Restos de Colecção: janeiro 2026

28 de janeiro de 2026

"Radio Vitoria" - A embaixada do bom gosto

A conhecida loja de candeeiros e artigos eléctricos "Radio Vitoria", abriu pela primeira vez a 5 de Janeiro de 1926, na Rua da Victoria, 46-48, esquina com a Rua dos Correeiros, 96 a 104, em Lisboa. Era propriedade da firma "Radio-Victoria, Lda." constituída em 20 de Dezembro de 1919, pela firma "Energia Hidro-Electrica, Lda." sedidada na Rua da Conceição, 107 - 3º em Lisboa.

1994


5 de Janeiro de 1926

"Radio-Victoria" veio substituir outras duas que existiam nas portas 46 e 48 da Rua da Vitoria. No nº 46 tinha funcionado a farmácia de Filipe Valladas Preto, e no nº 48 a drogaria da firma "Gago Proença & Commandita". 

A firma "Energia Hidro-Electrica, Lda." seria extinta e ficaria somente a "Radio-Victoria, Lda.". Começando por comercializar as representações de material de T.S.F. e baterias para automóveis, herdadas da primeira, a "Radio Victoria" extendeu a sua actividade ao ramo das instalações electricas, vendendo todo o tipo de acessórios, fios, interruptores para instalações eléctricas.


Ambos de 8 de Novembro de 1924


Anúncio de Março de 1928 e factura de 15 de Dezembro de 1935

Em 8 de Abril de 1946, a "Radio Victoria, Lda." tinha um capital social de 196.000$00 correspondendo à soma das quotas dos sócios, que eram as seguintes: Guilherme Duarte Rodrigues, 100.000$00, e Hernani Ferreira da Silva Pedroso Rodrigues, 96.000$00.  Nesta data o pacto social é completamente alterado e dois dias depois a 10 de Abril a constituição da firma é alterada, com reforço do capital social, que era de 196.000$00, com a quantia de 104.000$00 elevando-se assim a 300.000$00, e admitidos como novos sócios o Sr. Joaquim Cardoso (75.000$00) e a firma "Gaspar da Silva, Lda" (29.000$00).

1994

A constituição da "Radio Victoria, Lda." é de novo alterada em 30 de Março de 1957. Joaquim Nunes Bernardo cedeu a sua quota de 75.000$00 a Amadeu Manuel Seabra e a Carlos Marques Castanheira, na proporção de 45.000$00 e 30.000$00, respectivamente.

É a partir da década de 50 do século XX que a "Rádio Victoria" se tornaria célebre por uma canção-anúncio criado e utilizado pelo famoso José de Oliveira Cosme (1906-1973) no seu programa de rádio "A Vida É Assim" difundido aos Domingos no antigo "RCP - Rádio Clube Português" (não confun e do qual eu fui um ouvinte assíduo já nos anos 60. Aqui fica a letra:

"Candeeiros bem bonitos
modernos, originais,
compre-os na Rádio Vitória,
não se preocupe mais.

Lá na Rua da Vitória
quarenta e seis quarenta e oito
satisfaz-se plenamente
o cliente mais afoito.

Porque na Rádio Vitória
É a embaixada do bom gosto
Quem lá vai é bem servido
e sai sempre bem disposto
"

Quanto à musica, está disponível na plataforma "Youtube".


«Candeeiros bem bonitos modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória». Foto de 1994

Esta canção-anúncio tornou-se célebre e ainda hoje os mais velhos, como eu, ainda a recordam e sabem a letra de cor. Do belíssimo blog "A Minha Rádio" da autoria de Rogério Santos, retirei o seguinte texto que exprime perfeitamente o que acabei de escrever:

«Ao domingo era hábito almoçarmos bacalhau com grão enquanto ouvíamos A Vida é Assim, de José de Oliveira Cosme. Era um programa delicioso, sem pretensões, muito caloroso e agradável, com diálogos interpretados pelo autor e pela Mary, o João e a Luísa de uma ficção que integrava os anúncios na conversa do casal. E assim apareciam, com suave naturalidade, as camisas da Camisaria Moderna, as tais que não faziam pregas no peito nem rugas no colarinho, o cafezinho da Pérola do Rossio, no Rossio 105, os chás milagrosos da Antiga Ervanária do Largo da Anunciada, os petiscos da charcutaria Suíça e, o melhor de tudo, os candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória, não se preocupe mais. Porque na Rádio Vitória, embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto. Lá na rua da Vitória, 46-48, satisfaz-se plenamente o cliente mais afoito.»

