23 de setembro de 2015

Móveis Olaio

Em 1860, José Olaio, jovem marceneiro ardiloso, filho de moleiros, comprou um par de caixotes de madeira na “Casa Havaneza" e transformou-os em duas mesas-de-cabeceira em folha de raiz de mogno. Em 16 de Setembro de 1886, abre uma oficina de marcenaria na Rua da Atalaya, em Lisboa que, mais tarde, se transforma também em armazém e loja de móveis novos e usados. Era o princípio da “Móveis Olaio”.

José Olaio

“José Olaio” na Rua da Atalaya

Chave de esteira “Olaio”

 
fotos desta chave gentilmente cedidas por António Duarte

Na foto anterior, e à esquerda da mesma, um cartaz publicitário da “Loja do Povo”, que propriedade de Francisco de Almeida Grandella, desde 1881, seria a percursora dos “Grandes Armazens Grandella & C.ª” na Rua do Ouro, inaugurados a 10 de Julho de 1891, e cuja história pode ser lida neste blog no seguinte link: Armazéns Grandella & C.ª

                                             1896                                                                                        1926

               

1923

Em 1918, José Olaio, em sociedade com o seu filho Tomáz José Olaio, formam a firma “José Olaio & Cª (Filho), Lda.”, abrindo as oficinas de marcenaria no Bairro Alto, Lisboa. Lela da Câmara passa a desenhar para a “Casa Olaio”. Depois de, em 1927, transferir a sua cota para o seu filho Antero Augusto Olaio, José Olaio morre no ano seguinte, 1928.

Entretanto durante a década de 30 do século XX, a “Casa Olaio”, colabora nos cortejos de Lisboa, organizados por Leitão de Barros. Empresta de móveis para filmes portugueses. E em 1932, participa na Exposição do Estoril em 1932 e em Oeiras em 1936. Também a partir desta década fornece mobiliário para a encomenda pública: pousadas, hospitais, escolas, universidades, ministérios, repartições públicas, Parlamento.

Antes de fundar a fábrica, em 1939, na Bobadela em Sacavém, - com projecto de engenharia de Pedro Cavalleri Martinho - a “Casa Olaio” teve algumas marcenarias domésticas, que mantinha com trabalho de sol a sol. A empresa chegou a ter cerca de 500 trabalhadores e marca indelevelmente o design de interiores em Portugal. Esta fábrica em 1962 foi ampliada, viu renovado o equipamento fabril, melhoradas as condições de trabalho, passando a produzir em grande série.

Instalações fabris na Bobadela (Sacavém)

 

 

 

 

Na década de 40 do século XX, a “Casa Olaio” fabrica mobiliário de escritório, em madeira de carvalho ao estilo americano, mobiliário rústico e outros móveis por encomenda. Também Thomaz de Mello desenhou uma linha de mobiliário infantil para a Olaio, produzida na oficina da Cadeia Penitenciaria de Lisboa”. O decorador da “Casa Olaio”, nesta época, é Óscar Pinto Lobo. José Pedro Olaio (filho de Antero Olaio) começa a trabalhar, em 1950, na fábrica com o tio Thomaz Olaio.

 

1943

A influência dinamarquesa, produção de qualidade em série, chegou aos Móveis Olaio nos anos 60 pela mão dos proprietários, do engenheiro Herbert Brehm (director industrial da fábrica) e do designer José Espinho, produzindo móveis funcionais e utilitários, em linhas simples e claras. José Espinho entre 1951-1973 formou o gosto, as linhas, o progresso dos móveis “Olaio”.

Desenhos de José Espinho

 

 

No início dos anos 50 do século XX, na industria de mobiliário, algumas oficinas de produção artesanal e as fábricas, nas quais predominava ainda o trabalho manual, perceberam que a época era de mudança. A “Sousa Braga & Filhos, Lda”, a “Jalco, Lda.”, a “Olaio - Móveis e Decoração”, a “Jerónimo Osório de Castro” (depois “FOC’”) a “MIT”, mais tarde “Longra” e “Altamira”, foram as que mais rapidamente aderiram aos novos desafios.

Nestas empresas, a produção manual de mobiliário, em quantidades que variavam consoante o número de funcionários, onde muitas vezes se produzia a peça única por encomenda, cedeu lugar, gradualmente, à produção mecanizada onde o artífice passava por momentos a operário e a ferramenta a máquina, passando os dois processos a coexistir.

A partir da década de 50 do século XX, a “Olaio - Móveis e Decorações” fabrica mobiliário para hotéis, teatros, restaurantes e cafés. São exemplos: Grande Hotel da Figueira”, “Hotel Ritz”, “Hotel Tivoli”, “Hotel Excelsior”, “Hotel Estoril-Sol”, “Hotel Florida”, “Hotel Flamingo”, entre outros; “Cinema-Teatro Monumental”, “Teatro Micaelense”, “Cine-Teatro Eden”, “Teatro Politeama”, “Cine-Teatro Capitólio”; “Café Monumental”, “Café Império”, “Cervejaria Solmar”, “Pastelaria Mexicana”, “Casino Estoril, entre outros.

Hotel Estoril-Sol

 

                             “Hotel Tivoli”                                                                   “Grande Hotel da Figueira

 

Interior do navio-escola “Sagres”

                               Publicidade em 1956                                                                          Catálogo

 

É também nesta década que “Casa Olaio” celebra contratos de licença exclusiva para produção e comercialização em Portugal com a empresa de mobiliário sueca “Lundia” : as estantes de arrumação “Lundia” e “Lizzy”; e com a empresa dinamarquesa ”Lifa”: o sofá cama “Lico”.

Linha “Lundia”. Exposição na FIL e fabrico

          

 

A sua produção, no que respeita ao mobiliário doméstico, no entanto, e até finais da década de 50, pouco se terá afastado duma produção arquitectónica apelidada de «Português Suave».

Durante a década de 60 do século XX, a “Móveis Olaio” marca presença em variadíssimas exposições na FIL - Feira das Indústrias de Lisboa”.

Stands de exposição na FIL - Feira das Indústrias de Lisboa

 

 

 

17 de Março de 1962


gentilmente cedido por Agostinho Sobreira

A fábrica da “José Olaio & Cª (Filho), Lda.”, na Bobadela, é ampliada entre 1965 e 1966, com a construção de um novo edifício para armazéns de produtos acabados e montagem de móveis. Viu renovado o equipamento fabril, melhoradas as condições de trabalho, passando a produzir em grande série.

Visita do Presidente da República Almirante Américo Thomaz, à fábrica da “José Olaio & Cª (Filho), Lda.”, em 1966

Publicidade numa revista “Casa & Decoração” de 1969, com a loja na Praça de Alvalade, em Lisboa

Em 1987, Antero Olaio vende a empresa “Olaio - Indústria de Móveis, SARL” a Mota Marques. Em 21 de Abril de 1998 é decretada a falência desta empresa. As antigas instalações fabris, na Bobadela, são hoje o “Parque Industrial Olaio”, sede de algumas empresas que aí se instalaram.

Recentemente, em 2004, João Olaio e José Pedro Olaio, bisneto e neto do fundador, resolveram criar uma nova fábrica, de raiz, na Buligueira, na freguesia de Dois Portos, em Torres Vedras para a qual recrutaram antigos operários. João Chichorro, Francisco e André Espinho são os designers. Sua designação: “Indústria de Mobiliário José Olaio, Lda.”

Carta publicitária da nova empresa “Indústria de Mobiliário José Olaio, Lda.”

 

Os saudosistas que não esperem apenas a Olaio de antigamente. O estilo é contemporâneo e os produtos de alta qualidade, com especial destaque para as peças das áreas de restauração e escritório, apreciadas um pouco por todo o mundo. As ferragens, por exemplo, não podem ser as mesmas, até porque surgiram normas da UE que não existiam à época. Novas criações coexistem, assim, com versões actualizadas de móveis que marcam a história da empresa, caso do estirador J.E. (José Espinho).

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital de Lisboa

7 comentários:

ié-ié disse...

Excelente! Parabéns, boa informação!

Conheci Mota Marques, trabalhava na agência ANOP quando comprou a Olaio, não sei como.

Só tenho pena que não haja mais informação sobre este seu período na Olaio. Eu, por mim, não sei nada!

Parabéns!

Luís Pinheiro de Almeida

José Leite disse...

Caro Luís Pinheiro de Almeida

Muito grato pelas sua amáveis palavras.

Quanto ao período de Mota Marques, também não consegui nada.
Talvez, a exemplo de si, também ninguém saiba como ele comprou a Olaio. :-)

Cumprimentos

José Leite

Manuel Tomaz disse...

Tenho uma estante em madeira Faia, adquirida na loja Olaio, no Bairro Alto, em Lisboa, nos anos 1970. Está como nova, pois o fabrico e a qualidade da madeira são de muito boa qualidade.
Os meus cumprimentos,
Manuel Tomaz

Julio Amorim disse...

Em termos de qualidade (execução e materiais) bate-se com os melhores móveis dinamarqueses das décadas de 50-60.

FERNANDO JORGE CORREIA disse...

TRABALHEI COMO DESENHADOR, NO PERIODO DE 1959 A 1962,NA SALA DE DESENHO (RUA DA ATALAIA), FOI A MELHOR "CADEIRA DE APRENDIZAGEM" QUE TIVE O PREVILÉGIO DE FREQUENTAR EM COMPLEMENTO DO CURSO INDUSTRIAL QUE FREQUENTAVA À NOITE (ESC. IND, MACAHADO DE CASTRO.
TODO O MOBILIÁRIO ERA DESENHADO EM TAMANHO NATURAL,DETALAHADO EM TERMOS CONSTRUTIVOS.

FERNANDO GONÇALVES, CHEFE DA SALA, FOI O MEU "MESTRE" NA ARTE DO DESENHO DE MOBILIARIO. OS DIÁLOGOS COM JOSÉ ESPINHO, BEM COMO ASSISTIR À SUA CAPACIDADE DE PRESPECTIVAR, FORAM O MELHOR CURSO FORMATIVO QUE AFORTUNADAMENTE PUDE FREQUENTAR

FERNANDO JORGE CORREIA

Anónimo disse...

Olá a todos, gostaria de saber onde posso adquirir mobiliário Olaio.
Deixo o meu contacto para quem possa ajudar.

Obrigado, Eduardo 966632699

Conceição Serôdio disse...

O Museu de Cerâmica de Sacavém tem patente ao público uma exposição sobre os Móveis Olaio de Maio de 2015 a Dezembro de 2016, convido-vos a visitar.
Muitas das fotografias aqui apresentadas são do espólio de José Pedro Olaio e encontram-se no Museu de Cerâmica de Sacavém,bem como foram utilizadas na exposição, na brochura, nos muitos posts apresentados no meu facebook e ainda este ano num catálogo da exposição.
Deixo mais informação produzida no âmbito da exposição da Câmara Municipal de Loures:
Venho convidá-los a ver o próximo episódio DESIGN PT - quinta-feira na RTP2 (23h) - em destaque os Móveis Olaio.
Este mês de Maio em Olaio em destaque temos duas peças Olaio de José Espinho.
Também a conversa Olaio será sobre José Espinho por Graça Pedroso a 28 de Maio.
Notícia das Conversas Olaio:
http://www.cm-loures.pt/Pesquisa.aspx?DisplayId=1&Pesquisa=Olaio
Artigos sobre exposição Olaio na imprensa
Acompanhamento dos jornalistas e disponibilização de informação e imagens.
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/moveis-de-apelido-olaio-1696271
http://expresso.sapo.pt/sociedade/2015-12-06-Um-marceneiro-jeitoso-uma-cadeira-de-pinho-a-nossa-Ikea--mas-com-mobiliario-que-dura-a-vida-toda-
http://observador.pt/2015/11/22/olaio-a-marca-que-mobilou-o-pais/
http://visao.sapo.pt/actualidade/visaose7e/ver/2015-11-10-Passado-presente
http://www.dn.pt/artes/interior/uma-nova-vida-para-os-moveis-olaio-4865564.html
Reportagem na RTP1 – Portugal em direto – jan2016
Reportagem na RTP2 – Design.pt – 19/maio/2016
Reportagem na Sporting TV – 16/maio/2016
Cordialmente,
Conceição Serôdio
Bibliotecária
Câmara Municipal de Loures
Divisão de Cultura
Museu de Cerâmica de Sacavém
Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso
Telefone 211151090 | Extensão 401019
E-mail conceicao_serodio@cm-loures.pt
Base Bibliográfica:
http://app.cm-loures.pt/centrosdoc/wordsearch.aspx
Câmara Municipal de Loures
Museu de Cerâmica de Sacavém
Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso
Rua Álvaro Pedro Gomes
Urbanização Real Forte
2685 – 145 Sacavém - Loures – Portugal
E-mail: museu_ceramica@cm-loures.pt
http://www.cm-loures.pt
http://www.cm-loures.pt/Ligacao.aspx?DisplayId=109#topo