Restos de Colecção: "Au Rendez-vous des Gourmets"

4 de outubro de 2026

"Au Rendez-vous des Gourmets"

A confeitaria, pastelaria, salsicharia, restaurante "Au Rendez-vous des Gourmets" foi inaugurada em 23 de Dezembro de 1896 pelo francês Pierre Gadel, na Rua do Ouro, 135 e 137, em Lisboa. Pierre Gadel tinha sido dispenseiro no "Grande Hotel Internacional", inaugurado a 10 de Outubro de 1892 e poucos anos depois redenominado de  "Avenida Palace Hotel".

23 de Dezembro de 1896


Pierre Gadel (? - 1915)


Casa de câmbios "Montenegro Chaves & C.ª, Limitada",  onde funcionou a "Au Rendez-vous des Gourmets", em foto de 1968

Nota:  não tendo sido possível obter alguma foto do exterior do "Au Rendez-vous des Gourmets", mais fotos dos últimos «inquilinos» da loja 135-137 , no final deste artigo.

Esta confeitaria vinha substituir outra que ali tinha funcionado, por muitos anos, a "Castellar & C.ª" de Manuel José Rodrigues.


"Castellar & C.ª ", em 11 de Abril de 1862

Poro ocasião da inauguração da "Au Rendez-vous des Gourmets", o jornal "Diario Illustrado", no mesmo dia, dava uma pequena nota do acontecimento:

«Chamamos a attenção dos nossos leitores para a abertura, que tem logar hoje, d'este estabelecimento, que vem preencher uma lacuna na cidade de Lisboa.
A sociedade elegante terá, d'ora ávante, onde tomar o seu chá, acompanhando-o de saborosas eguarias.
Os Gourmets poderão levar para as suas casas pratos opiparos, e a partir do dia 1 de janeiro proximo, os empregados publicos, o pessoal do commercio e outros terão onde almoçar ou lanchar economicamente, como só em Paris, nas appetitosas crêmeries se encontra.
Quem quizer manteiga pura vá ao novo estabelecimento, e o mesmo tem de fazer quem queira um prato recherché ou uma garrafa de vinho de comprovada vehice.»

1898


Muitos dos anúncios publicitários eram exclusivamente em «franciú», como este de 1900

Esta afamada casa, fornecia casamentos, baptizados, soirées, eventos sociais etc. Caso disso, a soirée que teve lugar na casa «do sr. Manoel Pinto da Fonseca, abastado capitalista do Porto.», e que publico de seguida.

22 de Março de 1903


6 de Janeiro de 1905

Outro evento, em 5 de Maio de 1907, foi fornecido pela "Au Rendez-vous des Gourmets": o casamento do ano, entre Clara Montalvo e o austríaco conde Constantin Dayan, barão de Stritaz, que teve lugar na Igreja dos Martyres, no Chiado.

Noivos, padrinho, madrinha, e núncio apostólico monsenhor Tonti, nos jardins da legação austríaca

«Depois da cerimonia e offarecido a todos os convidados um elegante «lunch» na legação da Austria, cujo «menu», primoroso, fornecido pelo «Rendoz-vous des Gourmets» é o seguinte:

Bol de consomme à la Souvaraine-Petits pains Garnis a la Francaise-Saumon à la Daumont.
Sauce Verte-Filet Mignon Henri IV, Bearnaise - Poulard du Mans a la Neva - Salade a l'Orientale - Montpensier a la Chantilly-Gateau Egyptien - Ananas a la Melba-Petits fours parisiens - Glace Gismonda - Friandises - Raisins Frais.
Vina: Bordeaux, Champagne, etc .- Cafe et Liqueurs.»

Em 8 de Julho de 1908 Pierre Gardel submeteu o registo do nome "Au Rendez-vous des Gourmets", que viria a ser concedido em 26 de Maio de 1909. 


1909

Em 14 de Dezembro de 1909 podia-se ler numa nota à imprensa da época, que depois de traduzida do francês ... «O senhor Gadel, proprietário do "Au Rendez-vous des Gourmets", de regresso de sua viagem de negócios, firmou contratos com as melhores casas de Paris, a fim de poder apresentar à sua amável clientela as suas  especialidades.
É também depositário de todos os produtos da Casa “À la Marquise de Sévigné”, de Royat.
Esses produtos serão sempre de primeira frescura, sendo expedidos pelo Sud-Express todas as semanas.
A clientela encontrará igualmente todos os gêneros alimentícios finos e variedades de queijos, como no passado.
A casa recomenda-se sobretudo pelos seus artigos para presentes e baptizados.»


23 de Dezembro de 1909

No anúncio anterior é mencionado que esta casa era "Fornecedor da Casa Real" e por isso mesmo ... mais uma referência à "Au Rendez-vous des Gourmets" em 4 de Fevereiro de 1903, desta vez não pelas melhores razões ... mas não por culpa dela ...



Excerto do extenso extracto de fornecedores e repectivos valores a pagar

Pierre Gadel viria a falecer em Junho de 1915, e a "Au Rendez-vous des Gourmets" viria a ser gerida e detida por seu filho A. Gadel

"Au Rendez-vous des Gourmets"  no guia "Reise Fher von Europa",  para 1914

Talão de compra de 30 de Abril de 1915

Não consegui saber quando terá encerrado definitivamente a "Au Rendez-vous des Gourmets", ou se terá reaberto depois do anúncio seguinte, já que a partir daqui não consegui obter mais nenhuma referência a este estabelecimento.

11 de Julho de 1924

Em 1930, Maria O'Neill no seu romance "A Víbora", referiu-se à "Au Rendez-vous des Gourmets" na seguinte passagem ... «A sua alma subleváva-se contra o facto e um espanto infantil a invadia a par dum inexplicavel terror: a estas primeiras contrariedades quantas mais se seguiriam? Afinal ergueu-se do banco, ajoelhou de novo e saiu. Dirigiu-se depois ao Rendez-vous des Gourmets, comeu alguma cousa e, comprando o Diario de Noticias, viu onde estava lausperenne. Era na igreja da Conceição Velha.»


Dentro do rectangulo a amarelo, loja onde funcionou a "Au Rendez-Vous des Gourmets", nos anos 40 do séc. XX

Muitos anos mais tarde, em 2 de Junho de 1952, na mesma morada, viria a abrir a casa de câmbios "Montenegro Chaves & C.ª, Limitada" , que tinha sido fundada no Porto em 19 de Maio de 1913. Esta sociedade constituída por Miguel Augusto Coimbra Pacheco, Joaquim Franco Canas e Francisco Franco Canas, tinha como «objecto o comércio de câmbios e papéis de crédito, ou em qualquer outro ramo que os sócios entendessem por bem explorar.» 


"Montenegro Chaves & C.ª, Limitada" 

Em Março de 1975, a banca nacional foi nacionalizada e no ano seguinte, o Decreto-Lei nº 167/76, de 01 de Março cancelou todas as autorizações concedidas às casas de câmbios para o exercício do seu comércio, com efeitos a partir de 30 de Junho desse ano. Perante a situação, em 21 de Fevereiro de 1977, a firma "Montenegro Chaves & Companhia, Limitada" deixou de excercer a actividade de cambista, concentrando-se na medalhística e numismática. Viria a encerrer definitivamente em 2014.

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)

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