A Casa de Penhores "José Mayer" foi fundada em 12 de Fevereiro de 1917, por José Mayer, na Rua do Loreto, 18-20, em Lisboa. José Mayer, natural da província, veio para Lisboa onde se empregou na Casa de Penhores de António Pedro da Silva (ex- "Hermida & C.ª " ), na Rua das Gáveas, 10-1º.
A casa "José Mayer" negociava simultâneamente em penhores, antiguidades e jóias. José Mayer, falecido em 1962, foi penhorista, antiquário, ourives, fotógrafo amador, e como grande aficcionado da tourada fundou os grupos tauromáquicos "Sector I" e a "Festa Brava".
Em 1919 José Mayer junta-se a Marcos Pereira Ramalheira e fundam na Avenida Duque d'Ávila, 177-179, em Lisboa, outra Casa de Penhores: a "Monte Auxiliar", propriedade da firma "Mayer & Ramalheira, Lda".
Á noite, na Pastelaria «Marques», José Mayer reüniu em primoroso banquete, que decorreu na mais cordial distinção, numerosos amigos, tendo êstes elegido a mesa de honra, que foi presidida pelo sr. dr. Ferreira Deusdado, e de que fizeram parte os srs. Marcus Ramalheira, Coronel Rêgo, dr. Sant'Ana Rodrigues, dr. Sabido da Costa, Henrique Ferreira Martins, Alexandre Ferreira, dr. David Gonçalves. (...)
José Mayer, alma generosa, e modêlo de amigo, poude vêr, mais uma vez, quanto a sua honestidade e o seu carácter são sinceramente admirados.»
Em 1969 a família Mayer possuía duas casas de penhores, a original na Rua do Loreto, gerida por Augusto Mayer, e uma segunda na Avenida Almirante Reis, gerida por seu irmão Ivo Mayer, e uma casa de antiguidades em São Pedro de Sintra, dirigidas pelos dois filhos de José Mayer, Augusto e Ivo Mayer.
No início do século XX, muitos dos penhoristas em contacto permanente com peças belas e valiosas, convivendo com uma clientela requintada, adquiriram o gosto dos objectos de arte e, avaliando as possibilidades de um tal negócio, tornaram-se antiquários e coleccionadores.
A casa "José Mayer" ficava no n.° 18 da Rua do Loreto, uma porta pequena entre duas montras. Liam-se vários letreiros: PENHORES; ANTIGUIDADES; LEILÃO; OURIVESARIA; COMPRA E VENDE ... O interior lembrava mais um Antiquário que uma Casa de Penhores. Nas paredes, nas vitrinas, peças de valor, porcelanas, cristais, relógios antigos, quadros ... É que as Casas de Penhores também se dividiam em classes, em categorias, um estabelecimento do Chiado tinha uma clientela diferente da de um estabelecimento situado num bairro popular A "José Maver" era especializada em objectos de arte. «Claro que também tem muitos clientes daqueles que vão «entregar ao usurário umas coisinhas» como diz a canção, compra e vende toda a espécie de artigos, roupas, electrodomésticos, etc., mas tudo isso está catalogado, guardado nas traseiras, armazenado».
Augusto Maria Pinto Mayer - irmão de Ivo Pinto Mayer e Isabel Maria Pinto Mayer - como o pai, penhorista, antiquário, ourives, coleccionador, aficcionado, amador de música jazz e fotografia, era uma «figura de Lisboa». Foi neste contexto que a revista "Século Ilustrado" o entrevistou, em 8 de Julho de 1969, e que passo a transcrever na sua maioria:
Augusto Maria Pinto Mayer
«Ao contrário do que a sua voz decidida e autoritária ao telefone parecia indicar, Augusto Mayer é um homem de aspecto simples, simpático, afável, bem humorado ... A sua secretária, grande e saída, está colocada mesmo atrás do balcão, protegida apenas por um tabique, para poder estar permanentemente em contacto com o negócio. Porque Augusto Mayer gosta da sua profissão:
- Como nas outras profissões é preciso gostar. Fui criado neste ambiente, habituado desde pequeno a conviver com peças antigas. Não, nunca pensei seguir outra profissão, acabei o liceu e vim logo para aqui, foi esta a minha faculdade ...
- Foi o meu pai que fundou a Casa, há 52 anos. Eu dirijo este estabelecimento e o meu irmão o da Almirante Reis. A minha irmã está em casa mas também é proprietária assim como a minha mãe ... Propriamente a respeito do negócio de penhores pouco posso dizer, é um negócio estritamente confidencial, há certas coisas que não podemos divulgar.
- Hoje vem mais gente porque é dia 8 ... a renda da casa ... O negócio varia conforme as alturas, os princípios dos meses são mais férteis em empréstimos, há sempre muitas despesas, letras ... Depois baixa e volta a subir no fim do mês quando o ordenado se acaba. Temos vários clientes regulares, clientes com muitos anos de casa, alguns vêm todos os meses, enfim, depende ... em certas épocas até vêm todos os dias! As pessoas preferem empenhar a vender porque podem voltar a levantar os objectos se tiverem possibilidades e, além disso, há coisas que ninguém quer comprar. Aqui sempre recebem alguma coisa, talvez uma importância um pouco inferior ao valor dos objectos. Por exemplo, uma pessoa pretende vender uma peça por 500$00, nós podemos emprestar 400$00 e assim sempre arranja algum dinheiro rapidamente e se quiser pode recuperar, se pagar os juros, claro. A maioria, mais de 50 por cento vem levantar os objectos. Outros, por diversos motivos, abandonam. (...)
-Temos clientes de todas as classes sociais. Pessoas até muito conhecidas. Claro que não posso dizer nomes, como já disse, este é um negócio confidencial. Em princípio pode parecer que as pessoas escolhem o estabelecimento mais próximo mas nem sempre assim acontece. Há quem vá empenhar as coisas muito longe de casa, até chegam a vir do Porto a Lisboa!
No fundo não há motivo para as pessoas se envergonharem, isto é o negócio de um banco. A única diferença é que enquanto no banco a garantia é um aval bancário, o banco só empresta se um comerciante avalisar as letras, para nós a garantia é o objecto. Funcionamos exactamente como um banco. Ora ninguém se envergonha de pedir dinheiro a um banco e portanto não há razão para se envergonharem de pedir um empréstimo numa casa de penhores. Nomes não posso dizer mas pelos objectos que estão expostos, pode-se calcular, que as pessoas que vêm empenhar objectos destes não podem ser pessoas , sem posição, sem categoria. Nós temos peças empenhadas em troca de empréstimos na ordem dos 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 contos! Não há hipótese de uma pessoa vir empenhar um objecto de 70 ou 80 contos se não tiver esses objectos em casa e por conseguinte pode ver a categoria da pessoa ... (...)
A família Mayer aliás tem colecções particulares.
-Já em miúdo coleccionava tudo o que apanhava, desde aqueles retratos de futebolistas que vinham dentro dos rebuçados. Colecciono tudo, mesmo coisas sem valor, etiquetas de hotéis, de companhias de aviação, emblemas, caixas de fósforos ... Agora estou a fazer uma colecção de sapatos e botas de porcelana, de metal, de madeira, já tenho cerca de 200. Também tenho uma grande colecção de máquinas fotográficas. Desde muito novo que sou um apaixonado da fotografia, como o meu pai, deve ser hereditário. Participei em várias exposições, até ganhei uma medalha!
Augusto Mayer mostra algumas fotografias a cores da sua casa de antiguidades de São Pedro de Sintra. É uma das várias lojas que constituem uma espécie de Drugstore, luxuosamente decorado, que ainda não foi inaugurado oficialmente.
- Depois tive que desisitir, tenho muito trabalho e não me sobra tempo para me dedicar a sério à fotografia. Claro que continuo fotografando sempre que tenho ocasião, quando viajo ... Eu gosto muito de viajar, mas também quem é que não gosta? Sempre que possível dou um saltinho nem que seja só até Badajoz para tomar um café!
Os irmãos Mayer, como o pai, dedicam-se às mais variadas actividades. Grandes aficcionados nunca perdem uma tourada. Ivo Mayer tem a paixão dos automóveis e já participou em numerosos «rallies» e gincanas. Como não podia deixar de ser também se dedicaram à música:
- Pode dizer-se que sou um dos dois pais do «jazz» em Portugal, fui eu um dos fundadores do Hot Club. Pessoalmente não toco nenhum instrumento, em tempos aprendi violino mas acabei por desistir. O meu irmão é que toca piano, tem tocado na Emissora, na Televisão. Agora, desde que o meu pai morreu afastou-se um bocado, enfim, há mais trabalho ...
Os clientes continuam a seguir-se, atendidos por um funcionário que avalia ràpidamente os objectos.
-A avaliação é feita na altura, por mim ou pelos funcionários. É preciso muita prática e conhecimentos. Chega-nos aqui toda a espécie de artigos e temos de julgar ràpidamente. Não temos muita coisa à vista, está tudo guardado nos armazens, era impossível ter tudo aqui. Para desempatar capital realizamos leilões periódicos, de três em três meses. São leilões iguais aos outros só têm é os 10 por cento de impostos e os 5 por cento de selo. Procuramos nunca perder o dinheiro emprestado, geralmente começamos a leiloar a partir do valor do empréstimo. As peças que não atingem este mínimo vendêmo-las depois durante o ano. Também temos muitos clientes que vêm para comprar. Às vezes pedem coisas muito estranhas, estou-me a lembrar de uma senhora, muito bem posta, que, aqui há tempos, entrou cá na casa e pediu para eu lhe vender ... uma Nossa Senhora de Fátima do século XVIII! Ainda os pastorinhos não eram nascidos!
Num negócio como este passam-se coisas imprevistas, é isso que o torna apaixonante. A propósito, um pormenor curioso, o grande toureiro que foi Carlos Arruza comprou aqui o primeiro fato que usou em Portugal. Vestiu-o mesmo ali dentro. Sim, porque nós também temos fatos de toureiro!»
12 de Março de 1974
Em 16 de Maio de 1996 Augusto Maria Pinto Mayer, sócio com seus irmãos Ivo Pinto Mayer e Isabel Maria Pinto Mayer na firma "José Mayer, Lda." renuncia à gerência da mesma, continuando como sócio com seus irmãos. A sede da firma é transferida para a loja da Avenida Almirante Reis, 66-A, em Lisboa, após encerramento definitivo da loja na Rua do Loreto, 18-20.
Em 23 de Outubro do mesmo ano nova alteração na firma, quanto ao Artigo 1 que passou a ter a seguinte redacção: «A sociedade continua a adoptar a firma José Mayer. L.da, tem a sua sede na Avenida do Almirante Reis, 66-A, em Lisboa, freguesia dos Anjos, e tem por objecto social a comercialização de máquinas de costura domésticas e industriais, respectivos acessórios, componentes e reparações.».
Augusto Maria Pinto Mayer (1926-2012) e seu irmão Ivo Pinto Mayer (1931-2012), foram sócios-fundadores, com Luiz Villas-Boas e Gerard de Castello Lopes, do "Hot Clube de Portugal" em 16 de Março de 1950. Augusto Mayer fotografou vários momentos da história do jazz em Portugal, com destaque para as iniciativas do Hot Clube. Morreu em 22 de Dezembro de 2012, um dia depois do seu irmão, o pianista de jazz Ivo Mayer. Segundo o boletim do "Hot Clube de Portugal" de Abril 2011, «a sua colecção fotográfica, de discos e de livros, é das mais ricas que existem em Portugal». Fotografou Jam Sessions históricas nos anos 1940 e 1950, e concertos como o de Sidney Bechet em 1955, de Count Basie em 1956 ou o de Louis Armstrong em 1961.
Em 1927, José Mayer tinha comprado na vila de Sintra, o "Chalet Mayer", projetada pelo arquiteto italiano Luigi Manini e cuja construção tinha sido concluída em 1897. Seria herdado pelos filhos, Augusto e Ivo Mayer. Depois de ter sido vendido em 2024, vai ser transformado num hotel de charme.
A firma "José Mayer, Lda." terá sido liquidada e dissolvida em 2005.
Entretanto a firma "Mayer & Ramalheira, Lda.", como anteriormente referido fundada em 1917, continua em actividade e com loja no mesmo lugar, na Avenida Duque d'Ávila, 177-179, em Lisboa. A última composição societária a que tive acesso, datada de 15 de Junho de 2004, era a seguinte: Nazaré Luzia da Silva, António Augusto Cardoso Lopes, João Armando Diogo Almeida, Marcos José Martins da Silva Ramalheira e Marcos André Martins da Silva Ramalheira.
"Ramalheira - Jóias"


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