De seguida publico um artigo que foi publicado em 6 de Abril de 1957 na revista "Crónica Masculina".

José de Oliveira Cosme à direita na foto

Lembro-me, já nos anos 60, que o programa era uma conversa divertida a três, em que os anúncios eram inteligentemente inseridos ao longo da mesma. Tinha uma duração de cerca de 45 minutos e era transmitido às 13 horas de todos os Domingos. Não perdia nenhum programa, enquanto almoçava ao Domingo com o meu radiozito a pilhas, e com o qual ouvia, também, relatos de futebol. Começei a ouvir a partir dos meus 6 ou 7 anos de idade ... Durante a semana, e à mesma hora, e no mesmo RCP ouvia os "Parodiantes de Lisboa", igualmente fantásticos.


1961

14 de Dezembro de 1971

Quanto à "Rádio Vitória, Lda." funcionou durante muitos anos, até encerrar definitivamente 2009, entrando em processo de insolvência e que concluiu com a sua liquidação e dissolução no ano de 2016.

31 de Dezembro de 1972

Actualmente, no seu lugar funciona o restaurante-café "Cais das Colunas".


fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca de Arte da FCG  fotos de 1994 in: "Lojas de um tempo ao outro" Vol II, de Jorge Ribeiro 

24 de janeiro de 2026

"Londres Salão"

A  loja "Londres Salão" foi fundada por Augusto Brandão, e inaugurada em 8 de Outubro de 1912, na Rua Augusta, 277 e 279, em Lisboa. Aquando da sua fundação era uma alfaiataria, comercializando bengalas, chapéus e tecidos para homem, sendo réplica de outra onde Augusto Brandão se inspirou em Picadilly, na cidade de Londres. 

"Londres Salão", em foto de 5 de Agosto de 1938

Até então, Augusto Brandão tinha sido proprietário do armazém "Augusto Brandão" Mercador - Fatos por Medida, desde finais do século XIX, na Rua dos Fanqueiros, 306 e 308, onde anteriormente tinha funcionado o depósito de chocolate de Manuel Caetano de Sousa.


10 de Novembro de 1898


1909

Por outro lado, antes de Augusto Brandão tomar de aluguer esta loja na Rua Augusta, ali tinha funcionado a drogaria de J. R. Fonseca, nos anos 80 do século XIX.

Depois de assinado o contrato de arrendamento da loja na Rua Augusta, entre o proprietário José Maria Coelho Falcão e Augusto Brandão em 28 de Junho de 1911, foram apresentados vários projectos à CML. Com o projecto aprovado, tiveram início as obras e a loja viria a ser inaugurada no ano seguinte, 1912.


Projecto de 26 de Janeiro de 1912

«Acaba de inaugurar este elegante estabelecimento da rua Augusta, no primeiro quarteirão a quem vão do Rocio. E' luxuosissima a forma como está montado o modelar estabelecimento que tem tido os mais justos elogios pela exposição que fez dos seus trabalhos em fatos para homem, que são superiormente dirigidos por um reputado mestre de corte, vindo de Londres. Os chapeus para homem são o que de mais perfeito e elegante ha no genero, assim como todos os artigos de vestuario ali à venda. 
Estamos, portanto, certos de que o Londres-Salão vae ser considerado como um perfeito estabelecimento da moda.»  in:
jornal "A Capital" de 8 de Outubro de 1912.

8 de Outubro de 1912


1912

Participação em "A Semana dos Artistas", em 1928


Bilhete Postal de 5 de Abril de 1932

De seguida publico um envelope e respectiva carta, remetida pelo "Londres Salão" e enviada ao Dr. Luiz Cardim, que (1879-1958) que tinha sido o último diretor da primeira "Faculdade de Letras da Universidade do Porto" (1919-1931), cobrando uma dívida contraída por seu filho, Alfredo Cardim, neste estabelecimento que estudava em Lisboa. Vide o modo elegante e educado como era cobrada a dívida, até porque se tratava de «um cliente dedicado e amigo».



22 de Janeiro de 1936

O que não impedia, e atestava a amizade mútua referida no texto da carta anterior, o excerto de carta, sem data, enviada pelo Dr. Luiz Cardim a sua filha Ana Cardim, e que passo a transcrever:.

