Restos de Colecção: Jardim Mythologico

20 de janeiro de 2025

Jardim Mythologico

O "Jardim Mythologico" abriu pela primeira vez em 11 de Junho de 1851, na Rua Direita do Calvario. O empresário do recinto era Jose Osti, com a sua firma "Jose Osti & Companhia", o «pyrothecnico da epocha», que tinha, alegadamente, introduzido a indústria dos fósforos em Portugal. A concessão do «fabrico de palitos phosphoricos» tinha-lhe sido concedida em 3 de Julho de 1843 com término em 3 de Julho de 1855.

«Em terrenos da Casa Sabugosa ou de S. Lourenço, entre o jardim contiguo ao palácio e a cerca do Convento das Flamengas, montou-se logo no meado do século passado um recinto de diversões, no género do actual Parque Mayer, intitulado Jardim Mitolőgico.
Nesse vasto jardim, fartamente iluminado, havia circo, montanha russa, cavalinhos, tiro ao alvo, casas de pasto, jogos variados, exercicios de força e ginásticos e balanças de pesar. Como elemento de grande atracçãó, queimava-se muito fogo de artifício, saído da fábrica que José Osti possuia em Alcântara.
O organizador desse divertimento foi aquele homem, italiano de nascimento, o primeiro pirotécnico da época e o introductor dos fósforos em Portugal.
Os fósforos amorfos, a que também se chamaram palitos fosfóricos, palitos para acender lume, lumes prontos ou simplesmente palitos, fizeram guerra à mecha, à isca e ao fusil e puzeram de parte os antigos palitos "espera galego", aparecidos em 1809.
Os primeiros fósforos manipulados por José Osti foram oferecidos a D. Fernando, numa caixinha dourada.» in: "Alcantara Doutros Tempos Vista de Relance" por Mário Costa (1950).

«José Osti era um italiano engenhoso e cheio de iniciativa, popularíssimo na capital que festejava e aplaudia sempre as suas habilidades pirotécnicas. Foi o primeiro que introduziu em Portugal a indústria dos fósforos, montando uma fábrica desses utilíssimos cooperadores das delícias do fumar, no sítio da Cruz de Pau.
Um dia, em julho de 1842, pegou fogo na fábrica, e os fósforos, cumprindo o seu dever, arderam todos.» in: "Depois do Terramoto" Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa,
Vol II, de Gustavo de Matos Sequeira (1917).

2 de Agosto de 1844

10 de Junho de 1851


Planta de Novembro de 1857 com o local onde funcionou o "Jardim Mythologico" (área delimitada a vermelho)


 Uma ideia aproximada do ambiente no "Jardim Mythologico". Aqui em Londres, "A ball at Vauxhall garden in London " , pintura de Isaac Robert & George Cruikshank 

Este recinto veio substituir o "Tivoli da Flor da Murta", que tinha começado a funcionar em Julho de 1835, na Rua Flor da Murta e que tinha vendido em leilão todos os seus moveis e utensílios em 1841.

25 de Julho de 1835

Em 7 de Junho de 1851 no  "A Revolução de Setembro":

«A «nova Cintra " ainda ficava longe; por isso improvisou-se outra Cintra, tão perto como é daqui a Santo Amaro, no caminho da carreira do omnibus para Belem, na quinta dos condes. de S. Lourenço. Denomina-se «Jardim Mythologico», e parece que ha já lá coisas fabulosas. Tem suas similhancas, porem muito melhoradas com o antigo «Tivoli». Ha labyrinthos, jogos, kioskes, lagos, e fogos de artificio Osti, sendo o primeiro na noite de Santo Antonio; montanha russa, para os cavalleiros treparem etc. Para complemento das recreações que naquelle bosque fabuloso se vão patentear ao publico, o Matta, o nosso Savarin, publicou hoje o seguinte cartel:
João da Matta, com casa de pasto no Caes do Sodré, tendo visto o Jardim Mythologico na rua direita do Calvario, não só lhe achou belleza, mas tambem capacidade no local, para ahi estabelecer casa de pasto, tendo bellas salas e bons gabinetes para o dito fim, e por isso annuncia aos amadores, que na quarta feira 11 do corrente mez, installará a dita casa com mesa redonda a 960 réis cada pessoa, ás quatro horas da tarde; devendo só neste dia ser por bilhetes os quaes se acharão á venda na sua casa do Caes do Sodré até á noite do dia 9. Dahi por diante haverá todos os dias de comer por lista, e quem quizer algum jantar naquelle sitio, o encommendará, nas vesperas, na sua casa do Caes do Sodré. Tambem na mesma quinta se acha um armazem de vinhos com os competentes petiscos.
A inauguração annuncia-se para domingo. Julga-se que a concorrencia será relativamente tão numerosa como a da exposiçao de Londres. Que productos de industria … não teremos de vêr neste Hyde Park da occiosidade e do janotismo?»


5 de Julho de 1851


Na revista "A Semana" de Setembro de 1851


4 de Outubro de 1851

Por outro lado, a revista "A Semana" de Agosto seguinte ...

«Pique-nique aristocratico. - O 'Jardim mythologico', continua a ser frequentado pela boa companhia, graças ao decoro e policia que os empresarios tem sabido manter, ainda nos dias e noites de maior afluencia.
O Matta, depois que regenerou a sua cosinha e copa, tem ganhado mais popularidade. O 'jardim' é um logar mui asado para ir jantar, ou, ao uso burguez. merendar. Tem por isso havido alli já muitos banquetes de nomeada.
O de quarta-feira promettia ser fallado, pelo grande numero e qualificação das pessoas. Faltaram porem muitas, e ainda assim esteve magnifico. Foi um 'lanche-dansante', que principiou ás seis horas da tarde, e acabou á meia noite. Parece que o numero das polkas, mazurkas, shottises, valsas e contradansas excedeu o dos guisados. A sala do baile (a que no diccionario do jardim mythologico se chama mansão das musas), estava vistosamente illuminada, e todo aquelle extenso vergel banhado do mais delicioso luar.
No numero dos convivas, contavam-se as sras. - duqueza da Terceira - D. M. Amalia Figueira - D. M. Ponte - Brederodes - Cantagallo - Asseca - Pinto Bastos, etc. Os srs.
- duqne da Terceira- visconde de A. Garrelt - Asseca - A. da Cunha - D. Jose Coutinho - Pinto Bastos - Lopes de Mendonça - Biester etc.»


1853


1 de Outubro de 1853


Mais uma ideia aproximada do ambiente no "Jardim Mythologico". Aqui em Paris, "Le Bal Public Élysée-Menilmontant " , pintura de Jean  Béraud 


16 de Julho de 1853

«Que seria de nós se o jardim mythologico não succedesse a S. Carlos, os banhos nas praias, aos bailes do Club, os fogos, monstros e o sol electrico ás harmonias de Donizetti, e a agua de Cintra ao caffe do Marrare? O que seria de Lisboa se esta maravilhosa invenção das exposições não viesse quebrar a furia incessante e monotona dos philarmonicos? Não se me dava de apostar que é muito menor o numero de desgraças a que a humanidade anda exposta, depois que se inventou expor methodicamente.» In: "A Semana" (Julho 1852)

Entretanto, Jose Osti inaugura em 1 de Junho de 1854, a "Floresta Egypcia" nos jardins do palácio dos Morgados de Alagoa (edificado entre 1757 e 1762), na, então, Rua Direita da Fabrica das Sedas (actual Rua da Escola Politécnica), logo a seguir ao edifício da "Real Fábrica das Sedas". Os dois recintos continuarão a funcionar em simultâneo, mas apenas até final de Setembro deste ano de 1854, altura em que encerra em definitivo o "Jardim Mythologico".

12 de Agosto de 1854

1 comentário:

PR disse...

Muito interessante!