Restos de Colecção: "Photo-Velo-Club"

15 de março de 2026

"Photo-Velo-Club"

A "Photo-Velo-Cub" foi fundada em 1899 por Raul Teixeira e Jayme Ribeiro Pereira (também velocipedista), - que para tal formaram a sociedade "Raul Teixeira & Jayme Ribeiro" - e estava localizado na Rua de Sá da Bandeira, nº 232 e 234, no Porto. Este estabelecimento associava a venda de artigos para fotografia e pintura a bicicletas. A comercialização de bicicletas "Adler" (que na década seguinte já era marca de  automóveis) deveu-se ao facto de, nos finais do século XIX, verificar-se um interesse crescente na actividade velocipedista, em Portugal. Quanto à velocipedia na cidade do Porto existia o "Club Velocipedista Portuense", fundado em 9 de Março de 1880 e que em 1893 passou a "Velo-Club do Porto". Em 1894, com o desaparecimentos destas agremiações, foi fundado o "Real Velo Club do Porto".



8 de Abril de 1899


"Photo-Velo-Cub" na Rua de Sá da Bandeira

Como instrumento de propaganda publicava a revista mensal ilustrada "Boletim do Photo-Velo-Club”. O seu primeiro núnmero foi publicado em Agosto de 1899 como «Revista Mensal Illustrada de Photographia, Pintura e Bicycleta e orgão do Photo-Velo-Club". Teve 8 números, entre Agosto de 1899 e Dezembro de 1900, em que informou acerca de eventos de fotografia a nível nacional, assim como alguns apontamentos de Belas Artes, artigos de cariz técnico no campo da fotografia.

Primeiro número, em Agosto de 1899


No "Boletim Photographico" da "Worm & Rosa" de Fevereiro de 1900

Ao mesmo tempo a "Photo-Velo-Cub" crescia e gozava de grande receptividade, já que em 1901, outro novo sócio, César dos Santos vai a Paris com o propósito de adquirir automóveis para a firma. Ainda em 1900, organizou uma exposição de fotografias de amadores com o apoio de alguns dos maiores expoentes da Arte Fotográfica do Porto, como Antero de Araújo, Joaquim Damásio Bastos e Constantino Paes, e que se anunciava como a primeira de uma série «(...) de exposições que hão de agitar o nosso pequeno meio»


Frente e verso


15 de Abril de 1901

Estas iniciativas granjearam um enorme sucesso como se verifica pelos artigos que se publicam no próprio "Boletim do Photo-Velo-Club” e também no jornal portuense  "Primeiro de Janeiro". Em 1900, coloca à disposição dos amadores um «quarto escuro» (câmara escura), bem como uma escola de fotografia para a qual já contava com a participação de Domingos Alvão (1869-1946), que tinha vindo da casa "Emilio Biel & C.ª ", e que se transforma em atelier fotográfico onde se finalizavam trabalhos de amador. Não constituindo propriamente novidade, pois a "Emilio Biel & C.ª " já o fazia na década de 80 de século XVIII ou a "Photographia Guedes" desde 1898, este tipo de actividade desenvolvida no âmbito do "Photo-Velo-Club", porque mais vocacionado para o apoio aos amadores, terá obtido uma maior receptividade. Foi aqui, no "Photo-Velo-Club", que se terá consumado um dos primeiros furtos de material fotográfico ocorrido em Portugal, no valor de 150$000 réis, o que denota, quer o volume de comércio já alcançado pela firma, quer o aumento da procura que permitia encontrar um receptador para aquele material por forma a rentabilizar o produto do crime.





Em Janeiro de 1902, e por iniciativa do sócio Raul Teixeira, tendo como operador gerente Domingos do Espírito Santo Alvão, inaugura-se, agora com novas instalações, um atelier e ascola de fotografia na Rua de Santa Catharina, nº 100. Já Domingos Alvão gozava de um carinho especial por parte da imprensa e dele se diz já «(...) um operador distinto e de fina têmpera.(...)»”


Domingos do Espírito Santo Alvão (1869-1946)

Novas instalções (já como "Photographia Alvão"), na Rua de Santa Catharina, nº 100

Na "Revista Moderna" de 3 de Fevereiro de 1902, pode-se ler: Raul Teixeira «(...) abandonou as salas e atirando-se aos mares da vida... pôs uma photographia à vela! Trabalhos finamente executados, bom gosto, distinção e muita amabilidade, tudo se encontra na nova photographia do Photo-Velo-Club. À testa do novo atelier está o Domingos Alvão (...)».

