Restos de Colecção: Restaurantes
Mostrar mensagens com a etiqueta Restaurantes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Restaurantes. Mostrar todas as mensagens

13 de junho de 2026

"Restaurante Tábuas"

A casa de pasto "Taboas", terá sido fundada, por um galego de apelido Taboas, na segunda metade do século XIX na, ainda, Travessa de S. Domingos, 47, em Lisboa. Era considerada uma simples casa de pasto. A primeira referência que consegui foi obtida no "Novo Guia do Viajante em Lisboa" de 1880 e que reproduzo abaixo.

1880

Em 1900 já aparecia referenciado no "Almanach Palhares" como "Restaurant Taboas". Quanto a proprietários posteriores foi difícil de obter as informações, mas em 1908, e segundo o mesmo almanach, a casa de pasto/restaurant "Taboas" pertencia a José Bento Carreira e Luiz Esteves. Entretanto em 1904, o mesmo galego Taboas, fundou outra casa de pasto, bem perto, na Rua Nova de S. Domingos, 12 e que girava sob a firma "Taboas & Fernandes".


1900

1904

1908


"Restaurant Taboas" à direita na foto de 1908

Em Fevereiro de 1925, após « sofrer completa transformação de pessoal, serviço e aformoseamento» e com nova gerência ... 

20 de Fevereiro de 1925

Nota: o anúncio anterior refere «fundada ha uns cento e vinte e cinco anos» ... creio que, ou foi engano de tipografia ou exagero do autor, certamente ...

Lembro que foi em 1926 que a Travessa de S. Domingos, - que ligava o Largo de S. Domingos à Rua Nova da Palma - mudou de denominação para Rua Barros Queiroz. O vereador republicano da Câmara Municipal de Lisboa, Tomé José de Barros Queiroz (1872-1926) tinha falecido em 6 de Maio desse ano. Barros Queiroz tinha trabalhado na casa de candeeiros e canalizações "José d'Oliveira & Barros" que funcionava no prédio onde estava instalado o "Restaurant Taboas", para o lado da Travessa de S. Domingos.. Depois de ter sido promovido a gerente em 1891, em 1902 foi convidado para sócio, e por morte de José de Oliveira em 1911, Barros Queiroz tornou-se proprietário desta firma, mudando a denominação para "T. J. Barros Queiroz", em nome individual.

Em 1935 o "Restaurante Taboas" já era propriedade da firma "Avenida Café, Lda." do mui conhecido galego Manuel Outerelo Costa, que viria a fundar, entre outros, os restaurantes "Aquário" na Rua do Jardim do Regedor e "A Choupana" em S. João do Estoril, em 1946 e 1948 respectivamente.



1935

Nesta altura o "Restaurante Táboas" além de serviço de restaurante funcionava como cervejaria-marisqueira e tinha uma charcutaria, que ali funcionaria por muitos anos.

Dezembro de 1936


25 de Fevereiro de 1938


"Restaurante Taboas" Na área a vermelho (à esquerda) na Rua Barros Queiroz

Em 1956, uma nova gerência procede a umas obras de remodelação profundas na secção de restaurante, introduzindo o serviço de «Frangos no espeto». De seguida fotos do novo "Restaurante Tábuas".

31 de Janeiro de 1956


Interior do novo "Tabuas" em 1956


Em 1957, nova gerência ...

2 de Fevereiro de 1957


Restaurante e Charcutaria "Tábuas" nos anos 80 do século XX

Antes de encerrar definitivamente, no final de 2023, o restaurante e churrasqueira "O Tábuas" tinha como seu proprietário a firma  "Mota & Cleto, Lda." (salvo erro ...) que tinha sido contituída em 20 de Março de 2014. 


Encerrada em 2013


"O Tábuas" no toldo na Rua Barros Queirós (à esquerda)


Exterior e interior em 2017


E o restaurante "O Tábuas" de novo encerrado em Julho de 2024 ...


fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)

28 de maio de 2026

"Pinóquio" - Brinquedos

A loja de brinquedos e artigos para crianças "Pinóquio", foi naugurada em 14 de Agosto de 1950 na Praça dos Restauradores, 79-80, em Lisboa. Projectada pelo arquitecto Veloso dos Reis Camelo (1899-1985), era propriedade da sociedade "Avenida Café, Lda.", liderada pelo galego Manuel Outurela Costa, proprietária do Restaurante "Aquário", instalado no mesmo edifício, mas com frente para a Rua Jardim do Regedor, 50. A esta firma já tinha sido entregue, inicialmente, a exploração do "Quiosque dos Restauradores" localizado mesmo em frente, e visível na foto seguinte.


"Pinóquio" em foto de 1952


23 de Dezembro de 1950


1952

Desde os finais do século XIX e na primeira década do século XX, na loja agora ocupada pela "Pinóquio" tinha funcionado um estabelecimento de móveis de madeira, pertença de Henrique Drummond Freitas Castle.


Estabelecimento de móveis de madeira de Henrique Drummond Castle, em foto de Junho de 1895


A mesma loja nos anos 40 do século XX

No dia da inauguração da "Pinóquio" o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava ...

«Novo estabelecimento de utilidades e brinquedos nos Restauradores

O publico vai, finalmente, saber o que significa «Pinóquio», de que tanto se tem falado nos ultimos dias. Adultos e crianças - especialmente estas, para quem a palavra Pinóquio é evocadora de um Mundo de maravilhas-  vão hoje ver satisfeita a sua natural curiosidade. E, diga-se em abono da verdade, que Pinóquio corresponde á expectativa; mais, que excede tudo quanto se poderia ter imaginado.
Em pleno coração da cidade, na Praça dos Restauradores, nos. 79-80 - um lugar ideal pela facilidade de acesso e pela sua situação - Pinóquio abriu hoje as suas portas. Por que se trata de um estabelecimento de utilidades e brinquedos nacionais e estrangeiros. Pinóquio, como se fosse uma Fada dos contos da infancia, vai maravilher milhares de pessoas. Há até magnificas utilidades e brinquedos maravilhosos.
Os olhos de todos os meninos de Lisboa - e dos adultos também - vão ficar cativados por esse mundo maravilhoso onde não faltará nada para fazer a alegria de um  pequenito.
O novo bazar, onde se encontra a mais vasta colecção de brinquedos que é possivel reunir, tem a orientá-lo, como gerente, o conhecido técnico e antigo empregado da Kermesse de Paris, sr. João de Sousa. Por esse motivo, este estabelecimento, que pertence aos proprietários do Avenida Café, Lda., vai certamente merecer a confiança e a preferência da mais exigente clientela. Pinóquio está valorizado por uma magnifica decoração do arquitecto sr. Veloso dos Reis Camelo.»


Publicidade de 13 de Maio e 23 de Dezembro de 1963


19 de Dezembro de 1964


Pai Natal do "Pinóquio"


Entretanto, e em 8 de Maio de 1951, a "Pinóquio" passa para a propriedade da firma "J. J. Sousa, Lda.", constituída com um capital social de 120.000$00 e formada pelos seguintes sócios: João de Jesus Sousa (40.000$) - antigo empregado da "Kermesse de Paris" inaugurada em 19 de Novembro de 1901 -  e a firma "Sociedade Agrícola e Comercial do Lumiar, Lda." (80.000$).

Passados quatro anos, e por escritura pública de 26 de Outubro de 1955, João de Jesus Sousa, deixou a sociedade, mas autorizou que o seu nome J. J. Sousa continuasse a figurar na firma social.


Ambas as fotos de 1973

A loja de brinquedos "Pinóquio" encerraria definitivamente por volta de 1980, e a sociedade "J. J. Sousa, Lda." é trespassada, muda de sócios e acrescenta ao seu objecto - «comércio de brinquedos, utilidades e quinquilharias» - a «exploração de restaurantes». A nova constituição da sociedade passa a ter os seguintes sócios: Rogério Ramos Nunes, António Filipe Rosa da Costa e João Francisco Rosa da Costa. Ao mesmo tempo, o capital social era aumentado de 120.000$00 para 1.000.000$00.

No lugar da loja de brinquedos, reabre, em 13 de Maio de 1982, a "Pinóquio" mas como restaurante e cervejaria. Uma curiosidade: a inauguração deste restaurante coincidiu com o 2º dia da visita do Papa João Paulo II a Lisboa e a Portugal.


