Restos de Colecção: setembro 2023

28 de setembro de 2023

Cantina Escolar de S. Mamede

A "Cantina Escolar de S. Mamede" foi uma "obra do bem", fundada em 19 de Fevereiro de 1911, na Rua do Salitre 192, 1º esquerdo, esquina com a Praça do Brasil (hoje Largo do Rato), em Lisboa, onde se comprovou, mais uma vez, «quanto o espírito da solidariedade humana, em que a caridade é o principal principio, se afirma no povo português de fórma incontestavel».


A direcção da "Cantina Escolar de S. Mamede", em Abril de 1913, era composta pelos seguintes elementos: Josue Narciso dos Santos, presidente; Alfredo José Cardoso Gonçalves, vice-presidente; Antonio Marques Figueira Freire e Manuel Francisco das Neves, secretários; Joaquim Pedro dos Santos, tesoureiro; Flavio Serzedelo Fernandes, vogal.


Fundadores


Fundadores com Joaquim dos Santos Pimenta (sentado à esquerda na foto) em 5 de Outubro de 1925

De um artigo na revista "Occidente" de 13 de Setembro de 1913 retirei o seguinte excerto:

«Se, amparar a velhiçe desvalida no ocaso da vida é uma das expressões mais humanitarias da solidadriedade humana, não se impõe menos o cuidar da infancia desprotegida, como prevenção contra a miseria.
Como são dignos de louvor e agradecimento todos quantos se empenham nesta obra do bem, procurando resolver o grande problema social, conjurando, quanto possível a miseria!
As cantinas escolares são seguro auxílio á escola, habilitando as creanças a frequental-a, proporcionando-lhes livros, vestuario e calçado, meios de limpeza e refeições, tudo, enfim, que as família por seus escassos recursos lhes não podem dar. Assim se salvam centenas de creanças de uma vida miseravel e lhes prepara um melhor futuro, em que, tanto podem ser uteis a si como ás suas famílias e á sociedade em geral.


"Cantina Escolar de S. Mamede" (à esquerda na foto), ainda na Rua Direita do Rato


Localização da "Cantina Escolar de S. Mamede" no Largo do Rato (dentro do rectângulo desenhado)

O reconhecimento seguro deste principio social, tem levado muitos cidadãos prestantes a fundarem as cantinas escolares, quantas vezes com mais fé no proprio esforço do que com capitaes de que dispôr.
Foi o que sucedeu com a Cantina Escolar de S. Mamede. Iniciada numa pequena casa da rua do Rato, por meia dúzia de homens cheios de boa vontade e de abnegação, não tardou que por seus esforços, conquistando adesões á sua ideia, vissem a sua obra do bem prosperar, conseguindo, ao fim de um ano, instalar-se em casa maior, e alargar a sua acção beneficiente a 50 creanças da paroquia de S. Mamede.
Em 31 de Abril de 1913, os seus subscritores já eram em número de 584, sendo um deles o Chefe de Estado Dr. Manuel de Arriaga (1840-1917). Devido ao auxílio do Dr. Couto Nogueira e Dr. Silva Ramos, a Cantina já tinha, em 1913, assistência médica e balneário para o qual contribuiram generosamente os comerciantes e industriais da paróquia Francisco Martins da Costa, Estevão da Silva, Luís Filipe da Silva e José Rodrigues dos Santos. A receita no final de 1912 elevava-se a 998$055 réis, tendo a direcção iniciado a obra da Cantina apenas com 276$000 réis em caixa. «Isto basta para demonstrar quanta força de vontade por parte dos fundadores representa esta obra do bem.»

Carro fúnebre descendo a Rua Alexandre Herculano em foto de Charles Chusseau Flaviens 

E para o caso da algum interessado, aqui fica a publicidade ao estabelecimento por debaixo da "Cantina Escolar de S. Mamede", em anúncio publicitário de 1913 ...



"Cantina Escolar de S. Mamede" esburacada por balas, aquando da Revolta de 7 de Fevereiro de 1927

A "Cantina Escolar de São Mamede" altera os seus estatutos em 12 de Agosto de 1937, e passa a designar-se "Associação Protectora da Infância da Freguesia de São Mamede", sediada no mesmo local e mantendo a actividade educativa e social.

