Restos de Colecção: Teatros de Lisboa
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9 de junho de 2024

Teatros de Fantoches - "Mechanico", "Pairet", "Andronic", ...

No século XVIII, o fantoche era muito popular. O seu principal representante foi o poeta e dramaturgo António José da Silva (1705-1739), chamado "O Judeu" (1705-1739), que foi garroteado e queimado na fogueira num auto-de-fé da Inquisição, em Lisboa, em 19 de outubro de 1739. As suas óperas moral e icozas  para marionetas podem ser consideradas como o embrião da ópera buffa , tanto pelo seu repertório, como pelas suas características musicais e literárias. Estão entre os conjuntos de textos para marionetas mais preciosos e originais da história do teatro europeu. Porém, absolutamente nada resta dos bonecos, nem desenhos nem descrições. Terão sido marionetes cujos corpos provavelmente foram esculpidos em madeira ou cortiça.


Bonecreiro ambulante com o seu teatro portátil

Já no século XIX, foi inaugurado em 1815, no Bairro Alto o "Theatro Pinturesco e Mechanico", ou “Theatro do Bairro-Alto”, também chamado “Theatro do Pateo do Patriarca” ou “Theatro de S. Roque”, sito no Largo de S. Roque, (actual Largo da Misericórdia) em Lisboa, onde fora o Palácio de Niza. Os espectáculos pretendiam retomar a tradição das marionetas do Bairro Alto. Roberto Xavier de Mattos, empresário, mandou desenhar e equipar uma pequena companhia de fantoches manobrados sob o tablado. Por se chamar Roberto, ficaram os bonecos a chamar-se também “robertos”, e o espectáculo de “Teatro Dom Roberto”, nome pelo qual ainda hoje é conhecido.


Onde funcionou o "Theatro do Bairro Alto"


1824



Dois desenhos de teatros de fantoches noutros países. Mas a essência era sempre igual

"Bonecos", "Fantoches", "Bonifrates", "Androidos", "Marionettes", "Dom Robertos", ... Quanto à origem da designação de "Teatro Dom Roberto", e segundo José Manuel Valbom Gil, existem 2 teorias:

«A primeira, defendida inicialmente por Henrique Delegado é que este nome tem a sua origem numa comédia de cordel que foi muito importante no reportório do teatro de marionetas europeu do século XVIII: Roberto e o Diabo, e que narra a vida do Duque de Normandia de seu nome Dom Roberto, conhecido por Roberto do Diabo por ter vendido a alma ao diabo.


A outra hipótese é que, no início do séc. XIX, devido ao grande sucesso do empresário de teatro de bonecos, Roberto Xavier, o seu nome tenha sido associado às marionetas pelo povo que assim lhes começou a chamar “Robertos”.


No livro "Feiras e divertimentos populares de Lisboa" de Mário Costa (1950), pode-se ler:

«Em Janeiro de 1813, D. Simon Sadines, um refugiado de Espanha, trouxe para Portugal e armou no Pátio do Patriarca, nas proximidades da igreja de S. Roque (…) antes de ali ter funcionado o terceiro ‘Teatro do Bairro Alto’ ou ‘Teatro de S. Roque’ (…).
O empresário do teatro era um tal Roberto Xavier de Matos, e, segundo a opinião do brilhante escritor Gustavo de Matos Sequeira, foi de então para cá que aos fantoches se começou a chamar “Robertos”». 


Gravura de Achille Pinelli

Ainda segundo José Manuel Valbom Gil ... « O documento mais antigo que descobri sobre essa hipótese, data de 1863. Todavia, a segunda hipótese data de 1813, ou seja 50 anos antes, o que me leva a concluir que ambas as hipóteses estão corretas, devido à proximidade dos acontecimentos. Terá sido a junção de ambas que popularizou o nome por todo o território.» (*)

