosinhos, em diversas das cercanias.
Um dos dois irmãos torna se proprietário do antigo theatro das Carmelitas do Porto, hoje desapparecido. Pôe em scena a magica O ramo de oiro. Ganhou muito dinheiro. Um dia apaixona-se pela mulher de um sapateiro. Foge com ella. Para se precaver contra as exigências dos credores antigos, deposita em nome da transitória amante dez contos, que forrara. A divindade morre. O marido vinga se ao abrigo da lei. Saboreia o lucrativo castigo da traição da cara metade e do seductor, recebendo como legitimo herdeiro, os dez contos de Dallot.
Em 1909 o mallogrado Eduardo Coelho encontra Carlos Dallot a dirigir uma barraca no Dafundo com o titulo de Recreio Gloria. Formava essa casa de espectáculos uma parte de madeira - o proscenio - e a outra de lona - a sala. Estava alli ha dez dias, pois viera de Mafra e Cintra e pensava em ir para Cezimbra. Rodeavam-n'o então o filho, Carlos Dallot Junior, os netos, Domingos Dallot, Sofia e Henriqueta Sequeira, filhas de Manuel Sequeira, actor da companhia, recolhido por elle aos dez annos, e de Elisa Dallot Sequeira. Cercavam-n'o ainda outros descendentes : Augusto Salvado, Rosalia Dallot, Silva Piedade, etc.
A companhia representava n'essa occasião a peça "Resonar sem dormir" e incluia no seu reportório os dramas : "Gatuno consciencioso"; "João, o Corta-mar", "Pena de Morte", "Veteranos da Liberdade", etc. N'esse momento um dos números que o publico ovacionava com phrenesi era o "Manto Magico", imitação da "Dança serpentina", bailada com projecções por sua filha Salud Dallot. O velho saltimbanco emprezario introduzira melhoramentos nas suas récitas e explorava tambem o animatógrapho.
Decorrido tempo ergue a barraca em Villa Franca de Xira. Enferma dos ouvidos e vê-se obrigado com a sua edade avançadissima a internar-se no hospital de S. José. Recolhe á enfermaria Sousa Martins, cama 22. O Diário de Noticias relata a desagradável occorrencia. Surgem diversos alvitres e publicam-se differentes cartas. Entre essas, uma de E. N. Andrade appella para a caridade dos antigos companheiros para suavizar a sorte do provecto artista, que tanto dinheiro ganhara e dispendera.


Um teatrinho na "Feira de Belém"



Outro exemplo de um Teatro desmontável

As barracas de feira exercem salutar influencia no animo do publico pouco culto, favorável em extremo ao theatro : habituam-n'o a esse género de diversão. Cito os irmãos Dallot porque, pela sua barraca passaram artistas que depois subiram de categoria e que o publico muito apreciou. Obedeceram a estas condições, além d'outros, o Joaquim "Confeiteiro"; ; o tão popular Malhão do "Processo do Rasga", applaudidissimo nas farças e scenas cómicas da época , Alfredo de Carvalho, o chistoso «compére» das revistas de Sousa Bastos; Joaquim Silva, da Trindade, inimitável no Homem da Bomba ; actriz Elisa Aragonez ; Conde ; o scenographo Venâncio, etc. Os irmãos Dallot primavam na arte da mímica e alguma coisa ensinaram aos seus discipulos, portuguezes e hespanhoes, disseminados por vários rincões do paiz e que eram convocados na perspectiva de qualquer funcção.»


"Theatro União e Capricho" e "Theatro Infantil" dos Irmãos Dallot, ambos na "Feira das Amoreiras"


Voltando á "Feira das Amoreiras":

