Restos de Colecção: Teatros de Lisboa
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1 de março de 2019

“Sanzala” e “Frou-Frou”

O Restaurante e Boite “Sanzala” que esteve localizada no Campo Grande, em Lisboa, bem junto à “Churrasqueira do Campo Grande”, e propriedade da dupla musical “Duo Ouro Negro”, abriu as suas portas em Julho de 1965.

“Sanzala” aquando da sua abertura

 

Terreno onde viria a ser contruída a “Sanzala”

 

Recordo que o termo “Sanzala” era utilizado, nas antigas colónias como sendo um grupo de pequenas casas de pau a pique e capim (vulgo “cubatas”), nas quais habitavam indígenas com as suas famílias.

                          13 de Julho de 1965                                                               5 de Fevereiro de 1966

                          

1 de Fevereiro de 1966

            1966 Sanzala (01-02)

                                        26 de Fevereiro de 1968                                                        27 de Fevereiro de 1968

                               

O edifício principal e seus anexos deste restaurante-boite tentavam recriar o ambiente duma “sanzala”, com o seu interior forrado a madeira. No exterior a sua esplanada era composta de mesas cobertas com “chapéus” de sol em colmo. Este «restaurante típico» funcionava entre a 20 horas e as 3h e 30m da madrugada.

Exteriores da “Sanzala”

 

Almoço de confraternização do “Quinteto Académico”, na “Sanzala”

Na foto anterior em primeiro plano, de costas, e da direita para a esquerda: Mário Assis Ferreira, Fernando Mendes, Alexandre Barreto, Daniel Gouveia, uma cançonetista efémera não identificada, um desconhecido. De frente, da direita para a esquerda: José Manuel Fonseca, Carlos Carvalho (que substituiu o Mário Assis), um desconhecido, Vicente da Câmara, Madalena Iglésias, e um locutor de rádio não identificado.

                            30 de Dezembro de 1970                                                          8 de Dezembro de 1972

1970 Sanzala (30-12) 1972 Pub (08-12)

Em 1973 a “Sanzala” encerra definitivamente e é adquirida pelo empresário do mundo do espectáculo Sérgio de Azevedo (1936-2006), que em 1975 abre, no seu lugar, um novo tipo de casa de espectáculo o Café-Concerto “Frou Frou”. Idealizada pelo seu proprietário, chegou a ser considerado a melhor sala nocturna da Península Ibérica.

               Actor Luís de Mascarenhas e Sérgio de Azevedo                                                      Programa

                  

Bilhete para 21 de Dezembro de 1977


Bilhete gentilmente cedido por Carlos Caria

Do artigo da autoria de Vital d’Assunção, no Jornal Expresso, intitulado “E se o fado e o striptease se misturassem em palco?”, retirei a seguinte passagem que ilustra o ambiente do “Frou Frou” :
«1974. Eu, o guitarrista Arménio de Melo e a fadista Beatriz da Conceição estávamos a atuar na "Taverna do Embuçado", quando o empresário Sérgio de Azevedo - que era um homem ousado para  época - nos fez um convite: Durante quinze dias, teríamos um show de fado na sua recém-aberta casa de espetáculos, ali para os lados do Campo Grande, de nome "Frou-Frou".
Aceitámos o convite e lá fomos. Para os anos 70, o "Frou-Frou" era uma casa modernaça, com um palco elevatório e espetáculos para todos os gostos. Antes do fado, havia, nada mais, nada menos, do que striptease. Lembro-me de a artista austríaca entrar em palco através de uma língua gigante, que pendia numa boca que fazia parte do cenário. Do outro lado do palco havia um pénis com dois metros de altura, que servia de varão para a dança sensual.»

Festa de homenagem à actriz Ivone Silva promovida por Sérgio de Azevedo no “Frou Frou”

No “Frou Frou” foram feitas as gravações do programa para a RTP, “Nicolau no País das Maravilhas”, em 1975 e que ficou celebrizado pelos sketches musicais “Sr. Feliz e Sr. Contente”, interpretados por Nicolau Breyner e Herman José. Com música de Thilo Krassman e letra de César de Oliveira e Rogério Bracinha, a dupla encantava com o seu «diga à gente, diga à gente, como vai este país !?». Deste célebre duo foi editado em single cuja capa e verso publico de seguida.

