Restos de Colecção: Instrumentos Musicais
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13 de abril de 2025

Ernesto Haupt e Manuel da Silva - Fabricantes de Flautas

Acerca da vida e obra do fabricante de flautas Ernesto Frederico Haupt (c.1720-c.1813) e seus descendentes, optei por transcrever um artigo muito bem escrito e esclarecedor, publicado em Abril de 1895, pela revista "Arte Portugueza - Revista de Archeologia e Arte Moderna sob a Protecção de Suas Magestades" e da autoria do musicólogo, pedagogo, flautista e compositor Ernesto Vieira (1848-1915). Quanto à biografia e actividade comercial de Manoel Antonio da Silva, outro grande fabricante de flautas, recorri-me do "Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes" do mesmo autor, e editado em 1900 pela Casa Lambertini.




Primeira e última páginas do "Prospecto" aquando do início da revista "Arte Portugueza"

«Frederico Haupt, nascido em Berlim, cerca de 1720, estabeleceu-se em Lisboa, pouco antes do terremoto de 1755, numa casa defronte da antiga igreja dos Martyres. Ahi o surprehendeu o terrível cataclysmo, do qual escapou com os seus, ficando, porém, a casa em ruinas; de entre os escombros salvou um pequeno torno, em que trabalhava, e que ainda hoje é conservado pelo seu bisneto, com a estimação de uma reliquia de familia.
Em seguida á nova edificação da cidade, Frederico Haupt foi morar para a rua de S. Paulo, n.° 5 , 2º andar, no predio encostado ao arco grande sotoposto á rua do Alecrim, no andar inferior áquelle em que, tempos depois, Mattos Lobo assassinou a familia do pianista e compositor João Evangelista Pereira da Costa.
Tendo perdido a sua carta de privilegio, naturalmente por occasião do terremoto, Frederico Haupt solicitou a recopilação d’ella, em 1757, o que lhe foi concedido em 19 de novembro do mesmo anno. 
Frederico Haupt trabalhava em obras delicadas, tanto de madeira como de marfim, feitas ao torno, e construía toda a especie de instrumentos músicos também de madeira, taes como flautas, oboés, clarinetes, fagotes e seus congeneres. As medidas e proporções das flautas eram idênticas ás dos fabricantes allemães, os quaes construíam pelos modelos aperfeiçoados do celebre flautista Quantz, mestre de Frederico o Grande; esses modelos são os mais con¬ formes com as boas condições de sonoridade e afinação d’aquelles instrumentos, sob o ponto de vista da sua fórma antiga de tubo conico.
Empregava sempre excellente madeira, fosse ébano ou buxo, escrupulosamente escolhida. E vem aqui a proposito notar-se 0 seguinte facto: os antigos catalogos de fabricantes francezes, mencionando os instrumentos de maior preço, tinham a indicação - ébano de Portugal - para significar que eram construídos com a madeira de melhor qualidade. O ébano que nos vinha do Oriente e enviavamos aos mercados da Europa era reputado como o melhor.
A marca adoptada pelo primeiro Haupt, para distinguir os instrumentos que saíam da sua officina, eram duas cabe¬ ças humanas, vistas de perfil, tendo por legenda - Haupt - Lisboa. Todos os seus descendentes conservaram a mesma marca, de sorte que hoje' não é possível distinguir qual d elles teria fabricado qualquer instrumento que se apresente com essa marca, podendo apenas conjecturar-se a epocha da sua construcção, por certas differenças na fórma. Sómente Ernesto Haupt, de quem adeante fallaremos, empregou um distinctivo particular, em circumstancias que serão mencio¬ nadas no logar proprio.
Sobre a habilidade do primeiro Haupt, conserva a tradição uma anecdota, que eu ouvi contar, ha muitos annos, ao flautista José Gazul. Diz-se que, pouco depois da sua chegada a Lisboa, foi apresentar a el-rei D. José uma pequena peça, trabalhada em marfim, obra de grande paciência e delicadeza. D. José, emquanto a mirava, perguntou:
- Para que serve isto?
- Para metter na algibeira, respondeu o artifice, ao mesmo tempo que tirava o objecto da mão ao rei e o guardava.



Por motivos obvios, esta anecdota não é crivel; mas serve ella para demonstrar que o protogonista deixou memória tradicional de ser summamente habil.

Falleceu em epocha ainda não averiguada, mas que deve ter sido cerca de 1813 , chegando a completar noventa e tres annos de edade. Quando veiu para o nosso paiz trouxe comsigo dois filhos: o primogênito separou-se da famila, e não restam noticias d’elle; o mais novo, que veiu ainda na primeira infancia, pois nascera em Berlim no anno de 1751, foi o successor do pae, e chamou-se Antonio José Haupt.
Tomou este a direcção da casa ainda em vida do seu progenitor, por quanto já no anno de 1785 figura como dono e chefe da officina, agora elevada á categoria de fabrica, segundo se vê no seguinte documento, a muitos respeitos interessante:

