Restos de Colecção

1 de maio de 2022

Grande Hotel Guadiana

O "Grande Hotel Guadiana", propriedade do industrial conserveiro Manuel Ramirez, foi inaugurado na Avenida da República, em Vila Real de Santo António a 21 de Março de 1926. O seu projecto ficou a cargo do arquitecto Ernesto Korrodi (1870-1944) e datado de 1918, com a designação inicial de "Hotel de Turismo"


"Grande Hotel do Guadiana" na altura da sua abertura



Manuel Garcia Ramirez


Anúncio na primeira década do séc. XX

Para a construção do hotel, demoliu-se a cooperativa de pescas de dois andares planeada pelo Marquês de Pombal. E porque pelo Marquês? ... Vide o  excerto que publico a seguir, sobre o nascimento de Vila Real de Santo António, assim como o postal que indica o edifício em questão.


Dentro da elipse desenhada, o edifício que viria a ser demolido para dar lugar ao hotel



"Grande Hotel Guadiana" em construção


Vila Real de Santo António

Com o título "Algarve tem desde ontem um grande hotel", o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava em 22 de Março de 1926 a inauguração:

«Foi ontem inaugurado, em Vila Real de Santo António, um explendido hotel, que representa, além dum grande melhoramento, uma altíssima realização de beleza e de arte, digna de ser admirada não só por todos os algarvioa, como por todos os turistas.

Notícia da inauguração na revista "Ilustração Portuguesa" de  16 de Abril de 1926

O Grande Hotel Guadiana é, sem favor, um dos nossos mais confortaveis hoteis. Tem três andares, belos quartos, com lavatorios fixos e agua encanada, bastantes casas de banho com agua quente e fria. Todos os quartos têm janelas, donde se disfruta uma linda vista do mar. É uma obra que honra o seu proprietarios sr. Manuel Ramirez, a quem os habitantes de Vila Real prestaram uma justa e merecida homenagem.

Para comemorar a inauguração do Grande Hotel do Guadiana, foi oferecido um banquete aos representantes dos jornais de Lisboa e de Sevilha. Ao "toast", usaram da palavra, para enaltecer a obra do sr. Manuel Ramirez, os srs. Roldan e Pego; Manuel de Sousa Coutinho, que demonstrou a necessidade de se repararem as nossas estradas para assim atraírmos os turistas; (...) Jorge Noronha de Oliveira, consul de Portugal em Sevilha, que afirmou que a inauguração do Grande Hotel Guadiana o veiu tirar de embaraços, quando qualquer espanhol lhe perguntava onde havia um hotel bom.»


No dia da inauguração

A gerência do hotel foi entregue ao hoteleiro alemão Conrad Wissmann (1859-1947). Devido à participação de Portugal na Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), Conrad Wissmann foi expulso do país e todos os seus bens, que incluíam 5 hotéis, foram confiscados pelo governo português que os administrou ruinosamente. No início do século XX o “Grand Hotel Central” era sua propriedade que foi membro honorário da Sociedade de Propaganda de Portugal”. Era, também, proprietário e gerente do “Grande Hotel da Curia”, coadjuvado por seus sobrinhos hoteleiros no Grand Hotel do Bussaco”, e também proprietário do “Grande Hotel Avenida”, em Vila do Conde. 


Conrad Wissmann (1859-1947)

Após o final da Guerra, Conrad regressou a Portugal sem que lhe fossem devolvidos seus bens e arrendou ao Estado o "Grande Hotel da Curia" que fora seu. Terá sido Ernesto Korrodi (responsável pela ampliação deste hotel iniciada em 1925) que o recomendou a Manuel Ramirez, que não tinha experiência hoteleira para gerir esta nova unidade hoteleira.

Segundo notícia do jornal "Correio do Sul" de 24 de Julho de 1927 o "Grande Hotel Guadiana", com os seus 50 quartos, já se encontrava em pleno funcionamento assim como o seu sucursal o Casino-Restaurante "Peninsular" em Monte Gordo. Este Casino viria a dar lugar ao "Casino Oceano" em 1934.

Casino - Restaurante "Peninsular" de Monte Gordo

Segundo o guia "Hoteis e Pensões de Portugal" de 1939, a seguinte referência ao "Grande Hotel Guadiana" :

«O melhor e o mais confortável do Sul do País. Hotel de primeira ordem, em edifício construído para êsse fim. Situado na Avenida marginal do Rio Guadiana e defronte de Ayamonte (Espanha). Quartos com todo o confôrto moderno, tendo alguns com quarto de banho privativo. Quarto de banho em todos os andares, com água quente e fria. Descontos especiais para Famílias, Hóspedes permanentes e viajantes comerciais.  Director: C. Wissmann 

Categoria: 2ª
Quartos:   50

Preços:     
Primeiro almoço:  4$00
Almoço:    12$50
Jantar:     15$00
Diária:    Minimum: 25$00      Maximum: 60$00»

O mesmo guia referia a outra oferta hoteleira em Vila Real de Santo António:

"Café e Pensão Monumental"
"Estalagem 5 de Outubro"
Café Restaurante "As Caves do Guadiana"

O "Grande Hotel do Guadiana", encerra por volta de 1940. Em 1946 continua encerrado. O proprietário era à data Emílio Garcia Ramirez, filho de Manuel Ramirez que em carta endereçada à Câmara Municipal de Vila Real de Santa António, - conforme atesta acta da reunião camarária de 7 de Outubro de 1946 -, culpabiliza as entidades oficiais pela morosidade da reabertura do Hotel.
Em 1947 a Câmara Municipal toma a iniciativa da sua reactivação, procurando o apoio do então "Secretariado Nacional de Informação Cultura Popular e Turismo". Em 1948 é requerido pelos herdeiros de Manuel Ramirez, à Câmara Municipal, um alvará sanitário para funcionamento do Hotel.

Nos anos 60 do século XX o "Grande Hotel Guadiana" fecha as suas portas, e depois de defendida a sua demolição, são iniciadas em 1987 obras de recuperação por parte de uma entidade privada, visando a sua reabertura, que se verificará em 1992 com nova inauguração.


    


Publicidade na "Agenda Pombalina" de 1952




Interiores do hotel depois de encerrado


1950


Etiqueta de Bagagem

Devido às dificuldades financeiras dos herdeiros, o hotel encerra em Outubro de 2007, altura em que é colocado à venda pela leiloeira inglesa "Sotheby's International Realty", que efectiva a venda por 1.1 milhões de euros. Depois de um atribulado processo judicial, o hotel é expropriado e a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António propõe  a classificação de Imóvel de Interesse Municipal, que depois de rejeitado pelo IGESPAR vem a efectivar-se em 5 de Abril de 2011.



2007


2009

Em 15 de Novembro de 2018, o antigo "Grande Hotel Guadiana" reabriu as suas portas com um novo nome: "Grand House Algarve" do grupo "Relais & Châteaux". Oferece 30 quartos e suites.






Quanto à empresa conserveira "Ramirez & C.ª (Filhos) S.A.", fundada em Vila Real de Santo António em 1853, pelo pai de Manuel Ramirez, Sebastien Ramirez, como "S. Ramirez", mantem-se como a empresa de conservas de peixe mais antiga do Mundo, em laboração com a sua sede em Matosinhos. No próximo ano comemorará 170 anos .... é obra !!


Sebastian e Manuel Ramirez

20 de abril de 2022

Hospital C.U.F.

O "Hospital C.U.F.", propriedade da "Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia União Fabril e Empresas Associadas", foi inaugurado em 10 de Junho de 1945 junto à Avenida Infante Santo, entre as Travessas do Castro e do Sacramento, em Lisboa, na altura conhecida como a zona da Cova da Moura. Veio ocupar o "Palácio Sassetti" mandado construir por Carlos Augusto Bon de Souza (1830-1895) Visconde de Pernes, Comendador da Ordem de Aviz e Coronel do Exército.




"Palácio Sassetti"

Creio que este "Palácio Sassetti", terá sido comprado ou arrendado por Victor Carlos Sassetti (1850-1915), dono do "Hotel Victor" em Sintra e arrendatário do "Braganza Hotel" até 1911, cujas histórias dos mesmos poderão ser consultadas neste blog (bastando clicar nos seus nomes).

Com a morte de Alfredo da Silva em 1942, quem lhe sucedeu na gestão da "C.U.F. - Companhia União Fabril" foi D. Manuel Augusto José de Mello (1895-1966) , casado com a única filha, Amélia de Resende Dias de Oliveira da Silva, e os seus dois filhos homens, José Manuel de Mello (1927-2009) e Dr. Jorge Augusto José de Mello (1921-2013).

Este primeiro hospital privado do país, foi mandado construir por D. Manuel de Mello - com projecto do arquitecto Vasco Regaleira (1897-1968) - com a finalidade de prestar cuidados médicos aos 80 mil operários do grupo e suas famílias. 

Quanto ao panorama hospitalar público em 1945, e fazendo fé no cartaz de propaganda do "Estado Novo", desse ano ...

1945

Com o coronel Pacífico de Sousa como director e Polidor Fernandes como inspector da respectiva "Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia União Fabril e Empresas Associadas" e do hospital, a sua inauguração teve honras de Estado, com a presença do Presidente da República, general Óscar Carmona e o Ministro da Marinha Américo Thomaz em representação do Presidente do Conselho, dr. Oliveira Salazar. Os drs. Augusto Lamas e Lelo Portela ficaram, respectivamente, directores dos serviços de Cirurgia e de Medicina.


Cerimónia de inauguração

Nesse dia o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava:

«(...) representa uma importante contribuição para a solução do problema hospitalar, pois se destina não apenas aos numerosos operários e empregados daquela importante organização industrial, mas também a todos aqueles que, em tal zona, sofram qualquer acidente e necessitem de socorros urgentes.

Depois de cortar a fita simbólica, o sr. Presidente da República e a sua comitiva déram a entrada no átrio onde admiraram dois notáveis baixos relevos de mestre Leopoldo de Almeida, em que se historia a actividade hospitalar. 

No rés-do-chão, visitaram a capela e a enfermaria do Banco, onde se prestarão os socorros de urgência; no primeiro andar as salas de observação, o serviço de Medicina, a biblioteca e a casa de jantar, para a a Casa de Saúde anexa - que tem capacidade para 24 pessoas;


Hall de entrada



Painel "A Cirurgia"


Painel "A Medicina"

no segundo andar o serviço de cirurgia, com sala de operações e de esterilizações e quarto de obstetrícia; na cave a cozinha, a rouparia, a lavandaria, a copa, a despensa e o economato; e finalmente uma bela cêrca para os doentes passearem.

O hospital obedece aos mais modernos preceitos indicados para tais construções e possui a melhor aparelhagem, entre a qual há a destacar os carros isotérmicos para levar, sem arrefecer, a comida às enfermarias.»


Jardim interior do hospital

Do livro "Alfredo da Silva o Futuro como Tradição - 150 anos" da autoria de José Miguel Sardica retirei as seguintes passagens:

«Com a fundação da Caixa de Previdência e capitalizando a experiência da assistência médica (e farmacêutica) nas fábricas do Barreiro e de Alcântara surgiu o projeto, ambicioso e muito acarinhado por Alfredo da Silva, de construir um Hospital CUF.

O terreno e o edifício para o instalar foram comprados em Junho de 1941 e as obras iniciaram-se em janeiro de 1942: tratava-se do Palácio Sassetti, um edifício oitocentista com fachada principal para a Travessa do Castro, ao fundo da Avenida Infante Santo, perto do Palácio das Necessidades e, mais importante que tudo, fronteiro à zona da Avenida 24 de Julho e de Alcântara, onde ficavam os estaleiros da Rocha Conde de Óbidos e as fábricas lisboetas da CUF369. Houve quem achasse que a construção do Hospital CUF seria demasiado onerosa para a empresa. A estas reservas, Alfredo da Silva respondeu de forma lapidar: «Se as disponibilidades não chegam, então não se faz; mas, a fazer, faz-se bem. Não é sério e não é honesto tomar o compromisso de uma assistência e não a realizar conscienciosamente bem. Se se diz a um operário que o vamos operar há que dar ao cirurgião todas as condições necessárias para que o possa fazer o melhor possível. Se se diz a um operário que o vamos tratar de determinada doença há que dar ao médico que o vai tratar todos os medicamentos que a sua terapêutica possa exigir. O contrário não é sério, nem honesto, nem digno da CUF. Ou se faz e bem ou não se faz». O Hospital CUF far-se-ia, mas já não seria Alfredo da Silva a inaugurá-lo, em 1945. (...)



Capela

Oferecendo serviços de medicina e cirurgia e uma casa de saúde para internamentos e maternidade, o hospital abriu com um total de 100 camas e um quadro de pessoal de 99 membros, dos quais 13 médicos e 38 enfermeiros. A ele tinham acesso os doentes das fábricas e empresas da CUF - os primeiros foram tripulantes dos navios da Sociedade Geral com paludismo - os seus familiares e também outros utentes lisboetas, para atendimento em urgência ou para triagem e encaminhamento para outros estabelecimentos de saúde440. O Hospital CUF foi assim a primeira grande unidade de saúde privada da capital, tanto mais relevante quanto, num país acabado de sair da guerra, a assistência médica era, de acordo com a imprensa que noticiou aquela inauguração, geralmente «vexatória» e «vergonhosa». Aliás, terá sido o sucesso imediato do Hospital CUF que terá convencido o Governo salazarista a avançar para a construção do que viria a ser, no início da década de 1950, o grande Hospital central de Santa Maria.»

