Restos de Colecção

25 de julho de 2014

Casa de Modas “A. Serra”

A casa de modas "A. Serra", situada na rua de São Nicolau 121-127, esquina com a Rua Nova do Almada, em Lisboa,  propriedade de Alfredo Balga e Serra, abriu as suas portas no início de 1916. Nas fachadas deste estabelecimento lia-se a diversificada oferta de artigos: «Modellos», «Vestidos», «Chapeus», «Enxovais», «Tecidos», «Pelles». Além da loja no piso térreo, ocupava também o primeiro piso do edifício.

                                     Casa de modas “A. Serra”                                                Proprietário, Alfredo Balga e Serra

  

«Sem favor, a casa a que nos referimos, é a melhor no genero e a mais preferida pelas senhoras da nossa primeira sociedade. É ali que vão procurar as suas graciosas "toilettes" que teem um cunho de bom gosto e de distinção inegualaveis e que são um verdadeiro primor artistico.»

                                     Salão de vendas                                                                     Salão de espera

 

Salão de exposição dos modelos de chapéus

                Salão de exposição de modelos de Paris                                                  Atelier de costura

 

Atelier de Costura

 

«Mas o seu proprietario, que tem um espirito de arrojadas iniciativas, tentou transformar o seu acreditado estabelecimento n'uma casa "chic", que pudesse rivalizar com as congeneres do estrangeiro, e, devido á sua vontade de ferro, conseguiu-o transformando-a n'um paraiso, tornando-a no mais "chic" estabelecimento de toda a Lisboa.
Eis, pois, Lisboa dotada de mais um estabelecimento "chic", unico no genero, cuja falta se fazia sentir n'uma capital como Lisboa, felicitando nós o sr. Alfredo Balga e Serra por tão arrojada iniciativa, digna dos maiores proventos». citações na revista “Illustração Portugueza”

Como se pode observar na 1ª foto deste artigo, a seu lado e na Rua Nova do Almada, ficava a casa de “Viúva de José Alexandre de Senna”,  futura “Casa Senna”, que ainda se mantem no mesmo lugar como pode ser testemunhado nas fotos a cores mais abaixo.

Casa de “Viúva de José Alexandre de Senna” futura “Casa Senna”

Aspecto e enquadramento actuais do local onde funcionou a loja “A. Serra”

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa

23 de julho de 2014

Lusalite

“Lusalite - Sociedade Portuguesa de Fibrocimento, S.A.R.L.”, foi fundada em 1933 pela "Corporação Mercantil Portuguesa, Lda." propriedade de Raúl Abecassis. Esta empresa líder na produção de fibrocimento e a sua forte posição no mercado alargou o nome da marca a uma vasta gama de produtos.

Instalações fabris da “Lusalite” na Cruz Quebrada

 

 

1934

1935

Vista da “Lusalite” e da praia da Cruz Quebrada

Inicialmente com sede na Rua do Alecrim, esta empresa líder na produção de fibrocimento, teve as suas instalações fabris na Cruz Quebrada, junto da estação da linha de caminhos de ferro Lisboa-Cascais, e do Estádio Nacional no Jamor.

 

 

A sua principal gama de produtos, fabricados em fibrocimento era a seguinte:

Chapas onduladas e lisas, chaminés, autoclismos, vasos, placas para revestimentos, tubos de fornecimento de água, tubos para água sobre pressão, tubos para esgotos, tanques, depósitos, casas pré-fabricadas, armários, pavimentos, etc.

Casas pré-fabricadas em fibrocimento da “Lusalite” no Bairro da Quinta da Calçada em Telheiras, em 1939

 

1939

 

                                          1934                                                     “Lusalite” na Exposição Colonial do Porto em 1934

 

A “Lusalite” e a “Cimianto” - fundada em Setembro de 1942 - repartiram entre si mais de 75 por cento do mercado de produtos de fibrocimento. Juntaram-se para criar, em 1945, a “Novinco - Novas Indústrias de Materiais de Construção, S.A.”, no Norte em Leça do Balio. Estas três maiores empresas criaram uma associação para a promoção do amianto, hoje em dia banido da indústria.

Em 1952 a “Lusalite”, já possuía uma fábrica no Dondo, perto da Beira, em Moçambique liderada por Jorge Jardim. Este após ter deixado o lugar de Subsecretário de Estado do Comércio e Indústria, nesse ano, tinha aceite o convite endereçado por Raúl Abecassis, para a direcção desta fábrica.

                                             1953                                                                                    1934

                  

Em 1974, a “Lusalite - Sociedade Portuguesa de Fibrocimento, S.A.R.L.”, empregava 728 pessoas distribuídas entre a sede social e fábrica na Cruz Quebrada, e nas instalações administrativas em Lisboa. A empresa tinha um capital social de 90.000 contos, dividido em 90.000 acções de 1000$00 cada uma. A família Abecassis possuía 40.009 acções, a própria “Lusalite” 49.862 acções e as restantes dispersas por outros investidores.

                                             1943                                                                                    1953       

        

Tal como Portugal, os restantes países da União Europeia dependem da importação de amianto. Provocando polémica em torno dos argumentos sanitários e ecológicos, a UE decidiu, neste contexto, proibir a utilização de fibras de amianto a partir de 2004. A decisão levou a Jorge Abecassis - a figura principal da família que, através da “Corporação Mercantil Portuguesa”, detinha a propriedade da “Lusalite” - a fechar a empresa.

Em 2000 é efectuada a venda da marca “Lusalite” à empresa “Novinco - Novas Indústrias de Materiais de Construção, S.A.” ( entretanto encerrada em 2009, insolvente) e é encerrada definitivamente a “Lusalite - Sociedade Portuguesa de Fibrocimento, S.A.R.L.”.

Instalações da “Lusalite” na Cruz Quebrada ao abandono

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital

22 de julho de 2014

Antigamente (100)

Carro de propaganda aos gelados “Esquimaux” , na Avenida da República em Lisboa

Fotógrafos em acção, no Terreiro do Paço em Lisboa

Dos primeiro autocarros da “Companhia Carris de Ferro de Lisboa” em 1912

Em 1912, a “Companhia Carris de Ferro de Lisboa”  inaugurou a carreira de autocarros Sete Rios - Carnide, respondendo assim ao apelo de transporte entre zonas mais distantes em Lisboa, sem o oneroso prolongamento das linhas dos carros eléctricos. A “British Leyland” forneceu os autocarros segundo as normas impostas pelo Governo Civil de Lisboa: deviam possuir tejadilho, cortinas laterais por causa do Sol, bancos estofados com palha no assento e encostos de material imitando couro; tinham rodas de borracha e motores de 55 cv.. E, no mesmo ano …

Primeira carreira de autocarro ligando Lisboa ao Estoril, em 1912

«Aguadeiros» no chafariz de Campo de Ourique

A maioria dos «aguadeiros» eram galegos reconhecidos pela sua típica indumentária e característicos pregões, vendendo a água em barris cujo preço fora estabelecido desde 1780. Para puderem exercer esse ofício, inscreviam-se na Câmara Municipal de Lisboa e usavam uma insígnia municipal. O recurso aos «aguadeiros» ia ser indispensável até ao século XX, pois continuava a haver problemas e carências de abastecimento, principalmente durante os meses de Verão.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa

20 de julho de 2014

Portugal na Feira Mundial de Nova Iorque

A “New York World’s Fair 1939”, traduzindo, “Feira Mundial de Nova Iorque de 1939” foi inaugurada em 30 de Abril de 1939. Esta exposição universal, ocupou um área de 492 ha, no “Flushing Meadows-Corona Park” - local que viria a ser ocupado pela “Feira Mundial de Nova Iorque”  (1964-1965) -  tendo sido a segunda maior feira mundial americana de todos os tempos, somente ultrapassada pela “Louisiana Purchase Exposition” de 1904. A feira mundial antecessora tinha sido a “Exposition Internationale des Arts et Techniques dans la Vie Moderne in Paris” , ou simplesmente “Exposição Internacional de Paris”, em 1937 onde Portugal também esteve presente.

Feira Mundial de Nova Iorque em “Flushing Meadows-Corona Park”

NY 1939.1       NY 1939.2

Planta com o pavilhão de Portugal no topo esquerdo

NY 1939.4

A “Feira Mundial de Nova Iorque”, em 1939, mais que uma demonstração da evolução técnica dos países participantes, pretendia ser como uma ilustração optimista e positiva centrada no futuro. Esta visão idealista tinha como objectivo fazer face à crise económica americana, decorrente do “Big Crash” de 1929.

Lembro que, a primeira presença de Portugal numa Exposição Universal foi em Londres, em 1851, naquela que seria a primeira do género e de seu nome: “Great Exhibition of the Works of Industry of all Nations”. Para albergar a exposição foi construído em Hyde Park uma grandiosa estrutura em ferro e vidro, o “Crystal Palace”.

“Crystal Palace” em Hyde Park, Londres em 1851

Portugal viria a participar em 1878 na “Exposition Universelle de Paris 1878”, pela primeira vez com um pavilhão próprio. O pavilhão de Portugal, era «o resultado de uma amálgama entre o Palácio da Pena, o Palácio de Sintra e o Mosteiro dos Jerónimos».

Pavilhão de Portugal na “Rue des Nations” da Exposição Universal de Paris

A presença portuguesa, teve um objectivo diferente em relação à exposição anterior e mesmo em relação aos outros participantes. A imagem projectada é a de um Regime “humanizado” preocupado com a população, é aqui amplificada de modo atingir directamente o interesse da comunidade de emigrantes portugueses residentes nos E.U.A.

A presença de Portugal nesta “Feira Mundial de Nova Iorque”, foi comissariada por António Ferro, director do “SPN - Secretariado de Propaganda Nacional”,  que escolheria o arquitecto Jorge Segurado para a realização do projeto de arquitectura do pavilhão de Portugal. O pavilhão teve, ainda, a colaboração da equipa de decoradores do “SPN” formada por: Fred Kradolfer, Carlos Botelho, Bernardo Marques, José Rocha, Paulo Ferreira, Emmerico Nunes e Tomaz de Mello (a mesma equipe que decorou o Pavilhão de Portugal projetado por Keil do Amaral para a Exposição Internacional de Paris, em 1937). Foram ainda incluídas obras de outros autores, entre os quais: Maria Keil, António Soares, Jorge Barradas, Estrela Faria, Canto da Maia, Leopoldo de Almeida, Álvaro de Brée, Barata Feyo, Paulo Ferreira, etc.

Esboço do projecto inicial de Jorge Segurado

Obras de construção do pavilhão iniciadas em 1938

 

Planta do Pavilhão

A proposta que foi seleccionada, da autoria do arquitecto Jorge Segurado, foi composta pela junção de dois volumes distintos, um planimétrico e outro de forma circular. O primeiro destinava-se às salas de evocação histórica, com representações que pretendiam retratar o passado, o presente e o futuro, e o segundo teria a dupla função de espaço de recepção e expositivo, ao acomodar a secção do “Turismo e Arte Popular” no segundo piso.

Pavilhão de Portugal

 

Assinatura do Livro de Honra por António Ferro                 João de Bianchi (Ministro de Portugal em Washington)

 

Na foto anterior e da esquerda para a direita: Jorge Segurado (Arquitecto), Dr. Aragão Barros (Cônsul adjunto), Albin Johnson (Comissário da Feira), J. Saavedra de Figueiredo (Vice-cônsul em Nova Iorque), João de Bianchi (Ministro de Portugal em Washington), Julis Cecil Holmes (Assistente administrativo), Grover Whalen (Presidente da Feira), António Ferro (Comissário do pavilhão de Portugal), Admiral William H. Standley (Director das participações estrangeiras) e Victor Verdades (Consul de Portugal em Nova Iorque).

Cerimónia da inauguração do pavilhão de Portugal

 

Grover Whalen (Presidente da Feira) discursando

A entrada no pavilhão, situado no volume circular, é efectuada por uma porta de arco em volta perfeito, encimado pelo o escudo nacional e ladeado por uma monumental moldura decorado com uma figuração em relevo, inicialmente concebida como vitrine, por Maria Keil. Na torre redonda, marcada por pilares adossados rematados em ameias, é ainda inscrito a designação do país. O “hall” de entrada dá acesso ao segundo volume, organizado segundo uma sequência cronológica das salas, desde da sala da “Descoberta do Atlântico”, à secção de “Columbo”, à secção dedicada a “Expansão Portuguesa no Mundo”, seguido da secção do “Planisfério Luminoso” (monumental planisfério de cortiça onde estavam assinalados os diferentes trajectos realizados pelos portugueses) e finalmente na ala dedicada ao “Presente” e ao “Estado Novo”.

No "Século Ilustrado"

“Vitrine Monumental” por Maria Keil

Baixos relevos por Jorge Barradas e Paulo Ferreira

     

Painéis para a sala “Expansão Portuguesa no Mundo”

Planisfério Luminoso da Epopeia Marítima por Fred Kradolffer

 

O percurso é rematado por um pátio ajardinado, para o qual é projectado uma escadaria de ligação a um terraço ao ar livre. Esta estrutura independente, de significado simbólico, cujo distanciamento espacial é tradutor de distanciamento temporal, pretendeu ser uma representação de um possível futuro superior, justificado pelo passado e pelo o presente nacional, identificada pelo o friso escultórico.

O carácter térreo do pavilhão, a simulação de uma construção em pedra, a aplicação de elementos e decorativismos de função simbólica e evocativa, supostamente nacionais, definem uma encenação ligada ao passado e condicionada pelos objectivos ideológicos, onde a importância reside na exaltação da história e das raízes.

Maquetas a serem colocadas nas várias secções do pavilhão português

“Barcos e Portos”

 

“Finanças e Governação do Estado Novo” e “Pesca do Bacalhau”

 

“Obras Públicas e Restauro de Monumentos”

 

“Descoberta do Atlântico” por Fred Kradolffer

 

Incluída na participação portuguesa na “Feira Mundial de Nova Iorque”, para além do pavilhão principal, contou, também, com a edificação do “Stand de Honra”, também da autoria do arquitecto Jorge Segurado, a enquadrar no “Hall das Nações Estrangeiras”. Edifício de 5.000m2 de superfícies lisas, definido numa planta adaptável, concretizando um desejo de monumentalidade em que os únicos elementos decorativos são constituídos pelo tradicional escudo armilar, designação país e ainda um mapa-mundo, esta necessidade advém do facto de se querer impor face aos outros pavilhões, pretendendo ser a “afirmação das colónias, império e valores cristãos.”

“Turismo e Arte Popular” por Thomaz de Mello

 

Esta “Feira Mundial de Nova Iorque” encerraria no ano seguinte a 30 de Outubro de 1940. A exposição universal seguinte a “Exposition internationale du Bicentenaire de Port-au-Prince” em Port-au-Prince, no Haiti, viria a ser inaugurada só em 1 de Dezembro de 1949, em virtude da II Guerra Mundial, e para comemorar os 200 anos da fundação deste país.

Portugal esteve presente em várias exposições mundiais. As suas presenças em Paris em 1937, e Bruxelas em 1958, foram aqui destacadas em dois artigos que podem ser visitados nos seguintes links: Portugal na Exposição Internacional de Paris” (1937) e Portugal na Exposição Universal de Bruxelas” (1958).

Bibliografia: “Arquitectura como instrumento na construção de uma imagem do Estado Novo” - Tese de Licenciatura em Arquitectura de Marta Raquel Pinto Baptista - FCTUC Arquitectura - Coimbra (2008).

fotos in: New York Public Library, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)