«Qual foi a sua origem? Divergem a opinião dos archeologos. Querem uns que principiasse depois do terramoto de 1755, nas proximidades da Mae de Agua, onde se formou o bairro dos tecelões, em sitio onde só alvejavam casaes, quintas, entre outras a de José Ribeiro, escrivão dos armazens e onde existia uma capella de que era padroeira Nossa Senhora Mae dos Homens. O largo, a arborização, o bairro dos fabricantes, compunham-se de vinte e sete ruas e duzentas e setenta e duas moradias, cada uma com quatro teares. Tanto importância consagrava o marquez de Pombal a este seu emprehendimento que assistiu pessoalmente a cerimonia da plantação da primeira amoreira, lançada ao chão naquelle local, o que lhe grangeou a denominação de largo das Amoreiras.
A feira, depois de ir da Patriarcal para esse sitios, decahiu successivamente. Em 1868 a falta de concorrência obrigou os únicos dois theatros alli armados a fecharem. Em 1877 ainda ahi se enfileiraram cincoenta e nove barracas. Esse esforço equivaleu ao canto do cysne. Esta anedocta para terminar o capitulo :

- Sou o recomendado do sr. Silva, para ser porteiro do theatro e venho pôr-me ás suas ordens.
- Oh ! com a fortuna ! Não posso ser agradável ao sr. Silva. Vocemecê precisa de um bonnet especial para desempenhar esse logar, e emquanto lhe fazem o bonnet... desarma-se a barraca!... »

Em 1909, Charles Dallot encontrava-se no Dafundo, onde montara o seu teatro-barraca, feito de madeira e lona, a que chamara de "Theatro Chalet Recreio Gloria". Viria a falecer a 6 de Dezembro de 1916. Seu irmão Joseph Dallot já tinha falecido cerca de dois anos antes.

A "Feira das Amoreiras" acabou no final do século XIX, por volta de 1880, como se pode ler no seguinte excerto do livro "Lisboa Illustrada" de Alfredo Mesquita e publicado em 1903:

«Já quasi não resta memória da Feira dos Prazeres, acabou a Feira das Amoreiras, foi se depois a Feira de Belem, mas lá está a Feira de Alcantara e lá temos ainda a Feira do Campo Grande. Ha ali regalos para todos os apetites: theatros, restaurantes, cavallinhos, tombolas, barracas de petiscos, fantoches e pim-pam-pum, animatografos e figuras de cêra, refrescos e queijadas da Sapa, tiro ao alvo e bazares, a boa isca de fígado e a rica pera cosida, o gigante e a mulher gorda, o gallo com tres pernas e a eirós de caldeirada. D’ antes, o ir á feira era uma das maiores venturas para o alfacinha. Ia-se á feira nos omnibus que largavam do Pelourinho, aos solavancos ; ia-se de burro, e ia-se alugar o burro ao Poço do Borratem. 

16 de janeiro de 2021

Feira da Estrela

Em 12 de Junho de 1960, e integrada nas "Comemorações Henriquinas", foi inaugurada no "Jardim da Estrela", em Lisboa, a "Feira de Beneficência da Estrela". Promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, não era mais que um a variante mais reduzida da "Feira Popular de Lisboa" que se tinha realizado no "Parque da Palhavã".




 

Lembro que o "Jardim da Estrela" foi inaugurado em 03 de Abril de 1852, com a designação de "Passeio da Estrela", tendo a sua construção sido financiada pelo Barão de Barcelinhos e Joaquim Manuel Monteiro. Era, então, Presidente do Ministério e Ministro do Reino o Marechal Duque de Saldanha, e Presidente da Câmara de Lisboa o Dr. Alberto António de Morais Carvalho.

A "Feira de Beneficência da Estrela", vinha no seguimento de outras duas anteriores: a "Feira Portugal" que se realizou em 1958; a "Feira-Parque" que se realizou em 1959. Quanto a essas duas Feiras publico a seguir excertos dos respectivos artigos publicados na Revista Municipal e algumas fotos.

Em 1958 ...


 

Em 1959 ...





Documentos gentilmente cedidos por Carlos Caria


E viajando até 1911 ...



Hora do chá no "Jardim da Estrela"


"Teatro da Natureza" em 24 de Julho de 1911


Voltando a 1960, à "Feira de Beneficência da Estrela" ...










"Teatro da Estrela"

 
"Teatro da Estrela"


                                                                     "Teatro da Estrela" num folheto de 1955

Folhetos gentilmente cedidos por Carlos Caria

1960


                                                                               Cinema ao ar livre






Em 24 de Junho de 1961 viria a ser inaugurada a "Feira Popular de Lisboa", em Entre-Campos.

fotos in: Arquivo Municipal de LisboaHemeroteca Digital