«Bonecos - Chama-se theatro de bonecos aos que apresentam fantoches trabalhando por cordeis, ao mesmo tempo que fallam de dentro algumas pessoas, fingindo que são elles.
Fantoches - Nome que os francezes dão aos fantoccini italianos e que nós adopta mos para designar os títeres ou bonecos que representam nos theatros de feira e em outros, movidos por cordéis. Os fantoches são maiores do que  propriamente os bonecos, havendoos até de tamanho natural.
Bonifrates - Era o nome que n'outro tempo se dava aos bonecos dos theatrinhos e que hoje também se chamam fantoches ou marionettes



"Theatro do Manecas" da autoria de Stuart Carvalhais - Fantoches Quim e Manecas


1910


No "Parque Mayer" em 1929


"PIM-PAM-PUM" em foto de 10 de Abril de 1934

... A origem d'estes espectáculos de bonecos remonta á maior antiguidade. Crê-se que foram os chinezes os primeiros a admittil-os; também ha vestígios de taes espectáculos entre os egypcios e chegaram a grande perfeição na Grécia e em Roma.
Ha séculos que os theatrinhos de bonifrates ou marionnettes são popularissimos e o encanto das creanças em toda a Europa. Assim accontece também em Portugal, onde taes espectaculos foram sempre muito apreciados. No theatro do Bairro Alto as celebres operetas do Judeu foram representadas por bonecos. Ainda hoje nas nossas feiras ha grande predilecção pelos theatrinhos de fantoches, que outra coisa não são mais do que marionnettes, bonifrates, titeres
ou bonecos.» (**)

O "Theatro Mechanico" foi inaugurado em 22 de Novembro de 1857 , na Rua Oriental do Passeio Público, esquina com o Largo da Anunciada, em Lisboa. Veio ocupar o espaço do "Circo de Madrid", que ali tinha funcionado entre 16 de Janeiro de 1845 e 27 de Novembro de 1852, conforme história que poderá consultar neste blog, no seguinte link: "Circo de Madrid".


22 de Novembro de 1857


5 de Dezembro de 1857

«Agradou immensamente, fazendo os emprezarios, que eram italianos, grandes interesses. O scenario e machinismo eram explendidos. Os preços estabelecidos eram: cadeiras numeradas. 500 réis; segunda plateia, 300 réis; terceira plateia, 140 réis. Funccionou por muito tempo. O theatro, propriedade dos emprezarios, era construído de madeira e armava e desarmava com a maior facilidade.» (**)

O jornal "Revolução de Setembro", de 25 de Novembro de 1857, noticiava a sessão da véspera, com um artigo assinado por Julio Cesar Machado:

«... Todavia a grande novidade da semana foi a abertura do theatro mechanico. Realmente é digno de vêr-se um divertimento como este tão completamente novo para Lisboa.
(...) Logo no primeiro quadro, que figura as margens do Rheno ao romper da aurora ha dois cysnes que vão banhar-se, que pela exactidão de movimentos chegariam a illudir, se não, fossem tão pequeninos, a ponto de toda a gente os julgar cysnes verdadeiros e vicos! No quadro da Hollanda, que só póde ser apreciado por quem conhecer o paiz, ha uma infinidade de authomatos encarregados de diversos papeis, a qual delles mais digno de applauso; o ferreiro, o velho empoado pelo gaiato, e os que correm no gêlo, são sobretudo os que maior effeito produzem. Porém, o que mais tem agradado e com justiça é o magnifico quadro da Tempestade, onde o vento e a trovoada são de tal forma imitados que por assim dizer entristecem e amedrontam. O authomato que joga no arame, e os quadros dissolventes terminam o primeiro espectaculo que deu o theatro mechanico, que tem tido uma affluencia constante desde que abriu.
Em todas as recitas tem concorrido damas a desfructar os espectaculo, nos primeiros logares, por que não ha camarotes. Permitta Deus que com este exemplo, as senhoras portuguesas percam mais o receio que teem de assistir a um espectaculo sentadas n'uma cadeira da superior. Os chefes de familia lucrariam se a moda se introduzisse. Para um homem e uma senhora, que necessidade ha de um camarote ?! Para que hão de as senhoras portuguezas marcar como excepção o que em todos os paizes passa como boa regra? (...)»


10 de Abril de 1858


14 de Abril de 1858

Relativamente ao fim do "Theatro Mechanico", terá ocorrido certamente no ano de 1858. Quanto à data do último espectáculo antes do seu encerramento definitivo coloco duas hipóteses: encerrou em 15 de Abril de 1858, conforme anúncio seguinte; ou encerrou na cidade do Porto aquando da sua deslocação (?) que ocorreu entre 5 de Julho de 1858 e 24 de Agosto de 1858, e da qual publico a respectiva publicidade. Isto considerando que se tratava do mesmo "Theatro Mechanico". Inclino-me para esta 2ª hipótese, ou seja este teatro terá encerrado definitivamente em 24 de Agosto de 1858, já na cidade do Porto.


5 de Julho de 1858


15 de Julho de 1858


24 de Agosto de 1858

Com os fantoches vieram os primeiros teatros para crianças. O primeiro foi o "Bijou Infantil", inaugurado em Julho de 1891, por José Rodrigues Chaves, na Patriarchal (actual Rua D. Pedro V), 89 e 91, em Lisboa.

«... Quando esta tentativa parecia querer vingar, um incêndio, na noite de 1 de abril de 1893 destruiu por completo o theatrinho, ardendo egualmente os fantoches Androidos, o gabinete e apparelhos de prestidigitação, os autómatos de ventriloquia, instrumentos excêntricos, ferramenta de relojoaria, scenario, guarda roupa e adereços do theatro, finalmente tudo quanto constituía o ganha-pão do tão habilidoso quanto infeliz actor Chaves.
A segunda tentativa n'este género foi a de José dos Santos Libório, que fez construir um lindo e luxuoso theatrinho na Avenida da Liberdade, a que deu o titulo de Theatro do Infante Era uma verdadeira maravilha de luxo e bom gosto. Era ensaiador das creanças Salvador Marques e a parte musical estava entregue ao professor Filippe Duarte. A peça com que abriu foi a magica infantil Historia da Carochinha, original de Eduardo Schwalbach, que se representou
com grande luxo de mise-en-scene. Nas mesmas condições fez representar depois a oratória Santo António e outras  peças; mas a tentativa gorou, porque o prejuízo foi grande.»
(**)

O "Theatro Pairet" era um teatro de bonecos (fantoches) ambulante que em 16 de Novembro de 1890, inaugurou o seu teatrinho na nova Rua de Cascaes, construída nesse mesmo ano no bairro lisboeta de Alcântara. 


Ambos os anúncios de 16 de Novembro de 1890

Já em 21 de Janeiro de 1877, em Havana, capital de Cuba, tinha sido inaugurado um "Theatro Pairet" (actual "Cine Pairet") e era propriedade do seu fundador, o catalão Joaquin Pairet, falecido em 1885. Não consegui saber se existiria alguma relação entre estes dois teatros, ou familiar, mas inclino-me mais para a segunda hipótese.

Em 22 de Junho de 1890, o teatro de fantoches Pairet já actuava na casa de espectáculos "Évora-Terrasse", na cidade de Évora com bilhetes a preços de 40 réis, segundo o jornal "O Manuelinho de Évora" desse dia.

O "Theatro Pairet", no programa para 19 de Março de 1905 no "Theatro Aveirense" ...

19 de Março de 1905


"Theatro Aveirense"

Será em 1891, iremos encontrar o "Theatro Pairet" apresentando, na barra de Lisboa, "A Expulsão dos Jesuítas Pelo Marquez de Pombal". As liberalidades que o teatro de marionetas proporcionava, também terá contribuído com a sua quota-parte para esse lado de exclusão dos ambientes mais sérios e respeitadores da ordem instalada.