"Pinóquio" nos anos 80 do século XX



2014

Quanto ao edifício onde está instalado a cervejaria "Pinóquio", foi reconstruído durante três anos (creio que entre 2019 e Janeiro de 2022) para albergar o "Blue Liberdade Hotel". Durante esse tempo o restaurante e cervejaria tiveram de se instalar provisóriamente na Rua de Santa Justa. Agora, propriedade de Lourenço de Mello Breyner, à nova decoração juntam-se duas salas no piso térreo e uma esplanada maior, que duplicou a sua capacidade, para 120 lugares sentados.





5 de abril de 2026

Restaurante "Estrela da Sé"

O restaurante "Estrela da Sé", localizado no Largo Santo António da Sé, 4, em Lisboa, e contrariando o que se vai afirmando, não terá sido fundado em 1857 (ano incerto também) como casa de pasto. Este estabelecimento começou por ser uma loja/armazém de vinhos, e assim permaneceu por muitos anos. Aparece referenciado no "Almanach Commercial de Lisboa" de 1880, como armazem de vinhos pertença da firma "Antonio Gomes de Moura & C.ª" no Largo de Santo Antonio da Sé, 4. Quanto ao nº 3 - hoje transformado em janela depois da junção das duas lojas - aparece referenciado no "Almanach Palhares" para 1903 (editado em 1902) como pertencente a Antonio Luz Tavares, negociante ... E no ano de 1905  (editado em 1904) o mesmo nº 3 como uma tabacaria propriedade de José Simões Lopes.



"Vinhos do Porto" de "Antonio Gomes de Moura & C.ª Sucessores", nas portas 3 e 4

1880


1902


1904

Uma pequena nota introdutória: Desde o século XIX que existiram diferentes géneros de lojas de comes e bebes, sendo os principais tabernas, armazéns de vinhos, tendas, vendas, cafés, botequins e casas de pasto. Estas podem ser agrupadas em cinco tipos: as que se destinam ao consumo de vinho e aguardentes (e certas comidas) no local, como as tabernas; as que vendem vinho por grosso, mas onde se pode também consumir vinho, como os armazéns de vinho; as que vendem géneros vários ligados à alimentação e sua confecção (hortaliças, carvão, velas, etc., e, claro, vinho) nas quais também se consome in loco; aquelas onde se consomem bebidas alcoólicas finas (licores), refrescos, chá e o líquido que lhes dá o nome, café, podendo servir certo tipo de alimentos, como torradas e bolos; as casas de pasto ou de povo, que se destinam a servir refeições, sendo as bebidas o acompanhamento. 

Quanto ao nº 4 do Largo Santo Aonio da Sé, e no mesmo "Almanach Palhares" para 1907 (editado em 1906), continua a ser referenciado como armazem de vinhos agora da firma "Santos & Brasão". No ano de 1909 (editado em 1908) o mesmo passa para a propriedade de Francisco Vasquez Serra, assim como em 1909. Poderá ter sido adquirido, anos mais tarde - mas não consegui comprovar - por Agapito Serra Fernández, ou este Francisco Vasquez Serra ser seu familiar (que estou certo disso e que mais adiante explico) e ter transformado o armazém de vinhos em casa de pasto depois de 1910. O que se passou nas décadas seguintes até 1990 não tive acesso documental. Pelo menos os actuais proprietários deixam essa hipótese no ar ...


1906


1908

Mas falemos um pouco do galego Agapito Serra Fernández (1863-1939) e do seu percurso de sucesso por terras de Portugal. Nascido na Galiza, em Barcia de Mera em 1863, veio para Portugal, com seu irmão, aos 11 anos de idade. Começou por vender biscoitos e bolachas ao exército, vindo a fundar a empresa de biscoitos "Confiança", que popularizou a celebérrima bolacha "Maria". Casou com Josefa Maria Marques de Serra Fernández e tiveram duas filhas. Viria a ser sócio da "Companhia dos Ascensores de Lisboa", do restaurante "Estrella de Ouro" e de outros investimentos e propriedades urbanas dispersas pela cidade de Lisboa.



