5 de setembro de 2014

Colónia Agrícola de Pegões

A “Colónia Agrícola de Pegões” foi um projecto de colonização interna, promovido pela “Junta de Colonização Interna”, e elaborado pelos engenheiros agrónomos Mário Pereira e Henrique de Barros, entre 1937 e 1938, utilizando os terrenos pertencentes à “Herdade de Pegões Velhos”.

 

  

Esta herdade pertencia a José Rovisco Pais, que tentou instalar ali um projecto de colonização baseado no que José Maria dos Santos fez em Rio Frio, de forma a fixar a mão de obra assalariada agrícola necessária às grandes explorações da zona. Ao falecer em 1932, doou aos Hospitais Civis de Lisboa a posse da restante área. No entanto, a Junta de Colonização Interna acabou por desenvolver um projecto de fixação de colonos completamente diferente do inaugurado por Rovisco Pais.

 

A “Herdade de Pegões Velhos”, com cerca de 4.700 hectares, foi então dividida em casais agrícolas com a área média de dezoito hectares, dotados de habitação e instalações agrícolas, obras de rega e vias de comunicação. A cada casal eram cedidos onze hectares de sequeiro, quatro de vinha, um de regadio e dois de pinhal, e tinham ainda direito a receberem da parte da “Junta de Colonização Interna” uma vaca, uma vitela, uma égua, uma carroça com alfaias e um empréstimo de seis mil escudos. Estas facilidades levaram a que, a partir de 1952, cinco anos após o início das obras de transformação da herdade, 207 colonos e respectivas famílias ali se fixassem.

 

O colonato, cujo projecto arquitectónico é da autoria do arquitecto Eugénio Correia, possuía ainda outras infra-estruturas colectivas tais como escolas primárias, centros de convívio e sociais, postos médicos, albufeiras e igreja. Tendo-se constituído mais tarde, em 1958, as instalações da “Cooperativa Agrícola”.

Igreja

Igreja.1 Igreja.2

Escola primária

Escola.1 

 

                                  Assistência médica                                                       Lição de agricultura aos colonos

 

A “Junta de Colonização Interna” era um organismo com personalidade jurídica, de funcionamento e administração autónomos. Criada em 1936, incumbia-lhe a execução dos planos de colonização interna. Pelo Decreto-Lei nº 27:207, de 16 de Novembro de 1936, a “Junta de Colonização Interna”  tinha, nomeadamente, as seguintes competências: tomar conta dos terrenos que lhe foram entregues pela “Junta Autónoma das Obras de Hidráulica Agrícola”, instalando nesses casais agrícolas; promover a constituição de associações e regadios, e a instalação de Postos Agrários; efectuar o reconhecimento e estabelecer a reserva dos terrenos baldios do Estado; proceder à aquisição de terrenos para colonização; estudar o regime jurídico a que devia obedecer a concessão de glebas.

«No dia em que 100 000 ha de sequeiro forem passados a boas terras de regadio e neles se fixarem 40000 famílias de verdadeiros proprietários-lavradores ter-se-á feito obra social e política muito mais sólida do que se estabelecerem 80000 famílias de proprietários-proletários.» in: parecer da Câmara Corporativa de 1937.

Edifício da “Junta de Colonização Interna” na Rua Rodrigo da Fonseca em Lisboa

Alguns cartazes apelando à agricultura entre 1941 e 1944, da autoria de Abílio de Mattos e Silva

  

  

O primeiro ensaio de “Colonização Interna” tinha tido lugar em 1926 na “Colónia Agrícola dos Milagres”, no concelho de Leiria. A seguir, foto relativa à entrega dos primeiros quatro casais de família na “Colónia Agrícola dos Milagres” - o ministro da Agricultura, general Alves Pedrosa, o doutor Figueiroa Rego, o doutor Tiago Sales e demais convidados junto de um dos casais de família contemplados.

18 de Julho de 1926

Neste sentido, em 1946, justamente com o propósito de conjugar os vários modelos de colonização, consagra-se na lei as diferentes formas de aproveitamento dos terrenos a colonizar a cargo da “Junta de Colonização Interna”, distinguindo-se para o efeito o “casal agrícola”  e a “gleba”. O aproveitamento dos terrenos a colonizar podia assim ser feito quer através da instalação de um «casal agrícola formado por casa de habitação, com dependências adequadas à exploração rural e por terrenos com área suficiente para uma família média de cultivadores», quer pela concessão de glebas (com ou sem casa, mas consideradas complemento de salário).

 

Um pouco por todo o país, sobretudo em localidades do interior, foram-lhes atribuídos terrenos baldios e construídas habitações onde foram implantadas “colónias agrícolas”. Ponte de Lima, Paredes de Coura, Arcos de Valdevez, Monção, Montalegre, Leiria, Montijo e Cantanhede foram apenas algumas das localidades onde essa política foi implementada. Nem sempre os colonos se adaptaram e revelaram capacidade de iniciativa mas casos houve de sucesso e, recentemente, lograram ficar na posse das terras que trabalharam durante décadas. E vieram a integrar-se na vida local e criar as suas raízes.

 

Entrega de prémios a colonos

Entretanto em 1942 …

Ainda actualmente é possível identificar as referidas “colónias agrícolas”, pelos seus traços característicos como a geminação das habitações, a semelhança existente entre si e a sua organização que por vezes contemplava a igreja, a escola primária e o posto médico.

Colónia Agrícola de Martim Rei (Sabugal)

 

Bibliografia: Arquivo Nacional da Torre do Tombo; Clube de Vinhos Portugueses
Dissertação de Mestrado : “
A propriedade e os seus sujeitos: colonização interna e colónias agrícolas durante o Estado Novo” de Maria Elisa Oliveira da Silva Lopes da Silva (FCSH UNL) Nov. 2011

fotos in:  Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Arquivo Municipal de Lisboa

14 comentários:

Anónimo disse...

assim se fez portugal , assim se fez o portugal que hoje se desfaz

CP disse...

Sou neta de um Colono e de um Tratorista da junta de colonização de Santo Isidro de Pegões. Tenho um orgulho enorme na História da Terra. Bom Artigo. Parabéns

José Leite disse...

CP ...

Muito grato pelas suas amáveis palavras.

Os meus cumprimentos

José Leite

Hcatarino disse...

Sou neta de colono e orgulho-me por tudo o que foi conseguido pelos meus avós,que com muito suor e esperança conseguiram alcançar o que hoje é um património estagnado para o qual poucos olham e onde até temos uma das maiores perspectivas de futuro . ..temos as bases só temos que as manter e fazer evoluir no rumo certo por forma a não perder as memórias e bons ensinamentos .
SAnto isidro tem o que nenhuma das outras colónias teve...espaços sociais..não terá sido também esse um dos segredos para não estar aqui o abandono como outros ! As fotos são inspiradoras..também conheço o colonato do sabugal e depois de décadas continua igual, quase deserto! O da gafanha da Nazaré...as fotos são realmente inspiradoras por isso..só tenho a agradecer a quem as coloco! Adorei?

José Leite disse...

D. H Catarino

Muito agradeço as suas informações adicionais e as suas amáveis palavras.

Os meus cumprimentos

José Leite

carol2007@sapo.pt disse...

Sou filha de colono, mais propriamente do casal nº1 do nucho de Pegões Velhos, meus pais, Manuel Carvalho Azerveira e Gertrudes Quitéria Sequeira.
Sou testemunha viva do bom e do mau que aqui se passou. Amo esta terra é por opção que aqui vivo e investi nela tudo o que materialmente pude e a minha inteligência me permitiu.
Lamento muito que a Câmara Municipal de Montijo, nos seus diversos responsáveis nos tenham sempre travado o passo para certos desenvolvimentos que nos fariam
evoluir. Foco sobre isto um único ponto: porque não podem os herdeiros construir aqui as sua casa?...fica-se assim reduzido a uma população idosa porque os jovens (muitas vezes contrariados) têm que encetar as sua vida fora daqui sendo assim que vamos ficando sem a vitalidade que todas as terras precisam. Amo esta terra como se demais pode amar espero que o PDM reconsidere e veja as potencialidades que ela tem e principalmente que a não deixe destruir mas ao mesmo tempo a faça evoluir.
Obrigado Zé Leite ( uma curiosidade, é filho do Sr Leite do casal 63(?) junto da escola primária)?...
Lhe agradeço pelo facto de se dedicar a este blogue com todo este carinho quem ama esta Colónia Agrícola de Pegões está sempre no meu coração, bem haja e um grande abraço,
Quitéria Carvalho Azerveira Lobo

José Leite disse...

D. Quitéria Lobo

Muito grato pelos seu comentário e informações adicionais.

Não sou filho de quem pergunta. Sou de Lisboa e filho de lisboetas.

Fico contente por este artigo ter suscitado muito boas recordações a muita gente, como a senhora, que o leu.

É nestas alturas que sinto que o meu trabalho tem utilidade e que as horas que dedico a ele não são em vão.

Um abraço também para si.

José Leite

Anónimo disse...

Helena

Sou filha e neta de colonos de Santo Isidro.
Adoro esta terra e da paz que me transmite. Foi aqui que cresci...
Adorei o artigo, está espectacular. Obrigado Sr. José por escrever este magnifico artigo.

José Leite disse...

D. Helena

Muito agradecido pelas suas simpáticas palavras.

Os meus cumprimentos

José Leite

diogo Braz disse...

Boa noite Sr. José Leite
Muito lhe agradeço por esta publicação está linda.Sou filho dum dos colonos o que muito me orgulha.Foi com muito suor que eles conseguiram fazer daquelas terras o que hoje são.Bem haja e muito obrigado.
Diogo Brás

José Leite disse...

Caro Diogo Brás

Não tem que agradecer.

É para dar a conhecer aos mais novos e avivar a memória e fazer recordar aos mais velhos, que este blog existe.

Os meus cumprimentos

José Leite

Leonel Cantoneiro disse...

Que tremenda recordação. Levou-me aos meus tempos de rapaz. Trabalhei e vivi cerca de 40 anos em Pegões Velhos, na Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, quase uma vida. QUE TEMPOS! Alguns bem difíceis.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Parabéns pelo blog e pela partilha de conhecimento sobre a Junta de Colonização Interna e o seu trabalho em Pegões. As fotos são um legado histórico importante e muito representativas da época.
Continue a escrever sobre a memória e a história da zona.


Com os melhores cumprimentos

Pedro Santos

José Cabral disse...

Refiro-me apenas ao Colonato de Pegões que conheço bem.
É gratificante ver o bom resultado que deu o grande investimento do Estado!
Hoje é gratificante ver que estão bem, mais que remediados, com bons rendimentos, fruto também de muito trabalho.
Mas o Estado, os seus técnicos e os do Posto de Sequeiro da hoje Direcção Regional do Ribatejo e Oeste deram também uma ajuda preciosa na escolha das produções mais adaptadas.

José Cabral