Restos de Colecção: Cultura
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21 de outubro de 2026

"Teatro Rosa Damasceno" em Santarém

O "Teatro Rosa Damasceno" teve a sua origem no "Theatro de Santarem", inaugurado em 11 de Março de 1884, depois das suas obras terem tido início em 1877, promovidas por uma associação cultural, representativa da elite local, denominada "Club de Santarem", fundado em 1851, e que para tal emitiu acções. 


Antigo "Theatro Rosa Damasceno" (1894-1937) ex-"Theatro de Santarem" (1884-1894)

O "Club de Santarem" decidiu levar a cabo a construção de um teatro, emitindo ações para o efeito, nos finais da década de 70 do século XIX. Inicialmente os estatutos desta agremiação mencionavam expressamente a obrigação da manutenção do teatro, que à época, só podia ser o da Igreja de S. João de Alporão, que viria a ser encerrado em 1876. Mas, desde 1871, que pessoas ligadas ao teatro defendiam a construção de uma moderna sala de espetáculos em Santarém. Tendo sido escolhido o local, após negociações com a Câmara, da antiga Igreja de São Martinho, cuja fundação remontava ao século XII/XIII, fora sede de freguesia até 1849. Viria a dar origem ao "Theatro de Santarem".

Outros teatros ou já tinham surgido ou surgiriam em Santarém na segunda metade do século XIX. A mencionar:  o "Theatro Club Ribeirense", inaugurado em 1864, o teatro-barraca "Theatro Alliança", inaugurado em 1892, o "Theatro Taborda", inaugurado em 28 de Abril de 1895 (e onde se instalou, a partir de 1911, o "Grémio Guilherme d'Azevedo"), e o teatrinho "Theatro Flôr da Infancia".


3 de Dezembro de 1891


7 de Janeiro de 1892

O "Theatro de Santarem", construído onde se encontravam as ruínas da Igreja de S. Martinho, era constituído por um edifício de rés-do-chão e primeiro andar e foi pintado por um dos mais famosos pintores-decoradores do século XIX, José Maria Pereira Cão, artista natural de Setúbal e aí nascido em 1841 e falecido em Lisboa em 1921. Nos seus tectos estavam representados os principais artistas da época, e em grande destaque, o retrato da famosa actriz Rosa Damasceno (1845-1904), casada com o actor e encenador lisboeta, Eduardo Brazão (1851-1925) que também teve um teatro batizado com o seu nome - "Teatro Eduardo Brazão" - e inaugurado no Bombarral em 27 de Fevereiro de 1921.

"Theatro Rosa Damasceno" em gravura de 1908

Acerca deste primitivo teatro, nada melhor que transcrever a sua história inicial disponível no "Diccionario do Theatro Portuguez" de Souza Bastos e publicado em 1908:

«Pertence a um grupo de accionistas. Começou a ser edificado em 1877. Foi a planta feita pelo architecto Monteiro e modificada pelo conductor Julio de Souza. A obra foi dirigida por Pedro Antonio Loureiro. visconde de Athouguia e Julio de Souza. Foi inaugurado este bello theatro, a 11 de marco.de 1884, ainda por concluir, por distinctos amadores, que deram um concerto a beneficio das obras. Dez annos depois, a 3 de julho de 1894, realizou-sę nova recita, tambem a beneficio das obras, com a comedia Amigo Fritz, desempenhada por distinctos amadores e pelos artistas Eduardo Brazão e Rosa Damasceno. A assembleia geral reunida. em testemunho de gratidão, deu ao theatro, que até ali era theatro de Santarem, o nome de Rosa Damasceno e nomeou Eduardo Brazão presidente honorario da Direcção. 
Este theatro possue uma vista de praça, outra de bosque, um gabinete, tres salões, vista de mar, etc. O rendimento total da casa póde elevar-se a réis 320$000. Além do aluguer do theatro, que é de 15 % da receita bruta, a despeza de cada recita regula approximadamente por 25$000 réis. 
O theatro possue 18 frizas, 21 camarotes de 1.ª ordem, 21 de 2.ª ordem, 14 de 3.ª, 104 cadeiras, 126 logares de superior e 70 de galeria. Teem ali representado muitas vezes todas as companhias dos theatros de Lisboa e algumas do Porto. Frequentemente representam tambem n'este theatro amadores de Santarem, que os há ali muito distinctos. Quasi todos os nossos melhores artistas teem representado no Theatro Rosa Damasceno, e entre elles: Virginia, Eduardo Brazão, Rosa Damasceno, Taborda, Palmyra Bastos, João Rosa, Amelia Vieira, Lucinda Simões, Augusto Rosa, Lucilia Simões, Joaquım d'Almeida, Anna Pereira, Ferreira da Silva, Falco, Valle, Barbara, José Ricardo, Angela Pinto, Alfredo Carvalho, Emília Eduarda, Augusto de Mello, Adelina Abranches, etc. O Theatro Rosa Damasceno é elegante, confortavel, bem illuminado a gaz e muito bem decorado. Póde considerar-se um dos melhores da provincia.»

Em 17 de Dezembro de 1891 o "Correio da Extremadura" noticiava:

«Já entrou em ensaios de apuro a peça de Cezar de Lacerda, que um grupo de distinctos amadores da nossa primeira sociedade se propõe levar á scena no Theatro de Santarem, revertendo o producto liquido em beneficio do cofre do mesmo Theatro.
Na primeira recita o espectaculo terminará com a comedia em 1 acto O Senhor.
A comedia original de João Arrada, sob o titulo Apanhei-os !... representarse-ha na segunda recita que deve realisar-se em fins do mez corrente.
Para a primeira recita ainda não está marcado deffinitivamente o dia, sendo certo, porém, que ella terá logar antes do Natal.»


Rosa Angélica Damasceno Rosado Brazão (1845-1904)

O "Theatro de Santarem" viria a ser rebatizado para "Theatro Rosa Damasceno" na sequência da representação da comédia «O amigo Fritz», representada em 3 e 4 de Julho de 1894 pelos artistas Eduardo Brazão e sua esposa, a actriz Rosa Damasceno e os actores Joaquim Costa (1853-1924) e Augusto Antunes (1953-1927) - que integravam a "Companhia de Theatro Normal de Lisboa" - todos convidados por Menezes e Almeida, que na altura dirigia um grupo de amadores local. 

«Se não houvesse a Rosa Damasceno seria preciso invental-a !
Depois a Graça ... Sim, senhores, a Graça, com g maiusculo ... a Graça, que faz da adoravel interprete da Madrugada uma artista excepcional, impressionadora, unica, emfim !»

Entretanto e poucos dias antes desta representação, e no jornal "Correio da Extremadura" de 30 de Junho de 1894 era noticiado:

«Na ultima reunião de socios do Club e accionistas do Theatro de Santarem foi aceite a demissão da direcção d'esta casa de espectaculos e nomeada para a administrar a commissão que em tempo apresentou alguns alvitres tendentes a livrar o Theatro das difficuldades com que lucta.
Esta commissão poderá aggregar a si todos os cavalheiros que julgue indispensaveis para o conseguimento dos seus planos.
Confiamos em que alguma coisa de bom se fará.»

Em 1896, o cenógrafo Menezes e Almeida, também actor amador prestigiado e amador de fotografia, traz para Santarém a primeira lanterna de imagens animadas. Santarém passava a ter o seu primeiro animatógrafo, no "Theatro Rosa Damasceno".

O "Jornal de Santarem" de 30 de Junho de 1896, referindo-se ao espectáculo de animatógrafo no "Theatro Rosa Damasceno" …
«Dizem-nos que este animatographo possue quadros muito interessantes, salientando-se a Saida de Felix Faure para a Russia e a Noite de Nupcias. Tambem nos merece particular interesse a Debulhadora Mecânica em activo serviço no campo do Ribatejo … salvo seja.»


4 de Novembro de 1922




Programa para 3 e 4 de Abril de 1926

Em 16 de Março de 1924 abria o "Teatro Sá da Bandeira", que vinha substituir o antigo "Salão Ideal" que tinha funcionado entre Abril de 1913 e Agosto de 1922, para animatógrafo e gerido por Manuel Francisco de Sousa. Na véspera da abertura do "Teatro Sá da Bandeira", o jornal "Correio da Estremadura" noticiava:

«Conforme temos noticiado, reabre amanhã o antigo Salão Ideal, hoje convertido num amplo teatro que tomou o nome do grande volto scalabitano.
Após a exibição dos grandes romances cinematograficos «A orfã», «Parisete», «O pequeno miudinho> e «O garoto de Charlot», o teatro suspenderá de novo os seus espectaculos para conclusão das obras e decoração da sala, contando a empreza fazer a inauguração oficial em Outubro.
Ha já grande procura de bilhetes para o espectaculo d'amanhã em que se iniciará a exibição do monumental romance cinematografico «A orfã», publicado em folhetins no Diario de Noticias e considerado uma das melhores fitas ate hoje editadas.
Para estes espetaculos vender-se-hão apenas bilhetes de plates.
O que determinou a empreza a abrir agora esta casa de espectaculos é o interesso que tem para que o publico veja estas importantes fitas que depois de exibidas neste teatro seguirão para os Açores.»


Folheto do "Salão Ideal" 


26 de Agosto de 1922


31 de Janeiro de 1931


"Teatro Sá da Bandeira" ex-"Salão Ideal", actualmente

Em 1911 já existia outro animatografo em Santarém: o "Salão Lisbonense", em frente ao Jardim da República. Também apresentava pequenas peças teatrais, infantis, revistas e operetas.


23 de Março de 1912

O novo "Teatro Sá da Bandeira", seria inaugurado oficialmente em 12 de Outubro de 1924, sem que antes, em 6 de Setembro, o mesmo jornal informasse :

«Fica este magnifico teatro dotado com uma ampla e elegante sala, com cerca de 800 logares de plateia, 12 frisas, duas ordens de 28 camarotes, uma vasta geral e balcão de lotação superior a cem logares.
Com todos os requisitos que exige um teatro moderno, tem dois elegantes fumoirs, de artistica decoracão, bengaleiros, vestiarios de senhoras, um magnifico bufete, rasgado por 24 janelas e todas as comodidades indispensaveis, nos dias de hoje, a uma boa
casa de espeetaculos.
O palco é espaçoso e com excelentes qualidades cénicas, de modo a comportar as maiores companhias, tanto de declamação como de opereta e revista. Ha tambem uma vasta pista para aqui poder funcionar qualquer companhia de circo.
A decoracao da sala e proscenio foi confiada a um dos nossos mais conceituados cenógrafos da capital, devendo os trabalhos começar por esta semana.
O pano de bôca e cenários, modernos e de grande efeito, estllo sendo executados em Lisboa. A sua complicada e artistica instalação electrica, foi feita sob a direcção do distinto electricista sr. Antonio Pinheiro, devendo ser do um efeito deslumbrante, com o brilho das suas mil lampadas. A inauguração desta casa de espectaculos tera logar no próximo mês de Outubro, com uns das melhores companhias dramáticas.
Entretanto até á conclusão das suas obras, deverão exibir-se no «écran» algumas notáveis películas cinematográficas, como A Parisette, O Miudinho no asilo, Entre chamas e feras, e outras.»


29 de Maio de 1937

No início de 1937, a direção do "Club de Santarém" decide construir um novo edifício, no mesmo local, para aí instalar o "Teatro Rosa Damasceno" num novo edifício, e que se adequasse às necessidades técnicas do cinema bem como à «estética do nosso tempo», segundo jornais da época. Este projecto ficou a cargo do arquitecto Amílcar da Silva Pinto (1890-1978), que já desenvolvia vasta obra na cidade de Santarém, como o novo edificio dos "Correios Telégrafos e Telefones" inaugurado em 6 de Março de 1938.

As obras iniciaram-se em Junho de 1937 e a nova sala foi inaugurada em 16 de Junho de 1938. Acerca desta nova sala de espectáculos o jornal "Correio da Estremadura" de 11 de Junho de 1938 escrevia:

«(…) Santarem esta satisfeita e compreende-se com que regosijo, por ver a cidade dotada com um teatro amplo, moderno, de linhas elegantissimas, obedecendo a todos os requisitos de arte cénica e cinematográfica e reunindo todas as condições de higiene e de segurança para o público.
Propriedade do Club de Santarém que, numa hora de audaciosa iniciativa, deliberou remodelar as antiquadas e exíguas instalações do velho Rosa Damasceno, o novo teatro vai abrir em breve as suas portas para a festa inaugural, que promete o maior brilhantismo e traduzirá uma justificada manifestação de homenagem ao presidente da direcção daquela colectivitlade, o ilustre deputado sr. dr. Carlos Borges. (…)
Foi o sr. Carlos Borges quem deu alento á feliz iniciativa, impulsionando a idea a cuja realização prestou o seu melhor concurso.
Pondo à disposição da direção do Club de Santarém, perto de seiscentos contos, sem prazo fixo, nem qualquer interêsse de natureza especial, só a isenção desta atitude podia tornar possivel a realidade de tao arrojada quao dificil aspiração. (…)
A impressão geral é de elegancia e de comodidade.


Aproveitando o espaço dos corredores laterais, avançando até dois terços do palco, a plateia ganhou imenso em amplidão e desafôgo, abrangendo uma vasta quadra, com 598 lugares, dotada de coxias largas e guarnecida de mobiliário moderno, do melhor gosto.
O primeiro balcão á uma obra prima de construção, com uma inclinação que oferece a maior comodidade, prolongando-se lateralmente por duas asas de camarotes. E' dotado com dois foyers, cujo pavimento oferece um artistico parquet.
O segundo balcão, muito cómodo também, avança sôbre o primeiro, num contorno elegante, dum recorte muito feliz.
O palco oferece ainda bastante espaço e os camarins, instalados num espaço anexo, teem comodidade.
A iluminaçao com uma distribuição inteligente, oferece um conjunto de tons muito feliz. Conjugando o branco, o verde, o vermelho e o lilaz, obtiveram-se efeitos maravilhosos.
O largo vestibulo, as escadas de acesso em lanços suaves, as instalações higiénicas, os terraços, os bufetes, as bilheteiras, os pavimentos em marmorite, etc. tudo revela um aproveitamento de espaço e uma bela noção das proporções, que muito honra o autor do projecto, o conceituado arquitecto sr. Amilcar Pinto, que mais uma vez tem a consagração dos seus talentosos dotes de artista.
Assim o entendeu a Inspeccão Geral dos Espectaculos, que presidida pelo Inspector sr. Major Oscar de Freitas, ante-ontem procedeu á respectiva vistoria, considerando o novo teatro «o melhor da Provincia um dos melhores do pais
O velho pano de boca da autoria do Visconde de Atouguia e A. Figueiredo foi substituido por uma cortina em vermelho.
A execução dos trabalhos foi feita sob a direcção de diversos artistas como os srs. Bacelar, Alves, Benjamim de Almeida e João Lopes que estiveram á altura dos seus créditos.
A lotação é para 1.400 espectadores.
Muito fica por dizer. Mas o resto terao os nossos leitores ocasião de apreciar, na sua inauguração, que terá lugar na próxima semana.»



18 de Junho de 1938

O novo "Teatro Rosa Damasceno" seria inaugurado, poucos dias depois a 16 de Junho de 1938.

«Pode-se dizer que foi verdadeiramente brilhante a festa de inauguração do novo Rosa Damasceno.
A cidade teve um movimento desusado para os lados das Portas do Sol, ali concorrendo todos os que lograram ou não bilhete para a récita inaugural e que afluiam a presenciar o artistico efeito da iluminação do novo teatro.
Este oferecia na verdade um surpreendente aspecto, com a sua alta fachada a destacar-se na projecção luminosa de dentro e de fora, que lhe dava uma fulgurante belêsa.
Dentro, a linda sala de espectáculos, cuja descrição fizemos no ultimo numero, regorgitava de espectadores, ouvindo-se as mais elogiosas referencias á obra realizada. (…)
A Companhia Rey-Colaço representou em seguida a peça «Recompensa», de Ramada Curto, que teve a brilhante interpretação costumada, sendo muito aplaudida. No fim do primeiro acto o sr. presidente da Camara ofereceu a artista D. Amelia Rey Colaco um ramo de flores. Apoz o espectáculo teve lugar no Club de Santarem uma ceia de homenagem ao sr. dr. Carlos Borges, em que se trocaram calorosas saudações.»


10 de Dezembro de 1938


24 de Dezembro de 1938


29 de Abril de 1944


30 de Dezembro de 1944


27 de Janeiro de 1956


A seguir uma série de fotos (aprimoradas por IA), a partir de fotogramas de um documentário emitido pela "RTP - Radiotelevisão Portuguesa" em 7 de Fevereiro de 1979, acerca do "Teatro Rosa Damasceno" e dispnível na plataforma "RTP Arquivos".








Bilhete

Em 1999, o "Teatro Rosa Damasceno" encerraria definitivamente, tendo apenas utilizado, extraordinariamente, em 2001 para um concerto de Maria João e Mário Laginha.

Em 2004 o edifício foi cedido pelo "Clube de Santarém" ao "Grupo Enfis, Hotelaria e Turismo", liderado pelo empresário Joaquim Rosa Tomaz, dono de um vasto património em Santarém onde se incluem um ginásio, restaurante, colégio privado e residência para seniores, entre outros imóveis. Em troca o clube recebeu lotes de terreno no concelho vizinho de Almeirim, processo que foi contestado pela Câmara Municipal de Santarém. O município também tentou adquirir o imóvel mas sem conseguir convencer o "Clube de Santarém", que acabou por fechar contrato com o "Grupo Enfis", ignorando o direito de preferência da autarquia no negócio.

2023

Em Março 2007 um incêndio de causas desconhecidas destruiu quase por completo o edifício do "Teatro Rosa Damasceno".

Mas em 3 de Abril de 2025 … «O presidente da Câmara de Santarém, João Leite (PSD), assinou esta quinta-feira, 3 de Abril, a escritura que formaliza a aquisição, pelo município, do antigo e degradado Teatro Rosa Damasceno, localizado no centro histórico da cidade. Cumpriu-se assim a previsão anunciada pelo autarca no feriado municipal de 19 de Março, quando anunciou que o negócio ficaria consumado em Abril. O imóvel, ao abandono há muitos anos, integrava a massa insolvente da empresa Enfis, Hotelaria e Turismo. »

fotos in:  Delcampe.net, Arquivo Digital Correio do Ribatejo,  Arquivo Distrital de Santarém, Arquivo RTP, Eu Gosto de Santarém

9 de setembro de 2026

"Colégio Moderno" em Lisboa

O "Colégio Moderno", localizado na, então, Estrada de Malpique, 19, em Lisboa, foi inaugurado e iniciou as suas actividades educativas em 3 de Outubro de 1936, início do ano lectivo 1936/1937. Foi fundado pelo professor e pedagogo Dr. João Lopes Soares (1878-1970).



Dr. João Lopes Soares (1878-1970)


Primeiro grupo de alunos do ano lectivo de 1936/1937. Mário Soares, então aluno do 2º ano do liceu, (na primeira fila, de mãos nos bolsos, é o quinto a contar da esquerda), Dr. João Lopes Soares (ao centro) e D. Elisa Soares, esposa de João Soares, (na varanda, 2.ª a contar da esquerda)


D. Elisa Nobre Baptista Soares, Mário Soares e Dr. João Lopes Soares, em foto de 1938


"Colégio Moderno" em fase de acabamentos, em ambas as fotos de 1936

O Dr. João Soares, além de ter tido carreira de sacerdote católico (que abdicou em 1923) e política, já tinha fundado, com João de Deus Ramos, o "Bairro Escolar do Estoril", o "Colégio de Nun’Álvares", em Tomar. Enquanto diretor de todos estes estabelecimentos de ensino, e muito em particular do "Colégio Moderno", o Dr. João Soares marcou gerações de estudantes, desenvolvendo métodos pedagógicos inovadores e modernos, que se refletem nas inúmeras obras escolares que escreveu, entre as quais se destacam "Portugal Nossa Terra - Educação Cívica" (com Elísio de Campos, 1917), "A Idade Moderna e Contemporânea" (1922), "Novo Atlas Escolar Português" (1925) e "Quadros da História de Portugal" (com Chagas Franco, 1932). Era pai do Dr. Mário Soares (1949-2015), que além de advogado, foi professor do Ensino Secundário particular e diretor do "Colégio Moderno".

O "Colégio Moderno" instalou-se no edifício que restava da "Quinta das Ameixiais de Santa Rita de Malpique", como era denominada em 1867. Em 1898, era conhecida, simplesmente, como "Quinta de Santa Rita de Malpique". Esta quinta já existia em 1675, nos arredores de Lisboa, com o nome de Malpique, que deve ter designado o nome da estrada. Nessa quinta, no princípio desse século, funcionava uma fábrica de sebo. No tempo em que o colégio foi criado, a quinta denominava-se "Quinta do Cônsul da Holanda", também conhecida por "Quinta da Misericórdia" e "Quinta do Tarujo" e, nela, trabalhava-se na agricultura e na criação de gado. O actual ginásio era, nesse tempo, uma vacaria. Foi arrendada pelo "Colégio Moderno", na altura à firma "Flora & Fauna, Lda.".

Já outro "Collegio Moderno" tinha existido, em Lisboa, a partir de 1908, na Travessa de Santo Ildefonso, 7 esquina da Rua de Santo Amaro, em Lisboa.


11 de Outubro de 1908


Prédio de esquina da Travessa de Sto. Ildefonso onde funcionou o "Collegio Moderno" a partir de 1908

1 de Novembro de 1912

E, ainda outro em 1915, mas em Coimbra ...

26 de Setembro de 1915

Depois de ter recebido o diploma que o autorizava a dirigir estabelecimentos de ensino, superior ao primário particular, ao Dr. João Soares, viria a ser concedido pelo Ministério da Instrução Pública, em 26 de Novembro de 1926, o alvará que o autorizava a dirigir, em Lisboa, um estabelecimento de ensino particular com a denominação "Colégio Moderno", com a capacidade para 35 alunos internos e 75 externos, do sexo masculino e feminino, podendo ministrar o curso primário e secundário (os primeiros dois ciclos) em regime de planos e programas oficiais.

Em 4 de Outubro de 1937 o jornal "Diário de Lisboa", numa referência a este estabelecimento de ensino, informava:

«Este colegio, embora de recente data pois foi fundado em 1936, e que enfileira ao lado dos melhores estabelecimentos de ensino, encontra-se instalado na linda e vasta Quinta da Misericordia, ao Campo Grande, toda murada, longe do bulicio da cidade, mas de acesso facil e comodo a 1 minuto do electrico.
Sob a inteligente direcção do sr. dr. João Soares, antigo professor dos Pupilos do Exercito, autor do «Novo Atlas Escolar Português», e de outros livros didaticos, prestigioso pedagogo que se encontra rodeado dos melhores professores, o «Colegio Moderno» admite alunos, semi-internos e externos de ambos os sexos, para ensino infantil, instrução primaria, admissão dos liceus, curso geral dos liceus, curso comercial, curso do conservatorio, especiais de lavores, arte aplicada, desenho e pintura. Tem tambem o curso pratico de linguas, dactilografia e estenografia; dansa ritmica, desenho artistico, gimnasio. equitação, jogos educativos, canto coral e gimnastica medica.
No «Colegio Moderno». existe o maximo conforto, aulas e dormitorios espaçosos e bem arejados obedecendo a todos os preceitos higienicos e pedagogicos.
Possui uma rigorosa educação moral, uma alimentação sadia e as mensalidades são muito reduzidas. Os seus professores são especializados em todas as disciplinas.
Para que nada falte no «Colegio Moderno», existe um esplendido gabinete de fisica, museu e laboratorio para o ensino experimental das ciências.
Numa secção separada funciona o Pensionato Feminino que é dirigido por senhoras da maior respeitabilidade e onde se ministra, lavores, piano, violino, canto e arte aplicada e curso familiar.
O «Colegio Moderno» - ao Campo Grande, estrada de Malpique, 9, cujo telefone é o 57038 - é pois um dos bons estabelecimentos de ensino.»








A 15 de Dezembro de 1938, o "Colégio Moderno" teve autorização para ministrar o ensino do sétimo ano do curso liceal, podendo, assim, aumentar a sua lotação de alunos até 70 internos e 200 externos, sendo 150 do liceu e 50 da primária. Desde a sua fundação até à publicação da lei que proibia o ensino misto, este colégio admitiu alunos de ambos os sexos no regime de internato, semi-internato e externato. Os alunos eram provenientes, geralmente, das colónias ultramarinas e da província, onde as escolas eram escassas. Os internos dormiam onde, actualmente, é o pavilhão A (mais conhecido como «O pavilhão da Anabela»), no piso superior. Por Despacho Ministerial, a 28 de Janeiro de 1941, o colégio é autorizado a instalar um pensionato para uma frequência máxima de 12 pensionistas do sexo feminino. "Estado Novo" viria a instituir a separação dos sexos nas escolas, pelo que o Colégio passou a ser masculino. Só depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 voltou a ter ambos os sexos.


1938



1938


Dr. João Soares ministrando aula de Geografia



Em 5 de Fevereiro de 1939, é inaugurado o Pavilhão de Ginástica  ...


Na mesa e da esquerda para a direita: Professores Dr. Rocha Saraiva, Dr. Oliveira Guimarães, Dr. Hernâni Cidade e Dr. João Soares. Mário Soares à esquerda, em pé e com a mão no peito



14 de Maio de 1944

De seguida, fotos do início do ano lectivo de 1945/1946, datadas de 15 de Outubro de 1945.






Início do ano lectivo de 1945/1946 em fotos de 15 de Outubro de 1945

Em 13 de Setembro de 1947, estando o Dr. João Soares preso, as funções de director do "Colégio Moderno" são exercidas pela sua sobrinha Maria da Conceição. Nesta altura, o colégio estava a ser vigiado pela "PIDE", nomeadamente o seu director e a sua família, sendo anotadas todas as matrículas dos carros que estacionassem na área.

Em Março de 1952, a polícia política anexa a um dos seus múltiplos processos, em que aparece referido o Dr. João Lopes Soares, o exemplar nº 1 do jornal "Gente Moça - Jornal dos Alunos do Colégio Moderno", dirigido por Rogério Araújo. Em 1954, João dos Santos criou no colégio, com a pedagoga Maria Amélia Borges, um dos primeiros Centros de Orientação Escolar existentes em Portugal (o outro foi na escola de "A Voz do Operário", em Lisboa).