7 de Março de 1891

«No Entrudo de 1901 o animatógrafo surge na vila integrado nos festejos que o Grémio Artístico Comercial promoveu. Designado «Animatógrapho Edison» ali ter-se-á mantido até 1904. Na Feira de S. Pedro o Theatro Pairet, espécie de teatro circo que a par de fantoches dava «sessões de gramophone e scenas de alta magia», apresentava-se «ao estimadíssimo público desta vila» proporcionando aos genuínos saloios que visitavam a feira espectáculos de “cinematógrapho”. Teve sucesso o Theatro Pairet já que decidiu prolongar a temporada voltando a assentar arraiais logo no Abril seguinte, na Porta da Várzea, com uma designada «Barraca Animatógrapho». Estes cinemas de casa às costas estariam para a sua época como para a minha o da Praça da Batata..[4] Lugares de maravilha, espaços de sonho e emoções, mundos abertos ao prazer da aventura.» in: Contos e Crónicas - «O cinematographo», de António Sales

Na revista "Illustração Portugueza" de 20 de Maio de 1888

«A maior parte das feiras portuguesas, além do valor económico, relativamente pouco diminuído, que ainda oferecem, são principalmente apreciadas na sua feição pitoresca, ou pelo espectáculo oferecido em que subsistem as velhas tradições da nossa terra.
Observada na sua intimidade, ou apenas no aspecto exterior, a feira reproduz quási sempre a sua feição primitiva.
Os lisboetas de há trinta anos não devem ter esquecido os encantos da Feira de Alcântara, (…). É verdade que nos era permitido assistir aos fantoches por meio tostão a entrada (…). Ficou célebre nos anais desta feira a figura inconfundível do Ravachol, locutor – como agora se diz – a quem estava confiado o rèclamo e prólogo das peças que dentro, na antiga barraca de lona pintada, a seguir se iriam representar. Episódios ingénuos com actores de madeira, articulados e movidos do interior por numerosos cordelinhos.
No alto da barraca, em letras gordas e com os ss pintados ao contrário, lia-se esta indicação pomposa e sibilina: Colossal Teatro Andronic.» (***)


"Theatro Andronic", com cómica publicidade em 15 de Maio de 1905

A propósito o jornal "Diario Illustrado", de 21 de Junho de 1901, noticiava: 

«Theatro Andronic - Apesar de feito na feira de Alcantara, este theatro tem obtido uma concorrencia enorme, graças á perfeição dos fantoches articulados, systema Thomas Holden e aos bons espectaculos que apresenta.»

Outro autor, Mário Costa, no seu livro "Feiras e divertimentos populares de Lisboa", de 1950, refere ainda:

«Não esqueceram também o «Theatro de Marionettes» (bonecos articulados e falantes), cujas pantominas o actor Estêvão Amarante, entre bastidores ajudou a animar; e as barracas de fantoches ou robertos, entre os quais estavam o «Guignol Teatro» e o «Teatro Nova Aurora» (era precisamente com esta grafia que, em 1905, estava escrito o letreiro do último) que, como isca, davam aos passeantes o bónus de presenciarem gratuitamente, no exterior, uma parte da peça de maior movimento e espectaculosidade, que, se não era o «Noivado do Sepulcro», a coroa de glória destes palcos, era qualquer outra peça que acabava invariavelmente com grande pancadaria.»

Teatro de fantoches "Theatro Nova Aurora", na Feira de Alcântara em Maio de 1905

Bibliografia:

(*) - "O Saloio de Alcobaça. O reescrever da memória perdida no teatro tradicional de marionetas português" de José Manuel Valbom Gil -Trabalho de Projeto do Mestrado em Teatro - Universidade de Évora - 2013
(**) - "Diccionario do Theatro Portuguez" de António Sousa Bastos (1844-1911),  de 1908
(***) - "Arte Popular, Usos e Costumes Portugueses" de Armando Lucena (1886-1975), de 1944
- "Marionetas de Lisboa: Um Contributo para a Renovação do Teatro de Marionetas e Acção na Comunidade", de  Ildeberto Calmeiro da Silva Gama - Escola Superior de Teatro e Cinema - IPL - 2011
- Union Internationale de la Marionette

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca Nacional Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gettyimages, MeisterDrucke, Dreamstime

9 de maio de 2024

"Theatro dos Recreios"

Circo e Teatro "Recreios Whittoyne", propriedade de sociedade por accções "Empreza Exploradora de Recreios Whittoyne", fundada pelo palhaço Henry Whittoyne, foi inaugurado em 6 de Novembro de 1875, nos jardins do "Palácio Castelo Melhor" - concluído em 1858 - actual "Palácio Foz”. O projecto ficou a cargo do arquitecto Domingos Parente da Silva (1836-1901). Estas primeiras instalações eram compostas por um circo, teatro, café, restaurante, casa de jogos diversos, alamedas e jardins iluminados.

