Restos de Colecção: Sacavem
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24 de março de 2018

Estação Agronómica Nacional

A “Estação Agronómica Nacional”, nasceu em 16 de Novembro de 1936, depois de um período de alguma indefinição, caracterizado pelo advento e morte de várias estações agrárias de vida efémera. É herdeira de uma tradição iniciada com as primeiras investigações agronómicas efectuadas na “Estação Agronómica Experimental”, criada em 1869 e cuja vocação se dirigia à investigação sobre o emprego de substâncias fertilizantes na agricultura, à semelhança do que, na época, acontecia um pouco por toda a Europa. Aquela Estação, cujo nome, atribuições, estrutura orgânica e meios de trabalho foram variando ao longo dos anos, sofreu profunda reforma em 1936 através do Decreto-Lei nº 27 207 de 16 de Novembro de 1936 (“Reforma Rafael Duque”) que criou, à semelhança do “Laboratório Químico Central”, a “Estação Agronómica Nacional”. Em 23 de Março de 1937, tomou posse o seu primeiro Director, o Professor António Pereira de Sousa Câmara.

Exteriores da Estação Agronómica Nacional” na “Quinta da Aldeia”, na Bobadela

 

A instalação da “Estação Agronómica Nacional” na “Quinta da Aldeia”, na Bobadela, junto a Sacavém, implicou algumas alterações à propriedade cuja existência remonta ao século XVII. A quinta terá entrado na posse da família Braancamp Freire, em 1865, na sequência das obras do caminho de ferro que atravessou a propriedade. Com uma área de cerca de 67 ha, e integrando terra salgada, arneiros, olival e várzea, a quinta desenvolvia-se até à margem do rio Tejo.

Primitiva entrada para a “Quinta da Aldeia”

Foi então construído um novo edifício, segundo projecto do arquitecto Guilherme Rebelo de Andrade,  para albergar a "Estação Agronómica Nacional", paralelo à Estrada Nacional e sobranceiro ao rio Tejo. Este edifício albergava, laboratórios, biblioteca, anfiteatro e gabinetes da direcção. Era então constituída por sete departamentos disciplinares: Citologia e Genética, Fitopatologia, Melhoramento de Cereais e Forragens, Solos, Química, Sistemática e  Fitogeografia e Pomologia.

 

 

Estação Agronómica.9 

Fronteiro à área designada de arneiro, foram construídos abrigos, estufas, insectários e pequenos laboratórios. As várias construções existentes na quinta foram adaptadas para depósitos de plantas, celeiros, armazéns para as alfaias agrícolas, entre outros. A antiga casa da quinta, a partir de então designada de "Casa do Agrónomo", foi transformada em habitação para técnicos, especialistas de fora e estagiários.

A partir de 1950, a pressão motivada pela concentração industrial na zona envolvente de Sacavém, forçou a EAN a  procurar novas instalações. Mas, só em 1961 a “Quinta do Marquês”, em Oeiras, propriedade do Estado com mais de 130 hectares, foi entregue à “Estação Agronómica Nacional”, para que esta aí se instalasse e desenvolvesse investigação exclusivamente agrária. Mudar-se-ia em 1966, contribuindo directamente para a organização e desenvolvimento de outras
instituições de investigação nacionais, designadamente a “Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade” (criada a partir do seu antigo departamento de Pomologia), a “Estação Nacional de Melhoramento de Plantas” e o “Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro”, hoje integrado no “Instituto de Investigação Científica Tropical - IICT”.

Interiores e actividades da “Estação Agronómica Nacional” na Bobadela

 

 

 

 

 

Quando a “Estação Agronómica Nacional”, mudou de instalações para Oeiras, em 1956, o espaço que ocupava na Bobadela foi transaccionado entre o Estado português e a "Sacor", - que tinha inaugurado a sua Refinaria de Cabo Ruivo em 11 de Novembro de 1940 - tendo como finalidade a construção de um bairro para alojamento do pessoal operário que trabalhava na empresa, A construção do "Bairro Salazar" teve início em 1956 e inaugurado em 30 de Julho de 1960. O edifício que serviu de sede à EAN passou, então, a equipamento social do bairro.

Entrada para o “Bairro Dr. Oliveira Salazar” ou “Bairro da Sacor”

Vistas aéreas do “Bairro da Sacor”

 

Com a criação do “Instituto Nacional de Investigação Agrária”, em 1974, a "Estação Agronómica Nacional", à semelhança de outros organismos de investigação agronómica, foi integrada naquele instituto de investigação. Com as reestruturações seguintes, a EAN constituiu sempre um dos serviços operativos do INIA e dos institutos que lhe foram sucedendo: INIAER, INIA e INIAP.

Campus em Oeiras

A “Estação Agronómica Nacional”, viria a ser extinta com a criação do “Instituto Nacional de Recursos Biológicos, I.P.”, prosseguindo a sua actividade científica no seio de diversas unidades de investigação e desenvolvimento tecnológico estabelecidas no âmbito da criação do “Instituto Nacional de Recursos Biológicos, I.P.”.