 

O Café-Concerto “Frou Frou” teria uma existência curta e encerraria em 1978. Anos mais tarde daria lugar ao Bingo do “Sporting Clube de Portugal”, entretanto demolido aquando da construção da Estação do “Metro” do Campo Grande.

fotos in: Arquivo Municipal de LisboaHemeroteca Municipal de Lisboa, IÉ-IÉ, Palco Um

3 de julho de 2018

Teatro Joaquim de Almeida

O "Teatro Joaquim de Almeida", localizado na esquina da Rua de São Bento com a Rua do Sol ao Rato, à Praça do Brazil (actual Largo do Rato), em Lisboa, foi inaugurado em 6 de Maio de 1925, e resultado de uma ideia dos actores de teatro, e amigos, Casimiro Tristão e Francisco Judicibus, que foram os seus promotores.

«Não seria um teatro de grande lotação, e o palco nunca poderia ser vasto, dada a exiguidade do terreno. Era preciso apenas escolher o nome para o novo teatro. Propuseram-se recordar o velho Teatro do Rato, que fora inaugurado, com pouca sorte, em 1880. Então, alguém alvitrou que o novo teatro se chamasse Joaquim de Almeida, em homenagem à memória do ilustre actor português que representara em quase todos os teatros de Lisboa e em todos os géneros.». Para a sua inauguração foi escolhida a peça de Júlio Dantas "A Severa", protagonizada pela grande actriz Palmira Bastos, que morava bem perto, a meio da Rua Braamcamp. Acerca da história ilustrada do “Teatro do Rato, consultar neste blog o seguinte link: Teatro do Rato

Joaquim d’Almeida (1838-1921)

Joaquim d’Almeida á porta do teatro “Theatro Etoile”, em 1910

Nota: Acerca da história ilustrada do “Theatro Etoile”, consultar neste blog o seguinte link: Casino e Theatro Etoile 

Referência a Joaquim d’Almeida no “Diccionario do Theatro Portuguez” de Sousa Bastos e artigo acerca da estreia do actor no, ainda, teatro “Chalet do Rato” em 1888

 

 

Quanto às suas instalações, a crítica do jornal “A Capital” era favorável …

«As instalações são construídas em madeira e tijolo, sendo desmontáveis em grande parte; todavia, essa operação não seria para tentar, em virtude da despeza a fazer com fundamentos novos. A plateia deve comportar uns 300 logares e junto ao palco há 4 frizas. Em volta, a sala é circundada por uma 1ª ordem de camarotes, ficando para a parte posterior uma galeria extensa.
Apesar de se tratar de um teatro de sala acanhada, as cadeiras estão suficientemente afastadas umas das outras, para não deixarem os espectadores incomodados, como sucede em alguns teatros, que não merecem ao serviço de incêndios o devido cuidado de observação. A sala bem iluminada apresenta uma decoração alegre e fina. Os camarotes são separados dos corredores, por meio de reposteiros azues, que estão suspensos nas arcadas. Pena é que as grades dos camarotes sejam tão largas e por isso a empreza terá de proceder a uma obra inadiavel de cobrir interiormente as grades de forma a que as senhoras se possam sentar despreocupadamente, sem terem de fazer uma exposição de pernas.
O pano de boca é alegre, mas o auctor não foi feliz na sua concepção. Não se percebe mesmo qual foi a sua ideia. Parece que um redemoinho ensarilhou tudo quanto estava no palco e foi arrumar as diversas partes ao acaso, projectando-as confusamente. Para futuristas é possível que aquilo seja uma obra prima. Um medalhão do homenageado figura na sala.
A empreza aproveitou o melhor que poude o espaço que dispoz e soube manifestar bom gosto e criar conforto. Posteriormente à plateia encontra-se o bufete.
O teatro encontrava-se profusamente iluminado por fóra, chamando a atenção das pessoas que passavam na Praça do Brazil. Uma multidão compacta acumulava-se em frente da entrada uns esperando ainda conseguir obter bilhete e outros por simples curiosidade. Mas a lotação estava completa e apenas se entregavam os bilhetes de imprensa, procedendo a empreza, como a do teatro Apolo, que nos dias de 1ª representações tem a gentileza de não receber dos criticos teatrais a importancia do selo.»

Localização (dentro do círculo desenhado) do “Teatro Joaquim de Almeida” na Praça do Brazil

             

Quanto à exibição da peça de Júlio Dantas "A Severa" o mesmo jornal escrevia:

«Como todos sabem os papeis da peça "A Severa" são sempre ingratos, para quem os tenta fazer de novo, porque teem de atingir metas e dificeis de transpor. Todavia a companhia do Teatro Joaquim d'Almeida portou-se com brio e revela uma honestidade apreciavel na maneira como trabalhou para obter um exito compensadôr.
(...) O quarteto tocou nos intervalos com afinação, mas com pouco gosto na escolha do reportorio. Falta de animação. Os scenarios cuidados.»

Crítica na revista “Diario Ilustrado” em 9 de Agosto de 1925

22 de Junho de 1927

A vocação teatral, em exclusivo, para que tinha sido criado esta sala de teatro não durou muito tempo, e a  partir de 11 de Janeiro de 1926 o “Teatro Joaquim de Almeida” acumula com a função de animatógrafo, passando a designar-se “Teatro-Cinema Joaquim de Almeida”. A última referência publicitária seria na sua função inicial de teatro, em 20 de Fevereiro de 1928, com a exibição de 2 peças em 2 sessões diferentes, como cartaz publicado a seguir. Após o que seria demolido, para dar lugar ao início da, nova, Avenida Álvares Cabral, ligando o Largo do Rato ao Largo da Estrela.

                                9 de Janeiro de 1926                                                                20 de Fevereiro de 1928

       

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Blog “Lisboa”

7 de junho de 2018

Theatro de Thalia ou das Laranjeiras

O “Theatro de Thalia” ou “Theatro das Laranjeiras”, inserido no “Palácio das Laranjeiras”, propriedade de Joaquim Pedro Quintella do Farrobo, 1º Conde de Farrobo desde 1802, teve a sua primeira representação em 1825. Com capacidade para 560 lugares, a sua construção tinha sido iniciada em 1820, com projecto do arquitecto Fortunato Lodi. As artes de estucador ficaram a cargo do italiano Félix Salla e João Paulo da Silva, e as pinturas interiores da responsabilidade de António Manuel da Fonseca. Esta seria a primeira versão deste Teatro.

Entre 1841 e 1843, seria refeito e remodelado pelo mesmo arquitecto, passando a oferecer luxuosos camarins e um salão de baile, com paredes revestidas de espelhos de Veneza, vindo a ser inaugurado em 26 de Fevereiro de 1843, com um espetáculo a que assistiu a Rainha D. Maria II.

Gravura de 1844

«Joaquim Pedro Quintella do Farrobo, 1º conde de Farrobo por decreto da regencia do duque de Bragança, em 1833 2º barão de Quintella, par do reino, 2.° senhor da villa do Préstimo, 2.° alcaide-mór da villa da Sortelha, grã-cruz da ordem da Conceição e commendador da de Christo, Inspector geral dos theatros e espectáculos públicos, coronel de cavallaria nacional de Lisboa, abastado proprietário e capitalista, nasceu em Lisboa a 11 de dezembro de 1801.

O Conde de Farrobo foi o fidalgo mais opulento e cavalheiresco que Portugal tem possuido. Foi tambem um protector das bellas artes e um dedicado amigo dos artistas. Ainda até á morte os seus mais estimados convivas foram os notaveis actores Taborda e Izidoro. Foi emprezario do theatro da Rua dos Condes, dando-lhe todo o brilho e esplendor compativel com a epocha. Foi o mais bizarro e enthusiasta emprezario que o theatro de S. Carlos jámais tem tido.
Mandou construir na sua maravilhosa quinta das Laranjeiras o mais bello e confortavel theatro de Portugal, em que dava os mais extraordinarios e luxuosos espectaculos com distinctos amadores da alta sociedade e com os mais afamados artistas da epocha, que mandava vir do estrangeiro.
O Conde de Farrobo tinha enorme paixão pela muzica. Tocava perfeitamente violoncello e contrabaixo e er a eximio em trompa. Tinha sempre em casa uma banda de musica, formada pelos seus criados, aos quaes mandava ensinar qualquer instrumento, para o que tinha um mestre contractado.» in “Diccionario do Theatro Portuguez”
de Souza Bastos.

Joaquim Pedro Quintella de Farrobo (1801-1869)

    

Para ilustrar grande parte deste artigo, vou transcrever excertos do XIV capítulo do livro “Lisboa d’Outros Tempos - I Figuras e Scenas Antigas”, de Pinto de Carvalho (Tinop), editado pela Livraria de António Maria Pereira, em 1898,  intitulado “As Festas do Farrobo”.