"Recreios Whitoyne" dentro da elipse desenhada, com a Avenida da Liberdade recém construída



16 de Setembro de 1876

Em 12 de Janeiro de 1879 «um dos mais pavorosos e rapidos incendios que a cidade ultimamente tem presenciado» teve lugar nos "Recreios Whittoyne", tendo provocado avultados prejuízos estragos, das quais se deram conta na notícia do "Diario Illustrado" do dia seguinte e que publico de seguida:

No dia 15 de Janeiro de 1878, uma boa notícia era dada pelo "Diario Illustrado":

«Os accionistas dissidentes da empreza exploradora dos Recreios, uniram-se com o louvavel fim de nomearem uma grande comissão para obter donativos destinados á reparação dos estragos do incendio e construir uma rotunda mais alta, e terraplanar a parte incendiada, de modo que fique unida á esplanada.
Estas obras vão começar ámanhã, e é de crêr que os promotores de tão louvavel idéa encontrem todo o auxilio entre os seus amigos e os accionistas da empreza.»
Noutra pequena nota, no mesmo jornal: «Consta que a direcção dos Recreios, em nome da empreza, manda celebrar na proxima sexta-feira, oitavario do passamento do nobre marquez de Castello Melhor, uma missa de Requiem na parochial egreja de Santa Justa, sendo o 'Libera me' executado pelos artistas da companhia italiana e toda a orchestra do theatro.
A direcção resolveu convidar para este solemne acto toda a familia e amigos do finado e a imprensa da capital»


E ainda, no tocante ao incêndio ... «A direcção dos Recreios auxiliada por todos os membros dos corpos gerentes, e alguns amigos particulares, realiza na proxima 2ª feira um beneficio destinado a attenuar os importantes prejuizos que o sr. Achiles Lupi soffreu no incendio.
Nada resta do opulento guarda roupa e abundante scenario que eram o ganha pão de tantas familias.
Os promotores d'esta recita empregam todos os seus esforços para que ella seja o mais productiva possivel, e assim succederá porque o nosso publico está prompto sempre a socorrer os que padecem com taes calamidades.»

Em 26 de Junho de 1879 umas "Variações" de Raphael Bordallo Pinheiro em "O Antonio Maria":

«O Passeio Publico, segundo annunciam os jornaes, esta sendo frequentado pelo que ha de mais selecto na sociedade lisbonense.
O Diario Popular, em abono d'esta asserção, e para que no espirito das familias mais meticulosas não ficasse restando a menor duvida, ainda na segunda-feira dizia o seguinte:
"Tendo havido alguns roubos no Passeio Publico do Rocio, parece que a sra. Amann vae requisitar para alli alguns policias. O Antunes e o Castello Branco já hontem fizeram bom serviço!"
Caspité! Passeio Publico, a que alturas tu subiste! Tal qual o que ha cousa de cinco ou seis mezes aconteceu nas salas da Ajuda!...
Os Recreios agora é que não devem ficar atraz do seu rival, e esperamos, d'um momento para o outro, ler o seguinte aviso nos jornaes, como réplica ás pretenções de bom tom do Passeio:
"Hontem a esplanada foi concorrida pelo que ha de mais distincto na nossa sociedade. Cerca d'uma duzia de senhoras ficou sem brincos nas orelhas, e oa pé do coreto foi assassinado e roubado um sujeito, do qual por enquanto se ignora o nome. 
A noite estava muito amena. Aos Recreios, pois." »


31 de Julho de 1879


18 de Setembro de 1879


24 de Dezembro de 1879

Quanto à frequência, propriamente dita, do "Theatro dos Recreios" o mesmo "O Antonio Maria" comentava:

«Nos Recreios é agora costume, quando algum espectador dá provas de desagrado aos bailados de Fuensanta, ou aos 'arrepios' da Moriones, levantarem-se a claque e o grupo de 'eternos admiradores' d'aquelles dois astros, bradando para o que pateia: - Pum, pum, fóra burro!
Parece-nos um mau costume esta troca de nomes.
O Soares deve ter muito cuidado, senão, d'aqui a pouco, são muito bem capazes de lhe comer o fundo das cadeiras.
Dar-se-ha o caso de que os Recreios se tenham mudado para Cacilhas sem a gente dar por isso? »



                                      15 de Julho de 1880                                                         8 de Agosto de 1880


Estas instalações seriam substituídas pelo Grande Colyseu, que vira a ser designado ora por "Colyseu dos Recreios" ora por “Theatro dos Recreios” e cuja construção, no mesmo local, teve início em 6 de Junho de 1881 sob projecto do arquitecto Parente, com um custo total de 26 contos de réis. Seria inaugurado, em 27 de Maio de 1882, com um sarau «gymnastico-equestre» oferecido pelo "Real Gymnasio Club Portuguez", em benefício dos "Albergues Nocturnos de Lisboa".

«Os Albergues Nocturnos, creados para acudir aos desvalidos, aos verdadeiros desgraçados que nem podem acolher-se nas sombras da noite sob um tecto que lhe abrigue os gemidos da sua triste miseria, pertencem ao numero das instituições de caridade mais dignas do alto respeito.
Sua magestade el-rei consagra-lhe entranhado amor.» in: "Diario Illustrado"



"Theatro dos Recreios" em 27 de Maio de 1882


Bilhetes


Em 29 de Maio de 1882, o jornal "Diario Illustrado" publicava uma pequena notícia, a propósito da sua inauguração:

«O salão a que nos referimos e cujas janellas deitam para o largo do passeio, é vastissimo, alegre, decorado com simplicidade, mas em extremo confortavel.
Segue-se-lhe a loja de bebidas, uma sala excellentemente disposta, cheia de ar e de luz, onde não é facil acotovellar-se a gente, o que é vulgarissimo nos restaurantes dos nossos theatros, succedendo frequentes vezes uns desastres mais ou menos comicos que todos conhecem.
Do salão de entrada uma larga escada conduz ao Coliseu.
Sem nos querermos alargar em detalhes e sendo o nosso unico fim relatar a impressão, se pode dizer, de momento diremos, comtudo, que o aspecto geral do circp, talvez porque o velho e hoje extincto circo Price nos esteja ainda bem patente na memoria não é completamente animado, como parece convir a este genero de casas de espectaculos.
A luz, por exemplo, pareceu-nos em pouca quantidade e mal distribuida.
O gosto decorativo agradou-nos bastante, senão no todo pelo menos em parte, tal como a architectura e pintura dos arcos e tecto entre aquelles e os camarotes, os quaes resentindo-se igualmente de falta de luz não era facil examinal-os.
E não ficariam estes muito distantes da arena? Assim nos parece.
Em compensação os logares de fauteils e cadeiras são magnificos e muito commodos.
A obra cremos não está ainda completa e a noite de hontem daria logar a um ensaio muito para aproveitar.
Perto das 9 horas chegando suas magestades ao camarote e sendo executado o hymno real, deu-se comeco ao espectaculo.»