De referir que em 1952, o médico do "Colégio Moderno" era o Dr. Tertuliano Lopes Soares (1906 - ?), filho de uma relação que o Dr. João Soares, ainda padre, manteve com D. Joaquina Ribeiro da Silva, anterior à que viria a manter, e casar, com D. Elisa Nobre. D. Era licenciado em medicina, médico-cirurgião, interno dos Hospitais Civis de Lisboa e professor na Escola Superior Colonial.

Dr. Tertuliano Lopes Soares (1906 - ?)


Foto anterior e este anúncio retirados do jornal dos alunos do Colégio Moderno "Gente Moça", de Setembro de 1952 (capa a seguir)

Em 27 de Março de 1955 é constituída a sociedade "Colégio Moderno de João Soares & Filhos, Lda.", pelos sócios João Lopes Soares, Cândido Nobre Baptista e Mário Alberto Nobre Lopes Soares  - filho do Dr. João Lopes Soares -, com um capital social inicial de 200.000$ A propriedade do Alvará do "Colégio Moderno" seria transmitida a favor desta sociedade. Um pouco mais tarde, a 16 de Janeiro de 1958, a direcção do colégio é exercida por João Soares e pelo seu filho Mário Soares.  Em 30 de Agosto de 1961, e por escritura pública João Lopes Soares cedia parte da sua quota de 100.000$ a Joaquim Maria Nobre que fica com uma quota de 5.000$, ficando a outra quota de 100.000$ na posse de Mário Alberto Nobre Lopes Soares.


16 de Setembro de 1952


Dra. Maria Barroso e Dr. João Soares em c. 1960

De início, o ensino neste estabelecimento ia da Escola Primária ao 7.º ano do Liceu, que era o último. No início dos anos 1960 criou-se a Infantil (3 aos 5 anos) e um curso noturno para adultos, que terminaria no início dos anos 1970. Na década seguinte nasceria o infantário (dos 4 meses aos 2 anos). Hoje um aluno pode frequentar o Colégio desde o berço até ir para a Universidade.

Por ocasião da celebração das Bodas de Prata do "Colégio Moderno", e da abertura da «Secção Infantil», o Dr. João Soares concedeu uma pequena entrevista ao "Diario de Lisbôa", em 11 de Agosto de 1962, que passo a transcrever parte do artigo:

«A vitalidade da obra é-nos demonstrada. acima de tudo, pela grande comemoração das Bodas de Prata: a inauguração da secção infantil, em edificio anexo ao edificio principal do colégio. Convinha por isso ouvir o grande educador prof. João Soares, sem contestação uma das figuras de mais destaque no ensino particular.
Começou ele por nos dizer:
- Bem, O Colegio Moderno, que fundei e iniciou a sua actividade no ano lectivo de 1936-37, celebra de facto as estas bodas de prata. Pessoalmente. como professor, já há multo que celebrei as bodas de ouro ... E espero comemorar as de diamante, com a ajuda da energia contagiante de toda essa rapaziada que ai vê!
- Impressões da sua vida de professor e director do colégio ...
- Sabe, não é fácil falar duma actividade que nos enche a vida inteira. Muitas canseiras, que deixam marca mas que depressa esquecem. A profissão do ensino gasta como tudo o que se faz com paixão. Mas, ao fim e ao cabo, é impossível lidar com rapazes, sem nos deixarmos possuir pela sua natural alegria. E a consciência de lhes ser de facto útil, que é o melhor galardão de quem se entrega ao ensino. aumenta essa alegria com a satisfação do dever cumprido. (…)
-Espero que em Outubro próximo tudo esteja pronto, As instalações para o ensino infantil merecem-nos especiais cuidados. As crianças precisam de muito e merecem tudo. Nessas instalações não haverá luxo. A meu ver luxo é deseducativo. Mas tudo foi concebido em função dos pequeninos - rapazes e raparigas dos 4 aos 6 anos - e das suas naturais necessidades de carinho, de orientação e de vida física e moralmente sadia. A secção funcionará numa vivenda, aqui bem perto, protegida por um jardim, a que se dará a graça necessária. Toda a obra de adaptação, interior e exterior, está sendo dirigida pelo arquitecto e urbanista Miguel Jacobetty, de quem muito de bom haveria que dizer mas de quem não posso falar, por a minha muita amizade me tornar suspeito ... Direi finalmente que a direcção do Colégio Moderno confiou a orientação directa da sua secção infantil a professora D. Dulce de Morais e Castro, que em estudo no estrangeiro e em longos anos de prática tem vindo a acumular uma notável experiência.
Só não aprendeu o amor pelas crianças, que nela é inato e que as mulheres portugueses não têm que aprender em parte nenhuma. Enfim ... o resto é trabalho e não há palavras que o expliquem.»


«Secção Infantil» também na Rua de Malpique

No dia 3 de Outubro de 1968, á autorizada o exercício de funções de director do "Colégio Moderno" a José Mota Costa juntamente com Mário Soares, Rogério Jorge Ribeiro de Araújo e João Soares (presidente da Direcção). Lembro que foram professores neste colégio nomes como: Álvaro Salema, Raúl Rêgo, Mário Dionísio, Álvaro Cunhal e Mário Soares, entre outros.


30 de Setembro de 1966


9 de Agosto de 1969


16 de Julho de 1970

22 de Junho de 1973

Nota: Foi no ano lectivo de 1967/1968 que entrei para este colégio, por ser muito perto da casa de meus pais, no Bairro Santos (Rêgo). Aqui completei o 1º e 2º anos do liceu. Conheci a Dra. Maria Barroso e ainda cheguei a ver o Dr. João Soares entrar diversas vezes para o "Renault" 16 cor grenat, da família. O chefe de disciplina era o sr. Tenente (não sei se de nome se de posto no exército) e o chaffeur da carrinha, marca "OM - UTIC", que me transportava a casa era o sr. Diniz. A minha passagem por este colégio marcou-me, literalmente, para o resto da vida ... Ao jogar «ao pendura», e com a pressa de não ser apanhado, saltei para um banco de ferro, que se pode avistar na foto seguinte, escorreguei e bati com a cara, junto ao olho direito, no banco, e lá fui para ao hospital da seguradora. Levei dois pontos e lá fiquei com uma cicatriz junto à vista direita ... Na outra vista tenho outra quase impercéptivel, resultado de uma pedrada, junto ao campo de futebol, noutra brincadeira da época ... Nada de grave, mas que cá estão ... estão. Tirando esses acidentes a minha passagem por lá foi agradável. De lá segui para o "Colégio Manuel Bernardes", no Paço do Lumiar, que frequentei a partir de 1970/1971 até ao final do curso liceal.

O «maldito» banco, ao fundo à direita junto à coluna branca. Da direita para esquerda: Dra. Maria Barroso, e seus filhos Isabel Soares e João Soares


"OM-UTIC" idêntica às do "Colégio Moderno". Na altura eram duas. Em vez de riscas vermelhas, eram azuis

Aquando do 25 de Abril de 1974, a esposa do Dr. Mário Soares, Dra. Maria Barroso Soares (1925-2015) - actriz, professora e activista política, com licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas - já era diretora do "Colégio Moderno", cargo que exerceu até 1986, quando o marido é eleito Presidente da República. 

Dra. Maria Barroso Soares no seu gabinete de direcção

Em 3 de Dezembro de 1974 a Rua de Malpique, onde se localizava o "Colégio Moderno", é redenominada para Rua Dr. João Soares, em homenagem ao fundador do colégio.

Por escritura pública de 10 de Novembro de 1981, o capital social do "Colégio Moderno" é aumentado de 200.000$ para 250.000$ assim distribuído: Mário Alberto Nobre Lopes Soares (200.000$), Maria de Jesus Simões Barroso Soares (30.000$), João Barroso Soares (10.000$) e Maria Isabel Barroso Lopes Soares (10.000$). Em 12 de Dezembro de 1988 este capital social viria a ser aumentado para 15.000.000$ e distribuído pelos mesmos sócios em idênticas proporções. Em 2006 a sociedade era a mesma, apenas com o mesmo capital social, e respectivas quotas, convertidos em euros (75.000 €).

Em 1998, a sociedade "Colégio Moderno de João Soares & Filhos, Lda.", adquire a "Quinta da Misericórdia", até então arrendada à firma "Flora & Fauna, Lda." desde 1936.

A diretora do "Colégio Moderno" é, desde 1985, a psicóloga clínica, e co-proprietária, Isabel Barroso Soares, neta do fundador e filha de Maria Barroso e Mário Soares. Foram seus antecessores no cargo figuras como Mário Soares, Maria Barroso Soares, José Luís Mota Costa e Rogério Araújo.

O "Colégio Moderno", tem cerca de 2000 alunos divididos em quatro secções que vão dos bebés ao final do Ensino Secundário: Infantário (4 meses aos 2 anos), Infantil (3 aos 5 anos), Primária (1.º Ciclo do Ensino Básico) e Liceu (2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e Ensino Secundário). Além dos programas curriculares destes níveis de ensino, oferece atividades extracurriculares como Música, Ballet, Ginástica, Judo, Ténis, Andebol e Futebol.








fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Fundação Mário Soares (Casa Comum), Colégio Moderno