Restos de Colecção: Adega Mesquita

7 de agosto de 2022

Adega Mesquita

A casa de fados "Adega Mesquita" foi fundada em 28 de Janeiro de 1938, por Domingos Guerreiro Mesquita e sua mulher Adelina Mesquita ("Tia Adelina"), na Rua do Diário de Notícias, 107-109, no Bairro Alto, em Lisboa.


Foto em 27 de Abril de 1941 com Alfredo Marceneiro a "reabastecer"


1 de Janeiro de 1947

Começou por uma tasca que servia refeições aos ardinas do "Diário de Notícias", que tinha as instalações ali na mesma rua, umas portas mais abaixo, e no edifício de esquina do lado oposto.

Edifício do "Diário de Notícias" em primeiro plano. A "Adega Mesquita" situava-se mesmo à esquerda da varina, ao fundo, com a canasta na cabeça 

Quanto ao seu início, transcrevo partes de um artigo no "Diario de Lisbôa", de 27 de Janeiro de 1968, por ocasião dos 30º aniversário da "Adega Mesquita":

«- Fui toureiro, tive um talho no Rato e um restaurante no Brasil. Estou com trabalhos forçados há sessenta e dois anos. Aos sete, menino pequeno, já eu era ajudante de cortador na Praça da Figueira! Enfim é a vida.

Quando o Mesquita veio da sua terra natal, a cidade do porto, a mãe foi-se empregar em casa do cavaleiro tauromáquico Eduardo Macedo, no Paço da Rainha. Um ano depois o menino entrava para o talho de Rafael Ribeiro Lopes, na Praça da Figueira, onde o conheceriam pela alcunha de "Pintassilgo". E aí mesmo ganhou o gosto dos toiros. Porquê? porque os toiros são uma aventura, "nunca se sabe"... Aos 26 anos recebia a alternativa de peão de brega no Campo Pequeno. Ordenado de então: 7$00 por corrida. Toureou em muitas praças, foi colhido uma vez com gravidade, partiu costelas, vértebras e uma perna. Mas está são que nem um pêro.
- Donde veio a ideia do restaurante?
- Eu era cortador, a mulher cozinheira ... lembrámo-nos disto. Começámos com os ardinas, a 3$50 a refeição. Depois vieram os jornalistas. Veio muita gente. O negócio cresceu.
O prato mais requisitado da Adega Mesquita, a chispalhada. começa a ser cozinhado ás 6 da manhã, depois de o dono chegar da Ribeira com os géneros. Quarenta quilos de carne de porco esperam semanalmente os clientes, lhe chamam "um figo".
- Sabe o que sou? - diz o Mesquita. - Sou um homem de trabalho. E a tia Adelina passa a vida ao fogão. Isso é que nos fez conhecidos!»


31 de Dezembro de 1950

Depois de encerrar para obras de ampliação, a "Adega Mesquita" reabre em 4 de Novembro de 1951, «que alargou a sua sala de restaurante, melhorando-a consideravelmente, embora conservando o mesmo traço castiço, predominando o sentido tauromáquico, que a tornam um restaurante unico na cidade de Lisboa.»


4 de Novembro de 1951


1 de Outubro de 1952


1954

A fadista Celeste Rodrigues (1923-2018), irmã de Amália Rodrigues,  começou a cantar a sério aos 22 anos, a convite do empresário José Miguel, - proprietário de várias casas de fado e teatros lisboetas. José Miguel tinha-a ouvido cantar na "Adega da Mesquita", (onde viria a ganhar 150$00 por noite) no dia em que, vencendo a timidez, Celeste se deixou desafiar para uma desgarrada. Convencido do talento da fadista, o empresário insistiu na sua profissionalização, começando assim uma longa carreira dedicada ao fado, sobretudo ao mais castiço. A estreia aconteceu em 1945, no "Casablanca" (atual "Teatro ABC" ), no "Parque Mayer"


Celeste Rodrigues (1923-2018)


31-12-1953


Amália Rodrigues cumprimentando Domingos Mesquita


Fadista Maria Augusta

27 de Janeiro de 1954


3 de Agosto de 1957 

Certo dia nos anos 60 do século XX "Um Acontecimento no Bairro Alto":

«A Rua do Diário de Notícias teve ontem movimento desusado, parecia em festa. Tanta gente, que até meteu polícia, dois guardas da PSP que, com toda a delicadeza, conduziram a multidão, para que todos conseguissem, com calam, admirar a fantástica montra da castiça Adega Machado. Até parecia mentira ... Uma porca com os seu bacorinhos e dois letreiros:
«Hoje assim!», «Amanhã assado»: tudo oferta do sr. D. José António, conde de Sabrosa (vindos da sua quinta, Casal da Penalva, Sintra). Fidalgo da melhor têmpera e um dos primeiros frequentadores da Adega que quis deste modo patentear a sua amizade e admiração pelo casal Mesquita. (...)
A acrescentar aos melhores pitéus possui a Adega Mesquita o melhor conjunto de artistas, tais como: Estela Alves, Teresa Nunes, Mariana Silva, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Alfredo Duarte Júnior, Raúl Nery e Joaquim do Vale.»


Amália Rodrigues, Fernando Farinha e Alfredo Marceneiro




Outro grande fadista, que foi uma referência desta casa de fados, foi Fernando Farinha (1928-1988) que ali actuou durante onze anos, ganhando 250$00 por noite - o que para altura era um belíssimo ordenado -, depois de regressado do Brasil e Argentina. «Os donos viam-no como um filho e ele gostava muito daquilo, mas os contratos para sair continuavam a chover» lembrou sua mulher, Lucinda Farinha. Fernando Farinha descobre-se então como poeta e assina letras para fados que inicialmente eram musicados por Alberto Correia, Joaquim Luís Gomes, Ferrer Trindade, Carlos Dias e Artur Ribeiro.


Fernando Farinha (1928-1988)


Alfredo Marceneiro e Fernando Farinha, com Domingos Mesquita de pé



LP de 1958

Foi, em 1964, de Fernando Farinha a seguinte quadra, a propósito da famosa chispalhada da "Tia Adelina":

O «chispe» bem cozinhado
Prova, que os porcos também
Podem ser «Prato» asseado
Quando alguém os trata bem

Em 28 de Janeiro de 1969, a "Adega Mesquita" comemorava o seu 31º aniversário.



No "Diario de Lisbôa" de 28 de Janeiro de 1971


31 de Julho de 1972

Com a "Tia Adelina" e Domingos Mesquita como proprietários, a "Adega Mesquita" terá encerrado em 1972, não tendo sido um encerramento definitivo.

A seguir, publico algumas fotos, da "Adega Mesquita" - últimas que consegui - uma de 2009 e as restantes quatro de 2012, antes do seu encerramento definitivo.


2009


2012


Actualmente, aparece na internet, uma "Adega Mesquita" em Torres Vedras cuja informação comercial indicada é a seguinte:

«A empresa Adega Mesquita tem 13 anos, tendo sido constituída em 01/04/2009. A sua sede fica localizada em Torres Vedras. O capital social é de € 5000,00. Desenvolve a sua atividade principal no âmbito de Restaurantes típicos. A empresa já foi conhecida no passado como Arminda Dias & Paulo Lemos, Lda.» ...

Sem comentários: