Restos de Colecção: "Arcadia" - Bar Dancing

18 de agosto de 2026

"Arcadia" - Bar Dancing

O restaurante, bar e dancing “Arcadia”, localizado no antigo Palácio dos Condes de Povolide, hoje sede do “Ateneu Comercial de Lisboa”, na, então, Rua Eugénio dos Santos, em Lisboa, foi inaugurado em 5 de Fevereiro de 1932. Como refiro mais à frente o proprietário seria o anterior inquilino, a firma de automóveis “Alexandre de Mendonça Alves, Lda.”com o seu "Palace Stand".


Bar do "Arcadia" em 5 de Fevereiro de 1932

A propósito da sua inauguração o jornal “Diario de Lisbôa” informava no mesmo dia:

«Inaugurou-se  esta tarde, na Rua Eugenio dos Santos, o novo restaurante Dancing “Arcadia”, onde se realizou um chá dansante a favor da Assistencia Nacional aos Tuberculosos, que está decorrendo com grande animação e elegante concorrencia.»



Ambas as fotos do chá dançante a favor da "Assistência Nacional aos Tuberculosos" em 5 de Fevereiro de 1932

No dia seguinte, o mesmo jornal, complementava esta notícia:

«Como era de esperar, revestiu extraordinario brilhantismo e animação o “chá dansante” de caridade com que foi inaugurado ontem o novo restaurante dancing “Arcadia” na rua Eugenio dos Santos, cujo produto se destina a favor da Assistencia Nacional aos Tuberculosos. Ao som de uma eximia orquestra “jazz-band”, dansou-se, quasi sem interrupção, até perto das 8 horas da noite.»

30 de Dezembro de 1933

2 de Janeiro de 1934

Recordo que este Palácio depois de ter sido propriedade do Conde de Burnay, foi adquirido pela “Sociedade Hoteleira, Lda.” no início do século XX, e em 9 de Outubro de 1926 foi adquirido pelo “Ateneu Comercial de Lisboa”, que tinha sido fundado em 10 de Junho de 1880.

"Palácio dos Condes de Povolide", já com o “Ateneu Comercial de Lisboa” instalado

Em 5 de Março de 1928, no piso térreo do lado sul do Palácio, alugado pela firma “Alexandre de Mendonça Alves, Lda.”, inaugurou o seu "Palace Stand" de vendas dos automóveis americanos “Chevrolet”, por si importados, promovendo obras de vulto alterando a fachada do piso térreo do edifício.

Stand da firma “Alexandre de Mendonça Alves, Lda.” , em 1929

Em 1932 esta firma abandona o edifício, quando a representação da “Chevrolet” passa para a firma Dinis d’Almeida & Freitas, Lda. na Avenida da Liberdade, e o mesmo espaço é ocupado pelo restaurante, bar e dancing “Arcadia” - que presumo que a firma "Alexandre de Mendonça Alves, Lda." seria a proprietária (ver nota abaixo) -  que, como já foi referido, é inaugurado em 5 de Fevereiro de 1932, com um «chá dançante» de caridade, cuja receita reverteria em favor da “Assistência Nacional aos Tuberculosos”. Este espaço tornar-se-ia um dos lugares mais concorridos da Lisboa nocturna, complementando com os seus chás dançantes entre as 17:00 e as 19:30 horas.

Nota: a minha teoria baseia-se no facto de no "Arquivo Municipal de Lisboa", existirem pedidos de licenciamento para obras, em 7 de Abril de 1932, após da inauguração do "Arcadia", em nome da "Alexandre de Mendonça Alves, Lda.", assim como em anos posteriores. Atente-se que, inicialmente, o "Arcadia" pouco ou nada tinha alterado a decoração deixada pelo "Palace Stand" como se comprovar nas fotos anteriores a 1943.

Passagem de modelos em 7 de Julho de 1932


Chá dançante em 14 de Abril de 1934 


Cantora de tangos argentina Azuncena Maizani em 22 de Abril de 1934


Jantar de homenagem ao olisipógrafo Luís Pastor de Macedo (1901-1971) no "Arcadia", em 1935





Folheto promocional de 1940

Em 1943, ano do seu décimo aniversário, o “Arcadia” encerra para importantes obras de transformação e renovação, pelas mãos dos seus gerentes Ângelo Pereira e Manuel José de Carvalho (pastelarias "Benard", "Marques" e "Pastelaria Ingleza"), reabrindo em 27 de Dezembro de 1943. A nova decoração ficou a cargo da "Casa Jalco" de João Alcobia.

27 de Dezembro de 1943



«O amplo salão do “Arcadia” sofreu profunda transformação, apresentando hoje um aspecto de requintado bom gosto, pela harmoniosa conjugação dos lustres e dos resposteiros á restante decoração. Na verdade, não se pode imaginar, senão vendo e admirando, os benefícios introduzidos no conhecido “bar-dancing” de Lisboa, e que transformaram aquela admiravel casa, de alto a baixo, adaptando-a definitiva e convenientemente ao fim em vista.
Os gerentes, srs. Angelo Pereira e Manuel de Carvalho, receberam os numerosos convidados, que encheram, por completo, o magnifico e amplo salao, com a maior das amabilidades, ofcrecendo,lhe um «cock-tail» de honra primorosamente servido. De resto, o «Arcadia» foi posto a funcionar normalmente. As orquestras destacaram-se, em execuções de musica popular portuguesa, brasileira, «swings», canções espanholas e tangos, numa vibração constante. Primeiro, tocou a famosa orquestra «Vagabundos», aplaudida já nos maiores centros europeus e, logo a seguir, no estrado giratório - inovação interessantissima - a orquestra de Almeida Cruz, perfeita na sua interpretação.
Todos os convidados concordaram numa coisa: que o «Arcadia» se distingue na vida lisboeta, e que estão de parabens os arrojados inspiradores desta bela iniciativa, os srs. Angelo Pereira e Manuel de Carvalho, que receberam muitas felicitações pelo seu trabalho e orientação.
A' noite, o «Arcadia» registou extraordinária enchente. Apesar do salão comportar muitas mesas, não havia um lugar vago. Na pista brilhante e feericamente iluminada, bailaram e cantaram as artistas Dorita Serrano, Melly de la Plata, Manolita Piquero e Brazalema. Quere dizer, o «Arcadia» corresponde inteiramente ás exigencias da vida lisboeta, cotando-se como «bar-dancing» da maior categoria.»  in jornal “Diario de Lisbôa”




Seis fotos anteriores referentes ao "Arcadia" após as obras de remodelação de 1943

Já numa entrevista concedida pelos dois sócios, ao mesmo jornal, em 24 de Dezembro de 1943 ...

