Restos de Colecção: Snack-Bars
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5 de março de 2023

Galerias Ritz e Snack-Bar Monumental

Quando em 24 de Novembro de 1959 foi inaugurado o "Hotel Ritz", em Lisboa e projectado pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957), o seu complexo não incluía, ainda, as "Galerias Ritz", apesar de ser uma das hipóteses para aquele espaço esquina da Rua Castilho com a Avenida Joaquim António de Aguiar.


"Hotel Ritz" em 1959, ano da sua inauguração, ainda sem as "Galerias Ritz"

As "Galerias Ritz", projectadas por Leonardo Castro Freire (1917-1970) - discípulo de Pardal Monteiro que falecera durante a construção do hotel - foram finalizadas em 1964 e não tinham qualquer ligação interna ao hotel - «edifício num podium inacessível, apenas quebrado pelas entradas pontuais para os espaços de restauração ou exposições.». A sua construção ficou a cargo da firma "Diamantino F. Tojal, Sucessores, Lda.".



Fases de construção das "Galerias Ritz"


"Galerias Ritz" concluídas em 1964

Entre a garagem do Hotel e o espaço das lojas nas "Galerias Ritz", instalou-se o famoso e muito frequentado "Snack-Bar Monumental", promovido pelo industrial hoteleiro Amadeu Dias, e inaugurado em 19 de Maio de 1969. Lembro que Amadeu Dias já explorava os três bares do "Cinema-Teatro Monumental" e o "Café Monumental", inaugurado em 17 de Setembro de 1955 no mesmo edifício do cinema-teatro. O projecto de decoração e arquitectura deste espaço foi do arquitecto, pintor, escultor e designer, Luís Ralha (1935-2008).



18 de Maio de 1969


Com os seus três pisos, oferecia balcões corridos à semelhança do snack-bar "Galeto" - inaugurado em 30 de Julho de 1966 na Avenida da República, em Lisboa - e que, ao contrário do hotel, não era um equipamento de luxo. A mencionar: "Bife à Robin dos Bosques", os gelados e as pizzas que também ali eram servidas e pouco usuais nos distantes anos 70 do século XX. Lembro-me que a sua inauguração foi um acontecimento lisboeta e nos meses seguintes, nos finais de semana, formavam-se filas à porta para almoçar ou lanchar.


Viria a encerrar, não sei em que ano, e por sua vez as "Galerias Ritz" entraram em decadência e o seu espaço foi abandonado e encerrado por alguns anos.

Em 2019, foram iniciadas obras de demolição e requalificação das antigas "Galerias Ritz", a cargo da construtora "Alves Ribeiro, S.A.", e projectadas por "RRJ Arquitectos", entretanto já terminadas. Com 15 milhões de euros de investimento depois, os míticos espaços comerciais, deram lugar a um novo local de escritórios de luxo "Castilho 77 Offices" e no lugar do antigo "Snack-Bar Monumental" o restaurante japonês de sushi "Kabuki", inaugurado em 2021 e pertença do "Grupo Kabubki". Ao mesmo tempo a área de estacionamento automóvel interior foi aumentada.


"Castilho 77 Offices", via Google Maps





Restaurante sushi "Kabuki", nas antigas instalações do "Snack-Bar Monumental"


fotos in: Hemeroteca DigitalBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Grupo Kabuki

18 de setembro de 2018

Café Monumental

OCinema-Teatro Monumental”, localizado na Praça Duque de Saldanha em Lisboa, e propriedade da “Sociedade Administradora de Cinemas, Lda.”, do major Horácio Pimentel, foi inaugurado no dia 8 de Novembro de 1951.

No alçado lateral do edifício, sobre a Avenida Fontes Pereira de Melo, era inaugurado em 17 de Setembro de 1955, o café, casa de chá, snack-bar e restaurante “Monumental”, igualmente propriedade “Sociedade Administradora de Cinemas, Lda.”, e explorado por Amadeu Dias, que já detinha a exploração dos 3 bares do “Cinema-Teatro Monumental".

“Café Monumental” ainda em construção

A propósito, o “Diário de Lisboa” , neste dia, noticiava:

«O novo estabelecimento marca, indiscutivelmente, uma nova fase na vida comercial de Lisboa, pelo arrojo da iniciativa e os moldes modernos com que o seu proprietário sr. Amadeu Dias, o instalou. Homem de invulgar capacidade realizadora, espírito verdadeiramente empreendedor e cheio de mocidade, conseguiu com o seu Café Monumental dotar aquela zona da cidade com um estabelecimento de categoria e modelar organização, em todos os aspectos.

1961

O projecto inicial da obra era da autoria de sr. arquitecto Rodrigues Lima, pois fazia parte do bloco das casas de espectáculo. O seu proprietário confiou, porém, o seu desenvolvimento, dentro das novas exigências funcionais da exploração, ao notável decorador José Espinho e a Fred Kradolfer, outro artista de extraordinários méritos, que resolveram, com inteligência e gosto, os problemas de decoração, construção e mobiliário.

Mas muito contribui para o encantador ambiente do novo e elegante estabelecimento o excelente mobiliário fornecido pela consagrada casa Olaio, da Rua da Atalaia.»

  
Ementa, copo e talão gentilmente cedidos por Carlos Caria

De referir que no edifício à direita doCinema-Teatro Monumental”, na lateral da Avenida Fontes Pereira de Melo, o "Café Monumental" teve como vizinho, o café, salão de chá, restaurante e pastelaria “Monte Carlo”, inaugurado , também em 1955. Este café veio a ser propriedade da empresa “A Caféeira”, fundada em 1866 e sediada em Matosinhos, Porto, que já era proprietária da “Casa Chineza”, na Rua Áurea e do café “Ribatejano”, na Rua dos Anjos, em Lisboa.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Rua dos Dias que Voam

17 de maio de 2018

Self-Service e Snack-Bar “Noite e Dia”

O Restaurante Self-Service e Snack-Bar "Noite e Dia", localizado na Avenida Duque de Loulé, em Lisboa, e projectado pela dupla de arquitectos Victor Palla e Bento de Almeida, foi inaugurado Outubro de 1965. Não sendo o primeiro self-service a aparecer em Lisboa,  - o primeiro tinha sido o “Solar de Aviz” na Avenida da Liberdade - foi dos mais importantes da sua época, e incluía um snack-bar na cave.

Arquitecto Victor Palla

 

Artigo publicado na revista "Banquete" de 5 de Novembro de 1965

Anúncio em 26 de Junho de 1967

Passo a transcrever um pequeno excerto dum artigo publicado no jornal "Diario de Lisbôa" de 3 de Novembro de 1969:

«... Um desses «snack-bars» triunfantes, com muita gente a mastigar lá dentro, é o Noite e Dia, na Avenida Duque de Loulé. Trata-se do único estabelecimento do género com «self-service», e, de acordo com as palavras do encarregado, são servidas por dia cerca de 1.200 refeições.
-Servidas ...?
Ele riu-se:
-Tem razão. São os clientes que levam os tabuleiros para as mesas ... Mil e duzentas pessoas, todos os dias, pegam nos tabuleiros. Isto no Self. No Snack propriamente dito temos, por dia, uma clientela de quinhentas pessoas.
Este Noite e Dia ainda foi mais longe ao ataque aos estômagos vazios: tem um serviço especial de refeições ao domicílio. Uma embalagem de plástico - e pronto: o cliente leva para casa com que guarnecer os pratos.

 

- Em relação a qualquer restaurante, faz-se presentemente num «snack» bem apetrechado muito mais dinheiro. Vende-se o dobro, sabe? A vida é outra, exige mais rapidez em tudo. O cliente já não tem paciência para estar meia-hora à espera que o sirvam. Chega - e quer comer. Quer ficar ainda com tempo para dar uma volta pela cidade.
(...) efectivamente, os preços, de uma maneira geral, são muito acessíveis: 25$00 é o preço médio de uma óptima refeição. Claro que há muita gente ainda, de temperamento comilão, que se não satisfaz com o «snack». Exige a «pratalhada», com muito vinho e um magnífico arroto no final. Essa gente, porém, pertence a uma outra geração, uma geração de digestão difícil, engravatada, que não raro ata um guardanapo no pescoço por causa das nódoas e dos perdigotos.
Em suma: uma outra geração, a nova, justifica a existência e a inauguração constante de «snack-bars». O «snack-bar» está dentro do futuro.»

30 de Novembro de 1977

No início dos anos 80, o “Noite e Dia” encerraria em definitivo, e nas suas instalações seria criado o night-club “Confidencial”, depois ”Casa de Simone”, que ao longo dos anos mudaria de designação, mas sempre na mesma área de negócio - actualmente “Gallery”. Na mesma altura, era criado pelo fundador da revista “Gaiola Aberta”, o designer José Vilhena, e no prédio contíguo a Norte, o night-club “Night and Day”.

Foto actual do exterior do antigo “Noite e Dia”, a partir do “Google Maps”

fotos: Arquivo Municipal de Lisboa, Ilustração Portuguesa

23 de novembro de 2017

Leitaria Luso Central e Pique-Nique

A “Leitaria Luso Central” na Praça D. Pedro IV (Rossio), em Lisboa, terá aberto por volta de 1913, aquando da remodelação e transformação deste edifício (entre 1912 e 1913) para Hotel, conforme projecto do construtor civil Frederico Augusto Ribeiro, e cuja fachada seria alterada pela proposta de um desenho de um arquitecto alemão. Este edifício viria a albergar o “Hotel Metrópole”, do empresário hoteleiro Alexandre d’Almeida, e inaugurado em 18 de Novembro de 1914.

A primitiva “Leitaria Luzo Central”, à esquerda do toldo na foto

A “Leitaria Luzo Central”, viria a ocupar o mesmo espaço onde tinha funcionado, primeiramente, o “Botequim das Parras”, no primitivo edifício, e a “Tabacaria Gusmão”. Onde são hoje os números 22-25 e 27-29, ficavam no princípio do século XIX os celebérrimos “Botequim do Nicola” (1787) - actualCafé Nicola” - e o já referido “Botequim das Parras”, onde se reuniam os literatos do tempo, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Nuno Álvares Pato Moniz, Francisco Joaquim Bingre, João Vicente Pimentel Maldonado, etc..

Recordo que o “Botequim das Parras”, desde 1803, era propriedade de José Pedro da Silva, vulgo o José Pedro das Luminarias - assim chamado por iluminar a frontaria do botequim nos dias de gala nacional - que tinha sido administrador do “Botequim do Nicola”. Entre os dois botequins era a porta da escada do prédio. O “Botequim das Parras” era assim chamado pelo facto da pintura dos frisos dos tetos do interior reproduzia cachos de uvas e folhas de videira. Dizia-se, mais tarde, que nas paredes desse botequim havia muitos versos nas paredes, escritos a lápis, por Bocage.

“Botequim do Nicola” na elipse desenhada à esquerda, na foto, e “Botequim das Parras” na elipse desenhada à direita

 

“Botequim das Parras” na elipse desenhada

Em 1915, a “Leitaria Lvso Central” expande-se à loja de modas, contígua, e transforma-se interiormente e exteriormente sob o risco do Arquitecto Manuel Norte Júnior (1878-1962), reabrindo em 1916.

1930

 

1940

 

Mas como nada dura para sempre, em 1950, e para o lugar da “Leitaria Lvso Central” é encomendado um projecto ao gabinete de arquitectura de Víctor Palla e Bento d’Almeida, para a construção do primeiro snack-bar de Lisboa e do país, o “Pique-Nique”, que viria a ser inaugurado em 23 de Outubro de 1954.

              Arquitectos Víctor Palla e Bento d’Almeida                                       “Pique-Nique” em construção 

 

23 de Outubro de 1954

Exterior e interior do Snack-Bar “Pique-Nique”

  

Saco

António Martins Sena da Silva, designer, arquitecto, artista plástico, fotógrafo, cronista, etc.,  escreveria, a este propósito:

«O Pique-Nique apareceu em Lisboa com a designação inglesa de «Snack-Bar» e uma clientela de formação cinematográfica. Existe agora no Rossio como coisa que faltava e não podemos pôr em dúvida a sua integração perfeita naquela zona nem a justificação da modalidade de refeições rápidas que se propunha fornecer.»

O “Pique-Nique” viria a desaparecer, e actualmente é uma pizzaria e restaurante de comida italiana, tendo adoptado a primitiva designação de “Leitaria Luso Central”.

“Leitaria Luso Central”, actualmente

 

Vou transcrever o texto do site oficial da actual “Leitaria Central”:

«Em 2014 o Luso-Central ganha uma nova vida, combinando a tradição original com as exigências contemporâneas. Quando passamos a lindíssima fachada do arquiteto Norte Júnior, cuidadosamente recuperada, encontramos um espaço moderno e confortável dedicado às irresistíveis tentações da gastronomia italiana.»

Quanto ao texto anterior resta-me dizer, ou recordar ao autor do mesmo, que a actual fachada nada tem a ver com a primitiva, do arquitecto Manuel Norte Júnior, apesar de referida como «cuidadosamente recuperada», o que não se verificou, infelizmente … bastará comparar as fotos que publico.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Hemeroteca Municipal de Lisboa