“Palácio Barão de Quintella” na Rua do Alecrim, em Lisboa, residência permanente de Joaquim Pedro Quintella

«O theatro Farrobo começára em 1820 n’um palco improvisado no palacio das Laranjeiras, no qual,. de 1825 a 1827, se cantou opera. Em 1833 recomeçavam as recitas nas Laranjeiras. Depois de 1820 lançaram-se os fundamentos d’um theatro, que foi reedificado em 1843, por occasião da grande festa offerecida á rainha D. Maria II, e que veiu ainda a soffrer bastantes alterações. Theatro e palacio foram illuminados a gaz em 1830, vinte annos antes de Lisboa o ser por esse meio.

Palácio das Laranjeiras

Garrett ensaiou muitas vezes, mas, ultimamente, o ensaiador habitual era o grande actor Izidoro, que, por vezes, tomou parte no desempenho, e que o Farrobo convidara para aquelle cargo, propenso, como sempre foi, a proteger a arte e os artistas. Os scenographos eram : o professor Fonseca, o Rambois, e o Cinatli, que viera para aqui em 1836, escripturado para S. Carlos, pela empreza d’Antonio Lodi. Cinatti casou em 1837 com Maria Rivolta, d’uma familia milaneza residente em Lisboa, e associou-se a Rambois, que, desde 1834, se encontrava entre nós. Cinatti e Rambois constituiram uma firma artistica, cujos magistraes productos scenicos foram admirados por tres gerações nos palcos de S. Carlos e de D. Maria. A collaboração desses dois artistas produziu, durante quarenta e dois annos, mais de seiscentos scenarios. Alguns notabilisaram-se.

Duas peças escritas por Almeida Garrett, para o “Theatro de Thalia”, retiradas do livro “Obras Completas de Almeida Garrett” de H. Antunes, publicado em 1908

 

Que esplendorosas festas se deram na quinta das Laranjeiras, por elegantes noites de inverno, nas quaes - ao mesmo tempo que as serpenteantes caudas casquinavam risadas de seda nos passos elásticos das quadrilhas - a orchestra da sala misturava suas sonoridades às notas doloridas arrancadas por Eolo ás harpas do arvoredo . . . Que representações tão distinctas, que bailes tão deslumbrantes, então que se manifestava um como movimento regressivo ás suggestivas décollettages do Trianon e do Directorio, aos sumptuosos decotes que proclamavam galantemente a liberdade dos seios, pondo a nú túrgidas carnações de selim alambreado, estrelladas de brilhantes e camapheus, listradas pelos rocaes de pérolas, cylindrados hombros d’uma brancura lunar, a claridade magnética d’espaduas riscadas em triângulo pelo hialus dos corpetes . . E, enquanto a ampla e magnífica luz dos lustres fazia scintiilar as pedrarias, que fustigavam os olhos como um granizo de fogo, o jubilo perlava de sons argentinos as frescas boccas femininas, como uma mesma corrente pondo em vibração muitas campainhas eleclricas.

Um jornal descreveu assim o aspecto das salas: «As innumeraveis luzes de gaz que illuminavam esses salões, as ricas toilettes, e as magnificas pedrarias de que ellas faziam valer todo o brilho; os uniformes, as insignias das ordens, e os trajes da côrte, de que os mais eminentes personagens, tanto portuguezes como estrangeiros, se tinham revestido; os espelhos gigantescos nas molduras douradas, que enchiam os muros multiplicando os objectos; os florões do tecto, tão delicadamente desenhados e d’uma douradura admiravel, d’onde pendiam tres soberbos lustres; os ornamentos, os vasos de flôres, e a galeria circular, que, pela altura da sua cornija, parecia coroar todas estas maravilhas; essa reunião d'objectos seductores dava logar ás mais deliciosas sensações, e admirava>se, ao mesmo tempo, que esse palacio de Armida estivesse cheio dos gosos mais reaes e mais palpaveis.

