Restos de Colecção: Mobiliario
Mostrar mensagens com a etiqueta Mobiliario. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mobiliario. Mostrar todas as mensagens

21 de abril de 2024

Barbosa & Costa, Lda.

A firma "Barbosa & Costa, Lda." fabricante de estofos e móveis, terá sido constituída por volta de 1866, sucedendo a outra de sua denominação "Casa Gaspar", da firma "Gaspar Gomes & Anjos", instalada no Largo das Duas Egrejas (mais tarde do Largo do Loreto e Largo do Chiado). 


"Barbosa & Costa, Lda." no Largo Rafael Bordallo Pinheiro 



Loja "Rapozo & C.ª ", do mesmo ramo e vindo da Rua Augusta 132-136 (Joaquim A. Rapozo desde 1874) de esquina onde esteve instalada a "Barbosa & Costa, Lda." 

Entretanto, o "Casino Lisbonense", que tinha sido inaugurado em 6 de Novembro de 1865, substituindo o "Café -Concerto", e localizado no Largo da Abegoaria, tinha encerrado definitivamente em 1876, tendo as suas instalações e recheio tendo sido arrematados em hasta pública, em 4 de Outubro do mesmo ano de 1876, pela firma de armador-estofador "Barbosa & Costa - Sucessores da Casa Gaspar", para onde se mudariam em 4 de Julho de 1877. As antigas instalações desta empresa, depois de terem continuado a albergar uma loja de móveis, estofados e decorações, a "Rapozo & C.ª " viriam mais tarde a ser ocupadas pela famosa pastelaria "A Garrett", a partir de 1918.

"Casino Lisbonense" no, ainda, Largo da Abegoaria


24 de Setembro de 1876


4 de Julho de 1877

«O estabelecimento de armador e estofador dos srs. Barbosa & Costa, sucessores de Gaspar, que se mudou para o Largo da Abegoaria nos 7 a 12, edificio do Casino Lisbonense, está deslumbrante.
Encontra-se ali tudo o que ha de melhor na especialidade.» in: "Diario Illustrado" de 4 de Julho de 1877.



Dos primeiros grandes clientes da "Barbosa & Costa", foi o Rei D. Fernando II que ao mandar construir o Palácio da Pena em Sintra, encomendou a esta firma grande quantidade de mobiliário e estofos.


25 de Março de 1879

25 de Março de 1900


20 de Fevereiro de 1905

No início do século XX, a sociedade "Barbosa & Costa, Lda." era constituída pelos sócios António Alfredo Gomes Barbosa e Víctor da Costa Gaspar.



"Hotel Royal Belle Vue" na Praia das Maçãs em foto de 1910


1910

Este estabelecimento de móveis, estofos e decorações, depois de sucessivas obras de melhoramentos e redecorações, viria a tornar-se numa das casas mais conceituadas de Lisboa e do País no seu ramo a par da "Móveis Olaio", "Marcenaria 1º de Dezembro", "Casa Quintão", "Companhia dos Grandes Armazéns Alcobia", "Elysio Santos & C.ª, Lda.", etc.

Acerca desta loja, o jornal "A Capital" de 14 de Julho de 1916 escrevia:

«No largo da Abegoaria, esteve durante muito tempo installada a Associação dos Logistas, no mesmo prédio onde viveu e morreu o grande caricaturista Rafael Bordallo Pinheiro. É ali também que, existe hoje um dos mais notaveis estabelecimentos de moveis da capital. É o dos srs. Barbosa & Costa, que occupa todo um predio e que é digno de toda a admiração pelas suas explendidas collecções de moveis modernos, que os srs. Barbosa & Costa costróem como mais ninguem.
Basta percorrer as installações sumptuosas d'essa casa para se reconhecer que não é possível levar mais longe, nem em Portugal nem no estrangeiro, a industria do mobiliario. Os productos da casa Barbosa & Costa, d'um acabamento perfeito e d'uma elegancia rara, são já hoje indispensaveis em todas as casas ricas ou simplesmente abastadas, porque sem elles não ha "menage" que se imponha pelo seu bom gosto.»

1933



Mobiliário da "Pousada de Sta. Luzia", em Elvas, de 1942, mobilada pela "Barbosa & Costa, Lda."


"Barbosa & Costa, Lda." à direita na foto do início dos anos 70 do século XX

Não tendo encontrado praticamente dados históricos nenhuns, a partir do início do século XX, acerca da firma "Barbosa & Costa, Lda.", publiquei uma série de publicidade e fotos possíveis, que elucidarão certamente o leitor  acerca da actividade desta grande empresa de mobiliário e decoração.

1934

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca Nacional Digital

29 de novembro de 2023

Metalúrgica da Longra, Lda.

A "Metalúrgica da Longra" foi fundada em 1920 no lugar de Longra, concelho de Felgueiras, por Américo Teixeira Martins (1893-1974), com a firma "Martins & Irmão, Sucessor". Inicia a sua actividade como oficina familiar, inicialmente, com 5 a 10 trabalhadores, fabricando ferramentas, alfaias agrícolas e móveis domésticos em ferro, como fogões, lavatórios, beliches e colchoaria.


Américo Martins aquando do seu regresso da I Grande Guerra Mundial (1914-1918), em 1918, foi licenciado do serviço militar, e voltou à oficina do seu pai, no lugar do Fojo, onde trabalhavam já quatro dos seus irmãos. Resolveu, então, estabelecer-se por conta própria, e, em Outubro de 1920, criaria na Longra, juntamente com o seu irmão mais novo Afonso, a sociedade "Martins & Irmão, Sucessor". Compra então, pela quantia de 500 escudos, o equipamento de uma oficina que, entretanto, havia fechado na Trofa, e toma por arrendamento uma terça-parte de um barracão, pertencente a José Xavier, onde, entre 1910 e 1918, teria existido uma oficina. A renda anual era de 250 escudos. Com a morte do irmão Afonso, em 1921, fica sozinho à frente dos destinos da oficina. 

Américo Teixeira Martins (1893-1974)

Até 1924, vai ampliando e melhorando as instalações da empresa, alugando, inclusive, os restantes dois terços do barracão. Nos finais dos anos vinte dedica-se ao fabrico de mobiliário hospitalar, produzindo a primeira mesa de operações em Portugal. A partir da cama de ferro simples para uso doméstico, da cama de campanha e da caixa de prontos socorros, da fase inicial, através do dispositivo oficina de cunhos e cortantes, a firma "Martins & Irmãos Teixeiras, Lda." constituída em 1935, vai fabricar a primeira mesa de operações que incorpora o princípio da mecânica, a mesa de operações de elevação hidráulica, importante inovação com significativas repercussões económico-sociais na rede de hospitais que na década de 1940 começava a cobrir o país.






Duas fotos do "Hospital Sanatório Antituberculoso de Celas", fornecido pela "MIT"



1934

A empresa "Martins & Irmãos Teixeiras, Lda.", evoluia, com a ampliação e modernização das instalações fabris, que passam a empregar cerca de 200 funcionários, e juntamente com os "Laboratório Sanitas" criam a "Sociedade Metalúrgica da Longra, Lda,", em 1947. Fruto desta parceria, esta empresa, além de prosseguir o fabrico de mobiliário médico-cirúrgico, alarga a actividade a equipamentos para escritório. Depois, partindo já da cópia de catálogos de móveis estrangeiros, a "Metalúrgica da Longra" vai, pela introdução das sucessivas «linhas» de mobiliário metálico, assente no dispositivo tecnológico oficina de protótipos, tornar-se pioneira do design industrial de mobiliário, fruto da colaboração estreita, iniciada em 1961, com o reputado designer e arquitecto Daciano da Costa (1930-2005).

As linhas de móveis como a "Prestígio" (1962), "Cortez" (1963), "Mitnova" (1975), "Metropólis" (1988), "Logos" (1988) ou a "Práxis" (1991), desenhadas por Daciano da Costa, deixaram a marca de uma colaboração de trinta anos. A linha "Prestígio" chegou a vender 100.000 exemplares durante os vinte anos de produção da mesma.



Catálogo de 1945 por ocasião do 25º aniversário da "MIT"





1948


1958





Linha "Cortez" lançada em 1963

Ao longo destes quatro ciclos, em que a empresa chega a empregar, entre as décadas de 60 e 80 do século XX, 600 funcionários, muitos deles oriundos das mesmas famílias, - operários, engenheiros, agentes técnicos, administrativos, desenhadores e controladores, afectos a diversas áreas especializadas: serralharia, polissagem, pintura, pré-montagem, cronometragem, galvanoplastia, marcenaria, estofaria, manutenção, armazéns. Os processos e a estrutura de fabrico passam também por várias fases de especialização e maior complexidade, segmentando-se, ao nível da estrutura organizativa, em administração, direcção fabril e comercial, organização comercial e financeira e gerência que superintende nos seguintes sectores: produção/fabrico; técnico; marketing; social e pessoal (com cantina, refeitório, escola, biblioteca, boletim, grupo desportivo e serviços médicos e de enfermagem); e administrativo.

Instalações fabris da "Sociedade Metalúrgica da Longra, Lda."







« ... quando entrei para a Longra, com 13 anos, como outros, fui ajudar um velhote a serrar paus para a estufa de secar a tinta que era aquecida a lenha... estive na Longra desde 1943 a 1993 ... fomos nós que fizemos 1.300 e tal cadeiras para o teatro S. Geraldo em Braga... e para o Nosso Café... outro serviço grande foi para o Monumental em Lisboa em 1951 ... também o grande auditório da Gulbenkian, cor de laranja e o pequeno, azul, do Raul  Solnado, o Teatro Vilaret, o cinema Vox, o Castil que já acabou... e no Porto, os cinemas Águia de Ouro, o Passos Manuel... fizemos também auditórios mais pequenos para a ANA, no aeroporto, ... na Madeira, onde estive 1 ano a trabalhar ...  para o Casino Parque Hotel... fomos nós que fizemos tudo... também o Teatro em Bragança... a sala do 3º congresso na Guiné-Bissau em 1977/1978... no Casino da Póvoa a Sala dos Congressos... as cadeiras que aí pusemos vieram da Itália da Castell com quem a Longra tinha um  licenciamento... na Póvoa de Lanhoso, o cinema... em auditórios de Bombeiros em Vila Praia de Âncora e Barcelos... cinema Chaplin em Leça da Palmeira... o cinema de S. Mamede de Infesta com 400 e tal lugares... também trabalhei com a Longra nos hospitais de Santa Maria e S. João...em bancos... no Ministério da Educação... na Tabaqueira...no cinema Estoril Sol, no casino... na montagem dos bancos da Sorefame no foguete Porto-Lisboa, nos comboios da linha de Cascais... em Bragança e Tomar foram os hospitais... em Abrantes ... em Vila Real... na Universidade do Minho.. .o auditório... em Guimarães, no Teatro Jordão, no Café Milenário... fizemos contentores a vácuo para meter os motores de aviões.. .para o metro, fizemos os caixotes para tirar os bilhetes... foi uma obra de grande precisão... vinham controladores de qualidade suíços fazer a verificação... fizemos cozinhas em barcos nos estaleiros de Viana do Castelo...  e também componentes para teleféricos e bancos com suportes para skis para a Suiça... levava sempre comigo 3 ou 4 trabalhadores que pertenciam à serralharia e à montagem... em Vila Velha de Ródão equipámos a fábrica de papel com todo o mobiliário... as mesas para o Teatro Anatómico da Universidade de Coimbra... instalámos o ar condicionado no Hotel Ritz...  


1961


Stand na FIL em 1971

.. .No Porto, as camas do IPO, modelo americano, também fomos nós que fizemos... e o auditório da Faculdade de Biotecnologia da Católica, ali perto... e na outra antiga, junto ao Hospital de Santo António .. .as Biomédicas, sim... também montámos lá o auditório... e num serviço do estado, ao pé do Campo Alegre... para o Futebol Clube do Porto fizemos no estádio das Antas o tecto falso da bancada principal e pusemos umas cadeiras da Castell... e todo o mobiliário de hospitais e hotéis, como o Penta Hotel... e nas reitorias das universidades de Lisboa e Porto... na Sociedade de Geografia de Lisboa, na quinta Seca em Leixões, quem vai para Matosinhos, foi toda a caixilharia de janelas e portas... eram os engenheiros e arquitectos das obras que conheciam os produtos da Metalúrgica da Longra que recomendavam os seus móveis... o protótipo era caro, mas garantido, único e de qualidade... quando não tínhamos encomendas concorríamos até com produtos em alumínio que nunca tínhamos trabalhado... íamos a exposições... por exemplo no Porto fomos a duas no Palácio e outra no Habitat 70...os Martins davam muita importância à imagem da fábrica.». Palavras do antigo encarregado geral da fábrica Longra, empregado entre 1943 e 1993, aquando dum almoço de homenagem.

Depois de uma vida activa e produtiva, a saúde de Américo Teixeira Martins fragiliza-se, a que não foram alheias a sua participação na I Grande Guerra Mundial (1914-1918), e as suas sequelas, pelo que viria a falecer a 31 de Janeiro de 1967, com 74 anos.

Em 1990, a Câmara de Felgueiras atribuiu o seu nome a uma das ruas da cidade. Em 2009, em homenagem à «sua vida e exemplo», a Junta de Freguesia de Rande, deu o seu nome a uma das ruas da Vila da Longra.

Principais fabricantes nacionais de mobiliário para escritório nos anos 70 do século XX

"Sociedade Metalúrgica da Longra, Lda,", encerrou definitivamente em 1993, e considerada insolvente em 1995.

Selo de 2003

Bibliografia:

- Maria Otília Pereira Lage - "Empresa Metalúrgica de Longra, um caso no modo português de industrialização…" - Revista da Faculdade de Letras - HISTÓRIA - Porto, III Série, vol. 11, - 2010

- Blog: "Longra Histórico-Literária"

fotos in: Longra Histórico-Literária, Portugal 1914, Zé Jesus (Facebook), Daciano Costa