Restos de Colecção: Bordallo Pinheiro
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1 de setembro de 2011

Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha

A ideia de criar uma fábrica de faianças nas Caldas da Rainha, sob a direcção de Rafael Bordallo Pinheiro, deveu-se a seu irmão Feliciano, interessado pelos sucesso industrias que chegavam do estrangeiro. Com a colaboração de Felisberto José da Costa, Feliciano Bordallo Pinheiro começa por elaborar o projecto para uma fábrica nacional de faianças nas Caldas da Rainha. A primeira reunião teve lugar em casa de Rafael Bordallo Pinheiro, em 21 de Outubro de 1883, como refere a acta dos estatutos da fábrica.

O projecto original da “Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha”, teve os seus estatutos aprovados em reunião dos seus principais promotores em 21 de Outubro de 1883. A empresa adoptaria o figurino das sociedades anónimas, com uma gestão separada da propriedade. A escritura da fábrica, sociedade anónima de responsabilidade limitada, foi assinada a 30 de Junho de 1884 e Rafael Bordallo Pinheiro entregou-se de corpo e alma ao plano arquitectónico das instalações.

                  Título de 1 Acção, de 1884                              Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, em 1887

 

O resultado foi um pavilhão de dois andares com dois corpos laterais de pavimentos térreos, destinados a aulas e depósito de louça cercado dum parque ajardinado e arborizado, e um grande edíficio de um só pavilhão onde estavam instaladas máquinas e oficinas para além de três fornos. Para além de um grande pavilhão para venda e armazenamento dos produtos acabados. A direcção foi entregue pelos accionistas fundadores a dois directores, Feliciano Bordallo Pinheiro (responsável pelos aspectos organizativos) e seu irmão Rafael Bordalo Pinheiro (responsável pelos aspectos técnico-artísticos). O destaque ia desde logo para o lugar de director técnico, nomeado por um período de 20 anos e beneficiando de um vencimento superior.

                                       Rafael Bordallo Pinheiro em retrato e no seu Chalet junto à fábrica

              

Bordallo principia a sua produção em Setembro de 1884 aplicando-o com grande sucesso em grandes superfícies como fachadas e interiores de residências. A durabilidade e impermeabilização das superfícies, características particulares do azulejo, aliadas a efeitos visuais resultantes da imitação de materiais através do azulejo de relevo, deram origem a composições livres de rara beleza. Numa primeira fase mostrou preferência pelos azulejos de padrão, inspirados em motivos da azulejaria hispano-árabe, modalidade que nunca abandonou apesar das novas experiências com nenúfares, borboletas, gafanhotos e gatos, claramente influenciadas pela ‘Arte Nova’. A renovação do saber artesanal introduzida por Bordallo abriu as portas do mercado internacional ao azulejo português.

Entrada da Fábrica

     “Casa do Depósito” (venda e armazenamento)                                      Casa das máquinas                    

  

Corpo principal da Fábrica

 

            Outras dependências para fabrico de telhas, tijolo e louça, armazenamento de matérias primas

 

Além do azulejo artístico, a Fábrica de Faianças fabricou o azulejo comum e produziu tijolos (moldes em madeira reforçados a ferro) e telhas vidradas, revestidas de esmaltes verdes e cor de mel. Começou por fabricar tijolos e telhas para a edificação da própria fábrica, e em Abril de 1885 concebe uma telha de menor peso e maior impermeabilidade com determinados apêndices para melhor segurança, em concorrência directa com a telha de Marselha. Foram construídos sete fornos para o cozimento deste material, na sua maior parte em barro vermelho.

Em 1885, Ramalho Ortigão fazia a seguinte descrição da fábrica:

«Uma máquina a vapor de 25 cavalos de força com caldeira tubular de Danayer, reparte o movimento em trabalho contínuo por todas as secções desta olaria modelo. O barro principia por entrar no pilão; passa consecutivamente aos cruos; percorre os tanques, em que uma máquina eléctrica de Fauce de Limoges, depura a massa, extraindo-lhe pelo imã todos os resíduos metálicos; é novamente batido, amassado mecanicamente, reduzido à mais perfeita plasticidade; e acaba por sair às talhadas, subdividido em pães, para ser trabalhado na roda ou no torno. Os tornos e as rodas são igualmente movidos a vapor, correspondendo uma correia de transmissão a cada grupo de oleiros. Mesas circulares, tendo no oco do centro o lugar do monitor ou contramestre, são destinadas aos escultores, aos louceiros formistas e aos pintores vidreiros. As prensas de estampagem ocupam uma casa especial devidamente aquecidas a vapor. A fábrica tem ainda 2 moinhos para vidro, 4 moinhos para tintas, uma galga, 7 fornos para tijolo e telha, 3 fornos para louça artística, dois grandes e magníficos fornos de Minton para a louça de pó de pedra, 1 forno de calcinação e uma mufla.».

  Bordallo e jarra Cunha Vasco                                            Esculturas em barro acabadas

 

Graças a experiências anteriores, e com mestres de oficina de reconhecida arte e competência, inclusivé técnicos recrutados no estrangeiro, como C. Von Bonhorst, K. Hollof e Emille Possoz, não foi difícil a Bordallo levar este sector a fazer maravilhas. Este sector fabril compunha-se de 3 fornos para cozimento da faiança artística, um forno para calcinação do chumbo, moinhos para vidros e tintas, muflas de ensaios, bancadas e mesas de trabalho.

A cerâmica produzida sob a direcção de Rafael Bordallo Pinheiro distribui-se por géneros tão diversos como materiais de construção, azulejo, louça utilitária, escultura, louça decorativa e artística. Foi este último que aqui privilegiámos, em atenção à natureza do certame que se efectua sob a égide do artesanato. A Fábrica de Faianças original encontrava-se, aliás, organizada em 3 sectores, com tecnologia e organização produtiva distintas (sector dos materiais de construção, sector da louça decorativa e sector da louça comum).

                                                                                Ateliers

                                                      Pavilhões de moldagem e acabamento

  

Apesar das constantes encomendas e dos elogios rasgados da imprensa, a Fábrica em 1886 já se encontrava a braços com uma grave crise financeira e sobrevivia numa situação de permanente falência latente. Um problema temporariamente resolvido pelo Ministro das Obras Públicas que, numa visita às instalações da Fábrica, promete um subsídio anual em troca do ensino profissional da especialidade a 150 alunos na Escola Industrial D. Leonor das Caldas da Rainha - primeiro Curso de Formação Profissional em Portugal.

                                 “Casa do Depósito” (armazenamento e vendas de produtos acabados)

                               

 

Depois desta grave crise financeira que levou os accionistas a abandonarem a empresa, Bordallo inicia uma nova etapa caracterizada pela realização de peças ousadas, fruto da sua imaginação prodigiosa e de um desafio pessoal que o levam a ultrapassar os limites dos razoável pelas suas proporções descomunais. São deste período a Talha Manuelina(1892) com os seus 2,33 metros de altura, o Perfumador Árabe (1896), obra-prima em filigrana de barro, e a Jarra Beethoven (1895-98) com 2,30m. As duas primeiras podem ser admiradas no Museu Rafael Bordallo Pinheiro de Lisboa, a terceira só no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, embora se conheça uma cópia-miniatura na Casa-Museu dos Patudos em Alpiarça, onde se podem admirar cerca de 20 peças da autoria de Bordallo Pinheiro, para além de uma requintada colecção de mobiliário, porcelanas, pinturas e tapeçarias reunidas por José Relvas (1858-1929). Pratos decorativos e de suspensão, vasos, jarras e serviços de chá, são também comuns nesta fase.

             Talha Manuelina                                 Perfurmador Árabe                               Jarra Beethoven

  

Ao mesmo tempo que insiste na estatuária, depois da experiência algo falhada com as figuras para as Capelas do Buçaco, cria em faiança grupos escultóricos de grandes dimensões e recria em barro uma vasta galeria de figuras inspiradas no folclore nacional. A Alcoviteira, a Ama das Caldas, a Varina, o Janota e o Zé Povinho, são alguns dos personagens cheios de humor e sentido crítico.

                                                                                    1896                                          

                                            

Seguiram-se diversas exposições nas salas do Comércio de Portugal (1886), no Ateneu Comercial do Porto e na Exposição Industrial de Lisboa (1888), na Exposição Universal de Paris (1889/1890), Antuérpia e Espanha (1895) e Estados Unidos da América (1905). Mas mais uma grave crise financeira da fábrica levou à falência em 1907 e à venda em hasta pública por 7.600$00.

Em 1908 Manuel Gustavo, prosseguindo o trabalho do pai, funda a “Fábrica de San Rafael” e assume a sua direcção. Em 1922 muda de designação para “Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, Lda.”

                                 Publicidade de 1875                                                        Zé Povinho

                

Em 2009 terminava um período conturbado na Fábrica Bordallo Pinheiro, nas Caldas da Rainha. A crise financeira e a «falta de qualidade» do produto assumida publicamente pelos seus responsáveis, colocou em risco parte do legado de Rafael Bordallo Pinheiro. Esse período foi superado pela entrada em cena do Grupo Visabeira. Evitava-se a falência daquela que é considerada a principal «memória identitária» das Caldas. Em 2011, o cenário é bem diferente daquele que agitou a fábrica em 2008. Na altura a unidade atravessou um dos momentos mais conturbados da sua história. A ruptura financeira que atingia a empresa colocava em risco não só os 172 postos de trabalho, como a manutenção do repositório de saberes que Rafael Bordallo Pinheiro fundou.

                                                                     Actuais instalações

 

Foi o Grupo Visabeira, através de uma participada da Cerutil (empresa de cerâmica utilitária), que em Março de 2009, não deixou morrer o legado de Rafael Bordalo Pinheiro. Hoje, a Visabeira é sócia maioritária da Fábrica Bordalo Pinheiro, e detentora de centenas de moldes originais do ceramista e caricaturista. A empresa detém duas unidades industriais, uma de produção de loiça utilitária e outra decorativa, onde se reproduzem os moldes do artista. A estratégia implementada pela Visabeira, passou por colocar a marca Bordallo Pinheiro «na categoria de produto de culto», imprimir linhas mais contemporâneas, «salvaguardando o património».

A “Fábrica de Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro” , o “Museu de José Malhoa” e o “Museu de Cerâmica” são paragem obrigatória nas Caldas da Rainha.

Acerca da vida e obra de Rafael Bordallo Pinheiro consultar post de 27 de Junho de 2010 com o o mesmo título e etiqueta “Bordallo Pinheiro”

fotos in: Jornalismo de Buraco de Fechadura, Cavacos das Caldas, Hemeroteca Digital

27 de junho de 2010

Raphael Bordallo Pinheiro

Raphael Augusto Bordallo Prestes Pinheiro  (21 de Março de 1846 - 23 de Janeiro de 1905) ,  filho de Manuel Maria Bordallo Pinheiro, também artista, nasceu na rua da Fé em Lisboa.

                                               

Apaixonado pelo lado boémio da vida lisboeta e avesso a qualquer disciplina, matriculou-se sucessivamente na Academia de Belas-Artes , no Curso Superior de Letras e na Escola de Arte Dramática, abandonando logo de seguida.  Estreia-se como actor no Teatro Garrett e no Theatro Thalia do Palácio do Conde de Farrobo, nas Laranjeiras.

                                                             Theatro Thalia nas Laranjeiras

                             

Percursor do cartaz artístico em Portugal foi desenhador, aguarelista, ilustrador, decorador, ceramista, caricaturista, jornalista e professor.

Raphael Bordallo Pinheiro foi um amante de teatro tendo desenhado alguns figurinos e cenários. era um assíduo espectador de teatro, frequentava assiduamente os camarins dos artistas, participava nas tertúlias constituídas por críticos, dramaturgos e actores. Em centenas de caricaturas,  faz aparecer o espectáculo, do ponto de vista da produção: desenha cenários, revela figurinos, exibe as personagens em acção, comenta prestações e critica 'gaffes'

        Publicidade ao Salão da Trindade em 1881                              Os Fantoches de Madame Diabo 1884

Começou a fazer caricatura por brincadeira. Mas é a partir do êxito alcançado  em O Dente da Baronesa (1870), folha de propaganda a uma comédia em 3 actos de Teixeira de Vasconcelos, que Bordalo entra definitivamente para a cena do humorismo gráfico. "Comecei a sentir um formigueiro nas mãos e vai pus-me a fazer caricaturas", explica em tom irreverente o artista para quem o propósito das "caricaturas é estragar o estuque de cada um com protesto do senhorio".

                     1880 - Princeza Rattazi                                         1900 - A Rethorica Parlamentar

          

            “Zé Povinho agarrado pelo lado do déficit…”                                     O Voto Livre

            

Em 1870 lançou três publicações: “O Calcanhar de Aquiles”, “A Berlinda” e “O Binóculo”, este último, um semanário de caricaturas sobre espectáculos e literatura, talvez o primeiro jornal, em Portugal, a ser vendido dentro dos teatros.

Raphael Bordallo Pinheiro foi acima de tudo um homem de imprensa. Durante cerca de 35 anos (de 1870 a 1905) foi a alma de todos os periódicos que dirigiu quer em Portugal, quer nos três anos que trabalhou em terras brasileiras. Também no Brasil arranjou problemas, onde chegou mesmo a receber um cheque em branco para se calar com a história de um ministro conservador metido com contrabandistas.

O jornal “ António Maria ”, nas suas duas séries (1879-1885 e 1891-1898), abarcando quinze anos de actividade jornalística, constitui a sua publicação de referência. Ainda fruto do seu intenso trabalho, “ O Mosquito ”, “ A Lanterna Mágica ” (1875), “ Pontos nos II ” (1885), “”Artes e Letras” (1872), “Almach de Artes e Letras” (1874) e “ A Paródia ”, o seu último jornal, surge em 1900.

                                      “António Maria”                                                         “Pontos nos II”      

            

                                “A Lanterna Mágica”                                                     “O Mosquito”

              

A seu lado, nos periódicos, estiveram Guilherme de Azevedo, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, João Chagas, Marcelino Mesquita e muitos outros.

Raphael Bordallo-Pinheiro tambem foi um exímio ceramista, tendo aceite o convite para chefiar o sector artístico da Fábrica de Faiança das Caldas da Rainha em 1884, tendo procedido a uma renovação do género da cerâmica das Caldas da Rainha. Esteve em dezenas de pequenas e grandes encomendas para a decoração de palacetes: azulejos, painéis, frisos, placas decorativas, floreiras, fontes-lavatório, centros de mesa, bustos, molduras, caixas, etc.

                                                       Fábrica de Faiança das Caldas da Rainha

                                         Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha

No entanto, a cerâmica também não poderia excluir as figuras do seu repertório. A par das esculturas que modelou para as capelas do Buçaco representando cinquenta e duas figuras da Via Sacra, Bordalo apostou sobretudo nas que lhe eram mais gratas: O Zé Povinho (que será representado em inúmeras atitudes), a Maria Paciência, a mamuda ama das Caldas, o polícia, o padre tomando rapé e o sacristão de incensório nas mãos, a par de muitos outros.

                                                                 O Zé Povinho em pintura ….