11 de fevereiro de 2018

Music-Hall e Theatro das Variedades

Os Recreios “Music-Hall”, mais tarde “Theatro das Variedades”, instalado nas antigas instalações da Garage Beauvalet”, na Praça dos Restauradores, em Lisboa, abriu as suas portas em Novembro de 1909, sendo seu proprietário o empresário teatral António Manuel dos Santos Júnior.

Grande salão dos Recreios “Music-Hall”

O Palácio Castelo-Melhor”, localizado na Praça dos Restauradores, na fase anterior às obras introduzidas pelo Marquês da Foz, possuía o muro, visível à esquerda da foto seguinte, e que dava acesso aos jardins, onde se instalou o Circo e Teatro “Recreios Whyttoine”, inaugurados em 6 de Novembro de 1875. Mais tarde, no início do século XX, já tinha sido acrescentado um piso, no edifício das cocheiras (2ª foto).

Palácio Castello Melhor, ainda inacabado

Edifício das antigas cocheiras à esquerda na foto

No edifício das antigas cocheiras, visível na foto anterior, ainda chegou a funcionar entre 27 de Janeiro de 1889 e 29 de Dezembro de 1891, o “Grande Museu Universal Artistico Historico e Oleopatico”. No ano de 1890, chegou a chamar-se de “Grandiosa Galeria Universal Parisiense”, tendo, ainda no final do mesmo ano, voltado à antiga designação depois de retirado o termo “Oleopatico”, ou seja: “Grande Museu Universal Artistico Historico”.

Mais tarde, em 1902, o edifício das antigas cocheiras do Palácio seriam alugadas e transformadas na Garage Beauvalet”, fundada por Albert Beauvalet e propriedade da sua firma “A. Beauvalet & Cta. Engenheiros”. Parte do rés-do-chão seria cedido a um "Music-Hall", modesto e mais ou menos improvisado e que seria o primeiro de Lisboa.

Em Março de 1906, seria inaugurado um novo edifício no mesmo local, destinado à venda e reparação de automóveis “Peugeot” importados pela “Albert Beauvalet & Cª”. À inauguração estiveram presentes o Rei D. Carlos, e Armand Peugeot, fundador da marca «Peugeot» e representada por Albert Beauvalet. Acerca da história deste estabelecimento consultar neste blog o seguinte link: Garage Beauvalet”.

Postal de 1907

“Garage Beauvalet” à esquerda, na foto seguinte

“Garage Beauvalet” ao fundo, à esquerda na foto seguinte

O primeiro “Music-Hall” na lista de Casinos e Animatographos do “Almanak Democratico para 1908

Em Junho de 1909 o stand de Albert Beauvalet - já importador dos automóveis “Berliet” -  seria transferido para uma das lojas do Avenida-Palace Hotel”, na , ainda, Rua do Príncipe. No antigo edifício, instalar-se-ia o stand de exposição da “Casa Peugeot”, em Portugal, e os, recém criados, Recreios “Music-Hall”, propriedade de António Manuel dos Santos Júnior que, além de empresário dosReal Colyseu de Lisboa”, na Rua Nova da Palma, e doColyseu dos Recreios de Lisboa”, na Rua das Portas de Santo Antão, tinha ficado célebre por ter promovido a primeira sessão de animatógrafo em Portugal.

Anúncio da “Casa Peugeot” de 31 de Outubro de 1910

E «passagem do Annuario Commercial nos. 6 a 8» a que se refere o anúncio anterior

 

Acerca da abertura dos Recreios “Music-Hall” a revista “Brasil-Portugal” de 16 de Novembro de 1909, escrevia:

«Faltava a Lisboa uma casa de espectáculos onde pudesse divertir-se o povo, por preços minimos. A grande lacuna veiu preenchel-a o Music-Hall que ocupa tres vastos pavimentos no mais bello local da Avenida da Liberdade, em frente do Monumento dos Restauradores. (...)
E como não só de pão vive o homem, reputamos da maior conveniencia a exibição de espectaculos e divertimentos que as distraiam e alegrem durante as poucas horas que lhe deixa livre o trabalho quotidiano.
Sob esse ponto de vista não merece senão applausos o proprietario do Music-Halll, sr. Antonio dos Santos, que tendo apresentado em Lisboa o primeiro animatographo que appareceu, não se contentou como os louros e as louras, e no momento em que a cidade estava infectada de animatographos, vindos depois do seu, se abalançou a empreza maior, dotando Lisboa de uma ampla casa de divertimentos populares.
Com um bocadinho de vontade, de esforço e de capital, ainda não perdemos a esperança de ver transplantado para Lisboa o ... Luna Parc, de Paris»

 

 

Foi, efectivamente, António Manuel dos Santos Júnior, que chamou o electricista de Budapeste, Edwin Rousby que viria a ser o introdutor do cinema em Portugal. Tal sucedeu no Real Colyseu de Lisboa”, na Rua Nova da Palma, a 18 de Junho de 1896. O empresário que, tendo assistido à sensacional novidade em Espanha, decidiu revelar o “Animatographo” entre nós. Para cumprir a promessa, Edwin Rousby veio de Madrid, chegando a Lisboa em 15 de Junho. A apresentação do “Theatrograph” de Robert W. Paul decorreu no início da tarde do dia 18 de Junho, para a Imprensa, seguindo-se à noite a divulgação ao público. Lisboa era a oitava grande cidade europeia a alcançar tal privilégio. Para aceder à história completa do acontecimento consultar neste blog o seguinte link: Real Colyseu de Lisboa”.

13 de Maio de 1911

Criado, Inicialmente apenas como um “Music-Hall”, assim se manteve até 1 de Dezembro de 1910, altura em que, reabre como o animatógrafo “Salão Liberdade”. 

                               30 de Novembro de 1910                                                          30 de Dezembro de 1910

 

Também teria uma vida muito curta já que em 1911 se transformaria no “Theatro das Variedades”, com a estreia da revista “Pós de Perlimpimpim” de André Brun, Félix Bermudes e Ernesto Rodrigues, com música do maestro Fontes Rebello, em 12 de Maio de 1911.

Acerca da estreia desta revista o jornal “A Capital”, em 13 de Maio de 1911, tecia a seguinte critica:

«A nova revista Pó de Perlimpimpim, que hontem subiu á cena, no theatro das Variedades, não correspondeu á espectativa do publico, que esperava trabalho melhor dos srs. Ernesto Rodrigues, André Brun e Felix Bermudes, nomes ha muito consagrados, havendo no final do 1º acto, que decorreu sem uma palma, manifestações ruidosas de desagrado. (...)
O scenario é vistoso, assim como as apotheoses de Luiz salvador, que mais uma vez demonstrou o seu indiscutível valor.
A música, de Fortes Rebello, tem alguns numeros bonitos, estando a revista bem vestida.
No desempenho, salvam-se, além de Isabel pacheco, Mario Velloso, Joaquina Roda e rafaela Fons.
Enfim, o Pó de perlimpimpim, com alguns cortes e modificações, talvez se conserve no cartaz.»
Conservar-se-ia em cartaz até 5 de Agosto do mesmo ano …

12 de Maio de 1911

Na revista “Illustração Portugueza”

Em 11 de Agosto de 1911, o “Theatro das Variedades” estreava outra revista de seu nome “Peço a palavra” , que, ao contrário da anterior, «alcançou o mais extraordinario de todos os sucessos rindo o publico perdidamente desde que o panno sóbe até ao final do espectaculo.», até porque… «Se o Variedades não fôsse, presentemente, o theatro mais fresco da capital, se a revista Peço a Palavra não tivesse graça ás pilhas, se o scenario e guarda-roupa não fossem tão luxuosos e se na peça não entrassem artistas tão afamados como Alvaro Cabral e Nascimento Fernandes, decerto que não se justificavam as enchentes sucessivas que todas as noites tem este theatro».  in jornal “A Capital”.
Permaneceu em cena até 13 de Novembro de 1911 …

Final do 1º acto da revista “Peço a palavra”, com o empresário António Santos junto ao piano (à direita)

«A engraçada revista Pai Paulino» estreada em 7 de Dezembro de 1911

1911 Pai Paulino (05-01-1912)

A última revista apresentada pelo “Variedades”, foi “Ponha-lhe pápas” estreada em 10 de Fevereiro de 1912 e cuja última representação ocorreu em 6 de Março de 1912. E a ver pela crítica … «A revista Ponha-lhe pápas continua fazendo um sucesso em toda a linha no Variedades, sendo bisados muitos numeros e agradando especialmente o Fado dos mangericos, o duetto da Rosa e Amor perfeito e a cegarrega dos conspiradores, etc.
O scenario musica e guarda roupa é tudo um deslumbramento sendo digna dos maiores elogios a empresa pela forma como a peça está posta em scena.» in: “A Capital”
… foi um sucesso.

A propósito da estreia, a revista teatral “Palco” de 5 de Março de 1912 relatava o seguinte episódio:

«O Variedades tendo anunciado a sua revista Pilulas Pink, arranjo d'uma outra em 3 átos, já reprezentada no Teatro Moderno, Sem rei nem roque, viu á ultima ora a policia, entrar em cena tambem, e colaborar com os autores, João Bastos e Luis Vás, fazendo-lhes substituir o titulo pelo Ponha-lhe pápas.
Talvês a policia quizesse dizer na sua que não era d'anemia que a revista sofria, mas si de inflamação e d'aí a mudança do ... remedio.»

Cena final da revista “Ponha-lhe pápas”

Em 12 de Março de 1912 inauguram-se os espectáculos de animatografo no salão do “Variedades”. «Uma das 5 esttrelas é o film de 1:500 metros, Os milhões do criminoso, que só persi bastaria para ali chamar uma numerosa concorrencia. As sessões são permanentes.» 

             14 de Março de 1912                                   20 de Março de 1912                                 31 de Março de 1912

   

A sua última apresentação foi em 17 de Junho de 1912, após a qual encerraria definitivamente, sendo a sua estrutura de ferro e vidro, edificada por Albert Beauvalet, desmontada, para no seu lugar, e aproveitando a restante estrutura existente, se erguer o Eden Teatro que seria inaugurado em 25 de Setembro de 1914, e cuja história pode ser consultada neste blog, no seguinte link:  Cine-Teatro Eden”.

“Eden Teatro” inaugurado em 25 de Setembro de 1914

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa

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