A já centenária casa de brinquedos "Bazar do Povo", foi fundada por Antonio Thadeu, na Rua do Ouro 148-150 em Lisboa, segundo consegui apurar, por volta de 1893, e com a denominação de "Grande Bazar do Povo", como aparece na primeira referência publicitária que encontrei e reproduzo seguidamente. Inicialmente não eram os brinquedos o seu principal negócio, mas quinquilharias, brindes, artigos para a casa, etc. como se poderá ver no próximo anúncio de 1900. A firma fundadora "Antonio Thadeu & C.ª" viria a ser constituída só em 22 de Fevereiro de 1905.
"Bazar do Povo" à direita da "Tabacaria Marques" em 1904
Aviso de 7 de Novembro de 1894
1898

1900
Nota: a referência anterior ao "Grande Bazar do Povo" de 1898, foi retirada do "Anuario del comercio, de la industria, de la magistratura y de la administración" da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional de España.
O jornal "A Capital", em 29 de Junho de 1916, escrevia acerca do "Bazar do Povo":
«Ali mesmo no coração da rua destaca-se uma casa cheia de um verdadeiro formigueiro de objetos de formas caprichosas e delicadas do cores vivas e saltitantes, attrahindo e fixando o espirito em uma irresistível seducção. São toda a sorte de brinquedos que fazem a felicidade das creanças o que são até uma deliciosa surpreza para os adultos; pequenas estatuetas lindas jarras, porcelanas do Saxe, molduras espelhos artísticos, etc. e etc. Todo um mundo de doirada phantasia, numa completa realização das mais inverosímeis cubiças dos nossos pequeninos.
Estamos, leitor, no «Bazar do Povo», na rua do Ouro, 148 a 150, que pertence presentemente a firma Joaquim Thadeu & C.ª. O «Bazar do Povo» vem acompanhando rigorosamente toda a efervescencia d'esse progresso que se vem manifestando em todos campos de atividade humana.
Quando as bonecas, quando os velocipedes, quando os «carros» e os «cavallos» obedeciam a linhas rudimentares, a formas imprecisas, pouco estheticas, o «Bazar do Povo» contentava assim os petizes.
Hoje, porem, que até o gosto infantil se tornou mais exigente perante a marcha dos inventos, dos engenhos, das novidades, o «Bazar do Povo» vae-lhe na esteira.»
Em 17 de Janeiro de 1943, deixaram de fazer parte da "Joaquim Thadeu & C.ª ", Joaquim Thadeu e João Thadeu, «por virtude das cessões que fizeram aos seus consócios Srs. João dos Santos Tadeu e José Pires Thadeu (...) O capital social é de 10.000$00 pertencente aos dois sócios João dos Santos Thadeu e José Pires Thadeu na proporção de 5.000$00 a cada um (...) »
Na "Revista de Turismo" de 1962
Exemplos de antigos brinquedos
Em 24 de Março de 1970 a firma "Joaquim Thadeu & C.ª " tinha como sócios, em quotas de proporção igual, João dos Santos Tadeu, Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, e um capital social total no valor de 30.000$00. Em 5 de Abril de 1973 este capital social viria ser elevado a 300.000$00 continuando as quotas proporcionalmente iguais.
Em 13 de Outubro de 1976, e por escritura pública os sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, transformaram a sociedade "Joaquim Thadeu & C.ª " numa sociedade comercial por quotas de responsabilidade limitada denominada "Pires & Thadeu, Lda.", tendo sido admitida como nova sócia D. Maria do Patrocínio Sequeira Tadeu com uma quota de 150.000$00, igual à dos outros dois sócios, perfazendo um total de 450.000$00.
Em Setembro de 1996 , a sociedade continuava a ter como sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos. É desta altura que retirei do
"Jornal dos Clássicos", não só a foto anterior do exterior e 3 fotos seguintes do interior da loja, como as seguintes passagens:
«Há uma atmosfera esquisita, nos dias de hoje, no Bazar do Povo. O encantamento, a magia dos brinquedos, testemunha frases de certo modo desgostadas em relação ao ambiente actual deste tipo de lojas. Que continuam a ter os seus clientes fiéis, como aconteceu com o jovem senhor que procurava jogos de família (do tipo Monopólio), ou com o senhor menos jovem que veio saber das novidades da Bburago… Ou clientes infiéis, como eu, que no fim de todos estes anos acabei por trazer uma estação para o comboio eléctrico HO do meu filho…O Bazar do Povo ficou assim conhecido, muito, mas muito antes das conotações de “povo” de 25 de Abril, sendo uma loja centenária; não tão antiga como a dos carimbos que quase lhe fica defronte. Essa datando de 1891, mas diz-se que remonta a pouco depois… no entanto, a escritura oficial data de 1905, com o nome que a casa teve no início, bem como os que se seguiram, sempre na família Thadeu – tal como hoje, já que é explorada por sobrinhos-netos. E – desfaçam-se as dúvidas – do Bazar Thadeu (da Rua Augusta) apenas há ligações familiares.
Os sócios Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos
Últimas 4 fotos foram publicadas no site "Jornal dos Clássicos", em Setembro de 1996
“Tenho postais de 1893 em que já apareceu a casa”, diz um destes sócios. Ao longo de todos estes anos, a casa sempre teve do que melhor existia em brinquedos, num tempo que não havia importadores: “A Schuco, por exemplo, era importada directamente; em comboios eléctricos vendemos Marklin, Lima, Jouef, Lilliput, Tri-ang… agora vendemos mais Lima. Tivemos muita coisa da Chad Valley – o que se vendia mais eram os bonecos – os bebés, eram o artigo número um da Chad Valley…” – Mas tenho um tractor deles e… – “Tractores eram os da Merit… e uns muito bem feitos, da Brittains”. Todas as coisas têm a sua “febre”. Na década de 60, a “febre” grande foi para os comboios eléctricos e pistas de automóveis. Foi a grande loucura. Depois entrou-se mais no campo dos brinquedos técnicos – como o Mecano, que antigamente era o mais vendido. E que também era importado directamente pelo “Bazar do Povo”, tal como os Dinky Toys – e não só: “Como as miniaturas… fomos o primeiro importador em Portugal da Quiralu… a Norev tal como a Heller, foi nossa”. Havia clientes que iam até ao Bazar do Povo só por causa dos modelos: “Ainda hoje temos gente que vem apenas pelas miniaturas”. (...)
É para lhe contar umas histórias, porque apesar de tudo a boa disposição continua a existir no Bazar do Povo, já que tanto José João Thadeu como Joaquim Manuel Pires, os sobrinhos-netos do fundador têm sempre uma brincadeira ou um diboche pronto a sair. E histórias que ficaram na história: “A primeira coisa que aqui se vendeu foi uma chaminé de candeeiro – e o dinheiro ainda ali está dentro”, diz com um sorriso José João Thadeu, recordando o tamanho grande da moeda. Bem vindos ao ano 2000!»
3 fotos do livro "Lisboa: Lojas de um tempo ao outro, Vol II" de Jorge Ribeiro (1938-2006) - FCG 1997
Por escritura pública de 15 de Dezembro de 1999, Joaquim Manuel Pires e José João Tadeu dos Santos, cedem as suas quotas, na "Pires & Thadeu, Lda." aos novos proprietários: Maria Rosa Capelo Pinto, sócia-gerente, Carla Sofia Pinto Almeida e Bruno Miguel Capelo Pinto de Almeida com um capital social total de 5.000 euros.
Exterior e interior em fotos de 2013
2018
Esta casa com pelo menos cerca de 130 anos de existência, felizmente ainda funciona, com os seus brinquedos, na Rua do Ouro, 148-150.
"Bazar do Povo" em captura de 2024 via Google Maps
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