Bibliografia: “Arqueologia em Calendário” - Câmara Municipal de Loures
                    “Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária”

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa

22 de fevereiro de 2017

Sacavém (2)

Já lá vão muitas décadas desde que o “Rio Trancão”, - inicialmente chamado “Rio de Sacavem” - que atravessa a localidade de Sacavém, às “portas” de Lisboa, deixou de ser navegável.

“Rio de Sacavém” numa gravura de 1850

Foi nas margens do “Rio de Sacavém” que se travou o primeiro recontro entre o Rei D. Afonso Henriques e os mouros, em 1147, logo antes da tomada de Lisboa - a chamada Batalha de Sacavém, nas imediações da velha ponte romana.

Foi uma via de comunicação preferencial até ao século XIX, por parte das pessoas da zona saloia a norte de Lisboa, tendo ainda sido um importante porto fluvial no contexto portuário do Tejo ao longo da Idade Média, tendo começado a decair gradualmente a partir do século XVI. Estava então pejado de embarcações que transportavam os produtos hortícolas até Lisboa. Foi também através dessas mesmas embarcações que subiram pelo rio as pedras usadas na construção dos torreões do Convento de Mafra, no tempo do rei D. João V.

Após o violento Terramoto de 1755, que assolou a capital, iniciou-se um lento processo de assoreamento do rio, que tem desde então impedido a sua navegabilidade; até aí, em conjunto com os afluentes, formava um vasto e muito mais largo sistema aquífero, de que a velha ponte romana (no segmento da estrada que ligava Lisboa a Braga), ainda existente no século XVI (e desenhada por Francisco de Holanda), que contava com treze arcos, constituía bem a prova disso mesmo.

Velha ponte romana em Sacavém desenhada por Francisco de Holanda

Fotos da primeira metade do século XX, em que Sacavém ainda tinha o seu “porto” de cargas e descargas servindo, também, as indústrias ali instaladas, caso da Companhia Portuguesa de Trefilaria (2ª foto).

  

  

  

  

Para ler acerca da história de Sacavém consultar o artigo neste blog no seguinte link intitulado: Sacavém (1)

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

23 de setembro de 2015

Móveis Olaio

Em 1860, José Olaio, jovem marceneiro ardiloso, filho de moleiros, comprou um par de caixotes de madeira na “Casa Havaneza" e transformou-os em duas mesas-de-cabeceira em folha de raiz de mogno. Em 16 de Setembro de 1886, abre uma oficina de marcenaria na Rua da Atalaya, em Lisboa que, mais tarde, em 2 de Março de 1893, se transforma também em armazém e loja de móveis novos e usados. Era o princípio da “Móveis Olaio”.

José Olaio

“José Olaio” na Rua da Atalaya

Chave de esteira “Olaio”

 
fotos desta chave gentilmente cedidas por António Duarte

Na foto anterior, e à esquerda da mesma, um cartaz publicitário da “Loja do Povo”, que propriedade de Francisco de Almeida Grandella, desde 1881, seria a percursora dos “Grandes Armazens Grandella & C.ª” na Rua do Ouro, inaugurados a 10 de Julho de 1891, e cuja história pode ser lida neste blog no seguinte link: Armazéns Grandella & C.ª

Abertura da loja “José Olaio” em 2 de Março de 1893

                                             1896                                                                                        1926

               

1923

Em 1918, José Olaio, em sociedade com o seu filho Tomáz José Olaio, formam a firma “José Olaio & Cª (Filho), Lda.”, abrindo as oficinas de marcenaria no Bairro Alto, Lisboa. Lela da Câmara passa a desenhar para a “Casa Olaio”. Depois de, em 1927, transferir a sua cota para o seu filho Antero Augusto Olaio, José Olaio morre no ano seguinte, 1928.

Entretanto durante a década de 30 do século XX, a “Casa Olaio”, colabora nos cortejos de Lisboa, organizados por Leitão de Barros. Empresta de móveis para filmes portugueses. E em 1932, participa na Exposição do Estoril em 1932 e em Oeiras em 1936. Também a partir desta década fornece mobiliário para a encomenda pública: pousadas, hospitais, escolas, universidades, ministérios, repartições públicas, Parlamento.

Antes de fundar a fábrica, em 1939, na Bobadela em Sacavém, - com projecto de engenharia de Pedro Cavalleri Martinho - a “Casa Olaio” teve algumas marcenarias domésticas, que mantinha com trabalho de sol a sol. A empresa chegou a ter cerca de 500 trabalhadores e marca indelevelmente o design de interiores em Portugal. Esta fábrica em 1962 foi ampliada, viu renovado o equipamento fabril, melhoradas as condições de trabalho, passando a produzir em grande série.

Instalações fabris na Bobadela (Sacavém)

 

 

 

 

Na década de 40 do século XX, a “Casa Olaio” fabrica mobiliário de escritório, em madeira de carvalho ao estilo americano, mobiliário rústico e outros móveis por encomenda. Também Thomaz de Mello desenhou uma linha de mobiliário infantil para a Olaio, produzida na oficina da Cadeia Penitenciaria de Lisboa”. O decorador da “Casa Olaio”, nesta época, é Óscar Pinto Lobo. José Pedro Olaio (filho de Antero Olaio) começa a trabalhar, em 1950, na fábrica com o tio Thomaz Olaio.