Outras "Cantinas Escolares" foram fundadas nas primeiras 3 décadas do século XX:

- Cantina Escolar da Freguesia de Santa Catarina, fundada em 19 de Outubro de 1916.
- Cantina Escolar da Paróquia da Pena, fundada em 11 de Novembro de 1915.
- Cantina Escolar de São Miguel, fundada em Alfama em 5 de Março de 1917.
- Cantina Escolar da Freguesia das Mercês, fundada em 7 de Janeiro de 1930.
- Cantina Escolar Flores de Benfica, fundada na Estrada de Benfica em 19 de Setembro de 1921.
- Cantina Escolar da Junta de Freguesia de Arroios, fundada em 23 de Junho de 1929.
- Cantina Escolar da Associação Popular e Beneficência e São Cristóvão e São Lourenço, fundada na Costa do Castelo em 6 de Agosto de 1913.
- Cantina Escolar da Associação de Assistência Infantil da Paróquia Civil de Camões, fundada em 6 de Agosto de 1913.
- Cantina Escolar de Alcântara, fundada em 23 de Março de 1905.
- Cantina Escolar da Assistência Popular da Paróquia Civil Marquês de Pombal, fundada em 20 de Novembro de 1915.
- Cantina Escolar da Freguesia da Lapa, fundadad em 24 de Março de 1931
- Cantina Escolar da Sociedade de Beneficência da Freguesia da Sé e S. João da Praça, fundada em 14 de Abril de 1939.
- Cantina Escolar da Freguesia dos Mártires (Escola 5 de Outubro), fundada em 20 de Abril de 1915.
- Cantina Escolar da  Assistência Popular da Paróquia Civil Marquez de Pombal, fundada em 19 de Novembro de 1915.
- Cantina Escolar da Junção Humanitária Amor e Carinho e de Sociedade de Beneficência da Freguesia da Sé e São João da Praça, fundada em 11 de Janeiro de 1922.
- Cantina Escolar da Sociedade de São Vicente de Paulo, Associação de Caridade de Santos-o-Velho ou Conferência de São Vicente de Paulo, fundada em 19 de Dezembro de 1930.

Agradecimento:  Muito agradeço, a valiosa contribuição na foto dos fundadores e fontes históricas, disponibilizadas por D. Maria João Dias Pimenta, neta de Joaquim dos Santos Pimenta (na foto acima).

24 de setembro de 2023

Lourenço & Santos, Lda. - Alfaiataria

A alfaiataria "Lourenço & Santos, Lda." foi fundada em 10 de Maio de 1910, na Rua do Príncipe (actual Rua do Primeiro de Dezembro) esquina com a  Praça dos Restauradores, em Lisboa. Foram seus sócios-fundadores Miguel Pereira Lourenço e Manuel Gomes dos Santos, dois nomes reputados no ramo. Teve como seu primeiro cliente o sr. J. S. Moura que encomendou «um completo jaquetão».

Miguel Lourenço, tinha trabalhado como contra-mestre na casa "J. Nunes Corrêa & C.ª - Armazém de Fazendas e Fato Feito", fundado em 14 de Abril de 1856, e depois sócio da casa "Marques & Lourenço" no Chiado. Quanto a Manuel Gomes dos Santos, além de ter sido empregado em alguns estabelecimentos da sua arte, tinha sido proprietário do atelier de modista "Le Chic Parisien", na avenida da Liberdade, nº 11. Este convidaria seu irmão, José Gomes dos Santos, para trabalhar na nova alfaiataria o que aceitou e o fez por seis anos. 

Tendo as suas amplas e excelentes instalações numa das lojas do "Avenida Palace”, a firma "Lourenço & Santos, Lda." viria a tornar-se numa das melhores alfaiatarias de Lisboa, graças à competência dos seus funcionários e à importação directa de tecidos era um estabelecimento de requintada elegância e bom gosto.