«A noticia tornou-se conhecida ha dias. O «Arcadia», após uma completa transformação, iria reabrir as suas portas para acolher, com
galantaria, a gente elegante e mundana de Lisboa.
Era verdade. Logo nos foi dado saber que este ressurgimento - porque é um «Arcadia» novo que ressurge ! - se devia á infatigavel actividade, ao tacto e a energia de homens muito conhecidos na capital e profundamente conhecedores do seu «metier», Angelo Pereira e Manuel Jose de Carvalho. 
Trata-se de dois homens que trazem a sua vida ligada a quasi tudo que, nestes últimos tempos, se tem feito em materia de «bars»,
restaurantes, pastelarias e «dancings». Angelo Pereira começou no «York Bar», a discreta «boite» da rua Serpa Pinto, a sua carreira triunfante de «barman» português de categoria internacional, estendendo mais tarde a sua acção ao doirado «Negresco», Manuel de Carvaiho multiplica-se, por sua vez, para atender as suas conhecidas casas, as mais perfeitas no país, no seu genero, a «Benard», a «Marques», a «Pastelaria Inglesa. Os dois homens completam-se. A sua natural aptidão e a sua garra são a mais bela garantia do exito desta nova iniciativa, o «Arcadia», que eles vão dirigir com mão de mestre
O «Arcadia» encontra-se irreconhecivel. Dos antigos «interiores» quasi nada ficou. Transformação profunda, do mais acentuado bom
gosto. O amplo salão dá-nos uma visão magnifica de beleza, em que a harmonia das côres se conjuga com a intensa luminosidade dos ricos candelabros de Veneza, ao mesmo tempo que um palco giratorio dá a ideia do modernismo desta transformação. Foi neste ambiente de rara distinção que encontrámos os dois referidos gerentes, que imediatamente nos afirmaram o seguinte:
-O milagre desta transformação, ou renovação, deve-se a João Alcobia, da Casa Jalco, um artista admiravel no campo da decoração
que, em pouco mais duma quinzena de dias, trabalhando dia e noite, com singular dedicação e competencia, conseguiu transformar o«Arcadia», nisto que hoje é, um «bar-dancing» que vem ocupar o lugar n.° 1 em Lisboa.
-Quando se dá a inauguração?
-Podiamos hoje mesmo abrir de par em par as portas do «Arcadia». Mas só o faremos na proxima 2ª feira, pelas 23 horas, porque que-
remos atender a todos os detalhes, no desejo de que nada falte. Nesse dia, das 18 as 20 horas, receberemos, num «cock-tail» de honra, os nossos convidados, arquitetos, artistas, representantes dos jornais e amigos.


Entrevista de Ângelo Pereira e Manuel Carvalho (de frente e da direita para a esquerda), aos jornalistas

 -O «Arcadia» conta com algumas atracções?
Manuel de Carvalho comunica-nos:
-Angelo Pereira, o meu amigo e socio, mesmo agora chegou de Madrid e Barcelona, onde contratou artistas de grande categoria.
Por sua vez, Angelo Pereira esclarece-nos:
- No estrado giratorio estarão sempre duas orquestras: Uma espanhola; outra portuguesa. A de Espanha é a celebre orquestra «Va-
gabundos», que arranquei do Palace Hotel de Madrid, a peso de oiro, conhecidissima em Paris, Viena, Berlim, Londres e noutras grandes cidades da Europa. A de Portugal é a orquestra Almeida Cruz, com uma carreira artistica verdadeiramente brilhantissima.
E a uma nossa pregunta:
-Mas vão trabalhar no «Arcadia» alguns dos mais famosos bailarinos do mundo; uma parelha de mexicanos, em bailados modernos e americanos; e magnificas bailarinas espanholas. Nós queremos dotar Lisboa do «dancing» que fazia falta á cidade.
-Projectos?
-A seu tempo serão desvendados. Vamos proceder como sempre, dando aos nossos clientes o maior conforto, comodidade, e o melhor
serviço que é possivel. Nos sabados e domingos, haverá chás-dancantes.»


Ambas as fotos da inauguração do novo "Arcadia" em 27 de Dezembro de 1943




1944


29 de Dezembro de 1948


15 de Junho de 1950

Ângelo Pereira, tinha aberto em 14 de Novembro de 1929 o York-Bar”, na rua Serpa Pinto, e em 5 de Março de 1937 o Restaurante “Negresco”, na Rua Jardim do Regedor. 

O “Arcadia” encerraria definitivamente no final de 1952. Em 1954 os irmãos galegos António e Manuel Paramés adquiriram este espaço e inauguraram em 12 de Dezembro de 1956 o Restaurante-Cervejaria “Solmar”. Acerca da história desta cervejaria consultar neste blog o seguinte link: " Cervejaria Solmar"

Último anúncio do “Arcadia”, em 20 de Dezembro de 1952

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Arquivo Nacional da Torre do TomboBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)

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