 

O theatro fôra renovado sob o risco de Fortunato Lodi, que lhe fez duas galerias, podendo assim comportar seiscentos espectadores, e que o tornou bonito e pimpant como uma toilette de baile do século XVIII. O pintor Fonseca encarregara-se de pintar as figuras da sala de baile e do theatro; Rambois e Ginalti pintaram as decorações da peça com um brilhantismo, que fazia reviver as riquezas dos paços dos antigos reis castelhanos; os dourados das cornijas e das molduras dos espelhos foram restaurados, em menos de dois mezes, pelo Margotteau e seis aprendizes. A despeza total montou a sessenta contos de réis. Era assim a bizarria do homem, que acabava de deixar a sua empreza de S. Carlos com perda de quarenta contos de réis, e sem que nunca tivesse manifestado uma só d’aquellas hesitações, que levavam um autocrata russo a dizer á Malibran, que lhe pedira sessenta mil francos para cantar:  Os meus marechaes ganham apenas trinta mil. Ao que também a espirituosa prima-donna replicara : Sire, faça os cantar!»

«A 9 de setembro de 1862 jantava o conde de Farrobo descançadamente na sua esplendida propriedade campesina quando um dos creados lhe apresenta n'uma salva de prata um telegramma, e diz:
- Acabam de entregar isto para V. Ex.ª
Joaquim Pedro pega no papel, abre-o, lê, dcbra-o com a máxima serenidade, mette-o na algibeira e prosegue na refeição sem que a physionomia tranquilla e attrahente revelasse qualquer commoção. Ao terminar o jantar, depois de tomar o café e de ter accendido o charuto, com o ar mais natural do mundo, virou-se para a esposa e participou-lhe:
- Ardeu o theatro das Laranjeiras.
- Ardeu o theatro das Laranjeiras ? ! - repetiu D. Marianna
Lodi não podendo acreditar na veracidade de tão infausta noticia.
- Os operários que andavam alli trabalhando, por qualquer descuido, ponta de cigarro ou lume accêso para necessidade inadiável pegaram fogo. . . (1)
(1) Originou o incêndio o descuido de uno operário que soldava uma clarabóia.
- Não se conseguiu salvar nada?
- Nada. Perdeu-se tudo, o scenario e o guarda-roupa.
- Tão importante o primeiro, tão rico o segundo !...
- Tudo se ha de recompor.
De regresso a Lisboa, o conde ordenou que começassem os trabalhos de reparação. As festas continuavam, no entanto, como em plena prosperidade.As offerecidas a 8 e 9 de agosto eccoaram por todo o reino com a mesma retumbante repercussão de pródiga magnificência. Na quinta hospedaram-se mais de cem pessoas, incluindo vinte senhoras. Durante esses dois dias nenhum soberano da Europa receberia com mais bizarra dissipação. Em ambos se correram veados na tapada attinente á soberba vivenda.» in: “Estroinas e Estoinices - Ruina e Morte do Conde de Farrobo”
de Eduardo de Noronha (1922).

Notícia no jornal “A Nação” de 10 de Setembro de 1862

Alusão ao mesmo incêndio na revista “Serões” em 1907

«Foi na quinta das Laranjeiras que se fez, em 7 d’abril de 1867, a experiencia da nova espingarda de precisão apresentada por mr. Benet. Congregaram-se varias damas e cavalheiros. Á noite passaram a uma das salas, elegante e fina como uma moderna boite a bonbons de Pihan ou de Boissier, dançaram contradanças, fizeram charadas figuradas, jogaram o whist. Foi a derradeira festa, foi o canto do cysne. Gomo na Escriptura - tudo estava consummado !
Dois e meio mezes depois - ás 7 horas da tarde de 23 de Julho de I867 - o conde de Farrobo lançava o aelernum vale a sua mulher, a condessa D. Marianna Carlota Lodi, que morria victima d’ uma angina pectoris.
As Laranjeiras fecharam, cerrou-se o templo das artes. E o seu novo proprietário (Jose Pereira Soares) mandou arrancar o lemma que ornava o portão de ferro: «Olia Tuta.,». Onde gorgeava o idyllio, suspirou depois a elegia. As musas fugiram espavoridas, soffraldando as túnicas. E se alguma ainda vagueia perdida nos recessos umbrosos das Laranjeiras, é, decerto, a musa craintive de Millevoye. E o homem que vivera, até certo tempo, n’um mundo de crystal e oiro banhado de rosea luz, mergulhava por fim na caligem da morte, levando comsigo os últimos echos da velha elegancia lisbonense. O conde de Farrobo morria ás 6 e meia da tarde de 24 de Setembro de 1869, exactamente no dia, e poucas horas depois, d’aquelle em que, havia 36 annos se finara em Queluz o seu amigo, o duque de Bragança ao qual abrira a bolsa para manter as tropas liberaes. E morria na sala Chineza do seu palacio da rua do Alecrim, n’essa mesma sala em que recebera e banqueteara os ministros do rei-soldado. Quem dispendêra dinheiro, com uma largueza epica, e vivera uma vida de poema, nem sequer acabava na dourada mediania tão querida do poeta.
»

Quanto ao “Palácio das Laranjeiras”, no último quartel do século XIX o palácio, cujo brilho iluminara a época e deslumbrara os contemporâneos, foi a leilão. A morte poupou, no entanto ao Conde de Farrobo aquela afronta. Adquiriu-a então, em 1874, um fidalgo espanhol, duque de Abrantes e Liñares, que o mandou novamente restaurar. Mas a 11 de Abril de 1877 foi comprado pelo comendador José Pereira Soares, que adquiriu também as Quintas contíguas das Águas Boas e dos Barbacenas.

Em 1903, foi a vez do Conde de Burnay comprar o conjunto das quintas e do palácio cedendo, em 1904, os jardins da primitiva “Quinta das Laranjeiras e Águas Boas” ao “Jardim Zoológico e d’Acclimação de Lisboa” - inaugurado em 28 de Maio de 1905 - que, até então, ocupava um local no “Parque da Palhavã”. Os restantes espaços ficaram na posse da sua família até 1940, ano em que, para efeito de partilhas se procedeu à venda dos mesmos, tendo o palácio das Laranjeiras sido adquirido pelo Ministério das Colónias, para aí instalar o museu da Marinha. Desde então vários ministérios tiveram sede nas Laranjeiras sendo que, desde Abril de 2002, com a tomada de posse do XV Governo Constitucional, se instalou o Ministério da Ciência e do Ensino Superior, mais tarde Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Artigo na revista “Illustração Portugueza” em 1928

Depois de abandonado durante décadas, o “Teatro Thalia” ou “Teatro das Laranjeiras”, e classificado de interesse público pelo IGESPAR, desde 21 de Dezembro de 1974, seria finalmente recuperado o seu exterior e o seu interior, em 2010, mas sem a opulência de tempos idos como é natural.

Do antigo teatro ainda existem referências visíveis à beleza do essencial e sólido nessa construção: os volumes do Foyer, Plateia e Cena. Presentemente destina-se a ser usufruído para fins científicos e culturais quer pelos organismos do próprio Ministério da Educação e Ciência, quer pela comunidade em geral. A requalificação do antigo “Teatro Thalia”, uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, teve projecto de arquitectura de “Gonçalo Byrne Arquitectos, Lda.” e “Patrícia Barbas e Diogo Lopes Arquitetos, Lda.”.

 

 

«O Teatro Tália apresenta dois pisos, mais um sobre a cimalha; a fachada de sete vãos apresenta 4 colunas de ordem dórica sobre as quais assenta um frontão triangular de tímpano liso, sobre o qual e estátua de Érato; sobre os acrotérios duas urnas; no prolongamento das colunas, e sobre plintos que avançam do peristilo, quatro esculturas, em pedra, representando esfinges deitadas e apoiadas sobre as patas; a fachada E. apresenta corpo simples com oito vãos simples simétricos distribuidos por dois níveis e porta central.
Interior: encontra totalmente esvaziado (todos os elementos de arquitectura e decoração do revestimento desapareceram) apenas existindo, de pé o grande arco em alvenaria que separa o palco da plateia. ANEXOS: a S., no seguimento da fachada lateral, existem as antigas cavalariças e casas dos cocheiros constituídos por edificações de dois pisos seguidas de terreiro irregular que confina com os jardins. A N. no seguimento do Teatro Tália e anexo a este, habitação de dois pisos (antigos camarins do teatro); mais a N. e, acompanhando o muro, passando o lago junto à escadaria monumental, outro grupo de habitações antigas, com poço e pequeno pavilhão.»
in “SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico”.

 

 

  

Bibliografia:
- “Lisboa d’Outros Tempos - I Figuras e Scenas Antigas”, de Pinto de Carvalho (Tinop), editado pela Livraria de António Maria Pereira, em 1898.
- “Diccionario do Theatro Portuguez” de Sousa Bastos (1908)
- SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Archive.org