«O dinheiro que mandaste nem chega bem para a hospedagem e passagem, e alem disso apareceu uma nova verba:  o seguro da "Fidelidade". Por isso mandei o telegrama de hoje, mas de qualquer maneira, ou o Torres da "Ferin" ou o Bernardo do "Londres Salão" estão prontos a fornecer fundos.»

Em, 1950, José Augusto de Quadros adquire, por trespasse, a alfaiataria "Londres Salão" ficando a firma "Quadros, Lda." como proprietária. A "Quadros, Lda." tinha sido constituída em 14 de Fevereiro de 1950 com um capital social de 100.000$00, tendo como sócios José Augusto de Quadros (maioritário), Emílio Augusto Mangeon de Quadros, Sebastião Moreira Centeno e Orlando Augusto Pereira de Quadros., Esta transforma a loja de alfaiataria numa loja de venda de tecidos a metro para confecção para senhora, Contudo, manteria o mobiliário em macacaúba brasileira escura, e os brasões de armas de Inglaterra originais, assim como os dizeres na calçada portugueza à entrada, da loja.

José Augusto de Quadros


Localização (rectangulo a amarelo) da "Londres Salão" na Rua Augusta, no Natal de 1964




Em 1977 faleceu José Augusto de Quadros, que tinha adquirido a loja em 1950, e esta entra em modo de autogestão por uns anos. De referir que, José Augusto de Quadros, mantinha outra loja de vestuário masculino "Vitrine" na Rua dos Fanqueiros, 257, e outra na Rua Morais Soares, 103, ambas em Lisboa, girando sob a firma "J. A. Sequeira, Lda.", que terá sido constituída em 16 de Novembro de 1929e da qual era sócio. Julgo que esta loja ainda existe. Quanto à da Rua Morais Soares, encerrou em 2024. Seu filho, José Gouveia de Quadros, ao acabar o seu curso de gestão assumiu a gerência da "Londres Salão", a partir de 1986. 

Presentemente a "Londres Salão" á acessorada por um vitrinista, algo que já começa a ser habitual noutras lojas tradicionais. A propósito de montras, em Fevereiro de 1957, aquando a visita da rainha Isabel II a Portugal entre 18 e 23 de Fevereiro, a montra foi especialmente decorada com réplicas das jóias da coroa de Inglaterra, facto que, segundo se disse, terá agradado à monarca.

Montra aquando da visita da Rainha Isabel II a Portugal, em 1957

Actualmente, e com os seus 113 anos a "Londres Salão" comercializa tecidos para confecção de senhora, para casamentos e baptizados, sedas naturais, brocados, piquets, linhos e lantejoulas, e felizmente «está bem e recomenda-se» ...






fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do TomboO Dr. Luís Cardim e a primeira Faculdade de Letras do Porto, Lojas com História

21 de janeiro de 2026

"Arcada-Hotel" em Aveiro

O "Arcada-Hotel" foi inaugurado em 19 de Julho de 1937, na Praça Luis Cipriano, em Aveiro. Foi seu fundador o capitão Aristides Tavares Ferreira, natural de Gouveia mas casado com uma filha do falecido comerciante de Aveiro, Domingos José dos Santos Leite. O projecto deste que seria o primeiro hotel de Aveiro, ficou a cargo do arquitecto Jaime Inácio dos Santos (1874-1942). No piso térreo do "Arcada-Hotel", ficava o famoso "Café Arcada", pertença do proprietário do hotel, tendo sido frequentado pelas gerações da primeira metade do século XX e constituiu um grande centro de convívio, durante o dia e a noite, quer no Verão, quer no Inverno.


"Arcada-Hotel" e "Café Arcada" junto á "Ponte dos Arcos"


Capitão Aristides Augusto Tavares Ferreira

Aristides Augusto Tavares Ferreira tinha incorporado o "1º Corpo Expedicionario Português", como alferes de infantaria, aquando da participação portuguesa na  I Grande Guerra Mundial (1914-1918), tendo embarcado em Lisboa a 20 de Janeiro de 1917. Depois de hospitalizado por duas vezes, e considerado «incapaz de todo o serviço»,  regressou a Portugal em 14 de Agosto de 1917.

Edifício do "Arcada-Hotel" após a sua conclusão em 1937

Este hotel veio substituir outro edifício que ali existiu mantendo as arcadas já existentes no lado da Rua dos Mercadores, eliminando uma delas para alargamento da rua.  


Antigo edifício e as 7 Arcadas antes do "Arcada-Hotel"



Arcadas, Rua dos Mercadores e chafariz na esquina da Praça do Commercio com a Rua de Viana do Castelo, em foto de 1911

Quanto a esta rua vou transcrever parte de um texto bem elucidativo da importância desta rua, retirado do blog "Campeão das Províncias" e da autoria de Marta Duarte: 

«A Rua dos Mercadores, da freguesia da Vera-Cruz, teve um papel muito importante na vida de Aveiro, durante os séculos XVIII, XIX e a primeira metade do século XX.
A actividade comercial predominava. Era ali que se movimentava grande parte da população aveirense, quer para fazer as suas compras e dar os seus recados quer para se reunir com os amigos.
A rua conserva acentuados traços arquitectónicos setecentistas e evoca um dos nomes mais antigos de toda a toponímia de Aveiro. No entanto, teve já diferentes designações: foi Rua dos Balcões e também Rua dos Sombreireiros, pelo facto de ali existirem guarda-soleiros, tão procurados por senhoras e senhores da época, que com um ar distinto, próprio da cultura inglesa, usavam os seus graciosos guarda-sóis e pomposos guarda-chuvas. Mais tarde seria, também, conhecida por Rua de Serpa Pinto.
À entrada da Rua dos Mercadores deparamo-nos com "os Arcos", antigo coração da cidade de Aveiro, ponto de encontro de toda a população durante o século XIX e ainda no nosso tempo.
Na parte de baixo do Hotel Arcada, ficava o famoso "Café Arcada", pertença do Sr. Aristides. Foi frequentado pelas gerações da primeira metade do século XX e constituiu um grande centro de convívio, durante o dia e a noite, quer no Verão, quer no Inverno. Nas últimas décadas, este edifício foi profundamente remodelado, tal como se mantém.
Os "Arcos" eram constituídos por mais duas arcadas, que foram cortadas com o objectivo de alargar a rua. Numa das arcadas estava o "chafariz dos Arcos", entretanto removido para o outro lado do canal, junto da Caixa Geral de Depósitos.
Tal como a Rua dos Mercadores, os "Arcos" tinham como principal atractivo o comércio. Em meados deste século poder-se-iam encontrar, entre outros estabelecimentos comerciais, a livraria de Bernardo Torres, o "Café Cisne" do Sr. Abreu, os estabelecimentos do Sr. Ricardo Pereira Campos, a "Padaria Macedo" e o "Café Barroca".
Naquela época os jornais ainda não tinham como local de venda o "Duarte dos jornais", agora situado na Rua dos Mercadores. Estavam expostos nos "Arcos", em cima de uma cadeira de ferro e eram vendidos pela "Tia Micas".»

Publicidade em 10 e 17 de Julho de 1937

Quanto ao "Arcada-Hotel", classificado de 3ª classe, o jornal "O Democrata" na notícia da sua abertura, descrevia pormenorizadamente o hotel:

«Quem o enfrenta não pode deixar de colhêr imediatamente as melhores impressões, tão elegante se nos depara, atraído pelas suas linhas gerais. É obra do arquitecto Jaime Santos e a opinião que emitimos de princípio ainda hoje a sustentamos: honra-o sobremaneira. A entrada, faz-se, provisdriamente, pela Rua de Viana de Castelo, dando acesso ao primeiro andar uma escada cómoda e bem lançada. Aqui ficam as principais dependências: escritório, sala de espera, sala de visitas, sala de jantar, cozinha e alguns quartos, dos 40 espalhados por todo o edifício, A destacar-se, porém, a sala de jantar. Vasta e tendo a revesti-la artísticos panneaux da Fábrica Aleluia, impõe-se ainda pela localisação dado o panorama que dela se disfruta. No segundo e terceiro andares, tudo quartos. Pintados de côres diferentes e com mobília apropriada: cheios de ar, de luz e de confôrto; com vistas primorosas, o Arcada-Hotel de Aveiro, além do mais, tem de atraír por isso. Depois não lhe falta também um apartement preparado comme il faut, a água em abundância para as casas de banho, telefones, campainhas eléctricas - o indispensável, enfim, nos hoteis modernos e de categoria. (...)
Da gerência do Arcada-Hotel foi incumbido o sr. António Pimenta, com longa prática do métier, auxiliado pela esposa, tendo-se registado como primeiros hóspedes os nomes dos srs. Franco Ferreira, de Lisboa, e António Ribeiro Gonçalves Bastos, da casa Citroën. 
Escusado sera repetir que auguramos ao Arcada-Hotel um futuro replete de prosperidades. É que, pela sua situação, que permite aos hóspedes disfrutarem vistas  surpreendentes; pelo asseio, pela limpesa e pelo confôrto está à altura de receber tôdas as pessoas categorisadas que nos visitem e aqui desejarem demorar-se ou mesmo permanecer. Custou, mas foi. Louvores ao homem que tal conseguiu, removendo, para isso, tôdas as dificuldades.»





31 de Julho de 1937

30 de Outubro de 1937


Etiqueta de bagagem

A comprovar a opinião anterior, logo de seguida em 7 de Agosto de 1937 ... «no Arcada-Hotel realizou-se, cerca das 14 horas, um almoço oferecido aos corpos gerentes do Sport Club Vianense pelo Club dos Galitos, em que tomaram também parte os antigos presidentes do grémio local e representantes da imprensa, A ementa, primorosa e bem servida, honrou o Arcada, que assim vai cimentando os seus créditos.». E em  25 de Setembro do mesmo ano, serve um almoço de boas-vindas ao Ministro do interior, dr. Mário Pais de Sousa, que visitava oficialmente Aveiro. Almoço que foi acompanhado pela jazz band "Odeon" do Porto.


1937

Margem oposta ao "Arcada-Hotel" atravessando a "Ponte dos Arcos"


12 de Fevereiro de 1938

Mas logo a 6 de Agosto de 1938, podia-se ler no jornal "O Democrata" a seguinte nota:

«Duas coisas que estão a tornar-se incomodas para os hóspedes do Arcada Hotel principalmente: o pregão de jornais a deshoras - quantas vezes? - depois da meia noite e, de madrugada, o rodar das carroças do lixo sôbre as pedras da calçada.
Não se poderá evitar que isto continue ?
Quer-nos parecer que sim. Está na mão do João Monteiro, capacitando-se de que é um acto de delicadeza respeitar quem precisa de descanso; e, por parte da Câmara, substítuir o calço dos carros por borracha, assim, pouco mais ou menos, como usam os padeiros que deixaram de transnortar os cabazes ás costas.
Vejam então lá. A cidade só tem a lucrar, concorrendo para que os seus visitantes levem deļa as melhores impressões.
Em todo o sentido.»

Dois anos depois, em 1939 e segundo o guia "Hoteis e Pensões de Portugal", a oferta hoteleira de Aveiro era a seguinte: "Arcada-Hotel" (40 quartos); "Pensão Avenida" (30 quartos); "Pensão Restaurante Barros" (30 quartos); "Pensão Aveirense" (27 quartos), "Pensão Central" (21 quartos); "Pensão Restaurante Moderno" (4 quartos); "Pensão Pinheiro" (7 quartos); "Pensão Rato" (9 quartos); "Hospedaria Ferro" (6 quartos e a mais barata, com diárias entre 7$50 e 12$00) - e "Hospedaria Vidal" (7 quartos). 

"Pensão Restaurante Barros", com 30 Quartos


"Pensão Avenida", com 30 quartos


"Pensão Restaurante Moderno", com 4 Quartos

E por falar em pensões, eis que no jornal "O Democrata" de 30 de Setembro de 1944, deparei-me com este anúncio ... 

30 de Setembro de 1944

... temporáriamente despromovido? A abertura desta "Pensão Arcada" tinha sido noticiada, e justificada, em 22 de Março de 1943, e no mesmo jornal...

«Pensão-Arcada
Abre hoje no mesmo local e ocupando o mesmo edifício onde esteve iustalado o Arcada-Hotel, que há mezes encerrou as suas portas por uma questão suscitada entre o seu proprietário e a Câmara.
Muitas prosperidades lhe desejamos, A ver se o sr. Aristides Ferreira, dentro em breve, nos dá ensejo a mais dizermos sôbre as iniciativas em que tanto se há distinguido.»

27 de Março de 1943

Em 1943 o arquitecto Ernesto Korrodi (1870-1944) apresenta o projecto para aumento de 1 piso ao "Arcada-Hotel", - ou antes "Pernsão-Arcada", por enquanto - que viria a concretizar-se na década seguinte, de 50 do século XX. Lembro que, além de outros importantes projectos, este arquitecto foi responsável pelo projecto do "Grande Hotel Guadiana", inaugurado em 1926, em Vila Real de Santo António, e cuja história pode consultar neste blog.