D. Manuel de Mello, que sofrendo da doença de Parkinson, viria a falecer no seu "Hospital C.U.F.", a 15 de Outubro de 1966, com 71 anos , a mesma idade que tinha falecido seu sogro, Alfredo da Silva.

Depois de remodelado entre 1963 e 1964 pelo arquitecto Fernando Silva (1914-1983), últimamente o hospital já designado de "C.U.F. Infante Santo Hospital",  dispunha de 19.000 m2 distribuídos por 2 edifícios: o edifício original e emblemático de 4 pisos na Travessa do Castro (edifício 1), e do outro lado da Av. Infante Santo, na Avenida Infante Santo Nº 34, o edifício mais recente com 9 pisos (edificio 2) para consultas e alguns exames. Tinha, ainda, ao seu dispor um parque de estacionamento com 40 lugares no edifício 1, com entrada pela Travessa do Sacramento.


"Hospital C.U.F."


Com a nacionalização do Grupo "C.U.F." em 1975, o "Hospital C.U.F." só regressaria à família Mello em 1998 com a aquisição da seguradora "Império", constituindo-se de imediato a "José de Mello - Saúde S.G.P.S, S.A." - holding criada pelo "Grupo José de Mello S.G.P.S", a "Fundação Amélia de Mello" e a "Farminveste, S.A." - que logo abriu a sua segunda grande unidade, o "Hospital CUF Descobertas", na nova zona oriental de Lisboa, profundamente alterada e relançada com a "Exposição Universal dos Oceanos" - a Expo’98.

  

1997

A 26 de Julho de 2020, a marca "José de Mello Saúde" deu lugar à marca única "C.U.F.".

Em 28 de Setembro de 2020, o "C.U.F. Infante Santo Hospital", estendia-se para um edifício na avenida com o mesmo nome, mudando de morada. Abria as portas do novo edifício em Alcântara que passou a designar-se "C.U.F. Tejo Hospital". Se há 77 anos tinha camas para 100 doentes e um bloco operatório, hoje são 227 camas, dez blocos operatórios e 178 gabinetes de consultas e exames.


"C.U.F. Tejo Hospital"

O antigo "Hospital C.U.F." viria a encerrar definitivamente a 26 de Novembro do mesmo ano 2020. O seu edifício está a ser transformado, desde Fevereiro de 2021 pela promotora imobiliária "Avenue" - que comprou o imóvel por 26.2 milhões de euros - num condomínio de luxo, com 87 apartamentos e de seu nome "Villa Infante" com projecto do arquitecto Frederico Valsassina.


Futura "Villa Infante"

fotos in:  Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian

10 de abril de 2022

Curiosidades Automobilísticas (32)

 


"Auto Leixões" em Matosinhos no ano de 1930


Stand da "J.J. Gonçalves, Sucrs." em 26 de Novembro de 1934


Stand e oficinas da "General Motors", na Av. da República em Vila Nova de Gaia


Exposição de carros da "General Motors"



Interior do "Stand Moderno"


Oficinas do "Stand Moderno" na esquina da Rua João Saraiva com a Rua Acácio de Paiva, em Alvalade


Preços dos automóveis "Rolls-Royce" em Portugal no ano de 1983 (para converter em Euros dividir o preço por 200,482 ...)


Oficinas da "Rolls-Royce" e "Bentley" na "C. Santos, Lda.", nas Laranjeiras em Lisboa


2 de abril de 2022

Bairro da Quinta da Calçada

O "Bairro da Quinta da Calçada" foi inaugurado em Telheiras, Lisboa, a 5 de Fevereiro de 1941, com a presença do Presidente da República, general Óscar Carmona, o Presidente do Conselho Dr. Oliveira Salazar e o Ministro das Obras Pública e Comunicações, engenheiro Duarte Pacheco.




Grupo de técnicos responsáveis pela construção, com o engenheiro Duarte Pacheco ao centro 


Localização do "Bairro da Quinta da Calçada"


"Bairro da Quinta da Calçada" em fase final de construção

«São 500 casas destinadas a substituir outras tantas barracas sórdidas que vão ser implacávelmente destruídas. São 500 lares, sem dúvida modestos, mas limpos, arejados, abrigados da intempérie, dotados das elementares comodidades, que Lisboa oferece áqueles dos seus habitantes que, menos favorecidos pela fortuna, ontem não tinham habitação digna de tal nome.» passagem do discurso do Presidente da Câmara de Lisboa engenheiro Rodrigues Carvalho, in "Diario de Lisbôa"

Exterior da casa-tipo, e seu interior nas fotos seguintes



«Atraídas pela indústria que florescia na cidade de Lisboa, muitas famílias do interior do país deixavam na década de 30 e 40 as suas casas e vinham para a capital. Aqui chegados, deparavam-se com uma realidade diferente da que haviam sonhado e as condições em que viviam eram muitas vezes precárias. Para colmatar esta situação, durante o Estado Novo, foram criadas habitações provisórias em bairros pré-fabricados, com casas de pequena dimensão que, com o decorrer do tempo e o aumento do agregado familiar, se foram degradando.

A ideia subjacente era melhorar as condições sociais e económicas das famílias de bairros de lata e estancar a expansão de barracas em redor da cidade, promovida pelo êxodo das populações do interior para as grandes cidades. Com a implantação destas medidas, nascia em 1938, na cidade de Lisboa, o primeiro bairro provisório do Estado Novo, o bairro da Quinta da Calçada que viria a durar até 1997. A história da sua implantação, constituição e desagregação está presente na memória de quem aí habitou e para preservar essa história e a de outros bairros que foram posteriormente construídos, a Câmara Municipal de Lisboa editou o álbum Lisboa o Outro Bairro - Os Provisórios do Estado Novo. Nesta recolha de história explica-se aos vindouros como era a Lisboa de outras décadas.





Centro Social, Capela, Assistência Social e Escola

O bairro da Quinta da Calçada foi criado para cerca de 500 famílias, situava-se no Campo Grande, junto à Azinhaga das Galhardas, e era feito de habitações pré-fabricadas em Lusalite, divididas em células de três, quatro e cinco dependências. A intenção era albergar a população que ocupava os bairros das Minhocas e da Bélgica, dois bairros de lata da década de trinta. Esta medida fazia parte de uma experiência de realojamento promovida pelo Estado português da altura e da edilidade alfacinha, com o intuito de agregar em habitações condignas famílias de zonas degradadas. As casas, que eram previamente mobiladas de forma estereotipada e com mobiliário simples, encontravam-se distribuídas paralelamente em relação aos arruamentos, dispunham de um pequeno terreno em frente à casa e o preço médio das rendas rondava os 30 e os 50 escudos mensais. O bairro tinha ainda infra-estruturas várias, que iam desde os edifícios escolares até ao lavadouro público, passando por escolas e uma igreja. Mas, para o bom convívio entre moradores e para a preservação das instalações, existia um regulamento interno que condicionava a vida dos moradores. Mesmo assim, quem lá morou relembra a camaradagem e os laços de amizade que se estabeleciam com a vizinhança.» texto de Maribela Freitas in jornal "Expresso".


Publicidade da "Lusalite" na "Revista Municipal" de Setembro de 1940

Outros dois bairros deste género foram construídos nas décadas de 30 e 40 do século XX:  "Bairro da Boavista" com 488 casas e inaugurado em 8 de Dezembro de 1940. Casas construídas em placas de fibrocimento fabricados pela empresa "Lusalite - Sociedade Portuguesa de Fibrocimento, S.A.R.L.", sediada na Cruz Quebrada, eram menos dispendioso e de construção mais rápida. O outro foio "Bairro das Furnas", inaugurado em 28 de Maio de 1946 - 280 fogos, de tipologias T1 a T4, revestidos exteriormente por placas de Lusalite e interiormente por fina parede de tabique.

O "Bairro da Quinta da Calçada" existiria até os anos 70 do século XX, altura em que foi construído o  novo bairro apelidado de "Bairro Fonsecas e Calçada", cuja construção foi promovida pela "Cooperativas Unidade do Povo e 25 de Abril" - em regime de autoconstrução - e que terá ocorrido entre 1977 e 1979. Foi projectado pelos arquitectos Raul Hestnes Ferreira e Gonçalo Ribeiro Telles. Apenas se construiu cerca de um terço do projecto original, «que executa um desenho urbano cuidado sobre duas decisões partilhadas com os moradores: a tipologia baseada no quarteirão e a altura média do edificado.»

"Bairro Fonsecas e Calçada" em construção

As 335 licenças de habitação apenas viriam a ser entregues em 20 de Dezembro de 2016, pelo, então, Presidente da Câmara de Lisboa, Dr. Fernando Medina ...

fotos in:  Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian