A casa "Photographia Ingleza" foi fundada em 1 de Maio de 1909, na Rua Ivens, 53, em Lisboa., pelos irmãos ingleses Joseph Lazarus (1876-1940) e Maurice Lazarus (1866-1949), girando sob a firma "J. & M. Lazarus". Decorridos três dias após a inauguração foram oficializados com o título de fotógrafos da Casa Real.
1901
Joseph Lazarus (1876-1940)
Rua Araujo num postal da autoria de "J. & M. Lazarus"
Estes dois irmãos, naturais de Durham Sunderland, Nordeste de Inglaterra iniciaram a sua actividade de fotografia na cidade de Lourenço Marques, em Moçambique, por volta de 1899, após a sua família judia ter rumado a Durban (África do Sul) em 1883.
Em 1899, Joseph Lazarus com 23 anos e Maurice Lazarus com 33 anos partiram de Durban para Lourenço Marques e inauguraram, um dos maiores e bem sucedidos estúdios fotográficos com o nome comercial "J. & M. Lazarus". Tiveram uma loja de fotografia na Rua Araújo e depois no Avenida Building, em Lourenço Marques entre os anos 1890 e cerca de 1908. Foi o primeiro estúdio fotográfico em Lourenço Marques na produção em série de postais ilustrados e na publicação do primeiro álbum fotográfico designado de "A Souvenir of Lourenço Marques" (1901) seguindo-se mais dois álbuns fotográficos "A Souvenir of Beira" (1902-1903) e "Views of Lourenço Marques" (1906).
Cais de embarque de passageiros para os navios
As fotografias de Lourenço Marques e Moçambique, numa fase de mudança de uma sociedade agrária e rural para os primórdios da modernidade, foram editadas em diversas revistas, jornais nacionais e internacionais. Produziram registos fotográficos de elevada importância documental e cobriram a visita oficial de Luís Filipe de Bragança, Príncipe Real de Portugal, no Verão de 1907, às colónias portuguesas em África.
Depois de terem vendido a sua loja e estúdio em Lourenço Marques a Sidney Hocking, entre 1908 e 1909, os dois irmãos emigram para Lisboa e instalam um estúdio na Rua Ivens, 53, inaugurado em 1 de Maio de 1909, onde trabalhara o fotógrafo João Carlos Coutinho entre 1906 e 1908. Provavelmente essa mudança para Lisboa se deu na sequência da viagem do Príncipe D. Luís Filipe às Colónias, cuja passagem por Moçambique foi profusamente documentada pelos irmãos Lazarus e publicada na imprensa ilustrada de Lisboa, como a revista "Occidente".
20 de Julho de 1907
Lembro que desde 1897, nesta Rua Ivens, no nº 28, já funcionava a "Photographia Julio Novais", desde que Julio Novaes tinha abandonado a gerência da "Photographia Bastos", sita na Calçada do Duque 19-25. Neste endereço na Rua Ivens, 28 tinha funcionado, até 1896, o "Instituto Photographico" , de "Arnaldo Fonseca & Commandita".
Chegados a Lisboa, Joseph e Maurice Lazarus cedo se distinguem pela qualidade dos seus trabalhos e manter-se-iam em actividade até 1939.
1 de Maio de 1909
Loja com o toldo, nº 53 onde esteve instalada a "Photographia Ingleza". Mais tarde mudou-se para a loja ao lado, nº 59 (loja fechada com porta central e duas montras e fachada em ferro)
Dentro do rectangulo a amarelo localização na Rua Ivens da loja, nº 59 onde funcionou por último a "Photographia Ingleza"
A "Photographia Ingleza" veio ocupar a loja onde tinha funcionado a "Photographia de Lisboa" , entre 1906 e 1908 e propriedade do fotógrafo João Carlos Coutinho.
1908
Produziram fotografias e postais coloridos da mais elevada qualidade gráfica do seu tempo e foram autores de várias capas da "Ilustração Portuguesa".
17 de Novembro de 1913 (foto da "Photographia Ingleza" )
Em 3 de Dezembro de 1925 o jornal "Diario de Lisboa" publicou uma entrevista a Joseph Lazarus que passo a transcrever:
«Desde 1908, que Lisboa está a par do melhor que lá fora se faz em fotografia.
Porque, desde 1908, raro é o ano em que a Fotografia Inglesa de J. & M. Lazarus, não envia a lnglaterra e a França o seu proprietario, sr. Joseph Lazarus-que é um apaixonado pela sua arte e que lhe conhece todos os segredos.
Justamente agora, o sr. Joseph Lazarus acaba de regressar de uma dessas viagens de estudo. Não havia, portanto, melhor pretexto para ouvir da sua boca algumas impressões que interessassem o leitor.
Foi no seu «atelier» da rua Ivens, onde ha uma multidão de fotografias, de aguarelas, de aguas.fortes e de molduras nacionais e inglesas, que nos encantam pela sua beleza, que se realizou a conversa :
-Visitei agora quasi toda a Inglaterra e Paris, em busca de coisas novas em fotografia. Vi tudo quanto se faz de mais moderno e de mais perfeito. E devo confessar que na provincia encontrei trabalhos muito melhores do que propriamente em Londres.

-Novos estilos ?
- O nosso estilo deste ano, que já iniciámos, é a fotografia representando aguas-fortes. E' o que ha de mais moderno. Em Inglaterra, só os melhores - e muito poucos - estabelecimentos o fazem, por agora. E isto, sobretudo, porque é um genero muito dificil, exigindo bastante estudo e cuidado.
-E em Portugal ha artistas que o possam fazer desde já?
-Lancaster - o artista da nossa casa - é, desde muito novo, um admiravel pintor a oleo, a aguarela, etc., e um retratista do maior gosto artistico. Para esta especialidade, fizemos com ele um novo contracto. E vamos agora abrir uma nova exposição permanente dos trabalhos realisados. A nossa casa está completamente renovada, possuindo actualmente uma explendida sala de exposições que pode ser visitada por toda a gente, sem obrigação de mandar fazer qualquer fotografia.
-Na Exposição das Artes Decorativas de Paris ...
-Adquiri numerosas gravuras, aguas-fortes, coloridas e «pointes sèches» que estão já á venda, juntamente com aguarelas inglesas.
Falámos de molduras-que a casa Lazarus foi sempre a que melhores e mais belos modelos apresentou:
-Temos uma fabrica propria, onde fabricamos bastantes. E estamos agora a executar la os melhores modelos adquiridos em Londres e na Exposição de Paris. Além disso, constantemente nos chegam molduras de Inglaterra.
-Tem algum plano de futuro?
-O meu plano é hoje o de sempre: fazer o melhor possivel pelo menor preo possivel ...»


Corpo Médico Militar em 1917 (foto da "Photographia Ingleza" )
"J. & M. Lazarus" foi responsável pela produção de retratos de uma elite burguesa. Joseph Lazarus, cerca de 1930, viria a ser agraciado com uma condecoração do governo português.
«Por ocasião da nomeação de Oliveira Salazar para o cargo de Presidente do Conselho, a quatro de Julho de 1932, conheciam-se muito poucos retratos seus. Na maior parte dos casos a sua imagem era representada com o recurso a uma fotografia realizada na Fotografia Inglesa, muito provavelmente aquando da sua primeira e fugaz passagem pelo governo da ditadura militar, em 1926.»
Doutor Oliveira Salazar, em 1928, e em foto da "J. & M. Lazarus"
Na "Revista do Ar" de Fevereiro de 1938
1942
Tendo mantido a atividade da "Lazarus" (antiga "Photographia Ingleza" ) até cerca de 1944, os dois irmãos permaneceram em Portugal até às suas mortes. Joseph faleceria em 1940 com 64 anos e seu irmão Maurice em 1949 com 83 anos. Ambos seriam sepultados no cemitério dos judeus em Lisboa.
Bibliografia:
- Tese de Doutoramento em História de Arte "Estrelas e Ases: o retrato fotográfico em Portugal (1916-1936)" de Paulo Artur Ribeiro Baptista - FCSH - Outubro de 2015
fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, The Delagoa Bay World, Africa in the Photobook
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