 

1945

 

A influência dinamarquesa, produção de qualidade em série, chegou aos Móveis Olaio nos anos 60 pela mão dos proprietários, do engenheiro Herbert Brehm (director industrial da fábrica) e do designer José Espinho, produzindo móveis funcionais e utilitários, em linhas simples e claras. José Espinho entre 1951-1973 formou o gosto, as linhas, o progresso dos móveis “Olaio”.

Desenhos de José Espinho

 

 

No início dos anos 50 do século XX, na industria de mobiliário, algumas oficinas de produção artesanal e as fábricas, nas quais predominava ainda o trabalho manual, perceberam que a época era de mudança. A “Sousa Braga & Filhos, Lda”, a “Jalco, Lda.”, a “Olaio - Móveis e Decoração”, a “Jerónimo Osório de Castro” (depois “FOC’”) a “MIT”, mais tarde “Longra” e “Altamira”, foram as que mais rapidamente aderiram aos novos desafios.

Nestas empresas, a produção manual de mobiliário, em quantidades que variavam consoante o número de funcionários, onde muitas vezes se produzia a peça única por encomenda, cedeu lugar, gradualmente, à produção mecanizada onde o artífice passava por momentos a operário e a ferramenta a máquina, passando os dois processos a coexistir.

A partir da década de 50 do século XX, a “Olaio - Móveis e Decorações” fabrica mobiliário para hotéis, teatros, restaurantes e cafés. São exemplos: Grande Hotel da Figueira”, “Hotel Ritz”, “Hotel Tivoli”, “Hotel Excelsior”, “Hotel Estoril-Sol”, “Hotel Florida”, “Hotel Flamingo”, entre outros; “Cinema-Teatro Monumental”, “Teatro Micaelense”, “Cine-Teatro Eden”, “Teatro Politeama”, “Cine-Teatro Capitólio”; “Café Monumental”, “Café Império”, “Cervejaria Solmar”, “Pastelaria Mexicana”, “Casino Estoril, entre outros.

Hotel Estoril-Sol

 

                             “Hotel Tivoli”                                                                   “Grande Hotel da Figueira

 

Interior do navio-escola “Sagres”

                               Publicidade em 1956                                                                          Catálogo

 

É também nesta década que “Casa Olaio” celebra contratos de licença exclusiva para produção e comercialização em Portugal com a empresa de mobiliário sueca “Lundia” : as estantes de arrumação “Lundia” e “Lizzy”; e com a empresa dinamarquesa ”Lifa”: o sofá cama “Lico”.

Linha “Lundia”. Exposição na FIL e fabrico

          

 

A sua produção, no que respeita ao mobiliário doméstico, no entanto, e até finais da década de 50, pouco se terá afastado duma produção arquitectónica apelidada de «Português Suave».

Durante a década de 60 do século XX, a “Móveis Olaio” marca presença em variadíssimas exposições na FIL - Feira das Indústrias de Lisboa”.

Stands de exposição na FIL - Feira das Indústrias de Lisboa

 

 

 

17 de Março de 1962


gentilmente cedido por Agostinho Sobreira

A fábrica da “José Olaio & Cª (Filho), Lda.”, na Bobadela, é ampliada entre 1965 e 1966, com a construção de um novo edifício para armazéns de produtos acabados e montagem de móveis. Viu renovado o equipamento fabril, melhoradas as condições de trabalho, passando a produzir em grande série.

Visita do Presidente da República Almirante Américo Thomaz, à fábrica da “José Olaio & Cª (Filho), Lda.”, em 1966

Publicidade numa revista “Casa & Decoração” de 1969, com a loja na Praça de Alvalade, em Lisboa

Em 1987, Antero Olaio vende a empresa “Olaio - Indústria de Móveis, SARL” a Mota Marques. Em 21 de Abril de 1998 é decretada a falência desta empresa. As antigas instalações fabris, na Bobadela, são hoje o “Parque Industrial Olaio”, sede de algumas empresas que aí se instalaram.

Recentemente, em 2004, João Olaio e José Pedro Olaio, bisneto e neto do fundador, resolveram criar uma nova fábrica, de raiz, na Buligueira, na freguesia de Dois Portos, em Torres Vedras para a qual recrutaram antigos operários. João Chichorro, Francisco e André Espinho são os designers. Sua designação: “Indústria de Mobiliário José Olaio, Lda.”

Carta publicitária da nova empresa “Indústria de Mobiliário José Olaio, Lda.”

 

Os saudosistas que não esperem apenas a Olaio de antigamente. O estilo é contemporâneo e os produtos de alta qualidade, com especial destaque para as peças das áreas de restauração e escritório, apreciadas um pouco por todo o mundo. As ferragens, por exemplo, não podem ser as mesmas, até porque surgiram normas da UE que não existiam à época. Novas criações coexistem, assim, com versões actualizadas de móveis que marcam a história da empresa, caso do estirador J.E. (José Espinho).

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital de Lisboa