E a revista "Occidente", também aquando da sua inauguração, e que publiquei no artigo "Recreios Whittoyne" em 28 de Dezembro de 2017:

«O coliseu é um recinto vasto: a arena é mais pequena que a do antigo circo de Price, mas em geral o circo é muito maior e comporta muito mais espectadores. Tem quatro qualidades de logares: 560 cadeiras, logo em torno da arena; 200 fauteuils por detraz das cadeiras na disposição em que o circo de Price eram os camarotes, 2000 logares de geral, pelo mesmo systema d'aquelle circo, e por cima da geral 62 camarotes n'uma ordem só.
Estes camarotes fazem mau effeito porque estão collocados a uma grande altura, mais altos que a 2ª ordem de S. Carlos e as divisorias convergindo todas para o centro da arena, tornando-os muito incommodos para os espectaculos que se derem no theatro.
Em frente do palco, por cima da entrada principal do circo, ficam os camarotes reservados para el-rei D. Luiz e para el-rei D. Fernando, para o proprietario do terreno dos Recreios, a filhinha do falecido marquez de Castello Melhor, e para a direcção da sociedade exploradora dos Recreios Whittoyne composta hoje dos srs. José Miguel Marques Rego, Julio Cesar da Silva e José Carlos Gonçalves.
A ornamentação do coliseu é pobre, mas da pior das pobrezas, d'aquella que finge rica e que no fim de contas sae carissima mais tarde.
Como circo o coliseu preenche as condições necessarias, mas como theatro deixa muito a desejar.
Parece-nos que foi um erro, na nossa terra e no nosso tempo, ao construir uma grande casa de espectaculos, pensar mais em fazel-a um circo de que um theatro.
No deliniamento do coliseu dos Recreios fez-se isso. Não é um theatro circo: é um circo, que em caso de necessidade arremedeia para theatro. (...)
O palco é acanhado, não tem urdimento que comporte o movimento theatral, o tablado não tem o declive proprio, de modo que as figuras que n'elle trabalharem, quando estiverem em varios planos empastam-se.
A sala depois de armada em platea é plana sem declive, de modo que os espectadores de traz difficilmente poderão ver o que se passa no palco, vendo apenas as cabeças dos espectadores que lhes ficarem á frente.
Dos camarotes muitos d'elles são inteiramente perdidos para os espectaculos theatraes, porque não se vê d'elles o palco.
Do aspecto geral do coliseu da sua architectura e ornamentação dá conta a nossa gravura.»




“Theatro dos Recreios”, teria uma existência curta já que em virtude da construção da estação central ferroviária do Rossio, os seus terrenos viriam a ser expropriados. O seu último espectáculo ocorreu em 9 de Julho de 1887, com a exibição da ópera “La Traviata”. Oito dias depois já estava demolido. Recordo que estas construções eram em madeira pelo que a sua demolição era sempre rápida, assim como quando ocorria um incêndio as consequências eram devastadoras.

«Hoje repete-se a "Traviata" em recita dedicada aos srs. accionistas e portadores de obrigações na qual teem entrada por meios preços; no espectaculo de ante-hontem agradou muitissimo a sra. Helder, tenor Bruni e distincto baritono amador mr. Leon Hollemart.
O producto d'estes espectaculos reverte a favor do pessoal ao serviço d'aquella empreza que vae ficar desempregado.»



De referir que as suas ultimas representações já tiveram no "Theatro da Trindade" (inaugurado em 30 de Novembro de 1867), que foi alugado pela direcção dos "Recreios Whittoyne", para o efeito.:

«Em consequencia da direcção dos Recreios não ter consentido que a companhia continuasse a funccionar no Colyseu embora o seu emprezario tivesse obtido do sr. marquez da Foz, proprietario do terreno, licença para haver espectaculos até ao dia 10, o emprezario sr. Santos Junior, como hontem dissemos, tratou de alugar o theatro da Trindade para a continuaçao das representaçoes da companhia de zarzuela e baile, realizando hoje o primeiro espectaculo n'este theatro com a bella operetta a Mascotte. (...)
Estamos convencidos que a companhia lucrou grandemente, com a vinda para a Trindade o nosso unico theatro adequado aquelle genero de canto.
Com a grande reducção dos preços, tanto a empreza como o publico hão de certo lucrar bastante.» in: "Diario Ilustrado" de 2 de Julho de 1887.

Em 14 de Agosto de 1890, viria ser inaugurado o "Colyseu dos Recreios", na Rua de Santo Antão, em Lisboa.