As responsabilidades do atelier fotográfico foram completamente assumidas por Domingos Alvão, a partir de 1903, que, ao autonomizar-se, se passa a designar "Photographia Alvão". É também neste ano que José da Silva Pereira, ex-empregado do "Centro Photographico" assume a gerência da loja de fotografia que, em 1904, passa a "Photo Iris", com «um completo sortido para fotografia, pintura e illuminação por incandescencia». Enquanto propriedade de "Cruz Borges & C.ª", a firma também editava e vendia bilhetes postais. Em 1905, saldou a sua existência de máquinas fotográficas, com um desconto de 50%, e que também se dedicava à edição e venda de bilhetes postais.

22 de Dezembro de 1903

Não esquecer que ...

O "Photo-Velo-Club" funcionaria, assim, como trampolim de modo a que Domingos Alvão tenha instalado a sua própria casa fotográfica, que derivava, quer nas funções, quer nas instalações, dessa firma. 

«Algo controversa é, de facto, a data atribuída à fundação da Fotografia Alvão: se, derivando do Photo-Velo-Club, como se comprova nos vários artigos de jornal, nos é apontado o ano de 1903, já posteriormente, seja em publicidade da própria firma, seja em artigos de homenagem - como sucede aquando da comemoração das Bodas de Prata ou de Ouro ou em outras ocasiões” - é sempre indicada a data de 2 de Janeiro de 1902? e também acontece ver-se a data de 1901 no papel timbrado da própria firma.“ Consideramos, assim, esta última como a data da sua fundação, ainda que julguemos existir alguma confusão entre a criação deste Atelier, pertença do Photo-Velo- Club, e a da Fotografia Alvão naquelas instalações“. Tendo em conta que é Domingos Alvão quem assume a orientação daquela dependência desde o início, somos levados a crer que os contemporâneos de Alvão consideravam a fundação da Fotografia Alvão o momento em que, sob orientação do mestre, se criou o anexo do referido clube.
É curioso verificar-se que ainda em Abril de 1903 a publicidade feita ao Photo-Velo-Club na Imprensa (por exemplo: Diário da Tarde, 1.04.1903) refere, além dos outros ditos, «Atelier de Photographia - Santa Catarina, 100» e, simultaneamente, no mesmo jornal e na mesma página, os anúncios feitos à Fotografia Alvão indicam a mesma morada, sem fazer qualquer referência ao Photo-Velo-Club (a esse respeito apenas diz que tem «Laboratório especial e sala de trabalho para amadores»). Ainda com algum interesse parece-nos ser o facto deste anúncio à Fotografia Alvão, na fonte supracitada, aparecer inicialmente com o título «Alvão, photographo» e só depois de 7 de Abril se referir «Photographia Alvão», sendo, no entanto, o conteúdo dos dois igual.» (*)

De referir que em 1903, os principais ateliers fotográficos no Porto eram os seguintes: "Photographia Guedes", "Sala & Irmão Photographia", "Photo Velo-Club", "Photographia Lusitana - A. Santos", "Emílio Biel & Cª", "União - Fonseca & Companhia", "Atelier Photographico de Peixoto & Irmão".


A "Photographia Alvão" instalar-se-ia no espaço antes ocupado pelo atelier e escola de fotografia do "Photo-Velo-Club" na Rua de Santa Catarina, nº 100, quase junto do cruzamento com a Rua Passos Manuel, como se pode ver numa fotografia realizada pelo próprio Alvão e reproduzida anteriormente 

As instalações já muito antigas e o repectivo edifíco, seriam substituídos mais tarde por um novo edifício, que receberia os nº 118-120, em vez de 100. No prédio a seu lado instala-se-ia o famoso "Café Majestic". Em 1924, a "Photographia Alvão" passou a pertencer à firma "Alvão & C.ª, Sucessor Azevedo & Fernandes, Lda.", altura em que Domingos Alvão se associou a Álvaro Cardozo Azevedo, seu discípulo e companheiro de trabalho desde 1906.


Artigos Fotográficos "Alvão & C.ª, Sucessor Azevedo & Fernandes, Lda." e "Café Majestic"


1934

Após a sua morte, em 1946, a empresa continuou pela mão do seu sócio Álvaro Azevedo e, no final dos anos 70 do século XX, com a morte de Álvaro Azevedo em 23 de Novembro de 1967, a "Fotografia Alvão" foi adquirida por Arnaldo Soares, que manteve o mesmo nome.

(*) - Texto retirado de ... ver Bibliografia

Bibliografia:

"Nacionalismo e Pictorialismo na Fotografia Portuguesa na 1a metade do século XX: o caso exemplar de Domingos Alvão" - Dissertação de Mestrado em História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa - Novembro de 2000 - Filipe André Cordeiro de Figueiredo.

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Foto-Porto (Facebook), Delcampe.net

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