Restos de Colecção: E. E. de Sousa & Silva, Lda. - Gravadores

17 de janeiro de 2026

E. E. de Sousa & Silva, Lda. - Gravadores

A "E. E. de Sousa & Silva, Lda.", a primeira fábrica de carimbos de Portugal, terá sido fundada em 1819 na Rua do Ouro, 157 esquina com a Travessa da Victoria, 98-100, em Lisboa, pelo pai de Eduardo Estanislao de Souza, que além de ser uma fábrica de carimbos, chegou a ser o gravador oficial da Casa Real. 

"E. E. de Souza - Gravador" e provavelmente o sr. Estanislau de Souza à porta

Quanto ao pai de Eduardo Estanislao de Souza ter sido gravador, não duvido, mas ser proprietário em 1819 da casa de gravações e carimbos, já coloco sérias dúvidas. Consultando o "Alamanach Portuguez" de 1826, aparece como proprietário de uma loja na Rua do Ouro, 157 um dos «Negociantes matriculados na Praça de Lisboa», Francisco Xavier Martins, conforme excerto seguinte ...

1826

E no mesmo Almanach aparecia um tal de Estanislao Maria de Sousa, como trabalhando para o Arsenal Real, que poderia ser o pai de Eduardo Estanislao de Sousa. Suposições minhas, a partir da coincidência no nome e apelido entre ambos ... digo eu ...

1826

E em 1849, na mesma loja funcionava o «escriptorio d'Agencia publica» ...


7 de Dezembro de 1849


11 de Dezembro de 1849

Por outro lado, como se pode observar pelo anúncio de 1879 que publico abaixo, a loja já funcionava em nome de "Eduardo Estanislau de Souza - Gravador, Sucessor de Figueiredo". «Sucessor de Figueiredo» significava na altura o proprietário anterior, pelo que depreendo que a loja terá pertencido anteriormente a um tal Figueiredo ...  


1879

Penso que o pai de Eduardo de Souza, venderia no «escriptorio d'Agencia publica» inicialmente, os seus carimbos, sinetes e serviços de gravador. Posteriormente seu filho terá adquirido a loja a um tal Figueiredo, mencionado no anúncio anterior ... Mais à frente neste artigo: «Embora não subsistam documentos comprovativos, fidedigna tradição oral diz ter sido esta casa fundada em 1819 (...)»

A partir de 1880 já aparece como "E. E. de Sousa - Gravador" e mais tarde forma a sociedade "E. E. de Sousa & Silva", que presumo que fosse a esposa de apelido Silva, - já que sua filha D. Maria da Luz da Silva e Sousa detinha os apelidos Silva e Sousa -aparecendo como tal já em 1916 conforme anúncios seguintes.


1880


1888

Eduardo Estanislau de Sousa, em 1891 já era, também, Regedor da freguesia de Nossa Senhora da Conceição Nova, de Lisboa. Esta freguesia incluia a Rua e Travessa da Victoria onde estava o edifício  da loja de Eduardo de Sousa, assim como a Igreja de Nossa Senhora da Victoria, contígua à loja. Esta freguesia foi extinta em 1959.


1903


1906

1916

Em 1911 é construída a fachada da loja em madeira escura que abrangerá ambas as frentes: Rua do Ouro e Travessa da Vctoria.


"E. E. de Sosa & Silva" em foto de 1938

Recorrendo ao livro "Praça de Lisboa", retirei a seguinte resenha histórica desta firma até 1946:

«Embora não subsistam documentos comprovativos, fidedigna tradição oral diz ter sido esta casa fundada em 1819 pelo pai do já falecido Eduardo Estanislau de Sousa, seu segundo possuidor e gerente.
Actualmente são sócias da firma D. Maria da Luz da Silva e Sousa, D. Maria Madalena de Sousa Casanovas Augustine e D. Odette Casanovas Nogueira, respectivamente neta e bisnetas do fundador.
Há cêrca de dez anos a gerência do estabelecimento está confiada ao pai das societárias, António Casanovas Augustine, o qual, dispondo de larga experiência anterior em outros ramos de comércio, se adaptou à modalidade explorada pela casa, conseguindo não só dominar-lhe todos os problemas profissionais como imprimir às transacções intensivo desenvolvimento.
Dedicando-se esta casa, desde a fundação, ao negócio de gravador, criou, como tal, grande e justificado renome. Êsse prestígio secular tem sido engrandecido pelo actual administrador. E. E. de Sousa & Silva, L.da é hoje não só a mais antiga como a mais aperfeiçoada oficina para o fabrico de carimbos em todos os géneros, chapas esmaltadas, selos em branco e brazões, fornecendo a melhor clientela de Lisboa e da província.
António Casanovas Augustine, dando provas do seu espírito empreendedor, aproveitou inteligentemente as instalações e amplas vitrinas da casa para nelas montar uma secção de bordados da Madeira, que colheu lisonjeiro e apreciável êxito, graças ao seleccionado e bem escolhido sortido que apresenta.»


1932

1943

Do outro lado da Rua do Ouro, e na esquina oposta, um concorrente de respeito: "Freire Gravador", fundado em 1882, e cuja história pode ser consultada neste blog no seguinte link: "Freire Gravador".

"Freire Gravador"

Em 1988, ano em que a "E. E. de Sousa & Silva, Lda." é trespassada à família Igrejas, passa a ter como principal actividade a venda de malas de senhora. No ano em que celebrou 200 anos, a loja era ( e ainda é) propriedade de Fernanda Igrejas, que revelou ter sido um acaso. «Eu era administrativa, nunca pensei vir a ter uma loja, mas foi uma aposta ganha». 


Ambas as fotos de 1994 


Duas fotos anteriores, de 1994


Fachadas e montras actuais




Interior da loja, actualmente

Da casa-mãe, encontram-se ainda os carimbos, os sinetes e as gravações. Os numeradores, os datadores e a sinalética. Mas, esta loja que sempre foi atípica «tenta andar sempre ao sabor da moda e adapta-se às circunstâncias que vão surgindo». Assim, também aqui, é possível encontrarem-se colecções exclusivas de artigos em cortiça e pele. citações in: "Baixa Chiado Online" .

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Lojas com HistóriaBiblioteca de Arte da FCG  fotos de 1994 in: "Lojas de um tempo ao outro" Vol II, de Jorge Ribeiro 

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