Restos de Colecção: Recintos de Diversão
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14 de julho de 2019

"Luna Parque" de Lisboa

Em 20 de Junho de 1933 era lavrada a escritura de concessão à firma "Sociedade de Diversões Limitada", com sede na Rua Alexandre Braga, em Lisboa, «para instalação e exploração de um parque de diversões, género "Luna-Park"», no Parque Eduardo VII. Viria abrir as suas portas, pela primeira vez, em 2 de Julho de 1933 (no mesmo dia que o Clube de Futebol "Os Belenenses" vencia o Campeonato de Portugal de Futebol).


Anúncio do "Diario de Lisbôa" em 13 de Junho de 1933


"Luna Parque" em fase de montagem, em 1933


«Desde os tempos já esquecidos do velho "Paraiso de Lisboa", na Rua da Palma, nunca mais a cidade teve um conjunto de atracções no genero das que, permanentemente, se exibem em todas as grandes capitais do mundo. Parecendo que não, a simples existencia dum Luna Parque em Lisboa é uma nota de progresso e de civilização, que transforma a fisionomia pacata e sensaborona da capital.
(...) O Luna Parque de Lisboa, que dentro de tres dias entrará, em navios fretados expressamente, no porto da capital, é um conjunto de atracções de primeira categoria. São toneladas e toneladas de ferro - 200 camions estão alugados para o transportar e computa-se em 5.000 contos o seu custo. Um "Water-chute" enorme, que fez as delicias de Berlim, será instalado no Parque Eduardo VII, bem como nove grandes atracções, além de dezenas de pequenos "stands" e atracções populares mais pequenas.» in: Diario de Lisbôa de 13 de Junho de 1933.

Antes de mais ...


e se ...


No "Noticias Ilustrado" de Julho de 1933


«A recente inauguração do Luna Parque, guindou Lisboa à altura das grandes capitais, no capítulo divertimentos. Não se descreve, em poucas linhas, o entusiasmo e interesse que o público tem demonstrado pela arrojada iniciativa que, meia duzia de homens de vontade firme e espírito rasgado aos grandes empreendimentos, puzeram de pé, ao Parque Eduardo VII, nos terrenos anexos à Exposição Industrial Portuguesa.» in: Notícias Ilustrado de Julho de 1933.


«As diversões já abertas ao público - "Circo da Cambalhota", o "Carrocel Zoologico" e a famosa luta de automoveis sobre tapete electrico obtiveram um exito que excedeu toda a expectativa. Hoje funcionará já a agrande roda das "Borboletas voadoras" e amanhã o "Poço da Morte" em que dois motociclistas correm em parede vertical. O "Labirinto chinês" que apesar de imcompleto, obteve o agrado do publico, estará pronto. A "Fonte Luminosa", obra da Electro Reclame, e que devido á falta de pressão de agua ainda não funcionou em todo o seu explendor, apresentar-se-á hoje á noite completa.
O "Pavilhão do Sultão" acaba de construir-se e o famoso "Water-chute" com montanha russa - o maior que no genero existe na Europa estará a funcionar dentro de horas. Duas "équipes" de engenheiros portugueses e alemães trabalham para o completar.
Outras inicitaivas tomará o Luna Parque.
Ainda esta semana se conta inaugurar o grande "Dancing" restaurante, com anfiteatro e onde se espera fazer o maior conjunto de espectaculos populares e desportivos a que Lisboa jamais assistiu.
Os pedidos para locais de exploração e para "stands" são, sem exagero, além de tudo o previsto. Mas o criterio de escolha e de selecção rigorosa põe um dique á avalanche de pretendentes.
Por isso mesmo os restaurantes já montados têm tido uma afluencia enorme.
A "Favorita das Salsichas" foi uma novidade e um exito. As cervejarias, os cafés, as esplanadas têm sido disputadas pela freguesia. Sabado e Domingo a animação foi enorme e hoje, com as novas atracções, decerto ele se manterá.
A's sextas-feiras são os dias elegantes. A 1ª noite da moda não deixará de levar ao Luna Parque, a gente elegante, o alto mundanismo, a verdadeira e "smart" gente de bom tom - que desta "vai mesmo".» in: Diario de Lisbôa de 3 de Julho de 1933.


Foi no "Luna Parque" que foi fundado, em 1933, o famoso restaurante e casa de fados o "Retiro da Severa" pelas mãos de Jorge Soriano e com gerência de Alberto Costa. Permaneceria nesta recinto até 1935, altura em que em 26 de Outubro inaugurar as suas novas instalações na Rua António Maria Cardoso, no antigo "Salão Jansen" (inaugurado em 31 de Dezembro de 1927) propriedade da "Fábrica de Cerveja de Baviera de J.H. Jansen & Cª.". As suas história ilustradas poderão ser consultadas neste blog, nos links disponibilizados nos respectivos títulos.


«Sobretudo para a criança e para a mulher, o Luna Parque é um divertimento saudável, interessante e novo. A rapaziada dos clubes sportivos tem estado em peso. Os rapazes do Liceu, no intervalo das preocupações dos exames, vão espairecer e distrair as ideias. Os estrangeiros da linha de Cascais enchem os comboios de noite, dando ao Cais do Sodré aspectos inéditos. Lisboa em peso toma perspectivas novas nas reuniões do Luna, e os nomes da nossa melhor aristocracia, da alta finança, da política, da industria e das Artes, alugam automoveis electricos, descem no "Water-chute", rodopiam no "Zoologico", entontecem no Labirinto Chinês e por fim vão voar no "Yo-Yo", que os perfumes de "Nally" aristocratisam desde a sua fonte luminosa.» in: Diario de Lisbôa de 9 de Julho de 1933.

Em 8 de Junho de 1934, o "Luna Parque" reabriria no Parque Eduardo VII, e a propósito o suplemento semanal do jornal "Diario de Noticias", o "Noticias Ilustrado" no seu primeiro número de Julho comentava:

«O inesperado, o riso, o encantamento, encontra-se em cada um dos diversos actrativos que ali se patenteiam, tais como a sensação imprevista da viagem maravilhosa de ida e volta ao inferno, num combóio fantasma; a corrida vertiginosa da montanha russa; a corrida de automóveis da Auto-Pista, em que é posta á prova a perícia dos volantes amadores; a impressão desconcertante da casa que gira em torno de si própria; a vertigem nos carros-chicotes; os carrosseis, que são um encanto de miúdos e graúdos, etc, etc.
A tudo isto se alia o prazer dos variados acepipes, servidos em restaurantes típicos, e dos refrescos servidos nos bars e cervejarias ao ar livre, por frescas raparigas, etc.
Enfim, leitor, o Luna Parque é o único recinto onde o riso e o entusiasmo não têm limites - um autêntico paraíso, onde a tristeza não entra e a alegria nunca acaba.» 

No "Notícias Ilustrado" de Julho de 1934


Montanha russa "Zig-Zag da Vertigem"


9 de Junho de 1934


Este recinto reabriria de novo, no Verão de 1935, (com a sua abertura a ocorrer a 1 de Junho) e não mais voltaria a funcionar, tendo sido desmontado em definitivo.

Bilhete gentilmente cedido por Carlos Caria

"Fonte Luminosa" construída e montada no lago pela firma "Electro Reclamo"


3 de Junho de 1935


1 de Junho de 1935



Entrada para o Parque Eduardo VII e lago, depois de desactivado o "Luna Parque"



Depois deste «ensaio», e oito anos depois, em 10 de Junho de 1943, seria inaugurada a primeira "Feira Popular de Lisboa" no "Parque José Maria Eugénio", na Palhavã. Para consultar a sua história ilustrada neste blog, utilize o seguinte link: Primeira "Feira Popular de Lisboa"


fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Lisboa Desaparecida Vol IX

8 de maio de 2019

Pavilhão Portuguez no Parque Mayer

O "Pavilhão Portuguez", propriedade de Artur Aires, foi um dos maiores equipamentos do, então, "Avenida Parque" (futuro "Parque Mayer"), tendo aberto as suas portas em Maio de 1922.

Esplanada do "Pavilhão Portuguez"


Revista "Teatro Magazine", de Agosto de 1928



O “Parque Mayer”, situado junto à Avenida da Liberdade, do lado ocidental, entre a Rua do Salitre e a Praça da Alegria, foi inaugurado em Maio de 1922, designado ainda como "Avenida Parque", resultado de uma partilha familiar do “Palácio Lima Mayer”, - pertença de Adolfo de Lima Mayer, e primeiro “Prémio Valmor de Arquitectura” em 1902 - e dos seus jardins, apelidados de "Parque Mayer".

“Palácio Lima Mayer”, de Adolfo de Lima Mayer (Arquitecto Nicola Bigaglia), na Rua do Salitre em 1902


O espaço exterior do “Palácio Lima Mayer”  viria a ser adquirido em 1920, por Artur Brandão, primeiro promotor do "Avenida Parque" (futuro“Parque Mayer”), tendo sido comprado no ano seguinte por Luís Galhardo (1874-1929), jornalista, escritor e empresário e considerado um dos criadores da “Revista à Portuguesa” que, com outros dez sócios, constituiu a “Sociedade Avenida Parque, Lda.” Aqui se construíram casas de espectáculo que acabaram por se especializar no teatro de revista, sucedendo - ou associando-se - a outras atracções de carácter lúdico, como carrosséis e carrinhos de choque, que juntavam muito público.

Luís Galhardo (1874-1929)


Em 6 de Abril de 1922, o jornal "Diario de Lisbôa", anunciava:
«No Parque Mayer prosseguem os trabalhos para a combinação, por conta de uma só empreza, de um teatro, um cinema, um carroussel e uma esplanada para refrescos.
A Sociedade Avenida Parque, Limitada, continua recebendo pedidos de concessão de terrenos para a Feira de Verão».

À esquerda da foto pode-se ver a entrada para o "Avenida Parque"


Anúncio de 21 de Fevereiro de 1925


É neste novo espaço lúdico que se instala, desde início, o "Pavilhão Portuguez", um dos equipamentos de maiores dimensões, e que "resistiria" por umas décadas ...

Entretanto, poucos anos mais tarde após a sua abertura, o "Avenida Parque" mudaria, definitivamente, de designação para "Parque Mayer". 

Enquadramento do "Pavilhão Portuguez" (dento da elipse desenhada) no "Parque Mayer"


Entrada, em  foto de 1961


Fotos do "Pavilhão Portuguez" de 24 de Maio de 1930




Anúncio em 30 de Julho de 1926




Agosto de 1928



Depois de inaugurado o "Teatro Maria Vitoria" em 1 de Julho de 1922, «de pau», o "Avenida Parque" teria que esperar quatro anos até que o segundo Teatro do "Avenida Parque", o "Variedades", fosse inaugurado. A primeira notícia a 10 de Maio de 1922, indicava o futuro "Variedades" para recinto de teatro-boite, ideia do empresário Diamantino Delgado, especialista em espectáculos do género, plateias de mesas redondas e garrafas para os cavalheiros.
«É o sr. Diamantino Delgado o socio principal da sociedade por cotas "Variedades, Ltda.", que se propõe construir o já falado teatro "boite" no Avenida Parque.» in: "Diario de Lisbôa"

Entretanto, aconteciam noites bem animadas em dois palcos que alternavam o ecrã de animatógrafo com a folia das variedades: o "Pavilhão Portuguez" e o "Alhambra".

Agosto de 1928


"Pavilhão Favorita"


Outros equipamentos do "Avenida Parque" na "Teatro Magazine" de Agosto de 1928


"Fotografia Lusitana"


"Restaurante Amaral"


Carreira de Tiro "High-Liff" (ou "High-Life" considerando falha na impressão do anúncio da página publicada)



              

Anúncio de 7 de Junho de 1940


E no dia seguinte ...



Acerca da história do "Parque Mayer", consultar, neste blog, o seguinte link:  "Parque Mayer"

Nota: As páginas da revista "Teatro Magazine" de Agosto de 1928, e aqui publicadas, foram gentilmente cedidas por Carlos Caria.


23 de novembro de 2014

Parque Mayer

O “Parque Mayer”, situado junto à Avenida da Liberdade, do lado ocidental, entre a Rua do Salitre e a Praça da Alegria, foi inaugurado Maio de 1922, resultado de uma partilha familiar do “Palácio Lima Mayer”, - pertença de Adolfo de Lima Mayer, e primeiro “Prémio Valmor de Arquitectura” em 1902 - e dos seus jardins.

“Palácio Lima Mayer”, de Adolfo de Lima Mayer (Arquitecto Nicola Bigaglia), na Rua do Salitre em 1902

No ano de 1918 instala-se no “Palácio Lima Mayer” o “Club Mayer”  que aqui funcionará até 1920. Este Club era considerado levemente “perigoso”, pelo que muitas senhoras da sociedade entravam sob anonimato e mascarilha, mesmo sob contrato para a sala de espectáculos, anexo ao salão de jogo. Nos apelidados “loucos anos 20”, e em 1920, passa a designar-se “Avenida Palace Club” tendo encerrado em 1927.

"Avenida Palace Club" (1920-1927) num anúncio de 1926

Nota: acerca dos Clubs nocturnos de Lisboa, consultar neste blog, o seguinte link: Clubs Nocturnos de Lisboa

O espaço exterior do “Palácio Lima Mayer”  foi adquirido em 1920, por Artur Brandão, primeiro promotor do “Parque Mayer”, tendo sido comprado no ano seguinte por Luís Galhardo (1874-1929), jornalista, escritor e empresário e considerado um dos criadores da “Revista à Portuguesa” que, com outros dez sócios, constituiu a “Sociedade Avenida Parque, Lda.” Aqui se construíram casas de espectáculo que acabaram por se especializar no teatro de revista, sucedendo - ou associando-se - a outras atracções de carácter lúdico, como carrosséis e carrinhos de choque, que juntavam muito público.

Luís Galhardo (1874-1929)

Foto de 1945 com o “Teatro Variedades” , e à direita o “Cine-Teatro Capitólio”

“Parque Mayer” em fotos de 1961

 

 

Bilheteiras do Cine-Teatro Capitolio” com a Revista “A Querida Mamã”, estreada em 1 de Julho de 1971 pela companhia da “Empresa Vasco Morgado”

A inauguração do “Parque Mayer”, em 1922, tendo também como função lúdica, veio substituir a tradicional Feira de Agosto”, criada na Rotunda em 1908, uma das últimas feiras típicas da capital, com comércio, petiscos e diversões. Inicialmente, o “Parque Mayer” apresentou-se em instalações precárias de madeira, simples barracas, mas por outro lado situava-se numa zona mais central e frequentada.

A “Feira de Agosto”, na Rotunda em 1910

 

Nos primeiros anos o “Parque Mayer” designou-se por “Avenida Parque”, aqui numa foto de 1922

21 de Fevereiro de 1925

Planta, de 1926, da zona do “Parque Mayer” e Avenida da Liberdade

De entre as diversões que passaram no “Parque Mayer”, destacam-se as barracas de tiro, os fantoches, os carrosséis, bailes de fim-de-semana ou do Carnaval, os “Circo Royal”, “Circo El Dorado”, e “Circo Luftman”, as famosas barracas do Porto, em Lisboa, que representava a Ribeira animada em miniatura, o estúdio de fotografia “Fotografia Lusitana”, animatógrafo no famoso espaço “Alhambra” e “Pavilhão Português”, as barracas dos fenómenos como o da mulher transparente e a mulher sereia, barracas de jogo clandestino para os mais aventureiros, jogo do quino, patinagem, carrinhos de choque, isto já nos anos 40 do século XX, entre outras atrações lúdicas.

“Fotografia Lusitana”

“Pavilhão Portugvez”

 

Anúncio em 30 de Julho de 1926

7 de Junho de 1940

Petiscos e Divertimentos

Barrraca dos Tiros

 

“Pavillon Francius”

                               Carinhos de choque                                                                       Barbearia

 

“Teatro dos Fantoches”

Parque Mayer.24

Também espectáculos de boxe, luta livre e greco-romana marcaram presença neste recinto nessa década dos anos 40 do século XX, no “Estádio Mayer”, como veremos mais adiante. Este espaço conseguiu não só impor-se como espaço de diversão mas também de convívio, isto devido à profusão de estabelecimentos para todos os géneros e gostos, desde cafés, tasquinhas, restaurantes - bar como o “Dominó”, retiros, casas de fados, cabarets, bares, etc.

Aliás, seria no “Parque Mayer”, no “Valente das Farturas” que, em 1926 Hermínia Silva começaria a cantar, enquanto Alfredo Marceneiro cantava  ao lado, no “Júlio das Farturas”.

Anúncio em 30 de Julho de 1929

1933

Logo em 1922 o primeiro restaurante a instalar-se neste espaço foi o “João Borges”, mais tarde o restaurante “Colete Encarnado”, de curta existência, pois subia um degrau na sofisticação e não era acessível a todos. Uma vida mais longa teria a famosa “Mina”, do “Júlio das Farturas”. Um dos célebres retiros do “Parque Mayer” foi o “Retiro da Amadora”, frequentado por Jorge Amado e Ferreira de Castro entre outros famosos, fez época neste recinto com os celebres petiscos da cozinheira de mão cheia, que ficou conhecida simplesmente por “Amadora”. Este local tornou-se num espaço de boémia por excelência, sendo frequentado tanto pelo povo folião como pela elite política e intelectual de Lisboa. Também no “Parque Mayer”, foram inventadas as marchas populares, segundo uma ideia de Leitão de Barros para animar o recinto, tendo tido êxito até aos dias de hoje.

Diversos restaurantes e casas de petiscos

 

 

1935

 

 

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“Teatro Maria Vitoria”

Por fim, e acima de tudo por lá passou e continua a passar o teatro de revista, a grande razão de existência do “Parque Mayer”. Pelo que, a 1 de Julho de 1922, abre ao público, o “Teatro Maria Vitoria” em instalações de madeira provisórias,  com a revista "Lua Nova", da autoria de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos, com números músicais assinados pelo maestro Raul Portela e direção musical do maestro Alves Coelho. O nome dado a este teatro, “Maria Victoria”, foi em memória da famosa actriz e fadista Maria Victoria (1888-1915), cuja morte prematura, poucos anos atrás, criara alguma consternação.

   

O investimento inicial para a construção deste teatro, foi conseguido, segundo fonte da época, à custa da venda de farturas, pirolitos e pouco mais. O seu capital social de início foi de 100 contos, coisa então impensável para o teatro ligeiro, o que lhe garantiu, com tal capital social, poder ali manter-se durante várias décadas. Até à inauguração desta sala, e pontualmente, tinham servido de palco teatral o “Pavilhão Variedades”, com a revista "Amor Perfeito" em 1924, assim como a “Esplanada Egípcia” com a revista "Off-Side" em 1929, com Hermínia Silva, onde cantou “Ouro Sobre Azul”, “De Trás da Orelha” e “Off-Side”.

Inauguração do “Teatro Maria Vitoria”

  

Opereta popular da “Companhia Maria das Neves” e estreada em 29 de Junho de 1929

Revistas “Cantiga da Rua” estreada em 8 de Agosto de 1943, e “De Vento em Popa”  estreada em 1966

 

Revista “Chá-Chá-Chá” de Amadeu do Vale, Aníbal Nazaré e Paulo da Fonseca e estreada em 1960

       “Restaurante Lisboa” frente ao “Teatro Maria Vitória”                           Entradas do “Teatro Maria Vitória”

 

Ao princípio o “Teatro Maria Victoria” só fazia as temporadas de Verão, mas passou a estar aberto todo o ano quase sempre com revista ou opereta populares. O Teatro encerraria para obras em Maio de 1929.

Planta da sala de espectáculos, em 1940

Revista “Foot-Ball” de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes, João Bastos, Alberto Barbosa, Luís Galhardo, Xavier de Magalhães, e estreada em 1925

   Estreada a 25 de Setembro de 1937                     Estreada em 1942                                 Estreada em 1942

  Maria Victoria.3

Estreada em 1 de Abril de 1970

Consumido por um aparatoso incêndio a 10 de Maio de 1986, a mais antiga sala de espectáculos do “Parque Mayer” foi reconstruída por Hélder Freire Costa e Vasco Morgado Júnior, com projeto do arquiteto Barros Gomes. Conforme se pode ler na placa comemorativa afixada no teatro, reabriu em Janeiro de 1991 com uma nova revista “Vitória, Vitória!”, de Henrique Santana e Francisco Nicholson. Mantém-se, na primeira década do século XXI, como a única sala que apresenta espetáculos com alguma regularidade por iniciativa do empresário Hélder Freire Costa.

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Teatro Variedades

Segue-se a inauguração doTeatro Variedades”, em 8 de Julho de 1926 com a estreia da revista "Pó d’Arroz" , de autoria do grupo "Gregos e Troianos", com música de Tomás Del Negro e Raul Portela, com Anita Salambô e onde se estreia também, o então jovem actor e argumentista Vasco Santana. Este Teatro foi idealizado por Luís Galhardo já em 1922 e começado a construir-se em 1924, com projecto do arquiteto Urbano de Castro, e construído sob o lago dos jardins do “Palácio Mayer”. À semelhança de outros teatros do “Parque Mayer”, também este viria a sofrer um incêndio em meados de 1965.

Revista “Pó d’Arroz” de  Luís Galhardo, José Galhardo e Vasco Santana

“Teatro Variedades” em 1937 com a revista “Olaré Quem Brinca?” de Baptista Diniz em cartaz

 

Dança da Luta no Carnaval lisboeta, frente ao “Teatro Variedades” em 1933

Companhia e bailarinas da Revista “E Siga a Dança …”, de Lino Ferreira, e estreada em 16 de Março de 1929

A propósito da estreia da Revista “E Siga a Dança …”, mencionada na foto anterior, o jornal “Diario de Lisbôa” escrevia:

«Com grande interesse do público, manifestado desde ha muito, realiza-se hoje, no teatro Variedades, no Avenida Parque, a estreia da nova revista e m 2 actos e 17 quadros, «E siga a dança ...», que vai ser interpretada pelos artistas Carlos Leal, no «compère», Maria das Neves, Elisa Giselle, Margarida Almeida, Emilia Candeias, Beatriz Belmar, Sofia de Sousa, Joaquim Prata, Alfredo de Sousa, Artur Rodrigues, Artur Machado, os bailarinos Georges Botgen, Sonia Botgen e Lucy Snow, e 16 «girls» portuguesas.»

Revista “Chá de Parreira” de Xavier de Magalhães e estreada no “Teatro Variedades”, em 27 de Julho de1929

 

Planta da sala de espectáculos, em 1940

Seria no “Teatro Variedades” e na Revista, “Peço a Palavra! ”,  da autoria de Paulo da Fonseca, César de Oliveira, e Rogério Bracinha, estreada em 4 de Dezembro de 1969, que a actriz Anita Guerreiro cantou pela primeira vez uma das canções mais famosas de sempre acerca de Lisboa intitulada “Cheira a Lisboa”.

Revista “Empresta-me o Teu Apartamento”, traduzida por Rosa Lobato de Faria, e estreada em 25 de Setembro de 1971

Aqui se apresentaram artistas cómicos como Vasco Santana e Raul Solnado e actores e atrizes do teatro declamado como foi o caso de Eunice Muñoz, no espectáculo “Lições de Matrimónio” estreado em 14 de Maio de 1965 de Leslie Stevens. Na mesma década e na revista “Zero, Zero,Zero, Ordem Para Matar”, de Paulo da Fonseca, César de Oliveira, Rogério Bracinha e estreada em 1966, José Viana interpretou o “Fado do Cacilheiro”, tema que se tornou conhecido do grande público. Nesse mesmo ano o “Teatro Variedades” sofreu um incêndio quando estava em cena o espectáculo “Descalços no Parque”, original de Neil Simon com Irene Isidro no elenco.

Revista “Há Mas São Verdes! ” de João Nobre, César de Oliveira, Rogério Bracinha e Manuel Correia, estreada em 1982

Na década de 90 do século XX, foram empresários deste Teatro, Hélder Freire Costa e Vasco Morgado (filho), tendo sido o seu espaço renovado na mesma altura. Foi no “Teatro Variedades” onde foi gravado o programa “Grande Noite”, de Filipe La Féria, para a “RTP - Radiotelevisão Portuguesa, em 1992, com um leque de artistas convidados que se tinham distinguido nalguns dos espectáculos do “Parque Mayer”, para além de um elenco fixo que contava com a presença de actores mais jovens.

       Estreada em 20 de Julho de 1927                    Estreada em 1936                  Estreada em 9 de Dezembro de 1967 

  

Para história mais completa acerca deste Teatro, consultar neste blog o seguinte link: Teatro Variedades

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“Cine-Teatro Capitólio”

Mais tarde, foi a vez do “Capitólio”, inaugurado em 10 de Julho de 1931, por o então administrador da “Sociedade Avenida Parque, Lda.” Campos Figueira, da autoria do arquiteto Luís Cristino da Silva, o mesmo que desenharia o pórtico da entrada do “Parque Mayer” com as suas típicas colunas estilo art déco iluminadas. Este recinto modernista, sucessor da “Esplanada Egípcia” e inicialmente utilizado como salão de música e variedades, exibiu cinema e teatro, à maneira dos cine-teatros. Foi pioneiro em muitas inovações para a época no nosso país, dispunha de um passadiço e escada rolante, o primeiro em Portugal, que dava acesso a um terraço onde se exibia cinema ao ar livre no verão e uma pista de patinagem no gelo, sendo ainda este cinema equipado com um dos melhores sistemas de som, da marca alemão, “Bauer”. Por curiosidade, neste cine - teatro foram apresentados ao público os filmes portugueses "A Severa" de Leitão de Barros, de 1931 e a "Canção de Lisboa", de 1933, entre muitos outros clássicos que juntavam multidões no “Parque Mayer”, assim como bailes de Carnaval e emissões de programas radiofónicos com "O Comboio das Seis e Meia". Foi o único teatro que embora grandioso no seu tamanho e arquitetura, menos tradição teve na representação da revista, tendo por ele passado o teatro clássico, circo e opereta.

Cine-Teatro Capitólio

 

                                    Bilheteira                                                                       Sala de espectáculos

 

                                              1938                                                         Estreada em 7 de Dezembro de 1963

  

Nota: Acerca desta casa de espectáculos consultar neste blog o seguinte link: “Cine-Teatro Capitólio

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“Estádio Mayer”

Em 1937 surgiu o “Teatro Recreio”, com a revista "Faça Sol", esta casa de espectáculos, criada por Guiseppe Bastos e vizinha do restaurante “Gato Preto”, que seria extinto em 1940, para dar lugar ao ringue de boxe. É inaugurado o famoso “Estádio Mayer”, onde havia basquetebol, luta livre americana e depois o boxe.

Aqui se revelaram e actuaram o Beni Levi, o Júlio Neves, o Carlos Rocha, o Belarmino, o Francisco Santos “Sota”, no boxe, e o José Luís, o Saludes “O Tigre de Alfara”, o “Mascarado” que ninguém chegou a saber quem era pois que ninguém o conseguiu vencer e tirar a mascarilha, o “Dom Pipas”, talvez o “Tarzan Taborda” e muitos outros que, na luta livre, faziam o deleite do “populacho” e antecipavam o que hoje, finamente, é o chamado “Wrestling”.

“Estádio Mayer”

 

1948


gentilmente cedido por Carlos Caria

Em meados dos anos 60 do século XX, acaba este tipo de espetáculo e este espaço é transformado num triste parque de estacionamento já no final da década de 60. Durante as décadas de 50 e 60 do século XX continuou-se a exibir cinema no “Parque Mayer”, no “Capitólio” e no “Pavilhão Português”.

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Teatro “ABC”

O Teatro “ABC” , com capacidade para 550 espectadores, foi o último recinto a ser inaugurado, no “Parque Mayer” em 13 de Janeiro de 1956. Segundo um ideia do empresário José Miguel, abriu com a revista "Haja Saúde" de Frederico de Brito e Carlos Lopes, com Curado Ribeiro e Maria Domingas. Construído num local quase escondido ao fundo da rua que ladeia o “Teatro Maria Vitória”, espaço este que tinha sido outrora ocupado por uma série de restaurantes-bar e casas de espetáculos como o “Salão Alhambra”, parte do “Pavilhão Português”, “Galo de Ouro”, “Baía” e “Casa Blanca”.

21 de Fevereiro de 1925

A propósito da sua inauguração o jornal “Diario de Lisbôa” escrevia:

«Agora que o Apolo se despede da vida, um novo teatrinho nasceu, ali no Parque Mayer. Pelas suas proporções, não poderá vir a ocupar o lugar do rei morto. Mas, de qualquer modo, um novo rei foi posto, e posto com aquele indispensável conforto e graça que as modernas plateias de cinema apontam ao teatro. O «beije», o rosa velho e o verde-seco combinam-se (que pena as batas das arrumadeiras não entrarem na combinação!) dando um conjunto alegre, nitidamente agradável, a que não falta uma certa comodidade, principalmente, quando se está sentado ... fora das proximidades da porta, onde será preciso instalar um guarda-vento que nos livre das correntes de ar frio.».

Ao longo da sua existência, estrearam-se cerca de 50 revistas, tendo como empresários José Miguel, Humberto Cunha (seu genro, que após o falecimento de José Miguel assumiu a direção do Teatro), Sérgio de Azevedo (em 1971) e Carlos Santos (de 1980 a 1999).

Inauguração com a Revista “Haja Saúde!” de Carlos Lopes, Frederico Brito, João de Vasconcelos e Ferrer Trindade

   

      

Pelo “ABC” passaram, após o 25 de Abril de 1974, espectáculos eróticos como "Isto é Crazy Horse!" de Sérgio Azevedo

                    Estreada a 24 de Fevereiro de 1962                                     Estreada a 8 de Março de 1968

  

A seguir a 25 de Abril de 1974, parte da companhia do Teatro “ABC” abandonou o teatro e fundou, em 1974, o “Teatro Adoque” para o qual se transferiram alguns dos artistas com ideias mais progressistas. No “Parque Mayer” permaneceram Sérgio de Azevedo e Nicolau Breyner, mas outros artistas importantes vieram reforçar a equipa como Ary dos Santos, Aida Baptista, Ivone Silva, Octávio Matos e Herman José, o que permitiu ao “ABC” manter o nível de qualidade a que o público já se havia habituado. A “Empresa Sérgio de Azevedo” manteve-se como responsável das produções desta casa até 1978, sucedendo-lhe Carlos Santos com quem Marina Mota, como fadista, e Carlos Paião, como compositor, se estrearam no teatro. Neste mesmo ano, na revista “Põe-te na Bicha”, António Calvário interpretou a canção “Mocidade, Mocidade”, tema que perdura ainda na memória do grande público.

Em 1990 o Teatro “ABC” foi destruído por um incêndio quando estava em cena a revista “Ai! Cavaquinho”, de Eduardo Damas, Camilo de Oliveira, Miguel Simões e Paulo César e estreada em 1989, pelo que teve de ser transferida para o “Cine-Teatro Capitólio”. Carlos Santos foi o empresário que recuperou este recinto com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura. Três anos depois voltaria a abrir em Fevereiro de 1994, com o espectáculo “Lisboa Meu Amor”  promovido pela “Empresa Carlos Santos”. O ano de 1997 ditou o seu encerramento definitivo.

Grandes parcerias de autores do teatro e da música de Revista ficaram célebres como Eduardo Damas/Manuel Paião, César de Oliveira/Rogério Bracinha e autores como José Galhardo, Alves Coelho, Félix Bermudes, João Bastos, Henrique Santana, Carlos Coelho, Augusto Fraga, Eugénio Salvador, José Viana, Aníbal Nazaré, etc.

Alberto Barbosa, José Galhardo e Vasco Santana

Henrique Santana, César de Oliveira, Rogério Bracinha e Augusto Fraga

Autores da Revista

Mas nem só de teatro de revista viveu o “Parque Mayer” : espetáculos de jazz, de fado, operetas, comédias e circo atraíram um vasto público: burguês e popular, lisboeta e de fora. Acima de tudo, porém, o “Parque Mayer” foi a “capital da revista”, a “Broadway lisboeta”, com uma trepidante vida noturna, consagrando artistas como Vasco Santana, António Silva, Francisco Ribeiro (Ribeirinho), Barroso Lopes, Raul Solnado, José Viana, Beatriz Costa, Ivone Silva, Henriqueta Maia, Salvador, Camilo de Oliveira, entre tantos outros. Também Francis Graça abrilhantou os espetáculos do Parque com coreografias inovadoras e técnicas importadas de ballets mundiais, devendo-se a compositores como Frederico Valério e Raul Ferrão êxitos musicais como os fados protagonizados por Amália Rodrigues.

Bilheteiras do “Parque Mayer” início de 1983

Na foto anterior publicidade nas bilheteiras dos Teatros às seguintes Revistas:

Teatro Maria Vitória: “Sem Rei Nem Rock!” de  Henrique Santana, César de Oliveira, Rogério Bracinha e Augusto Fraga, estreada em  23 de Setembro de 1982.
Teatro ABC: “É Sempre a Votar! “ de  Francisco Nicholson, Gonçalves Preto, Mário Alberto, Eugénio Salvador, João Nobre, Norberto de Sousa e Armando Cortez, estreada em 29 de Outubro de 1982.
Teatro Variedades: “Há Mas São Verdes! ” de João Nobre, César de Oliveira, Rogério Bracinha e Manuel Correia, estreada em 7 de Janeiro de 1983.

Entre os empresários que marcaram alguns dos êxitos do teatro de revista estão Giuseppe Bastos, Vasco Morgado, Eugénio Salvador e, mais recentemente, Hélder Freire Costa. Nos anos áureos do “Parque Mayer”, os espetáculos tinham duas sessões durante a semana (incluindo ao sábado) e três aos domingos e feriados, empregando centenas de pessoas entre artistas, costureiras, carpinteiros, técnicos de iluminação, e vários outros profissionais envolvidos na produção de espetáculos de revista. Mesmo com os quatro teatros a apresentarem espetáculos em simultâneo, as lotações esgotavam muitas vezes.

Mas já em 1950, na revista “Flama” …

Actualmente, em adiantada degradação, o recinto prepara-se para uma nova revitalização, graças à recente aprovação do novo “Plano de Pormenor”, apenas com o “Teatro Maria Vitória” em actividade, pelas mãos do empresário Hélder Freire, e com o “Capitólio” em fase final de recuperação.

“Parque Mayer”, actualmente

 

 

Bibliografia: blog “Presente e Passado” e site “Centro Virtual Camões

Fotos in: Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Instituto dos Museus e da ConservaçãoPresente e Passado, Almanak Silva