O "Theatro Dona Maria Pia" foi inaugurado no dia 8 de Dezembro de 1880, no Campo de D. Luiz I, em Leiria - entre o antigo Convento de Sant`Ana e o jardim público Luís de Camões, - actual Largo de Goa, Damão e Diu.
Foram seus fundadores: Alfredo de Ataíde Soares de Albergaria (2º Visconde de S. Sebastião), Dr. Antonio Rino Jordão, Miguel Joaquim Leitão, José de Faria Pinho e Vasconcelos Soares de Albergaria (2º Barão do Salgueiro), Capitão João Lúcio Lobo, Thomaz de Aquino Victor, Francisco Pereira da Silva e Dr. Afonso Xavier Lopes Vieira. O «lançamento da primeira pedra» ocorreu a 3 de Outubro de 1878. Os "Estatutos do Theatro Dona Maria Pia" seriam aprovados em 1 de Janeiro de 1880.
Por ocasião da sua inauguração a revista "Occidente" de 1 de Fevereiro de 1881 noticiava:
A architectura externa do theatro é simples, em compensação o theatro por dentro e d'um luxo extraordinario, d'uma elegancia que o colloca acima de todos os theatros de provincia. No rés-do-chão ha um vasto salão que serve de vestibulo communicando com a casa do bilheteiro, o botequim e com as elegantes escadas que conduzem a parte superior do edificio, Entrando por esse salão encontra-se um bonito arco, e logo depois as escadarias amplns dos camarotes e ao fundo a porta quo abre para a platéa, tendo na parte superior o emblema da comedia, e escripto em letras abertas em talho dourado o nome do theatro. Na 1ª ordem ha 21 camarotes, largos, com bellas coxias que dão para um vasto salão de entreactos tendo nos topos a toilette e um botequim especial, Na segunda ordem ha egual numero de camarotes. A platea tem 132 cadeiras, e 100 logares de geral, e é circumdada por 10 frizas.
A sala é em feitio de ferradura, é elegantissima, perfeitamente illuminada por numerosos candelabros suspensos dos camarotes, todos gradeados em florões dourados e corrimãos estofados a carmesim vivissimo, d'um bello effeito. O tecto do theatro è cheio d'ornatos e arabescos dourados, e o panno de bocca, pintado em Milão, e offerecido no theatro pelo accionista de Lisboa o sr. José da Silva Bento e Sousa, é magnifico e representa uma cortina sobrepujada por um docel a que se abriga um grupo de creancas sob as bandeiras portuguezu e italiana, allegoria á caridade regia da augusta princeza de quem o theatro tem o nome.
O palco é vasto, tem camarins espacosos e ja possueum sofrivel numero de vistas pintadas pelos scenographos Roclmn e Barros.
O theatro foi edifcado por uma sociedade de que foi a alma, e o iniciador, o sr. Miguel Joaquim Leitão, aos esforços, e trabalhos infatigaveis dos quaes Leiria deve hoje o seu bello thestro. A sociedade e por accoes espalhudas por muitas pessoas influentes da localidade e de outros pontos do paiz. A primeira pedra para a edificacão do theatro foi lancada, com grande pompa, no dia 3 d'outubro de 1878, assistindo a esta solemnidade a commissão promotora, a camara municipal e outras auctoridades de Leiria.
A inauguracão realisou-se com todo o brilho na noite de 8 de dezembro, com um espectaculo desempenhado por curiosos, abrindo com o hymno de El-Rei D. Luiz, executado pela orchestra, e um hymno de saudacão a S. M. a Rainha escripto pelo sr. Xavier Rodrigues Cordeiro, poeta natural de Leiria, e cantado pela sociedade dramatica. A peça de inauguracão d'este theatro, construido em dois annos e um mez, fol o drama Abel e Caim do fallecido escriptor Antonio Mendes Leal.»
Lembro que o primeiro teatro que existiu em Leiria foi o "Theatro do Relego" inaugurado em 1818. Acerca do mesmo, Sousa Bastos no seu "Diccionario do Theatro Portuguez" de 1908 escreveu:
Foi feito por subscripção, por iniciativa de William Ioung, official do exercito inglez, que viveu em Leiria durante 15 annos. Foi elle quem dirigiu a obra, que foi concluída em 1818, com a condição de só alli representarem amadores, os quaes eram escolhidos na primeira sociedade. Deram-se ali muitos e escolhidos espectaculos.
Depois d'este theatro houve em Leiria outro chamado Theatro da Palha, armado na capella de S. Bartholomeu, á Portella, onde hoje existe um quintal; depois outro denominado do Farello, construido atraz da Misericodia, onde hoje ha um armazem de vinhos; ainda depois o Theatro de S. Pedro, na capella da mesma invocação, ao Castello. e mais tarde o Theatro do Cebo, no bairro dos Anjos, onde actualmente é a Escola Conde de Ferreira. Foi depois de todos estes que se edificou o Theatro Dona Maria Pia, de que tratamos n'outro logar.»
Em 14 de Setembro de 1889, o teatro de fantoches lisboeta "Theatro Pairet" dva «um salto» até Leiria ...
14 de Setembro de 1889
Em 1915 o "Teatro D. Maria Pia" já exibia, no seu animatógrafo filmes mudos, como dava conta o "Jornal de Leiria" de 23 de Junho, na seguinte nota:
Na proxima 5.a feira, 24 novamente Fruzzi a coupletista madame Helene Mai e fitas sensacionais devem atraír ao elegante cinema numerosa concorrencia.
Bem hajam os emprezarios por trazerem a Leiria estas celebridades.»
O mesmo jornal em 21 de Janeiro de 1917, publicitava cinema, música e teatro no "Teatro D. Maria Pia"...
- Nos proximos dias 26, 27 e 28 do corrente, devem efectuar-se tambem neste elegante teatro, três récitas pela 'Tournée Elvira Baslos Ribeiro Lopes', que, segundo as noticias colhidas de varios jornais, tem obtido o maior sucesso nos palcos das principais terras do país. No primeiro espectaculo representar-se hão 'O dote', original do distinto escritor brazileiro Artur de Azevedo - e 'Como se escolhe um genro', engraçada comedia num acto, tradução de Antonio Carvalho. Na segunda noite, subirá á scena 'Chuva de netos', três actos adaptados da comedia americana, 'Baby Marry', por Gouveia Pinto, que nos dizem ser uma fabrica de gargalhadas.
Os bilhetes encontram-se á venda no estabelecimento do nosso amigo Francisco Teixeira, sendo de esperar uma enorme concorrencia.»
26 de Setembro de 1925
Mas nem tudo sempre correu bem neste teatro, como atesta a seguinte nota publicada no "Jornal de Leiria" de 11 de Julho de 1917 ...
«Tournée Teodoro Santos e Tomaz Vieira
O publico e só o publico é que é o culpado, porque tolera tudo que os de fóra lhe veem impingir.
De passagem diremos que o publico para mostrar que tem auctoridade para se manifestar, é preciso que saiba estar no teatro com decencia e que tenha em atenção que um teatro não é uma praça de touros; o que se passou nestes espectaculos é uma vergonha e apenas atesta claramente que ha a mais completa falta de educação daqueles que supõem que estar no teatro é o mesmo que assistir a uma toirada na Moita ou a discutir politica no Barba-Azul ou no Magrinho.
Não sabemos para que existe um camarote que se diz ser da auctoridade. Onde está essa auctoridade? Quando está é só para assistir ao espectacuļo? Mais vale não aparecer.
Em Leiria atura-se tudo e aguenta-se uma bofetada de luva branca como a que deu o actor Teodoro Santos na recitação do Rei Lear. Que ideia irá fazer esta gente de nós? E' preciso que a auctoridade se saiba pôr no seu logar em noutes de espectaculo e que cumpra com a sua missão: manter a ordem - é para isso que lá vai.
O trabalho desta companhia foi aceitavel, havendo mesmo numeros bons e dum bélo desempenho, como fôsse o Agulheiro, o Alcoolico, a Morta e outras.
Esperaremos por novos espectaculos, e aguardaremos as providencias que a auctoridade tomará para a manutenção da ordem, e que compreênda duma vez para sempre que os que pagam querem ouvir e não pódem estar sujeitos ás incorreções de engraçados pretenciosos, de meninos a tossir, cadeiras a arrojar e tudo emfim que mais parece estar numa aldeia sertaneja do que numa capital de districto.»
"Teatro D. Maria Pia" em foto dos anos 50 do século XX
Segundo o "Centro de Estudos de Teatro", a última peça a ser representada no "Teatro D. Maria Pia", foi "Os Novos Patrões" representada pelo grupo teatral "Os Seis Novos", e estreada a 11 de Agosto de 1951.
A difícil situação financeira do "Teatro D. Maria Pia" e o adiantado estado de degradação do edifício, começam a por em causa a continuidade cultural do mesmo.
Até que, o surgimento de uma nova administração, através de «um punhado de homens válidos», salva a situação. Entretanto, com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), começa a germinar a ideia da construção de um novo teatro, acompanhado pelo facto de a Inspecção dos Espectáculos, alegando falta de segurança, encerrar por várias vezes o teatro.
Sala de espectáculos do "Teatro D. Maria Pia" antes do seu encerramento definitivo
Em 25 de Outubro de 1957, o "Diario de Lisbôa" noticia a adjudicação para a construção do novo Teatro:
A notícia da adjudicação das referidas obras causou, como e natural, justificado regozijo em Leiria, que vai ter, num futuro muito próximo, um teatro modelo que muito prestigiará a cidade do Lis.
No entanto, é com bastante saudade que muitos Leirienses vêem desaparecer o velho Teatro D. Maria Pia, onde viveram noites inolvidáveis de arte e por onde passaram todos os grandes artistas da cena portuguesa de há meio século a esta parte.
Mas, em contrapartida, dentro de algum tempo surgira uma nova sala com todo o conforto, em que o publico sentirá, além da comodidade da plateia e do balcão, o conforto do aquecimento e, se possível, do ar condicionado. São também de considerar outros melhoramentos, tais como a luz da projecção, a luminosidade da nova tela panoramica e o sistema de som.
O novo edifício disporá de um salão para festas e conferências, com palco privativo, camarins anexos, etc. A lotação total da sala de espectáculos será de 949 lugares, assim distribuidos: plateia, 462; 8 frisas, 48; 1º balcão, 210; e 2º balcão, 229. Este terá bilheteira privativa, e acesso independente.
Na parte do edificio voltada a Poente, confrontando com a Rua Dr. Correia Mateus, ficará, no rés-do-chão, uma ampla sala que poderá destinar-se a «café».
A empresa do teatro já adquiriu um barracão desmontável que va instalar num dos largos da cidade a fim de não privar o publico, de sessões de cinema, durante o tempo que durarem as obras. Esta montagem será um tanto demorada, pois torna-se necessária construção, em alvenaria, da cabina para a máquina de projecção a colocação dos esgotos para a instalações sanitárias.
E' neste barracao que vão fazer-se os primeiros ensaios de programas em «cinemascope», «vista vision» e tela panoramica, dado que, no velho edifício, pelas suas reduzidas dimensões, se tornava impossível a montagem da tela necessária.»
Em Janeiro de 1958, tem lugar o último espectáculo no "Teatro D. Maria Pia". A projecção de filmes passa a realizar-se num barracão, adquirido no Montijo, por 100 contos (180.000$00). Instalado ao fundo do jardim, perto das escadas de acesso ao Marachão, o barracão de cinema, é inaugurado em 12 de Janeiro de 1958, com a exibição do filme "A Leste do Paraíso", realizado por Elia Kasan em 1955 e com James Dean como protagonista. O teatro viria a ser demolido de seguida.
Em 23 de Abril de 1962 iria à praça o terreno para a implantação do cine-teatro de Leiria, mas sem polémica ...
Segundo se prevê, haverá apenas um concorrente, a empresa do antigo teatro D, Maria Pia, desprovido do velho edifício em que estava instalada por demolição efectuada em 1958. Desde então, continuou a explorar um cinema, instalado «provisóriamente», na antiga praça das Sardinhas.
A' volta da construção do novo e indispensável cine-teatro levantou-se, nesta cidade, uma polémica conduzida pelo semanário local. Esta visa alterar a decisão da Câmara Municipal de construir o teatro nesse local. Muitas pessoas pensam que não seria de facto o mais indicado, mas o presidente do Município declara que só uma ordem governamental será capaz de alterar a decisão tomada por aquela entidade.» in: "Diario de Lisbôa"
E em virtude desta polémica, em 12 de Dezembro de 1963, ficou decidido o novo local para o novo cine-teatro de Leiria:
Oliveira, o terreno situado ao fundo da Av. Herois de Angola, em local amplo e desafogado, pertencente aos herdeiros da familia Marques da Cruz.
O sr. arquitecto Carlos Ramos vai proceder agora á elaboração do projecto, prevendo-se que o lançamento da primeira pedra se efectue entre Abril e Maio próximos.
Com esta escolha ficou arrumado um assunto cuja solução se previra demorada, pois a grande maioria da população leiriense discordava do local inicialmente proposto.
A escolha agora feita foi agradávelmente acolhida por todos, visto que, dessa forma, o novo cine-teatro se erguerá por forma condigna com a grandiosidade e localização desafogada que todos desejavam.
O benemérito sr. José Lucio da Silva custeará, sózinho, toda a despesa inerente a construçao da nova sala de espectáculos que Leiria há muitos anos pedia e ambicionava, despesa que ultrapassará os 5 000 000$00 (5 mil contos) inicialmente doados para o efeito.
A população da cidade, que não esconde o seu regozijo pela solução encontrada, louva mais uma vez o gesto benemérito, agora ampliado de sr. José Lucio da Silva.» in: "Diario de Lisbôa"
Projectado pelo arquitecto Carlos João Chambers de Oliveira Ramos (1897-1969), o novo cine-teatro, "Teatro José Lúcio da Silva", viria ser inaugurado, em 15 de Janeiro de 1966, que passou a exibir peças teatrais e cinema. A sala de espectáculos oferece um total de 729 lugares sentados, distribuídos por: Plateia: 382+6 lugares para cadeiras de rodas; 1º Balcão: 150 lugares; 2º Balcão: 152 lugares; Balcão Lateral: 9 lugares; Camarotes: 18 lugares.
fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Digital de Leiria, Biblioteca Nacional Digital, Jornal de Leiria, Teatro José Julio da Silva, Blog Leiria, Leiria Tamanho e Desenho







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