Agapito Serra Fernández (1863-1939) em fotos de 1895 e de 1909 


Cartaz gentilmente cedido por Marina Tavares Dias ("Lisboa Desaparecida" - Vol VII)

Após a venda da "Companhia dos Ascensores de Lisboa", e já detentor de uma considerável fortuna, adquiriu a quinta na Graça, remodelou a moradia existente e urbanizou o terreno. Com a extinção desta empresa, nesse terreno dos barracões onde estivera o terminal do antigo "Ascensor da Graça", mandou edificar o "Royal Cine" com projeto do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962), tendo sido inaugurado em 26 de Dezembro de 1929.

"Royal Cine"  em foto de 1 de Janeiro de 1931

Antes da construção do "Royal Cine", já em 1908 Agapito da Serra Fernández tinha tomado a iniciativa da construção do bairro operário "Bairro Estrella d'Ouro", no Bairro da Graça, onde viria inclusivamente a fixar residência na "Vivenda Rosalina", habitação localizada neste mesmo bairro, edificado sob o risco do arquitecto Norte Júnior, e que ainda hoje existe e recuperada.


 

 

Artigo na revista "Vida Gallega" de Maio de 1909, acerca da Agapito Serra Fernández

Quanto a restaurantes a referir dois: 

- "Restaurant Estrella de Ouro" na Rua da Prata, 285-291 fundado em 1870 e adquirido por Agapito da Serra Fernández em 1901. Depois de uma profunda remodelação,  registou o nome na "Repartição da Propriedade Industrial" , em 17 de Novembro desse mesmo ano. Foi o mais importante. Tinha sala de refeições no piso térreo e no 1º andar gabinetes. Viria a encerrar definitivamente em 1940.

1874

Pedido de registo do nome em 17 de Novembro de 1902


1904


1916

- "Restaurante Estrella de Prata", na Rua da Magdalena, 233-235 na sociedade "Serra & Cima" formada com outro galego de seu nome Cima. Este restaurante já tinha existido em 1880 na Rua Nova do Amparo, 7. O sócio Cima pertencia a outra famíla de galegos que se dedicaram à restauração em Lisboa e cujo descendente (creio que neto) José Manuel Cima Sobral, é hoje co-prprietário, com sua filha, do "Restaurante Cima" (ex-"English Bar") no Monte Estoril. 


1880

22 de Outubro de 1906

"Restaurante Estrella de Prata" teria uma vida curta, já que foi consumido por um incêndio, em 10 de Abril de 1907, que destruiu o prédio onde estava instalado. Acerca deste terrívcel incêndio o jornal "Diario Illustrado" no dia seguinte noticiava:

«(...) O predio onde se manifestou o incendio tem os n.°s 233 a 243 para a rua da Magdalena. No primeiro andar havia o armazem de sedas pertencente ao hespanhol Antonio Fernandez. Esse armazem está installado na parte qua faz esquina para s travessa de Santa Justa.
Nas lojas estavam 0s estabelecimentos seguintes: a succursal da «Estrella de Prata» dos srs. Serra e Lima, um armazem de iscas e café e a antiga sapataria Baiões, pertencente ao ar. Domingos Nunes da Silva.No 1.° andar do lado esquerdo estava o armazem de sedas, do lado direito o consultorio medico do sr. dr. Paiva Curado.
Do lado da rua de Santa Justa n.°.1, é a porta de escada, no n.° 3 havia um café e no n.° 3 A um carvoeiro e uma venda de vinhos. No primeiro andar de esse lado ha uma hospedaria. (...) »  Obs: leia-se srs. Serra e Cima e esqueça-se a palavra succursal.


O edifício onde se instalaria o "Estrella de Prata" em foto de 11 de Julho de 1901


O mesmo edifício após o incêdio de 10 de Abril de 1907, já com o "Estrella de Prata" destruído

Em 1909 aparecia na lista de Restaurants de Lisboa, do "Anuario del comercio, de la industria, de la magistratura y de la administración", o "Estrella da Magdalena" na rua mesma rua da Magdalena, 50. Não sei se pertenceria aos mesmos proprietários em substituição do "Estrella de Prata", mas duvido ...

Quanto às casas de pasto, casa de petiscos e restaurantes dos galegos, retirei da revista "Olissipo" de 16 de Outubro de 1941 dois excertos do artigo  - "Petiscos de Lisboa" , por Eduardo Fernandes (esculápio), que passo a transcrever:

«As casas dos galegos eram, em geral, pertença de dois patrícios que se revezavam na sua manutenção, seis meses um e seis meses outro, indo cada semestre um dos sócios para a terra, a tratar dos haveres dos dois, que precisavam de cultura e orientação.
Ambos êles trabalhavam como moiros e se correspondiam nas suas mútuas obrigações, obedecendo regularmente ao roulement que se tinham imposto.
Eram coadjuvados por cosinheiros e moços também galegos, gente sóbria e sem apetites, que se sujeitava a uma vida de bicho de cosinha, sem apuros de toilette, vivendo exclusivamente para a locanda e não se poupando a satisfazer as exígências dos fregueses.
Com as meias desfeitas, que custavam nêsse tempo uns três vintens, com o seu caldo no fim, caldo servido na clássica tigela, a que se chamava uma rolinha, com mais ou menos entulho, que assim se denominava o resíduo de couves, nabos e grão com que o caldo era adubado, serviam também o meio temperado, ou seja a desfeita sem bacalhau, e muitos outros saborosos e originais petiscos.
Na cantilena do criado de mesa figuravam o chispe com ervas, que fazia um jantar delicioso, seu chouriço de sangue à mistura; a cabeça de porco e a orelheira, com o mesmo acompanhamento; a carne cosida à galega, com chouriço, presunto, toucinho, arroz e grão; a mão de vaca, ou meia unha; e os carapaus fritos, muito bem fritos, a dez réis
e a vintém cada um, com a sua competente salada de alface, agriões e vários cheiros. (...)

As casas de pasto, também geridas por galegos, mas bastante mais aceadas, e apropriadas à compostura da capital, eram em grande número e aqui citarei: o Vigia, da Avenida, perto da rua das Pretas, sucessora de outras que, como ela, desapareceram, filhas de uma célebre locanda onde pontificava «Diogo Alves», o temeroso facínora; a Estrela de Oiro, da rua da Prata, que acabou há pouco e meteu obras não sei para quê, depois da morte do seu proprietário, o velho Agapito Serra Fernandes, galego de Mondariz, que, muito rico e muito trabalhador, construiu, à Graça, um bairro com o nome do estabelecimento e deixou boa fama de empreendedor e inteligente; a Flôr de S. Roque, gerida por um galego gordo e anafado, sempre de boné ao lado, com um cosinheiro de suissas, côxo, muito popular no Bairro Alto, casa a que sucedeu o actual Restaurant Roma; o Restaurant Paris, instalado em S. Pedro de Alcântara, esquina da Travessa da Cara, por muito tempo propriedade de um irmão do galego referido, casa onde se deram banquetes de republicanos presididos por França Borges e gente do Mundo, e que está hoje transformado numa casa de mariscos, depois de ter sido uma pensão; os Irmãos Unidos, que ainda lá estão no Rossio, com as cosinhas para a rua da Praça da Figueira, antiga propriedade dos irmãos Guisados, oriundos de uns galegos, também irmãos, que se associaram na exploração da casa; o Tábuas; o Fôrma ou o Estrela de Prata e o Novo Dia, nas imediações de S. Domingos; o Valmôr, nas avenidas novas, grande centro de reünião de boémios e fadistas; a Taberna Inglesa, com os seus célebres bifes, o Geraldes, o Campo Grande, o Restaurant do Corpo Santo e outros a S. Paulo e no Caes do Sodré; o Friagem na travessa da Palha; o Barracão ou o Fortes, à Trindade, perto do Ginásio, hoje substituído por um bar; o Alfaia na travessa da Queimada, esquina da rua do Diário de Noticias, e o Primeiro de Maio na rua da Atalaia; o Meia Noite na travessa da Agua de Flor; o Tacão na travessa seguinte, onde em ceias bem regadas e famosas se reuniam o Telmo, o Cardoso, o Marcelino Franco e muitos outros actores, jornalistas e artistas; o Bessa da rua dos Douradores, propriedade de um minhoto, nascido na raia galega, cujo filho mais velho é hoje mordomo de um Hotel nas águas de Melgaço; o Pessoa da travessa de Santa Justa, onde davam, com o nome de meia económica, um pratinho com uma pequena laranja ou uma maçāsita, nozes, amendoas e figos, meia económica que esqueceu e é hoje substituída com a mesma gíria por um prato de sopa menos avantajado; a Argentina na rua do Príncipe, hoje do Primeiro de Dezembro; a Cova Funda na rua das Pretas e a Adega da Figueira, à Praça da Alegria; o Alvarinho em S. João da Praça; o Cartaxeiro da rua dos Douradores, com o seu chispe migado; as Velhas na rua da Conceição da Glória, onde a cosinha era manipulada por mulheres da provincia, que também serviam às mesas, casa hoje gerida por uma francesa e pelo seu companheiro, o lutador Manuel Gonçalves (...) »

Nunca consegui alguma publicidade ou referência em listas de casa de pasto ou restaurants ao "Estrella da Sé" no Largo Santo António da Sé, 4 até ao ano de 1990, em que no "Diário da República" de Janeiro é publicada a escritura pública da constituição da firma "Restaurante Estrela da Sé, Lda.", datada de 3 de Janeiro de 1990. Na mesma e no Artigo 1º dos Estatutos: «A sociedade adopta a denominação de Restaurante Estrela da Sé, Lda., e tem a sua sede no Largo de Santo Antonio da Sé, 4, em Lisboa. O objecto social é a indústria de restaurante.»



A sociedade com um capital social de 400.000$00 correspondente à soma de duas quotas, a saber: uma quota de 240.000$00 em propriedade plena em metade e em propriedade quanto à outra metade, de Mabilda Fernandes Cunha de Fernandez, e em usufruto de metade de Rosália Vasquez Serra; e uma de 160.000$00 em propriedade plena quanto a um quarto e propriedade quanto a três quartos, de Maria Dolores Fernandez Fernandes, e em usufruto de três quartos de Rosália Vasquez Serra. Uma confusão ...  e no fim ficaram as três nomeadas gerentes ... 

Agora voltamos ao que escrevi no início ... «(...) ou este Francisco Vasquez Serra ser seu familiar (que estou certo disso e que mais adiante explico) e ter transformado o armazém de vinhos em casa de pasto depois de 1910». Na escritura que transcrevi anteriormente é referida a usufrutuária D. Rosália Vasquez Serra, que tem o mesmo apelido de Francisco Vasquez Serra, (sobrinha-neta de Agapito Serra Fernández) ou seja seria irmã mais velha ou filha deste. O apelido Fernández das outras duas sócias viria da família de Agapito Serra Fernández. Pelo que tenho quase a certeza que o "Estrella da Sé" terá sido fundado, depois de 1910,  ainda por Francisco Vasquez Serra ou um seu descendente.

Em 20 de Fevereiro de 2002, seria efectuado um aumento de capital, com conversão em euros em simultâneo, de 400.000$00 para 5.000 euros, sendo mantida estrutura societária.

Quanto à "Estrella da Sé" terá sido desde a sua criação até aos anos 60/70 do século XX, uma casa de pasto (restaurante para outros) onde ... «Nestas e noutras muitas, de egual natureza, comem economicamente muitos individuos, que fóra d'alli representam como Lords; e por isso o viajante economico ou pouco favorecido da fortuna, póde fazer o mesmo que elles, e é, alugar um quarto, dos muitos que ha desde 2$400 até 6$000 réis por mez, e comer em qualquer das mencionadas casas de pasto, escolhendo a que tiver entrada para os envergonhados, que costuma ser pela porta de serventia geral para o predio.
Escusam de se envergonhar, porque hão de encontrar lá muita gente de colleirinhos primorosamente engommados.» in: "Roteiro do Viajante no Continente"
por João Antonio Peres Abreu (1863).

Tenho curiosidade em saber a razão ou fundamento do ano de 1857, indicado pelos actuais proprietários, Alexandre Ferreira e Dolores Fernandez, para a fundação do "Estrella da Sé". Publicidade, ou documentação antiga? Não estou com isto a por em causa a informação, mas gostava de saber ...

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de LisboaEstação Chronographica, Bairro Estrela d'Ouro