Restos de Colecção: Vinhos
Mostrar mensagens com a etiqueta Vinhos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vinhos. Mostrar todas as mensagens

10 de novembro de 2019

"Constantino" - Brandy e Vinhos do Porto

A origem da marca "Constantino" remonta a 1877, quando Constantino d'Almeida,  depois de emigrado no Brasil entre os 10 e 18 anos de idade onde fez uma considerável fortuna (cuja origem ainda hoje é um mistério) funda a firma "Sociedade dos Vinhos do Porto Constantino, Lda.", dedicada à exportação de Vinho do Porto e Brandy. A firma conheceria sucesso na primeira metade do século XX, graças à visão e capacidade de gestão de Constantino d'Almeida (falecido em 1922) e dos seus sucessores.

Constantino d'Almeida


Anúncio na "Gazeta de Notícias", do Rio de Janeiro, em 7 de Novembro de 1947




No início do século XX, a "Quinta do Crasto", no Douro entre a Régua e o Pinhão, - com referências conhecidas desde 1615 e um marco pombalino datado de 1758 - foi adquirida por Constantino d'Almeida, em 1910, fundador da marca "Constantino" e cujo slogan publicitário «A fama do Constantino já vem de longe» que perdura até aos dias de hoje.

"Quinta do Crasto"




1 de Abril de 1901



Em 1 de Abril de 1901 a revista "Brasil-Portugal" num artigo acerca desta casa referia:
«(...) atravessamos o Douro, demoramo-nos em Villa Nova de Gaya, e passamos essas horas e visitar os importantíssimos armazens e  escriptorios do sr. Constantino de Almeida, cujo retrato faz parte da gravura que encima esta pagina.
É na presença de uma vasta casa commercial que nos encontramos, sendo o principal commercio d'ella: exportação de vinhos para os portos de Africa e do Brasil.
Antes porém de lá estarem acreditados, já as primeiras cidades de Portugal os tinham consagrado, a começar por Lisboa, onde se encontram nos mais conceituados estabelecimentos.
Na ca Constantino de Almeida as marcas de vinho de maior exportação são estas: Old Port Wine, Santa Maria, Constantino eo Vinho Precioso da Quinta da Torrente do Alto Minho, a qual está sob administração da mesma casa.
Ao lado d'estas, outras marcas são tambem conhecidas de sobejo do paiz inteiro, e a titulo de curiosidade as damos aqui: Flor do Douro, Eureka, Princeza, Saudavel, Confortavel, Malvasia, Dourada, Moscatel delicia, S. Gabriel, Duque, Especial 1834, Florido Toscano.
Além das terras de Portugal e colonias, o Pará, Manáos, Maranhão, Pernanbuco, Bahia, Rio de Janeiro, S. Paulo, Rio Grande do Sul, Montevideo e Buenos Ayres, teem por tal forma estabelecido a reputação d'estes vinhos, que o consumo d'elles, em larga escala, honra devéras o commercio portuguez.

Anúncio no jornal "A Noticia" (Bahia-Brasil) em 16 de Janeiro de 1915


Alem délles, produz ainda a casa duas magnificas qualidades de cognac das marcas Marie Alice e Moscatel muito apreciadas no paiz e conhecidas no estrangeiro onde rivalizam com algumas das mais conceituadas. (...)
Para se avaliar a excellencia d'estes vinhos, bastará vêr como teem sido recompensados os esforços e premiado o trabalho do chefe da casa de Villa Nova de Gaya.
Estão registadas no Ministerio das Obras Publicas, para que da sua authenticidade ninguem possa duvidar, todas as recompensas conferidas aos vinhos de Constantino de Almeida. As exposições de Marselha, de Bruxellas de Anvers, de Nice, a Exposição Agrícola de Villa Nova de Gaya, a Exposição Internacional de Saint-Etienne, a Académie Nationale de Paris, conferiram-lhe a medalha de ouro, ao passo que outras lhe concediam diplomas de honra e o Jury hors de concours da Exposição de Nice lhe dava o Grand Prix. Nem passe despercebido que a medalha d'ouro da classe 31ª (vinhos de consumo) conferida por occasião do Centenario Henriquino, pela Exposição Agricola Industrial de Villa Nova de Gaya, foi a unica de tão subido merito dada por esse jury.

Secção de engarrafamento da "Sociedade dos Vinhos do Porto Constantino, Lda.", em 1 de Abril de 1904


Armazém de vinhos licorosos


Representam as nossas duas gravuras a Secção de Engarrafamento e o Armazem Principal dos Vinhos Licorosos. É n'essas duas casas que o trabalho toma maiores proporções. Ficam-lhes annexos os depositos de garrafas importadas, da caixaria, e das caixas de vinhos promptos para embarque.
Tabem não deixa de ser interessante a conducção d'estas caixas, ordinariamente feita por numerosas mulheres que as transportam á cabeça, uma a uma, até ao caes da Cruz para grandes barcaças, que depois são rebocadas para o porto de Leixões, onde são recebidas a bordo dos paquetes que se destinam á Africa e ao Brasil.»




Movimentação de vinhos em Vila Nova de Gaia, desde os armazéns até ao embarque



Postal em 1912




E em 1973 ...


Reclamo no edifício do "Hotel Internacional" na esquina da Rua Augusta com a Rua da Betesga


Em 1923, após a morte de Constantino d'Almeida em 1922, foi o seu filho Fernando Moreira d’Almeida que se manteve à frente da gestão da "Quinta do Crasto" dando continuidade à produção de Vinho do Porto da mais alta qualidade.

Fernando de Almeida


                                            1960                                                                                            1961

   



Entretanto, a empresa "Sociedade de Vinhos do Porto Constantino, Lda." seria incorporada na “Sociedade Comercial dos Vinhos de Mesa de Portugal”, - actual "Sogrape Vinhos, S.A." -  fundada em 22 de Julho de 1942,  por Fernando van Zeller Guedes e mais 15 amigos. Seria esta empresa que criaria aquele que viria a tornar-se o mais internacional dos vinhos de mesa portugueses - "Mateus Rosé".

                                       1934                                                                                             1955

Reclamos do Brandy "Constantino", a cores a preto e branco, na Praça D. Pedro IV (Rossio), em Lisboa, fabricados pela "Electro-Reclamo, Lda." fundada pelo engº Carlos Santos em 1926




Quanto á "Quinta do Crasto"... «Em 1981, Leonor Roquette, filha de Fernando Moreira d’Almeida, e o seu marido Jorge Roquette assumiram a maioria do capital e a gestão da propriedade e, com a ajuda dos seus filhos, deram início ao processo de remodelação e extensão das vinhas, bem como ao projeto de produção de Vinhos do Douro de Denominação de Origem Controlada (DOC), pelos quais a Quinta do Crasto é amplamente conhecida, nacional e internacionalmente. Esta é assim a quarta geração da família à frente da gestão desta emblemática quinta que a todos seduz pela qualidade que faz questão de imprimir em todos os seus produtos.
A Quinta do Crasto possui hoje uma gama de produtos muito completa, desde Vinhos do Douro brancos e tintos, Vinhos do Porto de categorias especiais e Azeites Extra Virgem, com diferentes níveis de preços.» in: site "Quinta do Crasto".





A marca é actualmente reconhecida pela qualidade do seu famoso brandy, amplamente expandido em Portugal e além-fronteiras. A pureza e genuinidade da aguardente que origina o brandy "Constantino", conservada durante 6 meses em madeiras da melhor qualidade, são as principais características da sua excelência.


E para terminar, e por curiosidade, aqui ficam as "Notas da Prova" do enólogo:
«Brandy Constantino tem uma cor amarelo-escuro, com nuances esverdeadas. O seu aroma é pujante, com intensa madeira de grande qualidade. Sobressaem também notas características das aguardentes mais nobres, como é o caso das especiarias. No paladar apresenta grande macieza, de consistência quase aveludada, deixando no final uma impressão de muita elegância.»

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Digital de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Sogrape Vinhos, Quinta do Crasto

17 de outubro de 2019

"Macieira" - Royal Old Brandy

José Maria Macieira, vivia em Lisboa com sua mãe e irmãos, gerindo a empresa "Viuva Macieira & Filhos", fundada em 1804, que na Rua da Madalena em Lisboa tinha uma loja e armazém de papel e trabalhos tipográficos.

1942



18 de Janeiro de 1918


Este armazém, era abastecido pela fábrica da família - "Fábrica de Papel do Boque" -  fundada em 1861 por José Joaquim Paula no Lugar do Boque (Serpins-Lousã). Esta fábrica, depois de adquirida pela firma "Viúva Macieira & Filhos" nos anos 70 do século XIX, foi uma das mais importantes do país, tendo sido a única que começou logo com produção mecânica, instalando, desde a sua origem, uma máquina de papel contínuo. Por ironia do destino, foi também aquela que, ao longo de mais de um século de laboração, menos viria a desenvolver-se. Viria a encerrar definitivamente em Janeiro de 1986.

"Fábrica de Papel do Boque"


Contudo, José Maria Macieira, seguindo o conselho de amigos, em 1865 funda a "Macieira & C.ª" e passa a comercializar vinhos, azeite e outros produtos alimentares que trazia da região Oeste, mais concretamente do Maxial (concelho de Torres Vedras), onde a família detinha uma quinta. Fazia destilação de aguardentes e terá sido essa a razão de ter mandado o filho, José Guilherme Macieira, estudar o fabrico de destilados em Cognac, região de França que dá nome à famosa bebida. Em resultado disso José Guilherme funda em 1865 a firma "José Guilherme Macieira & C.ª", para comercialização de vinhos, destilados, azeites e vinagres. Em 1885, cria a receita, ainda hoje secreta, do Cognac "Macieira" - "Real Fine Eau-de-Vie".

José Guilherme Macieira


1885


1899


Com graduação alcoólica de 36º, 40º ou 43º, o "Macieira Royal Old Brandy", sendo o 2º cognac/brandy português mais antigo ainda em produção, depois do "Constantino" (1877) é obtida a partir da aguardente vínica com um envelhecimento mínimo de seis meses em cascos de carvalho. Resulta da destilação de uvas de castas diversas e assenta numa receita que permanece inalterada desde o seu lançamento.

Localização da loja "Macieira & C.º"  na Rua Ivens, 47 em Lisboa (dentro da elipse desenhada)


Em 1892, o rei D. Carlos nomeou José Guilherme Macieira «fornecedor de vinhos e cognacs de vinho da Real Casa». José Guilherme Macieira também viu o seu engenho premiado. Foi ordenado cavaleiro da Legião de Honra em França e Comendador em Portugal.

Depois da firma mudar de designação para "Sociedade de Aguardentes Macieira, Limitada", no início do século XX, mudaria de novo em 1919, e definitivamente, para "Macieira & C.ª , Lda.".

1919


1923


O brandy vendia bem em Portugal e em mercados onde a comunidade portuguesa era numerosa, como o Brasil do início do século XX. Durante a II Guerra Mundial, o "Macieira" chegou a ser distribuída pelos Aliados, privados da produção das caves francesas. Em 1944, na "Feira Popular de Lisboa", na Palhavã, constituiu sensação uma Fonte que em vez de deitar água jorrava vinho, mas também uma “Farmácia Bar”, com uma tabuleta que informava que a direcção técnica era de "Macieira" e "Constantino" (outro brandy com muito sucesso).


No filme "O Costa do Castelo", realizado por Arthur Duarte em 1943 o cognac "Macieira" 3 estrelas é publicitado ... «Cognac ... tem 3 estrelas .. quer dizer que é bom!» informa Daniel (Curado Ribeiro). Ao que o sr. Silva (António Silva ) acrescenta: «então tem honras de general!».

Sequência no filme "O Costa do Castelo". No fotograma da direita Maria Olguim, António Silva, Curado Ribeiro e João Silva

Além fronteiras, na "Gazeta de Notícias" do Rio de Janeiro, em 7 de Novembro de 1947


Armazéns vinícolas da "Macieira & C.ª, Lda.", no Meixial em 1955



1955


                  

1956



A família Macieira manteve-se à frente da fábrica até 1973, ano em que passa para a posse da "Seagram Company Limited", uma empresa canadiana, fundada em 1857, e que chegou a ser a maior distribuidora de bebidas alcoólicas do mundo. Em 2001, o grupo francês "Pernod Ricard, S.A." adquire algumas marcas da "Seagram's", entre elas a "Macieira".

1985


Fernando Pessoa também era apreciador de "Macieira"


Actualmente, a "Macieira" representa mais de metade do consumo de brandy no mercado português. Num primeiro momento, combateu o declínio das vendas com uma aposta na exportação. A "Macieira" tornou-se na marca do portefólio da "Pernod Ricard Portugal" com maior volume exportado, apostando na fama de que desfruta junto do mercado da saudade. A marca é exportada para mais de 30 países, estreando-se há dois anos na Rússia e China. A base do Bombarral, após a deslocação da produção da "Macieira" para Espanha, em 2014,  produz e envelhece ainda as aguardentes "Aldeia Velha" e "D'Alma".

Oferta actual da "Macieira & C.ª, Lda."



Rótulos actuais

Últimas instalações da "Macieira & C.ª, Lda." no Bombarral


Antigos armazéns no Meixial, devidamente preservados



Quanto à firma "Viúva Macieira & Filhos, Lda." ainda existe e a sua actividade centra-se na compra e venda de bens imobiliários, fabricação de papel e de cartão e arrendamento de bens imobiliários. A sua sede é na Rua da Madalena, 18 - 2º esquerdo.

Local onde funcionaram a loja e armazéns da "Viúva Macieira & Filhos", na Rua da Madalena 10-22


Quanto à antiga loja da "Macieira & C.ª, Lda." na Rua Ivens, em Lisboa e actualmente ...


fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Macieira