"O PRESIDENTE E DEPUTADOS da Junta da Administração das Fabricas do Reino, e Obras de Aguas Livres. Concedemos licença a Antonio José Haupt para que possa abrir nesta Cidade huma Fabrica de Torneiro de Madeira e Metaes em que se fação Instrumentos Músicos castoens de Ouro, e Prata, e outras obras delicadas, que se guarnecem com os mesmos Metaes, á similhança das que neste Reino se introduzião dos estranhos; e isto em virtude da Real Rezolução de sua Magestade, a favor dos Artifices dos Novos Inventos; com declaração porem, que será obrigado a ensinar dous Aprendizes nascionaes, alem dos maes que em numero competente lhe forem arbitrados por esta Junta, instruindo-os sem rezerva alguma, sem que por este respeito lhes possa pedir ou acceitar prêmio algum, nem ainda pecuniário durante o tempo da sua obrigação, que não excederá de cinco annos; fazendo-os igualmente matricular na Secretaria da mesma Junta; e aos referidos dous dentro do tempo de seis mezes, contados da data deste; tudo na forma e debaixo das obrigações do Termo que assignou na dita Secretaria deste Tribunal; visto que pela sua pericia se constitue digno d’esta graça, que lhe facultamos por este Alvará por Nós assignado, e sellado com o sello desta Junta. Lisboa hum de Junho de mil setecentos oitenta e cinco.

(Rubricas inintelligiveis...)
(Sello impresso em branco, com as armas reaes cercadas pela legenda : Junta da Administração das Fabricas do Reino e Agoas Livres.)
No verso: «P. por despacho da Junta de 30 de Mayo de 1785".

Antonio José Haupt continuou trabalhando na officina e casa de habitação da rua de S. Paulo, com a pericia mencionada no precedente documento, e de que o seu actual descendente conserva alguns specimens interessantes. Falleceu aos sessenta annos de edade, em 10 de fevereiro de 1811, deixando por successor seu filho Ernesto Frederico Haupt, nascido em 29 de outubro de 1792.
É este o mais conhecido dos Haupts, aquelle que maior fama grangeou entre os nossos músicos, o qual ainda hoje se designa por Haupt pae, para o distinguir de seus filhos, que adiante mencionaremos.
Haupt pae, ou Ernesto Frederico Haupt, era homem de grande seriedade e consideração, artista habil, intelligente e laborioso, muito dedicado ao paiz em que nasceu.
Em 1810, isto é, quando completava dezoito annos, sentou praça no batalhão de caçadores voluntários de Lisboa, exactamente na epocha em que a capital se preparava para resistir á invasão de Massena.
Não deixou, porém, de trabalhar, ajudando seu pae, e substituindo-o quando elle falleceu.
Em 1828, tendo triumphado o partido absolutista, Ernesto Haupt, que por modo nenhum acceitava as idéas d’esse partido, esquivou-se ao serviço militar, recolhendo-se em casa, e valendo-lhe, para não ser incommodado, os privilégios concedidos a seu avô.
Logo, porém, que alvoreceu o celebre dia 24 de julho de 1833, apresentou-se aos chefes das tropas constitucionaes, e foi, com o posto de tenente, nomeado commandante da força destacada para ir guardar o paço de Queluz. Seu filho mais velho, de quem adeante fallaremos, que então apenas contava quinze annos, imitou-lhe o exemplo, sentando voluntariamente praça n’esse mesmo dia, cabendo-lhe por isso a gloria de tomar parte nos combates das linhas de Lisboa.
Em 1835, Ernesto Haupt, lembrou a utilidade de se organisar no arsenal do exercito uma officina de instrumentos músicos. Acceita a idéa, foi o seu iniciador nomeado para dirigir a nova officina e construir os instrumentos de madeira que se requisitassem, ficando os instrumentos de metal a cargo de um especialista egualmente habil, chamado Raphael, com officina no largo da Graça.
Haupt estreiou-se no serviço do arsenal, fabricando uma flauta de ébano, ricamente guarnecida de prata lavrada, que tinham destinado offerecer ao príncipe Augusto de Leuchtemberg, primeiro marido de D. Maria II, o qual era, como seu pae, o príncipe Eugênio Beauharnais, e sua avó, a rainha Hortencia, muito aftéiçoado á musica.
A morte prematura do sympathico e infeliz príncipe não permittiu que se realisasse a offerta, ficando a flauta construída em poder do arsenal, que ainda a guarda no seu museu. Essa flauta figurou nas exposições industriaes de 1838 e 1888.

- A flauta que Ernesto Haupt construiu por conta do Arsenal do Exercito para ser offerecida ao príncipe Augusto de Leuchtemberg e que se guardava no museu do mesmo Arsenal, foi vendida em 1902, em leilão, juntamente com outros objectos pertencentes ao referido museu. «Felizmente acha-se hoje melhor guardada e mais estimada, em poder do meu bom amigo Alfredo Keil.» 

Exemplo de flauta construída por Ernesto Haupt

Todavia, a officina do arsenal nunca chegou a ter uma organisação definitiva, nem mesmo chegou a funccionar no edifício. O seu director trabalhava, sim, por conta do Estado construindo muitos instrumentos para fornecimento do exercito; porém, na sua própria casa. Os instrumentos feitos n’essas condições receberam uma contramarca especial, consistindo nas iniciaes A E (Arsenal do Exercito), encimadas por uma corôa.
Eram excellentes os instrumentos fabricados pelo Haupt pae. Existem ainda muitos, e alguns d’elles têem a sua his toria: foi feita por elle a velha flauta de cinco chaves em que sempre tocou Antonio Croner durante a sua longa e activissima carreira artística, flauta que lhe foi dada pelo seu bondoso mestre, Botelho; do mesmo fabricante era a flauta de José Gazul, os clarinetes de Carlos Campos, asim como os diversos instrumentos de muitos artistas e amadores, uns já fallecidos outros ainda vivos. O sr. Augusto Haupt possue também com grande estimação a flauta que expressamente para elle foi feita por seu pae, em 1845.
Ernesto Haupt tornára-se egualmente muito apreciado numa especialidade: boquilhas para clarinetes. Os tocadores deste instrumento sabem quanto é difficil obter uma boa boquilha, porquanto a construcção perfeita d’este accessorio exige um acabamento paciente e cuidadoso. A obra d’esta especialidade que vem do extrangeiro é na maior parte ordinarissima e mal acabada. Nenhum dos nossos antigos artistas tocava com boquilha que não fosse feita pelo Haupt. 
Julgo interessante saber-se os preços que este notável fabricante levava por alguns dos seus artefactos, preços que os filhos conservaram até se extinguir a officina: uma flauta de buxo com uma só chave de latão, custava seis pintos (tanto me custou aquella em que comecei a aprender); uma flauta de buxo com cinco chaves de latão, custava moeda e meia; uma flauta de ébano com cinco chaves de prata, cinco moedas; uma boquilha de ébano, dois pintos; de marfim, meia moeda; um clarinete, cinco moedas.
Ernesto Frederico Haupt perdeu a vista quando tinha sessenta annos de edade; sobreviveu ainda dezenove annos a essa catastrophe, fallecendo em 20 de julho de 1871.
Tinha quatro filhos: José Frederico Haupt, nascido em 2 de janeiro de 1818; Ernesto Frederico Haupt Junior, nascido em 9 de dezembro de 1821; Filippe Frederico Haupt; Augusto Frederico Haupt, o unico actual sobrevivente.
Os dois irmãos, José e Ernesto, tomaram conta da officina quando o pae ficou impossibilitado de a dirigir; o mais novo, reconhecendo que o trabalho não podia chegar para todos tres, seguiu outro rumo, tornando-se musico distincto, e, graças a uma intelligencia illustrada, pôde obter um emprego na camara municipal dos Olivaes, onde se acreditou como funccionario serio e bemquisto. Filippe tomou também outra occupação.
José, o primogénito, falleceu em 21 de abril de 1867, ficando desde então só Ernesto Junior á testa da officina.


A industria começou pouco depois a definhar: ensombraram-na os productos bonitos e baratos da fabricação parisiense. Os fabricantes nacionaes não se acharam com energia nem com meios para sustentar a lucta; conservaram os typos antigos, em vez de os alindar, e de os aperfeiçoar no que realmente carecesse de aperfeiçoamento; não poderam ou não quizeram baixar os preços; não procuraram, emfim, fazer frente aos seus competidores, empregando armas eguaes. Enervou-os a demasiada confiança no credito adquirido. O resultado foi o seu completo aniquilamento.
A officina da rua de S. Paulo fora transportada em 1838 para a rua nova da Palma n.° 20, onde esteve até 1840; nesse anno, mudou-se para a rua Augusta n. os 51e 52 , conservando-se ahi por bastantes annos em estado brilhante. Soou, porém, a hora da decadência. As vendas e encommendas foram diminuindo progressivamente, até quasi se extinguirem; chegando o desfalque nas receitas a ponto de não darem para custear as despezas do estabelecimento, Ernesto Haupt Junior foi, em 1869, installar-se numa casa de renda barata, na calçada do Garcia. Nem ahi mesmo pôde, porém, sustentar-se. Ao cabo de poucos annos, viu-se constrangido a largar para sempre as gloriosas ferramentas que tanto brilho haviam adquirido nas mãos de seu pae e de seus avós. A nostalgia do trabalho attribulando-lhe horrivelmente a existência, veiu a dor moral a originar padecimentos physicos, de que muito soffreu. Valeu-lhe n’esses transes angustiosos o carinho fraterno; nem por um só momento sentiu afrouxarem-se os laços de amisade com que viveram sempre ligados todos os membros d’essa honrada familia.
Ernesto Frederico Haupt Junior, depois de prolongada e atroz doença, falleceu em 8 de dezembro de 1891.
A historia d’esta familia é interessante a muitos respeitos. A sua florescência faz parte da historia geral das artes e industrias no nosso paiz, desde a epocha em que receberam o impulso energico dado pela mão vigorosa do marquez de Pombal; a sua decadência deve também constituir objecto de util lição, para ser aproveitada por todos os que se interessam no renascimento da Patria.»


in: "Memoria ácerca do Ensino das Artes Scenicas" de Luiz Augusto Palmeirim

A marca que Frederico Haupt colocava nos instrumentos por si fabricados era somente: «F. Haupt - Lisboa.» Seu filho é que depois adoptou o emblema das duas cabeças.


Acerca do outro conhecido fabricante de flautas Manuel Antonio da Silva (?-1880), estabelecido em Lisboa, em 1807 e como referi no início, recorrendo-me ao "Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes" (Vol II), da autoria do musicólogo, pedagogo, flautista e compositor Ernesto Vieira (1848-1915) e publicado pela Casa Lambertini ...

«Fundou em 1807 a officina e casa de venda que durante mais de setenta annos existiu na rua do Loreto, á esquina da rua do Norte. Construía principalmente flautas, clarinettes, oboés e fagottes, incumbindo-se também da construcção de aparelhos para os trabalhos de physica e chimica, assim como de qualquer outros objectos de metal, madeira ou marfim.
Manuel António da Silva figurou brilhantemente nas primeiras exposições industriaes que se realisaram em Lisboa desde 1822, graças á iniciativa da «Sociedade Promotora da Industria Nacional». "O relatório da exposição de 1838, que foi a segunda realisada, diz a seu respeito o seguinte: 
Os instrumentos músicos feitos pelos Srs. Manuel António da Silva e filhos, morador na Rua do Loreto n.º 79, foram Clarinetas em Befá e em ut (em si bemol e em dó); um oboé de buxo; uma Flauta de Granadilha; um Flautim com embocadura de Flageolet; um Flageolet ordinário; um Corne-Inglez ou Voz humana; e uma Flauta de buxo. Estes Instrumentos são mui sonoros, bem afinados, excellentes em todo o respeito, e tem sido preferidos aos de fora pelos intendedores estrangeiros. "


Referência a Manuel Antonio da Silva na "Revista Universal Lisbonense" de 16 de Fevereiro de 1842


1845

Silva começou em 1839 a fabricar tambem a liga de metaes que produz o metal branco, vulgarmente chamado «prata da Allemanha)). Vendia este metal aos outros industriaes, como annuncia no catalogo que publicou en1 1849, onde se lê:

"Promptifica qualquer encomrnenda da nova liga intitulada Prata d'Alemanha que tem a propriedade de se conservar branca sem mariar, a qual o <lito Fabricante tem a gloria de ter sido o unico que a tem posto em uso em Portugal desde 1839; e, julgando poder ser util aos mais Artistas, a faz a 1440 réis o arratel; podando asseverar (o que se pode verificar pela comparação) que tem aperfeiçoado a composição d'este metal, a ponto, que excede em brilho e brancura ao que vem d' Alemanha, Inglaterrra e França."


1853

Pela mesma occasião fez elle imprimir pela primeira vez a sua «Tabella dos preços», o que foi novidade entre nós; ainda não vi exemplar algum d'esta primeira edição, mas tenho um da segunda, impressa em 1849, a qual faz uma referencia áquella dizendo que diminuia agora os preços. Tem este titulo: «Nova TabcUa dos preços dos Instrumentos Músicos que se fazem na Fabrica Nacional de Manoel António da Silva. Rua do Loreto n.® 79, defronte da Travessa dos Gatos. — Lisboa. 1849.» Julgo interessante notar os preços marcados n'essa tabella para alguns instrumentos que eram então novidade e hoje são os usuaes. Assim: uma flauta de ébano com cinco chaves de prata da Allemanha, «montadas á franceza». e virolas do mesmo metal, cutava 20:500 réis; um instrumento idêntico de fabricação franceza custa actualmente 7:000 réis, e ha doze annos custava 5:000 réis. Verdade seja que Silva, assim como Haupt, empregava nos seus productos o nosso bom ébano de Moçambique, madeira que os fabricantes estrangeiros ha muitos annos deixaram de empregar.
Uma flauta de ébano com cinco chaves e virolas de prata de lei custava 28:800 réis, e se as virolas eram lavradas custava mais 2:400 réis. A flauta mais cara mencionada na referida tabella custava 65:ooo réis; tinha quatorze chaves de prata.
Um clarinette de ébano com treze chaves de metal branco custava 43:200 réis; hoje custa 12:000 a 17:000 réis, fabricação franceza, ébano falso. Um fagotte de quinze chaves custava 72:000 réis.


Capa e excerto da Tabela de 1844




Capa e excerto da Tabela de 1849


Silva construiu muitas flautas com chaves e virolas de prata lavrada, principalmente para amadores; os artistas porém preferiram sempre os instrumentos do Haupt, que consideravam mais afinados. Em todo o caso, nem um nem outro poderam resistir á concorrência franceza, e Silva rendeu-se-lhe tornando-se elle mesmo, de fabricante em commerciante. Em 1865 fez imprimir um "Catalogo de instrumentos nacionaes e estrangeiros da Fabrica e Armazem de Silva, fornecedor dos arsenaes do exercito e marinha."
Mas por essa época já a maior parte dos instrumentos que vendia eram estrangeiros e só fabricava quando especialmente lh'o encommendavam. O negocio também não prosperou, porque havia concorrentes mais hábeis ou mais felizes. Cerca de 1878, Silva pae, já em edade muito avançada, abandonou completamente a casa ao filho, e pouco depois falleceu. 


Antonio Ludgero da Silva foi estabelecer morada e pequena officina n'uma sobreloja da mesma rua do Loreto; passados poucos annos deixou tambem de trabalhar, vindo a fa1lecer obscuro e ignorado, em 23 de fevereiro de 1893, tendo 73 annos de edade. Morava então na rua das Salgadeiras, no mesmo predio onde seis annos antes tinha fallecido Augusto Neuparth»

Bibliografia: 

Alguns documentos in: Dissertação apresentada à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Música, por Alexandre Alberto da Silva Andrade: "A Presença da Flauta Traversa em Portugal de 1750 a 1850" - Universidade de Aveiro (2005).

