Em 17 de Junho de 1939, teve lugar a cerimónia da partida do Presidente da República, general Óscar Carmona para uma viagem presidencial às colónias portuguesas de Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola, incluindo uma visita à União Sul-Africana. Esta que seria a 2ª viagem às colónias do Chefe de Estado - a primeira tinha sido ocorrido entre 11 de Julho Julho e 30 de Agosto de 1938 a S. Tomé e Príncipe e Angola - só se concluiria em 12 de Setembro do mesmo ano.
Na foto anterior: o paquete “Colonial” (1929-1950), - propriedade da “CCN - Companhia Colonial de Navegação” - na tarde de 17 de Junho de 1939, no qual o Presidente da República General Óscar Carmona embarcaria pelas 18 horas depois de transportado a partir do “Cais das Colunas” pela “vedeta presidencial”. Na fotografia podem observar-se, em primeiro plano, diversos rebocadores, vapores de transporte fluvial de passageiros, vulgo “cacilheiros”. Em segundo plano, os paquetes “Mouzinho” e “Guiné”, que acompanharam o cortejo fluvial da saída do paquete “Colonial”, com centenas de convidados a bordo, e diversas unidades da Armada, entre as quais dois contratorpedeiros da classe “Douro”, a fragata “Dom Fernando Segundo e Glória” e os Avisos “Bartolomeu Dias” e “Afonso de Albuquerque” que escoltariam o paquete “Colonial” na sua viagem.
Nesta viagem, o general Óscar Carmona seria acompanhado pelo Ministro das Colónias, Dr. Francisco José Vieira Machado.
Ministro das Colónias acompanhado pela filha e esposa, já a bordo do “Colonial”
Seria publicado um álbum fotográfico desta viagem editado pela “Agência Geral das Colónias”
Na introdução histórica deste álbum pode-se ler:
«Pela intensa vibração patriotica que produziu e pelo entusiasmo que produziu e pelo entusiasmo que despertou entre as populações constituiu grandiosa e inesquecível apoteose ao Império português, e ao Estado Novo a segunda jornada de Sua Excelência o Senhor Presidente da República por terras de África, em visita ás colónias de Cabo Verde, S. Tomé, Moçambique e Angola, realizada de Julho a Setembro de 1939. Vago e inexpressivo documentário do esplendor da jornada triunfal, fica apenas como simples recordação êste album de fugazes imagens.»
De seguida 4 fotografias retiradas desse álbum com as legendas originais.
«Lisboa, capital do Império, despede-se entusiásticamente do Presidente da República»
«Na Praça do Comércio, o chefe de Estado ouve, em continência, o Hino Nacional, pouco antes de embarcar para a sua viagem às terras do Império, em África»
«Em nome do Govêrno e da Nação, o Senhor Doutor Oliveira Salazar apresenta ao Senhor General Carmona cumprimentos de boa viagem»
«Já na vedeta presidencial, o Presidente da República corresponde ás vibrantes saüdações que a multidão lhe dirige»
Mensagem do General Óscar Carmona a propósito desta viagem:
«As minhas viagens ao Ultramar resultam de tradicional política que informa a acção colonial Portuguesa. Vou às colónias com o mesmo espírito que levo a qualquer província de Portugal Europeu que visito, e que nós, Portugueses, consideramos territórios do império igualmente integrados na unidade nacional.
Sua Majestade o Rei Jorge teve a gentileza de me convidar nesta ocasião a visitar a União Sul-Africana, convite que me foi muito grato aceitar. Tenho muita pena de me ter sido absolutamente impossível aceder também ao convite que me foi feito para ir às Rodésias e á Niassalândia, mas estou ansioso por conhecer pessoalmente os governadores dêstes territórios que a meu pedido se encontrarão comigo na Beira. Sou profundamente sensível a estas gentilezas que tomo como prova de apreço pelos esforços Portugueses na tarefa que as nossas nações estão realizando em África em comum e em prol da paz e do progresso e testemunho das excelentes relações de amizade e vizinhança que mantemos no Continente Africano.»
Artigo na revista “Ilustração”
Fotos do “Estúdio Mário Novais” alusivas a este evento
Fotógrafo Ferreira Cunha a bordo do “Colonial”
General Carmona a bordo do “Colonial” acompanhado pelo armador Bernardino Correia (à esq.) e pelo Ministro do Interior
No “Boletim Geral das Colónias”, de Julho de 1939, foi publicado o artigo intitulado “Aspectos da Viagem Presidencial” da autoria do Dr. Vasco Borges donde retirei os parágrafos iniciais:
«O egrégio Chefe de Estado partiu, a caminho de Moçambique, para prestar á Nação um serviço altíssimo. Conscientes e ufanos da magnitude do acontecimento a que esta viagem dá figura, todos os portugueses o acompanham em espírito. E os seus corações aquecidos pela fé na promessa segura dum Portugal maior, não deixarão de dedicar-lhe, em todos os momentos, os seus mais fervorosos votos de felicidade.
Prestar ao país mais êste valioso serviço, impõe um sacrifício ao Sr. Presidente da República.
Bem o sabe o Sr. General Carmona, ainda mal refeito da fadiga a que se sujeitou a sua visita apoteótica à África Ocidental. Sabe, mas submete-se patrióticamente.
O Chefe de Estado, precisa também, como toda a simples gente, dum descanso reparador. E nesta altura do ano, quando todos pensam em recobrar fôrças, não devem concorrer pouco para o Sr. General Carmona sentir, a sua admirável resistência depauperada, as solenidades e comemorações que, mercê do seu encanto pessoal e prestígio invulgares solicitam constantemente a sua presença.
Pois em vez das férias necessárias, o Sr. Presidente da República, com o fim de servir os interêsses da Nação inicia nova viagem ao Império, seguramente não menos fatigante do que a primeira. Não haverá, por isso mesmo, Áquém e Além-Mar, homenagens e saüdações ao egrégio Chefe de Estado, as mais emotivas e vibrantes, que a sua exemplar abnegação e o seu acendrado patriotismo não mereçam inteiramente.»
“Europa Primeiro”, que transportava elementos da “Mocidade Portuguesa Feminina”, acompanhou a partida do “Colonial”
«O “Colonial”, em que viajam o Chefe de Estado e a sua comitiva, começa a descer o Tejo, entre dezenas de barcos embandeirados, donde parte, entusiásticas, as últimas manifestações de despedida»
De forma a assinalar para a posteridade o acto histórico, foi decidido gravar na pedra das duas colunatas do “Cais das Colunas” de Lisboa uma mensagem do Presidente da República e outra do Presidente do Conselho:
«AQUI EMBARCOU O CHEFE DO ESTADO PARA A PRIMEIRA VIAGEM ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E ANGOLA.
XI DE JULHO - XXX DE AGOSTO DE MCMXXXVIII
COM A CERTEZA DE QUE FALA PELA MINHA VOZ PORTUGAL INTEIRO, PROCLAMO A UNIDADE INDESTRUTÍVEL E ETERNA DE PORTUGAL DE AQUÉM E ALÉM MAR - GENERAL CARMONA»
«A SEGUNDA VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: CABO VERDE, MOÇAMBIQUE E ANGOLA.
XVII DE JUNHO - XII DE SETEMBRO DE MCMXXXIX
A VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS DO IMPÉRIO EM ÁFRICA ESTÁ NA MESMA DIRECTRIZ DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES E FINALIDADE, É MANIFESTAÇÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE PÔS DE PÉ O ACTO COLONIAL - SALAZAR.»
Entretanto a revista Ilustração no seu número de 1 de Setembro de 1939 noticiava
O regresso do general Óscar Carmona, em 12 de Setembro de 1939, seria obscurecido pelos ventos que já sopravam da Europa: começara a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mas, para Portugal, as memórias dessas duas viagem seriam guardadas para sempre naquela entrada simbólica de Lisboa.
«Caracterizou o desembarque do Sr. Presidente da República uma simplicidade que, nem por isso, deixou de ter a sua beleza.
Não se via, no Terreiro do Paço, a mancha purpurina dos pavilhões do costume, armados ali para as recepções solenes. E nem a guarnição formada nas ruas, nem o Corpo Diplomático, com as suas fardas chamarradas de ouro e faiscantes de condecorações, aguardavam festivamente a chegada do Sr. General Carmona.
Em tudo houve a discrição e ausência de galas ostentosas aconselhada pela gravidade dos acontecimentos que amarguram a Europa.
Umas dezenas de milhares de pessoas aglomeradas na vastidão do Terreiro do Paço, e postadas ao longo do trajecto até Cascais, e que não haviam sido atraídas pelo espectáculo dum luzido cortejo, manifestaram, com a sua presença, impressivamente, o aplauso sincero e agradecido dos portugueses ao ínclito Chefe de Estado.
É que no espírito de todos existe a convicção, profunda e instintiva, do que o sacrifício a que êle se submeteu, com rara noção do dever, assegurou, nesta hora incerta e inquietante, vantagens singularmente relevantes para os intereêsses de Portugal e do seu Império.» in: “Boletim Geral das Colónias”
Chegada do paquete “Colonial” frente à Praça do Comércio
Notícia na revista “Ilustração”
Já quando o paquete "Colonial" entrava na barra do Tejo, em frente a S. José de Ribamar, o Presidente do Conselho de Administração da "Companhia Colonial de Navegação" inaugurou uma placa comemorativa evocativa desta viagem, na qual foi inscrita a seguinte mensagem:
«A esta unidade da Companhia Colonial de Navegação foi dada a honra de transportar às Colónias de África Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, Senhor General António Óscar de Fragoso Carmona, sendo Presidente do Conselho de Ministros o Excelentíssimo Senhor Doutor António de Oliveira Salazar e Ministro das Colónias o Excelentíssimo Senhor Dr. Francisco José Vieira Machado, que acompanhou o Venerando Chefe de Estado. - 17/6/939 a 12/9/939»
General Óscar Carmona recebido pelo Presidente do Conselho Dr. Oliveira Salazar, no “Cais das Colunas”
Acerca da reportagem fotográfica completa desta viagem presidencial às colónias portugueses, consultar o seguinte link: “Memorias d’Africa e d’Oriente”.
fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Memorias d’Africa e d’Oriente, Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital
