Restos de Colecção: Favrel Lisbonense

10 de outubro de 2021

Favrel Lisbonense

A "Favrel Lisbonense" foi fundada por José Netto Varella, em finais de 1891 na Rua da Rosa, em Lisboa, incluindo fábrica e loja, vindo mais tarde, após ampliação, a fazer esquina com a Rua D. Pedro V. O conjunto fábrica e loja ficava ao lado (na R. da Rosa) do edifício dos serviços administrativos e comerciais da "Litographia de Portugal".



1892

Para conhecermos um pouco da sua história e as instalações, nada melhor que transcrever um artigo publicado na revista "A Contrucção Moderna" em 10 de Junho de 1904:

«Mitos dos nossos leitores por certo que conhecem a unica fábrica do paiz, que tem o titulo que encima esta noticia. Outros, porém não terão de ella conhecimento, e é para esses que escrevemos.

A Favrel Lisbonense é uma fábrica estabelecida desde 1891, na rua da Rosa e pertencente ao honrado, activo e intelligente industrial e nosso velho amigo sr. José Netto Varella. 

A laboração da fábrica é exclusivamente para ouro, prata e alumínio, em folha e em pó, de todas as qualidades de cores, de bronzes e purpurinas, vernizes e artigos concernentes a todos os trabalhos de dourador. Agora que os trabalhos de dourador estão tão introduzidos na construcção, que até ás  cantarias decorativas exteriores, estão sendo douradas, como se poderá já vêr nalguns prédios da Avenida, especialmente na Praça Marquez de Pombal, e nas decorações interiores, especialmente nos fustes e capiteis de columnas, não deixa de ser conveniente saber-se que há um unico estabelecimento em Portugal onde se fabricam os artigos proprios para tal fim, e de onde se fornece não só o país, mas também parte do estrangeiro, pois que se exporta para Hispanha, Brazil a algumas republicas  americanas, graças á forma como está montado o estabelecimento, á pureza dos seus productos e á seriedade do seu proprietário, que tem sempre timbrado em corresponder á justa confiança que nelle tem depositado os seus clientes. 

José Netto Varella foi, durante 22 annos, gerente technico da Favrel Portuense, já extincta, e por aqui se póde calcular a grande prática que tinha adquirido no ramo industrial a que se dedicou, quando há 3 annos fundava em Lisboa a sua fábrica, que pela extincção da portuense, ficou sendo a unica do paiz. Sem concorrentes, seria talvez facil a José Netto Varella abusar da sua situação especial, para descurar os melhoramentos e até augmentaros preços, mas, consciencioso como poucos, sincero e leal, entendeu e muito bem, que o seu crédito e o da sua fábrica valem mais que o augmento de algum interesse. 

E’ curiosa uma visita á fábrica, que está sempre patente para as pessoas que desejem vê la podendo observar as curiosas operações a que se submettem os productos de ali saidos. Annexo, ha o grande deposito de ferramentas para douradores, pintores e estucadores. Olhos para imagens, em cristal, olhos para diversos animaes, de todos os tamanhos e côres ; pincéis finos, brochas, mordente, vernizes, bolo armênio, dito branco, bronze em pó, em todas as côres, tubos de tintas em côres, etc. etc., havendo uns magníficos catalogos illustrados, que se fornecem a quem os péde e nos quaes vem especificados todos os preços e qualidade dos productos da fábrica, que acaba de ser reformada e que visitamos, há pouco, surpreendidos pelo seu desenvolvimento e perfeição do fabrico, aproveitando agora a occasião, para agradecer a José Netto Varella as attenções que nos dispensou e felicita-lo por este meio, como o fizemos directamente, pelo arrojo, actividade e intelligencia como tem sabido desenvolver a industria a que se dedicou e com o que presta ao país um relevante serviço.»

Até quase ao final do século XIX não parece ter havido em Portugal fornecedores exclusivamente dedicados à produção e comércio de materiais para belas artes. A primeira companhia identificada com estas características foi a "Favrel Lisbonense". Relembro que entre 1869 e 1891, tinha sido gerente técnico da "Favrel Portuense", empresa da família fundada em 1752, que se dedicava à preparação de tintas para a indústria naval. José Varella foi para Paris aprender a arte de dourar. Regressado a Portugal estabeleceu-se no comércio de materiais para esta especialidade. O primeiro catálogo identificado desta companhia, datado de 1901, dá conta do fabrico e venda de ouro e prata, em folhas e em pó, bem como de materiais com base no alumínio. O catálogo incluía ainda olhos de cristal para imagens, vernizes, bolo arménio e utensílios para douradores. 

Capa do catálogo de 1904


Setembro de 1906

Em 1904, esta empresa publicava um novo catálogo onde já dava conta do fornecimento completo, não só para douradores, mas também para encadernadores, pintores, escultores e santeiros. Para a pintura a óleo dispunha de pincéis de pelo de gris e marta, tubos de tintas a óleo, caixas de tintas e vernizes. Nesta publicação dava-se conta que a "Favrel Lisbonense" tinha depósito no estabelecimento de Seraphim Joaquim Moraes na rua da Cedofeita, no Porto, bem como fazia envio de encomendas por correio e fornecia para revendedores. De acordo com esse mesmo catálogo, de 1904, e com outro datado entre 1913 e 1920, esta companhia vendia pincéis e tubos de tintas da marca francesa "Lefranc", de quem terá sido um dos maiores representantes em Portugal. Num catálogo-calendário de 1927, a "Favrel Lisbonense" anuncia a venda de materiais das marcas "Nipon", "Molin", "Pearlin" e "Colorin" e em 1932 ter-se-á tornado representante da companhia inglesa "Reeves & Sons". Mais tarde, representaria ainda outras marcas como a "Winsor & Newton", a "Paillard" e a "Talens", entre outras.


Com a morte de José Netto Varella a "Favrel Lisbonense" foi herdada pelas filhas, Arminda e Maria Pereira Varella,que também introduziram algumas mudanças. Mais tarde, em 1935, António Varela Gomes (neto do fundador), ficou a gerir este estabelecimento comercial, mantendo assim o negócio na família. Num  catálogo  de  1939  encontra-se um anúncio  a  novos  materiais produzidos, referindo-se a fixativos, cola branca e cola em pó de seu nome "Vulcano". Em 1950 a "Favrel Lisbonense" apresentava novos produtos entre as quais as tintas "Sabu".


1950

As telas para a pintura a óleo encontravam-se facilmente no comércio, pelo menos no final do século XIX. Exemplos, a "Papelaria Estevão Nunes & Filhos", na rua Áurea, em Lisboa, anunciava a venda de tela para pintar, até 4 metros de largura, a "La Bécarre", fundada em 20 de Maio de 1885 na Rua Nova do Almada, vendia todos os artigos para pintura artística. Ainda outro estabelecimento em Lisboa, a papelaria "Au Petit Peintre", fundada em 1909 na rua de S. Nicolau vendia telas a metro e engradadas, tintas a óleo, vernizes, pincéis e cavaletes.



"La Bécarre" na Rua Nova do Almada

21 de Outubro de 1910


Dezembro de 1930

No Porto, no largo de S. Domingos, a "Papelaria Araujo & Sobrinho" (fundada em 1829) vendia grades com telas em todas as dimensões e a "Fábrica de Augusto Gama", na rua de Santa Catarina, tinha disponíveis telas em diferentes grossuras e larguras para venda a metro e em grade. Lembro que a Araújo & Sobrinho é considerada a mais antiga do Mundo, ainda em actividade. Consultar neste blog a yua história no seguinte link: "Papelaria Araujo & Sobrinho"

Em meados da década de 90 do século XX, teve início o declínio da empresa, deixando de produzir produtos de marca própria. A fábrica, instalada no Pátio do Tijolo 17/19 (bem próximo da loja) encerrou em Dezembro de 2006, embora a loja ainda se tivesse mantido em funcionamento até 2009 altura em que a empresa foi dissolvida e liquidada e encerrada em definitivo.


1942


"Restos mortais" da "Favrel Lisbonense" em foto de 2009


No seu lugar, actualmente, uma loja de decorações no "Google Maps" em 2020

Nota: foi consultada a Dissertação para obtenção do Grau de Doutor em Conservação e Restauro do Património Especialidade em Teoria, História e Técnicas - "Materiais e Técnicas da Pintura a Óleo em Portugal (1836-1914): Estudo das fontes documentais" de Ângela Sofia Alves Ferraz - UNL - Julho de 2017.

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de Lisboa

1 comentário:

Anónimo disse...

"Restos mortais", diz bem. Comprei lá muita coisa.
Bom regresso. Até que enfim!!!
Cumprimentos,
Gonçalo.