O "Arcada-Hotel" foi inaugurado em 19 de Julho de 1937, na Praça Luis Cipriano, em Aveiro. Foi seu fundador o capitão Aristides Tavares Ferreira, natural de Gouveia mas casado com uma filha do falecido comerciante de Aveiro, Domingos José dos Santos Leite. O projecto deste que seria o primeiro hotel de Aveiro, ficou a cargo do arquitecto Jaime Inácio dos Santos (1874-1942). No piso térreo do "Arcada-Hotel", ficava o famoso "Café Arcada", pertença do proprietário do hotel, tendo sido frequentado pelas gerações da primeira metade do século XX e constituiu um grande centro de convívio, durante o dia e a noite, quer no Verão, quer no Inverno.
Edifício do "Arcada-Hotel" após a sua conclusão em 1937
Este hotel veio substituir outro edifício que ali existiu mantendo as arcadas já existentes no lado da Rua dos Mercadores, eliminando uma delas para alargamento da rua.
Quanto a esta rua vou transcrever parte de um texto bem elucidativo da importância desta rua, retirado do blog "Campeão das Províncias" e da autoria de Marta Duarte:
A actividade comercial predominava. Era ali que se movimentava grande parte da população aveirense, quer para fazer as suas compras e dar os seus recados quer para se reunir com os amigos.
A rua conserva acentuados traços arquitectónicos setecentistas e evoca um dos nomes mais antigos de toda a toponímia de Aveiro. No entanto, teve já diferentes designações: foi Rua dos Balcões e também Rua dos Sombreireiros, pelo facto de ali existirem guarda-soleiros, tão procurados por senhoras e senhores da época, que com um ar distinto, próprio da cultura inglesa, usavam os seus graciosos guarda-sóis e pomposos guarda-chuvas. Mais tarde seria, também, conhecida por Rua de Serpa Pinto.
À entrada da Rua dos Mercadores deparamo-nos com "os Arcos", antigo coração da cidade de Aveiro, ponto de encontro de toda a população durante o século XIX e ainda no nosso tempo.
Na parte de baixo do Hotel Arcada, ficava o famoso "Café Arcada", pertença do Sr. Aristides. Foi frequentado pelas gerações da primeira metade do século XX e constituiu um grande centro de convívio, durante o dia e a noite, quer no Verão, quer no Inverno. Nas últimas décadas, este edifício foi profundamente remodelado, tal como se mantém.
Os "Arcos" eram constituídos por mais duas arcadas, que foram cortadas com o objectivo de alargar a rua. Numa das arcadas estava o "chafariz dos Arcos", entretanto removido para o outro lado do canal, junto da Caixa Geral de Depósitos.
Tal como a Rua dos Mercadores, os "Arcos" tinham como principal atractivo o comércio. Em meados deste século poder-se-iam encontrar, entre outros estabelecimentos comerciais, a livraria de Bernardo Torres, o "Café Cisne" do Sr. Abreu, os estabelecimentos do Sr. Ricardo Pereira Campos, a "Padaria Macedo" e o "Café Barroca".
Naquela época os jornais ainda não tinham como local de venda o "Duarte dos jornais", agora situado na Rua dos Mercadores. Estavam expostos nos "Arcos", em cima de uma cadeira de ferro e eram vendidos pela "Tia Micas".»
Publicidade em 10 e 17 de Julho de 1937
Quanto ao "Arcada-Hotel", classificado de 3ª classe, o jornal "O Democrata" na notícia da sua abertura, descrevia pormenorizadamente o hotel:
Da gerência do Arcada-Hotel foi incumbido o sr. António Pimenta, com longa prática do métier, auxiliado pela esposa, tendo-se registado como primeiros hóspedes os nomes dos srs. Franco Ferreira, de Lisboa, e António Ribeiro Gonçalves Bastos, da casa Citroën.
Escusado sera repetir que auguramos ao Arcada-Hotel um futuro replete de prosperidades. É que, pela sua situação, que permite aos hóspedes disfrutarem vistas surpreendentes; pelo asseio, pela limpesa e pelo confôrto está à altura de receber tôdas as pessoas categorisadas que nos visitem e aqui desejarem demorar-se ou mesmo permanecer. Custou, mas foi. Louvores ao homem que tal conseguiu, removendo, para isso, tôdas as dificuldades.»
30 de Outubro de 1937
A comprovar a opinião anterior, logo de seguida em 7 de Agosto de 1937 ... «no Arcada-Hotel realizou-se, cerca das 14 horas, um almoço oferecido aos corpos gerentes do Sport Club Vianense pelo Club dos Galitos, em que tomaram também parte os antigos presidentes do grémio local e representantes da imprensa, A ementa, primorosa e bem servida, honrou o Arcada, que assim vai cimentando os seus créditos.». E em 25 de Setembro do mesmo ano, serve um almoço de boas-vindas ao Ministro do interior, dr. Mário Pais de Sousa, que visitava oficialmente Aveiro. Almoço que foi acompanhado pela jazz band "Odeon" do Porto.
Margem oposta ao "Arcada-Hotel" atravessando a "Ponte dos Arcos"
Mas logo a 6 de Agosto de 1938, podia-se ler no jornal "O Democrata" a seguinte nota:
Não se poderá evitar que isto continue ?
Quer-nos parecer que sim. Está na mão do João Monteiro, capacitando-se de que é um acto de delicadeza respeitar quem precisa de descanso; e, por parte da Câmara, substítuir o calço dos carros por borracha, assim, pouco mais ou menos, como usam os padeiros que deixaram de transnortar os cabazes ás costas.
Vejam então lá. A cidade só tem a lucrar, concorrendo para que os seus visitantes levem deļa as melhores impressões.
Em todo o sentido.»
Dois anos depois, em 1939 e segundo o guia "Hoteis e Pensões de Portugal", a oferta hoteleira de Aveiro era a seguinte: "Arcada-Hotel" (40 quartos); "Pensão Avenida" (30 quartos); "Pensão Restaurante Barros" (30 quartos); "Pensão Aveirense" (27 quartos), "Pensão Central" (21 quartos); "Pensão Restaurante Moderno" (4 quartos); "Pensão Pinheiro" (7 quartos); "Pensão Rato" (9 quartos); "Hospedaria Ferro" (6 quartos e a mais barata, com diárias entre 7$50 e 12$00) - e "Hospedaria Vidal" (7 quartos).
"Pensão Restaurante Barros", com 30 Quartos
E por falar em pensões, eis que no jornal "O Democrata" de 30 de Setembro de 1944, deparei-me com este anúncio ...
30 de Setembro de 1944
... temporáriamente despromovido? A abertura desta "Pensão Arcada" tinha sido noticiada, e justificada, em 22 de Março de 1943, e no mesmo jornal...
Muitas prosperidades lhe desejamos, A ver se o sr. Aristides Ferreira, dentro em breve, nos dá ensejo a mais dizermos sôbre as iniciativas em que tanto se há distinguido.»
27 de Março de 1943
Em 1943 o arquitecto Ernesto Korrodi (1870-1944) apresenta o projecto para aumento de 1 piso ao "Arcada-Hotel", - ou antes "Pernsão-Arcada" - que viria a concretizar-se na década seguinte, de 50 do século XX. Lembro que, além de outros importantes projectos, este arquitecto foi responsável pelo projecto do "Grande Hotel Guadiana", inaugurado em 1926, em Vila Real de Santo António, e cuja história pode consultar neste blog.
Em 2012 o "Hotel Arcada" sofre uma profunda remodelação cujo projecto de requalificação ficou a cargo do arquitecto Mário Alkbuquerque e muda de denominação para "Aveiro Palace Hotel" com a classificação de 4 estrelas. Para administrador da entidade proprietária, a "Aveiro Palace Hotel, Lda.", constituída em 21 de Dezembro de 2012, foi nomeado João Pedro Clemente, um dos netos do fundador.
"Avenida Palace Hotel" em 2017
Actualmente o hotel, propriedade da "Aveiro Palace", S.A.", faz parte, desde Março de 2024 da cadeia portuguesa de hotéis a "Turim Hotels & Resorts", fundada em 1992 e liderada por Ricardo Martins. A denominação actual do hotel é "Turim Aveiro Palace Hotel".
Localizado na actual Praça Joaquim Melo Freitas, - antiga Praça Luis Cipriano - dispõe de 43 quartos e 5 suites, todos bem equipados e recentemente remodelados. O pequeno-almoço buffet é servido no "Salão do Azulejo", decorado, desde 1937, com azulejos fabricados pela "Fábrica Aleluia" . O hotel conta com biblioteca, lavandaria, e sala com computador com acesso à internet gratuito.
fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Biblioteca Nacional Digital, Arquivo Digital de Aveiro, Delcampe.net, Turim Aveiro Palace Hotel, Portimagem
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