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca Nacional Digital

29 de outubro de 2024

J.B. Waltmann, Weltin e Marchal - Músicos e comerciantes

No século XVIII a construção de mecanismos dos instrumentos de música, e dos mesmos, encontrava-se localizado nos armazéns de Paris e Londres. A partir destes epicentros eram exportados para toda a Europa, ao qual Portugal não ficou alheio e tornou-se em mais um ponto de recepção através dos armazéns dirigidos por músicos estrangeiros aqui radicados. Foi por influência de músicos como João Baptista Waltmann ou João Baptista Weltin, ambos instrumentistas na Real Câmara, que se inaugurou a comercialização especializada de instrumentos e artigos de música importados, a par da edição musical que conheceu, também ela, um processo de expansão no mesmo período igualmente por influência estrangeira. Recordo que actividade comercial ligada à venda de música (partituras) aparece registada no século XVIII, nomeadamente com Francisco Domingos Milcent em 1787.

Pedro Marchal e João Weltin nos "Avisos" da "Gazeta de Lisboa" de 12 de Novembro de 1791

Já em 1645 ...

"Comedia Moral, e Jocoza" composta por Pero Salgado em 1645, para o "Theatro do Mundo"

Na edição deste artigo acerca destas três importantes músicos, comerciantes e personalidades no meio musical do final do século XVIII e e início do século XIX em Lisboa, inicio cada capítulo referente a um músico com uma pequena resenha biográfica, que para tal me socorri, mais uma vez, da belíssima obra "Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes". Esta obra é da autoria do musicólogo, pedagogo, flautista e compositor Ernesto Vieira (1848-1915) e foi editada, em 1900, pela conceituada e famosa Casa Lambertini, propriedade do grande pianista, afinador e fabricante de pianos, Luiz Joaquim Lambertini (1862-1920).

 João Baptista Waltmann

«Musico allemão que se estabeleceu em Lisboa no fim do seculo XVIII. Tocava trompa e pertencia á orchestra da Real Camara. Em 1791 fazia parte da orchestra do theatro da Rua dos Condes. No segundo semestre de 1792 estabeleceu un1 armazem de musica, que en1 6 de outubro d'esse anno annunciou na Gazeta de Lisboa pela seguinte forma:
"Mr. Waltmann, Musico de Camara de S. M, faz saber ao Publico que elle tem hum armazem de musica vocal e instrumental dos melhores authores modernos para toda a qualidade de instrumentos. Mora na travessa que vai do chafariz do Loreto para a Portaria da Trindade, no terceiro andar das casas de João Fernandes."
Em 1794 ampliou o negocio, mudando-se para a rua de S. Paulo, numero 18, 2° andar. Algum tempo depois encetou a publicação de um jornal de modinhas, imitação de outra empresa realisada antes com bom exito por Marchal e Milcent. O primeiro numero do novo jornal publicado por Waltmann sahiu no 1º de janeiro de 1801 com este titulo: "Jornal de Modinhas Novas Dedicadas ás Senhoras. Lx.ª em Casa de J. B. Waltmann na rua direita de S. Paulo defronte da fabrica dos Vidros ao pé do Arco do Marquez." Em formato oblongo. O trabalho de gravura é assignado por, "Vianna", tendo no frontispicio uma estampa copiada do Methodo de Piano de Pleyel e Dussek.
O Jornal de modinhas durou apenas um anno como publicação regular, mas Waltmann continuou a fazer imprimir  
avulsamente muitas modinhas; em agosto de 1824 ainda annunciava "as bellas modinhas de Joaquim Manoel por Neukom".
Em janeiro de 1802 começou a publicar um "Novo Jornal de Arias Italianas", que tambem teve curta vida.
Foi Waltmann quem primeiro vendeu metronomos em, Lisboa, annunciando essa novidade na Gazeta de 6 de dezembro de  1824, por esta forma:
"No armazem na rua direita de S. Paulo nº 18 defronte da fabrica dos vidros se achão á venda Metronomos ou instrumentos que regem da, maneira a mais positiva os andamentos da musica; bem como servem para regular com exacção a instrucção das marchas nos Corpos de infanteria: com elles se distribuirá um folheto explicativo."
Em julho de 1825 era já fallecido, pois que os annuncios, d'ahi por diante são feitos em nome de "Viuva Waltmann e filhos". O estabelecimento porém pouco mais durou.» (*)


5 de Novembro de 1798

João Baptista Waltmann foi o primeiro vendedor especializado de instrumentos, com uma oferta consideravelmente variada de artigos, regularmente anunciada na "Gazeta de Lisboa". Trompista de origem alemã, com registo de entrada para a Irmandade de Santa Cecília em Maio de 1791, Waltmann foi um músico particularmente activo na sua actividade comercial, mas também enquanto músico.

A partir de 1798 a colocação de anúncios começou a intensificar-se numa lógica de competição clara, a partir da implementação no mercado do seu concorrente mais directo, João Baptista Weltin. Uma semana depois da colocação do aviso de João Baptista Weltin anunciando para venda um «sortimento de instrumentos de vento de todas as qualidades; e que tambem vende instrumentos Mathematicos e Nauticos» (GL 44: 1799/10/29). Os anúncios de ambos os armazéns passam a destacar agora a variedade e quantidade de instrumentos disponíveis, fornecendo cada vez mais detalhes, numa intensificação das estratégias de marketing, para atrair o público interessado. A partir de 1800 Waltmann expande a sua actividade à edição musical, a qual abandonará em 1803 e só voltará a ser relançada pela firma “Viúva Waltmann e filhos”, no ano após a sua morte em 1824. 


3 de Maio de 1800

João Baptista Waltmann, a exemplo dos seu colega de profissão e concorrente comercial João Baptista Weltin (que falarei de seguida) anunciava, pontualmente, a venda no seu armazém de outros produtos, importados ou não, como era o caso de «hum sortimento de Cartas Geograficas do Reino de Portugal, divididas em oito Mapas», «excellente jaleia de França», «arêa luminosa para escrita da mais fina que tem apparecido»  ou xaropes. Tratando-se sobretudo de produtos de luxo que apontavam para um público aberto ao consumo sofisticado e à aquisição das novidades em voga na Europa, e que não por acaso aparecem num jornal ("Correio Mercantil") mais directamente associado a um público ligado à actividade comercial.

João Baptista Weltin

«Outro musico allemão, como o procedente, que se estabeleceu em Lisboa pela mesma época e fundou tambem um armazem de rnusicas e instrumentos.
Era collega de Waltmann, em 1791, na orchestra do theatro da Rua dos Condes, e na da Real Camara onde tocava fagotte.
Parece que era tambem habil no oboé e na flauta, pois que annunciou um concerto em seu beneficio no referido theatro,
dizendo que executaria no "fagotte, boé e flauta differentes tocatas."
Em 1795 tinha um armazem de musicas e instrumentos defronte da egreja dos Martyres nº 21 o qual se conservou até pouco depois de 1823.»
(*)

João Baptista Weltin, como vimos, além de ter desenvolvido uma importante actividade como músico, a expansão da sua actividade à comercialização de música (partituras) e instrumentos importados teve início no ano de 1798, ano em que ...



20 de Janeiro de 1798


1 de Novembro de 1799


18 de Dezembro de 1810


16 de Novembro de 1814


20 de Julho de 1815

A sua actividade comercial abarcou também a distribuição de música impressa importada e a sua, aparentemente limitada, actividade como editor está documentada pelo anúncio à subscrição de dois periódicos de música. Logo no ano seguinte de início de actividade, em Outubro de 1799, Weltin abandona a razão social anunciada de "Real Fabrica de Musica", talvez por se confundir com a de Francisco Domingos Milcent - "Real Fabrica e Impressão de Musica" com alvará obtido em 1788 e localizada «ao largo de Jezus». A partir de então anuncia-se como «Musico da Camara de S. A. R., morador na rua dos Martyres, na esquina que vai dar ao Real Theatro de S. Carlos» in: "Gazeta de Lisboa" de 29 de Outubro de 1799. 

Em 1816 faz seu sócio seu irmão Luis Gonzaga Weltin, do qual não há registo de actividade como músico nem aparecendo inscrito na "Irmandade de Santa Cecília". Constituem então a firma "João Baptista, e Luiz Weltin com armazem de musica defronte da igreja dos Martyres, 21", onde se manteriam até 1824.


1 de Fevereiro de 1819

24 de Abril de 1820

Em 1816 faz seu sócio seu irmão Luis Gonzaga Weltin, do qual não há registo de actividade como músico nem aparecendo inscrito na "Irmandade de Santa Cecília". Constituem então a firma "João Baptista, e Luiz Weltin com armazem de musica defronte da igreja dos Martyres, 21", onde se manteriam até 1824.


1 de Fevereiro de 1819

24 de Abril de 1820

Pedro Anselmo Marchal

«Cravista francez que se estabeleceu por alguns annos em Lisboa, onde foi tambem gravador e editor de musica.
Apresentou-se aqui com a mulher, que era harpista, pelos fins de 1789, dando um concerto na "Assembléa das nações estrangeiras" a 12 de dezembro do mencionado anno. Em 31 de maio do anno seguinte annuncio: um ultimo concerto na mesma assembléa, dizendo assim o respectivo annuncio publicado na "Gazeta de Lisboa" :
"Segunda feira 31 do corrente, nas casas da Assembléa das Nações estrangeiras, darão Mr. e Madame Marechal o seu ultimo concerto de cravo e harpa, em beneficio dos mesmos. Tocarão duetos, modas com variações, e varias tocatas da sua composição; e além disso cantarão os cantores da Camara de S. M. Principiará ás horas costumadas."
Faziam valer os seus merecimentos estes concertistas francezes, pois cada bilhete de entrada custava 1:600 réis, quantia que hoje equivale a mais do dobro.
Em 6 de junho de 1791 deram outro concerto no theatro da Rua dos Condes. Seguidamente, Pedro Marchal estabeleceu um armazem de musicas na rua das Parreiras, defronte da egreja de Jesus, annunciando-o pela primeira vez na "Gazeta" em 16 de setembro d'aquelle anno.
Logo no anno immediato se associou com o gravador, tambem francez, Francisco Milcent, tomando então o estabelecimento o titulo de "Real Fabrica e Impressão de Musica". O annuncio que lhe diz respeito, sahiu em 17 de julho de 1792. E o primeiro emprehendimento dos dois socios foi a publicação de um "Jornal de Modinhas", collecção muito curiosa que Milcent continuou depois de se separar de Marchal. Esta separação teve logar em junho de 1795, indo Marchal estabelecer-se no Chiado e Milcent na rua de S. Paulo defronte da,casa da Moeda.
Marchal deixou ao seu consocio a especialidade das modinhas, dedicando-se a gravar as proprias composições e arranjos; entre as primeiras figura um duetto concertante para cravo e yiolino, uma collecção de vinte e quatro "Preludos ou Caprichos" para cravo, seis "Rondós" para cravo e flauta, e urnas variacões sobre o thema "As Azeitonas novas". Este thema era um dos pregões que as antigas vendeiras de Lisboa cantavam com muito notavel melodia. Além d' estas e outras composições originaes gravou tambem diversos arranjos de obras de Pleyel e outros auctores. Tudo isto representa, corno bem se póde suppor, o trabalho de um compositor medíocre que explora o gosto do vulgo.
Entretanto Pedro Marchal e sua mulher davam todos os annos um concerto na Assembléa dos estrangeiros, onde eram muito applaudidos. Em novembro de 1795 annunciou um concerto de despedida dizendo que partiam para Madrid ; mas ainda depois d'isso estavam em Lisboa, pois que elle em março de 1796 annuncia novas composições á venda no seu  estabelecimento. D'esta data em diante é que não encontro mais noticias a seu respeito.» (*)


3 de Junho de 1791


16 de Setembro de 1791

O primeiro número do "Jornal de Modinhas" foi publicado em 1 de Julho de 1792.


Anno I nº 1 do "Jornal de Modinhas" (1795-1796) de P.A. Marchal e Francisco Milcent


"Moda do Zabumba" de 1792


1796

As edições de Pedro Anselmo Marchal foram apresentadas em português, italiano (língua franca da cultura musical) ou francês (sua língua pátria), como esta: «Sonate Favorite arrangée pour le clavecin ou Piano Forte, avec accompagnement de violon, par P.A. Marchal, Oeuvre 12, Prix 530. Lisbonne, en Caza de P.A. Marchal. Editeur & Marchand de Musique privilegié de S. M.»

Além das suas próprias produções - «Avisa de que imprime um jornal de 24 preludios ou caprichos para cravo de forças graduaes, todos da sua composição» in: "Gazeta de Lisboa" de 20 de Novembro de 1795 - o músico procurou oferecer serviços mais diversificados, gravando e estampando mas, aparentemente, se considerarmos que em breve passaria a Espanha, sem grande sucesso comercial:

28 de Março de 1794

24 de Outubro de 1795

A fim de abrir a sua casa comercial a "Junta do Commercio", criada pelo Marquez de Pombal em 1755, e que mudaria de denominação, em 1788 para "Real Junta do Commercio, Agricultura, Fabricas e Navegação destes Reinos", emitiria o seguinte parecer (excerto):

«Pretendem Pedro Anselmo Marchal Professor de Muzica e sua Mulher Mara Thereza por se terem aplicado a abrirem Chapas para impremir muzica, que V. Magestade lhe conceda a necessaria licença para o estabelecerem huma Fabrica de impreção de muzica, com a clauzula de que nehuma Pessoa possa contrafazer ou mandar impremir as obras, que da dita sua Fabrica sahirem. (...)» 

Já em 1842 uma notícia ...


(*) -  in:  "Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes" de Ernesto Vieira (1900)

Bibliografia:

- "Alguns gravadores activos na edição de música (1765-1830)", de Agostinho Araújo
- Tese apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Ciências Musicais (Musicologia Histórica) - "O Violoncelo na Música Sacraem Portugal entre 1750 e 1834" de Diana Gomes Vinagre - Fevereiro de 201 - NOVAFCSH

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca Nacional Digital

11 de setembro de 2024

E. Meumann & C.ª - Armazém de Pianos

Ernst Meumann (c.1810-1867), pianista, compositor e empresário alemão, nasceu no Grão-Ducado de Hesse em cerca de 1810. Primeiramente viveu em Paris mas, por razões de saúde, decidiu vir para Portugal, estabelecendo-se em Lisboa no início do ano de 1852.

Em 16 de Março de 1853 deu o seu primeiro grande concerto, no "Real Teatro de São Carlos", em Lisboa. No mesmo ano de 1853, por volta do mês de Outubro, e com financiamento de um banqueiro alemão, conseguiu estabelecer um negócio na cidade, um armazém de pianos, que inicialmente funcionava na Rua do Alecrim, nº 35 sob a razão social de "Monteiro & C.ª" 


14 de Março de 1853

19 de Março de 1853


24 de Outubro de 1853


Rua do Alecrim nº 35 a segunda porta à direita do VW

Passo a transcrever a bhografia deste músico publicada no "Diccionario Biografico de Musicos Portuguezes" da autoria de Ernesto Vieira e datado de 1900:

«Pianista allemão que se estabeleceu em Lisboa e aqui falleceu.
Era natural do grão ducado de Hesse Darmstadt, onde nasceu cerca de 1810. Viveu alguns annos em Paris, mas sendo de uma constituição debil veiu procurar no nosso paiz um clima temperado que lhe prolongasse a existencia. Chegou a Lisboa em principios de 1852, dando um concerto no theatro de S. Carlos em 18 de março d'esse anno.
No anno seguinté, auxiliado pelo banqueiro allemão Dotti, estabeleceu urn armazem de pianos na rua do Alecrim, mudando-se em 1854 para a travessa da Parreirinha. N'estc anno esteve no Porto, onde deu alguns concertos, tocando phantasias de Prudent, Fumagalli, Gottschalk, etc., e improvisando no harmonium. Voltou ao Porto em 1855, e tocou com o pianista Wehel e com o violoncellista Jacquard. Por essa occasião estabeleceu tambem n'aquella cidade o negocio de pianos, que ali conservou até 1862.


O Armazem de Pianos já propriedade da "E. Meumann & Comp.ª" em 1 de Abril de 1854


8 de Abril de 1854


Já na a Travessa da Parreirinha (desde 1885 Rua Capelo) em 17 de Dezembro de 1854


Onde funcionou a loja de "E.Meumann & Compª " (dentro do rectangulo desenhado). Nesta foto já o prédio tinha sido "tomado" pela "Companhia dos Grandes Armazens Alcobia"


Mudança de instalações em 19 de Junho de 1854 para a Travessa da Parreirinha 

Vindo a Lisboa em 1863 o violinista Rudolpho Gleichauff, associou-se com Meumann e Guilherme Cossoul para realisarem uma serie de sessões de musica de camara, sob a protecção do rei D. Fernando. Essas sessões, as primeiras no seu genero que houve entre nós, effectuarnm-se no salão do theatro de D. Maria nos domingos 1, 8, 15 e 29 de março do mencionado anno; n'ellas se executaram o trio em dó menor de Beethoven, o quartetto em ré menor de Mendelssohn, o quintetto em sol menor de Mozart, a sonata a Kreutzcr, além de outrlas obras classicas; Meumann apresentou tambem uma sonata de sua composição, para piano e violino, que mereceu os elogios de pessoas esclarecidas. Os outros executantes eram Angelo Carrero, segundo violino, e Manuel Joaquim dos Santos, viola.
Meumann escreveu outra sonata para piano e violino, um ou não sei se mais quartetros para piano e instrumentos de cordas, e diversas composições para piano só; algumas d'estas obras imprimiram-se na Allemanha.
No meiado de 1863 esteve em Paris, onde se fez ouvir, e por essa occasião o jornal musical "Le Ménestrel" publicou um artigo muito elogioso que contém o seguinte periodo:

"Mr. Meunann é allemão como o seu nome e a natureza do seu talento indicam, mas, depois de ter sido parisiense, vive ha dez annos em Portugal, de fórma que, ao lado serio e esthetico que as suas obras devem á sua nacionalidade mesmo e á sua estada entre nós, reune hoje um colorido brilhante que não poderia considerar-se completamente estranho ao generoso sol de Lisboa."



1864


1865

O mesmo artigo cita com muito louvor uma sonata "em ré", para piano e violino, "bella e grande pagina capaz de estabelecer a reputação de um artista, e devendo ganhar-lhe sem contestacão verdadeiros titulos de nobreza em musica."
Depois d'isto nunca mais tornou Meumann a tocar em publico, limitando a demonstração do seu talento ás reuniões intimas e concentrando-se no seu negocio de pianos que lhe fez grangear uma mediana fortuna.
Falleceu em 4 de fevereiro de 1867. Teve alguns discípulos bons, tanto artistas como amadores, contando-se entre estes o visconde de Oliveira Duarte.»

Quanto à loja e armazém de pianos, Ernst Meumann abriria outra na cidade do Porto, em 1859 e em sociedade com o construtor de pianos José Schumacher. O armazém inicial seria montado na Rua das Taypas, mas meses depois, mudaria de instalações para a Praça de D. Pedro, 43, (actual Praça da Liberdade).


7 de Setembro de 1859


21 de Novembro de 1859



8 de Setembro de 1860

13 de Julho de 1864


No "Diario de Lisboa - Orgão Official do Governo Português" de 29 de Março de 1865

Um ano e onze dias antes de falecer (4 de Fevereiro de 1867),  Ernst Meumann viria a ser agraciado com a comenda da ordem militar de Nossa Senhora da Conceição de Villa Viçosa, por El-Rei de Portugal e dos Algarves D. Luiz I  (1838-1889).


24 de Janeiro de 1866

Entretanto, mesmo depois do seu falecimento, o Armazem de Pianos de Lisboa, já sob a razão social "Meumann Sucessores", continuou a sua actividade comercialna Travessa. da Parreirinha, 3 (actual Rua Capêlo).


No "Diario do Governo" de 2 de Julho de 1869

Ainda na década de sessenta do século XIX, vemos aparecerem mais casas ligadas aos comércio em Lisboa de instrumentos musicais, particularmente pianos, todas elas acusando origens em nacionalidades fora de portas: "C. A. Habel", no Largo do Calhariz, 69-71, esquina com a R. das Chagas, com armazém e fabrica de pianos; "Garciatto G.", na Rua do Ferragial de Cima, 36, 3º, oferecendo pianos importados de Paris com preços não elevados; "E. Meumann & Cª ", na Travessa. da Parreirinha, 3, com armazém de pianos e harpas. 

Quanto ao comercio e indústria de instrumentos musicais, no Porto ...

1890

Pelo anúncio anterior se pode concluir que o fabricante de pianos J. Schumacher e sócio de Ernst Meumann, na cidade do Porto, ficou com o estabelecimento após a morte deste último de 1867. Após a demolição da Praça de D. Pedro, para a abertura da, então, Avenida das Nações Aliadas, esta loja mudar-se-ia para a Rua do Almada.


1903


1909