Restos de Colecção: Garage "Panhard-Palace"

21 de novembro de 2020

Garage "Panhard-Palace"

A garage e oficina automóvel "Panhard-Palace", foi fundada pelo engenheiro Ricardo O'Neill em 1906 na Avenida da Liberdade, 87 K-N, em Lisboa, tendo para tal sido criada a firma "Ricardo O'Neill & C.ª Engenheiros". Comercializava, igualmente "Barcos Automóveis" da fábrica francesa "Tellier Fils et Gerard".



19 de Março de 1906


                                                     1906                                                                           1907

O engenheiro Ricardo O'Neill já se tinha tornado, em 1904, importador da já famosa marca de automóveis "Panhard & Levassor" e fabricada pela empresa francesa "Société Anonyme des Anciens Etablissements Panhard et Levassor", a partir do seu escritório no 2º andar do nº 128 da Rua d'El-Rei (mais tarde Rua do Comércio), em Lisboa.

17 de Outubro de 1904

Mas 14 de Março de 1903 a "Panhard & Levassor" ainda era representada pela ...


Consultar: "Garage Beauvalet"

Quando D. Jorge de Avilez - 4º Conde de Avilez -  importou para Portugal o primeiro automóvel com motor a explosão, um "Panhard & Levassor" o facto não constituiu motivo de reflexão ou de ponderação histórica. Fez história ao tornar-se cliente da casa "Panhard & Levassor", marca pioneira no panorama da indústria automobilística francesa – e, necessariamente, mundial. O próprio Conde deverá ter ignorado ou menorizado o facto de alguns meses antes se ter importado para o nosso país o primeiro veículo com motor a explosão, uma bicicleta com motor, que foi despachada na Alfândega de Lisboa em 29 de Julho de 1895. – título atribuído D. Carlos, por decreto de 29 de Outubro de 1891 - era um rico proprietário alentejano, com património distribuído por diferentes zonas do Alentejo: Portalegre, Beja, Ferreira, Santiago do Cacém, Messejana, Ourique, Mértola, Almodovar e Castro Verde e era casado com D. Maria Amália do Cabo Arce Tomás, denominada como Morgada da Apariça, figura conhecida da pequena nobreza local, a qual viria a falecer em 1898.


Conde d'Avilez no seu "Panhard & Levassor"

Passo a transcrever um excerto do livro "História do Primeiro Automóvel Entrado em Portugal" da autoria de Alfredo Duro (Ed.1953):

«Fez no passado dia 29 de Julho, cinquenta e oito anos que foi despachado na Alfândega de Lisboa o primeiro automóvel ligeiro accionado por motor de explosão: um Panhard et Levassor, comprado em segunda mão, em Paris, pelo Sr. Conde de Avilez (Jorge). Desse carro sem cavalos tem-se ocupado a imprensa através dos tempos, em artigos e simples notas, por vezes destituídas de verdade técnica e histórica. (…) Foi esse automóvel despachado na Alfândega de Lisboa, após laboriosos trabalhos de classificação para fins pautais. Despachado o veículo foi este trazido encaixotado numa galera para as oficinas de carruagens de aluguer de Joaquim Martins Areias, na rua dos Sapateiros, 151 a 153. Aberto o caixote e preparado o Panhard et Levassor a fim de seguir viagem para Santiago do Cacém, onde residia o sr. Conde de Avilez (Jorge), no respectivo depósito de combustível, como ordenava o fabricante num prospecto que acompanhava o carro, foram vazados uns tantos litros de petróleo. Porém, por muitas voltas que fossem dadas à manivela, o motor não dava sinais de vida... não roncava! Porém, substituindo o combustível, ninguém quis dar à manivela do motor com receio de uma explosão! (…) Resolveram chamar um moço de esquina (…) e após meia dúzia de voltas o motor do Panhard et Levassor começa a funcionar normalmente. Iniciou-se a viagem de Lisboa até Palmela, que decorreu sem incidentes, porém, na passagem daquela vila se não fossem os bons travões do carro e o sangue-frio do sr. Conde de Avilez (Jorge) para evitar de matar um burro, o auto ter-se-ia voltado e o condutor e passageiros não sabemos qual teria sido a sorte de todos eles! (Nota – Não foram os travões, como erradamente afirmamos, que evitaram um grande desastre mas sim o burro! Quando o Panhard descia a estrada a caminho da vila de Palmela, surgiu-lhe pela frente um burro carregado de canas que, em vez de fugir, enfrentou o automóvel e aguentou o choque. Claro, o burro morreu e o sr. Conde de Avilez (Jorge) pagou ao dono, à Família Folque de Palmela, o melhor de dezoito mil réis, quando um burro naqueles tempos custava apenas cinco mil réis! 


Portanto, foi este o primeiro acidente de viação produzido com um automóvel no nosso país. (…) A chegada do Panhard et Levassor a Santiago do Cacém constituiu um sensacional acontecimento como é de calcular. O sr. Conde de Avilez (Jorge) percorreu, com ele, todas as vilas e aldeias em redor, provocando grande pasmo e os comentários das populações e dos seus amigos. Esse célebre automóvel foi baptizado pelo povo com o nome de Gasolina. Nesse tempo não existiam mecânicos aptos para afinarem um automóvel; apenas se encontravam ferreiros e estes, quando muito, sabiam ferrar as bestas e substituir, embora mal, os veterinários na ausência destes, porque a técnica mecânica automobilística era alfabeto grego... De maneira que o Sr. Conde de Avilez (Jorge) era o «chauffeur» e o mecânico do seu Panhard, para o que tinha certa arte. Mas um dia, o Panhard teve uma panne difícil de resolver, que o imobilizou e, por isso, veio para Lisboa, entregue à Empresa Industrial Portuguesa a fim de ser devidamente reparado.»

Para se ter uma ideia do custo desta viatura, basta dizer que "Panhard & Levassor" mais barato, o de 8 cv, custaria ao tempo 6.000 FF e o de que o salário médio mensal ascenderia a 523 FF.

Lembro que o primeiro automóvel adquirido pela Casa Real foi um "Panhard & Levassor", de quatro cilindros, em 1898, numa altura em que haviam em Portugal muito poucos veículos com essas características.

"Panhard & Levassor" similar ao do Conde d'Avilez

Ainda em 1904, surgiriam na capital vários novos distribuidores para o sector automóvel: António Sarmento, que começa por distribuir a "Richard-Brazier" - que no final desse ano transitará contratualmente para a "Sociedade Portuguesa de Automóveis" - e a marca "Mors", com a qual consolidará a sua actividade; o Engº Ricardo O’Neill, que arrancará com a importante marca "Panhard & Levassor"; e finalmente, os irmãos Black, que formam a empresa "A & H. Black", situada na Rua da Boa Vista, a qual assegura a representação das marcas "Mercedes", "Brooke" e "Delahaye".

A "Panhard & Levassor", distribuída pelo Engenheiro Ricardo O’Neill, mantinha nesse ano a quota de mercado de 7,3%.


Luís O'Neill, num "Panhard" nas Caldas da Rainha em 8 de Junho de 1906


7 de Janeiro de 1910

Quanto às instalações da "Panhard-Palace" passariam para a propriedade da "Sociedade Portuguesa de Automóveis, Lda." que ali instalaria uma loja para venda de acessórios para automóveis. Já em 1908 esta empresa ficaria comas representações da "Ricardo O'Neill & C.ª Engenheiros" como se pode atestar pelo anúncio publicitário seguinte de 1908.



E para terminar, e caso esteja interessado em adquirir um exemplar, aqui fica um anúncio de 7 de Janeiro de 1910. Não garanto que ainda vá a tempo, mas pode tentar ...


3 comentários:

ricardo figueiredo disse...

O blogue está cada vez melhor! Na primeira foto de reparar na bomba de gasolina da Auto Gazo e nos anúncios da Michelin e da Mobil oil.

JF disse...

O pormenor da balança no passeio, presente na última fotografia.

Espectacular.

Ana disse...

Adoro estas histórias! Parabéns.