Lojas "Tabacaria Phenix", "Albert Beauvalet" (automóveis) e "Lourenço & Santos, Lda." (na esquina)

Três dias após a Revolução de 5 de Outubro de 1910,  Afonso Costa (1871-1937), nomeado ministro da Justiça e Cultos do Governo Provisório (depois Ministro das Finanças e Presidente do Ministério), entrou na "Lourenço & Santos, Lda." e mandou fazer uma casaca (44 mil réis), um fraque (27 mil réis) e umas calças de fantasia (10 mil réis), porque as suas novas funções assim o exijiam ... Uns dias depois, foi a a vez do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Bernardino Machado (1851-1944), (nomeado Presidente da República, em 1915), de encomendar fraque e calças, tendo gasto um pouco menos que Afonso Costa.

De referir que, a “Lourenço & Santos, Lda.” instalou-se numa loja onde anteriormente funcionava a loja de flores e corôas “A La Ville de Paris” de Marius Lathelize, que era sucursal lisboeta, da sede em Coimbra e que era propriedade de F. Delport, que mantinha outra sucursal no Porto.


Loja "A La Ville de Paris" em 1893


11 de Março de 1893

A partir de 1913, a “Lourenço & Santos, Lda.” deu início à comercialização de tecidos para roupa de senhora, havendo notícia de encomendas de Madame Anahory, mulher que nessa época, era tida como «uma das senhoras mais chiques de Lisboa». Existe, igualmente, registo datado de 18 de Fevereiro de 1914, de encomendas de peças de roupa em nome de mademoiselle Amélia Rey Colaço. Outros clientes famosos como Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955) ali se vestiam e que já doente, ali mandava fazer os seus fatos que eram provados no "Aviz Hotel". Ainda outros como o Prínce Rainier III do Mónaco, S.A.R. Dom Duarte de Bragança, empresários, advogados, políticos, etc.

Entretanto, Miguel Pereira Lourenço, retira-se da actividade comercial e fica o seu sócio Manuel Gomes dos Santos como único proprietário, durante alguns anos, até 1926, altura em que reconstitui o pacto social da firma, dando sociedade a vários dos seus mais devotados empregados, entre os quais Augusto Lopes. Devido ao afastamento sucessivo dos restantes sócios era, em 1945 o único proprietário do estabelecimento.

Augusto Lopes

Augusto Lopes, natural de Lisboa, entrou para o comércio com 14 anos de idade, iniciando a sua aprendizagem na casa "Machado, Torres & C.ª ", fundada em 1901 na Praça D. Pedro IV esquina com a Rua da Betesga. Serviu nesta casa até à abertura da "Lourenço & Santos, Lda." na qual ingressou como caixeiro. Sob a sua orientação esta reputada alfaiataria, continuou não só a fornecer o seu grande sortido de fazendas, como também manteve o corte impecável de todo o vestuário executado nas suas oficinas.

Entretanto José Gomes dos Santos, como já foi mencionado anteriormente, irmão do fundador Manuel Gomes dos Santos  tinha sido seu funcionário, entre 1910 e 1916, ano em que constituiu a firma "Castilla & Santos", numa loja do "Palácio Foz". Porém, em  28 de Janeiro de 1926 constitui a firma "J. Gomes dos Santos, Lda." abrindo uma nova alfaiataria, em 3 de Outubro de 1941, também na Praça dos Restauradores, ao lado da "Guérin, Lda."

Por volta de 1956, nova alteração no pacto social da "Lourenço & Santos, Lda.", com a entrada de José Augusto Guerra Machado (filho de Augusto Lopes), Álvaro Santos e Manuel Gomes da Silva que se juntam a Augusto Lopes. Por morte deste último, José Augusto Guerra Machado herda a parte do pai e compra as cotas a Álvaro Santos e a Manuel Gomes da Silva, ficando desse modo único proprietário.

José Augusto Guerra Machado

Em 1955 o "Avenida Palace", desentende-se com a "Lourenço & Santos, Lda." ao querer a desocupação do espaço que tinha arrendado à alfaiataria, o que leva à firma, no entretanto, a arrendar outro espaço na mesma Praça dos Restauradores, num prédio que era propriedade de Stanley Ho.

Em 8 de Outubro de 1957, a "Lourenço & Santos, Lda.", inaugura a sua segunda loja na Praça dos Restauradores, no nº 47 A-B, bem perto do cinema "Condes". Vinha substituir a "Pastelaria Riviera", que por sua vez tinha substituído uma loja de flores. Esta nova loja, - que eram duas ligadas interiormente na rectaguarda e na cave, tendo sido projectada pelo arquitecto Carlos Tojal, que viria a ser, igualmente, responsável pelo projecto de remodelação e ampliação da "Loja das Meias", em 1960. A sua decoração incluía balaustradas, balcões abertos, tectos em níveis, chão em tacos de azinho envernizados. Na cave, a sala de provas também com uma decoração cuidada e as salas da alfaiataria. As montras amplas tinham o nome da firma em néon e numa das entradas a marca em calçada à portuguesa.


8 de Outubro de 1957


Loja da "Lourenço & Santos, Lda." na Praça dos Restauradores, 47 A-B




Primitivas lojas antes do "Lourenço & Santos, Lda." (dentro do círculo desenhado) 


Ainda antes das lojas construídas. Edifício a seguir ao que tem a tabuleta dos "Móveis de Ferro Depósito" (de José A.C. Godinho desde 1897)


Obras de alteração das lojas 47 A-B e limpeza da fachada do prédio


Loja do "Lourenço & Santos, Lda." (dentro da elipse desenhado), em 1961

Entretanto o desentendimento com os proprietários do "Avenida Palace" ficou sanado, e a "Lourenço & Santos, Lda." manteve as duas lojas na Praça dos Restauradores. Por altura da comemoração do seu primeiro cinquentenário ("Bodas d'Ouro"), em 1960, a loja no edifício do "Avenida Palace” é alvo de melhoramentos e de introdução das secções de camisaria e novidades. A sua reabertura teria lugar em 19 de Dezembro de 1960.









No final do século XX, as camisas ainda eram feitas à mão e por medida, pacientemente cozidas por quatro ou cinco das melhores costureiras, das poucas que restavam saber casear, cerzir, colocar punhos e colarinhos e outros pormenores importantes, já que o cliente escolhia o tecido e o colarinho que mais gostava. Numa enorme gaveta existiam centenas de moldes de colarinhos em cartão, com o nome dos clientes e respectivas medidas. A loja contava agora com atelier de camisaria, atelier de alfaiataria, e antigo escritório.







Fraque, colete e calças feitos por "Lourenço & Santos, Lda."

A firma "Lourenço & Santos, Lda.", deixaria as suas instalações, no edifício do "Avenida Palace" em 2006, passando a ser ocupada, na altura, pela “Calzedonia”, (loja de meias, peúgas, collants, leggings, fatos de banho), e ficaria apenas com a sua segunda loja, da Praça dos Restauradores, nº 47 A-B anteriormente mencionada.


Imagem via "Google Maps", em 11 de Novembro de 2018

Em 2009, a firma "Lourenço & Santos, Lda." foi adquirida pelo grupo "Diniz & Cruz - Vestuário do Homem, Lda." detentor das marcas de pronto-a-vestir, feminino "Dalmata" e masculino "Do Homem".

Fotos seguintes de 2018


Duas lojas ligadas interiormente na rectaguarda e nas caves





Entretanto a “Lourenço & Santos, Lda.” foi extinta, e a respectiva loja deu lugar a duas, com diferentes finalidades.


Actualmente duas lojas, onde funcionou a loja de "Lourenço & Santos, Lda.", via Google Maps

Enquanto que a loja original no edifício do "Avenida Palace" é actualmente ocupada, pela loja de pronto-a-vestir para homem e senhora "Falconeri".


"Falconeri", via Google Maps

Para terminar uma pequena história publicada por José Gomes Ferreira em 29 de Março de 1975, em que conta que indo Guerra Junqueiro um dia a passar por ali, e por ser muito forreta, entrou no Lourenço & Santos para mandar colocar fundilhos numas calças, em vez de mandar fazer umas novas. Dias depois, quando as foi buscar, o empregado disse-lhe que por tal trabalho, não lhe cobravam nada! ... 

Agradecimento:  Muito agradeço, a valiosa contribuição em fotos e dados históricos, disponibilizados por D. Manuela Machado, filha de José Augusto Guerra Machado, que em muito ajudaram, e valorizaram, a elaboração e edição deste artigo.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital