Restos de Colecção: Tipografias
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27 de janeiro de 2025

Empreza do Bolhão, Lda.

A "Empreza do Bolhão, Lda." foi fundada em 16 de Maio de 1923 e teve a sua génese na extinta  "ETP - Empreza Technica Publicitaria" de "Raul de Caldevilla & Cª, Lda." que tinha sido fundada, em 1912,  por Raul de Caldevilla  (1877-1957), na Rua 31 de Janeiro,165, no Porto, como "Organização de Propagandas de Raul de Caldevilla & C.ª , Lda.". após o seu regresso à sua cidade, depois de ter sido vice-cônsul em Cádiz e agente comercial na América Latina, Egipto e Médio Oriente. A "Empreza do Bolhão, Lda." ficou sediada nas mesmas instalações que a sua antecessora utilizava desde 1917, no Palácio do Bolhão, na Rua Formosa no Porto.


"Palácio do Bolhão", onde funcionaram a "ETP - Empreza Technica Publicitaria" e "Empreza do Bolhão, Lda." Pode-se avistar a fotografia "Emilio Biel, Lda."

Esta empresa viria a ser pioneira na introdução da publicidade exterior tendo-se celebrizado quando patenteou os primeiros outdoors e quando começou a afixar os primeiros cartazes publicitários de grandes dimensões. O seu dinamismo e criatividade depressa fizeram com que se transformasse numa das mais conceituadas empresas no sector, assim como mais tarde a outra empresa do sector, “Empreza do Bolhão, Lda.”, sua sucessora.

Raul de Caldevilla, actor teatral nos primórdios do século XX, como inspirado publicitário, destacar-se-ia no cinema português em 1917. Em 1919, Raul de Caldevilla prestigiou-se ao organizar o lançamento comercial do filme “A Rosa do Adro”, dirigido por Georges Pallu para a Invicta Film, anunciado sob o lema «Romance Português - Filme Português - Cenas Portuguesas - Actores Portugueses».




Interiores da "Organização de Propagandas de Raul de Caldevilla & C.ª , Lda.", que seria herdada pela "Empreza do Bolhão, Lda.

Em 1921 com a comparticipação dos capitalistas nortenhos Eduardo Kendall, João Manuel Lopes de Oliveira e António de Oliveira, cria a Empreza Tecnica Publicitaria Film Grafica Caldevilla - abreviadamente apelidada "Caldevilla Film".

Em 26 de Junho de 1923, estreia-se no “Jardim Passos Manoel”, o filme "As Pupilas do Senhor Reitor" realizado por Maurice Mariaud (1875-1958). Viria ser o último filme produzido pela “Caldevilla Film”. De facto, sobrevieram litígios financeiros com os sócios capitalistas da empresa, pelo que, em 1923, Raul de Caldevilla pediu a demissão de administrador-gerente da “Caldevilla Film”, e que viria a ditar o fim desta empresa. 

1923

Os sócios Eduardo Kendall, João Manuel Lopes de Oliveira e António de Oliveira, fundariam, logo de seguida, e a 16 de Maio do mesmo ano, a  "Empreza do Bolhão, Lda.". Esta nova empresa deu seguimento ao trabalho da ETP que tinha sido pioneira na introdução da publicidade exterior, tornando-se célebre quando patenteou os primeiros "outdoors" ou "tabuletas" e quando começou a afixar os primeiros cartazes publicitários de grandes dimensões. O seu dinamismo e criatividade depressa fizeram com que se transformasse numa das mais conceituadas empresas no sector, O seu dinamismo e criatividade depressa fizeram com que se transformasse numa das mais conceituadas empresas no sector.


No ano de 1928, a "Empreza do Bolhão, Lda." passa a ter como únicos sócios João Manuel Lopes de Oliveira e Raul Lopes de Oliveira. Decorridos os primeiros anos, a empresa evoluiu, concentrando o seu foco na publicidade de vinhos e águas, através das relações privilegiadas que mantinha com as famílias Calém, Adriano Ramos Pinto, com ênfase no universo “Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas”.

No ano de 1939, Raul Lopes de Oliveira fica à frente dos destinos desta empresa, continuando a obra iniciada por seu pai, juntamente com o seu irmão João Lopes de Oliveira. Após o prematuro falecimento do irmão, Raul Lopes de Oliveira viria a dedicar toda a sua vida a esta empresa, desenvolvendo-a e modernizando-a.


1924

1925

Além da colaboração dos distintos designers, ilustradores e artista gráficos Diogo de Macedo (1889-1959), Fred Kradolfer (1903-1968), Almada Negreiros (1893-1970), Roque Gameiro (1864-1935), destacou-se como criador e designer da nova empresa o ilustrador, caricaturista, cenógrafo e publicitário o portuense António Cruz Caldas (1898-1975). Entre as muitas funções que exerceu, destacam-se as publicações regulares na imprensa da época - "O Comércio do Porto", "O Tripeiro" - e a colaboração, a partir de 1934, com a "Empreza do Bolhão, Lda." - empresa gráfica e litográfica. O trabalho, grande interesse e pioneirismo de Raul Caldevilla na publicidade, em muito influenciou este designer.


1925


"Futebol Feminino" em 1927


1929


1930

António Cruz Caldas ao ter frequentado a "Escola de Belas Artes do Porto", o desenho teve um peso significativo na sua obra, composta por uma considerável coleção de caricaturas. Começa, aliás, a colaborar como caricaturista nos jornais "Sporting" e "Cócórócó". O trabalho de Cruz Caldas inscreve-se no contexto do modernismo, seja por influência da formação artística (foi discípulo de Acácio Lino e Teixeira Lopes), seja na vertente profissional ou mesmo pessoal, uma vez que a pintora Aurélia de Sousa era sua madrinha. Assim se afirmou um criador multifacetado que entendida o papel que a comunicação adquiria em todos os domínios da vida, bem como a dimensão artística que lhe estava associada. 


António Cruz Caldas e esposa na "Noite de Orvalhadas" no Orfeão do Porto


Raúl Alves Machado de Oliveira com Cruz Caldas a seu lado no cinquentenário da "Empreza do Bolhão, Lda.", em 1973 no "Vidago Palace Hotel"

Do seu arquivo fazem parte, por exemplo, estudos para o cartaz da “Bienal Internacional de Arte de São Paulo”, o cartaz da opereta "O Pardal de São Bento", ou o estudo e maquetas para logotipo e anúncios da firma "Jomar". Em 1926, participou no "Salão dos Humoristas Portugueses Salão Silva Porto", um espaço cultural por onde passaram outros artistas do modernismo, como o pintor Júlio Resende. Além da caricatura e publicidade, trabalhou, também, como ilustrador de capas de livros e começou a colaborar assiduamente com instituições da cidade, como o "Teatro Sá da Bandeira" ou "Orfeão do Porto", na elaboração de cartazes e programas, ao serviço da "Empreza do Bolhão, Lda.".


Cenário de Cruz Caldas  para a revista "Ó Meu Rico São João" , no "Teatro Sá da Bandeira", em 1938


Biscoitos e bolachas "Bolhão

Na década de 60 do século XX, o filho de Raúl Lopes de Oliveira, Raul Manuel Alves Machado de Oliveira torna-se Administrador da "Empresa do Bolhão, Lda." Viria a conseguir a a sobrevivência da empresa resistindo às convulsões políticas e laborais do pós 25 de Abril de 1974, que se manifestaram no plano financeiro e laboral. Depois de anos difíceis, e de um acumular de prejuízos, Raúl de Oliveira consegue uma injecção de capital por parte do "Banco Borges & Irmão", o que permitiu não só a empresa sobreviver como recuperar e voltar aos resultados positivos.


1950


Calendário de parede


1950


1960

Os anos foram passando, e consegui aceder a alguns "Diário da República" que me ajudaram a conhecer os sócios e gerentes desta empresa, a partir da década de oitenta do século XX, assim:

- Em 14 de Maio de 1982, escritura de unificação de quotas e partes de quotas, «o capital social, integralmente realizado, é de 600 000$ e dele pertence uma quota do valor de 420 000$ ao socio Dr. Raul Manuel Alves Machado de Oliveira e uma do valor de 20 000$ a cada um dos sócios Maria da Conceição Capelo Alves Machado da Costa Sousa Macedo, Dr. Pedro Paulo de Morais Alves Machado, Dr. Manuel Gonçalo de Morais Alves Machado, Dr.ª Maria Isabel Alves Machado Guedes, Fernando Pedro Alves Machado Guedes, Luís Manuel Alves Machado Guedes, Dr. Roberto Cristiano Alves Machado Guedes, Maria Helena Alves Machado Guedes da Cruz Almeida e engenheiro Antônio Gil Alves Machado Guedes».

- Em 2 de Novembro de 1988, escritura de aumento de capital de 600.000$00 para 16.200.000$00. «O capital social, inteiramente deliberado, é de 16.200.000$, sendo de 11.340.000S00 a quota do sócio Dr. Raul Manuel Alves Machado de Oliveira e de 540 000$ a quota de cada um dos restantes sócios Maria da Conceição Capelo Alves Machado da Costa de Sousa Macedo, Pedro Paulo de Morais Alves Machado, Manuel Gonçalo de Morais Alves Machado, Maria Isabel Alves Machado Guedes, Fernando Pedro Alves Machado Guedes, Luís Manuel Alves Machado Guedes, Roberto Cristiano Alves Machado Guedes, Maria Helena Alves Machado Guedes da Cruz Almeida e Antônio Gil Alves Machado Guedes».


Postal publicitário



Raul Machado de Oliveira sofre um acidente em Dezembro de 1988 e acaba por falecer em 1990. Em Outubro desse ano, a "Higifarma, SGPS, S.A.". torna-se na única acionista da "Empresa do Bolhão, Lda." .

Ainda no "Diario da Republica" de 19 de Julho de 1991,  a aquisição da "Empresa do Bolhão, Lda." pela "Higifarma, SGPS, S.A.". «O capital social, inteiramente realizado, é de 16 200 000$00, representado por uma quota de igual montante pertencente à Higifarma, S. G. P. S., S. A.». A sede continuou na Rua Formosa, 342, no Porto. A "Higifarma, SGPS, S.A." torna-se, assim, a única acionista da "Empresa do Bolhão, Lda.", passando a ter como administradores, Dr. Caetano Beirão da Veiga, Dr. Alexandre Martins e Hélder Bexiga Tomás de Almeida que se tornará o Presidente da "Higifarma, SGPS, S.A.".

Em 17 de Fevereiro de 1994, e segundo o "Diário da República" são nomeados os gerentes para a "Sociedade do Bolhão, Lda."«Certifico que, na sociedade em epígrafe, foram nomeados para o cargo de gerentes António Alexandre de Almeida Martins, Caetano Espírito Santo Beirão da Veiga e Hélder Bexiga Tomás de Almeida.»

Pouco tempo depois a "Sociedade do Bolhão, Lda.", passa a sociedade anónima de responsabilidade, mudando a sua designação para "Sociedade do Bolhão, S.A.", aumentando o seu capital social para 90 000 000$00.


A "Empreza do Bolhão, S.A." viria a absorver a "Poligráfica" - herdeira da "Litografia Progedior" e da antiga "Litografia Progresso"- e a "R. Durão". Estavam assim reunida numa só empresa uma série de valências que seriam mais valias para o futuro. Se a "Empresa do Bolhão, S.A." baseava a sua actividade nos catálogos, cartazes, placards, calendários, rótulos, desdobráveis, cartas, postais, selos, acções, letras, cheques, mapas e embalagens, a Poligráfica estaria mais vocacionada para o PPV, artes gráficas e displays.

Pouco tempo depois viria a surgir a "Packigráfica, S.A.", que era o resultado directo da aquisição de uma instituição centenária por um dinâmico e seguro grupo. «É a vibrante evolução de produto de duas companhias de sucesso: Empreza do Bolhão e Grupo Higifarma», podia-se ler numa brochura do Grupo.

Com a criação deste grande grupo económico "Higifarma, SGPS, S.A." o objetivo da formação de um grande cartel empresarial na cartonagem e embalagens era uma realidade. Empresas como a "Lifresca S.A.", a "Etiforma Lda", a "José Henriques Lda", a "Eurembal Lda", a "Laboplaste Lda", as Packigráfica/Empreza do Bolhão S.A., a "Litográfica do Sul S.A.", a "Litografia Nacional S.A.", a "Unipromo, Noripex, Blister SA", a "Nova Proemba" e a "Eurodisplay" englobavam assim a ""Higifarma, SGPS, S.A.".

Outra das questões que se levantou entre 1994 e 1995, já na gestão de Caetano Espírito Santo Beirão da Veiga, foi a transferência das instalações da "Empresa do Bolhão, S.A." para a Maia. Este facto relevante na vida da empresa foi confirmado numa carta assinada por Caetano Beirão da Veiga, onde transmitia que «como estava previsto aquando da aquisição da empresa, e é do conhecimento de todos, o funcionamento da Empreza do Bolhão Lda nas suas actuais instalações seria por tempo determinado, o qual estará prestes a terminar. A mudança de instalações ter-se-á de efectuar até ao mês de junho do corrente ano. Além daquele motivo, é manifesto que a Empreza não poderia continuar nas actuais instalações por mais tempo. Desde logo, o seu desenvolvimento e, consequentemente, a sua viabilização estava a ser posta em causa.
Com estas instalações industriais, em pleno centro da cidade do Porto, o acesso para aprovisionamento de matérias-primas e carregamento de obra acabada, torna-se dia-a-dia mais problemático. A situação tornou-se mesmo inviável com a alteração recente das condições de trânsito na rua de acesso, ao ser suprimido o estacionamento em frente à Empresa, tornando a rua na sua totalidade de faixa de rodagem.
Por outro lado, a impossibilidade de expansão das instalações tornou impossível qualquer tentativa de renovação do parque de máquinas, sendo que as aquisições ultimamente efectuadas não estão a laborar nas melhores condições de rendimento. Acresce a isto e de acrescida importância, que é quase impossível, - pela impossibilidade de efectuar obras -, dar cumprimento a determinações.
Assim, procurou a gerência da Empreza proceder à transferência da mesma para umas instalações que permitissem satisfazer todas aquelas condições o que, e após uma primeira tentativa e que se gorou, - aliás por questões de saúde pois fazia sentir-se, de forma não aconselhável, os efeitos de uma indústria de tratamento de lixos -, acabou por se encontrar solução e localiza-se no concelho da Maia, mais concretamente, no lugar do Rio – (E.N. 107) Nogueira da Maia, junto à instalações da Finexport e Giannone»

Pelo que, em Janeiro de 1995, é efectivada a transferência das instalações para a Rua Dr. Joaquim Nogueira dos Santos, 135 no lugar do Rio em Nogueira - Maia, distrito do Porto.


Instalações da "Packigráfica" na Maia

Em 1998, a grande "Litografia Nacional", que tinha sido fundada em 1894, na cidade do Porto, por João Ignacio da Cunha e Souza (1821-1905), entra para a "Packigrafica, S.A.".

Ainda, e segundo publicação em "Diário da República" de 2 de Maio de 2005, e segundo deliberação de 31 de Março de 2004, nomeação de administradores da "Empresa do Bolhão, S.A." para o triénio: «Certifico que foi depositada acta onde consta a designação dos membros dos órgãos sociais para o triênio de 2004-2006.
Conselho de administração: presidente, Hélder Bexiga Tomás de Almeida, casado, residente (...), Cascais; vogais: Caetano Espírito Santo Beirão da Veiga, casado, residente (...), Vila Franca de Xira; António Alexandre de Almeida Martins, divorciado, residente (...), Barreiro; Fernando Manuel de Oliveira Ribeiro, casado, residente (...) Porto; Joaquim de Sousa Nunes, casado, residente (...) Matosinhos; Fabrice Max Rozemblum Tomás de Almeida, casado, residente (...) Cascais; Bruno Afonso Fernandes de Arriscada Molarinho do Carmo, casado, residente (...), Sintra.»

Com a queda do "Banco Espírito Santo" em 2014, o "Grupo Higifarma SGPS começou a sentir dificuldades de financiamento e o que parecia uma sólida concentração empresarial, acaba por entrar em processo de insolvência, arrastando consigo todas as empresas do Grupo - Packigráfica, EuroDisplay, Litográfica do Sul, Lifresca, Etiforma, Laboplaste e Eurembal.

Na altura do seu encerramento definitivo a actividade (CAE) da "Empresa do Bolhão, S.A." era: «Indústria gráfica, organizar e dirigir propaganda no País e no Estrangeiro, vender todos os materiais destinados à publicidade, explorar concessões, impressionar e vender filmes.». Depois dos seus bens imóveis terem ido a leilão em 25 de Fevereiro de 2021, a insolvência da "Packigráfica" viria a ser declarada insolvente em Maio de 2023.

Contudo, e felizmente, «o espólio da Empreza do Bolhão foi adquirido pelo município da Maia, na sequência da liquidação da "Packigráfica", com intuito de manter a integridade do valioso património gráfico e de o manter disponível na esfera pública. Quando a Empreza do Bolhão fechou, "esse espólio foi vendido em hasta pública e a Câmara Municipal da Maia conseguiu adquiri-lo". Rui Menezes revela que o objetivo sempre foi o de "preservar e depois o pôr à disposição da comunidade para ela poder ser estudada e para lhe darem valor".»


"Arquivo" histórico da "Empreza do Bolhão, Lda." aquando do leilão das instalações da "Parkigráfica"

Entre 1 de Abril de 2022 e 31 de Março de 2023 esteve patente no "Museu de História e Etnologia da Terra da Maia", a exposição "A Empreza do Bolhão - 100 anos de História(s)", «que reúne grande parte do espólio documental das empresas de Caldevilla e da Empreza do Bolhão e que ilustra, de forma significativa, a evolução da indústria litográfica do séc. XX em Portugal.»


Nota: Este artigo foi elaborado a pedido da "Revista da Maia 2024", que amavelmente o publicou na mesma.

Bibliografia: Mestrado em Design - "O cartaz publicitário na obra gráfica de António Cruz Caldas" de Tina Joanna de Castro Moreiras - Escola Superior de Media Artes e Design Politécnico do Porto - Dezembro de 2019.

Agradecimento: à colaboração histórica do Dr. Rui Teles de Menezes - Técnico Superior de História no Gabinete de História do Departamento de Educação, Ciência e Cultura da Câmara Municipal da Maia.

fotos in: Arquivo Municipal do Porto, Biblioteca Nacional DigitalArquivo Nacional da Torre do Tombo

20 de março de 2024

Editora David Corazzi

David Augusto Corazzi (1845-1896), foi um editor ímpar. Fundou, em 1870, a sua "Empreza Horas Romanticas", que teve a sua sede e oficinas tipograficas na Rua da Atalaya 40-52, esquina com a Travessa da Espera, em Lisboa, e que viriam a ser, a partir de 16 de Setembro de 1886, as primeiras instalações dos "Moveis Olaio".

Primitivas instalações da "David Corazzi - Empreza Horas Romanticas", na Rua da Atalaya, já ocupadas pela "José Olaio" desde 1896.



Selo da "Casa Editora David Corazzi"

Aquando da sua morte, em 28 de Novembro de 1896 «vitimado por uma lesão cardíaca» a revista "Occidente" escrevia em tom de elogio fúnebre:

«Entre os homens de mais iniciativa em o nosso paiz, - poucos são elles valha a verdade - contava-se certamente David Corazzi, o grande editor, que durante dois lustros animou extraordinariamente o pequeno mercado litterario de Portugal, editando grande numero de livros, na maior parte traduções de romances de sensação com que popularisou a sua empreza das Horas Romanticas.
Horas Romanticas! Como este nome teve tanto em voga por um bom par d'annos e com elle o de David Corazzi, impresso em milhares de prospectos que se espalhavam por todo o paiz e pelo Brazil, annunciando e pedindo assignaturas para uma serie ineterrupta de publicações sucessivas, que se accomulavam desde as bibliothecas dos ricos até á modesta casa do pobre, onde talvez, o activo editor recrutava o maior numero de leitores para as sua edições. (...)»


David Corazzi (1845-1896)

David Corazzi nasceu em Lisboa, a 4 de Julho de 1845, era filho de D. Maria da Piedade da Costa Martins Corazzi e David António Caetano Corazzi (1799-1858) de origem italiana. O pai era médico-cirurgião formado na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, médico distinto e autor do livro "Novo consultor Medico-Cirurgico". Aos 15 anos de idade ficou orfão de pai e com um pequeno património, de que aos 27 anos só lhe restava a propriedade intelectual do referido livro de seu pai. Foi com essa propriedade intelectual, que vendeu por 70$000 réis que constituiu a sua empresa editora, em 1870, a "Empreza Horas Romanticas" no meio dos seus amigos e colegas da Administração Central dos Correios de Lisboa, onde David trabalhava, e seu tio, seu tutor, era chefe de repartição.


1872

De seguida, Corazzi lançou-se na actividade editorial com a edição em folhas semanais dos então famosos romances franceses de Ponson du Terrail. Para a divulgação da publicação mandou imprimir prospectos em que anunciava as condições de assinatura. O primeiro livro que editou foi uma tradução de "Os Cavalleiros da Noite", em folhas, que o seu velho criado Thiago dobrava e distribuía pelos poucos assinantes «com dedicação de quem se interessava pelo bom resultado da empreza». Porém os resultados não foram animadores nem nesta primeira tentativa nem na segunda "Os herdeiro falsos".


O expediente da "Empreza Horas Romanticas", nascida e instalada numa pequena casa da antiga rua dos Calafates, hoje rua do Diario de Noticias, estava todo a seu cargo; o escritório era o seu quarto numa hospedaria na Travessa do Guarda-Mor. Conta-se que «nesse tempo, todo o amigo que fosse visitar D. Corazzi era obrigado a pagar uma pequena contribuição, dobrando umas tantas folhas e ajudando-o no expediente, o que todos faziam de boa vontade e com espírito despreocupado, que, em geral, dá a mocidade»



Segundo o livro "Chorographia moderna do reino de Portugal" de João Maria Baptista e João Justino Baptista de Oliveira, em 1874 existiam em Lisboa os seguintes estabelecimentos tipográficos :

« A Imprensa Nacional.

A Typographia da Academia Real das Sciencias.

A Typographia Universal do sr. Thomaz Quintino Antunes, na rua dos Calafates, onde se imprime o Diário de Noticias.

A Franco-Portugueza do sr. Lallemant, na rua do Thesouro Velho.

A Lisbonense (Diário Popular).

A do Jornal do Commercio.

A da Revolução de Setembro.

A do Diário Illustrado.

A das Horas Românticas.

A da Companhia dos caminhos de ferro portuguezes.

A de Castro irmão, na rua da Cruz de Pau.

A do sr. Sousa Neves, na rua da Atalaia.

A do sr. Mattos Moreira A C.*, no Rocio.

A do sr. Mattos, na rua Nova do Almada. »

Mas Corazzi não desanimou e a nova publicação do "Rei Maldito", de Fernandez y Gonzalez, traduzida por António Manuel da Cunha e Sá operou a viragem e projectando o seu nome e da sua "Empreza Horas Romanticas".


Depósito da "Casa Editora David Corazzi", na Rua dos Retrozeiros, em 1884


Descrição das instalações e actividades no catálogo de 1884


31 de Agosto de 1877


31 de Maio de 1878



Ambos os anúncio de 1881



Jornal "A Moda Illustrada" cuja publicação foi iniciada em 1881


1881

Durante o seu percurso, revelou-se um mestre e um pioneiro no uso de técnicas publicitárias, na capacidade de conquistar novos públicos e de abrir novas vias para a divulgação do livro, nomeadamente com a criação de colecções de cariz popular. Entre elas, a «Bibliotheca do Povo e das Escolas» foi a que maior impacto gerou. Era constituída por pequenos volumes de 64 páginas, a preço muito acessível e com tiragens que rondavam os milhares de exemplares, distribuídos localmente por uma rede de agentes em todo o país - os dezasseis números iniciais tiveram primeiras edições com tiragens iguais ou superiores a 10.000 exemplares, um facto extraordinário no panorama editorial português da época. Publicavam-se em séries de oito, em pequeno formato, existindo a intenção editorial de que o leitor encadernasse depois esses volumes em conjunto. Entre Fevereiro de 1881 e 1891, publica 196 volumes, que primeiro saem quinzenalmente, depois mensalmente. É este o seu período de maior impacto. A colecção continuará após a saída do seu mentor, até 1913, mas já com um ritmo irregular. «A “Bibliotheca do Povo e das Escolas”, até 1913, consumou a missão educativa e civilizadora e possibilitou a circulação de um corpus de conhecimentos científicos entre Portugal e Brasil.»




A partir do ano de 1913, o emigrante português Francisco Alves d'Oliveira decidiu comprar "A Editora" - sucessora da casa "Editora David Corazzi" do Rio de Janeiro - e dar continuidade à publicação dos livrinhos da "Bibliotheca do Povo e das Escolas". A sua comercialização no Brasil passaria a ser feita pela "Livraria Francisco Alves" - antiga "Livraria Clássica"  fundada, por seu tio, em 15 de Agosto de 1854 - ainda em actividade, actualmente.


"Livraria Francisco Alves" na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. É o próprio Francisco Alves à porta

Em 1882 decide-se a apostar no mercado brasileiro e disso dará conta a revista "Occidente" no seu artigo publicado em 11 de Junho de 1882 que passo a citar:
«O sr. David Corazzi um dos editores mais intelligentes, mais illustrados, e mais arrojados que Portugal tem hoje, e que allia todas as apreciaveis qualidades de um perfeito cavalheiro delicadissimo e brioso, com as d'um negociante laborioso e habil, vae tentar uma empreza corajosa, que estamos certos lhe dará os melhores resultados; explorar em grande escala o mercado literario do Brazil, fundadndo no Rio de Janeiro uma filial da sua acreditada e já importantissima casa editora.
O sr. José Maria de Mello, que vae encarregado de montar no Rio essa filial e de a dirigir, é um rapaz muito intelligente, muito activo a quem a Empreza Horas Romanticas deve, desde os seus principios, uma cooperação leal e solicita e que empregará agora todos os seus esforços para a fazer desenvolver e progredir rapidamente no Brazil.»

Apesar de alguma visibilidade anterior - a "Empreza Horas Romanticas" obteve, por exemplo, uma medalha de ouro na exposição portuguesa do Rio de Janeiro de 1879 - a estratégia para o mercado brasileiro adquiriu, em 1882, uma nova dinâmica, numa altura em que se pretendia, pelo menos legislativamente, diminuir o analfabetismo no país. 

E é no Rio de Janeiro que em Maio de 1884 sai, o primeiro número da revista "A Illustração" - Revista de Portugal e do Brazil (1884-1892) , editado e impresso em Paris. Acerca desta revista o site brasileiro "Scielo Brasil"  recorda:

« (...) Foi justamente o português Elísio Mendes, homem de negócios que vivia entre Lisboa e o Rio de Janeiro e um dos proprietários do jornal Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro, 1875), que decidiu explorar esse filão e lançar A Ilustração. Revista quinzenal para Portugal e Brasil, por aí antever boas possibilidades de lucros. Para tanto, ele dispunha, nos dois lados do Atlântico, de conhecimentos e contatos no mundo dos impressos periódicos e da circunstância de poder contar com um jovem correspondente do seu jornal em Paris, o também português Mariano Pina, a quem incumbiu de tratar dos ­aspectos editorais e literários do negócio, enquanto ele respondia pelos custos e pelas questões propriamente empresariais.
Em maio de 1884, veio a público o primeiro número da nova publicação, que, das máquinas do impressor francês, seguia para os porões dos navios que se dirigiam a Lisboa e ao Rio de Janeiro, onde estavam os leitores. A partir dessas cidades eram distribuídos, respectivamente, pela Casa David Corazzi, que desfrutava de prestígio no cenário lisboeta e respondia pela edição da Biblioteca do Povo e das Escolas e pelos Dicionários do Povo, coleções iniciadas em 1881 e que também eram vendidas no Brasil, pois a casa mantinha, desde 1882, sucursal na Corte, com sede na rua da Quitanda, n. 40, e pelo prestigioso matutino Gazeta de Notícias, o que é compreensível tendo em vista que um de seus donos era o idealizador e financiador da nova revista, ainda que essa informação nunca tenha sido divulgada aos leitores do jornal.»


Capa da revista e anuncio seguinte, ambos de 20 de Janeiro de 1887


«Os resultados d'esta succursal foram, durante certo tempo, magnificos e permitiram o largo desenvolvimento que as Horas Romanticas atingiu, até que, em 1884, David Corazzi passou a sua emprez a um syndicato que a tomou por duzentos contos de réis juntamente com a s officinas lytographicas de Justino guedes, e se formou então a actual Companhia Nacional Editora.» in: "Occidente".


"Cancioneiro Musical Portuguez" lançado em 1884


Quanto às novidades de 1884 ...


Ainda no século XIX, são muitas as obras que saem das tipografias de periódicos - "Panorama", "Gazeta de Portugal", "Commercio do Porto", etc. - outras são edições de autor, sem que tal se mencione, surgindo apenas o nome da tipografia. O que dificulta a reconstituição da sua história.

1888

1889

Em 1889 surge a "Companhia Nacional Editora" , fruto da aquisição da "Empreza Horas Romanticas" por parte da "Typographia" Guedes" de Justino Guedes (1852-1934), em Dezembro de 1888. Com esta aquisição, surge com novo nome: "Companhia Nacional Editora", com instalações ainda na Rua da Oliveira ao Carmo, passando pouco tempo depois, para o Largo do Conde Barão, 50 e oficinas na Rua da Rosa. Teve em Justino Guedes o seu sócio principal e administrador. Neste período Alfredo Roque Gameiro fica como responsável pela concepção e orientação gráfica da "Companhia Nacional Editora". Acerca desta empresa consultar a sua história, neste blog, clicando no seguinte link: "Companhia Nacional Editora".


"Companhia Nacional Editora" , no Conde Barão, no primeiro edifício à esquerda na foto

Entretanto David Corazzi retira-se do activo, em 1890, devido aos seus problemas de saúde, falecendo em 28 de Novembro de 1896. «Terminou o seu martyrio; a terrivel doença, que ha annos o atormentava, e que chegou, nos ultimos tempos, a leval-o ao desespero de um projecto de suicidio, teve hontem o seu desenlaçe: 9 horas da manhã entregou a alma a Deus.» in: "Diario Illustrado" de 29 de Novembro de 1896.

Neste mesmo ano de 1895 "José Olaio", fabricante de móveis e que viria a ter um enorme sucesso no mercado nacional com a empreza "José Olaio & C.ª (Filho), Lda." já com instalações em S. João da Talha (Sacavém), já estava instalado nas antigas instalações da "Editora David Corazzi" na rua da Atalaya, 42-50, (ver as primeira e última fotos deste artigo).


2 de Novembro de 1895


Primitivas instalações da "David Corazzi - Empreza Horas Romanticas", na Rua da Atalaya, em foto de 1968 (prédio de 2 andares à esquerda)

Termino este artigo retomando o artigo da revista "Occidente", de 28 de Novembro de 1896 (mesmo dia da sua morte) transcrevendo o seu último parágrafo:

«(...) Foi preciso muito trabalho e muito tino para levar a sua empreza ao estado florescente em que todos a conhecemos - as Horas Romanticas - e essa é a maior gloria do extincto editor, cuja perda todos lamentamos porque todos eramos seus amigos.»

Bibliografia:

"Educação e Difusão da Ciência em Portugal A “Bibliotheca do Povo e das Escolas” no Contexto das Edições Populares do Século XIX" - Dissertação de Mestrado de Olímpia de Jesus Bastos Mourato Nabo - Instituto Politécnico de Portalegre (2012)