Restos de Colecção: Tabacarias
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28 de agosto de 2018

Tabacaria Costa

A "Tabacaria Costa", propriedade de Egydio C. da Costa, terá aberto as suas portas em 1892, na Rua Aurea (Rua do Ouro) 295, esquina com a Praça D. Pedro IV (Rossio), em Lisboa.

Anúncio de 27 de Fevereiro de 1896 e foto na revista “Serões” de 1909

 

No seu espaço, nos anos 40 do século XIX, existia a loja de câmbios, "Pão Quente", fundada na época do incremento da venda de "Loteria da Misericordia de Lisboa", autorizada pela Rainha D. Maria I e criada pela “Santa Casa da Misericórdia de Lisboa” em 18 de Novembro de 1783. Aliás, este cambista já era referido pelo semanário "O Espectro" de 12 de Abril de 1842, e não pelos melhores motivos ...

«Temos uma grande loteria decretada pelo ex-conde do Tojal. O Espectro é tentado com o tal joguinho, é uma das suas fraquezas, é o vicio ordinario da gente pobre; e uma cautelinha é o óbolo da esperança que nos faz sonhar delicias desde que nos habilitamos até á extracção.
Entramos pois na rifa. Mas quando anda a roda? Eis-ahi uma cousa que esqueceu. Aonde móra o Pão Quente e o Campeão que teem de vender os bilhetes? Ou corre isso pela mão dos srs. Castilhos, que vendem por ahi bilhetes das loterias alemãs ,que nunca de lá vieram, e fazem listas na typografia do gratis com a desventura de sair sempre em branco a sorte aos pataús que lhes compram os fatídicos bilhetes?»

Provavelmente, a loja de câmbios “Pão Quente” na elipse desenhada

A seguir ao "Pão Quente" a loja foi ocupada pela casa cambista e vendedora de lotarias “João Cândido da Silva”, que depois mudaria para o número 231, também na Rua Aurea junto do edifício do “Montepio Geral”, e mais tarde para  os números 196 e 198. Esta casa passaria para a sua sucessora, também cambista e vendedora de lotarias, a casa “João Rodrigues da Costa”.

Pela datação desta foto (1862-1864), já a loja de câmbios e loterias de “João Cândido da Silva”, na elipse desenhada

                                                1812                                                                                          1824

 

Casa de câmbios e loterias “João Rodrigues da Costa”, ex-“João Cândido da Silva”, na Rua do Ouro 196-198

Quanto à "Tabacaria Costa", como foi mencionado anteriormente, foi fundada por Egydio C. da Costa, «ex-gerente da antiga casa Igreja» e que tinha uma casa de câmbios, loterias e tabacos, com o seu nome "Egydio C. da Costa", na Rua de Santa Justa. A "Tabacaria Costa", comercializava, pequenos brindes, carteiras para homem e senhora, e era especializada, e muito conhecida, em fotografia e postais ilustrados, sendo editor de muitos deles.

  

                                8 de Janeiro de 1893                                                              27 de Fevereiro de 1896

                

            

A revista "Serões” de Julho de 1909, numa descrição nocturna do Rossio, referia-se à "Tabacaria Costa" do seguinte modo:

«Do outro lado, porém, na esquina da rua do Ouro, a Tabacaria Costa, com a sua montra bem iluminada, replecta de bilhetes postaes illustrados e photographias diversas, obriga o povo a perder meia hora a vêr as collecções, e não raro é impellido pelo desejo de possuir um ou outro postal, a entrar e comprar, para mandar a um amigo ausente, ou mesmo para guardar como recordação.
Não se vá imaginar agora, que é nosso intuito fazer reclamo a esta ou aquella casa, mas verdade é, e bem sabida, que quem deseja a photographia d'um actor ou de qualquer celebridade, corre em primeiro logar a esta tabacaria, e quando ali não haja, raro é encontrar-se n'outra parte.»

1905

1905 Tabacaria Costa

“Tabacaria Costa” na esquina, e a sua vizinha chapelaria e loja de modas “Lopes de Sequeira” (desde 1902)

De referir que a grande loja “Lopes de Sequeira”, viria a dar origem a duas novas lojas: AFotocolor(inaugurada em 14 de Maio de 1949) e a “Phoebus” camisaria e chapelaria, representantes exclusivos dos, então, famosos chapéus “Palmares”.

“Tabacaria Costa” na capa da revista “Ilustração” de 16 de Junho de 1935

Em finais dos anos 30 do século XX, a “Tabacaria Costa” encerraria definitivamente, e o seu espaço seria ocupado pela “Tabacaria Rossio”, propriedade da firma “Tabacaria Rossio, Lda.” sociedade de galegos, que, em 1939, submeteriam à aprovação da Camara Municipal de Lisboa projecto de novas fachadas para a sua loja, o qual foi aprovado.

 

A “Tabacaria Rossio” ainda está na posse da mesma família galega, tendo perdido a áurea e importância de outros tempos em que chegou a ser, muitos anos, representante dos famosos e aristocráticos isqueiros e canetas “Dupont”, além dos charutos “Habanos”.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de Lisboa

11 de janeiro de 2018

Tabacaria Mónaco

A “Tabacaria Monaco”, propriedade de João Cezar Viera da Cruz, abriu as suas portas, na Praça D. Pedro IV (Rossio), em Lisboa, no ano de 1875. Esta veio ocupar uma pequena loja, onde anteriormente estava instalada uma pequena mercearia de um tal José Dias. A este propósito o livro “Estroinas e Estroinices; ruina e morte do Conde de Farrobo”, de Eduardo Noronha (1922) relatava: «No sitio onde hoje se encorredoura a tabacaria Mónaco, vendia  géneros alimenticios o José Dias, que por ter sempre trez réis para dar de troco, grangeou a alcunha do Consciência.»

“Tabacaria Monaco” à esquerda na foto da “Sucursal de O Século”

Por morte do seu fundador, que atendia desde as 4 horas da manhã com a chegada dos jornais até às 11 horas da noite,  a “Tabacaria Monaco”, apelidada de "Capela de São João Baptista dos Charutos", passou para as mãos de seu filho Júlio Cesar Vieira da Cruz. «De muito novo foi Vieira da Cruz para o estabelecimento de seu pae, depois de ter cursado o lyceu com uma applicação grande d'onde lhe veio razoavel copia de conhecimentos litterarios que possue, d'onde trouxe em fim,um peculio de illustração muito solido e assás desenvolvido. Contava elle quinze annos de edade.»

Julio Cezar Vieira da Cruz

Anúncio em 1877

 

Com a morte de sua mãe, seguida da de seu pai, em 1890, Vieira da Cruz «poz-se á testa da tabacaria Monaco, e desde então melhor poude comprehender a segurança d'aquellas sympathias que semeara. O seu estabelecimento continuou a ser o que era, augmentando de dia para dia a escolhida clientella que o velho Cruz se esforçara sempre por aquirir.»

Em 1892, Júlio Cesar Vieira da Cruz, inicia as grandes obras de restauração e ampliação para a Rua do Príncipe (actual Rua 1º de Dezembro), da “Tabacaria Monaco”, transformando o antigo pequeno espaço na “Galeria Monaco”. Para isso convida o renomeado arquitecto e técnico de obras públicas, Rozendo Garcia de Araújo Carvalheira, para conduzir as mesmas. «Os seus riscos, casando-se com os magnificos trabalhos de Raphael Bordallo Pinheiro e Antonio Ramalho, Frederico Augusto Ribeiro e Thiago Antonio Silva formaram um bello conjuncto que à Galeria Monaco veiu dar o tom agradabilissimo d'uma obra d'arte completa.» Esta passagem de texto e as anteriores in: jornal “Folha de Lisboa” de 12 de Agosto de 1894.

Arquitecto Rozendo Garcia de Araújo Carvalheira

Rozendo Carvalheira

A, então, “Galeria Monaco”, seria inaugurada, com pompa e circunstância em 1 de Agosto de 1894, à qual acorreram mais de 4 mil pessoas, levando Raphael Bordallo Pinheiro a comentar em rodapé de uma gravura, no seu “António Maria” e que publico de seguida, «a abertura da sua casa foi acontecimento de maior monta que a abertura do Parlamento».
Por outro lado, o jornal “Diario Illustrado” escrevia: «Viu coroado o sr. Cruz tanto trabalho e tanto dinheiro, porque o apertão que hontem lá havia á porta, só é proprio das egrejas na Semana Santa e das portas de casa rica, em dia de casamento ! Hontem só entrava aos lotes de 10 individuos. O serviço era feito por 2 policias a cada porta. Ingresso pelo Rocio.»

No “António Maria” de Raphel Bordallo Pinheiro, em 18 de Outubro de 1894

                     Jornal “A Vanguarda” de 1 de Agosto de 1894                   Jornal “Diario Illustrado” de 1 de Agosto de 1894  

   

Para a inauguração foi editado um jornal, número único, comemorativo e oferecido aos clientes, de seu nome “Monaco”

 

                              12 de Agosto de 1894                                                            17 de Fevereiro de 1895

 

Anúncio de 16 de Fevereiro de 1896 e a revista “A Construção Moderna” que «assigna-se, vende-se e recebe annuncios na tabacaria Monaco, Rocio»

 

O teto, em abóboda de berço, foi desenhado e pintado por mestre António Ramalho, que pintou, igualmente os espelhos do interior; os painéis de azulejos quer das molduras das duas entradas, quer dos interiores, e alusivos à actividade deste estabelecimento,foram da autoria de Raphael Bordallo Pinheiro e fabricados pela “Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha”. Não esqueçendo os tempos de progresso que se viviam, junto ao friso do tecto foram instalados fios telegráficos, nos quais poisadas andorinhas em cerâmica, também da autoria Bordallo Pinheiro. Progresso que a “Galeria Monaco” oferecia aos seus clientes mais assíduos: o «moderníssimo» telefone, ligado à “The Anglo Portuguese Telephone Company, Limited” recém criada, e ainda em fase de arranque. O interior cujo mobiliário da autoria de Frederico Augusto Ribeiro, foi, também, enriquecido com esculturas de Pedro Reis, das quais se salienta o busto em bronze do Príncipe do Alberto I do Mónaco, que está na origem do nome da Tabacaria, por ocasião da sua vista a Portugal, iniciada no mesmo dia da sua abertura.

Publicação dos telegramas da chegada do yacht do Príncipe do Mónaco a Lisboa, em 1 de Agosto de 1894

Em 8 de Janeiro de 1899 o jornal "Folha de Lisboa" informava:

«O sympathico proprietario da Monaco dá hoje um baile no seu estabelecimento, para o qual estão feitos numerosos convites.
É condição obrigatoria para os convidados comprar primeiro charutos e jornaes, os quaes serão vendidos por gentis pastorinhas vestidas á moda do Paraizo ...
Cada pastorinha terá uma parra, e debaixo da parra uma caixinha de luxo, aonde se poderão esfregar os phosphoros ...
Quem usar de amorphos escusa de lá ir, pois como se sabe estes phosphoros só acendem em caixa propria ...»

“Tabacaria Mónaco”, a renovada sucursal do jornal “O Século” e o café “Nicola”

Tabacaria Mónaco.1

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Pelo poeta Fernando Caldeira (1842-1894):

Quando eu vou n’essa incerteza
Do flaneur, sem fim, sem rumo,
Ao acaso e de surpresa
Me assalta a minha tristeza,
Entro na Monaco e fumo.

No livro “Camões Estudo Histórico-Poético” das Obras Completas de António Feliciano de Castilho pode-se ler:

«Em 29 de Julho de 1904 publicava o Diário de Noticias o seguinte artigo: Casa onde morreu o Poeta Visconde de Castilho.
Em I ou 2 de Agosto soube da existência d'este artigo em casa de um meu velho amigo; corri á tabacaria Mónaco, mas não pude já alcançar o Diário de 29; o snr. Cruz teve a bondade de mandar um caixeiro correr os kiosques do Rocio, mas debalde. Só no dia seguinte consegui obter de um meu excellente visinho e provado amigo o que desejava. Fiquei consternado; mas que podia? nada absolutamente.»

Em 1916, Júlio César Vieira da Cruz trespassa a “Galeria Mónaco" a José Rodrigues Marecos, proprietário da “Tabacaria Marécos” na Rua Aurea. As herdeiras, sem descendência, deixaram em testamento a “Tabacaria Mónaco” aos funcionários da casa. Em 2005, Carlos Oliveira, que ali trabalha desde os 16 anos, ficou com 80% da sociedade.

“Tabacaria Marécos”, na Rua Aurea

A “Tabacaria Monaco”, actualmente

Actual.1 Actual.2

 

 

 

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Arquivo Nacional Torre do Tombo