Ainda nos anos 40 do século XX é construído um novo bloco de quartos, no lado da Rua dos Mercadores acompanhado de um primeiro aumento do 3º piso, como se pode ver nas fotos abaixo.


"Arcada-Hotel" em 1951



17 de Fevereiro de 1951



Ambos de 29 de Setembro de 1951

O jornal "Correio do Vouga" em 27 de Outubro de 1951 informava: «Afim de visitar a indústria hoteleira, partiu também para a Suíça o sr. Aristides Leite Ferreira, filho do proprietário do Arcada-Hotel, sr. Aristides Tavares Ferreira»


Anos 50 do século XX

Em 1 de Outubro de 1953 é constituída a firma "Tavares Ferreira & Filhos, Lda." que passa a deter a propriedade e gerência do "Arcada-Hotel". A sociedade foi constituída pelos seguintes sócios: Aristides Augusto Tavares Ferreira, D. Isabel Leite Ferreira e seus filhos D. Maria Rosa Leite Ferreira de Oliveira, Luís Leite Ferreira, Aristides Leite Ferreira e D. Maria José Leite Ferreira. 

O capital social foi de 200.000$00 assim distribuído: Aristides Augusto Tavares Ferreira, 60.000$00; D. Isabel Leite Ferreira, 60.000$00; D. Maria Rosa Leite Ferreira de Oliveira, 20.000$00; Luís Leite Ferreira, 20.000$00; Aristides Leite Ferreira, 20.000$00, e D. Maria José Leite Ferreira, 20.000$00. «Estas últimas quatro quotas estão realizadas em dinheiro e as quotas do primeiro e segunda outorgantes são constituídas pelo activo dos actuais e diversos bens, valores e direitos dos seus estabelecimentos de indústria hoteleira, café-pastelaria e estabelecimento de ferragens e mercearias denominados Arcada Hotel, Pastelaria Central e Casa Domingos Leite, instalados no imóvel atrás descrito no artigo 1.º, que pertence aos mesmos primeiro e segunda outorgantes e os quais estabelecimentos, com a responsabilidade de todo o passivo e obrigações inerentes àquelas indústrias e comércio, transferem para a presente sociedade.»

Na segunda metade dos anos 50 do século XX, são concluídas as obras de acrescento do 3º piso, ao mesmo tempo que o "Arcada-Hotel" é renomeado para "Hotel Arcada" e eleva o seu estatuto para hotel de 2ª classe.

Em 1 de Fevereiro de 1958 a empresa proprietária do "Hotel Arcada", a firma "Tavares Ferreira & Filhos, Lda.", requer ao "SNI - Secretariado Nacional de Informação", o estatuto de utilidade pública.


O já renomeado "Hotel Arcada", após a construção do 3º andar projectada por Ernesto Korrodi



Etiqueta de bagagem

Em 2012 o "Hotel Arcada" sofre uma profunda remodelação cujo projecto de requalificação ficou a cargo do arquitecto Mário Alkbuquerque e muda de denominação para "Aveiro Palace Hotel" com a classificação de 4 estrelas. Para administrador da entidade proprietária, a "Aveiro Palace Hotel, Lda.", constituída em 21 de Dezembro de 2012,  foi nomeado João Pedro Clemente, um dos netos do fundador.

"Avenida Palace Hotel" em 2017

Actualmente o hotel, propriedade da "Aveiro Palace", S.A.", faz parte, desde Março de 2024 da cadeia portuguesa de hotéis a "Turim Hotels & Resorts", fundada em 1992 e liderada por Ricardo Martins. A denominação actual do hotel é "Turim Aveiro Palace Hotel". 



Localizado na actual Praça Joaquim Melo Freitas, - antiga Praça Luis Cipriano - dispõe de 43 quartos e 5 suites, todos bem equipados e  recentemente remodelados. O pequeno-almoço buffet é servido no "Salão do Azulejo", decorado, desde 1937, com azulejos fabricados pela "Fábrica Aleluia" . O hotel conta com biblioteca, lavandaria, e sala com computador com acesso à internet gratuito.



"Salão do Azulejo"

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do TomboBiblioteca Nacional Digital, Arquivo Digital de Aveiro, Delcampe.net, Turim Aveiro Palace Hotel, Portimagem